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REVISTA BRAZILEIRA 



JORIVAL 



DE-^ 



SGIENCIAS, LETTRAS B ARTES 



DIRIGIDO 



FOR CANDIDO BAPTISTA DE OLIVEIRA 



1%'uiiiere 7. — Janeiro de 1S60 



RIO DE JANEIRO 



TYPOGKAPHIA UNIVERSAL DE LAEMMERT 



Bua dos invalidos. 61 B 









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REVISTA BRAZILEIRA 



JORNAL 



DE 



SCIENCIAS, LETTRAS E ARTES 



DIRIGIDO 



FOK 



CANDIDO BAPTISTA DE OLIVEIRA 



TOMO HI 



RIO DE JAIVEIRO 

TYPOGUAPIITA UiNIVERSAL DE LAEMMERT 

RIA DOS INVALIDOS, Gl B 

1800 



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K.-ii. \i,i:\. i)K ihmuoi.dt 

N6 u Bciliii. le 14 st'pleinlire nett. — .Mori (l;iiis hi iiiriiir villc. If (i niiii IK.'i't 



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BOTANIC! 



EXERCICIOS BOTAIMCOS 



9* MEMORIA. 

TERATOLOGIA VEGETAL. 

EXposivuo tie «3uMS forina«i de nionstriiosidades oh- 
servmlaii no iiosjo inillio conkiiiuni (Xea jVIahIz). 

Sabe-sc que cada pe de milho termina por uni penddo 
de flures masculinas , e Icin em uma , duas, ou mais axil- 
las de suas folhas outras laiitas espigas envolvidas em 
urn certo nunicro de pallins , e coiUendo somente fl6res 
femininas. 

As flores masculinas sao sustenladas por um pedunculo 
ramoso, formando uma verdadeira ])a/i/c<^/a , destituida do 
envoltorios ; as femininas en contrario estao reunidas sobre 
um grosso sabiigo , dispostas em numero de doze ou qua- 
torze series longitudinacs, c so tern fora de suas capas os 
cabellos, ou stigmas. 

Esta ordem natural, e admiravel , por que ficam assim 
assementes, cujos tcgunientos proprios sao curtos, prote- 
gidas contra os alaques dos animaes granivoros, e algumas 
vezes perturbada, e por diversos modes. 

Dous cases desta nalureza , assaz differente um do outro, 
cbegaram ao meu conhecimento ; e enlendi que elles me- 
rociam ser-vos apresenlados. 



4 RE VISTA urazileira. 

Urn esla bosqucjado na Figura 1^; e devo a occasiao de 
Icr obscrvado a bondade do Ex.™° Sr. conselheiro Paulo 
Barbosa da Silva, que considerando-o objocto digno de 
esludo , me fez delle presente. 

E urn ramo axillar de um pe de niiUio, que, alAm dello, 
tinha seu pendao , e espiga naluraes. Aqui a indorescencia 
so compunha de uma pequena panicula do florcs mascn- 
linas, e de uma sortc de espiga onde se acham promiscna- 
menle llores masculinas, e femininas, ou antes ja fruclos 
perfeitos. Esta intlorescencia sahia de uma brdcfca ou es- 
patha , que 6 constituida so pela bainba de uma folha do 
limbo abortado , abaixo da qual se ve onlra folha , com 
bainba larga, e limbo quasi em rudimenlo; emfim , mais 
abaixo , oulra folha se moslra completamcnle desenvolvida. 
eslado deslas tres folhas manifcsta bcm (o que alias e j;i 
sabido) que as palhas, que cobrem a espiga de milho, sao 
asbainhas de um certo numero de folhas, accumuladas, polo 
encurtamenlo de seus merithallos, na base, e em roda da es- 
piga, ou massaroca, fazendo-se largas para bem a abrafarem. 
oulro caso e representado na Figura ^2."^ 
fi tambem um ramo lateral, tirado dc um pe de milho, 
que possnia a sua bandeira de llures masculinas. Eslc me 
foi mandado por men mano Manoel Freire , que o colhcu 
cm seu silio do Guandii, em 1844. 

Temos agora uma espiga de florcs femininas, cuja cvo- 
lucao foi perlurbada e desviada do sen oslado normal. 
sabugo ou eixo da espiga foi subslituido por um [)cdnnculo 
ramoso , bem analogo ao da panicnla mascnlina ; com 20 
ramos , nos quaes as florcs , ou ja os fruclos , cslao cm sua 
ordem natural ; mas scmpre do lado cxlorno dc cada um 
dos ramos. As folhas , cnjas bainhas de\ iam formar o en- 
volucro da espiga, alii cslao , conservando os seus limbos, 
com as bainhas ampliadas, e afastadas umas das oulras pelo 
aloncamcnto dc seus merithallos. 





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TERATOLQGIA VEGETAL. 5 

Desle faclo se coiiclue claramciitc quo a chamada espiga 
de milho e em sua origem o rcsuUado da reuniao e coales- 
cencia dos ramos de iima panicula do. llurcs femininas. E 
provavel (|uc da panicula origiaaria iiem todos os ramos 
vinguem; e que sogundo a malbr, ou mcnor forca da ve- 
getacao , maior, ou menor nuuiero delles concorram na for- 
magao da espiga. Com elTeito , ncsta panicula anormal de 
fl6res femiuinas , contei 20 ramos , cada qual com duas fi- 
Iciras de graos , o que daria em uma espiga 40 series ; mas 
em muilas que observei, achei sempre 12 e 14. 

Nestes dous cases , que acabo resumidamente do expor, 
as anomalias se dao s j quanto aindorescencia, no mais as 
llures uni-sexuaes se achavam rcgularmcnte constituidas;e as 
femininas eram todas fecundas, como mostram os dous es- 
boQos , que acompanham este peqiieno trabalho. 

Ha ja muilo lempo que estes factos foram por mim obser- 
vados, e mui superficialmente estudados. Nessa occasiao 
alargnei-me em consideraQocs , suggcridas por essas aberra- 
goes, a respcito da fixidade, ou mutabilidade do typo vegetal ; 
da inlluencia da coliura , etc. , etc. ; mas nao me animo a 
aprescntal-as lioje : se tiver ainda occasiao de rever com 
mais cnidado este assumpto, lalvcz que entao me resolva 
a fazel-o. 

Maio de lSo7. 

Francisco Freire Alli^.mao. 



6 REVISTA BISAZILEIRA. 

Ausinalias nn iuflorescejtcia ilo inilSio Zea iVInliiz.- 

J Addilami-nto a nicinoria liila iia Socicdade \'i'llosiani iia scssSn de i de .Tuiiho de 1847) 

Dcpois que live a lionra de fazer-vos a exposicao do 
dous casos do tcratologia vogclal , observados nas fiorc? da 
milho, oulro mais sc ine otTercccu, talvez ainda mais curioso 
que aqiiellos, c sc aclia representado no dcsenho junto. 

Aqui se v6, no centro , iima vcrdadeira espiga, lal qr.al 
se observa na planta hem coiiformada : tern esta espiga dez 
scries de graos, isto e, cinco ramos da panicula, que en- 
tram na sua forma^ao ; pois que em cada ramo sao as tlorcs 
dispostns diias a duas collateralmentc : um desses ramos 
excedeu OS outrosobra de 3 a 4 poliegadas, e nessa parte 
excedentc as fl6res estao separadas, e misturadas mascu- 
linas, e fcmininas , como uos outros ramos inferioros desta 
anomala intlorescencia , os quaes, em numero dc seis, lem 
as flores masculinas mais uumerosas, e dcsacnmpanhadas 
de fcmininas para a extremidade , e para a base e maior 
numero das femininas, as quaes csla:> sempre acompa- 
nhadas de utna cspicula masculina. 

Os ramos da panicula nia=culina, no estado natural, icm 
as fl6res dispostas, cm cada dcnte , em duas esiticulas col- 
lateraes, ambas bifloras , uma dellas rente, e a outra pe- 
dunculada : sao tambcm , nas espigas femininas , bem con- 
formadas, dispostas as fl6res em cada ramo, dos quo 
reunidos conslituem a espiga, em cspiculas billoras , colla- 
leraes , ambas rentes , c sempre unilloras. 

No caso da anomalia, (|ue ora apicseulo, as lloics fcmi- 
ninas , que se acbam interpostas nos ramos da panicula 
masculina , occupam semi>re o lugar da espicula uiasculiua 
rente, e formaiu es[ticulas uiiitloras. 

No ca-;o i»rcsenlc, a auomalia cousiste na promiscuidade; 



ANOMALIAS NA INFLORESCENCIA DO MILHO. 7 

das duas paniculas , rnasculina e feminina, que no estado 
natural sao separadas; ou o que vem a ser o mcsmo, em 
estarem misturadas flores dos dous sexos na niesnia panicula : 
e inais em ser a espiga feminina superior a panicula rnas- 
culina: e emfim, em ser toda a inflorescencia descoberta , e 
sem as largas bracteas, que, no estado natural, envolvem 
a espiga seniiniferj, 

ramo que faz o objecto deste estudo me foi mandado 
estando as tl6res masculinas ja sem estames, e as femininas 
sem stigmas , que provavelmente aqui nao seriam tiio com- 
pridos , como quando as fl6res eslao cobcrtas : todas as se- 
mentes eslavam destruidas , por Ihes faltarem as palhas 
protectoras. 

Tendo agora dado mais attcnc^ao a esle objecto , vejo que 
estas Irregularidades , ou perturbagoes de intlorcscencia sao 
mui communs, e mni variadas no milho. Querera isto dizer 
que OS caracteres especificos neste vegetal nao tem ainda 
tornado bastante estabilidade ? Nao sei. 

Rio de Janeiro, 24 de Janeiro de 1859. 

Francisco Freire Allemao. 



8 REVISTA BRAZlLliJRA. 

5<^ MEMORIA. 

Algrunias eousidera^ues, e al:$uii<^ factns iiovojs;, c»u- 
cerneiites a estrnctura da flor, e I'rticto «la Eiubaiba 
— Ceeropla peltata (*). 

Entre os diversos ensaios de anatomia iijicroscopica , com 
que me entretive neste anno do 4852, se aclia o em que 
descobri o phenomeno singular, que se passa nas flures mas- 
culinas da embaiba. Nesta planta se observa que , na cpoca 
de fecundaQao , os amentiihos masculines estao cobertos de 
antheras , suspensas por dclicadissimos fios , que se tomam 
logo por verdadeiros filetes. Exaninados porem com attenc-ao, 
e desde antes que as flores se abram, se reconhece o engano. 
Coin cffeito , as antheras sao aqnl rigorosamente inclusas ; 
mas , na occasiao em que ellas tern de servir para a fecun- 
darao, se despegam dos filamcntos, ficando todavia presas 
a dies, pelos fios de suas traclieas, que se dcsenrolatn , 
sem se quebrarem , e as retcm suspensas fora do perigonio» 
que as cxpellc, 

Este facto assaz curioso me parcce intciramente novo , 
e desconhecido na sciencia. mecanismo pelo qual o peri- 
gonio lanrafora, e como ((uc cospe as antheras, seria de 
interessante estudo. Ainda alguma cousa digna de notar-sc 
nos offerecem as antheras : tern ellas nas extremidades in- 
feriores de cada uma de suas cellulas uma bolinha de ccrla 
substancia grumosa, c pegajosa, semclhante a uma glandula, 
as quaes parccem dcstinadas a grudar , e reter a anthera no 
cume do perigonio , apenas ella sahe fura , para que se nao 
rompam os fios tracheacs antes da emissao do pollen ; depois 
disso seccam, e as antheras se despegam e ficam penduradas, 
• e vacillantes. 

(•) Ceciopia adcnopus, Mart. 





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ESTRUCTURA DA FLOR E FRUCTU DA EMBAIRA. 

Como jiilgo ser isto materia digria do scr levada ao co- 
nhccimeuto dos sa])ios , porei aqui em latim uma resumida 
dcscripcao das lloresda liossa ci«baibeira commum, cecropia 
peltata de Yell, 

Caractei'cs, phcmomcnaqne singularia florum cecropiw 
peltaUc , succhiU expouli. 

« Flures divici circa amcnla cylindrica sessiles densissime 
« et perpendiculariter inseiti. Masculorum perigijiiiuni car- 
« nosiim, obconicutn, obtusiim, ore tumido transverse fisso, 
« extus, exceptis apice ctbasi, laniiginc densa alba, ves- 
« tituiii , per quam alia cum aliis arete coli^rent : (llameiita 
« labiis perigouii opposila, brevia , complanala; fundo ca- 
« vitatis inlixa : antber^c , ope conncctivi dorsalis evanidi, 
« mediliXcC, introrsie , inclusic, sub anUiesi a lilamenlis 
« sejunctaj , et foras ejectoe ; primum vero , per corpuscula 
« glauduleformia, gkitinosa, ad basin singuUe eariim celluicC 
« sila , parte calva perigonii adh^ereiit usque ad emmis- 
« sionem pollinis; id facto, siccatis illis, iilis tracliearum 
« resolulis suspenSeC, et vacillantes restant. Perigonium 
« foeminarom id ac masculorum , ore tantnrii brevissima 
« fissura, more pori, aperlo : stamina sterilia nulla: ovarium 
<t ovatum, seu abovatum, medio s:e,)e parce contractum : 
« stigma peltatum , pilis collectoribus radiatim circumdatum, 
« a brevi incluso que stilo sustentum , et foris cxpansum. » 

Mais outro facto , que nao 6 para desprezar-se, apreseula 
a intlorescencia dcsta planta , c que pode escapar ao obser- 
vador nao prevenido. 

Na especic , de que me occupo , sao os ramos lloraes com- 
postosdeum pedunculo commum de algumas pollegadas de 
comprimento , e de cujo topo procedeni quatro ameulillios 
quasi rentes, grossos como um dedo, e com quatro a cinco 
pollegadas de comprido. Eutre ellcs, assenladas lambem 



10 REVISTA CP.AZILEIRA. 

sobrc lupo do pcdunculo , se acliam disposlas cm seric 
trcs florinhas, renles, com apparencia de glandulas mas- 
culinas, no ramo masciilino, e femininas no do mesmo 
sexo: deslas, algumas chegam a fecundar-se, e dao um 
fructo mal medrado. 

Na base do pcciolo das folhas dcsta cecropia se acliam 
pellos accumulados pela parte inferior , e tao densamente 
unidos entre si , que formam uma sorte de escova , ou cal- 
losidade avelludada, e de uma linda c6r roxa : esses pellos 
sao articulados , e quasi diaphanos , vistos separadamente 
ao microscopio. 

Esla memoria, que foi feita, e lida aqui em Agosto de 
1852, era cnlao mais longa, e conlinha delalhes , que a pu- 
blicaoao do Fasciculo 12 da Flora Brnsilicnsis de Martius 
tornou inuteis , e por isso as supprimi. A niinha len^-ao era 
refazer toda a memoria , a vista daquella obra ; mas naa 
lenho agora tempo para isso. 

Uio dc Janeiro, 1"J de Janeiro do 1850. 

Francisco FuiiiHE Alllmao. 

Explica;ao das Figures. 

Fig. 1. — Flur masculina do lamauho natural , fecliada. 

» "2. — A mesma , inuilo aiigmeiilada. 

» 3. — A prea'denlc , |»arli(la loiigitudiuabnenle. 

» 4.~Eslaiiie, vislo de lado. 

» 5.— mesmo, vislo de frenic , c com a aiitlicra sc- 
parada do filelc , e pi'csa pclas Iraclieas (a) 
aiilhcra — {h) (ilrtc — (r;) traclicas — [d] cor- 
pusculos glaiiduliformes, gUilinosos. 

• '''.— A mesma llnr com aiithera<, ja dc fora, e dcpois 
da omiisfio do |>ollcii. 

» 7. — A mesma , [)arlida. 

» 8. — Filclo , vi:=;ti) ao niicroscoi»it>. 



ESmiCTinA DA FLOR E FRUCTO DA EMBAIUA. 4 I 

Fig. 0. — IVdimciilo flunil fotnlni'.io , vislo com as propor- 
cijcs naliiracs, (a a a a) base dos amenlillios , 
que foram cortados, [b] trcs flures feminiiias. 

» 10. — Uma das tlorcs precedentes , augmentada. 

. 11. — A mesma, pallida. 

» 12. — Uma flOr masculiiia, do um ramo floral niascu- 
lino , an;^meiUada. 

► 13. — A incsma , parlida. 

* I'l. — Porrao inferior do peciolo de uma folha , com a 
sua escova de pcllos arliculados, unidos dcnsa- 
menle, e loniaiido uuiacorroxa. 

» 45. — Um desses pcllos, vislo ao microscopio. 



SOCIEDADE VELLOSIAM 



Belatorts sobre iiiua menioria eniiatla tlo Para |ieIo 
sen auior o Ui*. FraiicUeu da Silva Castro, por Ma- 
itocl'Frcire Alleiiiao. 

A incnioi'la, que a Socicdadc Vellosiana offerccc o Sr. 
Francisco daSilva Caslro , bcm conliecido medico paraensc, 
versa sohro a analyse phytographica c demonslracao das 
propriedados alcxitcrias de unia herva , communissima na 
provincia do Amazonas; pois cresce de iialio pclas estradas 
dacapilal, por lodo o terreno lavradio do arredor, nasro- 
gadas, campinas, nos ribetes dos terreiros , etc.; e e mui 
conhecida noAcani, Gnama , Barcarena , Cameta, etc. Cha- 
mam-na boiaca/i, nonie tiipi , que devera conservar o Dr. 
Caslro, e por elle posposto ao de herva do Paracary , pela 
razao de haver abandancia della nas terras ribciras do lago 
de tal nomo : e conhecida tambem pclos de S. Pedro caa , 
horlolfia do campo on do mato. Hoiacaa , herva da cobra, 
signilica o sen unico uso mencionado pelo A. da memoria , 
de alexipharmaco preslimoso. Piesulla dadescripcao botanica 
feita no traballio , que analyso , como acerladamente jnlga 
proprio alitor, que a l)Oiacaa perlenco a uma espccie das 
labiadas, a qiial nao poderiainos delerminar somcnte pclos 
caracleres tornados (de faniilia] , se nao viera acoinpanhada 
a memoria de um dcscnlio da planla viva c de amostras 
seccas (nao ni'as confiaram). Hasla leve re[)aro a ligura para 
sentiraprobabil.dade de perlenccr essa labiada ao grande 
gcncro A///)/ts , cpie entre outros subgeneros, aliarca os da.s 
espccies indevidamente conslituidas em novos gencros — 



COIAGAA , OU IlKUVA HO PARACARY. 1 3 

vmrsypianthcs , peUoclon , eriope — seccoes do pnmciro. Os 
caracteres tornados pelo A., c os que tiramos do descnlio , 
convem a hyptiii chdmmdiis, Wild. , a quo o l>cncmerilo 
Martins, ao constituir o seu — gen. marsypiaiilhcs — deii 
primciro o nome especifico secundi flora !cai'acter inconslaiUe 
iia cspecie ,' e que aprescnta o desenho da boiacaa] , depois 
de hyptokles. E pois a manypinnthcs hyptoidcs dc Martius 
OU a liyplis chanucdris de Wildenou , que cliamam no Para 
hoiacad, ou herva da cobra, c que lanto preconisa na sua 
memoria o Dr. Castro, como tonico alcxitcrio. Suppoe (duvi- 
dando) oA., que seja ella a mesnia hortelda do mato da 
nossa provjncia, cUnopodinm. rcpens de Fr. Velloso , peltodon 
(hyplis) radicans. Esta cspecie e hem distincta da labiada 
do Para, que nem pertence ao subgenero peltodon hem co- 
nhecido pelo renriate singular de sens denies calicinos. Supp^ic 
ainda o A. , e ao certo entao , que haja sido descripta a boia- 
caa pelos celebres naluralistas Pison e Margraw; c affirma, 
que a caatid ou caacicd delles e a labiada da sua memoria. 
Ora, mesmo no Rio de Janeiro, tern o nome de caatia (con- 
sultcm texto da Flora Fluminense] a berva de Santa Luzia 
— euphorbia brasUicnsh, Lamarckenph. opiitiialmica Persoon. 
Pison comparou a sua caatia as esiilas ou euphorbias ; e 
Margraw, scmpre mais exacto que o seu coliaborador , miii 
decididamcnte cxpressou-se sobrc o succo leitoso da caatia , 
scmelliante ao das euphorbias. Atom disto , a cor carrcgada 
e triste da caacicd (vejam as descripr.oes dos citados nalura- 
listas), OS seus tales avermelhados, as suas hasteas rasteiras, 
alaslradoras e humifnsas , as flores umbrcUadas e pcqueninas 
— moslram , que nem ha identidade especifica , neni gene- 
rica entre a boiacaa do Para (labiada) , e a caatia dos dous 
naluralistas (euphorbiacea). 

A scgunda parte da memoria contem a demonstragao dos 
uses da boiacaa, limilados, quanto conhece o A. , ao em- 
prego dc propriedades cordiaes e alcxiterias nos casos 



1-4 r.F.visTA ]!U.\ziu:inA. 

fie inrccrao ptxonhonla por mordcdiira do cascaveis oti tan- 
gcilores, picadas dc cai'ias, etc. Ao Sr. A, F. Pcreira da 
Cosla, moradoi- as ribrs do lago Paracaiv, devcii o Dr. Castro 
a primcira nolicia da boiacaa : « Scndo as margeiis dessc 
<< lago, diz esle, e os cainpos imnicdialos inui forleis dc 
« cobras venonosas , particularrnenle das cascaveis on lan- 
<< gedorcs , boia-ciningas e de iacruariis (jacarc-aru ? ), replis 
« da classe dos saurens , raro era o din , em (jue o Sr. Costa 
<( nao vissc combale cnlre animaes deslcs dous generos. 
<{ Xotava constantcmente , que depois de algiim tempo de 
« liila,fngia, ferido , o jacriiani ; e levava-o o inslinclo a 
« procnrara berva do Paracavy; comia algiimas folbas, e 
^ promnnia-se dcsfarte contra a po^^onba inoculada na occa- 
« siao da briga. Depois de restaurado , vollava o rr*ptd ao 
«• combate ; e se novas feridas rcccbia, ontra vezprocurava 
« contraveneno. » 

Dahi a inducc'io da ulilidadc do novo antidoLo cm todos 
OS casos de Inoculacrio peconhenta. Sr. Costa vulgarison 
emprego da boiacar'i , antes esqiiecida (]ue dcsconliccida ; 
pois Indica-lbc o nome o mesmo desde ba mnito conhecido 
uso, que das outras hervas da cobra. 

Qnanto a elTicacia deste ora preconisado anlidoto das pc- 
ronhas de animaes maUgnos , eis o que sei dizer. Os re- 
nicdios, cmpregados empiricamente pelos naturaes das terras 
serpenliferas , contra os eiTcilos da inocularTio dos virus na- 
turaes ou pcconbas, pertencem a (bias classes : on sao validos 
evacuantes , que rcmoinba-n todos os nossos liumores , 
affectam simultaneamenle todos os nossos orgaos de um 
movimento evacuatorio de eliminacao , e por crise fonni- 
davcl cxpurgam a materia prima da peronba inoculada (pa- 
radoxo insupportavel na passada era do solidismo exclnsivo, 
naturalissimo, ora que renascem vivillcados pela cliimica 
physiologica os l)ons principios da contraria doutrina); a 
raiz preta ou rnn-inrn , a famosa senega da Virginia , sao 



lioiACAA , or JIEHVA T)0 rAiucAuy. 15 

lypos deslft genoro: un sao siihslaiicias iievrosllicnicas, cor- 
diaes, amargas e aromalicas, snbalsarnicas, elheroleifcras, 
que, seni cvocar cvaciiar ao humoral algunia, firmain a capa- 
cidade cnergclica vital , produzcm estabilidadc de vigor — 
capacidade de obiar — no systcma animal , c se fazcm as 
suas forgas da maligna imprcssao da, pcQonlia ; as mikanids , 
milumes, caa-pebas , o guaco, a ayapana , as piperaccas 
frjlgrantes , etc. , sao deste seguiido genero. Se aos alcxi- 
terios do primeiro, que seriam os genuinos no rigor do 
lermo e pelo nosso modo de Ihes entender a operarao , mor 
confianca deveramos prestar , por serem snmmaracnte in- 
ctsivos, de grande alcance , e obrarein profiindamentc , de- 
partindo os humores eonlaminados e evacuaiido-os n'um 
tnmulto admiravel do movimontos organicos salulares (V. as 
observagoesde Martins sobre a cainca) , lamanha corilcnrrio 
das forcas vivas exigeni esses actos de verdadeira crise, 
que so as robustas constituigues (como as dos nossos indios 
«ram) , tem capacidade de alnrar tao intenso labor em todo 
organismo , lao anciados e afadigantes vomitos e perdas 
alvinas , tao ditTiceis snores e abundanle diuresc. Pelo con- 
trario os alexiterios cordiaes convem a todos : e nas com- 
pleicoes fracas e franzinas dos nervosos e nimiamente irri- 
taveis , sao estes brandos agentes o unico recurso do medico 
em caso de infecgao pegonhenta. li a este segundo genero , 
que percence a boiacad : nao por propriedade , que Ihe seja 
especial — c valha como descoberta importante o seu conlie- 
cimento ; mas por qualidade commum as outras plantas da 
niesma familia , e a muitas especies do mesmo genero hjjptis, 

Deve ter a boiacad todas as propricdades , mui bem co- 
nhecidas, das labiadas aromalicas ; e supprir nos sitios, onde 
abunde , muitas plantas medicinaes exoticas da sua ordem. 

Termina o autor da memoria indicando o modo de admi- 
nislrar a boiacad nos casos de inociilagao pegonhenta : que 
e (como sabcmos usar-se geralmenle no Brazil com todas as 



10 REVI5TA nP.AZILElP.A. 

liorvas e raizes angiiifugas) o iiso interno do succo cxpresso 

da pianta frcsca — e applicacao de cataplasmas feitas do 

buroso a parte ferida. Apresenta duas notas de ohservacoes 

snas : uma de picada do caua , niim dos dedos da mao ; outra 

de ferradatle arraia, tratadas e levadas a bomfim por aquelle 

modo. Remala pcrpunlando se, nanevrose gravissima,pro- 

cedente da inoculacao do virus rabico , nao seria proficienlo 

a boiacad, como antidotal? A incurabilidade confcssada da 

bydropbobia virulenta faculta ao medico toda a sorte de cx- 

perimentos, que possam surtir a descoberta do precioso 

rcmedio de tao grande inal. cmprego da boiacan narau'a 

seria innocente ; mas , com toda a probabibdade improficuo. 

Eis, mcussenbores, um relatorio, em rpie acbais, vus 

membros de uma sociedade de historia natural , muito mais 

medicina, do que talvcz devera abi estar, c mais medicina, 

que outra cousa. E porque a mcmoria , que analysci , pelo 

sen objecto, melhor coubera o ser considerada por uma 

sociedade de medicina, que de bisloria natural. Entrctanto 

sen A. bem mercceu da sociedade, esforgando-se por fazcr 

conbecer uma pianta prcstimosa da sua provincia , c por 

aucrmentar os recursos da medicina nesscs casos de incertcza 

e desespero, cuja natureza e indole estao ainda tao imper- 

feitamente estuiladas. Medico na provincia mais rica de pro- 

ductos naturacs do nosso Brazil, e dedicado a sciencia , o 

Dr. Castro , por sens estudos c pelas remessas de amoslras, 

sobretudo de plantas medicinacs c induslriaes, de que ha 

tantas ainda nao conbecidas la, pudc, como membro da nossa 

sociedade, prestar bons scrviQos a ella c ao sou paiz , c cou- 

correr muito para o adiantamento da nossa historia natural. 

Proponho pois que se mande arcbivar a mcmoria ; c que scja 

nomcado o aulor membro correspondcntc da Sociedade Vcl- 

losiana,na provincia do Para. 

Janeiro de 1850. 

FnEiHF. Allf.m.*o. 



mSECTOLOGIA 






I 



Qucm nao conheccr o iiitcressc que apresenta o estudo dos 
animaes , e m6rnienlG o dos scus habitos e meios de exis- 
lencia, ficara por certo sorprendido que sc pudesse escrever 
urn volume sobre as formigas. 

Neste vasto theatro da iiaturezasomos pcla mor parte como 
menino que pela primeira vez fosse conduzido a uma 
galeria de quadros : seriam seus olhos impressionados pelo 
esplendor e variedade das c6rcs, molduras e ornatos, iio- 
tando apenas algumas grandes personagens » sem por f6rma 
alguma alteuder as relanocs que entre si guardavam as fi- 
guras, sua composicao e belleza. Assim tambem rios, occu- 
pados quotidianamente com os nossos interesses individuaes, 
com essainfinita variedade de cuidados a que denominamos 
de— negocios— , somos indifferentes atudo que a isso nao se 
refere imniediatamente. 

Se admiramos urn bello sitio , um valle florido , uma ferlil 
campina, procuramos um momentaneo prazcr, e a nada mais 
aspiramos. Quantas e quao curiosas minuciaa nos escapam 
com semelhaiUe proceder ! 

Abaixai os olhos : esse musgo que calcais aos pes e urns 
pbnta vivaz, rtdmiravclmcnte org;^nisada, de que sc ciicon- 

p.., B. 11{. 2 



18 RE VISTA BRAZILEIRA. 

tram mil espccics : umns, curias e direitas, crguem so como 
pequenas coluinnas; supporta sua haslca uma urna coUocada 
em sen apicc c protegida por tccto de scda. Sao outras com- 
pridas, raslejantose voltadas com extraordinaria gra^a. Do- 
bram-se as folhas de algumas com admiravel rcgularidadc , 
emquanto formam oulrasmoutasaiTedondadas, ouflactuaiUes 
como pcnnachos. 

A vegelacao deslas pequenas plantas, o secreto modo por 
que se casam , a elegante estructura das urnas em que se en- 
cerram as suas sementes, forma uma variedade de circum- 
stancias de excessivo prego para o obscrvador. Achareis ob- 
joctos dignos de vossa attcncao ou curiosidadc cm toda a 
parte para onde langardes os olhos. 

Muito maior porem sera a vossa admiragao, se , remon- 
tando-vos a seres mais aperfcicoados , examinardes o orga- 
nismo dos animaes, suas accocs forcadas ou volanlarias, sua 
industria para grangearem a subsistencia, quasi lao variada 
como as nossas artes ; sua astucia em protegerem seus fi- 
Ihinbos, ou em dcfendcrem-sc asiproprios, combinagoes 
tao neccssarias a elles , como para ouli'os a arte da guorra. ; 
se, digo, entrardesna contemplagao do todas essas mara- 
vilhas, prcscnciareis um cspcctacnlo mil vezcsmaisbello do 
que primeiro. Vereis uma viva c animada nalurcza , ua 
qual nao sois o unico cm gozar e scnlir ; c o maduro cstudo 
dessa multipla nalurcza, nas suas minimasc maximas pro- 
ducgoes, enchcra vossa alma dc ineffavcl jubilo. 

Nao e ainda tudo. Pode lancar muita luz sobrc oulra orga- 
nisagao muito mais pcrfcila (a do bomcm) esse cstudo re- 
flcclido dosentcs dotados de differenlo e complicada nalurcza. 
Nao fallo somenle da organisacao pbysica, e sim das facul- 
dadcs intcllcctuacs; porque cstou persuadido dc quccssas 
obscrvagOes e cxperimcnlos bcm dirigidos sobrc o instincto 
dos animaes sao o mcio mais directo , direi quasi o unico, 
de adqnirir algumas nogoes sobrc o rr.odo por que se des- 



iNVESTIfiACOES SOBRE OS HABITOS DAS FORMICAS LNDIGEXAS. 10 

cnvolve c ci'cscc a nossa intelligencia. E' assim quo para 
aperfeigoar a analoinia dos nossos orgaos physicos , e para 
adquirir ideas exactas de sua acgao rcciproca , foi mister 
• estudar nos animaes mais impcrfcitos, onde se encontram 
em seu maior grao de isolamcnto e simplicidadc. 

Temeraria podera, quiga, parccer a opiniao que acabo de 
emiltir: creio-aporem verdadeira, e mui siisceptivel de ser 
apoiada em boas razOes. Entre os philosopbos que procu- 
raram sondar os profundos mysterios da nossa intelligencia, 
quizeram iins tudo explicar por dados puramente abstraetos , 
fornecidos pela sua imaginaQlio , e segiindo as ideas que for- 
mavam do entendimento humano : era o methodo de alguns 
philosopbos antigos , e hoje o de quasi todos os metapbysicos 
allemaes. Nunca produziu esse methodo , procedendo por 
creagao , uma unica verdade na pbysica , em que fora por 
muito tempo empregada ; c nao parece prometter mais pros- 
peros resultados na metaphysica, onde mais complicados e 
menos compreheusiveis sao os phenomenos. Quizeram outros, 
como Mallebrancbc e Locke , conduzindo-se com mais me- 
tbodo, defmir a nossa intelligencia, segundo a propria ob- 
servacao dessa faculdade , c procuraram seguir o seu des- 
envolvimento nos progresses dos nossos juizos e acgoes : 
chegando dest'artc a ligar intimamentc factos que pareciam 
isolados. Considerando primeiramente a intelligencia hu- 
raana, encararam esses profundos pensadores a questao em 
toda a sua difficuldade , e n'um estado de complicacao , que 
a torna quasi insoluvei. Conheceram finalmente outros phi- 
losopbos, que convinba dccompor lao difficil qnestiio , re- 
(luzindo-a de alguma sorle assuas menores proporgoes; dabi 
partiu a idea da estatua de Condillac, que nao possuindo no 
comeQo scnao novos sentidos e dotada da faculdade depensar, 
S(!ni fjuc jamais a houvesse exercido , applica-a successiva- 
-iiionlc , e [»or onlem , as graduadas ini[»rcss5es que llic faz 
cxperimentar pbilosoplio ; idea ccrlamenlc engenlwsa, a 



'lO nr.visTA r.HAzii.Eiiu. 

que so faltou ser pratieavel, para revelar todos gs myslcrios 
do rosso cntcndinienio. Qucm a sua disposi'^ao livesse se- 
mclhante estatua, grardes descoberlas poderia fazer, se- 
guirido a marclia por Condillac indicada; infelizrrenlc, po- 
re;n , iiingueni a possuira, nem jamais possiiil-a-ha. Assini 
doutrinaiido-a , cada philosoplio e obrigado a fazor-se a si 
proprio as perguntas e dar as respostas; e como cada quai 
respoiidc reciprocamente com as ideas que tcm , com as no- 
rors que adquiriu , e das quaes nao se pude despir , e obvii 
que nao salisfara a todos os quesilos como Ih'os haveria 
feito a eslatua, 

Fendo lodos fundados na observacao de pbenomenos mui 
complicados , esses diversos melhodos imaginados pelos me- 
tapbysicos nao se elcvam acima da cscala dus nossos juizos , 
e podcm fazer notar o nexo de alguns pbenomenos; fallando- 
Ibes comtudo segura norma, e forga de penetracao assaz po- 
derosa para abalar as fibras do pensamento. 

Parcce mais directo meio de adquirir a esle respeito al- 
f^iimas nogoes certas o estudo do instinctonos animaes. espe- 
ciabuente nos inseetos , em que mais variada e a sua accao. 

Esse instincto , que arrasta-os a praticarem mui complexas 
c regulares acgoes sem calculo , ou Uberdade de escolha 
apparentes, parece ja por si mesmo iima m.odificacao dessa 
livre intelligencia que facuUa-nos a escolha entre diversas 
acQoes: c o que torna ainda mais saliente a analogia c que 
instincto nao e lalvez tao completa e constanlemcntc cego, 
como pretenderam os que nao o tinbam bem estudado. 

Communicou-nos uma pcssoa mui esclarecida , digna de 
toda a fe , c que grande numero de experimentos fez , que 
a exlensao da intelligencia dos animaes e uma das cousas 
menos apreciadas. Esludando seus habitos e necessidades, 
e suscitando-lhes novos, p6de-se fazer nascer nelles ideas e 
paixoes que antes nao tinbam , e de que menos susceptiveis 
pareciam. 






IXVESTlGAgOES SOBRE OS HABITOS DAS FOUMIGAS INDIGENAS. 2 1 

Ate que ponto podsr-s3-liia assim modilicar c alterar o 
instinclo dos animaos, que parecsm possuil-o iateiramente 
ilesUtulilo da monor apparcncia de detcrmiuacao voliinlaria ? 
Sirva de exomplo a mosca, que depois de Icr sido fecundada 
conslroe para a sua posteridade urn ninho semelliaiilc aquelle 
em que nascera , e que nao viu couslruir ; depoe ahi sous 
ovos , e vai depois procurar nmilos individuos d'uma niesuia 
especie de lagarla, sempre a mesma, scinpre de identico peso 
que fere com o seu aguilhao, sem fazel-os pereccr, que colloca 
uo lado de seus ovos para que sirvam de alimento aos pe- 
quenos vermes que devem vir a luz ; circumstancia de que 
ella com outros organs nao parecc dever couservar scutl- 
mento , ne;n le.nbranga ; e que , finalmeule , depois de haver 
fecliado o invariavel circulo dessas operarjoes mecanicas, eu- 
cerra seu ninho e morre. Se lia nisso mero inslincto , o que de 
mais havera nos animaes que vivem em sociedade organisada, 
como as formigas e abelhas , cuja reuniao e irabalhos podern 
ser por hypothese atlri'ouidos a urn inslincto machinal ; mas 
em que releva reconhecer, em cerlos casos e circumslancias, 
provas de Uvre vontade, reHecUda escolha,e mutua influencia ? 
Se provam os factos o que acabo de expor , nao devemos 
conceder a esses animaes algumacousade maisdoque o ins- 
lincto, alguma centelha desse gutV/ a que denominamos — 
intelligencia? Nao seria antes a palavra instiiido uma ex- 
pressao relativa, introduzida na lingaagem vulgar pela igno 
I'ancia em que nos achamos das verdadeiras fontes dessas 
determinacjesapparentemenle irreflectidas : bem como suc- 
cede com a palavra acaso a respeito das verdadeiras causas 
do? aconteciuientos ? 

Os mais complexos evenlos, aquelles cujas contingencias 
c exilo parecem mais extravaganles , sao produzidos par ieis 
lao invariaveis como as dos movimentos celestes : mas quando 
I)ela sua variedade, complicacao, ou modifica^oes, impacienle 
peladuvida, suppae-ihes o nosso cspirilj u iia caasa vaj;a 



22 REVISTA BIUZILEIIIA. 

e ideal, ap[>ellidamos acaso o que nlo julgamos siijeito a 
lei alguma. Assim tambem chamamos instincio o que nao 
cremos submeltido a nenhum designio premeditado ; mas, 
tomando as palavras em sou gcnuino sentido, nao nos offerece 
esta nenhuma idea absoliita. 

Comeca o instincto humaiio no recem-nascido , que avida- 
mente procura o seio materno ; e termina a intelligencia nas 
tragedias de Racine e nas descobertas de Newton. Qual e o 
ponto em que fenece o instincto e priocipia a intelligencia? 
Se fora-nos licito o decidirmos essa importantissima questao, 
diriamos que so podel-o-ha fazer a experiencia. 

Estudados os animaes, como acabamos de dizer, offerecern 
na realidade a estalua que Gondillac imaginara. Trala-sc de 
animar gradualmente essa estatua, examinando-se os habitos 
das varias classes de animaes, collocando em differcntcs con- 
digoes individuos scmelhantes, e observando cuidadosamenle 
como se desenvolvem nelles as impressoes naluraes. E' prin- 
cipalmente debaixo deste aspecto que ofTerecemos aos nossos 
leitores as investigacoes do Sr. Huber sobre as formigas, 
investigagoes de subido interesse, por sua concisao , certeza 
e grande numero de novos c imprevistos rcsultados que nellas 
se consignam. 

Importa que apresentemos alguraas ideas geraes sobre a 
conformacao das formigas , antes de fallar de sua industria, 
habitos e meios de subsistencia. Seja-nos concedida vcnia 
pelas minuciosidades em que >'amos enlrar. 

Se qualquer viajanle vindo do remotes climas nos descrc- 
vesse umanova tribu de selvagens, achariamos muito natural 
que nos fallasso de sua exislcncia pliysica , antes de narrar- 
nos OS sens usos c costumes ; com mais forte razao deve ser 
licito fazel-o aqui , tratando-sc de innumcras socledadcs 
induslriaes, c divcrsamenle constituidas , posto que sempre 
do modo mais convinhavel aobem-eslar publico c particular, 
sulurao que e a pedra i)liiloso[»hal dos bons governos. 



INVESTIGAGOES SOBRE 05 HABITOS DAS FOmilGAS INDIGENAS. 23 

Sb tomarmos uma formiga scm feril-a, c cxaminarniol-a 
co'n aloiile, ou micmscopio, veremos que compoe-sc o sou 
corpo dc trcs paries principacs , cobcrlas de escamas c ligadas 
por arliculacoes flcxivcis extrcmamente curias o dclicadas. 
Essas trcs paries sao a caljcca , o peito, dc que dependem 
seis pernas, e a parte posterior, on aljdomcn, que em ccrtas 
.especies esta armada de urn agailhrio, e enccrra n'oulras urn 
licoracido que pjde ser lancado a arbitrio do inscclo, ser- 
vindo-llic isto de defesa. A cabeca, parte mais iinportanle , 
tern a furma dc urn Iriaiigulo, onde se dislingaem dous 
grandes olltos arredondados, e alem dcsles mais tros me- 
iiores no vcrlice. 

Dao esses olbos ao insecto a faculdade de ver nas Ircvas ? 

Nao poderiamos alfirmal-o , aiudaque mui provavel parera, 
visto que a mur parte dos Irabalbos das formigas se exccutaui 
DOS subtcrraneos. 

Examinando cuidadosimcnlc a parte anterior dacabcfja, 
facil e rcconhecer boca e lingua, assim como dous grandjs 
dciites recurvados, cspecie de tromba, que a sen bel prazer 
pude alongar , ou approximar a formiga. Sao suas armas c 
mais necessarios utensilios ; servem-lhcs de dedos para se 
apoderarem dos objectos ; de bragos , para carregarem pesos ; 
detenazes, para agarrarem os inimigos. Fiualmenle, diante 
da cabega estao as antennas, que sao dous filetes, compostos 
de grande luimero de phalanges, ou articulagoes de grande 
sensibilidady c que pjde a formiga fazer mover em todos 
OS scnlidoscom a maior agilidade. E' ahi que reside o seu 
sentido do tacto; sorve-lhc para apalparos objectos, sondar 
tcrrcno, recohhccer o caminho, e quasi que diriamos— 
para fallar hs suas companbeiras.— 

Que outro vocabulo pois poderemos empi-egar senao o de 
Jinguageni para designar o processo pelo qual podem-sc com- 
municar imprcssocs amigaveis , ou boslis , dctcrminar accoos 
ii'oulros individiios, cxprimir mutiiamcnte nccessidades e 



24 REVISTA BMZILEIRA. 

desejos , reconhecer n'uma palavra seus compalriotas apus 
longa ausencia, on distingiiil-os dos inimigosn'iim conflicto, 
oil nos campos da batalha? 

Podera parecer tudo islo fabuloso, qiiando attribuido a 
simples formigas; nada porem assevero qucnao seja baseado 
em factos e nas observagocs do Sr. Huber. 

Nao so trata acjul de urn romance engenhoso , espiriluosa 
ficgao , ou capricho de imaginaQao ; mas sim de experiencias 
mui positivas, feitas por um bomcm mui fidedigno, e que 
em muitas e identlcas observagocs recommendou-se pelo seu 
talento e exacUdao. 

Citarei aqui dous exemplos relativos ao cmprego que fazem 
as formigas das antennas, deixando outros para quando tralar 
das suas batalhas. 

Uefere o Sr. Huber que, diverlindo-se em dispcrsar os 
restos de um pequeno formigueiro, seguia-sc uma grande 
confusao, correndo em direcgoes oppostas todas as formigas. 
Vagavam por muito tempo sem descobrirem um occulto re- 
canto em que pudessem se reunir. Apenas porem nolava 
alguma dellas uma fenda para introduzir-se dcbaixo do as- 
soalho, nao se contentava do purse em seguranga ; voltava 
para o mcio de suas companbeiras , e por intermedio de 
ccrtos (jestos , feitos com suas antennas , indicava-lbes o ca- 
minho que deveriam trilhar, guiava-as , conduzindo-as ale 
a enlrada do subterraneo. Estas , uma vez informadas do 
asylo , serviam de conductoras a outras , e todas as vezes que 
se encontravam paravam , tocavam-se com suas antennas e 
pareciam melbor conbccedoras da dirccgao que deveriam 
tomar. E por esla forma encaminliava-se todo o formigueiro 
para o escolhido asylo. 

Q outro facto e o seguinte : 

Desejando observarmais minuciosamentc as operagOcs das 
formigas, alojava-as o Sr. Itubcr cm redomas de ridro, ana- 
iogas a cssas colmeas vilrcas dc (juc nos scrvimos (pumdo 



rVVESTIGAgOES SOBRE 03 HAT3IT0S DAS FORMICAS INDIGE.NAS. 25 

queremos espreitar os trabalhos das abelhas. Trouxera do 
um bosque, no mez de Abril, urn formigueiro nas suas res- 
pectivas redomas; mas como era elle muito numeroso , dei- 
xara o resto em plena liberdade no jardim da casa que babi- 
tava, e abi baviam-se eslabelccido junto a um castanheiro. 
Ao cabo dc qaatorze mezes de observagoes sobre as primeiras, 
levou vaso de vidro para o jardim para approximal-as mais 
ao seu estado natural , e depul-o no cboo a doze ou quinze 
passes dii dlstancia do formigueiro natal. Nao tinbam lido 
cstas formigas nenbama communicagao entre si ; pois que 
as do vaso baviam sido collocadas sobre uuia mesa cujos 
pes se assentavam em vasilbas cbcias d"agoa , sendo-lbes 
portanto impossivcl o fugircm. Apenas porcm so viram vi- 
zinhas das suas compatriotas, immediatamente se reconbe- 
ccram, e era um bello quadro o contemplal as afagaudo-sc 
mutuamente com as suas antennas, c apus muitas negociaQoes 
Icvarem as do caslanbeiro as outras para o seu ninbo. Vol- 
laram depois em muUidao a procurar os babitantes do for- 
migueiro artificial, onde causaram lao completa desergao, 
que em poucos instanles ficou elle lotalmenle despovoado. 
Nao necessita este facto de commentarios, liuiitando-rae a 
ponderar que entro formigas de diversas nacionalidades nao 
se teria passado a visita lao agradavelmentc , nem t5o ami- 
gaveis seriam os seus resullados. 

Pode se juigar a vista destes exemplos que as antennas 
sao para as formigas orgaos indispensaveis : e as que soiTrem 
a sua privagao acbam-se em identicas circumstancias que 
OS surdos-mudos entre nus. Menciona um dos nossosmelhores 
observadores (o Sr. Latreillc] , que pi'esenciando muitas for- 
migas soffrimento de uma de suas companbeiras, a quo 
se baviam corlado as antennas, fizeram sabir dc sua boca 
um Ucor Iransparente , que dcrramavam sobre a parte of- 
fcndida. 



26 REVISTA BRAZILEIRA. 

« (jii'on m'aillc soutcnir , api-f's an icl rccil 
« Que Ics betes n'ont point d'esprit. 

La Fo.ntaikk. 

Sc pjile sentido do taclo cxtrcmamcntc aporfoiroado iias 
antennas das formigas minislrar-llies mcios de commu- 
nicaQno, e de cerlo modo iima linguagcm, casos ha cm que 
sao esses meios insuITicicntes. Qnando, v. g. , descobriu ao 
longc uma formiga algiima nova habilacao niais segura , on 
mais commoda para a sua nac^ao, qnando achou alguu;a boa 
provisrio para saqucar, corre imniediatamente a lercom as 
suas companhciras e noticia-lhes o dcscobrimcnlo dessa nova 
America; dirigc-sc acada nina do per si, afaga-a comas 
snas antennas, e parece, para servir-me da cxpressao do 
Sr. Huber, que convida-as para a viagem. Nao basta porem 
haver resolvido alguma, releva que Ihe explique o caminho 
que Ihe trace o itincrario. Guiakis-ha caminhando adiantc, 
enao perdendo-as nunca de vista? E isto impossivcl, atten- 
tasas condi^oes topograpliicas; pois que para el las o menor. 
grao de area e uma inontanha : pcrder-se-hao antes de terem 
dado dous passos? Como proccder em lal conjunctnra? 
Carrogarem-se reciprocamenlc ? E' sem duvida este o meio 
maisscguro, co porellasadoptado. Toma a formiga desco- 
bridora outra pelas suas duas mandibulas, pondo-a sobrc 
as suas costas , e eis em viagem as duas aventureiras. 
Cliegando ao logar do sen destino , fazem o sou rcconheci- 
mento estrategico e partem cm busca de novos colonos ; e 
crescendo o numero dos emigranlcs em progressao geometrica 
pude-se calcular que antes de vinle viagens dove haver mais 
de urn milhao de formigas transporladas. 

Empregam cllasgeralmcnle este meio de transporlc semprc 
que querem prcslar-sc mutuamente algnm servico. Prolcu- 
dendo o Sr. Ihiber atlrahir durante o inverno algumas dc 
snas foi'migas de uma parte da sua rcJoma onde nao Ihe era 



INVESTIGACOES SOUIiE US IIABITOS DAS FOR.MIGAS l.XDIGENAS. 27 

possivel vel-as e observal-as commodamente, lenibroii-se do 
aqiiecer essa parte com a luz de uma vela , porquc sabia que 
calor apraz extremamcnle a cstes insectos, augmcntando- 
Ihcs a actividade. 

Achavam-se ja algumas formigas no lognr nprazado; « c 
« logo que senliram bencfico calor, diz o Sr. Huber, co- 
meQaram a animarse ; in an ife star am a sua satisfaglio 
« esfregaudo a cabega e as antennas com assaas pernas, e 
« percorrendo depois com ligeireza o espago a quecido. Quaii- 
« do encontravam outras formigas, approximavam-sc dellas 
« e eu vi-as brincar com soas antennas com singular volu- 
« bilidade, pondo-se logo depois em caminbo. Pareciam 
« querer subir a cupula; porque iam e vinbam ate a extre- 
« midade da mesa; retidas, porem, pela doce temperatura 
« que experimenlavam na parte da redoma onde eslava a 
« vela, voltavam a elia constantemente. Tomaram por fim o 
« alvitre de subire:n ao andar superior; e me eram assaz 

conhecidosseusliabitos paraduvidar que iam advertir as 
« suas companbeiras dcsse calor a quo tanta valia davam. 
« Vicom effeito descerem duas, trazendo em sua boca duas 
« operarias, que largaram no sitio mais quente. Voltaram ao 
« alto da colmea, e as recem-cbegadas, depois do se baverem 
« aquccido , subiram iambem a cupula , d'onde vi-as poucos 
^ minulos depois voltarem todas as qualro trazendo cada 
« nma dellas uma formiga susponsa. Continnou essa tras- 
« ladacao n'uma rapida progressao ; cbegando ccntenares de 
« rccrutadoras com as suas protcgidas, nao flcoa uma so for- 
« miga na parte superior do formiguciro. Quando cessava do 
» aquecer o caixiliio, subiam as formigas a cupula, pro- 
« vando cm ludo isto a sua grande sociabilidade. x 

Descreverei no seguinte capilulo , de accordo com o Sr. 
Huber, a singular industria das formigas para grangearcm a 
sua subsistcncia, conscrvar a sua populagao, n'uma palavra, 
a constituirao de sua sociedade. Ver-sc-ba que sao em geru 



1 



28 REVISTA BRAZILEIRA. 

asformigas povos cacadores e pastores ; po3siiinLlo algumas 
nafoes escravas da sua niesma cspecic , que alcan^,am por 
meio dc expcdicoes niui scmolliantes as que fazc:n os trafi- 
canles de uegros. 

Fallaremos por ultimo das suas guerras , tao eucaniigadas 
como as dasabelhas, e da sua arte mililar cxlrcmamente 
aperfeigoada. 

II. 

Descrevi , conforme a opiniao do Sr. Huber, a organisagao 
pliysicadas formigas; referi algumas das observagoes pelas 
quaes reconhcccu esle naluralista que possuem as formigas 
uma linguagem de tacto que subministra-lhes o meio de com- 
municarem suas necessidades, dcsejos e quasi que pensa- 
nientos. E' destc modo que , segundo dizem , tratam os cor- 
relores judeus e armenios de Smyrna todos os seus uegocios 
por intermedio de certos signaes que fazem com as maos 
cobertas com urn lengo. Tal e a linguagem das formigas: e 
se della nos servimos para as transaccoes mercantis, e claro 
que pude ella bastar-lhes para as suas mai^ importantes ne- 
gociagoes. 

Passemos a sua architectura , que varia conforme as es- 
pccies. Algumas tribus esculpem em n^adeira e eslabelecem- 
se no interior das arvorcs ; sao outras pedreiras, e cavam 
seus nlnhos no cbao , abrindo com arte seus subterrancos. 
Contentam-se unias em accumular montoes de fragmentos 
de loda a especie, como scjam — palhas, pcdrinhas, graos 
de Irigo, pedacinbos de pau atraves dos quaes abrem grandcs 
eslradas para o servigo publico. ,\ cntrada desses caminhos, 
on antes a porta, fecba-se todas as noiles, com a maior 
ciaclidao possivel. Especies mais induslriosas, como a das 
formigas das relvas, cdificam os sublerraneos com abobadas 
dc barro bumido e de grande soMdez. I'>is o |)rocesso ipic 



INVESTICUCOKS SOBP.E OS llAlflTOS DAS FORMICAS INDIGKXAS. 20 

cmpregam nesse trabalho : cada formiga traz cm sua man- 
dibula urn graozinho dc barro que destacou do interior do 
subterraneo ; sahc , e depoe-no a porta das galerias. Insensi- 
velinenle esses pcquenos graos, accumulados em loda a ex- 
tensao que os po^os occupam sobre a superticie do solo, 
formam urn verdadeiro sulco , concavo no meio e levantado 
nas extremidades: enlao manifesta-se um proposito que nfio 
p6de passar desapcrcebido. Sao destinadas a converlercm-se 
«^m muralbas essas extremidades, e todas as pequenas par- 
cellas de terra humida que as compoem , argamassadas pelas 
nossaspedreiras, seconsolidam e tomam consistencia. Langa- 
se pelo rnesmo processo uma abobada de um a outro panno 
damuralba, e assim fica terminado o trabalho. Observoii 
uma vez o Sr. Huber, que duas porcoes das paredos exteriores 
que haviam sido construidas separadamente por duas di- 
versas formigas, posto que parallelas em suadireccao, nao 
SB correspondiam , quanto a altura, de modo que o tecto 
estabelecido sobre a mais baixa muralha iria encontrar a 
outra em metade da sua allura. Occupava-o essa observarao 
crilica exactamente quando outra formiga de novo chegada 
ao logar , havendo visitado as obras , pareceu impressionada 
pela mesma difficuldade , e comcQOu a destruir a abobada 
principiada, ergueu a murallia mais baixa , e fez nova abo- 
bada sobre as ruinas da antiga , tudo isto a vista do ente 
racional que a observava. 

Poder-se-ha por ventura explicar csta acgao como resullado 
de instincto machinal ? 

Se foi instincto que impelliu a ultima formiga a des- 
truir a abobada para depoisnivelal-a, como pude esse mesmo 
instincto fazer com que as precedentes Ihe dessem direcQoes 
desiguaes ? 

Certificou-se oSr. Huber por uma serie de observaQoes, 
que cada formiga precede independentemente de suas com- 
panheiras. A primeira que concebe um piano de facil exe- 



30 REVISTA BRAZILIMRA. 

cnrrio Irara logo um csboco , conlinuando as oulras na en- 
ccladaobra; eas que veni por ultiino, depois do inspcccionar 
OS primeiros trabalhos, concebem os que dcvem emprchcnder; 
sabcndo todas esbocar , conlinuar , polir, ou retocar scgundo 
as circiimslancias. Nao sc nola ncnbiini cbefe, oil director 
dos trabal'.jos , demonstrando assim que obcdeccni lodas a 
nm coniniiim pcr.samonto. 

Se cbamarmos a isso inslinclo, relcva confessar quo e urn 
instincto sorm/, que inrlina cada individuo para o bem do 
todos. Nao para dcsprezar-sc iim tal inslinclo, uem assen- 
tavia ellc mal cin nossa cspecie. 

Logo que sc descobrc alguma dessas babiiaQoes, tlio in- 
diistriosaincntc conslruidas , aterradas as formigas corrcm 
em direcgao opposla; e observando-se algumas que Icvam 
em sua ])oca pcqucnos cylindros brancos , que se apressam 
em ir escondel-os nos subterraneos. Sao as larvas e asnym- 
pbas das peqncnas formigas, qucdesl'arle conduzem e cuja 
guarda Ibcs e confiada. Podeis pcrseguil-as , aprcsentar-lhes 
o])slacnlos , atormcntal-as de lodos os modos , nao abando- 
iiarao ellas jamais essa carga que Ihesc lao cara. Viram-sc 
algumas vezes, diz o Sr. Huber, com a cabcca e o peito 
separados do abdomen, corrercm ainda e levarcm as larvas 
para os suljlerrancos. 

Nao crcio que mnila gente possascr lentada a repelir lao 
cruel experie;!; la, 

Se desejardes examinar uma dessas nympbas, apressai-vos, 
porquc em urn instante lerao cUas desapparccido. Consc- 
guistcs apanbar uma? Abriudo-a com delicadeza encontrareis 
um pequeno verme envolvido em um casulo de scda. Chama- 
se esse verme — larva da formiga — , c brevementc trans- 
formar-se-ba na mesma formiga. Abrindo com cffcito alguns 
oasulos mais odiantados, acbarcis a formiga ja formada e 
prompta para sabir ; nao podendo, porcm . fazel-o por si so. 
Convt'in ipio lli";i lirem dos sens envollKrins; e em cada for- 



INVE STiGACOES SOBRE OS HAniTOS DAS FORMICAS IXDIGK.XAS. 3 I 

migiieiro cxisle scmpre cerlo nuinero de individiios incum- 
bidos dcssa larefa. Sabcm pcrfcilamcnte quandodevcm rasgar 
sudario de seda de que se envolve a nova formiga ; dcs- 
cmbara(;arn-na de sens obices, com a niaior delicadeza, 
dao-lbc logo susLento, esfregam-na, limpam-na, e conda- 
zem-na a commiim babitar'io. Duranle esse leinpo dao oiUras 
formigas do comer as Icnras larvas, que ainda nao fiaram 
seu envolucro; lomam as larvas e as nymphas, e Irans- 
porUim-nas para os logares mais qaeiitcs do formigiieiro, 
ou vao depol-as por algnns iiislantes na siiperFicio da ha- 
bitaQlo. Finalmente, outras, de volladesuas pcregrinafoes, 
trazem e dislribiiem por essas fieis giiardas os alinientos de 
que ncccssitam. 

Nao perlcncem a mesma casta lodos os individiios que 
consUtuem urn formigneiro. Exisleni alii machos c femeas 
dcstinados a propagarem a espccie. 

Compoe se o resfo da sociedadc de operarias estoreis, que 
sao femeas, mas cujos orgaos geradores nao se desenvol- 
veram. E' esta divis'so cm Iros castas a mesma da das 
abelbas, bavendoalgumas differengasaccidentacs. Podem por 
exemplo viverem muilas formigas fecundas conjunclamcnte 
em nma mesma liabitaQao; nao (em ciumes iimas das outras , 
cnconlram-se scm se fazercm mal algam. Gada qual lem sua 
corte, sen cortejo que por loda a parte a segue, scm que 
comludo nenhum poder possnam : pareceudo que a autori- 
dade reside unicamentc nas operarias. Ao contrario cntre as 
abefhas a femea fecunda c a unica poderosa em toda a colmea. 
Nao soffre rival; buscaincessantomenlc destruir as larvas 
cncerradas nas celUilas rcaes d'onde sahirao um dia as 
abelhas-rainhas que podem arrancar-lhe o imperio. Neste 
ponlo expcrimcnla ella lenaz resistencia da parte das ope- 
rarias, a quem esta confiada a guarda das cellulas. des- 
peito que concebe pela existencia de suas rivaes motiva os 



32 P.F.VISTA UaAZILEIRA. 

cnxamcs, aciibando a vclha rainha por tleixar acolmeaconi 
aquelles do seus subdilos que pode detenninar a acompa- 
nhal-a. Entre as fovmigas os enxames sao igualmeiite nioU- 
A ados por excesso de populacao; poroin as feineas c os machos, 
que iinicamont*:; possuem azas, podein sus deixarem sua 
pallia. Voani juntos, c reunem-se nos ares como as abelhas. 
Nao enlram no formigueiro natal as femeas fecundadas ; mas 
antes regressando a terra, comeca cada uma, segundo a 
observagao do Sr. Huber , por despojar-sc das suas azas , que 
desde entao inuteis sc Ihe lornam. Feito o que , cntranha-se 
pela terra liumida , cava ahi iim ninho , dcpoc seus ovos , 
fal-os abrir, alimenta suas larvas, cuida das nyinphas em que 
se transmuiam essas larvas , despoja-as de seus envolucros 
na epoca azada, c crea assim em torno de si uma familia e 
um imperio. Acha-se entao desoncrada do peso de familia ; 
nao tem mais nenhum cuidado que tomar, nem para o 
sen suslcnlo, que Ihe e trazido, ncm para a cria^ao dos filhos 
confiados as operarias , como ja vimos precedentemente, 

Entrctanto, privada a melropole de seus enxames , e des- 
tiluida dos meios de sustenlar a sua populacao , devera pc- 
rccer annualmente , como aconlece nas sociedades doszan- 
goes e das vespas, que apenas duram um anno : nao succedc 
porem o mesmo com as formigas. Ha no formigueiro semprc 
algumas femeaS occasionalmcnle fecundadas antes da partida 
geral do enxninc. Apoderam-se entao dellas as operarias, 
agarram-se as suas pernas para impedir-lhcs o voo, e recon- 
duzem-nas a for^a para os subterraneos ; liram-lhes as azas, 
c guardam-nascomo verdadeiras prisioneiras. Alimentam-nas 
no emtanto com desvelo, Icvam-nas para ossitios cuja lem- 
peralura mais parcce convir-lhes ; semprc , porem , debaixo 
de boa escolta , e nao perdendo-as nunca de vista ; nao Ihes 
sendo resliluida a liberdade senao quando dao signacs nada 
equivocos de n^alernidadc. Perdcram loda a velleidade d8 



l.W^STIGACOES SOBRE OS HABITOS DAS FORMICAS INDIGENAS. 33 

fuglrem , nao experimentam nenhum constrangimento ; 6 
comludo cada qual guardada com uma sentinella a vista , 
que acompanha-a por toda a parte prevenindo seus desejos , 
mas observando-a exactamente : montada sobre o seu abdo- 
men, e coUocadas no chao as suas pernas posteriores, parece, 
diz Sr. Huber, uma sentinella postada para velar sobre as 
suas acQDes. Nao e porem sempre a mesma operaria que se 
incumbe dessa tarefa, renovando-se alternadamente. Logo 
que deu a femca novos subditos ao cstado, forma-se-lhe 
uma c6rtc de dez a quinze formigas que rodeiam-na, ser- 
vem-na, carregam-na paraos diversos sitios para onde deseja 
ir, rendem-lhe n'uma palavra identicas homenagens as que 
prodigallsam as abelhas as suas rainhas. 

Releva que explique agora os meios que empregam as 
foi-migas para alcangarem a sua subsistencia. 

Nao possuindo , como as abelbas , a arte de construir ar- 
mazens abastecidos na propria habitagao , nao podem en- 
contrar sustento. 

As que por seus misteres ahi se conservam devem receber 
alimento das que vac a colheita , que com effeito com ellas 
rcpartem-no. Ora sao pequenos insectos , ou outros animal- 
culos que podem transportar ; despedagando a victima , 
parlilham-na entre si. Quando porem acham fructas ma- 
duras, ou qualquer outra preza cujo transporte e impossivel, 
chupam o succo que encerram, e regressando ao formigueiro 
communicam-no as que ahi ficaram. Recebendo-o estas 
com avidez , nao cessam de afagar as suas camaradas por 
um vivissimo movimento de suas antennas, que prova- 
Yclmente exprime o prazer e o reconhecimento que ex- 
perimentam. 

Inutil seria repetir aqui o que ja dissemos relativamentc- 
a extrema fidelidade do Sr. Huber ; porquanto , os que de 
perto observaram a natureza nao necessitam de cmbellezal-a 
com ficgoes. Conheccm que e ella muito mais variada e ma- 

n. B. III. 3 



,'U REVISTA BRAZILEIRA. 

ravilhosa em suas rcalidades do que podcl-a-hemos siippor 
orn iiossas fabulas. 

Verificaram muitos natur alistas as asscr^oes do Sr. Huber , 
e achara m-nas exactissimas. 

Sabcm todos que sobre as foUias e talcs da mor parle das 
plautas acham so as vezes pcqucnas lagartas csvcrdeadas, 
ora com azas , ora scm ellas : os caliccs das rosas, v. g., eslao 
somprc cobe rtos dcllas. E' tambem summamente curiosa a 
liistoria particular desses pequenos animaes. Sao viviparos 
durante todo o cstio, oviparos no outono: nlio se juntam 
senao nesta ultima esta^ao, e o acto que fecundou a ultima 
gcragao estende-se a todas as do anno seguinte. 

Vivem as lagartas dossuccos das plantas,a que seprendem : 
sugam-nos com uma broca que-enterratn nas nervuras das 
follias , on nas paries mais dclicadas do talo. Parte dcsscs 
succos , elaborados em seus orgaos, sabc-lhes dos corpos 
cm furma de pcqucnas goltas liquidas e assucaradas. Nao 
ignoram as formigas a docura dcssc licor, e dcllc se ali- 
mcnlam avidamenlc. 

Procuram as lagartas, c dirigcm-sc aos logarcs cm que 

liabitam de prcfcrcncia. Apcnas descobrcm uma, fcstc]am-na, 

animam-na com as antennas, como para convidal-a a largar 

essas preciosas goltas, c raramcnte sao infructuosos os seus 

esforgos ; c o modo por que a lagarta fornecc o objecto dos 

sous descjos prova exubcrantemcntc que concede-no. Ja 

disse que todas as formigas procuram esses anima1cu!o:>, c 

algumas espccies chcgam mcsmo a crial-os. Gnardatn cm 

seus niuhos ovos de lagartas , c tomam tanto cuidado como 

comas suas larvas ; transportam-nos scmclhanlcmcnte em 

suas cmigracoes; poem a mcsma solicitude cmsalval-os, a 

mcsma coragem em dcfendel-os; e muitas vczcs para formi- 

guciros vizinhos e o roubo das lagartas causa de gucrra c 

rccoiTipcnsa da victoria. 

(Jucm (piizcr explicar lao diversas combinacocs pclo unico 



I 



I 



INVESTIGACOES SOBUE OS IIABITOS DAS FORMICAS INDIGENAS. 35 

impulse do machinal inslincto, fara bem em explicar igiial- 
mente em que esse inslincto das formigas em criar lagartas 
p6de-se dislinguir da inlGliigcncia do homem em criar re- 
banhos. 

Sao de grande recurso para as formigas no tempo de 
inverno as lagartas que vivem sobre as raizes das arvores. 
Caminham todavia para a sua habitual colheita essas infati- 
gaveis trabalhadoras , quando nao e muito intense o frio. 
Viu-as Sr. Huber correrem por cima da neve. Enre- 
gelam-se com a temperatura de dous graos de Reaumur, 
abaixo do termo da congelagao , e por uma singular coin- 
cidencia enregelam-se as lagartas que criam com igual 
temperatura. 

Existe finalmente nas formigas outro genero de industria 
ainda mais extraordinario. 

Nao trabalham certas especies , nao vao a colheita, des- 
prezam sustentarem-se com os alimentos postos ao seu al- 
cance : sendo tudo isto feitopor escravos deespecie dilferentc. 
Para adquirirem esses escravos , empenham-se em grandes 
expedi^oes aos vizinhos formigueiros. Subita, e de ordinario 
irresistivel, e a invasao. Entrando em uma cidade inimiga 
apossam-se, mio das prisioneiras que se tenham escapade, 
mas sim das larvas e nymphas das formigas trabalhadoras, 
que levam comsigo , entregando-as as suas escravas , que 
criam-nas carinhesamcnle. Essas jovens formigas , nascidas 
no meie dessa nacao cstranha e inimiga, transmittem-lhc 
loda a affeirJio que a sua verdadeirapatria teriam, c adquirem 
scnlimcntos adequados ao seu novo eslade. Entregues a 
nalureza, teriam detcndide as suas cempatriotas; criadas na 
cscravidao , convertem-se em inimigas suas. Sem tomarem 
parte nas expedicoes, cxcilam-nas, dispoem-nas, e acolhem, 
l)cm ou mal , as formigas gucrreiras conformc e resultade de 
suas facanhas. 

Como pudcram cllas saber que nao convinha Ihcs raptarem 



36 P.EVISTA BRAZILEIM. 

furinigas adiiUas, c sim Uirvas, que ainda nao adquiriram 
affcicoes de fauiilia ? 

Se ainda alguein scobstinar cm vcr inslinclo ncssa industria 
guerreira, deveao iiienos convirquc o iiistinclo dos osi-ravos, 
qiiando tornados em sua juveiUade , e susccptivel do ccrlas 
modificaroes delenniuadas pelas circuu.slancias : deixando"" 
pois de sel-o na acceprao reslricta da palavra. 

Sr. Huber, que descobriu a existcncia dos formigueiros 
mixtos, observou que liaviam nelles duas classes de escravos 
de differentes especies , mas sempre Irabalhadores ; perten- 
cendo unicamente os maclios e as fcmeas a casta guer- 
reira. 

Aflm de cerlificar-se se as formigas bcllicosas sabiam al- 
guma cousa mais do que combalorcm, fecliou-as debaixo de 
redomas de vidro com mcl para scrvir-lhes de alimento,*e, 
terra Immida para conslruirem habitarao, e nymphas para 
desenvolverem. Nada disso souberam fazcr as guerreiras , 
que nem suslentar-se sal)iam, chegando muitas a mor- 
rercrn a fome ; e iam todas pereccr, quando o Sr. llubcr 
inlroduziu no meio dellas uma operaria da casta capliva , 
que sj por si reslabclcceu a ordem , deu de comer as que 
ainda viviam, cavou cellulas, conduziu para ahi as larvas, 
desenvolveu-as e repovoou a colonia. 

Cumpre notar que essas mcsmas formigas guerreiras ja 
baviam sido capazes de iguaes fuuccocs; porquanto , nao 
podendo exercerem sua autoridade sobie as formigas adultas, 
tinham sido forcadas, para fundarem a sua colonia, a criarein 
as larvas por cUas roubadas. 

Idenlica modificacao obscrvamos anleriormcnle no modo 
de proccder das formigas fecundadas, na epoca cm que 
comecam a formar nova familia. 

Nem sempre a posse das riquezas c a invasao do lerrilorio 
fornccem as formigas, bem como aos homens, as unicas 
causas jiara a dcclararao de guerra. Muitas vezcs nr.o ler-* 



INVESTIGACOES SOBRE OS HABIT03 DAS FORMICAS INDIGENAS 37 

minam senao pelo aniquilamento, ou emigragao de um dos 
partidos , as longas e eiicaniigadas lutas eiitre especies se- 
melhantcs. 

Com a sua costiimada pericia e exactldao, observou-aso 
Sr. Huber, que nestes termos descreve-as : 

« Offcrecem essas guerras alguma cousademais sorpren- 
dedor ; 6 o instincto que faz com que cada formiga 
reconhega as do sou parlido. Como , por que signal so 
distingucm na peleja, em que milliarcs de individuos dc 
« igual cur, forma, cheiro, da mesma cspecie, em uma 
« palavra, se cncontram , s(3 cruzam, se hostilisam , dc- 
« fendcm-se, ou fazem-se prisioneiras? Caminham com 
desconfianga, ainda quando so avizinham as suas cama- 
« radas; apartam suas mandibulas, e se por acaso acom- 
mettem-sc, retiram-sc apenas se reconhecem. As que sno 
objecto dessc erro momentaneo afagam suas compatriotas 
com as anlennas, c aplacam-lbes subitamente a colera. 
Que opiniao pode dar tal maneira de proceder da intima 
alliaiica que entre si mantem os insectos, e da subtileza dos 
« sous sen tides? » 

Pondo aqui ter.iio ao extracto das interessantes investiga- 
goes do Sr. Huber , nao podcmos deixar de fazer uma obser- 
vagao. 

Seoesiudo de urn animalculo como a formiga , que nao 
occupa quasi logar no mundo, pode prestar assumpto a lao 
curiosos e importanles estudos , quantos objectos desco- 
niiecidos e dignos de graves mcditagoes nlo encerrara o 
universo? Em que ponlo do globo nao havera alguma cousa 
paraaprender edcscobrir? E cmquauto a infiiida variedadc 
da naUireza abysma a mais fertil imaginagao, como e possivel 
concebcr que hajam bomens assaz cegos para pretenderem 
tiral a inteiramente do seu cerebro, sem observal-a, con- 
suUal-a , seui se dignarem de cacaral-a e buscar compreben- 
del-a? Demos gragas aos cspiritos elevados , que segniiido, 



38 REVISTA BRAZILEIRA. 

outra senda, conduzem-nos com certeza a verdadc, que oulros 
iicm scquer suspcitaram. 

Pelo que demonslrei, tratando dos habitos das formigas, 
por algumas analogias com a intelligencia humana , nao 
pensc algucm que eu considcro-a como puro instinclo , iiao 
fazendo nenhuma differenga entre o homeiii c o animal. Nao 
c esle meu intento. 

Sei que a induslria das formigas e dos castores e lioje 
absolutameiite a mesma, que era a dos que viviam ha dous 
mil annos : sua sciencia nenhum progrcsso fez desdc essa 
epoca, ao passo que o rio dos conhecimeiUos humanos, en- 
grossado pelas descobertas de todas as idades , nao ccssou , 
uem cessara de seguir o sen curso : 

Labitur, et labetur in omne vohibilis acvum. 

No meu entender e essa progressao continua de meios c 
do conhecimentos o que mais cmincnlcmcnle dislingue a 
nalurcza do homcm. So Ihe pertence , e so basla-lhe para 
assegurar-llic o imperio do mundo. 



HI. 



OBSERVACAO SOBRE INSTINCTO DAS FORMIGAS. 

Entre as numerosas observagoes conlidas na obra do Sr. 
llubcr, e por ccrlo uma das mais curiosas a do inslinclo, 
ou intelligencia que insliga as operarias a retcrcm olisti- 
nadamenle as femeas occasionahncnle fecundadas antes de 
terem fugido. Arrancam-lhes as azas, arraslam-nas para os 
subterraneos , e guardam-nas com summa precaurao , como 
se conhccessem a necessidade dese assegurarem dollas para 
manlorcm a [)opulacao da republica. Cilarci uma experiencia 
om abono desla observacao 



INVliSTlGACOES SOBllE OS IIABITOS DAS FORMICAS INDIGENAS. 39 

Enconlrei iVum jardim numcroso (ormigueiro, e na inul- 
lidao das operarias que iam e vinhani inccssantemente nolci 
nuiitos machos e femeas revestidos de suas azas, quelivre- 
mente passeavam , porque sem duvida ainda nao tivera logar 
a sua uniao. Tomei delicadamenle uma das femeas, arrau- 
quei-lhe as azas , e coUoquci-a entre as suas companbeiras. 
Nao deu dous passos sem que a lomassem por uma formiga 
fecundada , que buscava fugir ; lang,aram-se sobre clla , e 
queriaui-na por forga conduzir para o subterraneo. Sentindo 
porem csta que faltava alguma cousa para realisar taes ap- 
parencias , dcfendeu-se com todas as suas forgas , sendo por 
ultimo constrangida a ceder ao numero , e perdendo-a eu de 
vista na entrada das galerias. lUudidas as companbeiras, pela 
perda das suas azas, teriam recoidiocido o erro em que 
haviam cabido, e como tel-o-bao podido fazer? Ignoro-o; 
mas repetindo por ties vezes esta experiencia , por outras 
tantas obtive identico resultado. 

{Exlrahido das Miscellaneas Scienlificas e Litterarias de 3. B. BiOT.) 



'A 



LlTTERlTURi 



Jnizo acerca do poeiBaa — A Assumisif ao — 
de Fr. Francisco de S. Carlos. 



E' tal desprezo com que tratamos o que nos pertcnce , 
que poucos Brazileiros sabem que a nossa nascenle lilteralura 
possue um poema tligno de rivalisar com o Paraizo Per dido 
do Milton , e a Messiada de Klopstock. 

Se bardo fluminense nao tern a inspiraQ'so altivn, e o eslylo 
alUsonante do cego d' Albion ; se Ihe falta a myslica melan- 
colia, que unge os carmes do emulo de Goelhc e de Scbillcr ; 
nao e menos casto o seu estro , ncm menos bclla e graciosa 
a sua imaginacao. Aponlemos com sinceridadc as bcl'.ezas 
e defeitos que julgamos encontrar em tao preciosa pro- 
ducgao. 

A devoQao para com a Virgem Santissima inspirou a Fr. 
Francisco de S. Carlos o assumplo do seu poema, e d'enlro 
as diversas phases de sua gloriosa vida cscolheu elle a As- 
sumpgdo , como a que mais larga margem olTerccia aos v6os 
da imaginagao. 

Serviu-se com talento da pia crenga que a faz viver em 
Epheso depois da mortc de seu filho , indo porem morrer em 
Jerusalem , c ale a omissao dos Evangelistas ihe foi favoravel. 
A causa dessa omissao e bellamente explicada pclo abbade 
Orsini , neslas eloqucntes palavras : 

" Nada nos resta sobre a rcsidencia de Maria cm Epheso ; 
« cxplica-sc facilmciilc esla omissao pelas preoccupacues da 



42 RE VISTA BRAZlLEiriA. 

« epoca. Dcpois (la resurreicao do Salvador, os aposlolos , 

« unicamenlc occiipados com a propagacao da fe , consi- 

« deraram como secundario tudo o que nao entrava de modo 

« dirccto e saliente nesse vital interesse. Coinpenelrados de 

« sua alta niissao , entregues a salvagao das almas , esque- 

« coram -se tao profundamentc de si proprios, que apenas 

« nos deixararn pequeuo numero de documentos incompletos 

« sobre os trabalhos evangelicos , que mudaram a face do 

« giobo; de sorte que sua historia assemelha-se a um epi- 

« taphio sublime, porem meio apagado, a que falta o co.iiego 

« e fim. Concebc-se que a Miu de Jesus tenha parliUiado 

« a sorte dos apostolos ; deslisando-se longc de Jerusalem 

« OS ultimos'annos de sua vida n'uma terra eslranha , onde 

« sua estada nao assignalou-se por uenhum facto notavel , 

« nao offerecendo senao uma superficie lisa, que nao deixou 

« vestigio duravel na fugaz memoria dos homens. Todavia 

t estado floresceute da igreja de Epheso, sua lerna devogao 

« para com Maria, e os elogios que S. Paula faz a sua 

« piedade , indlcam sufficienlemente os fructuosos cuidados 

« daVirg^m, e as divinas benQaos que por toda a parte 

« acompanharam-na. Arosa de Jesse deixou o ar impregnado 

« do sen perfume, e esse vestigio, por mais ligciro que pa- 

« rega, e preciosa revelacao da sua passagem (!). » 

Sem vaidade, sem nenhuma pretencao aos foros de poela 
epico , escreveu S. Carlos o sou livro , como ellc proprionos 
confessou no seu niodesto prologo , e como mais lardc, a 
beira do lumulo, dizia ao seu veuerando amigo o padro-meslrc 
MonrAlverne. 

Como explicaQ'io da origem destc pocma, e sua aprcciagao 
pelo proprio aulor, jalgamos comprazer aos leitores , Irans- 
crevcndo aqui o quadro da ultima cnlrevista dos dous illuslres 



(1) IHsloiie de la Vicrge, chap. VUI. 



JUIZO AGEUCA DO POEMA — A AS3UMPC\0. 43 

Fianciscanos, cshocatlo pjlo vigoroso pinool do nosso parti- 
cular amigo, Sr. Araujo Porto-Alcgrc : 

« Na ultima visita que Ihe fez o padre-mestre Mont'Alverne, 
« quando o poeta encarava a morte com toda a resignacao , 
« rolou a conversagao sobre o seu poema , sobre as criticas 
« que soffreu , e nesta mesma circumstancia disse o illustre 
« moribundo — que ievava o pezar de iiao ter podido reim- 
« piimir a sua obra com todas as altera^oes que Ihe fizera , 
« nao so no todo , como em muitas partes , pois havia com- 
« posto alguns cpisodlos , e augmcntado outros. 

« E nisto, tremulo se debruca, cava debaixo do travesseiro, 
« lira urn volume, e mostra-o ao seu amigo : era o da pri- 
« meira edicao , todo riscado, emendado, escriplo a margem, 
« intercalado com foUias manuscriptas c augmcntado com 
« caderninhos do mesmo formato ; tndo escripto polo proprio 
« pnnho , e nilidamentc feiio e promplo para sahir a luz da 
« imprensa. 

« Els aqui o meu pocma, diz elle ao mcu amigo (o padre- 
. mestre Mont'Alverne). Possa csta obra dar algum realce a 
« nossaOrdem no Brasil. Sinto morrer scm mosirar que fai 
t docil a opiniao dos amigos e criticos que me honraram. 
« Eisaqui umaobra, cuja historia e simples, mas curiosa , 
« porque nasceu debaixo de inspiragoes alheias ao appareci- 
. menlo destas creacoes: aqui nada lu)ave de profano , naila 
« do que pertence ao seculo. 

. Na minha primeira guardiania, que pouco on nada me 
« dava que fazer, comecei por devocao e desenfado a compor 
« alguns hy:nnos a No:>sa Senliora: era uma pura devogao. 
« Depoisde haver borrado algum papel, senti o innocente 
« desejo de unir todos aquelles cantos em urn todo, e dar. 
« Ihe uma forma mais ampla e mais digna da minha devocao : 
« dest'arle empregava o mcu tempo nobrcmente, encurtava-o 
« com traballio, c tiidia mais um vehiculo por onde fizesse 
« sahir as emococs de minha alma, e mesmo o amor da 



44 REVISTA BRAZILEIRA. 

« patria: nao havia ainda idea de poema, e miiito menos 
« de publicaQao. 

t A obra foi crescendo, e, a proporgao que aviiltava , foi 
« tambem crescendo o desejo de a emhellezar com algumas 
' descripQoes brazileiras, com algumas pliUuras do nosso 
« paiz: mostrei-a, qiiando regressci a csta casa, a algans 
« dos nossos bons e illiistrados companheiros ; moslrci-a 
« tambem a alguns dislinclos seciilares, e todos me animaram 
« a progredir e a publical-a ; level nesta piib'icac-ao mais o 
« desejo de testemunbar a minha devoQao a Virgcm Nossa 
« Senhora, do que o amor da gloria mundana ; evosbem 
« sabeis , pois a minha vida foi o fiel retrato da minha 
« alma. 

« Arrependi-me de a ter publicado , porque fui o primeiro 
« a reconhecer suas imperfeigoes, logo que sahiu a luz: e 
« muito mais lamentei a minha precipitagao, quando ouvi 
« a opiniao dos sabios : era ja tarde. que fazer para desfazer 
« um erro? Mclhoral-a; c fiz quanto pude para isso, como 
se ve ahi. OsGregos, quando escreviam nas suas obras 
— fazia — ,tinham todaarazao; porque as obras cl'arto 
nunca se acabam, e o bomcm morrc fazendo as ; ha sempre 
que corrigir , ha sempre inccrtezas e mui fundadas des- 
confiangas da propria capacidade. 
« Aqui esta um filho que me fez passar dias mui felizes 
e tormcntosos durante a sua formagao: aqui esta a sentenga 
terrivel do que fui na terra, c o documcnto da minha in- 
capacidade. Nao me arrependo inleiramcntc de o ter es- 
cripto ; porque nelle esta o nome da minha Santa Virgem , 
porque nelle ha o men amor pcla minha patria. Nao o 
posso reimprimir; scja feita a voulade de Deos (1). » 



(1) Carta do Sr. Porto-Alcgrc ao Sr. Dr. Lagos, iiiscita na lUvisU Tri- 
mens'd do InsVawU) llislorico (icograpliico do Drazil , lomo lU, n. 12 da 2* 
seric , pags. 5Zi/i — 5i5. 



JUIZO ACERGA DO TOEMA — A ASSUMPCAO. 45 

Neste testamenlo lilterario, stenographado das inlimas 
pralicasde Monl'Alvernc, pelo distinctoaulor dnsBrazilianas, 
assistiram os leitores a formanao do i^oGin^id-d Amimprdo , 
c penetrarain no segredo das dores c alegiias que por 
sua causa experimentou o padre-mestre Fr. Francisco de 
S. Carlos. 

Alem de uma infmidade de criticas anonymas, consla-nos 
que dous liomens notaveis (o conego Januario e Ledo) se co- 
cuparam com a analyse da obra, e a sous conselhos refere-se 
certamente o poeta nas palavras acima citadas. Pena e que 
nao nos reste o seu juizo, ao qual de bom grado subm'el- 
teriamos o nosso. 

Quaes sao, porem, os defeitos que se podcm objectar 
contra o poema dsi Assumpcao ? Examinemo-Ios com impar- 
cialidade. 

Rescnte-yc a acrao de ccrtafrieza e monotonia: mas a na- 
lureza do objecto nao permitlia que o poeta procurassc 
agradar a todos OS paladarcs, variando a cada passo de si- 
tuapoes, e imprimindo a marcha do poema uma vivacidade 
pouco consentanea com o assumpto. Lembremo-nos que S. 
Carlos escrevia urn poema sacro , e nao imitava o Orlando 
Furioso de Ludovico Ariosto. Aos que se queixam da mono- 
tonia da Assumpcdo recommondamos a leitura da Messiada, 
tao applaudida na Allemaidia , e eslimada no mundo lilte- 
raj'io. 

Peccoii contra as unidadcs de tempo e de li(gor.~Con- 
fessamos que, a qucrer pautar este lindissimo poema pelos 
preceitos estabelecidos na ir/(? Poetica de Aristolcles, im- 
possivcl sera deixar de censurar-lhe o haver collocado no 
cspac-o a sua acgao , nao assignando-lhe um pcriodo de du- 
rarao detcrminado. 

Para dcfcsa do poeta, basla porem que altendamos 
a sua dcclaracao de nao ter querido fazer uma epopea, 
para a qual foram estabelecidas eslas rcgras , que nao sao 



46 REVISTA BRAZILEIRA. 

por lal rnodo infalliveis, que nao tcnham sido com vanlagem 
violadas por grandes engenhos, como por excmplo Dante c 
Milton. 

Confandc o sagrndo com o profano , c recorre a miuclo aos 
(leases da fubula. — E' um grave defeito , mas filho da edu- 
cacao litteraria que cntao so reccbia. Travava-se no espirito 
dos poetas acerbo antagonismo entrc as reminiscencias clas- 
sicas e as crengas rcligiosas : — Dante, Tasso, Milton e Ca- 
moes pagaram o !i ibr.to as ideas do sen tempo, e admitliram 
em sons immortaes pocmas o amplcxo do christianismo com 
a mythologia : partindo todos do falso principio dc que sem 
Olympo nao podia haver poesia. Como o cantor dos Lu. 
siadas, conbccia S. Carlos a impropriedade das imagens 
pagaas ; o que sc colligc destes versos , que se encontram no 
canto 111: 

« Nao dirci que no amago d'annosa 

« I'"aia sc rrcciidc Driac'a foiniosa : 

« Que OS Iravcssos capiipedos dao saltos 

« Na canipina , allcniando bailcs altos; 

« Que as Napc-as biincando pelos prndos , 

« Sens rises Ihes consagram, sens a};rados. 

« Ncm que o velho Silcno, hoiuando os vclhos, 

« Dicta ao joven Tliionco almos conselhos. 

« Niio , so picsidcm anjos lutclaros 

« Quo, do logar dissipam os pezarcs. « 

mas cmpregnva-as como ornato poctico. « A ninguem c 
dado, disse judiciosamentc Yillenain , ir adiantc do sen 
secnlo. » 

Muiias das siias dcHripvues , como , v. (j. , a do inferno, 
sao visivelmente imitadas. — E' fnra de duvida que assim c : 
a poucos cabc em partillia a originalidade. Ninguem pre- 
lendeu jamais elevar Fr. Francisco de S. Carlos a catcgoria 
dc gcnio ; mas, contcntamo-nos com marcar-lhe um distinclo 
logar enlre os fecundos c primorosos ongenlios da nossa terra. 



JUIZO ACERCA DO POEMA — A ASSUMPCAO. 47 

Dcscobrem-se os signaes de suas muilas e variadas leituras 
nas paginas do sen poema. Imila o que acha do bom nos 
que llie precederam , mas iiao copia servilmcnte : c se a 
imitacao fosse um crime, a ^neu/a merecera ser queimada 
pela mlio do algoz. Infinidade de poetas tcm descripto o 
inferno , guiando-se por Homero e Virgilio ; so Dante apartou- 
se da vereda , e conscguiu ser inimitavei. que ha cm lodas 
as lilteraturas, que scja comparavel ao supplicio de Ugolino? 
Mas Orestes de Florenga acliava-se em circumstancias ex- 
cepcionaes : vagava de cidade em cidade , e fustigava com 
azorrague da satyra a geragao passada e a geragao pre- 
sente. 

Stio demasiadamenie lojigos os episodios. — No nosso fraco 
entender, a maior belleza do poema consiste ncsses mesmos 
episodios. assumpto , posto que de sum mo interesse para 
as almas pias, correria perigo de tornar-se enfadonho para 
com mum dos leitores , se o poeta nao descobrissc nos 
episodios maneira de attraliir sua atten^ao, erecrearasua 
phantasia. Fallando em episodios, nao emitliremos como 
prova da franqueza com que procedemosacste juizo a ma 
impressao que causou-nos a pintura do sonho deDcmctrio, 
na narragao da Virgem , pela mal cabida apparicao de Diana. 
Gonvinha que a humilde habiiadora de Nazareth , criada a 
somijra do lemplo de Jehovah, fosse menos erudita na scicncia 
profana, do que parece em lodo o seu discurso dirigido a Elias 
e a Enoch, e principalmentede sens labios nao parlisseamenor 
allus'o aos deuses do paganismo, cujo cullo seu Divino Filho 
viera deslruir. 

Aqui so pode desculpar-se o poeta franciscano com o muito 
conliecido 

Quandoqne bonus donnitat Ilomenis. 
Horatius. 

Monolnna p. faliijante 6 a sun metnfica(}ao. — A primeira pa- 



48 REVISTA BRAZILEIRA. 

f^ina (Ic loilnra do pocma convenccra ao leilor da juslira dcsta 
censura. Lcvado por uma pasmosa facilidade em encontrar 
coiisoauics , c vcndo por oiitro lado que os melhores poetas 
portugiiezes haviain buscado na rima a nielodia que tanlo os 
caracterisa, cahiu S. Carlos no exccsso , e abusou da rima. 
Primeiro que ningucm conheceu o poeta o erro em que 
cabira, como sc deprebcnde destas palavras do seu prologo : 
« Servi-mc dos versos cndecasybabos, ou beroicos rimados, 
« dous e dous, por mais commodo e facibdadc. Tenbo nos 
« nacionacs alguns exemplos, noscslrangeiros infiuilos. Que 
« estes sejam os versos pioprios para cantar grandes suc- 
« cessos , ja o disse Iloracio , remetlendo-se a llomero : — 
« Res gesta , rcgumque ducumque , ct trisiia bella, etc. E' 
« verdade que a rima dous e dous, ou o similiter desincntia 
« dos latinos, concorre pouco para a bella eupbonia da 
« melrificaQrio era vulgar. Dei tarde por este erro ; e as vezes 
« ba males que sao immedicaveis. » Se somos bem infor- 
mado, teria na nova edigao desapparccido este inconve- 
niente, se o poeta a tivesse feito cm sua vida, ou se cir- 
cumstancias, que logo cxaminaremos, nao obstassem o cum- 
primcnto do seu volo. 

Escaparam-lhe lonimes prosnicas e 7ido poucos gallicismos. 
— Encadcado ao pesado jugo do metro que adoptara , nao 
rcstava ao poeta tempo para pesar o valor de cada palavra e 
accepgao em quo devera lomal-a. Assim, pois, sabiram da 
sua penna termos improprios, como sejam os verbos aj/war, 
avinagrar , dizendo no canto II : 



« Conhecciam os anjos que a anarchia 
« Do inferno viiiha aguar sua alegria ; 



c no canto V 



« E (iviniifjrando aqnello saiilo riso , 
« Convcrleu cm inferno o paraiso. » 



JUIZO ACERCA DO POEMA — A ASSUMPCAO. 49 

e muilos outros. A respeito dos galUcismos, que infelizmente 
abundam ncstc bsUo livro, podcmos dizer que c este um 
defeito mui generico, ainda aos uossos melhores escriplores, 
originado pela sua grande applicaQao a lilteratura franceza, 
com mcnosprego da nacional. 

Tendo assiin feilo o inventario dos defeitos do poema, 
pelo que podemos julgar, indiqueinos tambem algumas das 
suas infinitas bellezas , que Ihe servem para remissao. 

maior merilo que para ncs tern a Assumpgao e o de 
ser um poema eminentcmentc nacional : um desses poucos 
mouumentos , que nos legon a geraglio passada para a for- 
magao da nossa iilteralura. N'uma epoca em que os bardos 
brazileiros volviam as suas vistas para alem do Allantico , 
em que so acbavam o Tejo, o Douro e o Mondcgo digiios de 
seus cantos, suspirando eternamenle pela fabulosa Arcadia ; 
quando Santa Rita Durao emprcgava a medo os termos brazi- 
licos ; quando Glaudio Manoel da Costa escrevia no prefacio 
das suas obras : « A desconsolagao de nao poder substa- 
< belecer aqui as delicias do Tejo , do Lima e do Mondcgo, 
« me fez entorpecer o engenbo dentro do mcu bergo ; mas 
« nada bnstou para deixar de confcssar a sen respeito a maior 
» paixao ; » Fr. Francisco de S. Carlos deparava com um 
oceano de poesia nas comparagocs patrias, nas allusoes aos 
nossosusos e costumes; coUocava noparaizo os nossos fructos, 
para ter occasiao de descrevel-os; e encontrava em um dos 
emblemas do canto da Virgem a pintura do Brazil, e espe- 
cialmente do Rio de Janeiro. Quando oulro merito nao tivesse 
poema da Assuinpcdo, bastaria esle para recommendal-o a 
posleridade. 

Com que delicadeza nao nos descrevc elle o Paraizo em que 
Elias e Enocb aguardavam ba tantos scculos a vinda do 
Messias? Inspirado por dous poderosos sentimcntos, que 
quaes duas musas equilibravam o seu cstro , o amor da rc- 
ligiao e o da patria , o vatc flaminense deixou-nos no seu 

a. c. III. U 



50 RKVISTA BRAZILEIRA. 

canto III urn qiuuJro l1i3 iiieslimavel valor, abrilliantailo pelo 
mais lino colorido. E sc d"cntro tantas bellezas se pudesse 
espccialisar uma, nicncionariamos a graciosa niL'tamorphose 
da grinalda da Yirgem cm conslellagao. 

No canto V recommenda-se , pela sua originalidade , a 
pinlura da niorte , em que o poeta , encarando-a conio 
philosopho christao , empresta estas pala\ ras a sua lieroiua : 

« Para mim direi sempre que foi bella , 

M Alto dom do Senhor risonha estrella , 

« Mensageira do c^o , giiia segiira 

« Qiie me arrancou das maos da desventiira. » 

A narrativa dos uUimos momentos da Mai de Decs, que se le 
nesse mesmo canto, exhala agradabitisslmo perfuuie, e 
foi dictada pela mais pura devogao. 

Sempre Brazileiro , nao perde occasiao de fallar em sea 
paiz, e viajando mentalmente pelas constellagoes do zodiaco, 
aproveita-se do ensejo para commemorar com admiravel 
exaclidao e em riquissimos versos a moagem das cannas, que 
comecam no mez de Junho. 

Nesse mesmo VIII e ultimo canto deparara o leitor com 
a formosa imagem de Astrea , que, sahindo ao encontro de 
Maria, declara que ella nunca f6ra mais do que uma figura, 
e que o verdadeiro symbolo da justiga e da paz era a Uainha 
dos Anjos. A fallade Jesus, que se ve poucas paginas adiante, 
produz melbor effeito , e distingue-se pela perfi'ita allianga 
da dignidade do Deus com a ternura do Filho. Finalmenle, 
a descripgao dos muros da Jerusalem celeste muito abona o 
bom gosto , e conhecimentos estheticos do nosso bencrnerito 
palricio. Mas, ao largar a harpa de Siao , em que tao nobre 
e santamente canlara, queixa-se, cumo outr'ora o cantor 
Co Gama , do pouco caso que delle faziam seus contem- 
poraneos , ncstes melancolicos versos : 



JUIZO ACERCA DO POEMA — A ASSUMPCAO. 5 1 

« Vale-me agora , 6 musa , tu somente , 
« QiK s6 me tens Talido at^ o presente. 
« Que aquelles mesmos que nos meus suores 
B Devedain ter parte s3o peiores. 
« Stsrdos se tern mostrado e indifferentes 
« A iSo nobres vigilias. Ve que gentes, 
« Que estima pelas musas , que alto brio 
« Produz do teu Janeiro o illustre Rio. » 

Antes de concluirmos o nosso imperfeito trabalho, digamos 
duas palavras sobre esta nova ediQao. 

Como viram osleitores no extracto da carta do nosso douto 
amigo Sr. Porto- Alegre , deixou S. Carlos correclo o seu 
poema , que a morle Ihe vedava de novamente publicar, 

Consla dessa mesma carta que o padre-inestre Mont'AIvernc 
Ihe pedira para ser editor, ao que se recusara o illustre 
moribundo , allegando que ja delle fizera doagao a uma sua 
irmaa. Mais tarde o conego Januario procurou obter dessa 
senhora a obra emendada , offerecendo-lhe todos os lucros 
da empresa , ao que se recusou ella , pedindo pela cessao 
dos manuscriptos a quantia de doze contos. Nao foi portanto 
avante o projecto do conego, que por experiencia sabia quao 
ruinosas sTio para os homens de letras no Brazil as empresas 
desle genero. 

Annos se passaram sem que ninguem mais fallasse no 
poema da As,sumpQao,e, quando algum bibliomaniaco o men- 
cionava, nao faltava quern levantasse as espadoas exclamando : 
E uma obra mystica , horrwelmente massante ! 

Cumpre nao olvidar o generoso esforgo do nosso illustrado 
amigo Sr. J. Norberto de Souza e Silva, a quern tanto devem 
as letras patrias ; o qual, desejando quebrar os sellos do 
indidei'entismo , trasladou para as columnas do Mosaico 
Poetico, que redigia , o poema de que nos occupamos. 

malor descuido , a mais gelida apathia continiia porem 
a perseguir tao estimavel producgao litteraria; poucos a lem, 



52 RE VISTA BRAZILEIRA. 

quasi ninguem Ihe tributa a devida homenagcm. Ate quando 
darara tao cruel marasmo ? 

Ousamos esperar que a opiniaopublica seergueraemfim do 
seu lethargo, e que breve soara a hora em que justiQa se 
faca ao poeta seraphico , que tao bello monuuiento legou a 
posteridade. Sabemos que uma nova ediQao se Ihe prepara , 
e queoseueditor dispoe-se acorrigir os innumeros crros de 
impressao , que afeiam a de 1819, illustrando-a com notas, 
para melhor intelligencia do texto. Oxala que feliz exito coroe 
tao louvavel intento! 

J. C. FeRNANDES PlNlIEIRO. 



HISTOWA 



Galileo e a Iniiuii>lfao. 

Passavam por axioma historico as torturas que contra Galileo 
ordenara a Inquisigao de Roma , para extorquir-lhe a relrac- 
tagao de scu systema acerca do movimento da terra, e andava 
em todas as bocas o famoso epur si muove , sublime protesto 
da consciencia contra a oppressao ; veio porem a philosophia 
da historia demolir o vetusto monumento tradicional, e der- 
ramar a liiz da critica sobre este importantissimo ponlo dos 
fastos do espirito humano. 

A publica^ao das pe^as do processo de Galileo, incumbida 
pelo SS. Padre Pio IX a monsenhor Marino , a das Cartas 
dos homens illustres da Toscana , feita por Fabroni e repro- 
duzida com grandcs melhoramentos por Venturi nas suas 
Memorias sobre Galileo , excellentemente compiladas n'um 
bello trabalho do illiistre Biot, inserto no 3° volume das suas 
Miscellaneas scientificas e litterarias , nao deixam a menor 
duvida a tal respeito. 

Pon lo em contribuigao tao luminosos escriptos, e cingindo- 
nos principalmentc as deducgoes do sabio francez, vamos 
c\[)6v II verdade no processo de Galileo. 

Remonlemo-nos a epoca cm que, havendo deixado Padua , 
onde sc acliava sob a poderosa egide do senado de Veneza , 
e dirigindo-se a Toscana, seu paiz natal, a solicitagoes do 
grao-duquo Cosmo II, suslenlou publicamenle a tlicoria plane- 



54 RE VISTA BRAZILEIRA. 

laria de Copernico, debellaiido com irrespondiveis argumentos 
systema astronomico de Plolomeii. 

Como soe acontecer na apparigao das novas ideas , revoUou • 
se empirismo, dividindo-se em dous campos os seus adver- 
sarios. 

Accusavam-no uns de visionario, e averbavam-no oulros 
de herege , per atacar as verdadesda Escrijitara. Deb:ilde , 
para difender-se dcsta ultima arguiviio , enderegoa elie em 
1616 uma carta a graa-durpieza de Toscana, Christina de 
Lorena, na qual pretendia provar iheologicamenle que as re- 
centes descobertas relativas a constituiQ.ao do universo po- 
diam-se maravilliosamente conciliar com os lermos da Es- 
criptura. 

Exacerbou cada vez mais o odio dos sens conlrarios , as 
transacQoes que com elles qucria fazer o dislincto astronomo , 
que viu-se conslrangido a comparecer peranle o Santo Officio 
de Roma. 

Nao valcram a Galileo seus protcstoi , nem as suas sup- 
plicas ; e a congregagao dos cai'deaes , nomeada polo Papa , 
emitliu o seguinte juizo : a Sustentar que o sol esta collocado 
m immovel no cenUo do universo , e uma opiniao absurda, 
« falsa em philosophia e forinalmenle herelica, por ser ex- 
« pressamente contraria as Escriptiiras; e sustentar que a 
<i terra nao se achasituada no centro do universo, que nao e 
« immovel , e sim sujeita a um movimento diario de roiacno, 
« c igualmente uma proposigao absurda, falsa em philo- 
« Sophia, e erroneana fe. » 

Tal foi resultado da residencia do sabio florentino na 
capital do mundo christao , durante os seis primeiros mezes 
do anno de 1616; e;n cujo lapso de tempo escreveu uma 
scrie de cartas ao sccretarlo do grao-duque Curzio Picchena, 
excellcnte homem e inlimo amigo seu , em que narra suas 
attribulagoesdc cspirito e desanimo ; se ii comludo coaliar-lhc 
por cscripto a serie de intrigas e mensios dj jy[iic era viclimg^ 



GALILEO E A LNQUISICAO. 55 

Dc volta a FlorenQa , prosoguiu cm sous Irabalhos com 
maior cantela , exposto constantemenle as suspeitas da In- 
quisic'io Romana: e assim decorrerain os annos , que me- 
diaram de IGIG a 1G23, abrangcndo os pontificados de 
Paulo V e Gregorio XV. Sabendo porcin que a 6 de Agosto 
de 1623 subiraa cadeira de S. Pedro o cardeal Maffeu Bar- 
berino , dcbaixo do nome de Urbano VIII, e recordando-se 
da affeiglo que outr'ora Ihe teste munhira, admittindo-o em 
sua familiaridade, ediiigindo-Uie ate u;na mui lisongeira carta 
acompanhada de versos latinos em seu louvor, pensou haver 
raiado para elle o sol da esperan^a. Nem infundada era essa 
conjeclura , prtis que endereQaiido o Papa a 8 de Julho de 
1024 uma carta de saudagao ao grao-duque, e nella enume- 
rando as glorias da Elruria, nao omlltlu as descobertas as- 
tronomicas de Galileo. 

Encamiiihou-se portanto a Roma na doce espectativa de 
oblor a revoga^ao da sentenga que condemnava a doutrina de 
Copernico; bem depressa, porem, convenceu-se de que nao 
g )sta de de?dizer-se cssa corte. 

Como particular, pendia Urbano VIII para o systema peri- 
patelico; e conservava como ponlifiue uma decisao que en- 
tendia dictada pela prudencia ecclesiastica : rcccbendo por 
consequcncia o scu antigo amigo com a maior affabiiidade, 
faze'ido-lhc presente de quadros , medalhas, agniis Dei, etc.^ 
com) prnpri') Gillleo confessa en uma das suas cartas, 
nao a [uiesceu aos seus desejos scientificos. 

Profunda porem era a convicQao de Galileo, nao Ihe con- 
senlindo scu espirilo in luicto o abandonar a arena. Pensando 
poder abrigar-se assaz com o myslico veo de um religioso 
zelo , compoz os seus famosos Dialogos, em que comparativa- 
mente disciUia os syslemas de Ptolomcu e de Copernico, na 
inlencao, dizia elle, de moslrar aos estrangeiros que o salutar 
edicto , que proliibia ultimo, fora promulgado em Roma 
com perfeito coulicciiiiciito de causa. 



56 REVISTA BRAZILEIRA. 

Sem ncnhum npparato scienlifico, sao esses Dialogos uma 
conversa enlre duas pcrsonagens de Florcnra e de Veneza , 
c uin terceiro interlocutor, que com o nome de Simplicio 
encarrega-se de reproduzir os invenciveis argumcntos dos 
peripateticos, desempenhando cada qual o sen papel com 
summa habilidadc. Uepresenta-nos os dous primeiros actores 
dotados de grande inslriicgao, e sem preconccitos ; discu- 
tindo , examinando, propondo suas diividas, e so se rcn- 
dendoaevidenlos razoes. E' pe!o contrario o bom Simplicio 
inteiramente cscolastico, so admitlindo o sen Aristoleles , 
e julgando da verdade e do erro das materias conforme as 
assergoes do seu infallivel niestre. 

De extrema argucia necessitava Galileo para fazer imprimir 
e correr a sua obra : nao sabendo sc deveremos admirar mais 
a concepgao engciibosa dos sens Dialogos, ou se o modo fino 
e delicado com que illudiu a censura. 

Emprehendendo uma viagcm a Roma em 1630, procurou 
mestre do sacro palacio e aprescnlou-!he o seu livro como 
uma innocente collecQao de phantasias scientificas , rogando- 
llie que examinasse-as escrupulosameiite , supprimiiido tudo 
que Ihe parecesso suspeito , censurando-o n'uma palavra 
com a maior severidade. De nada desconfiando , leu o pre- 
lado a obra, e deu-a para exammar a urn collega seu, que, 
tambem nao descobrindo cousa que parecessesuspeita, cou- 
cordou que fosse outorgada a licenca para a sua impressao. 

Nao estava poreiu superada toda a difficuldade : restando 
fazer cstampar o livro em Roma, onde os advcrsarios de 
Galileo nao deixariam de descobrir a fraude de q le lan^ara 
este mao. Para noutralisarseus esforcos, lembrou-se o celebre 
mathcmatico de mandar imprimir o seu livro em FlorenQa, e 
tomando por prelexto uma moleslia contagiosa que enlao 
grassava, e que dilTicidtava as communicaQOes entrc as duas 
capitaes, escrevcu ao mestre do sacro palacio , solicilando a 
pcrmissao de inqirimir o seu livro na Toscana, fazenJo-o alii 



GALILEO E A LNQUISICAO. 5? 

iiovaniente examinar. OppOz o prelado algiimas objecgoes, 
talvez ja suspeitando do arlificio, e ao mesmo tempo pediii- 
Ihe que llie rcmettcsse a approvagao, que anleriormente 
concedera, pretextando querer retocal-a. De posse desse 
compromettedor documento , obstinou-se em nao querer 
doYolvel-o a Galileo ; a5)ez;u- tlas suas vivas instaiir,ias , ja 
por si , ja por interniedio do e:nbaixador toscaiio. Perdidas 
as derradciras esperancas, piiblicoa a sua obra em 1632 
com simples bencp!aci!o do censor lloreutino. 

Iiidizivel foi a indignagao que semelhante livro causou nos 
liieologos deRoma, quasi todos peripateticos, nao obstante 
a precaiigao que tivcra o auLor de submetLel-o ao juizo da 
Santa Se, e a despeito das suas assevcrag.oes de apenas pre- 
tender expor philosophicamenle os dous systcmas de Pto- 
loineu e Copernico , scm fazer preferencia cnn-e elles. A 
nada disto attendiam os antagonistas de Galileo , que obsti- 
navam se em nao.ver em sea ultimo escripto senao um trium- 
piio da doutrina do astrononio polaco, reunido a um irri- 
sorio desprezo da condemnagao do Santo Officio. 

Ferido este tribunal em seu amor proprio , ordenou ao 
livreiro que suslivesse a distribuigao da obra , dcixando 
entrever a possibilidade de niais severos rigores. Aterrado 
Galileo com a nova procolla que sobrc a sua cabcca se for- 
mava, recorreu a protecgao do grao-duque, que a 22 de Agosto 
de 1G32 manclou escrever pelo secretario do cstado , Andrea 
Cioli, a seu embaixador em Roma, que intcrviesse em seu 
nome afim de fazer cessar a irritagao suscitada contra um dos 
sens servidores. 

Cinco dias depois respondia-lhe Francisco Nicollni, acre- 
ditado junto a Saula Se , e particular amigo de Galileo : « Nao 
« deixei de dirigir, c;)mo me foi ordcnado, uma nota mui 
« energica cm favor do Sr. Galileo, pedindu i|ue Ihe fosse 
« licilo [)ublicaro seu livro ,ja impresso com approvagao das 
« auloridades ccciesiaslicas , rcvisto e cxamina lo, Lauto aqui 



58 REVISTA BRAZILEIRA. 

« como em Florcmja. ... A ludo islo, porem, liinilou-sc a 
« rcsponiler-mc o cardeal Belariiiino (uni dos principaes 
« membros do Santo Officio e sobrinho do Papa) que Icvaria 
« as minhas representacoes ao solio pontificio , sem cntrar 
« cm mais cxplicacocs , por isso que sao secretas as opora- 
« Qoes do Santo Officio ; tcrminando por cerlificar-me das 
« suasboas disposigoes para com o Sr. Galileo. » 

N'outra missiva, datada de 5 de Setembro , refere Nicolini 
uma conferencia que tivera com o Papa a tal respeito , e a 
profunda indignagao que Ihe testemunhara S. S. para com a 
conducta de Galileo , que buscara i'ludir a Santa Si , obtendo 
subrepticiamente a approvacJio de um livro , cujas doutrin:is 
haviam antcriormente sido condemnadas pelaautoridade da 
Igreja. 

Acham alguiis biographo- a explica^ao dessa implacavel co- 
lera de Urbano VllI contra Galileo na circumst:mcia de julgar- 
se elie ridicularisado na personngem de Simplicio. facto 6 
que nasficqueuter^ pralicns que iivera com o sabio loscano em 
1624 cxpuzera-lhe longamente os arguinentos que no seu 
entendcr devcram fazer prcvalocer o systcma de Ptolomou 
sobre o de Coperiiico : e esses ai-,:;umep.tos deparava-os ellc 
reprodiizidos, reiutados, e acliincaUiadoi uos Dialogos, quando 
postos na boca de Simplicio. 

Poderia ainda achar natural explic:iQ"»o a esse gracejo , se 
nao livesse Galileo a malicia de attribuir ao seu burlesco 
interlocutor eslas palavras de calculado alcance : e^teargn- 
mento devo ea a uma emincntissima e dontissiinapersonagem. 
Ora, essa' emincnfissima e dxitissima pcrsonagem , a que 
Simplicio sc rcferia , nao p dia ser sen'io o Papa. Inde inc. 
Teve ainda durante o resto desse mesmo mez o embaixador 
de Fernando 11 varias conferencias com o Papa e os card.:aes 
do Santo Officio , de que da coula a sua curte, sem que por 
forma algiima pudcsse aplacar os irriiados animos : clie- 
i-'ando a ser admoestado queg lardasse silencio a tal respeito, 



GALILEO E A INQUISICAO. 59 

se nao qucria pessoalmeute incorrer nas ccnsuras iaquisi- 
loiiaes. 

Doze diets depois dcssa singular admocstaQ.ao, iiitimoii o 
inquisidor de Florenga a Galileo a ordem expressa da con- 
gregac'to dj Santo Officio de Roma para que se dirigisse no 
espago de urn mez a esta ultima cidade, afi n do aprcsentar-se 
ao padre commissario do mesmo tribunal, de qacm devera 
receber um certificado. 

Em vao allegoi'. Galileo sua veUiico a'^gravada pelo estado 
valetudinario em que se achava, confirmado pir um atleslado 
do sen medico, enderec^ando-o ao embai.Kador Nicolini. Nada 
podendo obter pclas vias diplomaticas, recorreu I'ls reiteradas 
supplicas ao Papa e aos mais intluentes cardeai's , que alfim 
concederam-lbe uma prorogagao de alguns dias ao prazo 
ulteriormente designado; e n'uma das suas cartas dirigidas 
ao grao-duque em data de 13 do Novembro d^ 163^ narra 
niiudamente as altas diligencias que teve de empregar para a 
obtencao de tao exiguo resultado. 

Demorando-se porem a partidi em raz'^o do mau estado 
de sua saude , escreveu-lbc Nicolini em data de 15 de Janeiro 
de 163 > , instand'j co:u elle pan que se decidisse a e.npre- 
henderaviagem do melhor modoqiiepudesse « porque a!ias, 
dizia elle, temo que nao vos fagam alguma violencia! » Ce- 
dendo a tao imperativas razoes, deixou Galileo a sua pacifica 
residencia d'Arcetri para dirigir-se aUo na , apeando-se na 
embaixada toscana a 13 de Fevereir i desse niesmo anno, 
onde, par insinuagoes do cardeal Barbcrino, coaservou se 
occulto sem receber pessoa alguma, esperand) que fosse 
favoravel a sua causa lal proccder. 

A 27 desse mes ao mez e anno annundava officialmenle 
Nicolini a Urbjuo Villa chegada de Galilei, fazendo vaier 
seus sentimentos de submissao as ordens da a itoridade ec- 
clesiaslica : ao que respjndia-lhe o Papa « que eslava resol- 
vido a Iratal-o com insolita cle.ncncia, per.nllliudo-lhe que 



60 REVISTA BRAZILEIRA. 

residissc em casa do embaixador, em vez de ser transferido 
para o Santo Officio, do que os proprios principos nao eram 
isentos , sendo conduzido urn da casa dos Gonzagas a Roma 
por um familiar do dito Santo Officio , c recolhido a prisao 
durante todo o tempo do sen processo; e que, se de tal sorto 
favorccia a Galileo, era unicamente em considera^;ao para 
com Sua Alteza o grao-duque , a cujo servigo tinha a honra 
de pertencer. » 

Emquanto se preparava o processo nao perdia tempo o 
diligente embaixador florentino , que tendo podido saber o 
nomedoscardeacsnomeiidos para a congregaeao, a que por 
ordem superior devera ser atlecto esse negocio , obteve quo 
sen soberaio escrevesse-llics cartas espcciaes de rccom- 
mendagao cm [)rol de Galileo. 

Em uina longa carta dalada de 9 de Abril, inslrueNicoiiui 
ao grao-du(|ue da delibei'acao do Papa, de mandar recolher 
as prisoes do Santo Officio o accusado (embora por limita- 
dissimo tempo), a desjuMlo das instantes e bumildcs repre- 
sentaroes que contra tal alvitre aprcsenlara. 

Julgamos intiTossaule para o leitoro conliecimenlo integral 
do officio que por essa occasiHo fez o embaixador cbegar as 
maos dosecretario de cstado Cioli. « Conforme a communica- 
« gao que me transfiiiUira o cardeal Barberino, apresentou-se 
« esta manliaa o Sr. Galilc) perante o commissario do Santo 
« Officio, que recebeu-o com as mais bencvolas demoiistra- 
« coes de apreco. Mandou-llie designar para sen aposento , 
« nao as camaras, on gabineies secretos deslinados aos in- 
« diciados , mas a propria residencia da liscal do tribunal , 
« de modo que nao bo liabila ontr.) os olliciaes do Santo 
« OTicio, mas conscrvam-sc-lho aberlas as porlas e ampla a 
« faciildade de pasfear pelo interior do palacio. Julgava o 
« veneraudo anciao podcr regressar na mcsma noitc a esta 
« casa, porquc foraimMiedialamcnte interrogado; fez porem 
<i vor commissario ao meu sccrctario, em cuja compauliia 



GALILEO E A L\QUI31CA0. 61 

fura , que nao ilie era possivel aquiescer a esse pedklo sem 
ulteriores irislruccoes. P6de-se comtudo csperar que curia 
seraademora, porque, conio me fizeram ver os cardeaes 
Barberino e Bentivoglio , c ate o proprio Papa, proccdc-se 
neste negocio por meios inteiraiiiente desusados, em at- 
tengao ao zelo de Sua Allezapelosinteresses da Inquisigao, 
Nao ha exemplo de processes feitos perante esse tribunal . 
sem queos accusados scjam levados as prisocs, e ainda 
mesmo ao carcere ; sendo-lhe de summa utilidade a circum- 
stancia de pertencer a casa de S. AUeza, e haver-se hos- 
pedado na residencia de seu embaixador ; scndo publico 
que OS bispos, prelados e pessoas qualificadas, apeiias 
chegam a Roma , sao immediatamente recolhidos ao cas- 
tello, ou ao palacio da Inquisigao, e ahi guardados com 
exlremo rigor. Permittc-se alem disto que o seu criado 
sirva-o e durma junto delle , que cnlre e saia todas as 
vczes que Ihe apraz ; c, o que e ainda maior favor, que 
seja em minha casa preparado o seu alimcnto , e levado a 
sua camara pelos mens proprios ciiados. Como lodos esses 
obsequies sao feitos em consideragao a S. Alteza, pretendo 
dirigir os meus particulares agradecimentos a S. Santidade 
logo que nosso pobre Galileo se veja livre desse in- 
commodo. Emcjuanlo nao cumpro lao gralo dever para 
com Papa, fal-o-liei para com o cardcal Barberino, que 
diz-me o comm issario, grande interesse ba Icstemunbado 
ao nosso com palriota , contribuindo poderosamente para 
adOQar o animo de seu beatissimo tio. Afflige-se todavia 
Galileo com as delongas, e exaspera-se por estar encerrado 
no Santo Officio. Nao deixarei de insistir , como tenho 
feito ateaqui, para a prompta conclusao dcste processo, 
conformc os meus desejos e intencues do nosso amavel 
soberano. Pa rece que llie proliibiram , sob pena de cxcom- 
munliao, o rcvelar cousa alguma accrca das pergunlas 
« que se Ihc lem feito ; porque ao mcu mordomo Tobmeii 



62 RK VISTA nRA;^lLElRA. 

« nao quiz ncm ao mcnos deixar fallar a scmclliante rcs- 
« peilo. » 

A cste piccioso documenlo comprobalorio da mancira por 
que foi tratailo Galileo pela Inquisigao Romana podemos 
addicionar oulro de nao raenos valor. E' uma carta escripla 
pelo cximio sabio a sou amigoBocchcrini cm data dc 16 do 
Abril de 1633 , na qua) assiin se expressa : « Em virtude da 
« peligao que dirigi a S. Em. o cardeal Barberino, creio que 
« vai tcr aiidamento o mennegocio, com a restricta obri- 
« gagao do mais absolulo sigillo , o que exige que viva en 
« isolado ; gozando porem de intoira libcrdade de acQao c 
« de extraordinarios commodos, tondo a minha disposi^ao 
« tres caniaras que fazem parte do aposenio do fiscal do 
« Santo OlTicio, com franca e ampla faculdade de passear 
« por toda a extensrio desle palacio. Quanto a saude, passo 
« excellenteniente , gracas a Deus, e as preciosas iguarias 
« com que nao ccssa de obsequiar-me o Sr. embalxador e sua 
« virtuosa consorte , que summamenle cuidadosa se tem 
« moslrado em satisfazer com profusao a todas as minlias 
« necessidades. » 

Outra prova da indulgcncia com que foi Galileo tratado 
temos na concessao que Ihe fez o Santo OITk'io de regressar a 
casa do embaixador, quando ainda instruia-se o seu pro- 
cesso , para mclhor niedicar-se dc um ataque de rheumatismo 
que acommeltera. Em sea despacho do 1" de Maio assim 
communica Nicolinl ao grao-duque mals esta graga , que ao 
seu protogido se outorgara: « Honlem , quando menos o es- 
« pcrava, entrou o Sr. Galileo nesta resldeucia, posto que nao 
« esteja ainda findo o seu processo. Cumpre atlribuir este 
« insigne favor ao cardeal Barberino , que a requerimento 
« do padre commissario rcsolvcu , por si mesmo e scm con. 
« sultar a congregacao, rcslituir-lhe a libcrdade, afim de 
« que possa rcstabclecer-se dos seus habituaes incommodos, 
« quo ullimamentc mais se hao aggravado. » 



GALILEO E A LVQUISICAO. 63 

Neste periodo iiitormeaio da cclobre causa de Galileo dou- 
se uma occurrcncia, que essencialrnente caracterisa a indol(3 
dc dous homens, cujos nomes tanlas vozesvemoscitados do 
envolta com o do grandc astronomo. Rcferimo-uos ao em- 
baixador Nicolini , e ao secrelario de estado da Toscana, 
Andrea Cioli. Sabe-se que esteullimo, cujo auimo grosseiro 
e avarento cstigmalisa a hisforia, adminislrava a fazerida do 
grao-duquc, c julgando que Galileo ja estava muito caro a seu 
soberano,eiiviouaodiploinala florentino um dcspacho em 
que se le o seguinte paragrapho : «Ju!go devcr recordar a 
« V. Ex., que escrevendo-lhe para que recebesse na em- 
« baixada ao Sr. Galileo , assignei a cste favor o prazo de 
« um mcz, alem do qual cu:nprc que as djspezas corram 
« por sua conla. » 

A tao sordido calculo respondca Nicolini por eslas nobres 
e cavalheirosas palavras : 

« Roma, 15 de Maio de 1633.— Sr, Galileo passa admira- 
« velmente ; seu processo porem aiuda nao cliegou a conclusao, 
« ficando no emtanto isolado nesta residencia, com o grande 
« desgoslo de nao poder fazer algum exercicio. Quanlo ao 
« que me communica V. S., que entendc S. Alleza nao dever 
« fazer face as suas djspezas alem do primeiro mez, devo 
« signiQcar-lhe que nao me convem entrar em explicacOes 
« com ellc a tal respcilo, cmquanlofur mcu hospedc,*to- 
« mando sobre mim loda a responsabilidade, porisso'que 
« nao cxcedera toda a despeza de 1 i a 15 escudos por mez • 
« e quando mesmo residisse aqui meio anno elle , e o seu 
« criado, nao subiriam os gastos a sonjma de 90 a 100 
« escudos. » 

Rodeado de attencoes e carinbos pela familia Nicolini via 
Galileo approximar-se o desfecbo do drama com crescente 
ancicdade. Novas conccssoes, novos favores faziam-lhe prever 
que a colera ponlificia se ia miligando, e quo pouco teria de 
recolar dos rigorcs inquisitoriacs : assim, por cxemi)lo -il 



64 RE VISTA DRAZILEIRA. 

cauci'n'a sen solicito e dcsvclado amigo que fosse conduzido 
em carruagcm fechada aos jardins da villa Mcdicis para fazer 
liygienico excrcicio. 

Tres dias antes da conclusao do processo dava Nicolini 
minnciosa couta da entrevisla que tivera com o Sanlo Padre, 
c tranquillisava nestes termos ao grao-duqne : « Solicilei 
novamente a lerminagao da causa do Sr. Galileo, c asse- 
gurou-me S. Sanlidade que cstava clla finda, e que no 
decurso da proxima scmana sera die chamado uma manliaa 
ao Santo Officio para ouvir ler a sua sentenga. SiippUquei 
entao ao Summo Pontificc que , em consideragao para com 
S. Alleza Serenissima o nosso soberano, mitigasse os ri- 
gores que a sagrada congregacao julgassc dever usar neste 
caso , accrcscentando mais esta graga as muitas outras de 
que S. Altezatao grato se moslrava. Piespondeu-me o Papa 
que nenhuma nccessidade liuba S. Alteza de incommodar- 
se, havendo ja concedido por sua causa tantas facilidades 
ao Sr. Galileo, Quanto, porem, a causa, ajuntou elle , 
nao e possivcl deixar de prohibir tal opiniao como erronea 
e conlrariaas Sagradas Escripturas, que ex ore Dei foram 
dictadas. Pelo que diz respeilo a suapessoa, conforme o 
uso ordinario , dcvera ficar na prisao por algum tempo, 
por haver desobedecido as ordens que llie foram intimadas 
em 161G; mas que, apenas proferida a sentenga, cuidaria 
nos meios de lornal-a o menos aftlicliva possivel, conviudo 
todavia que alguma demonstracao penal existissc. Repli- 
quei-lbe muilo bumildemenle que se dignasse de altender 
a avancada idade de selenla annos que jA conlava esse 
bom vellio , e a sua perfeita sincerida le (poslo que nao 
fosse esla razao das melbores). Respondcu-me que o 
menor casligo que Ibe poderia infligir seria o de encerral-o 
por algum tem[)0 em algum convcnto, nao havendo ainda 
determinado de que ordem seria elle. Para evilar prece- 
dentcs , quer S. Sanlidade que se lornc l)em publico que 



GAULEO E A IN'QUISICAO. ()5 

« mitigou OS seus rigorcs unicamente em altencao a S. Alteza 
« Serenissima ; e que so por essa razao contiiiuarao a scr 
« facult-adas ao sen prolegido todas as gramas possiveis. Ate 
«.hoje nao annunciei ao Sr. Galileo senao a proxima con- 
< clusao do sen processo e a proliibicao do seu livro , abs- 
« tendo-me de fallar-lhe iia punicao que tera de soffrer, nao 
« so para nao affligil-o , como para obedecer a recommen- 
« dagao do Santo Padre, que nao quer qne o atormcntem, 
« deixando por ultimo entrever a esperanga de ainda maior 
€ clemencia. » 

Chegou finalmenle o dia da leilura da sentenca , que tevc 
logar na igreja da Minerva e com a maior pul)licidade no 
dia22deJunhode 1G33. 

Sc Galileo tivesse sido submeltido a tortura , como preten- 
deram alguns bistoriadorcs , devera ser em epoca anterior ; 
e cremos ter amplamente demonstrado que durante a sua 
primeira rcdusao, isto e, de 1:2 a 30 de Abril , nao recebera 
Galileo nenbum tratamento affliciivo ; resta-nos dar conta do 
que se passou nos dous ultimos dias em que aguardou no 
Santo OlTicio a pnblicacao da referida sentenca , o que fa- 
remos citando o officio com que Nicolini communica ao seu 
governo este acontecimento : 

€ Roma, domingo 2G de Junbo de 1033. — Segunda-feira 
« de noite (20 de Junbo) foi o Sr. Galileo cbamado ao Santo 
« Officio, para onde eucaminbou-se terca-feira (21), e ahi 
€ ficou. Quarla-feira (22) levaram-no a igreja da Minerva , 
« perante os cardeaes e prelados da congregacao , onde nao 
* somcnte leram-lbc a sentenca , como ilzeram-lhe abjurar 
« a sua opiniao. -• 

Tratando da promulgagao da sentenca , e dos factos a ella 
posteriores, prosegue nesles termos : « Deterraina a senlenga 
« a probibigTio do seu livro , c a sua propria coudemnacao 
« nas prisoesdo Santo Officio, durante o tempo que aprouver 
« ao Santo Padre.; por baver desobedecido a intimacao que 

It. B. III. 3 



66 REVISTA DRAZILKIRA. 

« sc llic fizcra a dezcscis annos. Immcdialamentc (subito) 
« commulou S. Sanlidade esla pena cm uma dctcngao no 
« jardim de Trinitd del Monte (Villa Mcdicis) , para onde 
« conduzi-o en scxta-foira (2i dc Junho) , c ondc aclualmcnle 
sc acha , aguardando os effcitos da clemcncia de S. Sanli- 

„ dade Parecc-mc mui affliclo da punicrio pessoal fjiic 

« Ihe fura imposta, c que grandcmcntc sorprcndeu-o ; quaiito, 
« porem , ao scu livro, csperava que fosse esse mesmo o sen 
« . deslino. » 

Se soffresse Galileo a torlura na sessao de 21 de Junho, 
para que conccder-lhe-liia o Papa a graca de ser transfcrido 
immediatamente para os deliciosos jardins da VUIaMedicis ? 
E como teria podido escapar este cruel Iralaiiiento a perspi- 
cacia de Nicoliui , que tantas e lao rciteradas provas Ihe dera 
de sua solicitude ? 

Obteve ainda a prcslante amizadc dc Nicolini que fosse 
abreviada a teinporaria deteng'io dc Galileo na Villa Mcdicis , 
sendo-lhe em poucos dias concedida a liccn^a dc ir residir 
cmSienne, no palacio do arccbispo Ascanio Piccolomini , 
scu velho aniigo. Julgar-se-ha do aprego que fazia o pre- 
lado do sabio pisano pclo seguinte billiele, que cndcrcrou- 
Ihe em data dc 12 dc Junho , convidando-o para a sua 
companhia: 

« A experiencia que lenho do habitual vagar dcssa corlc 
« consola-mc do scnlimcnto que expcrimcnlo em ver rc- 
« tardar-se o instante cm que sera a minha casa honrada 
« com a vossa prescnga. Como porcm as ultimas intcncocs 
« manifcsladas por S. Sanlidade piomettem-vos promi)la c 
« favoravcl solugao , podcrcis langar m'lo dc uma litcira, ou 
« de qualqucr oulro meio dcconducgao, ccrlo dasminhas 
< boas disposigocs em scrvir-vos : nao ambicionando cu outro 
« lilulo scnao dc vosso verdadciro c sinccro ami go. » 

Pude alfim Galileo dcixar Roma quarla-feira dc Julho dc 
1633, c a 10 escrcvia Nicolini a sua corlc : >< Sr. Galileo 



GALILEO E A INQULSICAO. 67 

'^ parliu quarta-fcira passada em mnito boa snucle para Sienne, 
« c manda-mc dizcr de Vilcrbo quo andou qiiatro m'dhas 
« a pe com um tempo fresqiiissimo. » 

E' indiiljitavel que um vcliio, que por prazer da lao grandc 
caminhada a pe , nao pudc scr o mesmo que quinze dias antes 
tivesse experimenlado os horrores da tortura. 

Para lerminar a odyssca de Galileo, diremos que apus 
cinco mczes de residcncia em casa do sou rcspeitavel amigo 
arcebispo Piccolomini, tornou em principios de Dezembro 
de 1633 a sua predilecla habitacao d'Arcetri , navizinhanga 
de FlorenQa , com a exprcssa condigao de recebcr a pouca 
genie e de ni^o reanir assembleas academicas. 

Confrontemos agora as pegas do processo de Galileo ; vc- 
jamos que se passou nos qualro interrogatorios a que tcve 
de responder. 

Teve logar o primeiro a 12 de Abril com as formalidades 
iisuaes; e pergunlando-lhc o commissario sc sabia por quo 
razao fora chamado a Roma, respondeu: « Julgo que e para 
tt dar conta do livro que uUimamenle publiquei. Assim o 
« julgo, porque, poucos dias antes de ser intimado a com- 
« parecer em Roma, foi recommendado , tanto ao livreiro , 
« como a mini, de nao expormos esse livro a disposigao do 
« publico; recebendo alem disto o livreiro ordem de remetter 
« original ao Santo Officio de Roma. » Sendo instado para 
dizcr qual era o livro que suspeitava haver-lbe causado tao 
grande incommodo , disse : « E' um livro cscripto cm dia- 
« logos, versando sobre a constituirJio do mundo, dos dous 
« grandes systemas (astronomicos) , e da organisagao do ceo 
« e dos elementos. » E scndo-lbe moslrado um livro inti- 
tulado — Dudogo di GalUeo GaUlei, Linceo, etc. — , impresso 
em Florenca cm 1G32, rcconheceu-o como scu, composto ha 
dez ou dozeannos, c cm cuja composicao cmpregara seto 
ou (tilo. 

Interi'Ogando-sc-lhc por (jiie niotivo niio dcclararu ao inei^/re 



08 RFA'ISTA BUAZlLEinA. 

do sacro palacio a inliniaciio qiicllic fizcra cm 1010 ocnrdcal 
Belarmiiio, ropliiou « que nao liiilia no rcferklo livro sus- 
« tenlado, ncm defendido a opiniao da mobilidadc dalcrra 
« e da eslabilidadc do sol, demonslraiido anles a opiniao 
« conlraria, c quae dcbcis c inconcliidentes {^ono invalidi 
f. e non conclndenti) cram os raciociiiios de Copcrnico. » 

Rcuniram-se novamcnte os juizcs dclegadosno dia 30 dc 
Abril , e, segundo o tcslcmunbo de monscnbor Marino , foi 
essa sessao em grande parte occiipada por urn discnrso de 
Galileo, em que confessava humildcmenlenao se liavcr cstric- 
tamente conformado com a prohibicao que oulr'ora Ihe fizcra 
Santo Officio de sustcntar e ensinar quovis modo a ja con- 
dcmnada opiniao da niobilidadc da terra, desculpando-se 
dessa lalta pelo natural pendor que tem os aulores dc dialogos, 
de fazcrcm fallar a cada personagem com loda a forca e sub- 
lileza imaginavcis, em prol da opiniao que se llicsatlribue. 

Pensando escapar a acgao judiciaria por uma nova sub- 
lileza, offcreceu-sc para accresccntar duas novas conferencias 
aos seus Dia]o(jos, em que refutaria de modo inconteslavcl 
a opiniao ccnsurada pcla Igreja. Baldado foi mais esse cs- 
forco do seu agudo engenbo ; pois que nao quizcram os juizcs 
aceitar o paclo que Ihcs propunba cm troca da suspirada 
liberdade. 

A 10 de Malo recebcu oulra inlimaclio para comparcccr 
perantc os juizcs proccssantcs , significando-sc-lbc que aprc- 
senlasse dentro de oilo dias suas razocs dc dcfcsa si quas 
facerc vidt , ant intendit. A scmclbanle intimacao rcspondcu 
accusado : « Ouvi o que me acaba de dizcr V. Rcvcrcncia : e 
« por unica defesa , c afim de moslrar a sinccridadc c pureza 
<c das minhas intencucs , sem pretender couiplclamentc des- 
t culpar-mc dc haver cabido cm algum crro, cnlrego-Hic 
« cste cscriplo, acompanbado dc um alleslado firmado pelo 
« cardcalDclarmino; confiando absolulamcntc nabondadcc 
. dcmcncla do tribunal. » 



GALILEO \i A INOIJISICAO. 00 

ullinio intciTogatorio fcz-sc a 21 tie Junho. Comparc- 
ceiido nesse tlia Galileo ante os officiaes da InqnisiQao, foi-llic 
perguntado desdc que tempo tinha d'c por verdadeira a opi- 
niao de Copernico'? Disse : « Anligamente, isto c, antes da 
« decisao tomada pcla sagrada congrcgaoao do Indice , era 
« eu indilTerente as duas opinioes de Ptolomeu c de Copcr- 
« nico, porijiio ambas podiam ser verdadciras de facto (in 
« natiira) ; mas, desde que foi detcrminalo este ponto pela 
« prudencia das autoridades ccclesiaslicas , cessou em meu 
« ospiiito toda a ambiguidade , c cu tive e tcnho por ver- 
« dadeira a opiniao de Ptolomeu; isto e, a immobllidadc da 
« terra e a mobiiidadc do sol. » 

Havcndo-sc-lhc objectado que depois da citada epoca se- 
guia elle a doulriua reprovada, haveiido impresso o livro dos 
dialogos, rctorquiu : « Quanto ao livro dos dialogos, comecei-o, 
« nao porque tivesse por veridica a opiniao de Copernico , 
« mas tao somente na persuasao de ser util ao publico, ex- 
« pondo Ihe as razoes naturaes e astronomicas, que podem 
« ser produzidas , tauto por esta, como pela de Ptolomeu: 
« procurando provar que nenhuma deltas tem a lorca de 
« argumenlos demonstralivos ; convindo , para proceder-se 
« com seguranca, recorrer a determiuacao tirada de mais 
« subliuies doutrinas, como manifestamente se ve em muitos 
« logaresilos dilos Dialogos. D'onde conckio que , depois da 
« referida decisao emanada das autoridades superiores, nTio 
« segui, nem sigo a opiniao analhematisada. » 

Terminados os interrogatories, baixou a sentenca, de que 
ja demos noticia, e cuja Integra, assim como da a abjuracao 
de Galileo, damos cm additamciUo. 

Por esta singela exposigHo do que realmcnte passou-se no 
famo.^o processo de Galileo , verao os leitores que nenhuma 
outra tortnra sonVcu o eximio astronomo senao a que devera 
rcsullar ao sen csi)irilo, csscncialmcnte livre, da abjurnQao 
das suas mais intimas e pi'ofinulas couvicroes, sendu con- 



70 REVISTA BILVZILEIRA. 

demnado a subscrever ao erro , tcndo em suas nuios a tcmha 
da vei'dade. 

Ve-se ainda que o celebre e par »i imiove e nma dessas 
phrases felizes e de circiimstancia , (iiio jamais foram pro- 
iiunciadas. Nenhuma leslemunha ocular , nenliiim contem- 
poraneo fazem della niencrto , dcmonslrando a humikle atti- 
tude de Galileo, seus proteslos e relraclacoes , que tinba 
bastanle pressa de respirar ares livres, nao podendo passar- 
Ihe pela menle o provocar de novo as iras de um tribunal , 
de cujas garras tao felizmeute escapava. 

J. C. FiiRNANDES Pl.NlIElrtU. 



SENTENCA DOS CARDEAES CONTKA GALILEO , SEGUIDA DA AbJUKACAO 
DO MESMO , EXTRAHIDAS DO — XOVO-ALMAGESTO — DH J. B. BIC- 
CIOLI. 

N6s Caspar Borgia, do titnlo de Santa Cruz de Jerusalem. 

Fr. Felix Centino de Asculo, idem de Santo Anastacio. 

Guido lienlivogiio, idem de Santa Maria do Povo. 

Fr. Desiderio Scaglia, idem de S. Carlos, cbamado de Cro- 
mona. 

Fr. Antonio Barberino , idem de Santo Onofre. 

Laudivio Zaccbia, idem de S. Pedro in Vinculis , cbamado 
de S. Sixto. 

BuM'lingerio Gypsio , idem de Santo Agostiidio. 

Fabricio Verospio , idem de S. Lourencom pane elperna. 

Francisco Barberino , idem de S. Lourenco in Damaso. 

Martinbo Ginetli, idem de Santa Maria-Nova. 

Por misericordia de Deus, cardeaes da Santa Igreja Bomana 
e inquisidores especialmente noineados pela Santa Se Apos- 
tolica contra a hercsia. 

Tendo sido tu, Galileo , fdbo de Vicente Galileo, florentino, 
dc idade setenta annos , accusado no anno de 1015 a este 
Santo Oflicio , de teres por verdadeira a falsa doutrina de (pie 
osol esla immovel no ccntro do universo, gyrando a terra 



GALILEO E A LVQUISICAO. 71 

cm mil moviiiicato iliiii'iio , ciisinando scmcllumle doiilrina a 
teiisdlscipulos; inantcndo correspoudcncia com alguns ma- 
themalicos allemaes ; publicando algumas cartas accrca das 
maiichas solares, nas quaes explicavas a mcsma doutrina como 
verdadcira , c respondias as objeccocs tiradas das Escripluras, 
que contra ti so faziam , interprclaiido as refcridas Escrip- 
luras segundo o teu enteiidimento ; c conlondo ama de tuas 
cartas dirigidas a um teu anligo discipulo proposigoes con- 
trarias ao vcrdadeiro seiitido e autoridade das Sagradas Es- 
cripturas : 

Querendo cste S. Tribunal prevenir os inconvenientes e 
damnos, que dahi provinham , e cresciam em prejuizo da 
Santa fc, per ordem dos Em. Srs. cardeaes desta Suprema e 
Universal Inquisicao foram qualificadas pelos Tiieologos Qua- 
lilicadores as duas proposicoes rclativas a estabilidade do 
sol e movimento da terra , abaixo mencionadas : 

E' uma proposigao absurdae falsa em philosopliia a de 
cstar sol collocado no centro do unwerso , e sem movi- 
mento alfjiim; aleni de scr expressamente contraria a Sa- 
(jrnda E script ura. 

E' igualmente absurda e falsa em philosopliia , e theolo- 
(jicamente considerada como contraria a Fe , a proposigao 
(piesHstcnta uao scr a terra o centro do unioerso , ncm im- 
movel; sendo antes sujeita a um movimento dinrno. 

Desejaiul) porem procoder para comtigo com toda a bc- 
- nignidado, dolerminou a Sagrada Congregacao, reunida em 
pr^'scnra do Santo Padre no dia 25 de Fevcreiro do anno do 
10 !0, (luc Em. Sr. cardeal Belarmino to intimasse que 
abiura>scs inlciramenle a supracilada doutrina, nao podendo 
jamais ensinal-a, nem dcfendel-a, nem lao pouco Iratar 
della : e so nao aquiescesses ao referido preceilo fosses en- 
carcerado. 

Em cumprimento aodito docrclo, fostc admoestado no 
dia seguinle (;m i)resenca do Em. Sr. cardeal Belarmiiio pelo 



72 HEVISTA BRAZILlilRA. 

commissario entao em exerciclo , pcrantc am notario e tes- 
temunbas, chavendo promcltido que iiiinca mais defenderias 
semelhante doiUrina, neni por palavras, nem por escnpto , 
foslc despedido. 

E para que totalmente se abolissc tao perniciosa doulrina, 
nem jamais causasse gravs deirimeiUo a verdade catholica, 
emaiiou o decrcto da Sagrada Congregacao do Indice , pelo 
qual foram prohibidos os livros que tratam da mencionada 
doutrina, que foi declavada falsa, c inleiramcnte contraria 
a Sagrada e Divina Escriptura. 

Apparecendo porem ultimamente um livro, pablicado em 
Florenca, no anno proximo passado, en c:ijo fronlispicio 
via-se que eras lu o sen autor, tendo por titulo: Dialogo di 
Galileo Galilei, dclle due massimi sistemi del Mondo Tolo- 
inaico e Copernicano , e conbecendo a Sagrada Congregacao 
que da impressao causada por esse Uvro crescia cada vez mais 
a falsa opiuiao do movimento da terra e da cstabilidade do 
sol, foi dito bvro cuidadosamente examinado; e desco- 
brindo-se nolle a Iraosgressao do preccito que te fora inli- 
mado, e que tu no snpramencionado livro dcfendias a opi- 
niao que ja fora condemnada, e como tal em tua prescnga 
declarada ; assim como que nesse mesmo livro , por meio dc 
subterfugios, deixaste indecisa c expressamente provavel o 
que por fm-ma alguma pude scr provavel , depois de haver 
sido considerada como conlraria as Sagradas Escripturas ; 

Por cuja razao foste por ordcm nossa intimado a compa- 
recer perantc eslc Sanlo Officio, onde, depois de bavel-o 
examinado, confessasle dcbaixo de juramento que fora o dito 
livro por li escripto, e mandado inprimir; e coafessaste 
lambem que dez, ou doze annos depois de rcccberes a iati- 
manao supra, comccaste a csjrever esse livro , e que para a 
sua publicaf/io pediste licenca, occuUaiido aos ccusores a 
circumslancia de ser-te defeso o professares , dcfendercs , o 
eu-inarcs por qualquer forma scmelluuUc doutrina ; 



GALILEO E A LNQUISICAO. 73 

Confessaste igualniente quo escreveras o rnforido livro , 
para que o k'itor pndesse julgar os argamentos falsos do que 
se scrviam os adversarios, e coufroutasse-os com os da vcr- 
dadeira doulrina, desculpando do crro e;ii quo caliistc com 
a allegacao d'3 que nos dialogos conviiilia dcixar aos coii- 
trarios suas proprias subtilezas , pmcuraudo sobrcpujal-as ; 

E como, sendo assiguado o coiiveiiicnts tempo para ex.- 
hibires a tua defcsa, apressutaslo o ccrtiQcado aulographo 
do Em. Si', cardeal Belarmino, passado para que te defen- 
desses das calumuias dos teus iuimigos , que propalavam quo 
tu abjuraras e foras punido pelo Sant) Oflicio ; em cujo certi- 
ficado le-se quetunaoabjuraras, nem Wras panido , porem 
somente intimada a declaraeao feita pelo Santo Padre , e pro- 
raulgada pela Saiirada Congregac~o do Indice , na qual de- 
clara-se que a doutrina do movimjnto da terra c da estabili- 
dade do sol e contraria a S.igrada Escriplura , nao podenda 
por isso ser dcfendida nom profcssada. E como nao se fai^a 
ahi mencao da clausula do em'uiar por qaahju.er forma , na- 
turalmente to olvidasto della depois do loiigo periodo de 
quatorze a dczcscis aonos , sondo essa a raz'io de liaveres 
omiltido esse preceito , quaado iaiplorasto a Liculdade de 
imprimir o teu livro ; allegaudo esta circumsUuieia, nao para 
desculpar o teu erro , mas sim para caracterisal-o antes de 
vaidade do que de malicia. Esse mosmo cerlificado, porem, 
aggrava mais a tua causa, em vez de attenual-a ; por isso que 
neile se faz expressa men^ao de ser a dita opiniao contraria 
a Sagrada Escrii)tura, o que nao obstante to alreveste a occu- 
par-te com ella, defendel-a, e arliliciosamcnte buscar divuU 
gal-a, calando aprobibiQao que anteriormente te fora feita; 

Parcccndo-nos , pois , nao eslar bastante:)iontc manifesta a 
tua intencao, indicamos ser necessario que losses submetlido 
a um rigoroso examc, no qual (se n prejuizo das cousasque 
confessaste , e que contra ti so deduzem accrca da tua in- 
tencao) rcspondesle catlijlicim^nlo. Po: cuja :nolivo , ha- 



74 REVISTA BRAZILEIRA. 

ventlo inadiinimcMtc cxaniiiiado c considorado o merccitiicnlo 
dalLia causa, juntamcntc com as luas confissoos c descidpasr 
c tudo mais que por dircito dove ser vislo o atlendido » 
proniinciamos contra ti a infrascripla e definiliva scnlcnQa: 
Porlaiito, invocado o sanUssimo no:ne do N. S. Jesus 
Christo e da Gloriosissiina sempre Virgcin Maria , por csla 
iiossa defmilivasentenra, qa3 [)rol"crifnos ucste tribunal, pre- 
ccdendo ojuizo c consclho dos RR. Mestres da Sagrada Tlieo- 
logia, c douiorcs de um c outro dircito acercada causa pcrantc 
nos controvertida, entre o magniflco Carlos Sincero, doulor 
cm ambos os dircilos, c procnrador fiscal destc Santo Olficio, 
de uma parte , e de outra tu, Galileo Galilei , reo prcsenlc 
inlerrogado c confesso, dizemos, julgamos e declaramos que 
tu, Galileo, pelas razoes que constam dos autos e que livre- 
mcnte confessastc , te tornaste vebementcmentc suspcito, a 
este Santo Officio , de hercsia , por creres e professares uaia 
doutrina opposta as Sagradas e Divinas Escriptaras; islo e, 
(jiie sol cstc'i no ^entro do universo , e que pjdc movcr-se 
do Oriente para o Occidente ; que move-sc a terra, nao scndo 
clla centro do universo ; sustentando mais que scmelhanto 
opiniao podia ser considerada pelo menos como i)rovavel , c 
isto depois de uma forma! declaracao , que a tinlia por falsa, 
e contraria as Sagradas Escripturas ; havcndo por consc- 
qucncia incorrido cm todas as censuras estatuidasc promul- 
gadas pelos Sagrados Ganoncs e mais constituicoes goraes c par- 
ticulares, ordcnadas contra os dclinquenles de taes delictos : 
ordenamos, pois , que para quo possas ser absolvido, abjures 
com animo sincero e delcslesos supracilados erros, e lierosias 
contra a Igreja Calliolica c Apostollca llomana , na conformi- 
dade da formula que Ic sera apresentada; 

E para que scmclhante crro e tiansgressao nao liqui; ab- 
solnlamunlc impune, paraipio no futuro scjas mais prndente, 
servindo do cxemplo a outros , alim de (pie se abstenham de 
semclhantes delictus, 'detenninamos quj [tor [>uWico edicla 



GALILEO E A LNQUISICAO. 75 

seja proliibido o \i\'ro dos Dialogos cle Galileo Galilei, c te 
condemiiamos a seres recolhido a urn carcere cleste Sarilo 
Officio pelo tempo que nos parecer necessario , e ordenamos, 
a litLilo de saudavel penitencia , que recites por esparo de tres 
annos , uma vez eada semana , os sele psalmos penitenciaes , 
reservando-nos o direito de moderar, alterar, ou derogar 
em todo, ou em parte as mencionadas penas e penitencias : 
E assim dissenios , pronuiiciamos , declaramos , determi- 
namos, condemnamos, e reservamos , deste e do mellior 
modo e forma que em direito podemos e devomos. 
Assim pronuiiciamos nos infra-inscriptos ; 

F., cardeal de Ascalo. 

G., cardeal de Bentiooglio. 

F., cardeal de Cremona. 

Fr, Antonio, cardeal de Santo Onofre. 

B., cardeal Gijpsi. 

¥., cardeal Verospi. 

M., cardeal Ginetti. 



ABJURACAO DE GALILEO. 



Eu Galileo Galilei , filho do fallccido Vicente Galilei , flo- 
rcnlino , de idade 70 annos, presente a este juizo e ajoelliado 
perante v6s, EEm. e RR. Srs. Cardeaes, Inquisidores Geraes 
de toda a Republica Christaa contra o peccado da lieresia , 
tendo diante dos meus olhos os Sagrados Evangelhos, que 
toco com as minhas proprias maos, juro ter semprecrido, 
actualmente crer, e com o soccorro de Deus scmpre crer cm 
tudo que ere , prega e ensina a Santa Igivja Catiiolica e 
Apostolica Romana ; declare , sendo-me ordenado pelo Santo 
Officio, que renimcio a falsa doulrina, que pretcnde que 
csteja sol fixo no centre do universe , movcndo-se unica- 
meule a terra , nao podendo jamais professar , defender , o 



76 REVISTA BRAZILEIRA. 

easinar por forma algama a refLM-idadoiitrina, por ser ella 
conlrariaas Sagiadas Escripluras; cscrcvi, e mandei imprimir 
u:n livro em que Irato desta ju condcmnada doutiina, e 
produzo razors cm prol da mesma com grandc eflicacia c scm 
dar nenhuma solucao : scndo por essa razao vchcmentcmciitc 
suspcilo de hcresia. Dcscjando porcm agora afastardos an imos 
de VV. EEm. , e de todos os fieis calholicos esta vchcmentc 
suspcita contra mim conccbida com toda a razao, com sin- 
ceridade, c longe de toda a dissimulacao, abjnro, amaldigoO' 
e detesto os supraditos crrose heresias em gcral e cadaiim em 
particular, e juro que jAmais darei motivos a que se possa 
conceber contra mim semcUiante suspeila ; antes se conhecer 
algum herege, on suspjito de hercsia, dcnuncial-o-hei a cslc 
Santo OiTiclo , ao Inquisidor , ou ao Ordinario do logar onde 
me achar. .luro ignalmcnte e promctto , de cumprir e obscrvar 
as pcnitcncias, que me sao, ou pu Icrcm ser imposlas por 
este Santo Officio. Se aconteccr, porern (o que Dcus nao p^r- 
mitta), que deixecu de cumprir alguma das referidas pro- 
messas, protestos e juramentos. submclto-mea todas as penas 
e supplicios quo pelosSagradosCanoncs e outras Consliluicocs 
gcraes , ou particulares foram determinadas e promulgadas : 
assim Deus me ajndc e os Santos Evangclhos , que com as 
niinhas proprias maos toco. Eu, supramcncionado Galileo 
Galilei, juroi, promctli cobriguei-mc, na forma acima refcrida, 
e em fe do que subscrevi com a rninba mesma mao o presentc 
tcrmo da minlia abjiiracao, e rocitei-o deverbo ad oerhnm. 
Uoma , no Convento de Minerva , boje, 22 de Junho de 1033. 

Eu, Galilko Galilei. 



CANTOS EPICOS 



A CABEQA DO MARTYR 



E que dejiois de niorlo llic scja corlnda a calieoa 
c Icvada a \illa-Kica , aonde pin logjar iiiais publico 
dt'lla siTa pipgada cm iiiii postc alto ale que o tempo 
a consuma. 

(Sektin(;a da aiqada.) 



E' dia! — sol ja doura o alto cume 

Do Itacolumi, gentil nianccbo 

Que indio converter-se em pedra (1) vira ; 

Caiitando, a lurba dos niineiros folga , 

Distingiiindo no fiindo da batea 

aureo metal, oii iios cercados leitos 

Dos turvos ribeiroes , que alem so escapam , 

Os diamaiitinos graos , rivacs do prisma, 

E' dia! — Ja la segne a caravana 

Dos reaes quinlos — o suor dos povos — 

Pelos ingrenics trilhos tortuosos 

Da serra altiva , que os cabegos ergiie 

Calvos, arrcpiados — ou cingidos 

De donosas palmeiras, como oulr'ora 

sclvagem bucal — scnhor das selvas — 

— Uei scm sabel-o, de urn famoso imperio, 

A lionle ornava de vislosas pliimas! 



78 RE VISTA BRAZILEIRA. 

E' (lia ! — Dc nni nzul bcllo c som nodoa 
Se oslenio o ceo ; a natureza ri-sc 
Na pompa c gala das mimosas fluros, 
Que elTluvios perfumaes (2) aos ares mandam ; 
Murmura a briza ; o rio se espreguira ; 
E as avcs Irinam canticos dc amorcs ; 
Tiido e alegrc , mas turbada e kigubre 
Despcrta a nobre fdha das men laid las , 

— Villa-Hica — o cmporio das riqiiczas , 
Aonde de Joao, qiiinlo no nome , 

Tem a faiislosa curte o scu celleiro 
De diamantinos graos, de graos dc ouro, 
Cupia nlio visla de Ibcsouro immeiiso, 
Que as frotas anniiaes ao reino levam, 
Acendendo a ciibica em lusos pcitos ; 
■ — Arcadia do Brazil , que afoita soube 
Can tar dc um povo cscravo a libcrdade, 

— Mai de heroes (3) , que desterro eslao soffrcndo ' 

E' dia! — Sobrc a praca ve-sc nm poslc, 
E sobre elle liastcada iima cabcca ; 
Mirradas faces, moribundos olbos (4) 
Ainda vcrtem lagrimas de sangue ; 
Longos cabcllos , mal encanccidos (5) , 
Fluctuam ao passar da Iristc briza , 
Que geme, como um pcilo angustiado. 

povo e Iriste ; a mai ao scio cslreila 
A innocenle fdha, que naoousc, 
Pelas dcscrlas ruas pcrcorrendo , 
Ir no poslc filar innoxias vislas ; 
Passandu o viandanlc a honle curva; 
Leva na meulc a precc, a dor no pcilo, 



^ 



A CABF.CA DO MARTYR. 79 

As lagriiiias nosolhos, iValina a crenca , 
E a exprcssno , que expira a fiur dos labios : 
« — Martyr da libcrdade, cii !c sai'ido!. ...» 



E filho do Erin (6) , que cm dnros fcrros 
Pagou sen pasmo por urn novo inqierio , 
Brada cm sou corai^'ao : — « Daldado excmplo ! 
Improficua licao da tyrannia ! 

Resurge da oppressao a libcrdade 

Dos marl.yres o sanguc nao sc cxllngiie; 
-— Germen fecundo — pbcnix da vingan^a , 
Sobre a terra prodiiz e heroes pulliilam ! . . . 
llemido o povo , adora o cadafalso , 
Qua! symbolo de fe , que ao ceo sc eleva ! » 



De qucm era a cabeoa ? Sc o selvagem , 

Barbaro fdho dessas brenhas rudes, 

Aqui Yiesse , e suspendesse o passo , 

Diria que arrancado havia sido 

As cabigaras , que as tabas contornam (7) 

Onde em hasteas erguldas tambem tinba 

Os craneos dos valentes inimigos. 

Que devorara nos feslins da morte ! 

Ncgreiros, Camarocs, Henriques Dias 

.Turariam vcr nclla a fronte exangue 

Do traidor (8) , que vcndera-se aos contrarios, 

E aos estranbos abriu da patria as portas ! 



sol, que a vira, resurgindo bcllo , 
Pela primcira vez sobre esse poste , 
Torvo enlre as sombras sc sumiu do occaso 



80 REVISTA RRA7lL!:tRA, 

E sobrc die entornou a csciira noUc 
Into envollo nas somljrias'lrevas; 
Apenns sob a aholtada celeste 
Rriliiam da cniz as fiilgidas eslrellas ; 
E' miido tiido; as mas sao desertas, 
E a villa, proslrada ante os altares, 
Vota em silencio a Dens ardenlcs pveces. 



Do poste crguido iim vullo so approxima ; 
Mysterioso envolvc-o negro nianto ; 
Desabado cbapeo llie cobre a fronte : 
Para ; eslremecc ; turva-se-lhe a mentc , 
E ao poste se apoiaiulo , o poste abra^a ; 
Mas a liastea fatal sc agita e trenie ; 
Uumoreja a cabcca ; ave de agouro 
S6lta, Yoando, dcsusado grilo. 

Breve a vertigem foi ; o aninio volta ; 
E vulto , a larga fronte descobrindo , 
Corre a dextra nas trancas , que llie descem 
Pelos occnllos , torneados hombros ; 
Cruza depois os bracos ; al^a os olhos ; 
E suspirando neslas vozesrompc: 



« — Eisa Infamc justica, a vil vinganca ! 

— opprobrio — a alTronta a deiiodada villa, 
Que urn niomenlo ponsou em liberdade! 

-■- Quitarao da dcrrama nao cobrada!. . . .^ 
— lilasplicmia atroz aobra dc Deus vivo (9), 
Que insuUaum povo e a luunanidade avilta; 

— PresciUe indigno — galardao cobarde — 
Do regio tribunal , da alroz alrada ! . . . . 



A CABECA DO MARTYR. 81 

Oh ! maldigao aos vis , que a patria offendem ! 
Gloria ao martyr ! Bengao sobre o seu nome ! » 



Calou-se. A briza perpassando geme 
Nos loiigos pinheiraes dos ermos valles ; 
E a ave de agouro esvoagou de novo, 
Soltando tristes , agoureiros pios. 



E vulto proseguiu: « — Eu sei que urn martyr 
No patibalo expiou o amor da patria ; 
Que outros em vil desterro a morte affrontam 
Nos areaes de inhospitos desertos ; 

Porem nao sei ao certo Da-se acaso ? 

Talvez .... pude bem ser de horror me gelo 

Frio tremor me coa pelos ossos. . . . 



« Ai! me slnto morrer. . . . mas a incerteza. . . . 

Oh! a incerteza me envenena a vida. . . . 

Como sem elle vivirei no mundo ! 

Viuvo coracao de amor tao puro 

Findar-se-ha nas ancias da saudade , 

Na aridez do pezar que me confrange ; 

Em vao a tnente reproduz em sonhos 

Quanto frui sem saciar meu peito , 

— Volcao que em chammas abrazou-se outr'ora, 

E hoje sem erup^ao se extingue , acaba ! 

que vale a lembranga do passado ? 

que gozei e gozarei ainda 

Que pague o que hoje soffro ? . . . Ave mesquinha , 

Encontro o cagador e nao o amante; 

Vejo ninho boiando sobre as agoas 

R- B. III. 6 



82 RKVISTA BRAZILEIRA. 

Da cheia immensa que inda inunda os campos , 
Sinto a lormenta e nao descubro o Tris, 
Que magestoso liga o ceo a terra ! » 



Calou-se. A briza perpassando gemo, 
Nos longos pinheiraes dos ermos valles; 
E a ave de agouro esvoagou de novo , 
Soltando tristes, agoureiros pios. 



E vultu i>roseguiu : « — Queiu quer que sejas, 
Oh! porque nao te animas neste instante ? 
Oh! porque me nao ves e nao me fallas ? 
Ah!Dize se es quern penso — duvidosa — 
Animo tenho , escuda-me a coragem ; 
Inda uma vez .... um so signal me basta ; 
Faze tremer a hastca que sustem-le, 

Ou rumoroja com o passar das auras 

Falla no pio d"ave dos agoui'os, 

Com suas azas roca-me csia fronte 

Ou invisivol , qual da mortc o espectro , 
Toca-me as fibras que estremcca eu toda. , . . 
Animo tenho .... em paga desse gozo 

Nos frios labios le darei um beijo 

Sim, beijarei a fronte onde brilliava 
Da patrla independencia o pensamento .... 
E onde o estro borbulhando, ardendo 
N'esse delirio , que arroubava as almas, 
Vertia em cantos amorosos sonhos! 
E onde eu vivia qual risonha imagem 
De amor, de gra^a, de belleza e cncanlo ; 
Idea 11 \a , a que jamais mesclon-se 
Uma oulra idea que nao fosse a amanle ! » 



A CABECA DO MARTYR. 83 

Calou-se. A briza perpassando geme 
Nos longos pinheiraes dos ermos valles; 
E a ave de agouro esvoagou de novo , 
Soltando tristes, agoureiros pios. 

E vulto proseguiu : « — Dourado sonho 

De meu porvir de amor esvaeceu-se ; 

Bern tedizia: « Apressa-te! Vera cedol 

« Queesperas? Que te falta ? UmaliceiiQa! 

« Dous annos (10) ja la vao ! . . . . » Ah ! bem sabias 

Como eram lentas da saudade as boras 

Longo tempo esperei, louca de amores 

Vi depois enUitar-se a minha vida. . . . 

— meu veo nupcial ennegrecer-se , . 

— Nao servir o vestido que bordavas (11), 

— Apagar-se o altar de nossos votos , 

— thalamo de amor cabir por terra, 

— E da nossa uniao fugir o ensejo : 
Vi-le perdido na traigao envolto 

E busquei te salvar Ah ! nao te lembras 

Do vulto (12) que a deshoras te dizla: 

« — Foge , evita a prisao , os teus avisa ! » 

E rapido, qaal raio, se perdia 

Pelas trevasda nolte? Nem pensavas 

Que abysmo immenso se cavava e abria 

Sob OS teus pes ! ... . Ai ! surdo nao me ouvlste ; 

Eu em vao te esperei ; — comtigo iria 

Para onde? Onde amor nos desse urn thalamo, 
E aben^oasse Deus. Mentiu a musa 
Prazeres pastoris ; fruitos campestres (13) , 

— Poeticas ficQoes, sonhos da vida, 
Enganos d'alma , que jamais voltaram ! ' 
Desse-me ella hoje a choQa amiga 

Com seu tecto de colmo e frescas agoas , 



84 REVISTA BRAZfLEIRA. 

Verdes collinas contornando os campos 
E gado errando ao fremilo saudoso 
Da frauta que o pastor meigo soprasse, 
Salisfeilo de si , nimca queixoso 
De mini , ingenua companheira sua ! » 



Calou-se. A briza perpassando genie 
Nos longos pinlieiraes dos ernvos valles ; 
E a ave de agnuro esvoacoii de novo , 
Soltaiido ti'istes, agoureiros pios. 



E vulto prosegnia. . . mas distante 
Cora da noile o vaporoso seio 

Iiicerta luz. que a medo bruxolAa 

Ja niais dislincia a ve. . . . um vullo a segue! 
Queni sera que , como elle , assini se occulia, 
Nao em manto , que imila a densa treva , 
Poreni em brancas desusadas ronpas? 
Alva mortalha o veste, qual espectro 

De um juslicado Alampada funerea . 

Que traz a dextra, lugubre derrama 
Clarao sinistro , pallido , qual astro 

Que a luz refleclc de cinereas campas 

Quern sera? D'onde vem? que pn^lende? 
Toma chapeo , afasta-se , procuia 
Ver quern e , indagar o que ali busca. 



vulto se approxima. Ob ! e um velho 
De venerando aspecto e grave passo ! 
Longas as cans descendo se confnndem 
No laigo peito com asespessas barbas; 



!l 



A CABECA DO MARTYR. 



85 



Acha brilhante de afiado gume 

Conli'in a sestra mao, a cinctauni gladio; 

Pensativo no gesto , chega ; para ; 

Mede com a vista o poste ; e suspiraiido , 

Assirn exclama merencorio e triste : 



— « Cesse a vergonha atroz , a aft'ronta cesse ! 

Nao mais o opprohrio sobre a palria pese ! 

Nao mais de insuUo esta cabeca sirva 

A nossa dor , aos filhos desta terra ! 

Sim , 6 meu filho , vem dormir tranquillo 

No seio de tua mai , em chao de mortos, 

Onde a cruz do Senlior seus brag-os abre , 

Ate que um dia a patria livre seja , 

E , novo imperio de Romanes novos , 

Tua grata memoria rcvindique ! 

Deus te condemnara , justica bumana ,' 

A assemblea dos justos presidindo , 

Goroado de gloria ! A sua dextra 

As obras pesara , nao uma idea , 

Nao uma causa, que nao tever effeito , 

Que lentativa nem cliamar-se pode ! 

Em Deus confio: — a bumanidade um dia 

Liberta a venda arrancara do erro , 

E sancla lei do amor e de igualdade 

Evangellio sera dos povos digna. » 

Diz , ergue a acha , e o golpe descarrega ; 

poste treine como leve setta , 

Que vai cravar-se a um tronco ; convulsivo 

Gyra o tropheo da morte , que o coroa . 

E novo e ousado e mais seguro golpe 

Desfecha o velbo. poste estala , tomba , 

Palpitando no chao. Salta a cabega 



86 REVISTA BRAZILEIRA. 

E cahe , c rola ate o negro vulto , 

Que se ajoelha, a apanha, a abraga , abeija. 

Suspende o velho a alampada ; caminha , 

Volteando curvo, tateando incerto 

frio chao , que mal a luz aclara , 

Quando uma voz mysteriosa e doce 

Lhe diz : « — que e que indagas ? que buscas ? 

A cabega talvez de . . . . » 

« Tira-dentes(i4), 
(Lhe brada o velho com accento austero) 
Da-m'a se a tens; seu pai (15) eu sou, e devo 
Cumprir de piedade urn acto digno ! » 
— « Toma , nobre anciao , e leva e da-lhe 
Logar entre os que jazem , que nao seja 
Affronta para nos , como esse poste , 
Aqui algado , qual ingente brago , 
Ao ceo erguido a alardear urn crime ; 
Ate agora pensei — incerta — vaga — 
Que era d'outrem » 

« Bem sei (lhe toma o velho , 
As vistas lhe cravando com malicia , 
Lendo nos olhos seus , talvez , seu nome ! ) 
De algum bardo de amor. . . . que eternisasse 
N'essas tao bellas e sabidas lyras , 

Uma certa belleza e mais ditoso 

Fosse .... que ao menos lhe coubesse o exilic , 
Em que a esperanca semprc alenta a vida , 
E com a idea da palria nos afagas. » 



vulto respirou ; — depois seguiram I 
Ambos por longos trilhos , caminhando 

Silenciosos , como errantes sombras , g 

Ao pallido clarao da triste lampada , I 



A CABECA DO MARTTR. 87 

Te que pararam juncto de uma hermida ; 
Cede'! 'Jo velho a porta ao leve impulso , 
Solirc OS gonzos rangendo, e entraram ambos. 

Ao romper d'alva, ao toque d'alvorada , 

De Villa-Rica as torres resoaram 

Acs sons funereos , Iristes c pesados , 
Do merencorio toque da agonia , 
Desperla a villa de pavor tranzida ; 

Ve-se por terra o poste — sem cabeca 

Um nao-sei-que de ledo alegra os peilos. . . . 
Um sorriso maligiio Iralie as faces 

Do povo que enclie a envilecida pra^;a 

Ha queni diga que viu pela alta uoite 
Uni padre negro — uui justicado d'alva ! 
Faxeiu-se iiidagacoes niyslerio e tudo ! 

J. NORBERTO DE S. S. 



A CABECA DO MARTYR.— NOTAS. 



NOTAS. 



(1) Itacolumi , corrupQao de Ita-comni , mancebo do pedra , 
riome que envolve a historia de uma metamorphose , talvez , da 
poesia indiana. E o mais alto cume da serra da Mantiqiieira , ramal 
da de Ouro-Preto, na provincia de Minas-Geraes. A sua altura 6 de 
perto de oito mil palmos acima do nivel do mar. 

(2) Nao 6 muito que a par de tantos substantivos , como perfume, 
perfimiaria , perfumeiro , perfumadeiro , perfmnista , perfumador, 
Q perfumadura , tenhamos tambem os adjectives perfimial e per- 
fumoso. Venia para elles ! Dixem-os passar. 

(3) Villa-Rica figura aqui como cabega da capitania de Minas- 
Geraes. Os conjurados mineiros de 1789, que soffrerara o exilio , 
nasceram pela maior parte em diffei-entes villas da capitania e aiuda 
em outros logares do Brazil , como Rio de Jtmeiro , S. Paulo , etc 

(4) Sei que moribundo e o que vai morreiido , e que os olhos de 
um decapitado nfio podem ser senao mortos. Nao pinto aqui o que 
seriam realraente , mas o que pareceriam ser. Assim dizemos de um 
morto , ainda nao desfeito de todo pela morte : « — Parece que Qstk 
vivo ! » 



90 



REVISTA BRAZILEIRA. 



(5) Tradicional.— Haviam-lhe crescido durante os dous aanos, 
onze mezes e onze dias do sua prisao. 

(6) Nieoku Jorge , joven irlandez. Residiu no arraial do Ti- 
juco, oude era empregado iia jjuta da real extrae(;ao. Admirado 
da fertilidadc, rfqueza e vastidao do Brazil , disse que o paiz offe- 
recia todos os recursos para vir a ser um grande imperlo, iudepen- 
deiite e livre como os Estados-Unidos. A idea tornou-o complice da 
conjuracao niineira. Deiiiinciado pelo teueiite-coronel de auxiliares 
Bazilio de Bnto Mallieiros do Lago em 5 de Abril de 1789, foi preso 
e retido inGoramuuicavel na cadt^a publica de Villa-Rica , oude o iu- 
terrogaraii) nos dias 22 e 30 de Juiiho do mesmo anno. 

silencio sobre o sen destino 6 mjsturioso ! . .. Oreio quo u sol- 
taram ; nao o sei ao certo ; talvez que a historia da diplomacia 
iugleza ao.s explique aiiida um dia. 

(7) Cdhicaras , triucheiras quo det'endiam as suas tabds ou al- 
d^as. 

(8) Calabar. 

(9) Considerado o bomeni em sua genoralidade como a obra prima 
do Creador. 

(10) Historico. — Disse-o o propi-io desembargador Thomaz Autoiui> 
Gonzaga em seu primeiro interrogatorio , em 17 de Novenibro de 
1789, achando-se incoramunicavel n'umdos segredos da fortaleza da 
Ilha das Cobras ; e deprehende-se da attestagao do capitao-general 
visconde de Barbacena , governador da capitania de Minas-Geraes, 
datada da Cachoeira do Campo a 23 de Maio de 1789. 

(11; Historico. — No seu segundo interrogatorio , ua fortaleza da 
Ilha das Cobras , onde se achava incommunicavel , em 3 de Feve- 
reiro de 1790, o desembargador Thomaz Antonio Gonzaga respondeu 
que na sua casa achavam-se hospedados o coronel Ignacio Jos6 de 
Alvareiiga, e o vigario da villa de S. Jose, Carlos Corr^a de Toledo, 
e que nella era frequente o Dr. Claudio Manoel da Costa ; e 
per isso poderiam elles conversar sobre a conjuragao sem (jue olle 



A CABEQA DO MARTYR. — NOTAS. 91 

respondente fosse participante , nSo obstante estar na mesma sala , 
por empregar-se em bordar um vestido para o seu casamento , en- 
tretenimento deque nunca se levantava seuSo para a mesa. Entre 
OS seus bens sequestrados nota-se um dedal de ouro. 

(12) Historico.— A npparigao de um vulto mysterioso , que se- 
gundo tPstemunho de uns era um homem , e segundo o de outros 
era uma mulher, embugada n'uma capa negra , com um chapeo des- 
abado enterrado at6 os olhos, que vai pela noite de 17 ou 18 de Maio 
de 1789 bater k porta de um ou outro coujurado , communicar-lbe 
que esth trahido e denunciado , e aconselhar-lhe que fuja; a sua 
imprudente divulga(;ao pelo desembargador Thomaz Antonio Gon- 
zaga ; as indagagoes particulares feitas a respeitopelo capitao-geueral 
visconde de Barbacena , as quaes se seguiram a prlsao do mesmo 
desembargador ; o interrogatorio do bacharel Diogo Pereira Ribeiro 
de Vascoucellos ua cad6a de Villa-Rica , e o comparecimeuto no 
palacio do Dr. Claudio Manoel da Costa , afim de darem o^cj.'licaroes 
sobre esta apparigao mysteriosa, e a attestagao do ajudante de ordens 
A. Xavier de Rezende relativamente a este objecto , offerecem al- 
gumas paginas de colorido romantico a liistoria da coujuraQao mi- 
neira , ks quaes devo o assumpto d'este poemeto, digressao do peu- 
saraeuto , quando confeccionava a obra — A conjumcdo mineira em 
1789, estados historicos sobre as primeiras tentativas para a inde- 
pendencia nacional , haseados em nmierosos doamentos originaes 
existentes no archivo da secretaria de estado dos negocios do im- 
perio. 

(13) Sirvo-me desta palavra como um substautivo do verbo — 
fruir — , e nao como uma corrupgao da palavra fructo. 

(14) Joaquim Jos6 da Silva Xavier, por autouomasia Tira-dentes, 
nasceu em Pombal , termo da villa (entao) de S. Joao d'el-Rei , em 
1748. Era alferes do regimento de cavallaria paga da capitania 
de Minas-Geraes. Denunciado pelo coronel Joaquim Silverio dos 
Reis , por alcunha Joaquim Salterio , como um dos chefes da cons- 
piragao miucira , que projectava a indepcndencia do Brazil 33 annos 
antes de sua proclaniagao , foi em 10 de Maio de 1789 encontrado 



92 REVISTA BRAZILEIRA. 

em um sotao de uma casa d'esta cdrte da rua do Latoeiros , onde o 
havia occultado Domingos Fernandes da Cruz, contractador da prata, 
a pedido de D. Ignacia Gertrudes , senhora viuva que Ihe era 
agradecida por Ihe ter curado a sua filha. Levado para a fortaleza da 
Ilha das Cobras , e lanoado em um de seus segredos, o interrogaram 
nos dias 22, 27 e 30 de Maio. Tira-dentes, tomando toda a respousa- 
bilidade sobre si , coafessa os seus projectos sem criminar , sem en- 
volver um s(5 de seus complices. Transportado depois para um dos 
segredos das prisoes da Relagao , soffreu ainda oito interrogatorios e 
acarea^oes em 18 de Janeiro e 4 de Fevereiro de 1790 ; 14 de Abril, 
20 e 22 de Junho, 4, 7 e 15 de Julho de 1791. Condemuado a 
morte com outros muitos Brazileiros , ouviu depois a commuta^ao da 
peiia de seus co-r^os em degredo , e a confirmacao da sua ; sem 
alterar-se , deu os parabens aos seus corapanheiros , e padeceu a 
morte como martjr da liberdade nacional, subindo heroica ecorajosa- 
meute patibuio no dia 21 de Abril de 1792. N'esse mesmo dia , 
mas 292 annos antes , encontrava Pedro Alvares Cabral os primei- 

ros signaes da terra de Santa Cruz ! A sentenca dos juizes de 

Tiradentes revela o mais execravelcanibalisrao, e perde toda a gravi- 
dade, que devia ter um talinstrumento, pelos insultos que atira as 
maos cheias. 

(15) Domingos da Silva dos Santos, casado cjra Antonia da En- 
carnacao Xavier. Tira-dentes morreu com 48 annos, segundo se 
deduz de suas proprias declara^oes ; sen pai podia existir ainda por 
esse tempo; nao o sei ; mas talvez Deus )Vi o tivesse charaado h sua 
gloria , bem como a sua mai ; sendo assim , nao passaram por tao 
amargas attribulagoes. Tira-dentes deixou uma filha menor, na- 
tural, por nome Joaquina , que viveu pobreinente em Villa-Rica, 
em companhia de sua mai. Alludera a estas infelizes os versos deste 
poemeto : 

povo 6 triste ; a mai ao seio estreita 
A innocente filha , que nao ouse , 
Pelas desertas ruas percorrendo , 
Ir no poste fitar innoxias vistas. 



TIAGENS 



Yisita tie S. ^I- ■• o Senltor D. Pedro II » C'aeltoeira 
de Paulo All'oiiso (*). 

Nodia 16 de OiUubro de 1859, as horas da inanhaa, 
doixavaS. M. a cidade do Penedo, e solierbo sulcava o vapor 
Pirajd as agoas do rio dn S. Francisco, que ate ali niinca 
linham sido devassadas senao por canoas e ajoujos. Com- 
pletamenle einbandeirado, e tendo o toldo forrado de ban- 
deiras das nacoes alliadas, em cujo centro esteiidia-se a 
nacional, caminhava rio acima, orgulhoso da commissno ({ue 
ia cuniprir. 

Pouco adiante da cidade do Penedo, a direita , esta situada 
a fazeoda Boacica , de que e proprielario o tenente-coronel 
Biltencourt, que na visila de S. M. aos diversos pontos da 
cidade teve a honra de ser seu batedor. Kepicava o sinn da 
eapellinha da referida fazenda , para a (pial concorria loda 
a populariio sollando contiuuados vivas acompanliados de 
foguetes do ar. Defronte , c a esquerda (provincia de Sergipe), 
ve-se povoado d Carraplclio , com casas dispersas de telha 
e de palha, formando uma bella visla c concorreiido para 
mais pitloresco lornar o rio nesse logar. 

Magnilica era a perspectiva : pela ponta da Boacica appa- 



(*) Kxtractamos do Jornul da Bahia a narraliva da viagem de S. 1\1. o Im- 
peiador a Cacliooira de I'aulo Allonso, osriipta pelo seu redactor cm rhcle o 
Sr. Dr. Trancisco Jose'- da I'.odia ; e do relatorio (io Sr, llalfeld a descripcjao da 
famosa caiadupa. 



94 REMSTA BMZILEIRA. 

recia a cidade do Penedo , envolta no manto da manhaa , 
como uma mulher zelosa (lue corresse para espiar a festa 
em que e protogonista o bem amado , que se havia despren- 
dido do S8QS bragos para ir admirar em outra parte os bellos 
olhos e as formas graciosas das suas semelhantes. sol , que 
eiit~io erguia-se , parecia ancioso por testemunbar o facto 
novo que inscreveu nas agoas dc S. Francisco uma pagina 
immorredoura e cheia de resultados — para ir contal-o a 
todiis as paragens onde bouvesse de cbegar a liiz dos seus 
raios — : e a lua , que ao mesmo tempo escondia se , dir-se- 
hia que se apressava para ir revelal-o aos povos d'outro he- 
mispberio , ou entao vergonbosa occuUar-se para ir mais 
longe, entre a folbagem , admirar a magestade da terra que 
ia d'encontro a magestade das agoas. 

A alguns minutos do povoado do Carrapicho demora o da 
Saude , onde urn grande numero de mulberes corria a saudar 
Monarcba , desenbando-se no espeUiado do rio. 

Defronte do lado do Siil esta o logar denominado Sabom- 
bira, nolavel por foriiiar urn sacco, onde falta se'iipre o vcnto, 
por mais que haja no rio : e todo de e^carpados , sob o qual 
se diz que ba muitas riquezas dos Hollandezes. Ate abi os 
terrenos das duas provincias sao baixos e cobertos de verde, 
mas ncssa altura o da de Sergipe comeoa a ser montanboso ; 
distinguindo-se uma grande corOa, quese estende muito 
alem. 

S. M. estava e:n pe na caixa da roda entre os presidcntes 
das diias provincias, para cujas margens olhava , tendo na 
mao urn grande papel que parecia urn mappa. 

Viu-se logo a Ponta d'Area, na ilba do Coqueiro, onde ba 
apenas uma arvore dcssc nome : abi eslreila o rio , tendo 
defronte uma grande montanlia vcrde-negra. Na baixa dessa 
montanba (provincia de Sergipe) ba uin engenbo do major 
Leandro , na ponta da Terra-Nova . que e o nome da fa- 
zenda. 



VISITA IMPERIAL A CACHOEIRA DE PAULO AFFONSO. 95 

Adiante , a direita , divisa-se uni morrn coberto de pedra 
cor de barro , apenas marchetado de algumas arvores. Bas- 
tante elevado, e adianlando-se sobve o rio, descobria-se a 
grande serra da Preaca , que fica a mais de 10 legoas , e 
onde se diz que ha muitos metaes preciosos. Sobre o Morro- 
Vermelho avistava-se iiiiia simples e elegante ermida. 

Via-se em continiiacao a serra da Itiuba , e a esquerda a 
villa de Propria , que vaidosa apparecia e desapparecia por 
detras dos serros calcareos , ate que o Imperial Visilante a 
ella chegasse. Eiiconlram-se em diversos logares do rio, antes 
dessa villa, camadas de pedras soltas , algumas de grandcs 
dimensoes, e furmas cxquisitas , qnc pareccm ter rolado de 
cima dos serros. 

S. M. desombarcon em Propria as 10 boras da manbaa. 
A villa estava apinbada de povo , que acenava com lengos, 
e incessantemente ouviam-se foguetes estourando no ai'. Teve 
logar desembaniue em nma ponte de madeira com os cor- 
rimoes foirados de verde e amarello. Recebido debnixo do 
pallio pela camara municipal cujo presidente apresentou- 
Ihe uma chave de prata, passou o biiperador por dnas alas 
formadas por um balalliao da guarda nacional , comman- 
dado pelo tenente-coronel Medeiros Chaves. 

Esperavam-iio na ponte varias irmundades , sacerdotes e 
membros da commissao nomeada para recebel-o. Homens , 
mulheres, criancas, no geral bcm vestidos, agitavain ramos 
de cafe no meio de enlhusiasticos vivas. 

Dirigiu-se S. M. a malriz, onde assistiu a um Te-Deum , 
em que orficiaram os reverendos vigarios Nunes, e Carvalho , 
sendo composlo u euro dos reverendos Fr. Simplicio da Saii- 
tissima Trindade , Fr. Jose da Piedade , e Fr. Jose de S. 
Jeronymo. 

Saliindo do Te-Deum visitou S. M. as aulas primarias de 
amlios OS sexos e a de latim ; examinando meninos c me- 
ninas. I)irigiii-se depois a igreja do Rosario , a casa da ca- 



96 REVISTA BRAZILEIBA. 

inara , e percorreu a pe todas as ruas da villa , recebendo 
por loda a parte vivas e flores , que Ihe atiravam das janelias, 
a ciijas demonstra^oes correspondia com a sua costuinada 
affaiiilidade. 

De volta recoiheu-se S. M. a uma casa para isso destinada, 
onde foi servido iim almoco, no qiial tiveram a honra de 
tomar parte as pessoas da sua coinitiva, os presidentes das 
provincias, que o acompanhnvam, os membros da commissao 
de Propria , e os baroes da Atalaia e de Jequin , recebendo 
depois as pessoas que o procuravani. 

Quando S. M. dirigia-se amatriz, as nieninas da escola 
]>uMica forani-lhc ao oncoutro, vestidas de branco , e reci- 
laram-lhe uma simples c tocanle allocuQao, alirando-lhe 
depois as flores, que em bellas cestinhas traziam pendenles 

aos bragos. 

Mandando enlregar ao vigario 400S000 para serem dis- 
Iriltuidos pelos pobres da villa, e dando 50S000 para a liber- 
dadc de uma escrava , embarcou-se o Imperador as duas 
bonis da lardo , licando na villa o presidoule e o cbefe de po- 
licia de Sergipe, com todas as.pessoas dessa proviucia que 
tinbam ido recebel-o. 

Cliegou as duas e ineia a povoagao do Gollegio , aldea de 
indios, na proviucia das Alagoas, descendo a lerra ao 
som de repetidos vivas e foguetes, e por enlre alas de indios 
armados de arcos e lleclias. 

Encaminliou-sc logo a capella. ([ue e pobre o necessita de 
reparos; percorreu a aldea , e dirigindo-se a urn dos indios, 
(pic era o cbefe , mandou que alirasse sobre urn pan plantado 
a r»0 passos. Disso o indio que cslava vellio , com o olhar 
pouco seguro , e receiava-sc do venlo forte , que enlao bavia ; 
mas alirando. perdcu a primeira tleclia e acertou a segunda. 
Nessa bumilde aldea dcixou S. M. 300«0(X) para os pobres. 

Dabi sabindo as tres boras, tres quartos depois passava pelo 
lugarejo de Tibery , e as quatro e um quarto cbegava a po- 



VISITA IMPERIAL A CACHOEIRA DE PAULO AFFONSO, 97 

voagao de S. Braz , ainda meiios importante do que a do 
Collegio, sendo acolhido com as mesmas manifestagoes de 
jubilo , e doando a pobreza com igual esmola. 

Defronte de S. Braz. em Sergipe , existe a fazenda de Cam- 
pinas com uma bella casa e dependencias , pela qual passou 
S. M. as cinco horas menos urn quarto. Adiante, e do mesmo 
lado, ve-se a povoagao de Jaguaripe, teiido u.na capella com 
a invocagao de Santo Amaro. Descobre-se em frente uma 
grande ponta alia, langada sobre o rio, passadaa qual avista- 
se a pittoresca povoagao da Lagna Gomprida, com a capella 
de S. Sebastiao. 

Em diversos logares da margem apresentam os terrenos 
montanhosos em cima, ou em baixo, porgoes de pedras como 
lages soltas de grandes dimensoes, fingindo tartarugas, tatiis, 
homens sentados , pelles estendidas , e varios outros objectos 
que prendem a atten^ao do viajante , e despertam a sua cu- 
rlosidade. 

Divisam-se pastando nas baixas rebanlios de carneiros , e 
aqui e all rezes grandes e gordas , testemunhando a for^a 
vegetativa dessas ribas. 

Defronte da Lagoa Gomprida esta a serra da Borda da Matta, 
com Ires grandes pincaros cobertos de verdura. 

A's 6 horas passou o vapor pelo Muguengue , brago do rio 
que divide o termo civil do Penedo do do Traipii. 

Do lado de Sergipe, em face ao Muguengue, e tambem 
montanhoso o terreno com a encosta de pedra solta na maior 
parte, amontoada em grando altura , e apresentando varias 
6 maravilbosas figuras. Forma essa imiiiensa pedreira uma 
curva chamada — Govao. 

Em seguida do Muguengue esta o insigniHcante povoado 
do Aricury , e logo depois a capella do Amparo, com algumas 
casas, formando urn pequeno povoado por nome Rebello. Os 
morros que fleam em frente . vindo desde a Borda da Matta, 
eslendem-se em uma especie de sanefa symetrica. 

R. B. III. m 



98 RE VISTA BRAZILEIRA. 

Ve-se depois , da parte de Sergipo , os serros dos Tres Ir- 
maos, notaveis pela sua configuracrio p igualdade. Nessa 
altiira, havendo jii escurecido , fiiiideoii o Pirajn , e S. M. 
passoii para a galeota , que foi.entao rebocada pela canoa; 
nao querendo o Iinperador arriscar durante as trevas o vapor 
sobre as coroas. 

A's 9 lioras desenibarcou na povoarao de Traipii , onde 
soltaram foguelcs por mais de nieia hora , estaudo todas as 
casas illumiuadas. Recolheu-se S. M. com a sua comiiiva a 
casa da camara. acconiinodando-se as deniais pcssoas nas do 
coronel Theotonio fiibciro da Silva , e do capitao Benedicto 
de Freitas Mello , de quern receberam cxcellente agasalho. 

No dia seguiiitc!, logo niuito cedo , visitou oiniperador a 
matriz, que teui a invocaQao de Nossa Senhora do 0" ; per- 
correu as ruas, viu as escolas, acbaudo matriculadas na de 
meninas 58 , das quaes apenas frequentaram 20 ; e 60 na de 
meninos. Entregando ;io vigario 3oOS para os pobres , eni- 
barcou-se as 9 i/'-I, sendo acompanbado pelo i)Ovo com muitos 
vivas, e a qucbenignamcntc corrospoiidia. 

Nesse ponlo eslrcita-se o rio quasi metade, sendo extre- 
mado do lado opi»oslo Sergipe] pela serra daTabanga, que 
se lanca sobre elle com bellissima conliguracao. 

Meia Icgoa depois , desse nicsmo lado , ve-se na serra da 
Tabanga uma grandc brccba, que prolonga-sc quasi perpen- 
dicular ate abase, abrindo a monlanlia de lado a lado, e 
sendo conbccida pela denoMiinanu) de — Buraco de Maria 
Pereira. — Toda coberla de catingas c essa serra , e por ella 
acima ha mordiculos de pedras azues , brancas c amarellas , 
que tomam dilferentes formas. Heferc a Iradicao. que uma 
mulher, por nome Maria Pereira, iinbilfira n'uma cboupana 
dentro dessa rocba. occultando-se ali dos Hollanderes. 

S. M. saltou nesse silio de calga branca. paletot preto, c 
chapeo de palha coberto de panno de linbo. 

As 10 1/4 partiu dahi o Pirajn , rom[»en(lo as agoas do 



VISITA IMPERIAL A CACHOEIRA DE PAULO AFFONSO. 99 

rio, que vai de novo alargando-seum pouco, e cujas margens 
sao altas, e pedregosas, cobertas de monticulos, onde crescem 
algumas poucas e enfezadas arvores. Descortina-se ao longe 
a serra de Panema, e ao Norte o cimo da das Maos, na 
comarca de Traipu , assim appellidada por ter o feitio d'uma 
mao fechada , visla pela parte superior. 

A's H e 20 minntos chcgou S. M. a villa do Curral das 
Pedras , onde desembarcou , sendo recebido com as formali- 
dades do estylo. Havendo assignalado a sua passagern por 
novas provas da sua inesgotavel munificencia, retirou-se para 
bordo ao meio dia. 

Apresentam dabi por diante as ribanceiras do rio cercas 
de pedras, banheiros natnraes , pequenas furnas formadas 
pelos rochedos. Baiidos de patos banbando-se nos remansos, 
enxaines de pombas fendendo os ares, e sumindo-se alem dos 
montes ferruginosos , communicam a este sitio o mais apra- 
zivel aspecto. 

A' 1 1/2 bora passou o vapor pelo Sacco do Medeiros, 
bella enseada do lado das Alag6as , a cuja frente prolonga-se, 
uma grande cor6a. Por dentio do Sacco , e separado do rio 
por urn grande cordao de terra , admira-se a grande lag6a 
de Jacobina , onde existe vasta plantagiio de arroz. 

Passou as 2 boras o Pirajd pelo logar das Intans , extenso 
e florescente valle , cosleado por uma altissima serra , que 
desce em forma de goinos. E' esse logar de grande fertili 
dade, abundanlissimo em fructas. 

A's 3 1/4 avistou-se o Morro dos Prazeres , em cujo cimo 
eleva se a pittoresca e risonba capella dessa invoca^ao. E' 
este monte pedregoso com catingas formadas por facheiros e 
rnandacarus , esgalbados como serpentinas , e por um capim 
grande , que da bastes com a configuraQao de lancas. 

Indo a terra, visitou S. M. a ermida que possue uma ima- 
gem de lamanbo natural. Defronte dessa capella, e da parte 
das AlagOas , ha o povoado de Panema , e oulro do lado dQ 



100 RE VISTA BRAZILEIRA. 

Sergipe , ambos cobertos de vegetacao , e d'onde corriam 
ondas de povo para saudar o Imperanle. 

Passou as 5 boras o vapor pelo povoado da Lag6a Funda , 
Glide existe uma peqiiena ermida de Nossa Senbora do Ro- 
sario, e uma escola frequenlada por25 meninos. Via-se na 
praia o capellao com toda a populacao decenlemente vestida , 
e formavam os meninos filas com bandeiras brancas, circu- 
ladas de fitas douradas , em cujo centro lia-se : — Vii-a D. 
Pedro 11. 

A's 5 3/4 apparecia a povoacao do Limoeiro , apenas no- 
tavel pela possessao d'nma bella fazenda perlencente ao mor- 
gado da Torre na Bahia. 

Pouco adianto, e sempre do mesmo lado, descobre-se uma 
linda perspectiva proveniente de dous morros, que inleira- 
m-^nte igaaes em sens angulos deixam uma aberfa por onde 
se avistam varios serros , sabindo uns detras dosoutros, e 
alguns em direccoes parallelas. Denomina-se o mais notavel 
de — Morro do Faria. 

Deslisava-se o vapor as 6 1/4 por dianle do povoado de 
S. Pedro, aldeade indios, situada na ilba do mesmo nome 
(provincia de Sergipe), e onde existe um convenlo babilado 
por um so frade capucbinlio, que ali se conserva ba mnilos 
annos. Abi, bem como n"aldea do Collegio . occupa-se o povo 
no fabrico da louga. 

A"s 8 boras cbegou o Pirnja a villa do Pao d'Assucar, onde 
desembarcou S, M. no nieio do geral regozijo da popuiacao ; 
e no momenlo de por o pe n'uma ponle de madeira adrede 
preparada, soon o bynmo nacional, cujaslelraseram canladas 
por um meniuo. Atravessando o grande areal (juc precede a 
villa , recolbeu-se a casa de proposito preparada pela muni- 
cipalidade, que indo receber o Monarcba Icvou um menino 
vestido de anjo. Ate muilo tardc conservou-se o povo a porta 
da casa dando vivas e tocando musica. Percorreu S. M. a 
villa no dia 18 de manhaa,embarcando-se as 7 boras, depois 



I 



VISITA IMPERIAL A GACHOEIRA DE PAULO AFFONSO. 101 

de havci' doixado 600$ para a pobreza. Grande uiimero de 
pessoas visUaiani o vapor, e oiivindo iima muUier dizer que 
era elle de forca de 40 cavallos,pergimtou ondeestavani elles, 
que iiao os via. 

Ao deixar a villa do Pao d'Assucar, passa-se pelo seno 
deste noiiie , que assemelha-se a uma sentinella avaucada , 
iinpedindo que a iinpeluosidade iluvinl perturbe a serenidade 
das agoas, que em loriio da villase espreguicam. Estendein- 
se em Seguida, e de ambos os lados, collinas elevadas, aridas 
e escabrosas, semeadas de serrosquese separam apenas por 
seus declives coberlos de crestadas catingas. Do lado das 
Alagoas ve-se o Cavallete, o Mampira, o Pau-Ferro, todos 
pedregosos; e da parte de Sergi[)e distingiie-se o Sacco-Grande, 
que olha para unia enseada, 

Ao do Pau-Ferro succede o inorro do Algodao, em que nao 
ha urn so algodoeiro , e a este o das Traliiras , depois do qua! 
veni da Serra- Grande , o do Riacho-Grande e o daQuiraba. 
Da parle de Sergipe, depois do dos Palos, ha o da Travessada, , 
do Riacho-Grande e do Cajueiro. Todos estes morros sfio 
de rocha, mas nao figuram a qualidade de lousa que aprc- 
sentam em grande parte os anteriores. 

A's 9 l/:2 passava o vapor pelo Bonito , logar que 6 consi- 
derado como inais perigoso , c onde comeca a descobrir-se 
pelo meio do rio cabi^cos de pedras , que ora se apresenlam 
fora d'agoa, ora se occullam , mostrando apenas urn torvelinho 
(pie OS indica. Dizem as pessoas da localidade que dahi para 
cima fundo do rio e todo de pedra ; repulando-se por isso 
im[)ossivel a continuacao da viagem no vapor Piraja , apezar 
de somente c.alar dous e meio pahnos d'agoa. 

Fslreilo e o canal, e difficil a navcgacao pclas frequentes e 
successivas voltas, que cumpre dar, alim de evitar-se oscabegos 
das pedras. Qne nao era porem inqiossivel provou-o o Piraja 
chegando ale Piranhas, ultimo ponlo a (pio aporlam as ine- 
nores canoas , sem haver tooado nem de leve u'uma pedra. 



102 REVISTA BRAZILEIRA. 

Nao faltaram comtiido as cautelas, aconselhadas pelas pre- 
ven^oes e receio do perigo. Assim, pois, antes de chegar o 
vapor ao Bonito , foram postados na popa dous homens , 
armados de macliadinhas , urn a cada cabo que rebocava a 
can6a , para — a primeira voz — cortarem-os, e livrarem o 
vapor do reboque que Ibe poderia ser nocivo. Era a can6a 
bastante longa, e estava separada do vapor por duas, ou tres 
bra^as de cabo : e sendo mui curtas as voltas que os cabeQOS 
obrigavam a dar , seria factivel que a extensao formada pela 
canOa e pelo reboque impedisse a boa execucao das ma- 
nobras, sendo necessario para salvar o vapor perder a canoa, 
que iria indubitavelmente, impellida pela correnteza, fazer-se 
em estilhagos de cabego em cabego. 

A vista dos dous porta-machados de sentinella aos cabos 
do reboque era pouco agradavel aos passageiros da can6a ; 
reinava apezar disso a alegria e a confianga entre elles. Feliz- 
mente fez a viagem sem que o menor exercicio tivessem os 
fataes instrumentos. 

Largos, e cobertos de arbustos, eram alguns dos cabegos 
que se erguiam no rio; c extraordinaria a correnteza formada 
pelos offuscanles redomoinhos. 

Depois do Bonito, apresenta-se o morro do Sacco, defronte 
do qual desagoa o riacho das Areas , que se entranha pela 
provincia de Sergipe, em direcQao a conhecida barra das 
Cabagas. viajante, que neste ponto voltar o rosto , e olhar 
para o que atras de si deixou , vera o rio alravessado por um 
fio de pedras unidas como as contas de um rosario , sem des- 
cobrir entre ellas a mais acanliada passagem. 

Ostenta-se pouco adiante o morro do Armazem , onde con- 
templa-se um elegante povoado, outr'ora conliccido por esse 
nome, e hoje pelo de Entre-Montes. Defronte do povoado ha 
um grande serro de pedras vermelhas e lascadas. Tanto ahi , 
como na povoagao, manifcstou-se o maiof enthusiasmo por 
occasiao da passagem do vapor , correndo todo o povo a 



VISITA IMPERIAL A CACHOEIRA DE PAULO AFFONSO. 103 

saudar o Moiiaicha, com vivas e foguetes , que atunJiam 
OS oiividos. 

Alem do povoado avista-se uma grande coUina , que em 
seus cuines iguaes em forma d\im polygono , e alargaiido se 
ale a base, ameaca rolar e afogar-se no rio. Prolonga-se essa 
collina a grande dislancia . lendo em frente a serra do An- 
gico. 

De Entre-Montes para cima, ale mais de uma legoa, es- 
Ireita-se mais de melade o rio , e alargando-se depois pouco 
iiienos do que no Penedo , Propria e Traipu. 

A's H 1/4 costeava o Pirajn o morro do Collete, em cuja 
face eleva-se o de Sinimbu. A maxima largura do rio entre 
esses dous monies sera de 40 a 50 bragas. 

Faz parle o morro Sinimbu da serra das Piranhas , que es- 
lende-se ale o povoado dessc nouie. Bandos de gargas fen- 
dem ahi os ares , suslentando-se de peixe , a que declaram 
a mesma guerra que as piranhas aos corpos humanos. 

A's 11 1/2 passava S, M. pela Peclra do Matheus, enorme 
rochedo erguido no meio do rio , terror dos canoeiros e dos 
viajantes, celeljre pelos naufragios que tem presenciado , cn- 
tregando as victimas a correnleza das agoas e a voracidade 
das piranhas. E' ncsse logar mais forle o redomoiuho do que 
em pai'te alginna do rio . e pela [tosigao em que se acha vao 
a seu enconlro despedagarem-se as canoas , que nao podem 
resislir a levada. Franquearam fehzmenle sem o minimo 
perigo lerrivel Matfmn o vapor e a canoa da esquadrilha 
imperial. 

Perto do uiorro do Couto, onde existe uma fazenda de gado, 
alarga-se mais o rio , avislando-se dahi a serra da Piranha- 
Pequena. 

Nessa serra, e mui vizinhas a povoagao, vem-se duas ca- 
vernas no declive d'unia collina, e um grande talhado na 
pedraaprumo, por onde conla so que descera ha mais de 
seculo uui carador com um veado as coslas e calgado de san- 



104 REVISTA BRAZILEIRA. 

dalias , em procura de agoa do rio , que Ihe saciasse a sede. 
Cremos porem lal tradiglio inteiramente destituida de funda- 
menlo. 

Reclina-se nessa serra a povoagao da Piranha, ultimo ponto 
a que se pode chegar embarcado ; e onde , as 1 1 3/4 , apor- 
tava Pirajd. 

Desembarcou S. M. com todas as pessoas que tiverara a 
honra de acorn panhal-o , sendo recebido por urn grande 
numero de pessoas , entre as quaes achavam-se as maisno- 
taveis da circumvizinhaga de 20 legoas. 

Ha talvez uma distancia de 40 passos do desembarque 
a primeira casa, e caminhando-se por entre ardentissimo 
arcal. 

Divide-se a povoacao em Piranha de cima e Piranha de 
baixo , tendo cada um desses bairros de 25 a 30 casas ; e 
nessa occasiao acoitava a febre o bairro inferior. 

Chegando a Piranhas, havia o Augusto Viajante transpoato 
39 legoas; restava a Jornada por terra. 

Haviam anteriormente chegado a derradeira estagao tluvial 
alguns cavallos para conduzirem S. M. , sua comitiva e as 
demais pessoas ; fallaram porem muitos, em razao de serem 
esperados no dia seguinle. 

Entre as pessoas que em Piranhas aguardavam o Excelso 
Hospede, contava-se o Sr. major Manoel .lose Gomes Callaga, 
a quem coube a salisfagao de abrir e prcparar grande parte 
da estrada que conduz a cachoeira ; tendo-se incumbido de 
identicas funccoesem oulros pontos o engenheiro Charambac, 
sen ajudante o Sr. Joao Pedro Xavier, e o prestante cidadao 
Sr. tenente-coronel Pedro Vicira Junior. 

Sahiu S. M. de Piranhas as 5 1/2 horas da tarde. Trajava 
sobrecasaca de panno prelo abotoada, ca^-.a do ganga, chapeo 
de palha coberto de pauno de linho , luvas amarellas e botas 
de couro branco. 

Luzida era a cavalgada : mais de quarenta cavalleiros acorn- 



VISITA IMPERIAL k CACHOEIRA DE PAULO AFFONSO. 105 

panhavam o Imperador , que chegou as 8 horas a fazenda do 
Olho d'Agoa, arredada cinco legoas de Piranhas. Apenas 
anoiteceu, deu o mais bello colorido a esta singukir scena a 
luz dos fachos que inlerrompia a escuridao. 

Pernoitou S. M. no Olho d'Agoa, d'onde sahiu as 4 1/2 
horas da manhaa do dia 19, chegando as 7 a fazenda do 
Talhado, que dista dahi tres legoas, em cujo sitio almoQou 
8 iantou. Do Salgado, onde pernoitou, sahiu as 3 horas da 
manhaa , achando-se na cachoeira antes do nascer do sol , 
depois de urn trajecto de cinoo legoas. 

Sahindo de Piranhas, a estrada toma o alto da serra, 
pela qual segue-se sem encontrar outras casas mais do que 
cassas dos pousos, que sao mesquinhas habitacoes perten- 
centes a fazendas de gados. Largo e o caminho , dando fol- 
gada passagem a tres cavalleiros, e aberto em muitos logares 
por cima de rochas, em outros atravessando riachos e lagoas. 
Todo terreno atravessado pela estrada e cheio de macam- 
biras, barafinas, qiiipas , chique-chiques , e de outras muitas 
pequenas arvores, que com vantagem podem applicar-se 
a construcQao. 

logar onde apeam-se os cavalleiros, que vao observar 
a cachoeira de Paulo Affonso , e uma planicie pequena de 
area, onde se levantam algumas pedreiras. Immediatamente 
a ella comega a cordilheira de rochas que margina o rio 
nessa altura, e estendendo-se pelo leilo do mesmo, ergue-se 
no meio delle formando essa maravilha , que o nosso illus- 
trado Monarcha nao quiz por mais tempo desconhecer. 

No centro do areal tinham levantado um grande barracao 
coberto de paiha e forrado de panno branco, dividido em 
tres partes, das quaes a primeiratinha o conmiodo destinado 
para S. M. repousar ; a segunda, uma sala d'espera; e a 
terceira, niaior do que ambas, a accommodagao para a sua 
comitiva, 

Havia no aposento imperial uma cama bem preparada , 



106 REVISTA BRAZILKIRA. 

doze cadeiras cle jacaranda e urn sofa ; era o pavimento 
cobcrto por esteiras da terra. Era esse pavilliao circulado de 
carahibeiras , tendo na freiite a riiaior de todas coberta de 
flores, e em ciijo tronco descascado liam-se gravados os 
nomes de todas as pessoas que tinliam anteriormenle visitado 
a.cachoeira. Nesse mesmo tronco, e em outro logar , foram 
inscriptos os nomes de quasi todas as pessoas que acompa- 
nhavam o Imperador. 

Alem deste barracao, notavam-se muilosontrosdislribuidos 
sem symetria e muito maissingelos, aos quaes se recolheram 
as demais pessoas que ali se acbavam. 

observador , que de longe lan^asse os olhos sobre aquella 
planicie coberta de barracoes, apinhada de gente, que cons- 
tantemente soltava foguetes , nao deixaria de commover-se 
com semelbante quadro. 

Nem menosbello era o espectaculo durante a noite, quando 
numerosas fogueiras acendiam-se diante das barracas e dos 
rancbos. 

Descripcao da cnchoeira de Paula Affonso, extrahida do 
Relatorio do Sr. H. J. F. Halfeld, i^obrc o reconlimmcnto 
do Rio S. Fruncisco , fcito nos annofi de 1852 a 1854. 

« No comeco da legoa 326* (distancia modida, seguindo 
curso do rio a partir da cachoeira da Pirapora , em legoas 
de 20 ao grau) se mostra a grande cachoeira de Paulo Affonso 
(assim denominada , provavebnente por ter na vizinhanga 
um sitio com o nonie de — Tapera de Paulo Affonso). 

* A sua primeira catadupa tern 44 palmos e 6 pnllcgadas de 
altura, e despenha-se em uma bacia guarnecida de rochas 
de granifo talhadas quasi a prumo . e inclinadas mesmo al- 
gumas dellas para o lado inferior da correnle. Desla bacia 
faz rio uma rapida voUa , formando um angulo redo na 
margem esquerda ; e precipila-sc por enire alcaiililados pe- 
nhascos no fundo de um abysmo, transformando-se em uma 



VISITA IMPERIAL A CACHOEIBA DE PAULO AFFONSO. 107 

intumecida massa espiimosa, c6y de leUe na apparencia , 
atraves da qual se elevam a grande altnra borbotoes d'agoa, 
apreseutando urn aspecto semelhante ao da explosao de iiraa 
mina ; dahi resulta a permanente existencia de urn espesso 
nevoeiro, o qual , formado da extrema siibdivisao das parti- 
culas aquosas arremessadas ao ar, esta como pairando , a 
uma notavel altura , «obre o abysmo , para onde resvalam 
estrepitosamente as agoas precipitadas; ora resolveiido-se 
em chuva de aljofaradas gotas, em tempo sereno ; ora arre- 
messado por forte briza, vai regar longe o terreno adjacente 
a margem opposta. 

« fi interessante observar esta maravilha pela manhaa , 
quando o reflexo dos raios solares produzem um magnifico 
arco irisado, penetrando o nevoeiro elevado sobre a ca- 
choeira. ♦ 

« ruido causadopor esta catadupa e tao forte, quefallando 
entre si duas pessoas, que estejam approximadas uma da 
outra, ve-se o movimento dos labios, sem que se ouga a voz 
da que falla. 

« A margem esquerda, sobre a qual actua perpendicular- 
mente o rio precipitado da catadupa , e formada de rocha 
granitica , e tem 3fi5 palmos de altura sobre a superficie 
da agoa, tendo esta a profundidade de l^JO palmos. em- 
bate das agoas contra essa muralha produz nellas um mo- 
vimento de vai-vem , semelhante ao das ondas nas praias , 
elevando , e abaixando alternativ.-imente o sen nivel : dahi 
tem resultado nao so o desmoronamento de uma porQao con- 
sideravel dessa massa granitica , mas tanibem a forma^ao de 
uma espaQosa lapa, ou funia no interior da rocha, cuja 
entrada tem 40 palmos de largura e 80 de altura, prolon- 
gando-se para dentro 444 palmos; scndo dividida em dous 
grandes compartimenlos , nos quaes se acoutam myriadas 
de morcegos; e e por esta razao que a referida lapa se deu 
nome de furna dos morcegos. 



108 REVISTA BRAZILEIRA. 

« No rcdoMioinho formado pela forte correnlcza do rio, 
tanto iiabacia superior da cachoeira , como na inferior (a que 
OS habitantes do logar clianiam— Vai-vem de cima, o Vai-vem 
de baixo) encontrain-se, chocando-se enlre si , tocos dc ma- 
deira , taboas , remos, etc. , lovados abi pela corrente : obser- 
vaiido-se, que os cheques repetidos desses corpos , aleni de 
dar-lhes , pela continuada fricijrio , foniias arredontladas , e 
uni certo grau de polimcnto, produzem na bacia inferior sons 
harmonicos, que o vulgotomapor urn phenomeno myslerioso, 
atlribuindo-os a musica celeste, e algumas vezes os compara 
ao toque de caixas de guerra. (Estampa H.) » 

Da precedente descripcao se infere que o movimento das 
agoas, tomadas em massa, na cachoeira de Paulo AlTonso, 
difTere notavelmente daquelle que produz a famosa cataracla 
do Niagara , na America do Norte:' porquanlo, nesta, pro- 
jecta-se maior volume da massa liquida, formando uma so 
queda sobre o leito inferior do rio , em uma ditTeren^-a de nivel 
de 142 pes inglezes (rOS palmos) ; ao passo que na cataracta 
de Paulo AfTonso , as agoas , precipitando-se na sua primeira 
queda , da altura de 45 palmos, vao reunir-se em uma vasta 
bacia, d"onde sao novamente arrojadas em massa, resvalando 
em larga rampa, singularinente accidenlada por numero- 
sas e profundas anfractuosidades , ate ganharem o leito 
inferior do rio, em uma differenga total de nivel de 365 
palmos. 

Para o observador inlelligente a cataracta do Niagara ex- 
primira melhor talvez ascondigoes do bello artistico ; mas, 
na presencado phenomeno de Paulo Affonso, o im[)ressionara 
mais a oiiginalidadedo aspecto, o grandioso dc umanatureza 
selvagem. 

A cachoeira de Paulo AfTonso disla da foz do rio de S. Fran- 
cisco 57 legoas ; ee para sentir que o Sr. Halleld, no seu 
noticioso, e muito interessanlc relalorio, nao lizessc conhecer 
a posiQao geographica de um ponto tao caracleristico do im- 



VISITA IMPERIAL A CACHOEIRA DE PAULO APFONSO. 109 

portante rio, qae habil, elaboriosamenteexplorou. (Obser- 
va0es do extractador.) 

S. M. percorreu tudo , a excepQao da Caldeira do Inferno, 
assim chamada d. fania onde a agoa da cascata, achando 
um vazio , redomoinha e ferve em grandes proporcoes , conio 
se estivesse n'uma caldeira de fogo. 

CalQado com assuas I>otas de montar, dispunlia-se o Im- 
perador a descer a nnvdfania, quando, escorregaiido , am- 
parou-se com um brago resguardando o rosfo , que estava 
quasi a tocar na rocha. Apoiado, porem, em um bastao , 
ciiegou ao logar que desejava examinar. 

Antes de descer para a fiiriia, S. M. senlado em algumas 
pedras mais altas fronteiras as grandes cascatas, admirou o 
espectaculo e desenhTm a lapis toda a cachoeira no seu album, 
com extraordinaria rapidez e admiravel pericia. Alem destas, 
desenhou S. M. varias paisagens tomadas de lado do Pirajd. 

Qiierendo S. M. chegar a uma das pedras mais alias , e 
d'onde melhor se devassavam as cascatas , tinha necessaria- 
mente de passar por duas pogas largas , que enchiam e va- 
savam rapidameiite. Diversas pessoas, tanio da comitiva, 
como estranhas a ella , esperando que a p(X"a ficasse vazia , 
tinhaiu saltado molhaudo-se sempre. Vendo isso S. M., nao 
esperou pela vasante; e raettendo-se por dentro da poca, 
atravessoQ-a e ganhou a pedra alta. 

Abi vendo atacar um foguete do ar, disse: « Atacar um 
fognete na caclioeira de Paulo Affonso , e o mesmo que 
acender nma lamparina sobre um volcao. » 

Tiveram verligens algumas pessoas que desceram a ca- 
clioeira; e Lima senhora cabin, ticando muito maltratada. 

Havendo percorrido tudo, voltou S. M. para o barraciio , 
onde chegou as 10 boras. 

A' tarde foi a cavallo apreciar d'nma eminencia afaslada 
a cascata, que bavia-o obrigado a fazer tiio longa e penosa 



viagem. 



Das 10 boras da man baa ate as 5 da tarde, nao se pude 



liO RE VISTA BRAZILEIKA. 

ir a cachoeira porque as pedras esquentam excessivamente. 
Regressando de maiihaa, da cataiUipi, o digno presidente 
das Alag6as , teve a idea de erigir um moniimento para com- 
memorar tao fauslo acontecimento. Foi essa idea geralmente 
abrai;ada, e n'um instante obteve-se iiina consideravel somma, 
iiavendo as.Mgnaturas de 500??' , 400?)!i e 300;5!i. 

Solicilando-se do Sr. conselheiro Mello o piano do mono- 
niento, prestou-se clle de bom grado, desenhando-o logo, 
r.omo concebera. Deve assentar o edificio sobre um terraQo 
com quatro escadas. Sera de coliimnas de ordem dorica , 
tendo em um friso superior a data da visita imperial ; na 
frente uma ellipse contendo a efflgie de S. M. ; na face opposta 
.i inscripcao do monumento , e nas duas lateraes , ellipses 
iguaes, contendo uma o nome do Ex">° Sr. ministro do 
imperio, e a outra a do Sr. presidente da provincia. Serno na 
base gravadosos os nomes de todas as pessoas que estiveram 
presentes ao grandioso successo. Serao as ellipses de mar- 
more branco, e o monumento formado de alvenaria formada 
da pedra do logar com cimento romano. ladrilbo do terrago 
sera de marmore preto c branco. 

Separado S. M. do logar onde isso se combinava, somente 
por tapagem de panno , tendo tudo ouvido , apresentou-se 
dizendo — que seria mais conveniente applicar essa quantia 
para o melhoranicnlodos logares de descida e subida para a 
cachoeira , formando se degraos nas pedras , pois que seria 
isto proveitoso as pessoas que la fossem para o futuro. Re- 
solveram entao os circumstantes que se fizesse o melhora- 
mento indicado pelo Imperador, e alem disso o monumento 
anleriormentc projectado. 

A's 5 lioras da madrugada do dia 21 deixou S. M. com toda 
a sua comitiva aqucUes sitios , descansando nos mesmos 
l)onlos em que estivera na ida. 

Para os pobres do Salgado , Talhado e Olbo d'Agoa , deixou 
S. M. 600$ , alem de varias esmolas que dera aos decrepitos 
que se Ihe apresenlaram. 



VISITA IMPERIAL A CAGHOEIRA DE PAULO AFFONSO. Hi 

A's 8 horas da inanhna do dia 22 chegou o Augusto Vian- 
dante a Piranhas , onde , endjarcando-se no vapor Pirajd , 
seguiu viagem rio abaixu fazendo escala pelasmesmas locali- 
dades, e sendo por toda a parte victoriado. 

Eis, benevolos leitores, o rapido e singelo esboco dessa* 
viagem, que tao fecundos resultados prognostica, e que, 
revelando ao sabio Monarcliauin dos mais esplendidos pro- 
digios do sen Iniperio, interessal-o-ha cada vez mais pela 
sua prosperidade e fulura grandeza. 



METROLOGIA 



MEMOniA 



SOBRE 



A ADOP^AO DO SYSTEMA METRICO NO BRAZIL 

E DE UMA^CmCULAgAO MONETARIA INTERNACIONAL 



Ill'no e Ex"^^ Sr.— Encarregado per V. Ex. de examinar, 
e dar meu parecer sobre varies impresses inglezes, que 
acompanharam o sen officio de 10 do mez de Outubrofindo, 
passo a expender a minha opinifio acerca do assumpto de que 
elles tratam. 



I. 



Constam os mencionados impressos da seguinte materia: 
1.'' Dous relatorios annuaes (de 1858 e 1859) da SecQao 
Britannica da Associacao Internacional , iiisliluida no anno 
de 1855, para o fim de promover em todos os paizes civi- 
lisados da Europa e da America, a adopgao de um systema 
uniforme de Pesos e Medidas , fiindado sobre a base de uma 
unidade linear invariavel , tomada como padrao , e subor- 
dinada no sen desenvolvimento ao principio decimal , que 
caracterisa a lei da numeraQao gcndinente usada naquelles 
paizes. 

R, S. III. $ 



il4 REVISTA BRAZILEIRA. 

2.» Doiis bem elaborados opusculos , imblicados pela re- 
I'erida Sccc'io , tendo por objecto a sustentacao dessa impor- 
lante medida, tanto no iiituilo de facilitar as IransacQoes 
que fazem objeclo do cominercio internacional , como tam- 
l»em por conveniencia propria no interior dc cada paiz. 

3.' Uma abreviada nolicia da origem , e iiiolivos que de- 
lerminaraui a formagao da referida Associarao Internacional, 
donde se tiram as inl'ormaooes (|ue segueiu. 

Por occasiao da Ex[)Osi(;ao Universal dos productos in- 
dustriaes , que teve logar pela priiueira vez em Londres no 
anno de ISoi , c depois em Pariz no de 185r) , reconheceu-se 
grave inconveniente de serein avaliados os productos dos 
diversos paizes, ijue ahi concorreram , em unidades de diffe- 
rente valor, peso e medida: e desde entao aventou-se a idea 
da adopgao de uma Metrologia uii. forme para todos os paizes 
ligados por interesscs connnerciacs. 

Este pensamento , ({ue ja havia sido favoravelmente aco- 
Ihido , e devidamente apreciado pelo Congresso Estatislico , 
que se reunira em Bruxcllas no ainio de 1S53 , c suslentado 
pelo que o seguira em Pariz no anno de 1855, fora definiti- 
vainenle abracado por uma reuniao dc 150 membros, per- 
leiicentes a este ultimo Congresso , os quaes , sob a presi- 
dencia do Barao J. de Kothscliild , tomaram a deliberagao 
seguinte : 

« Os abaixo assiguados, alim decooperarem ellicazmenle 
a bem da realisagao da idea em (juestao, delerminaram (me- 
diante a approvacao dos seus respectivos governos) formar 
uma Associacao Internacional , composla de membros esco- 
I hides de todos os paizes civilisados , os quaes se compro- 
meltam , nos seus respectivos paizes , por meio de commis- 
socs alii creadas, a promover a adopi^'Ho de um systema 
uniforme c decimal , de Pesos c Medidas ; e , scndo pos- 
sivcl , lambcm um systema monetario nas mcsmas condi _ 



^ues. » 



SYSTEMA METRICO NO BRAZIL. H5 

II. 

A idea de iima Melrologia uniforme para todos ospaizes, 
ligados entre si pclas relacOes de commercio ; e demais, 
sendo subordinada ao princi[)io decimal, na deducQao dos 
elementos que a compoe:ii di ama imidade fundamental, de 
grandeza invariavel , eaccessivel a verificaQao em qualquer 
ponto habitado do nosso planeta , deve ser considerada como 
urn complemenlo necessario da Aritlimetica que transmit- 
tiram os Arabes a todos os povos da civilisagao moderna ; 
essa iinguagem que iioje fallam geralmente as nacoes cuUas, 
nos misteres da vida em que o cilculo numerico se faz ne- 
cessario , mas pai'licularisada em cada paiz , quando e ap- 
plicada a medir a extensdo, o peso e o valor , pelo emprego 
de unidades arbilrarias , e diversamente systematisadas. 

A conveniencia de tao importante melhoramento , apre- 
ciado ja pelos homens da sciencia de todos os paizes , foi 
pela primeira vez reconhecida sole iincmenle pela assemblea 
constituinte da Fi'an(}a no anno de 1 790 ; a qual , em virtude 
deuma proposic'io feita por Mr. de Talleirand (depois Prin- 
cipe de Talleirand) , decretou a formacao de uma commissao 
desabios, para o flm de organisar um systema metrologico 
nas condiQoes acima indicadas , o qual pudcsse adoplar-se ao 
uso geral dos povos civilisados. 

Para dar execu^ao a esse decreto, foram chamados a com- 
por a referida commissao os mais notaveis sabios da Franga • 
a saber: — Borda, Lagrange, Laplace , Monge e Condorcet ; 
sendo aggregados a essa commissao sabios de diversos paizes 
da Europa, em virtude deconvile feito pelo governo francez 
aos de todos os paizes cultos , alim de coUaborarcm nessa 
obra de intcresse universal. 

Empregou-se essa commissao scm perda de tempo nos Ira- 
balhos condnccnles ao ilesempenho da sua importante incum- 



116 REVISTA BRAZILEIRA. 

bencia: ehavendo tornado, como pontode partida, aadopgao 
do comprimento da quarta parte do meridiano terrestre (de 
preferencia ao comprimento do pendulo simples que bale 
segundos , por variar essa grandeza nas diversas latitudes) 
para servir de padrao primordial , donde fosse deduzida a 
unidade fundamental do systema metrologico projectado ; 
fixou ella a grandeza dessa unidade cm ,„ ^^^ p^o do quarto do 
meridiano, e deu-lhe a denominagao de metro , palavra grega 
que signiflca — medida. 

comprimento do quarto do meridiano foi determinado 
pelamedigao effectiva do arco de cerca de 12" do meridiano 
que, passando por Pariz, termina ao Sul na ilha hespanhola 
denominada — Formentera — , no Mediterraneo; e ao Norte no 
parallelo de Greenwich: e achou-secquivalente a 5.130,740 
toezas. 

Dado esse passo, fixou a commissao a grandeza de cada 
uma das unidades principaes de ^nprrftcir , de capacidade 
e de peso , em rclaoocs delerminadas com a unidade funda- 
mental : as quaes deu denominagoes liradas do grego ; e aos 
multiplos , e submuUiplos decimaes das mcsmas, denomi- 
nacoes compostas, derivadas do grego e do latim, como adiante 
se vera. 

Pelo que respeita a unidade de valor , considerada como 
parte integranle do syslcma metrologico, tomou a commissao, 
para represental-a, um determinado peso (5 grammos) de 
prata ao titulo de j"- de fino ; dando-llic a denominacao de — 
Franco—, a qual e fraccionada em 1,2, 5 e lOcentimos, 
represenlados por moedas de c;il)rc : sendo os multiplos cx- 
pressos por 10, e 20 francos, represenlados por moedas 
de ouro. 

Os motivos que dclerminaram a Connnissao a nacionalisar 

• assim a dcnominarao da unidade monolaria. afastando-se do 

principio que segnira a lal respeilo, rolalivamenlc aos elc- 



SYSTEMA METRICO NO BRAZIL. 117 

mentos do systema , na parte concernente a exlenslio e ao 
peso, foram talvez os seguintes : 

1," A escolha (la prala , paraservir de padrao monelario, 
poderia nao ser facilineiile aceitavel em todos os outros 
paizes, onde o ouro fizesse aquellas mesinas funcgoes , em 
virtude de habitos secularcs, como acontece em Franca, a 
respeito da prata. 

2.0 Qualquer que seja a unidade monetaria, ouro ou prata, 
adoptada em cada um dos outros paizes , como l)ase do sys- 
tema monetario, suljmeltido no seu desenvolvimento ao prin- 
cipio decimal, e someritc essencia!,para satisfazer nesta parte 
as condiQoes da metrologia geral , que seja exactamente defi- 
nida a relagao entre aquella unidade principal eo Franco; 
ficando por outra parte subordinada semelliante determi- 
nagao (na liypolhese de ser essa unidade monetaria repre- 
sentada por ouro) as variagoes que possam ter logar no valor 
comparativo dos dous melaes no mercado geral. 

No fim de 1 1 annos de accurados e penosos trabalhos , foi 
systema melrologico, que vimos de descrever, adoptado 
deflnitivamento por lei em Franga, sob a dsnominagao de — 
Systema Metrico. 

Laplace , apreciando essa obra de reconhecido interessc 
paraassciencios, c para os usos do tralo social, exprime-se 
do modo seguinle : 

« Nao se pude vcr o uiunero prodigioso de medidas , nao 
someute usadas [tor dit'ferenles povos , mas ale por uma 
mesmanagao ; as suas divisoes extravagaiUes c incommodas 
para o calculo ; a dilTiculdadc de as conhecer , e comparar ; 
emlim , o embarag > e as fraudes que dahi resultam para o 
commcrcio; sem considerar como um dos maiores servigos , 
que OS governos podem fazer a sociedade , a adopgiio de um 
systema do medidas, cujas divisOes uuiforuics se prestam 
facilmente ao calculo, e (jue sejam derivadas, da maneira 



118 REVISTA BRAZILEIRA. 

menos arbilraria , de uma inedida fundamenlal indicada pela 
mesiiia naturcza. 

« povo, quecreassc para si um scinelhaute systema,reu- 
niria , a vantagem de collier os sens [irimciros fruclos , a sa- 
tisfaclio de ver o sen exemplo iinilado por outros povos, que 
reconheccriain por seu benifeitor : porquanto , o impeiio 
lento, mas iiTcsislivel da razao , subjuga com o andar do 
tempo OS cluines das nacoes, e vencc todos os obstaculos , 
que se oppoem a posse do bem gernlmentc reconhecido. 

« Taes foram os mofivos que detenniiiaram a assemblea 
constituiiUc a eticarregar a Academia das Sciencias tao im- 
portante objeclo. novo systcma de pesos e medidas e o re- 
sultado do trabalho dos sous commissarios, auxillados polo 
zelo, e luzes de muitos mcmbros da representarao nacional. 
Este systema, fundado sobre a medida dos meridianos ter- 
reslres , convem igualmenle a todos os povos: nao lem elk) 
relagao com a Franca senao pelo arco do meridiano que a 
alravessa. 

« Para mulllplicar as vanlagens dcste systema , e tornal-o 
util ao mundo inteiro , o govcrno francez convidou as po- 
tencias cslrangeiras a tomarem parte em um objeclo de tao 
geral interesse : multas enviaram a Pariz sabios dislinclos, 
que, reunidos aos commissarios do Instituto Nacional, de- 
lerminaram pela discussao das observacoes e expcriencias , 
as unidades fundamentaes de peso e de comprimento ; de 
sorte que a fixacJio deslas unidades deve ser considcrada como 
obra commum aos sabios que para isso concorreram , e as 
nacoes que elles represcntaraui. 

« Cumpre porlanlo esperar que um dia, este systema, que 
reduz lodas as medidas e os sens calculos , a escala , e as 
opera^oes mais simples da arilhmotica decimal , sera tao 
geralmente adoplado, quauto o tem sido o systema de nu- 
meraijiio, de que e elle o complemeiilo ; o qual soui duvida 
eve que veneer os mesmos obstaculos, (pie o (loder do habir^ 



STSTEMA METHICO NO BHAZIL. H9 

oppoe actualniente a intiodiiCQao das novas inedidas ; mas , 
uma vez vulgarisadas, serao essas medidas snslenladas per 
esse mesmo poder , que junto ao da razao , assegura as 
instituigSes humanas uma dnracao permanonte (systema do 
niundo). » 

As previsoes de Laplace sobre este objecto nao lardaram a 
realisar-se em toda a sua plenitude ; porcjuanto, ja em alguns 
paizes da Europa se acha adoptado legaliuente o Syslema 
Metrico, na parte lelaliva as medidas de extens^io, e de peso; 
a saber : na Hespanba, Hollanda , Belgica , Sardenha , e re- 
centemente em Portugal. Na America funcciona lambeu) le- 
galmente esse sysieiua nas Kepublicas do Chili, Nova Gra- 
nada , e Equador. 



III. 



Na legislatura de 1830, cabendo-nosa honra de ter assenlo 
na Camara electiva, e bavendo reconbecido a imperfei(jao do 
systema de pesos e medidas , que berdamos dos portuguezes, 
propuzemos a adopcao pura e simples do Systema Metrico , 
em subslituiQao do nosso , que ainda se acba em vigor , na 
parte concernente as medidas de extensao e de peso : offere- 
cendo para este Irn a consideracao da Camara o seguinte 
Projecto de lei : 

A Assemblea Geral Legislativa Decreta : 

Art. 1." actun! systema legal de Pesos e Medidas sera 
substituido em lodo o im[)erio pelo Systema Metrico, adop- 
tado por lei , e actualmenle usado em Franga. 

Art. 2." E' governo autorisado para mandar vir de Franga 
OS necessarios |»adroes desse systema ; e a tomar todas as 
medidas que julgar convcnientes a bem da prompta, facile 
gcral exccu(;ao do artigo antecedente. 

Paco da Camara dos Deputados, 12 de JuUio de 1830.— 
Candida Bnpfisfa de Ol.iveira. 



120 



HEVISrA BRAZILEIRA. 



A composirao, e desenvolvimcnto do Syslema Metrico, a 
que se refere o preceilenleProjecto de lei,se acham descriptos 
iia tabella (.4 ). 

Enlretanto que pendia esle projcclo da resolu(}ao do Corpo 
Legislativo. proniovcmos nus no anno de 1833, naqualidade 
de inspector geral do Thesoiiro Nacional , a forinacao de uma 
Commissao incuinbida pelo minlsterio da lazenda de coor- 
denar os eleinentos do nosso systema de Pesos e Medidas ; e 
de apresentar a organisacao de ma novo Systema Monetario, 
no inluito de obviaiao grave inconvenienlc.^iaeresultava, es- 
pecialmente para a admiiiislraclio fiscal , da notavel discre- 
pancia que ofTereciaui as uiedidas usadas em algumas pro- 
vincias do imperio. 

Essa Commissao, de que fizemos parte, depoisde accuradoi 
exames , feitos sobre a compaiaeao dos diversos padroes de 
medidas usadas lanto nesla capital , como nas principaes 
provincias do imperio , elaborou o systema dcscripto na ta- 
bella [B). 

Neste importante trabalho liniitou-se a Gonunissao a sys- 
lemalisaro co:nplexo das diversasunidades de peso e de ex- 
tensao, fixando as relardes iminoricas que guardam cUas 
entre si , e com a vara tomada para unidade fundamental do 
systema. 

No inluito de ligar este systema a grandeza invariavel da 
circumferencia do nieridiano Icrrestre , ja conhecida com 
exacclio pelos tiabalhos (iiie em Franga preccdcram a orga- 
nisacao do Systema Metrico , delerminou a Commissao com 
vignrosa |)recisao a rclacao enti'e as imidadcs fimdamentaes 
desses dous systemas , a saber , a vara e o metro ; acbando, 
por uma Teliz casualidade , que cstes eleinentos cslao ligados 
pela seguintc relarao , notavel pela sua simplicidade 

\ vara= 1 , 1 melro. 



I 



SYSTEMA METRICO NO BRAZIL. 121 

Uma vez conhecida esta relaQao , facil e deduzir dahi as 
relaQoes nuiiiericas que guardam entre si as unidades da 
mesma especie , pertencentes aos dous systemas : e organisar 
assim labellas que sirvam para dar immediatamente as me- 
didas de uni systema , expressas nas que Ihes correspond em 
no outro. 

Pelo que diz respeito a organisarao do novo Systema Mo- 
netario , formulou a referida Conunissao um systema, to- 
mando por base a moeda de ouro de quatro oitavas com o 
valor nominal de 10§ (em conformidadc com o padrfm mo- 
netario que entao vigorava, li\ando em 2$500a oilava dc 
ouro de 22 quiiates) , cujos elementos , representados por 
ouro c prata, ficaram subordinados ao principio decimal, em 
rela^ao a unidade monetaria, representada por 1$ f) de ouro; 
excepto peloqu3 respeita ao titulo do ouro , sendo conservado 
de 22 quiiates , ou {^ de lino. 

Este systema se aclia actualmente em execu^ao, com as se- 
guintes alteragoes substanciaes ; a saber : 

l.'^ A oitava de ouro de 22 quiiates e computada no valor 
nominal de 4$, do conformidade com a lei que alterou em 
1840 anterior padrao monetario ; 

2." A moeda de prata tem somente curso legal ate o valor 
de 20*ii em cada pagamento , supportando por isso a senlio- 
riagom de D^^/o. 



IV. 



Sobre o modo [»ratico de levar-se a effeito a idea de uma 
Melrulogia uniforme, destinada ao uso internacional e do- 
meslico, nos differentes [)aizes , debatem-se actualmente pela 
imprensa, na Europa c na America, opinioes (jue discordam 



(*) 18 = 1000 Mis. 



1B2 REVISTA BRAZILEIRA. 

enlre si em pontos cssenciaes ; das quaes passanios a dar 
abreviada iiifornia^ao. 

I.* Sustenla-se em alguns escriplos, e com cerlo irraii dc 
plausibilidade, que a simples decimalisacao (expressao in- 
gleza, que exprime sein circumloquio, a deducclio dos ele- 
menlos do systema melrologico , subordinada a lei da nu- 
meracao ordinaria , ou decimal) e por si so sufllciente para 
facilitar a conversfio dos pesos , medidas e mocdas , entre 
diversos paizes : flcando ao arbitrio de cada paiz a fixac-ao 
da unidade fnndamenlal do systema quo llic e peculiar; nma 
vez que as relacA)es desse elemenlo, para os que llic corrcs- 
pondem nossystcmas dos outros paizes, sejam conbecidas ; 
assim como a conslriiccao dc cada systema , derivada da res- 
pectiva nnidade fundamental. 

Nesla bypothese opinam uns , que a grandeza da unidade 
fundamental seja lixada em uma determinada relacao com o 
comprimento do pendulo simples , (pie bale segundos sexa- 
gesimaes; desprezando a variacao desse comprimento entre 
OS differentes parallelos , por ser ella praticamente inapre- 
ciavel (o comprimento do pendulo simples augmenta, do 
Equador ate o Polo, de 4 millimetros somente). 

Preferem outros, porem, que essa unidade seja fixada 
em relacao ao comprimento conbecido do quarto do meri- 
diano lerrestre. 

Fica subentendido qise , segundo esta opiniao , devera con- 
servar-se em cada paiz a nomenclatura usual da sua metro- 
logia , no intuito de nao contrariar os babitos populares sobre 
esle objccto. 

2.* Em outras publicaQoes tem-se pronunciado os seus 
antorcs em favor da completa adopcao do Systema Metrico, 
na i)arle concerneiite as medidas de exlensao e de peso ; 
ticando porem livre asubstituicao da sua nomenclalura locb- 
nica pelas denominarocs peculiarcs usadas em cada paiz, em 
relacao a.s uuidades da mesma especie. 



SYSTEMA METRICO NO BRAZIL. 123 

3.» E' finalmente a terceira opiniao aquella, que sc decide 
pela inteira adopcao do Systema Metrico, lanto pelo que 
respeita a sua composigao , como a nomenclalura generica" 
que caracterisa ; com limitacao , porem , as medidas de 
extensao e de peso. 

Esta opiniao e habil, e fervorosamenle sustentada nos es- 
criptos publicados pela Secgao brilannia da Associagao Inler- 
nacional , a qual ju solicitara do governo britannico instante- 
mente a prompla realisagao desse pensamento em todo o 
Reino-Unido da Gran-Bretanba. 

Nao obstante pronunciarmonos em favor desta ultima opi- 
niao, considerada a questao em relacao ao fim visado pela 
Associa^ao Internacional , pensainos lodavia que ella pode 
ser convenientemenle modificada na sua execugao , de modo 
que nao sera talvez difficil chamar a um perfeito accordo as 
outras duas opinloes dissidentes; uma vez que se aceite 
como pi'aticavel a inaneira de proceder que passamos a in- 
dicar. 

A relutancia manifestada contra a adopgao completa do 
Systema Metrico, nos paizes que ja possuem, como o nosso, 
um systema regular de pesos e medidas, provem, em o 
nosso entender, nao tanto dos preconceitos , ou suscepli- 
bilidades nacionaes, como principalmente da difficuldadc 
[)i-atica de mudar repentinamente os liabitos populares a tal 
respeito. 

Reconhecido este serio inconveniente , que em verdade se 
faz sentir, posto que em grau diverse , nos differentes paizes 
(jue podem interessar-se na questao de que se trata, julgamos 
que, mediante umacnnquista lenta, e dirigida com discer- 
nimento, se cliegara a transformar os babitos populares, ale 
ponto de ver-se i)lenamente realisado o desideratum da 
Associacao Internacional, em um futuro mais ou menos re- 
moto, nos paizes civilisados do globo. 

que a este respeito vamos proper para o Brazil , podeni 



124 



REVISTA BRAZILEIRA. 



ser applicado a qiialquer outro paiz em circumstaricias seme- 
Ihantes. 

« 1.° Adoplado que seja o Systema Metrico por ado legis- 
lativo (na parte concerneiite as rnedidas de extensao , e de 
poso) , dcvera elle siibstiluir gradualmenle o actual systema 
de pesos e rnedidas, nos divcrsos ramos do serviro publico, 
pela maneira que for determinada pelo governo ; coine^'ando 
pelo service das — Alfandegas , oliicinas , arsenaes , obras 
6 escolas publicas ; de modo que denlro do prazo de 10 annos 
tenha cessado o uso legal do referido syslenia em todas as 
reparticoes publicas do iniperio , lanlo geraes , como pro- 
vinciaes: sendo to lavia tolerado dalii em diante o emprego 
das anligas rnedidas no uso privado, e nos contractos feitos 
entre particulares , salvo o disposto nos dous artigos se- 
guintes : 

2.° As escolas parlicukires de inslruccao elementar serao 
obrigadas a comprehender no ensino da Aritbmetica , a com- 
posi^ao do Systema Metrico , a par da explicacno do systema 
de pesos e medidas, que esta actualmcnte em uso. 

3.' Osestabelecimentos pbarticularesdephannacia usarao 
cxclusivamenle do Systema Metrico, logo que essa obrigacao 
Ihes for prescripta pelo governo. 

4." governo fa ra organ isar tabellas comparativas , que 
facilitem a conversao das medidas de cada urn dos dous sys- 
temas, nas que Ihes correspondem no outro ; devendo as 
relagoes fraccionaes entre essas medidas cxprimir-se sempre 
por numeros deciinaes exacta, ou approximadamente. 

Estas tabellas serao destinadas paraservirem nas reparti- 
(;oes officiaes, e para uso do publico. » 

E' facll de vcr, (jue procedendo da maneira indicada nos 
precedentes artigos, se conseguira desdc logo o resultado 
util do Systema Metrico, nas applicacoes (Mu (pie [mUi ser elle 
mais facilmente praticavel , e que s*»o de mais urgenle con- 
veiiiencia ; devendo esperar se , que o tempo e a ex[>eriencia 



SYSTEMA METRICO NO BRAZIL. 125 

acabarao por dar a esse systema , na apreciagao popular , o 
predominio que Ihe asseguram a sua maior perfeigao , e re- 
conhecida iitilidade. 

Pelo que respeila finalmente a adopQao de urn systoina 
monetario destinado ao uso commum dos palzcs commer- 
ciaes, varnos offerecer urn arbitrio , que , segundo peusamos, 
podera dar a essa difficil questao u nia solugFio satisfactoria, 
sem affectar iioslc ponto os habitos , e susceptibilidades na- 
cionaes. 

As operagoes mercanlis enlre os Estados-Unidos e a Ingla- 
terra cspeclalmente sao reguladas por uma moeda ficticia, 
denominada — Dollar de cambio — , a qual tcni urn valor 
convencional, equivalente a 54 pences de ouro ; isto e -^-^ da 
Libra slerlina; donde se deduz a relaglio seguiiUe: 

40 Dollars = 9 Libras sterl. 

Comparando o valor real do Dollar de cambio com a nossa 
unidade monetaria , ter-se-ha tambem 

1 Dollar = 2 Mil reis. 

valor real do Dollar de cambio , representado por ouro, 
ao lilulo de {- do fino, podera, em o nosso entender, ser 
accito como padrao monetario commum entre os tres paizes ; 
a saber: o BrazU, a liiglaterra, e os Estados-Unidos, me- 
diante uma convengao celebrada para esse fim ; a qual acce- 
derao depois os demais paizes commerciaes , induzidos a isso 
por interesse proprio. 

Admitlido esle principio , proporiamos a cutdiagem de 
duas unicas moedas deouro, representando uma o valor de 
10 Dollars, e a outra de 5 Dollars, destinadas a circulaQao 
iuternacioiial ; sendo fabricadas em cada um dos paizes li- 
gados pela referida conven^ao , sob um emblenia caracle- 



126 REVISTABRAZILEIRA. 

ristico allusivo ao commercio maritimo, por exeinplo, o fjlobo 
terrestre; e encerranclo a sua iiiscripcao, atom da epoca da 
cunhagem, o valor nominal que icpresenta (5 ,ou 10 Dollars) , 
com a designacao do paiz da sua procedencia. 

Nesta hypotlicse seria cousa facil dcierminar com precisao 
a relacao de valor enlrc o Dollar dc cambio (on dc convcncao) 
e a unidade monelaria dc cada um dos oiilros paizes , alem 
dos tres acima contemplados : ficando assi ii estabelecida 
geralmente a contiimidado etitrc a circularao monelaria in- 
ternacional , c a local ; circiimstancia indispcnsavel para dar 
maior facilidade, e a neccssaria exaccao as Iransacc-oes mer- 
cantis nos diilorentes mercados. 

Nos calculos do conversuo das moedas de clrculagno local 
em Dollars de cambio, e reciprocamente, convira compiitar 
as fracgoes da unidade monelaria (o Dollar) por muUiplos 
da sua cenlesima parte , com a denominagao de — cen- 
limos. 

Deus guarde a V. Ex.— Rio de Janeiro, 30 de Novembro 
de 1859.-111'"'^ e Ex'"° Sr. Angelo Muniz da Silva Ferraz , 
presidente do Consellio , e Miiiislro da Fazenda. 

Candido Baptista de Oliveira , 
Presidente do Banco do Brazil. 



SYSTEMA ^[ETRICO NO BRAZIL. 



127 



A. 



Synopae «l:t iioiiienclatiira e compoi^i^ao do iayinleiiia 

■netrlco. 







UNIDADES PRINCIPAES DO SYSTEVIA 




/ 

. 1 


Myria... 10,000 










DE COMPni- 


DE SUPEU- 


DE CAPACI- 






s ' 

\ 


Kilo 1,000 

Hecto.. . 100 
Deca... 10 

(U nidade). 


llEiMO. 


FICIE. 


DADE. 


DE PESO. 














Metro. 


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millesiiii 
agua dist 
tro, na te 
tigradcs, 
metrica d 








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< 



















Ueseuvolvtmeuto do )«5 sterna como lie pratlea 

•111 Frau^a. 

Myriametro 

Kilornelro ) Medldas itinerarias. 

Decamelro 

Metro 

Decimclro v ., ,• , 

Ccnlimctio ( Medidas de cotnpriinonlo. 

Millimelio 



128 RE VISTA BRAZILEIRA. 

Hectaro j 

Aro > Medidas agrarias. 

Cenliaro ) 

Decalitro i 

Mlro > Medidas decapacidadepara liquidos 

Decilitro ) 

Kilolitro \ 



Hectolitro ( Medidas de capacidade para as 

Decal' 
LiU'o 



Decalitro ( malerias seccas 



Decastereo. • . i 

Stereo (metro cubo). . . > Medidas de solidez. 
Decistereo \ 

Milheiro (1000 lei log.). 
Quintal (100 kilog.). .. 

Kilogrammo 

Hectogrammo } Medidas de peso. 

Decagranimo 

Grammo 

Decigram mo .... 



; 



OBSERVACOES. 

1 .* Nao liavemos contemplado no precedente desenvolvi- 
mento as medidas de valor, por constitiiirem estas urn sys- 
tema monetario peculiar a Franga, como lizemos ver em logar 
compelente, 

2.* Omittimos igualmente as novas medidas angulares , e 
as do tempo, por terem sido preferidas na pratica as antigas, 
que se subdividcm na razao sexagesimal : todavia, tcndo 
sido ellas usadas em algninas obras scicntilicas de subido 
merecimento , como seja enln'i oulras a — Mecanica Celeste . 
de Laplace , julgamos ronveniente reproduzil-as aqui; c sfio 
as seguintes: 

dia astronomico fni divido cm 10 boras; a bora imu 100 
minntos ; o minuto cm 100 scgundos. 



SYSTEMA METRICO NO BRAZIL. 129 

A circumferencia do circulo foi dividida em 400 grados ; 
grado em 100 minutos; o miniito em 100 segundos. 

3/ Quintal e o Milheiro foram medidas adoptadas de- 
pois da organisaQao primitiva do Systema Metrico. Nus pro- 
poriamos , em logar do termo — Milheiro — a palavra — 
Tonelada — ,porserumaexpressaoja usadaem muitospaizes. 

4.^ Nao fizemos mengao da legoa equivalente a 4 kilo- 
metres , usada em Franga, por julgarmos dispensavel essa 
medida. 



B. 



Systema de pesos e nieditlas do Brazil , eoovdenado 
poi* iiina Conintissao creada pelo g^overuo no anno 
de 1§33. 

MEDIDAS DE COMPRIMENTO. 

Polegada. . = -, do palmo. 

Palmo . . . . = ida vara. 

Vara = j636W6 do comprimento da circumferencia do 

Meridiano terrestre = i^ do Metro = i.1 09 do 
comprimento do Pendulo simples , batendo 
segundos sexagesimaes na latitude de 22° 54' 
10" (Rio de Janeiro) : e o padrao linear das 
medidas de extensao, e a unidade fundamental 
de todo systema. 

Braga = 2 varas. 

MEDIDAS ITINERARIAS. 

Milha = 8y { bragas = ^\ do comprimento de um grau 

do Meridiano terrestre. 

Legoa = 3 milhas = ,-7 ^o comprimento de um grau do 

Meridiano terrestre. 
n. B. III. o 



130 REVISTA BRAZILRIRA. 

MEDIDA AGRARIA. 

O.ira = 400 bragas qiiadradas, on o qnadrado forniado 

sobre 20 bracas. 

MEDIDAS DE CAPAGlDAnE PARA LIQUinOS. 

Ouartilho.. = 7 da Canada. 

Canada. . . = 2 (o.l) ^ : islo e, o dobro de um decimo da vara 

cubo = 128 polegadas cubicas. 
Abimde. . . = 12canadas. 

MEDIDAS DE CAPACIDADE PARA SECCOS. 

Quarta = Tde alqueiie. 

Alquoire. . = 27 t(o.1)'': islo e, um dccimo da vara cubo 

muUiplicado pelo nuinoro 27 ^ = 1744 polle- 

gadas culiicas. 
i\Ioio = 00 alqiieires. 

MEDIDAS DE PESO. 

Grao = ^daoilava. 

Oitava. ..= idaonga. 

Onca = ^doinarco. 

jyiarco = ao peso da ag(Vi da chiiva, on da lonle , sendu 

pura (na lempcralnia do 28" contigrados, o sob 
a pressao baioindlrica do 31.1 jiologadas in- 
glezas, ao nivel do mai] conlida no vohnne de 
^ (;.!)*: istoe, ]~ de um decimo da vara 
cubo = 64 polegada.s cubicas : e o padrao das 
niedidas de peso. 



i 



SYSTEM A METRIGO NO BRAZIL. l3l 

Libra = 2 marcos. 

Arroba. . . . = 32 libras. 
Quintal . . . == 4 arrobas. 

Tonelada. . = 13 J quintaes : e e equivalente ao peso de 
74 f palmos ciibicos de agoa do mar. 

OBSERVACOES. 

As medidas, cornprehendidas nesta labella, sao as mesmas 
em grandeza , que tern actualmente uso legal no Brazil , 
havendo apenas as seguintes innovagoes feilas pela Com- 
missao : 

i.°- Supprimiram-se a legoa de 3,000 bragas ; a braga 
marinha (8.4 palmos = 6 pes inglezes) : o covado (3.08 pal- 
mos) ; por serein uiedidas inconvenientes , e dispensaveis no 
systema. 

2.*^ A legoa de 18 ao grau foi subsiiluida pela de 20 ao 
grau , por ler esta uma relagao definida com a milha. 

3." Restabeleceu-S8 no Systema a antiga geira porlugueza, 
por nno haver nelle medida alguma agraria ; alem da brac-a 
quadrada , e a legoa quadrada de 9,000,000 de bragas qua- 
dradas ; serviiido esta especialmente nas medigoes de ses- 
marias: e assignou-lbe a Commissao a grandega , quelhe 
pareceu acommodada ao Oso a que e ella destinada. 



ECONOMIA POLITICA 



Ewtitdo politico , ecoiioinico , e finaitceiro, e aobre 
a Re|iubllca da IVova-Ciraiiada. 



I. 



Prelendeu-se fazer ao liomem urn affrontoso epigramma, 
(lizeiido-se, ([iie e elle iima besta de habitos : houve engano 
Pill tal apreciacao. Se o honiem se deixa guiar pelo habito, e 
porque a naliireza assini o quiz, sem que por isso possa ser 
qmxWiic^io (\e besta ; elle mereceria ao contrario tal quali- 
tica(;ao , sendo mesmo considerado uma besta no grau mais 
subido, se nao fosse susceptivel de contraliir habitos: e e 
para ell(3 uma felicidadc nao poder dispensal-os. 

Baslara urn momento de reflexao , para conveiicer-nos da 
inlluencia necessaria , essencial, que tern os habitos em 
nossa existencia. Nao sabemos nos cousa alguuia bem, sein 
que tenhauios adquirido um certo habito de estudo , ou de 
pralica sobre ella: a este respeito nossa imaginacao, nossa 
razao , e nossa consciencia mesmo, nao differem dos nossos 
orgaos physicos. So vem a ser bom musico aquelle que lem 
acostumado os ouvidos, os olhos, e a intelligencia ao coui- 
passo, aos sigiiaes, e ao sentimento da musica, assim eomo 
OS dedos ao uso do instrumento , com cujo auxilio elle a 
exccuta: quanto mais lorlilica o habito, e o cxercicio dos 
organs, que percebem , sentem, e transmittem a obra da sua 
arte, lanto mais habil arlisla se torua elle. Nao se agaste o 



134 REVISTA BRAZILEIRA. 

philosopho, dizendo-se que elle tambeni sente a necessidade 
de familiarisar, isto e, de habiliiar o sen pensamento as 
especulacoes abslractas da intelligeiicia (*) ; e que a sua razao 
e susceplivel de contrahir habitos viciosos, assini como o seu 
corpo. 

Aquillo a que se da o no me de uma boa educagao nao e 
outra cousa mais , que o complexo de bons habitos adqui- 
ridos no tralo social : reputa-se honesto aquelle homem que 
possue habitos de moralidade , e velhaco o que tein maus 
habitos de vida; de modo que os conselhos perniciosos des- 
vairam tao ditTicilmente o primeiro , como o segnndo resiste 
a aceitacao dos bons conselhos. Se os preceitos ordinarios, 
com apoio que Ihes dao a esperanca , e o medo da religiao, 
bastassem para formar a moralidade dos homens , Roma seria 
povoada somenle de modelos de virtudes. 

Nao negamos todavia, que existe no homem uma aulori- 
dade superior ao habilo. Diz-se que e o habito no homem 
umasegundanatureza; e,pois, na primeira natureza desse 
ser, que n6s collocamos a residencia da autoridade, que 
pensa, que compara , que julga : e como nos veriamos em- 
baracados, irresolutos, aturdidos, se nos fora necessario 
julgar previamente cada um dos actos de que se compoe a 
nossa vida em cada dia ! Pergunte-se ao homem da sciencia, 
ao negociante , ao arlista , ao simples operario, porque hesita 
elle muitas vezes em occasioes que exigcm da sua parte 
acgao, e Irabalho ? Tereis em resposia sem duvida, que nesses 
cases particulares elle opera pela jirimeira vez , tendo por 
isso a necessidade de pensar previamente. Julgar todos os 
nossos actos! A nossa razao nao bastaria para tanto. Deixara 
alguem de reconhecer, em presenca deslas consideragoes, 

(•) Dahi'vem que a logica nSo <5 uma sciencia , mas sim o Jiabilo adqiiirldo 
de bem raciocinar; como se pratica espccialmcnle no estudo da poomclria. 

(NOTA DO TRADI'CTOR.) 



ECONOMIA POLITICA. 135 

que OS nossos habitos sao como que pensamentos capitali- 
sados . riqnt'zas interectiiaes accumulada? , de cuja renda 
nos vivemos, e que nos deixam livre a disposi(jao de nossas 
facnldades mentaos, para se empregarem utilmente sobre os 
objeclos, que estao fora do circulo dos nossos habitos? 

Nao ha progrcsso possivel , sem o auxilio de habitos : c o 
hoinem , que possue uiaiores riquezas inloilectuaes , e incoii- 
testavelmenle aquelle, que, nas devidas condicoes, teni em 
seu favor a maior soinma de habitos : porquanlo osjuizos 
,ja formados, dVmdo derivam os habitos, estao sempreanossa 
disposigao, e nos auxiham na formagao de outros novos. 

Mas lia boiis, e maus habitos, juizos saos, e tambem 
prejuizos: e em fazer a distinci;ao pratica entre esses dous 
modos de obrar , ou de pensar, que a sciencia deve constaute. 
mente exercitar-se. 

As sociedades sao tao suscepliveis de contrahir habitos , 
como OS individuos ; ou , para fallar mais iogicamente , os 
individuos, que compoem as sociedades, tern habitos sociaes. 
Estes habitos sao relativos as furmas governamentaes , a li- 
berdade, que deltas depende immediatamente, as combina- 
gioes economiras, etc. : nao se segue dahi. porem , que taes 
habitos se achem estabelecidos em toda parte com o mesmo 
grau de consistencia -. todavia , onde quer (juc elles exisiam, 
assumem urn imperio incontestavel. 

As sociedades que tem o habito do despotismo nao sentem 
tao vivamente, coino outras , a necessidade de serem livres : 
c aqucllas que tem a felicidade , ao contrario , de possuireni 
habitos de liberdadc , experimenfam uma euergica e salutar 
aAcrsao para o despotismo. Nao se segue entretanto dahi , 
que as ideas, ou os preceitos, de que derivam os habitos , 
sejam mais vivamente sentidos pelos honiens habituados , 
do que pelos outros : e mesmo muito commum achar-se o 
habito fortemente eslal)eleci(lo no individuo que so tem um 
conUecimento imperfeito do preceito , ao passo que elle des- 



136 REVISTA BRAZILEIRA. 

apparece inleiramente naquelles , para quem o preceito fe 
familiar; dabi vem darem-se numerosas contradiccoes, que 
somente embaracam os observadores menos attenlos. Se 
puzessemos um Inglez e urn Napolitano em presen^a urn do 
outro , e que os provocassemos a fallar de Uberdade , ne- 
nbuma certeza bavoria que do? dons fosse o higle/> quem 
fallasse com mais iiileUigencia, entbusiasmo , ou generosi- 
dade: mas, se os fizessemos obrar em quaesquer circum- 
stancias, que reclamassem a pratica dos preceifos do bbera- 
lismo, ninguem hesitara em dizer que o Napolitano seria o 
primeiro a violal-os. 

Queremosnosouvir um discurso profundo, e consciencioeo 
sobre as vantagens, e necessidade da ordem , e da paz no 
seio das sociedades , fagamos fallar um Americano , tornado 
em qualquer das Republicas , que formaram o antigo do- 
minio dos reis da Hespanba : mas consideremol-o posto em 
aegao no seu paiz , e elle vos parecera outro bomem. que 
faltara pois ao Napolitano, ou ao Americano Hespanbol ? 
babilo da liberdade, e nada mais que o babito. Anglo- 
Saxonio , tao orgulhoso daqiiillo que elle cbama prerogativas 
da sua raga, nao tem, sobre as outras populagoes da Ame- 
rica , senao a superioridade de sens bons babitos sociaes ; 
mas e necessario convir que essa difterenga e immensa. 

A these que bavemos enunciado sobre este objecto nao e 
nova; a pbilosopbia antiga, e a moderna , della so occu- 
param, com mais ou menos felicidale: mas talvez se esleja 
ainda bem longe de tirar dessa Ibese todas as conseqiiencias 
moraes que ella comporta : om todo caso vem clla muito a 
proposito em uma epoca que adecta desconbecel-a, e que 
certamente nao a conbece bastante. £ sobretudo no poiUo 
de vista moral , que conviria desenvolver as suas fecundas 
deducQoes; mas nos nao visamos tao alto: por agora so temos 
tido em vista fazer bem palpavel uma cousa, e e a irresislivel 
intluencia do babito sobre o mundo em geral , e a necessidade 



ECONOMIA POLITIC A. 1S7 

de attender a esta importante circumstancia , quando se trata 
de realisar reformas politicas , ou economicas. Aquellc que 
desconhecer a forga dessa lei da iialureza humana nao 
tardara a vel-a reagindo poderosamenle contra os sens es- 
forcos. 

Entretaiito , o qiiemaisnos impressionanoespectaculo das 
reformas de que nos vamos occupar , e a pouca resislencia 
que ellas excitaram ; ou talvez as informaQoes que temos sobre 
este objecto sejam insufficientes para forrnar-se esse juizo. 
fi porem fora de contestaQao , que essa resistencia nao foi 
grande na Republica da Nova-Granada , pois que de toda a 
America Hespanhola , assas conhecida pela turbulencia das 
suas populagoes, e esse paiz o que mais se adiantou no 
caminho das mudanQas politicas, e economicas. Semelhante 
resultado vem sem duvida do estado relativamente primitive 
da sua organisagao, ciijos fnndamentos pudi'ram ser alte- 
rados, sem comprometter seriamente a vida das classes ope- 
rarias. 

maior perigo das reformas repentinas entre nos (na 
Franga) esta na suspensao , ou somente na retardagao do 
movimeiilo da machina social, do qual estao dependentes 
milhoes de existencias. 

Nos paizes, cuja economia e menos complicada , nao acon- 
tece a mesma cousa : necessita-se ahi por certo de niuitas 
commodidades da vida , mas nao ha tno grande, e immediata 
dependencia do trabalho de cada dia. Accrescentaremos que 
as formas governameutaes na America nao tem ainda raizes 
profundas nos habitos dos povos ; e podem ellas por isso ser 
modificadas, sem provocarem, como na Europa, a tempestade 
daspaixoes interessadas. Tudo isto faz que asexperiencias 
reformadoras sao ahi menos custosas, e por conseguinte mais 
faceis: pois de outra sorte , como teriam relativamente sof- 
frido tao pouco das suas frequentes revolugoes os povos liis- 
pano-americanos ? Elles nao tem com etfeito solTrido tanto, 



*^° REVISTA BRAZILEIRA. 

como geralmente se ere na Eiiropa: iremos ainda maislonge, 
dizeiid') que soffreni elles menos do que sob o anligo regimeu 
colonial, cujo caracler reslrictivo e ferrenho era niais fatal 
ao seu desenvolvimento , do que a agitacao pennanente, em 
que hoje vivem. Todavla nao llies invejeinos essa prodiglosa 
facilidade de mudangas : iiidepeudente neiile de que ella 
provein de caiisas, de que nos nao temos motive algum para 
ser doso&~ miidar nno e a mesma cousa (|ue fandar. 

II. 

Temos presente a ultima mensagem dirigida ao Congresso 
de Bogota pelo Sr. Mariano Ospina. presidente da Republica 
Granadense: e nmaexposicao metlioiUca, e muilo extensa, 
de todos OS factos de que se occnpara o poder executive , no 
exercicio de lf^58. Offerece elle este anno uin interesse par- 
ticular, em razao de nos indicar os primeiros passos que fizera 
povo granadense em o novo caminho tracndo pela sua ul- 
tima constituicao. 

Ate 1858 era a Nova-Granada um estado puramenle militar, 
taiilo quanto a unidade pode ser compativei com um terri- 
torio exlenso, forieinente accidentado, e pouco povoado : 
nessa epoca constituiu-se elle federal mente, soh a denomi- 
nagao de — Gonfederacao GranadiMise — . Divide-se esta em 
8 dilTerentos Eslados , tondo cada um sua legislatura , e go- 
verno particular: residindo cm Bogota a adminislragao cen- 
tral, composta de dnas camaras, e de um presidente auxiliado 
por tres secretaries somente, 

Nenluim hoinem seria mais capaz de apreciar os primeiros 
efTeitos da mudanga polilica realisada o anno passado no seu 
paiz, do que o actual presidente , o Sr. Mariano Ospina , o 
qual professa na cidade de Bogota o direito constitucional : 
usanios do termo profcsm , no sentido rigoroso da palavra ; 
porquanto o Sr. Ospina nao renunciou o exercicio do magis- 



ECONOMIA POLITICA. 139 

terio , depois que o suffragio cle sens concidadaos o elevara 
a primeira magistratiira daRepublica. Simplicidade rara em 
nossos dias! desce elle da sua cadeira presidencial, mais de 
uma vez por semana , para ir fazer o seu curso aos estu- 
dantes de Bogota, os quaes ainda por este motivo mais o 
estimam. 

A experiencia da nova constitnicao granadense parece fa- 
voravel. systema federal, nao sendo exagerado o seu prin- 
cipio , e mais apropriado, do que qualqucr outra forma de 
governo , ao caracter dos americanos-iiespanlioes ; por isso 
que satisfaz elle a ambigao dos empregos pnblicos, pelas nu- 
merosas magistraliiras que crea ; enfraquecendo por outra 
parte as attribuigoes do poder soberano, susceptive! nesses 
paizes de degenerar facilmente em stratocracia. 

Neste sentido e aquelle systema como uma valvula de se- 
guranga contra as ambigoes pessoaes , e contra a tyraunia. 
Verdade e que nao pode elle salvar o Mexico da anarchia, ou 
do despotismo militar, que o tem flagellado; maso Mexico 
tem muitosoutros elementos dedesordem, alem daambigao 
dos seus proprios cidadaos. 

Eis aqui uma outra vantagem desse systema em a Nova- 
Granada , a qual nao teria sido prevista pelos nossos leitores: 
e proprio Sr. Mariano Ospina que a vai assignalar ; e con- 
vir-se-ha , que a sua opini'io autorisada caracterisara no 
grau mais elevado o espiritoreformador dos Granadenses. 

« As differentes escolas politicas, que se combatem na im- 
prensa, e na tribuna, diz a mensagem , tem-se esforrado 
para tradiizir as suas oppostas doutrinas em instituicoos , 
naquelles Eslados em que obtiveram maioria de suffragios. 
Se, como cumpre desejar, essas Iheorias ahi se estabelecem 
paciflcamente , e subsistem o tempo necessario para que os 
seus effeitos possam ser julgados; resultara dabi, nao somente 
para a Nova-Granada , "mas para os oufros povos da nossa 
raga na America , uma experiencia interessante e fecunda. 



■s 



140 REVISTA BRAZILEIRA. 

« Qiianto mais discordantes forem taes theorias entre si , 
tanto melhor se aprecinrao as suas consequencias no movi- 
mento moral, intellectual, e material do paiz : porquanto, 
se fossem ensaiadas uma depois de oiitra , em toda a Confe- 
deracao, todas essas tiieorias, que os sonhadores ociosos da 
Europa lancani no mundo , e que nos acolhemos com ardor, 
a nagao nao chegaria a ver em urn seciilo as suas instituicoes 
coiisolidadas. Suhmettendo-as. porem . a uma experiencia 
sinuillanea em todos os Estados , e observando os contrastes 
que otTerecem as suas diversas appllcacoes, pouco tempo 
bastara para que a verdade triumpbe , dando logara que, 
postos de lado syslemas desacreditados pelo uso, a actividade 
intelligcnte da nossa mocidade se encaininhe para os objectos 
mais uieis a prosperidade geral. Longe de se apaixonarem , 
como elles o fazem , para obler concessoes de sens adver- 
saries, constrangendo-os a nao realisarem as suas ideas 
senao incompletamente, os partidos deveriam , se livessem 
fe nos seus proprios principios , deixar livres a applica^ao, 
e desenvolvimento das novas theorias , em toda a parte 
onde a maioria dos eleitores se mostrasse favoravel a taes 
experiencias. » 

Segundo pensamos nao ha na hisioiia dous exemplos de 
uuj semelhante compromisso , sendo de ordinario o exclusi- 
vismo caracterislico que distingue essenciahnenle os par- 
tidos politicos. 

Verdade seja, que as cousas nao se passaram sempre 
assim na Nova-Granada : comeQOu-se ahi , como em toda a 
parte, porsebater; mas aeon teceu la o que geralmente se 
nao observa n'outros paizes; os partidos (icaram eui presen^a 
umdooutro, nem vencedores, ncui vcncidos ; e em logar 
de conliiiuarem a hita, ate a exterminacao do mais fraco, 
elles transigiram entre si. Nos applaudimos tao louvavelmo- 
deracao : e por esle facto somente merc( eria a Nova-Granada 
a consid^raQao dos homens, (jue s\mpathisam com tudo 



ECONOMIA POLITIC A. 141 

aquillo que apreseuta no muiido moral urn caracter parti- 
cular de originalidade, se nao mesmo de grandeza. 

Este Gomproniisso conta uma data ainda muito recente, 
para que possainos ;ipreciar os seus resultados: nao nos oc- 
cuparemos, pois . aqui, senao das experiencias lentadas , 
sob OS auspicios do Sr. Ospina , o qual, por sua parte, li- 
mila-se precisainenle a esle objecto. 

Eis aqui uma que interessa particularuiente aos econo- 
mistas : 

« Estado de Sautander, diz elle, teui adoplado em fi- 
nangaso systema, preconisado por alguus , de urn imposto 
directo, tuiico, e proporcional ; abandonando a iiisirucgao 
publica , e as vias de conupunicacao aos cuidados da(iuelles, 
a quern possam intcressar directamente taes objectos ; na 
confianra de que o estiuiulo do inleresse particular, e o es- 
pirito de associ(.'ao satisfariam uiais segura e etlicazmente 
as exigencias destas duas grandes necessidades moraes, do 
que a administracao oliicial , que era disso incumbida ate 
eiitao. Nada se pude aiuda dizer do resultado destesensaios, 
que estao apcnas esbocados. » 

De todos OS Estados de que secomp5e actuabnente a Con- 
federacao Granadeuse, foi Santander o mais afouto a entrar 
no caniiulio das reformas. 

Estado de Coudinamarcae, ao coutrario, talvez o mais 
conservador de toda a Conlederacao : tern elle por capital 
a cidade de Bogota, residencia do governo central. Todavia, 
em prova de (jue as palavras conservador e progi-essista nao 
tern na Nova-Granada a mesma signillcagao, que se Ihes da 
em outra parte , cilaremos o facto de haver aquelle Estado 
realisado uma reforma, quee seguramentc uiais fundamental, 
do que muitas daqnellas que tenlam, ou virao a empre- 
hender os listados, que se dizem mais avangados. Em npoio 
desla assercao , citareuios ainda a mcnsageui do Sr. Ospina: 

<( A a.>rsembl6a constituinte dc Condinamarca tern realisado 



142 REVISTA BRAZILEIRA. 

em qiiinze mezes aiiia obra colossal, cuja conveniencia f6ra 
reconhecida em todos os tempos, e que , sendo ardentemento 
des;\ia:l;i , havia sido muilas vezes proposta em vao por todos 
OS partidos : e a codificaQao methodica , e completa da legis- 
la(;ao vigente. 

« Nunca, em qualqaer oulro paiz civilisado , foi possivel 
emprehender, e levar a effcito em tao curto tempo, e com 
tao pequena despeza , uma obra legislaliva de tamanha ex- 
tensao,e iinportancia. Este nnico facto bastaria por si so 
para fazer a apologia do systema federal estabelecido. Quaes- 
qner que sejam os defeitos que tenham escapado na con- 
fecgao deste immenso trabalho, as vantagens que elle of- 
ferece ao Estado (Coiidinamarca) sao de um valor inesti- 
mavel. 

« A uma legislncjao sujeita, durn.ite mais de seis seculos , 
a loda sorte de addigoes, supp:\issoes, e modificaroes, sein 
piano nem methodo; escripta na maior parte em uma lingoa 
(a latina), que deixou de ser intelligivel para o povo ; disse- 
minada em uumerosos m-/'o//o . inaccessivcis aos que nao 
fazem profissao de juriscoiisulto ; insiifficiente nas partes 
essenciaes, onde o vazio e o absur lo sao substitiiidos pelas 
opinioescontradictorias dos commentadores,sem pbilosophia, 
nem crilerio ; ciijas disposigoes deroj^adas nao podem ser 
discriminadas da(iuollas que se acliam em vigor, senao por 
advogados intelligenteseexperimentados, os quaes nao che- 
gam muilas vezes a cerloza neste objecto : a uma legislagao , 
emlim , que era um complete caiios de contradicQoes , e de 
obscuridades, subslituin-se outra , escripta na lingoa vulgar, 
ordcnada com simplicidaile , precisiio e metbodo , ao alcance 
do artista e do operari > , aos quaes bastara que saibam ler , 
para conhecerem as disposigoes da lei sobre um objecto (jual- 
quer, sem oauxilio de ninguem , e sem esbarrarem na in- 
variavel dillicnldade da duvida , concernenlc a circumstancia 
de se acbarem cm vigor , ou abrogadas as suas disposigoes ; 



EGONOMIA POLITICA- 143 

porquanto os novos codigos nao enceiTcam iima so lei , que 
tivessc sido derogadn . ou caliida em desuso; ao passo que 
ahi se enconira Itido o que rege em cada materia. » 

Os jurisconsnU,os aciiarao sem duvida, que e algum tanto 
aventurosa esta ultima consideraQao, segundo a qual se ad- 
mitte a piaticabilidade de poder o povo adquirir por si so o 
perfeito conhecimento das disposicoes da lei em todas as suas 
applicacoes: quant) a nossa opiniao neste ponto , n6s, que 
antes de tudo apreciamos a simplificagao operada em urn 
regimen confuse de leis , de ordeiiangas , e de regulamentos, 
que pertenceram a todos os tempos , e a todas as foriiias de 
governo; n6s, dizemos, nao podemos deixar de applaudir. 
sem reserva, a obra e a inten^^ao dos legisladores de Condina- 
marca, Nosapplaudiremos ainda mais explicitamente os prin- 
cipios geraes do scguinte treclio , que lermina a mensagem 
do Sr. Mariano Ospina : 

« poder executivo nao construiu, durante o anno fiiido, 
longas vias ferreas , nem grandes estradas macadamisadas : 
nao fez excavar portos, ecanaes; nao fundou Universidades, 
nem coUegios, nem simples escolas ; nao creou novos ramos 
de induslria, nem desenvolveua prosperidade publica, eiiri- 
quecendo os particulares : ponpie nada dislo e da sua coin - 
petencia. especial objeeto do governo e fazer reinar a 
ordem, a paz e a justica ; dar seguridade as pessoas, e a pro- 
priedade; e de aproveitar tudo quanto puder coniribuir para 
a realisaeao de todos estes bens. 

« A prosperidade iuiblica, ajunla o Sr, Os[)ina, nao e 
outra cousa mais , que o bem-estar individual dos me:i;bros 
da sociedade; e ella devida ao trabalho , e aeconomia dos 
parliculares; o {loder nao deve intervir nisso senao para 
dar-lbe a devida seguranea; e quando tem elle obrado assim, 
respeitando os limiles legaes das suas faciddades, preencbeu 
bem a sua missao. » 

Depois disso , dirigindo-se ao congresso , o aulor da men- 



144 REVISTA BRAZILEIRA. 

sagem lembra aos sens membros, que elles naotem, igual- 
mente por sua parte, outra missao a cumprir. 

« Vos nao estais aqui reunidos, diz elle , para vos occu- 
pardes do empresas , que sao exclusivamente do dominio da 
actividade particular. Do mesino modo que o poder execulivo, 
vos nfio tendes outro dever, que garantir a seguranga e a 
liberdade , fazendo as leis necessarias para esse Pim : tudo 
quanto empreheadesseis, alem destelimite , seria um ataque 
feito aos direitos individuaes consagrados no texto da nossa 
constituiQao. » 

III. 

Nos so extrahimos deste notavel documento o que nos 
pareceu interessar mais aos nossos Iritores: e estes ficarao 
focados, comonos, do liberalismo puro e esclarecido , que 
Iransluz em todas as suas partes. 

Esle espectaculo cheio de atlractivos nos deve regozijar , 
tanlo mais que elle nos e dado pela America Hespanhola , 
d'onde sahem infelizmente frequentes exeinplos de inconse- 
quencia, e de desordem. A peroragao do Sr. Mariano Ospina 
merece inuito (larlicular altengao : ella exprime o melhor 
que se poderia desejar a missao dos govcrnos, lal como a 
comprohendem liojc os publicistas, se nao os mais acreditados, 
ao menos os mais dignosdeo serem. Mr. Dunoyer ahi reco- 
nhecera os principios do sen magnillco tralado sobre a — 
liljerdade do trahallio — , e convem confessar, que enlre nos 
ainda se esta muilo longe de os compreliender da mesma 
iiiaueira. 

(Juem podera prever hoje o que vira a surgir com o tempo, 
da actual ebulligao dos espiritos americanos ? Nao e ja um 
feliz presagio, que dahi parla a manifestacao de maximas 
governamenlaes, lao leaes, e desinleressadas ; e cuja autori- 
dade e ainda fortificada pela rara simplicidade de costumes 



ECONOMIA POLITIGA. i45 

privados, e publicos do distincto homem de Estado que as 
professa? 

A anarchia das Republicas hispano-americanas offerece 
mais de uma ligao lUil aos povos que a coiitemplam. Dei- 
xemos qae passe para esses paizes o tempo das infelizes imi- 
tacoes politicas, e economicas: csperemos que elles levem 
ate ao absurdo a pratica de nossas doiitrinas sedigas, que nao 
podem harmonisar-se com as suas condigoes excepcionaes : 
e sobretudo nao condemnemos sem exame essa inquietaQao 
febril que os atormenta; pois e ella a consequencia inevitavel 
de uma situagao, que nao repousa mais sobre os habitos do 
passado, e que nao tern podido crear ainda outros novos. 
Quando os povos do novo mundo entrarem no caminho, que 
elles afanosamente procuram , a custa de dolorosos sacrificios, 
e de amargas decepgoes, lalvez nao tenhamos enlao sobejas 
expressoes de admiragao a seu respeito, cm logar do desdem 
com que hoje os tratamos. No banquete da civilisagao sao 
mais bem servidos os ultimos, que nelle se assentam. 

Nao ousamos prever hoje a forma social que adoptarao 
os nossos descendentes ; parece-nos todavia que ella nao se 
afastara substancialmente daquellas que dominam em nossos 
dias, tendo por principio o — self government , nas condigoes 
da maior simplicidade, que for c impativel com a indole dos 
povos. 

Entretanto os Granadenses, que professam os principles do 
radicalismo , nos parecem ter avangado demasiadamente na 
via da demoligao, em que ha dez annos se tern empenhado. 
Formam elles uma idea cerlamente exagerada do que em 
principio se chama — self government : para elles o actual 
governo da Confederagao Granadense , despojado quasi de 
toda a iniciativa, e ainda uma machina demasiadamente 
complicada : a centralisagao os offusca , ainda mesmo sob 
as condigoes as mais inoffensivas, e fazem-lhe guerra de 
morle ; nao attendendo que a centralisagao , bem que exposta 

R, B. III. iQ 



146 REVISTA BRAZILEIRA. 

a deploraveis abusos , represeuta a unidade nacional , isto e, 
a uniformidade das leis, e dos servigos adminislralivos, le- 
vada tao longe, quanto o permittam as coiidigoes politicas, 
e geographicas da sociedadc. Sem diivida desejam elles rea- 
lisaressa uniformidade, essa unidade, mas em fracQoesso- 
mente do terriloiio nacionnl; de modo que o resultado ne- 
cessario dos seus esforgos seria a restauraQMO do feudalismo. 
E' pois feudalismo o escollio do federalismo exagerado. 

A Nova-Granada e de todos os paizcs conhecidos talvez o 
menos regiilamentado : nao excepluando mesnio desla com- 
paragao os Eslados-Unidos, onde, comose sabe, reinam arrei- 
gados prejuizos de cor, e de rcJigido, os quaes peam grande- 
mente odesenvolvimenlo da liberdade individual. Os Grana- 
denses possuem , tanlo como os Americanos do Norte, a liber- 
dade de escrever, de fallar , de ensinar, de se reunirem , de 
se associarem , de Iraballiar, de circularem , elles e os seus 
productos, sem formalidade alguma, prescripla pela lei, ou 
pelo governo. Tem elles por conseguinte lambem a liberdade 
de consciencia, podendo cada individuo abragar o culto que 
mais Ihe convenha. Mas nao ba mais escravid"io no sen paiz, 
a qual ainda exisle nos Eslados-Unidos. 

Nossos publicistas europeos distinguem a liberdade da 
igualdade: segundo elles, cerlos povos sao livres sem possuir 
a. ufualdade ; e outros que possuem a igualdade nao sao ao 
mesmo tempo livres. Os Granadenses menos sublis querem 
ser uma e oulra cousa de uma vez, isto e , livres, e iguaes. 
De accordo com esle senlimento, tem elles abolido os pri- 
vilegios pessoaes, que a tradieao os fazia respeitar. e tudo 
o mais que se ligava a existencia desses privilegios. Assim, 
os titulos de nobreza, as formulas reverenciaes , de pura 
cortezia, ate mesmo a simples parlicula (/om , tao cara aos 
Hespanboes de ambos os mundos , foram riscados do seu vo- 
cabulario. Os tratamenlos de alteza , exccllencia, e outros, 
loram subsliluidos pelo epilheio de ckladao , corDmum a 



ECONOMIA POLITIC A. 147 

todos OS individuos que compoem asociedade, desdeo presl- 
dente da Confederagao ate o mais modcsto dos seus subor- 
dinados. 

Com disposigoes tao pronunciadas para as mudangas , os 
reformadores granadenses nao deviam conservar as suas an- 
tigas medidas : elles as subslitiiiram pois por oiitras novas, 
preferindo para esse fim as iiossas (o syslema rnetrico) , in- 
cliisivamente o nosso systema monetario. 

IV. 

feudalismo em politica, e a banca-rota em economia , 
taes seriam os resullados da marcha adoptada pelos reforma- 
dores esaltados da Nova-Granada, se uma forga qualquer , 
aconscienciados erros commetlidos, por exemplo, nao viesse 
detel-os ainda a tempo no perigoso declive em que se collo- 
caram. Nao lem elles por ventura urn admiravel programma 
de liberalismo , tao habilmente tragado na ultima parte da 
Mensagem do Sr. Ospina, acima reproduzida? Que mais 
bella, e generosa concepgao dos direitos, e dos deveres da 
autoridade central, poderiam elles invocar? 

Nosnao vemos que, apezar das suas boas intencoes, e 
do seu amor incontestavel pela liberdade, os reformadores 
granadenses aspirem a realisar estemagnifico ideal : nos os 
vemos ao contrario muito empenbados a bater em brecha a 
autoridade central do seu paiz, a qual seguramente nao 
offerece motivo algum de receio na sua organisagao actual. 
Se fora um amor exagerado da autoridade individual, isto e, 
da liberdade absoluta, que os impellisse a essa demoligao , 
elles procederiam do mesmo modo a respeito da autoridade 
local : mas ao contrario procuram elles engrandecer esta com 
a parte do poder arrancada a autoridade central. 

Ainda algumas palavras sobre as reformas, e os reforma- 
dores da Nova-Granada, que julgamos necessarias para bem 



ii8 REVISTA BRAZILEffiA. 

explicar o seu caracter aventiireiro. Em toda a America Hes- 
panhola, e mais particularmente em a Nova-Granada, a 
mocidade se acha interessada demasiadamente cedo nos ne- 
gocios publicos. Nao e raro ver-se, que jovens ainda im- 
berbes occupem a attencao publica com as suas temerarias 
elucubragoes, tanto no jornaUsmo, como no magisterio ou na 
tribuna. 

Como poderao instruir-se seriamente esses beija flures da 
sciencia, quando elleseslragam, prodiizindo prematiiramenle, 
a actividade propria daquolla idade , que e entre nos consa- 
grada invariavelmenle aos estudos especiaes ? Mas possuem 
elles uma imagina^ao brilliante, muita memoria, e grande 
facundia de linguagem , qiialidades caracteristicas dos His- 
pano -Americanos: e nada mais se exige delles. Por outra 
parte nao sao elles os filhosi , os sobrinhm , os jiiimos , os 
afilhado^, os amigofi , emfim, daquelles que exercem maior 
influencia no Estado ? A sociedade e t'lo pouco numerosa em 
seupaiz! de modo que e impossivel deixar de osadmirar. 

Os governos por seu turno nao podem resistir as solicilacoes 
do patronato, e as portas da administracao sao franqueadas 
destasorte ao privilegio, c ao favor. Quer-sc ({ue manifestemos 
todo nosso pensamento? Na America nao lia cousa que mais 
se aprecie, do que a mocidade ; todo mundo desejaria ahi con- 
servar-se sempre nessa idade feliz. E poderemos nos admirar- 
nos agora que as ideas, su proprias da jiiventude , sejam ahi 
acolhidas ate mesmo pelos velhos ? 

Todavia os homens sisudos nao faltam inteiramcnte a esses 
magnilicos paizes; mas sao elles vencidos pela muUidao apai- 
xonada, e a sua voz e quasi sempre suffocada. Em todo caso, 
nos repctimos, homens de verdadeiro mcrecimento existem 
em novo mundo : e quando a nova gcragrw se corrigir do 
fascinador vicio original da mocidade que o baptismo da ex- 
periencia ini desgaslando , fara ella predominar o numero 
desses homens de conselho , e de ac9ao. 






ECONOMIA POLITICA. 149 

Sr. Mariano Ospina , tantas vezes citado por nos , per- 
tence a classe desses homeris , e e enlre todos o mais nolavel : 
profundopensador, sabio modeslo , jurisconsullo eminenle, 
escriptor brilhante e fecimdo ; elle exeice sobre o sen paiz , 
mau grado a exalta^ao das ideas que o domiiiam, uma grande 
e salutar influencia. 

(Journal des Economistes , de Oiitubro de 1859.) 

N.B. Extractamosestearligo do excolleiite trabalho devido 
a pena de Mr. Mannequin , omillindo porem alguns Irechos 
de menor importancia , ou que so continham materia de in- 
teresse local. 



ASTRONOMIA 



IVota apreiaeiitatla na sessao da Acadeiiila das Srien- 
clas de Paritii , de S4 de Oiitiibro de iS>ft9, por Mr. 
Fa^e , solire o Ecligise total do sol , que deve ter 
liisai* uo dia 19 do Jullio de 1S60. 

Ja em Janeiro do presente anno a Commissao, que havieis 
encarregado de dar-vos conta dos resultados da brilhante 
expediQFio brasileira, que observou o Eclipse total de 1858 
(7 de Setembro) , prevenira a Academia acerca da impor- 
tancia do Eclipse, que sera visivel na Hespanha, e na Algeria, 
em Julbo proximo. 

Na mesma epoca o sabio director do observatorio de 
Dorpal (Russia) , Mr. Madier , prevendo que os astronomos 
se encaminliariam de preferencia para a Hespanha, calculava 
cuidadosamente todas as circumstancias do Eclipse para um 
grande numero de pontos desse paiz. Foi elle o primeiro , 
segundo penso , que fez conhecor a notavel circumstancia de 
que, no momento em que se verificar a total obscuridade, 
Venus, Mercurio , Jupiter e Saturno se acharao reunidos 
perto do Sol eclipsado : combinac^ao esta tao rara, que muitos 
seculos se passarao , antes que ella se reproduza. Felizes 
aquelles, diz Mr, Madier , que puderem admirar esse magni- 
fico espectaculo. 

mesmo astronomo insiste ainda sobre muitas particula- 
ridadcs, bem proprias para fazer sentir aimportanciadesse 
phenomeno. Com elfeito, o uosso seculo nao apresentara 
algum outro Eclipse, que possa ser comparado ao de 1860. 



152 REVISTA BRAZILEIRA. 

A maior parte delles nao se farao visiveis na Europa , a nao 
ser ao por do sol : e o unico que podera preslar-se a obser- 
vagoes toleraveis teralogar cm 1887. Todasas circunistan- 
cias favorecem poiso Eclipse de 1860: e nao diividarei afllr- 
mar , segimdo as informacoes parliculares que tcnho , e em 
presenca do que se passara na Suecia , por occasiao do 
Eclipse de 1851, que trinta , on quarenia astronomos de 
todos OS paizes se acharfio reunidos ua Hespanha , no dia 18 
do proximo Julho. E nao seria para desejar que entre esses 
observadores houvesse um accordo previo , acerca da escolha 
das estagoes ? 

Accrescenlarei a isto que para tirar desse magnifico plie- 
nomeno todos os resiiltados , que offerece elle a sciencia , 
nao e na Hespanha somente que deve ser observado. Em 
verdade , a facilidade das communicagoes e uma condigao 
attendivel para os observadores isolados ; mas nao acontece 
niesmo pelo que respeita aos estabelecimentos astrono- 
micos. Gragas a liberalidade esclarecida dos governos , os 
observatorios dispoem de grandes recursos : nao sera por- 
tanto difficil entenderem-se taes estabelecimentos , aflm de 
fixar-se um certo numero de estagoes principaes na area de 
visibilidade do Eclipse , dislribuindo-as do modo que mais 
convenha as facilidades geograpliicas proprias a cada nagao. 
Antes de indicar o piano das operagnes que proponho , eii 
passo a formular claramente o seu objecto , alim de julgar-se 
atequeponto a sua importancia correspondc a elTiciencia 
dos meios. 

^< 1." Submetter as novas taboas da Lua a uma veriflcagao 
rigorosa, 

« Em tempo algum a exactidao da theoria da Lua, 
e das taboas que delta depcndem , se tornou mais impor- 
lanle para a navegagao , cuja celeridadij actualmente , cm 
vez de limilar as suas exigencias , pelo que respeita a 
precisao astronomica , cada vez as torna ainda mais impc- 



ECLIPSE DO SOL A 18 DE JULHO DE 1860. 153 

riosas. Os progresses consideraveis que a theoria do nosso 
Satellile deve a publicagao das taboas de Hansen ; os que 
ella espera ainda dos Irabalhos ulteriores de Airy , Plana , 
Pontecoulant, Adams, e sobretudo os de Mr. Delaunay, 
provocam a seu turno os progresses na exacQao das obser- 

vaQoes. 

« Ora, 6 sabido quanto sao preferiveis, sob o ponto de vista 
da exactidao , as observa^oes das passagens dos planetas 
inferiores sobre o disco do Sol , quando comparadas as ob- 
servagoes meridianas. Acontece o mesmo no presente caso , 
visto que os Eclipses do Sol nao sao oulra cousa mais , que as 
passagens da Lua sobre o disco daquelle astro : e portanto a 
estes phenomenos, susceptiveis de uma precisao absoluta , 
que as indagagoes theoricas deverao satisfazer prinieiro que 
tudo. 

« 2.*^ Verificar os resultados adquiridos pela geographia 
sobre os principaes pontes do globe terrestre , e a situagao 
relativa dos continentes. Emquanto a telegraphia electrica 
nao se estende effectivamente as distancias enormes que ella 
tern tentade veneer nestes ultimos tempos , e aos Eclipses 
que se deve recerrer , para ligar entre si os pontes separados 
pela immensidade dos mares. 

« 3.0 Sabe-se que muites elementes fundamentaes da as- 
tronomia exercem uma influencia prependerante sobre os 
Eclipses : modificando prefundamente a sua extensae , e os 
limites da area de visibilidade na superficie do globe. Taes 
sao as parallaxes do Sol e da Lua , e e achatamento do nosso 
proprio globe. Reciprecamente os Eclipses (cemtanto que 
sejam elles convenientemente observados) servirao , quando 
sequeira, para determinar aquelles elementes com grande 
exactidao ; eu ae menos para submetter os resulta&os co- 
nhccidos a uma veriticagae preciosa. 

« Ae achatamento, que resulta dasgrandes operagoes geo- 
desicas deste secule , executadas na Europa , e na Asia , nao 



154 REMSTA BRAZILEIRA. 

seria de subido interesse comparar o achalamento que fizesse 
conhecer o proximo Eclipse para os dous oiitros conlinentes ; 
sobretudo depois dos inais recentes trabalbos (Russia) , nos 
quaes e o globo terrestre representado como urn Ellipsoide de 
tres eixos desiguaes entre si ? 

« 4.° Os Eclipses totaes nos offerecem enifiin o melhor, 
e talvez mesmo o unico meio de resolver certas questoes ini- 
porlanles , concerneules a consliluicao pkysica do Sol, e do 
espago que o cerca. Uma communicacao recente chamou ja 
a atlengao dos sabios sobre urn destes problemas (carta de 
Le Verrier a Mr. Faye , sobre a existencia provavel de urn 
planeta, ou de urn systenia de asteroides , gyrando entre o 
Sol e Mercurio). 

« Quanto a famosa questao das protuberancias, depois da 
bella expedigao de Mr. Piazzi Smytli ao Pico de TenerifTe , 
desvaneceu-se toda a esperanga de poder esludal-as fura dos 
Eclipses totaes. Denials , a ordem inteira das ideas recebidas 
sobre este mysterioso objecto foi transtornada, nestes ultimos 
tempos , pela compararao dos resultados obtidos o anno 
passado , no Brazil , e no Peru : e cu ouso dizer , que em 
logar de insistir-se, como se tern feito ate o presente 
(e sempre em vao), em procurar a identificagao das appa- 
rencias relativas a estaf;oes difTerentes; convira d'ora em 
diante ter sumenle em vista por bem em evidencia as 
discordancias , afim de estudar as variacoes que o phe- 
nomeno solTre incontestavelmente de uma eslagao para 
outra. » 

proximo Eclipse presta-se por venlura ao csludo destas 
quatro ordens de questoes? Julgar-se-ha pelo seguinte quadro 
da sua marcha na superlicie da Terra. 

Comecaeile, e acaba na terra firm e ; e, cousa notavel , 
nos logares para onde a actividade humana parece encami- 
nhar-se cada vez mais. Um desses logares e a California, e 
outro no litoral do Mar-Vermellio. Polo que respeita a Cali- 



ECLIPSE DO SOL A 18 DE JULHO DE I860. 155 

fornia , ou antes ao territorio do Oregon , seria permittido 
invocar a poderosa iniciativa dos Estados-Unidos. 

Na Ethiopia poder-se-hia esperar o concurso do governo 
do Egypto , qual possue actualmente astronomos ao seu 
scrvigo. Por outra parte o Eclipse acabaprecisamente no ineio 
das estacoes geodesicas , de que Mr. d'Abbadie publicou ja 
um quadro, enlretanto que se espera pela publicacao da sua 
grande obra. Entre estes dous pontos extremos , no Paciflco 
e no Mar-Verinelho , o Eclipse percorre a America do Norte 
na latitude de cerca de 60" : elie a deixa no estreilo de Hudson, 
onde somente a Inglaterra podera estabelecer unia estagao ; 
atravessa o Atlantico e a Hespanha , ao longo do Ebro , em 
uma extensao do 130 legoas (de 4 kilometros), obscurecendo, 
durante alguns minutos , perto de \ do seu lerritorio : corta 
em Iviga a meridiana de Franga , prolongada por MM. Biot , 
e Arago ; encontra na Algeria a civilisagao , em logar da 
barbaria, que outr'ora impoz o seu ?iec p/ws ?//^m ao ardor 
daquelles sabios ; e depois de haver atravessado o Nilo , ao 
Norte de Dongolah , lermina na Ethiopia , no meio dos ou- 
sados trabalhos geodesicos de Mr. d'Abbadie ; e nos logares 
visitados ha vinte annos por dous dos nossos ofllciaes do 
eslado-maior , MM. Galinier, e Feret. 

Dahi resulta immediatamente a escolha das seguintes es- 
tacoes principaes : 

1 .• Oregon — entre o Paciflco e as Montanhas Pedregosas. 

2." Labrador — na latitude de 59°. 

3.^ Hespanha — no litoral do Atlantico. 

4.* Dito — no litoral do Mediterraneo. 

5. a Ilhas Baleares — em Campvey. 

6.^ Algeria — no Forte de Napoleao (Kabylia). 

7.^ Dongolah — sobre o Nilo. 

As eslagoes da Hespanha , das Ilhas Baleares e Kabylia, 



1 56 REVISTA BRAZILEIRA . 

merecem particular attengfio ; as da Hespanha , em razao dos 
recursos locaes , e da affluencia dos observadores ; a de 
Campvey , por causa da sua altura , e do seu isolamento no 
meio do mar ; a do Forte Napoleao , emfim , pela purcza do 
ceo algeriano, E' nessas tres estacoes que convem esludar 
de preferencia a parte physica do phenomeno. 

N. B. resto da Nota , encerrando o piano das operaQoes. 
sera publicado em o numero seguinte da Revista. 



i 



NINERALOtilA 



IVote Bur le « dlniorplilsme n de la « sillee cristallliiee • 
I>ai* ni. le C'onseiller «le8 mines Dr. Ciiistave Jeiizsrli. 



Jusqu'a present ou connaissait seulcment deux modifica- 
tions de lasilice, dont I'une, I'amorphe, est tres-connue dn 
chimiste, mais pas encore trouvee comme espece minerale, car 
I'opale, meme Topale hyalite, n'est qu'une silice hydratee , 
I'autre au contraire , la silice cristaliine, etait connue comme 
Quartz , ce mineral si commun. Comme Quartz la silice cris- 
tallise dans le systeme hexagonal. En examinant scrupu- 
leusement les melaphynes de Saxe et de Thuringe je viens 
de trouver une nouvelle modification de silice , qui cristallise 
dans le systeme anorthique. 

II faut considerer cette seconde modification de la silice 
cristaliine, ce nouveau mineral, auquel je propose le nom de 
Vestane, comme faisant parlie caracteristique , quoiqueac- 
cessoire aux mineraux de la composition des melaphynes. 
Je connais la Vestane non seulement dans les melaphynes de 
Saxe et de Thuringe, mais aussi dans ceux du Harz, de 
Darmstadt et de la Silesie. 

La Vestane est toujours parfaitement inalteree , quand on 
observe sous Ic microscope que la melaphyne est encore 
inalteree, c'est-a-dire si on pent considerer comme inalteres 
tous les dilTerents mineraux qui composent cette roche. Si 
les melaphynes sonl allerees , la Vestane de son cote est 



158 REVISTA BRAZILEIRA. 

presqiie toujours crevassee el dans ces crevasses desproduils 
d(3 la decomposition des melapliynes s'y sont alors infillres. 

D'apres celte observation on pent considerer pour les mela- 
pliynes la Vestane conniie d'origine primitive. Le Quartz, 
ainsi que la Chalcedoine, on le salt, s'y trouvent toujours 
d'origine secondaire. 

En examinant cette cnrieuse substance, j'ai observe quatre 
directions de clivage : la plus parfaite correspond a un hemi- 
prisme(/j; laseconde, encore parfaite, a I'hemidoine a la 
petite diagonale (o), on trouve o presque toujours strie d'apres 
I'arete de combinaison avec la troisieme direction de clivage, 
correspondant a un bemidoine a la grande diagonale (/>). La 
qualrieme direction est encore visible el correspond a Tautre 
hemiprisme [ni), formant avec t un angle d'environ 111°. 

Comme les cristaux de Vestane sont toujours joints tres 
etroitement a leur gangue, il y a une difficulte a degager des 
cristaux libres. 

Ou y reussit done quelques fois , si les melapbynes sont 
deja plus oil moins alterees. 

La forme de ces cristaux correspond parfaitement aux. 
directions de clivage; sauf ces formos deja noinmees , j'ai 
observe encore des faces paralleles aux plans de la grande el 
de la pelite diagonale (n) et (r), ainsi qu'un troisieme hemi- 
prisme {(l) , qui emousse I'arete de combinaison dn premier 
hemiprisme el de la face parallele au plan de la grande 
diagonale. 

Les angles mesures sont pour : 

t : m a pen pres 111° el pour m^ : t, a peu pres 69° 



0: 


m 


» 91° » m : 0^ » 


89° 


o: 


t 


» 841/2° » t : 0; » 


95l/-2° 


0: 


P 


» 133° 




d, 


: m, 


mais seulement approximativement 


126° 


r: 


m 


» 


132° 



MINEMLOGIA. { 59 




La cassure ordinaire est conchoidale. Vif eclat de graisse 
qui s'approche presque.au brillant diamantiqiie. 

La Vestane est d'une transparence parfaite , incolore, qnel- 
qiiefois un pen enfumee; sa poudre est ijlanclie. 

La Vestane est plus froide au touther que le Quartz. 

La Vestane raye le Quartz visiblem ent , sa durete surpasse 
done un peu celle du Quartz. 

C'est une chose tres-curieuse que la pesanteur specifique de 
la Vestane se rapproche presque parfaitement de celle des 
plus pures varietcs du Quartz, je I'ai trouvee k une tempe- 
rature 

de 28'' ( =^ 2,G59 , reduite a la plus grande densite 
de I'eau = 2,649. 

Infusible au chalumeau, ne donnant pas a laflamme ex- 
terieure une couleur ; inattaquablc par I'acidechlorhydrique 
ou nitriqne; moins attaquable par Tacide fluorliydrique que 
le Quartz. 

Le borax la dissout et forme un verre incolore. Dans le 
phosphate d'ammmiaque et de sonde une grande partie de 
la poudre employee ne se dissout pas. Sans effervescence 
sohible dans la sonde. 

La Vestane pulverisee semble se dissoudre tant soit pen 
dans une solution de sonde bouillante. 

En eiiiployanl (1) de sonde, (2)de chaux, Tanalyse chimique 
a donne : 



4gQ REVISTA BRAZILEIRA. 

(i) (2) 

Silice W6 

Acide titaniqiie aucune 

Protoxyde de manganese 

avec de traces d'oxyde 

defer ^M Of 

Chaux 0,50 0.8 

4Q 0,18 

Magnesie ^'*^ 

Oxvde de cuivre 0,36 

^^ non rcconnaissable 

Alcali 

Perte a la calcination. . . aucune aiicune 

Meme apres la plus forte calcination et sans perdre sa 
transparence parfaite le poids absolu , ains, que le po.ds 
sp^ciQque,resteexactementcelui de la substance non cal- 
cinee , c'est a dire 2,649. 

Sans changer de poids , les varietes un peu fumees se deco- 
lorent a la temperature d'une lampe d^alcool. Aprcs avmr 
ete des morceaux de Vestane chauffes a blanc ou p ut A 
presqu'a bleu dans reaufroide, on les pent soavenreduno 
entre les doigls en aiguilles tres-Qnes et transparenles. 

Maintenant c'est aux geologues lithologistes d'examiner les 
roches, dans lesqnelles ou pretend que le Quartz fait part.e de 
leur composition. 



FINANCAS 



Falslflca^ao comparativa da^ IVotas de Baneo em elr* 
eiila^ao, e d^** inoeda real de ouro, ou de prata. 

Cre-se commummente que o papel fiduciario circalante e 
mais arriscado a ser imitado pela fraiide, do que a moeda 
metallica. Suppoe-se geralmente que-a falsiflcaQao, e emissao 
de uma nota de Banco e um crime menosdifficil , e pcrigoso de 
commelter-se , do que o de falsificar, e emittir a moeda real 

Nesta presumpgao se funda um dos mais valiosos argu- 
mentos , que de ordinario se produzem contra a circulaQao 
das Notas de uma libra esterUna (') (Londres). Allega-se, que 
papel circulante de baixo valor , quando mesmo seja im- 
perfeitamente imitado, nao deixarade enganar com facilidade 
OS individuos pertencentes a classe menos illustrada da so- 
ciedade , em cujas maos elle gyra quasi exclusivamente. 

Nao obstante a apparente plausibilidade desta opiniao, um 
valioso documcnto parlamentar, que temos presente, poe era 
grande duvida a sua veracidade. Consiste elle na estalistica 
dos processos criminaes, por falsificaQao de Notas de Banco, 
e de moeda metallica, que tiveram logar na Inglaterra e prin- 
cipado de Wales, desde o anno de 1852 ate 1856 ; e desde 
1849 ate o anno de 1857 na Escossia : d'onde se deduz, que 
a emissao da moeda metallica falsilicada e um crime com- 
parativamenle mais commum , do que a falsificaQao efTectiva 
das Notas de Banco , como se mostra pelas seguintes tabellas: 

(*J 1 libra eslerlina = 88888 8/9. 

B. B. III. 41 



162 REVISTA RRAZILEIRA. 

Processo!^ que iiveram logar na Inglaterm p Wales . pelo 
crime de falsi ficacao de Notas de Banco , e moeda me- 
tallica . oii cada vm dns niinos do perindn acima re- 
ferido. 

I'On NOTAS DE BANCO. POR MOEDA METALI.ICA. 

1852 II 71.1 

1853 18 681 

1854 27 750 

1855 37 G74 

1856 45 668 

138 8,486 

Por esta tabella ve-se yk (iiianlo e innis fre(|iienle a falsifi- 
cagao fla niooda inelallicn. E se em ali^uina hypotliese devesse 
predominar a falsilicacao do pnpel fidnciario , teria isso logar 
naEscossia, em cuja circulacao bancaria abundam sobre- 
maneira as Notas de t.ma Libra Esterlina : o ondo a circulacao 
ilos soberanos e rjuasi desconhccida. Mas a (abolla sogniiUe 
apresentara factos em contrario. 

Processos que tireram logar na Esrossia , no pcriodo 
acima menrionado. 



1849 


POR NOTAS OF. RAXOO. 

9 


P(|R MOEDA METAI.I.ICA. 

76 


1850 

1851... . 
1852 


2 






69 
64 
46 


1853 





34 


1854 

1855 







39 
64 


1856 





46 


1857 





57 




4 


495 



FALSIFICAGAO COMPARATIVA DAS NOT AS DE BANCO, ETC. 163 

Esta tabella niostra especialmeute quanlo e infundada a 
opiniao daquelles que consideram a circulaQao das notas de 
uma Libra sujeita a uma falsiflcaQao infallivel. 

grandfi contrasle que apresentam os resiiltados da falsi- 
ficacao da moeda iiielallica , em relacao aos da falsificaQao das 
Notas de Banco , 6 snscepMvel de ser urn pouco attenuado 
pela seguiiUe consideragao. Sendo a inoeda de prata o agente 
real da infima circulacao inonelaria (Graa-Bretanlia), sera ella 
poresla razao a inais exposiaas lenlativasde facil imitagao. 
A classe baixa do [)ovo, (]uo nsa quasi exclusivaniente dessa 
moeda-, e dc ordinario iiicapaz de descobrir a fraude ; ao 
passo que as classes mais elevadas dao mens attengao a 
moeda dessa especie , do (pie a de ouro , ou as Notas de 
Banco. ConsegiiintemenI.e a reiteracao das lentativas na falsi- 
ficagao da moeda melallica lem logar nessa circulaoao subor- 
dinada , a qual nao corresponde valor algum do papel fidu- 
ciario , tanto na Inglalerra, como na Escossia. 

Dado devido peso a precedente consideragao , mostram 
ainda os faclos aclma consignados, que a falsificaQao do papel 
bancario e uma fraude, on menos tentadora, ou de mais 
difficil execugao , do que a imitagao da moeda metallica: e, 
segundo pcnsamos , e isso devido as causas que passamos a 
examinar. 

Eu considero como menos tentadora aquelia fraude , que 
offerece maior facilidadc a sua descoberta. papel circulanle, 
no presenle systema das operagoes bancarias , volta rapida- 
niente ao Banco emissor , no curso regular do negocio. Uma 
parte desse papel e levada ao troco , ou dada em pagamentos 
ao Banco; mas a maior quantidade alii vai, representando 
OS depositos dos seus frcguezes : por urn qualquer destes tres 
meiosvoltam as Notas ao Banco emissor em um tempo mais ou 
menos breve. Qualquer Notafalsificada tera defazeressas mes- 
mas evoluQoes , uma vez postaemcirculagao; e, apenas en- 
trar no Banco da sua supposta emissao, sera ella infallivel- 



^64 REVISTA BRAZILEIRA. 

mente reconhecida,e provocara as maisseveras pesquizassobre 
a sua origem. Nao ha perigo inaior pani iim Banco de circu- 
la^ao ; e, ou seja o Banco de Inglalerra, ou quaesquer outros 
de menor categoria, nao poupam elles diligencias e despezas, 
afim de o remover proinptamenle. 

Um j)lano syslematico para falsificar Notas de Banco nao 
poderia perinanecer longo tempo , sem que fosse descoberto 
pelas diligencias do Banco prejudicado -. 6 esse um crime que 
alaca os interesses d(^ uina classe de individuos , que dispoem 
de grandes nieios, e que h-n niolivos poderosos para o des- 
cobrir, e fazer piniir. 

Pelo que respeita , poreiii, n falsiticacao da nioeda me- 
tallica, nao tein logaramosma vigilancia: todososbanqueiros 
recebem frequenlemente a moeda falsilicada (especialmente 
ade prala), sem que julguem necessario, ou convenientej 
proceder a uma indaga^ao minuciosa sobre a sua origem. 

Somos, pois, de opiniao, que a I'espeilo das Nofas do Banco 
de Inglalerra , ao menos, e sem duvida land)em. pelo que 
respeita as Nolas da maior parte dos oulros Bancos, a falsi- 
ficagao e incomparavelmente mais ditflcil , do que a imita^ao 
da moeda melallica: aquella requer o emprego de muito 
maior capital. papel , de que sao fabricadas as Notas do 
Banco de Inglalerra, e uma manufactura especial no seu 
genero , a qual nao pode ser aclualmente fornecida senao per 
um so fabricanle : e qualquer tentativa que se fizesse para o 
imitar, alem de exigir avultados recursos, poderia, dadas 
certas circumstancias , lornar-.se iinproductiva por longo 
tempo , ficando ella por outra parte sempre snjeila ao risco 
da publicidade. Os prucessos por que tem de passar ainda o 
papel , para tomar a forma definitiva de uma Nota de Banco , 
exigem tambemousode dispendiosos machinismos, e per 
conseguinle o emprego de mais dinbeiro. Assim a necessi- 
dade de avultado capital , para que semelhante fraude possa 
levar-se a effeito, e talvez a mais elficaz prolecgao , que tern 



FALSIFICACAO COMPARATIVA DAS NOTAS DE BANCO , ETC. 1 65 

em seu favor a circiilapo do papel bancario : porquanto , 
nenlium homem , que possa disp6r de consideraveis meios , 
arriscara a sua fortuna em uma especulacao , cujos perigos 
sao proximos e grandes, e os lucros tardios e mesquinhos. 
Pelo contrario a falsificaQao da moeda inetaHica demanda me- 
noresdespezas, e menos exposta a publicidade , e opcupana 
ordem dos negocios um logar seciindario. 

Dos factos averiguados precedentemente . nao e possivel 
tirar conclusao alguiiia, em relagao a actual circulaoao mone- 
tarjadopaiz: porquanto, a opiniao geral e decididamente 
pronunciada contra a circulac~io das Notas de uma Libra 
Esterlina , nao havendo por isso utilidade em discutir agora 
a conveniencia da sua adopgao (*). Mas estes factos encerram 
preciosa instrucQao, a qual muito aproveitara a experiencia 
que provavelmente cedo sera realisada em outra parte. Com 
eCfeito, ninguem pora em dnvida, que uma das primeiras 
medidas, que convem tomar na reforma das finangas da India, 
e a subslituiQao da incommoda, e mnilo dispendiosa circu- 
la^ao das Rupias (moeda de prala equivalente a 1 shelim e H 
dinheirosi , por papel promissorio. Muitas pessoas se acharao 
talvez propensas a receiar que. em am paiz onde a fraude 
6 em geral cousa muito commuin, e habitual, a introducgao 
dessa nova especie de moeda animara os falsificadores a 
imilal-a: mas em presenga das consideracoes acima feitas, 
nao se pode ter como fundado semelhante receio, ainda 
mesmo na India, cujos capitaes apenas chegam para os em- 
pregos licitos , e nao serao por isso desviados para as tenta- 
tivas de uma fraude tao dispendiosa. Demais, sendoaRupia 
uma moeda de prata usada para os grandes , e pequenos 
pagamentos, e ella mais exposta , como ja se ponderou 
acima. Astentativas da fraude . do que o papel promissorio. 

(•) A mtnor nola clrculante do Banco de Inglatena (^ de 5 L. : e s6 na Es- 
cosBia circulam as dc 1 L. 

(Exirahido do Economist de 29 deOulubro de 1859, i 



466 



REVISTA BRAZILEIRA. 



UovUuento do Banco cle Inglaterra da semana 

fiikda. 



QuarU-feira, 26 dc Oulubro de 1839. 



Notaa emittidas 



SEC^AO DE EMISSAO 
i 30.781.300 




Divjda do Governo i 11.015.100 
Outras cauQoes . . » 3.459.900 
Ouro em moela e 

ban-as » 16.306.300 

Praia em bairas . . 



30.781.300 



SECgAO DAS OPERAgOES BANCAES. 



Capital dos propriet. l ii. 553. 000 

Resem » 3.123.21i 

Depositos publicos,\ 

Inclusive bilhetesj 

dothesouro.caixas ( 

economicas,titulos > » 5.590. 5/i5 

da dividanacional i 

e contas de divi- \ 

dendos / 

Outros depositos . . » 13.921.Zi5'2 
Lelras a sete dias e 

outras » 940.190 

j, 38.128.401 



Cau(;6es do governo, 
inclusive anniiida- 
des 

Outras cau(;6es . . 

Notas 

Moedas de ouro c de 
prala 



i 10.875.157 

» 18.093.163 

» 8.547.830 

» 612.251 



38.128.401 



Extrahido do Economist de 29 dc Oulubro dc 1859. 






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1 dd:o©-=tir4d cv tirl'^-^ 
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20.585.707 

4.861.740 

11.263.986 

10.254.541 

20.404.597 

4.078.529 

9.369.794 

8 7. 

89 7, 

55 s. 6 d. 

25 fr. 30 c. 

11 fl. 15 a 16 

13 m. 10 






;0 




21.412.304 

4.201.284 

10.044.763 

10.740.845 

18.545.315 

3.639.741 

9.637.596 

6 a 7 °/„ 

92 1/2 "/„ 

65 s, 9 d. 

25 fr. a 25 fr. 30 c. 

11 fl. 14 a 15 

13 m. 7 1/2 






9t 




20.031.064 
4.858.589 

10.738.142 

14.228.068 
9.826.691 

10.308.666 

15.259.216 
3 7o 

92 1/2 "/. 

41 s. 7 d. 

25 fr. 50 c. 

12 fl. 1 

13 m. 14 






£15 

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'C 


Oulrascaucoes 

Rescrva em nolas e moeda. . . 

Metaes em moeda e barras. . . 

Ta.\a dos desconlos do banco. . 

I'reco dos fundos consolidados. 

Termo miidio do pre^o do trigo. 

Cambio sobre i'ariz (prazo curto 
» n Amsterdam (idem 
» » Ilamburgo (3 mezc 





a» 

00 



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T3 



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(M 



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o 






C:*— Balanco do Banco do Brazil, perteucente ao niez 



ACTIVO. 



Acclonistas, por entradas a realisar . . . • 
Letras desconlatlas, a saber; 

Com diias assignaturas residentes na cOrte. 

Com uma so dita, idem 



7,410:0008000 



Letras caucionadas , a saber : 

Por oino, piala e tilnloscommcrciaes. 
Por outros titulos e mercac'orias. . . 



2'2,720:905S0a3 

3^1:2-298915 23,062: 13/i8958. 

187:300SOOO 

95x6608000 i, 1^2:960^000 



Dlversos valores , importancia de vaiias contas que 

formao parte do activo do Banco 

Caixas liliaes, a saber: 

Saldo de snas contas a drbito 

Idem de nossas cnnlas, idem. 3,217:21iS23'i 
Dediiz-se: importancia de bi- 
Ihetes da Calxa m^triz, re- 
colhidos nas Caixas filiues de 
Ouro-Preto e S. Paulo. . 



2,26i:885S574 



11,302:^958047 



1,183:5908000 



Capital que Ihes foi marcado. 
Lelras a receber 



2,033:62i8"223 

6,600:0008000 f 

303:9778658 20,300:0968923 



Snbstitnicao e resgate do pnpel-moeda, quanlia en- 
trada na Calxa d'Amoitisa^ao 

Caixa, peio que nella existe em dinheiro. . . . 
Em bairas de ouro do toque de 22 quilates. . 



7,000:0008000 

6,950:380g75.'i 
220:1088770 7,170:4898525 



Rs. 



68,380:5668984 



B. E. e 0. Banco do Brazil, 31 de Dezembro de 1859. 



00 

'8. 

< 



Calxa filial dc S. Paulo. . 

» do Hio-Crande. 

D de Ouio-Preio. 

i> da Bahia . . . 

de Pernambuco 

n de MaranhSo. . 

» do Par5. . . . 



MARCADO 



CAPITAL 



REALISADO 



2,:.00i (") 800:0008000 
2,500' ;5')0:0008000 
. . I 100:0008000 
2,000:0008000 



10.000 

10,000 

4,000 

2,000 



400:0008000 
400:0008000 

1,600:0008000 



A REALISAR 



2,000:0008000 1,600:000^000 
800:000,^000 640:()0()8000 
400:00080001 320:0008000 



100:OOOSOOO 
100:0008000 

400:OOOSOOO 

400:000.<n000 

160:00(8)00 

80:00(18000 



:H.000' fi.600:000800o| 4.960:0008000 1.240:0008"00 



(•) N'eiie capital comprehende-se Ps. 300:0005000 rcmcitidoi pela Caixa mairiz. 



do Dezenibro de 1859 (extrahido da escriptura^fto)* 



PASSIVO. 

Emissao, valor dos bilheles em ciiculacao. . . . 21,889:780g000 
Deduz-se : bilheles lecolhidos nas Gaixas filiars 
de Ouro-rreto c S. Paulo l,183:590gi)00 20,70fi:l90SOOO 

Letras a pagar, passadas sobre dinheiro lecebulo 
a premie 5,825:9158754 

Contas correntes , saldo a favor de diversos 3,813:1648062 

Caixas filiaes , a saber : 

Saldo de nossas contas, a credilo 4,406:000g010 

Enlradas a realisar 1,240:000*5000 

Letras a pagar 6:4568406 5,652:4558416 

Ganhos e perdas , a saber : 
Lucros liquidos das diversas operafoes deste se- 

mestre 1,269:520S770 

Idem, que pertencem ao seguinte semestre. . . 288:3998139 l,557:919g909 

Fundo de reserva, por 6 % dos lucros liquidados 824:9208843 

Capital, valor de 150,000 acQoes de Rs. 200g000 30,000:0008000 



68,380:5668984 



NOTICIAS SCIENTIFICAS E ARTISTICAS 



ESTATISTICA. 



POPULACAO DA TFRRA. 



Avaliam as obras geogiaphicas em ccrca d'lim billiao a 
populagao actual do globo ; devenios porem ao Sr. Dielerici , 
professor da universidade dc Berlim, uin curioso calcnlo sobre 
onumero, approxinialivaniontc exaclo, dos povoadori's do 
nosso planeta. Ein uma coiiimunicacao por elle enderegada 
a Academia das Sciencias de Franga, eleva Oialgarisinodessa 
populagao enfi 1,^83 milhoes, que, distribuidos pelas cinco 
partes do mundo , cabem 

A' Europa 272 milhoes. 

A' Asia 750 » 

A' Africa 200 » 

A' America 59 » 

A' Australia 2 » 

Total 1.283 » 



A populagao daEnropa. quelioje e, segmido o calculo do 
professor dc Berlim, de 272 milliues de habitanlcs. iiao era 
em 1787 senHo di? 150 millides , liavendo angiiiciilado nestc 
intervallo 122 milhoes. 

Pelo que diz rcspcilo a Asia , concede o Sr. Dielerici a 
Siberia, coiiforme o calculo olTicial fornecido pelo goveriio 
russo, 7 milhoes de habilantes. Ki\a em '«()0 milhoes a {»o- 



NOTICIAS DE SCIENCIAS E ARTES. 171 

pulagao da China , baseando-se para isso em dados estatis- 
ticos, que Ihe merecem todo o credito ; e em 171 milhoes a 
da India , de accordo com as informaQoes ministradas pelas 
autoridades inglezas. 

Calcula em 14 ou 15 millioes os liabitanles da vasta pe- 
ninsula situada alem do Ganges , que comprehende o imperio 
de Birman, o reino de Siao, etc. Para as illias daSonda, 
Molucas, Pliilippinas, de Soulon , etc., constituindo o 
archipelago indiano , admille 80 milhoes de habitantes. 
Assigna ao Japao 35 milhoes, 8 a Tartaria, 13 a Persia , 4 ao 
Affghanistan , 2 ao Belondchistan , 5 a Arabia , e 15 A Asia 
Menor. 

Avaliam os nossos manuacsde geograpbia em 156 milhSes 
a populacao da Africa; e segundo as observacoes e'narrativas 
das ultimas exploracoes emprehendidas a essas regioes, 
outr'ora inaccessiveis , e principalmente conforme as investi- 
gaQoes do Dr. Barth e do Sr. Levingstone, eleva o Sr. Dieterici 
algarismo da populagao da Africa a 200 milhoes. Nao pode 
porem deixar de ser muito inexacto este ultimo calculo, por 
nao possuirmos o quantum da populagao indigena do in- 
terior d'Africa. 

A estatistica da populagao da America , comquanto pare^a 
mui diminuta, confrontada com uma so regifio da Asia, a 
(|ual assigna-se 400 milhoes, merece a maior contianga por 
basear-se nos documentos officiaes, fornecidos pelos diversos 
governos do novo mundo. 

Nao excede a um milhao o numero dos indigenas da 
Australia , calculando-se no duplo a populagao colonial. 

Rcsulta deliuitivamente deste trabalho do geographo prus- 
siano, que excede a populacao da terra de 200 a 300 mi- 
IhDes a somina d\im billiao , eui ([ue ate aqui fora orgada. 



172 REVISTA BRAZILEIRA. 

Aries Industriaes. 

CARRUAGiNS ILLUMINADaS A GAZ. 

Ha tempos que app!icoii-se na America do Norte o gaz 
portatil a illuniinaQao dos trens dos caminhos de ferro, 
director da noiiipanhia do gaz portatil em Pariz, sciente deste 
resuUado, obteve oiitro ainda mais pasinoso , applicando o 
a illuminaQno das carruagens que circular pelas runs e es- 
tradas. No mez de Maio de 1858, uma carreta de tapeceiro 
atravessou Pariz por espneo de muitas noites , inunida d.e 
dous pliaroes ambulames ciijo esplendor era tiscinador. 

Para o futuro |)OiJer-se-h?io illuminar a gaz as carruagens 
ordinarias. marhinismo ([ue permilte attiugir a tao van- 
tajoso resultado conipoe-se d'um cylindro metallico contendo 
gaz comprimido a doze atmospheras. Nenlmm abalo , ou 
solavanco da carruagem , na peior estrada , poderia apagar 
esses fanaes, que projectam uma luz prodigiosaraente intensa, 
tornando impossivel torlo o accidcnlenocturno, porque escla- 
recem o caminho ate cein metros adiante dos animaes. 
machinismo que funccioiion nos bouJeoardii de Pariz era de 
pequeno volume, podendo apenas alimenlar o gaz de duas lan- 
ternas por espaco de52 horas, mediante um centimo por hora. 

Seria pftra desejar que os trens dos caminhos de ferro e as 
carruagens publicas adoptassem este commocio e poderoso 
rneio de illuminagao. Seriam percebidos em ijrandes distan- 
ciasos combois dos caminhos de ferro, provides desses astros 
ambulantps. Conviria especiahnente esta illuminaQao bri- 
Ihante e oconomica as vias ferreas , em que os vehiculos 
nao encontram , como nas eslradas commons, desigualdades 
de terreno , que originam constantes abalos. 

Causa admiragao. que nao tenham ainda os Americanos 
pensado em ulilisarem-se delia para as suas carruagens , 
como tizeram para os caminhos de ferro ; sendo de esperar 
que a inven^ao franceza Ihes faga adoplar esse expediente. 



NOTICUS DE SCIENCFAS'E ARTES. 173 

CASAS DE ALGODAO. 

Publicoii urn jorna! da Luisiaiiia a se«uinte nota sobre o 
emprego do algodao para conslruir parodes solidase resis- 
tentes. Reprodiiziremos esse ciirioso arligo , sem garantir a 
sua veracidade : 

« Falleinos de uina das inais curiosas iiivengoes da intel- 
« ligente o activa epoca em que vivenios. Nao necessila mais 
« Sul do grantle state para const luir os seus edificios; pois 
« que val a archilectura vegelal subslituir a mineral. Trata- 
« se nada menos do que de edificar casas com o algodfio. Ja 
« foi publicada a descoberla, e experimontada com o mais 
« favoravel exifo. Emprega-se para esse fim o algodao verde 
« de inferior qualidade, osresidiios espaUiados pelos campos, 
« e ainda os reslos das fabricas; iTuma palavra, tudo que e 
« desprezado coino inutil. .Faz-se usna massa que adquire a 
« solidez da pedra ; e para comprehendei- semelhante traiis- 
« formagao, baslaraobservaradurezae resistencia das bolas 
« de papel mastigado , logo que seccaui ; a^ quaes servern 
« para fazer moveissimultaneamente leves e duraveis. 

« Cobre-se o algodao-arcliitectural , se assim o podemos 
« denoniinai\ d'uma subslancla que lorna-o i.nipermeavel a 
« chuva ; sem o quecoiiverter-se-hiaiii asliabilagoes em ver- 
« dadeirasesponjas. Counier de Charleston, e o Enquirer 
« de Columbus, fallam com enlhusiasmo desta mveuQao. 
« Segundo o seu pensar sera preciso, para edificar uma casa 
« de algodai), melade do tempo que se gasta em construir 
« uma de tijolos; e se reflectirmos que sera a prova de fogo, 
« tao solida , e cuslando Ires vezes menos, ninguem deixara 
« de quercr uma casa de algodao , e tera chegado a verda- 
« deira realeza desle producto agricola. Cessani o Sul de 
« ser tributario as tlorestas e pedreiras dos outros Estados ; 
« antes dominara de modo absoluto os mercados da Uniao. » 



174 REVISTA BRAZILEIRA. 

>leeauica. 

RASTILHO A VAPOU SOBRK (JKLO. 

Aperfeicoaram na America, em 1858, as especies de ras- 
lilhosiisadosnesse paiz para a locomorao sobreo gelo. De ha 
muito que cram conhecidos no Novo Mundorastilhos que ti- 
nham por propulsor o vonio, e de (jue so serviam os habitantes 
para as suas viagens nos rios e ribeiros. Acaba urn morador 
de Jamesville. o Sr. Weard , de siibslitnir o emprego das 
velas pelo da machina a vapor. Liberlaiido os raslilhos das 
difficuldades inherentes ao emprego do veiUo e das velas, 
evidenlemeiUc aperfeigoou da mais vantajosa maneira uina 
conducgao, que podera preslar valiosos servigos ao commercio 
ea industria. 

JamesviUe-Standar , jornal de Jamesville , descreve 
nestes termos o novo vebiculo: 

« A machina, diz o supracitado jornal, e construida do mes- 
mo modo quo o tombadilho d'um barco a vapor, com seus 
camaroles, e oulros accessorios. Fi\ada sobre urn truque 
corrediQO, que e, como os patins do baroo , de altura suili- 
ciente para ([ue a coberta e a inachiua possain dominar a 
neve que se possa encontrar sobre o gclo. Iruque e feito 
de ferro , c deve ter bastanle forga para so oppor pequena 
superficie a resislencia . quando alravessar a neve: e o 
todo lorn tal forma, ([uc, no caso de accidente, on se o 
gelo se dissolver, ache-se o viajanle em um verdadeiro 
barco a vapor. Existe no tombadilho um camarote, onde 
ceni viajanles podem achar espaco, alem da camara do 
capitao, ou piloto; licando na proa logar para a machina 
e a caldeira. 

. Como nao se necessila sobre o gelo de grando forga mo- 
lora, sendo o nivel sempre o mesmo. nao recorre-se por 
jsso a pesadas machinas a vapor , nem aos solidos melaes 



N0TICIA5 DE SCIENCIAS E ARTES. 475 

« para a sua constniccao. p! movida a macliina por uma roda 

« situacla na camara do jtiloto, com tanta facilidade, e ainda 

1 mais cerleza, do (|in', em nm l)arco ; [tor isso que sobre o 

« caminlio gelado , (|iio a naliireza gmtuitamente offerece , 

« nao ha que receiar correntes (|ue nuidem a sua direcgFio. 
« E aquecido o caniarote psdo vapor da machina , e a 

« coberla que o circumda serve para depo.>itar as bagagens, 

« ou para passeio. Cuidou o inventor nos ineios de diminuir 

« movimento do rastilho, e pol-o cm estado de partir, 

« sempre que disso houver precisao. » 

NAVIO DE GOAIPARTIMENTOS. 

A Inglalerra e a palria das innovacoes nauticas ; e a que 
tontouem 18o8 e digna de ser referida por sua singularidade. 

Trala-se do urn navio conslruido por lal forma , que pode 
em alguns minulos desemliarcar lodas as suas mercadorias, 
e proseguir em sua viagem tanio em laslro , como com nova 
carregacao. Um barco a vapor, assim organisado , ja fez o 
Irajecto enlre Greenwicli e HarUepool. 

Esla embarcacao , de 90 pes inglezes . e toda de ferro e 
dividlda em tros compartimenlos , que podem separar-se, 
ou reunir-se por meio de gonzos , ou rbaineiras , que 
prendem-na com solidos eixos de ferro. A popae'occupada 
pelaequipagem; desUna-se o comparlimento medio a recepgao 
das mercadorias, deslinando-se a proa para a macbina. 

De lal forma e feito o comparlimcnlo medio, que com a 
major facilidade c breve tempo destaca-se como uma gaveta, 
c substilue-se por oulro de idenlicas dimensoes, vazio , ou 
cheio de mercadorias. Operada esta subslitui^rto, continua 
barco a sua viagem sem ser conslrangido a parar em 
um porto tempo precise para a descarga das mercadorias, 

Sc derem as novas viagcns os resullados que da primeira 
se tiraram , propoe-se o constructor a fabricar outro de 2,000 
loneladas. 



476 REVISTA BRAZILEIRA. 

Telegraphla electrioa. 

MINUTA DAS ACTUAES LINHAS DA TELEGRAPHU KLECTRICA AEREA. 

Tendem quotidianarnente a augmentarem-se as linhas da 
telegraphia electrica aerea ; e a Europa , segundo o calculo 
do Practical Mechanic's Journal , contem hoje (em 1859) 
58,054 kilomelrns defios, tran^mittindo noticias por terra. 
Sao essas linhas assim divididas: a Franca, 12,000 kilom.; 
a Graa-Brelanha, 15,000; a Belgica , 750; a Allemanha , 
15,000 ; a Hespanhu e Portugal , 900; a Hollanda , 900 ; a 
Siiissa, 2,250; a Italia, 3,700; e a Russia, 7,500. 

Nos Estados-Uuidos ha 49,500 kilom. d^^ linhas i)or terra ; 
na America do Sul , 2,!^50; na hidia , 7,500 ; e na Australia 
cerca de 300 kilom. de linhas come^adas ha dous annos. 

Conta-se portanlo uma extensao de 1 19,344 kilom., ou 
quasi 30,000 legoas de tlos electricos , em que podem-se com- 
municar as diversas partes do globo terrestre. 



CONSlDERArOES SOBUK A SALIBRIDADE RELATlVA DOS DIFFERENTES 

BAIRROS DA ClDADE. 

Communicou o Sr. Dr. Junod a .\cademia das Sciencias 
algumas curiosas observagoes acerca da tondencia que sem- 
pre manifeslaram as populagoes das grandes cidadesemdi- 
rigirem-se a certos pontos, de preferencia a outros. 

Observou o Sr. Junod, na mur parte das cidades que visitou, 
que a classe abastada manifesta decidida tendencia para en- 
caminhar-se para o Oesle, abandonando o lado opposlo ^s 
diversas industrias, ou a parte da populagao , que nao goza 
de liberdade na escolha de domicilio. Assim , por exemplo , 
em Pariz, desde a sua fundagao, estabelcceu-se a classe 
opulenta no Occidente ; bem como em Londres, e geralmente 



NOTIGIAS DE SCIENCIAS K ARTES. 177 

em lodas as cidades da Inglatcrra. Em Vienna, em Bedim , 
em S. Petersburgo , c em lodas as capitaes da Europa repro- 
duzem-se os mesmos factos ; opera-se o movimento da po- 
pulacao na direccao do Oeste, em que se grupam os palacios 
dos reis, e as casas de saude, ou de recreio. 

Demonstra a inspec^ao das ruinas de Pompeia , que a par- 
tlcularidade assignalada pelo Sr. Junod veviflcava-se na anli- 
guidade. Nas cidades de outr'ora, assim como nas modernas, 
cncontravam se os ccmiterios a Leste , e quasi que nenhum a 
Oeste. 

Se por Ventura encontra-se alguma excepgao dcsta regra, 
precede ella de que fora tolliido o crescimento das cidades 
para Oeste em razao decollinas escarpadas, disposiQoeses- 
trategicas , ou quaesquer outros obstaculos insuperavcis. Al- 
gumas cidades da Suissa, v. g. , Neufcliatel , offerecem exem- 
plos deste facto, que igualmente se da em Edimburgo e em 
Roma , que estenderam-se para o Norte , em vez de tomarem 
a sua direcQao occidental. 

Como dever-se-ha explicar semelhante tendencia ? Nao 
poderia o acaso proceder com tal constancia , nem com tao 
uniformc mctliodo. Descobre o Sr. Junod essa causa, emi- 
nentemente physica , na pressao atmospherica ; por isso que, 
quando e consideravel a pressao barometrica , o fumo e as 
outras emanagoes prejudiciaes dissipam-se rapidamente no 
espaQO ; retendo-sc nos aposentos e a superficie do solo na 
hypothese contraria. Ora, do todos os ventos, o que mais 
elevaa columna barometrica, e de Leste, e o que mais abate-a 
de Oesle. Quando sopra estc ultimo , arrasta comsigo sobre 
OS bairros situados a Leste das cidades, todos os gazes dele- 
terios que encontra em sua passagem. Daqui resulta , que 
as habitacoes da parte oriental d'uma cidade tem de sup- 
portar, nao so a sua propria fumaga e mais miasmas, mas 
lambem os da occidental, que Ihes acarretam os ventos de 
Oeste. Quando pelo conlrario sopra o vcnto de Leste, purifica 

r, B. ui. 12 



178 REVISTA LtUAZlLElUA. 

ar, fazeiido siibir as emanacoes uisalubrcs ([uc nao pode 
lancar sobre a parte occidental. Assim , pois , as resideiicias 
que nas grandes capilaes acham-se situadas a Leste recebem 
um ar puro de qualquer parte do borizonte que Ibes venha. 
P6de-se accrescentar que os venlos de Oeste , sendo os que 
com mais frequencia reinam , sFio essas habitaQoes as pri- 
meiras em receber o ar puro que vem do campo. 

Deduz Sr. Junod destas observac^oes as seguintes regras 
para o use das pessoas que desejarem escolher uma residencia 
nas condicoesas maisvantajosasem salubridade : 1.° Quern 
liver liberdadena escolba, maxime sendo de saude debil,deve 
residir a Oeste das cidades ; 2.° Concentrem-se a Leste todos 
os eslabelecimentos d'onde emanam vapores , ou gazes dele- 
terios; 3.° Construindo uma casa na cidade, ou ainda no 
campo , deve-se collocar a Leste todas as cozinhas e sens 
annexes, d'onde podem exhalar-se emanagoes insalubres. 

honrado secretario perpetuo da Academia das Sciencias, 
Sr. Elias de Beaumont, apresentando a dita corporacao a 
nota do Sr. Junod, assignalou alguns factos que v^m cm 
abono das precedentes observagoes, e que parecem provar a 
constancia c generalidade das relac-oes apontadas pelo autor. 
Notou Sr. Beaumont que nas grandes cidades lem a po- 
pulaciio rica uma manifesta indina^ao em dirigir-se para o 
Occidente , salva a influencia conlraria de certos obstaculos 
locaes. I^ que se observa em Turim , em Liege e cm Caen ; 
notando identico pbenomeno para Montpellier e Tolosa o Sr. 
Moquin Tadon. Pariz e Londres offerecem a este respeito 
factos analogos , ainda que os rios que atravessam estas 
duas grandes capitacs corram em sentido diametralmenlc 
opposto. Lembrou sobre este ponto [o Sr. Elias de Beaumon- 
tosrifoes populares, e as pecas tlieatraes, que demonstram 
a lendcnciadoshabitanles abastadosda cihj dc Londres a cn- 
caminliarcm-sc para a cxtremidade occidental dcssa cidade. 
Tudc-sc cm verdade objcclar, contra estcs factos, tpic Pari/, 



NOTICIAS DE SCIENCIAS E ARTES. 179 

crescia na direccao de Nordeste, na epoca em que foi edifi- 
cada a Baslilha, o palacio das Torrinhas , o de S. Paulo, ele. 
Releva porem nao esquecer que estava ainda a cidade sob a 
influencia do terror produzido pelas incursoes dos Normandos, 
cujas frolinhas desciam o Sena ate Pariz , e nao eram detidas 
pela pontc de Change. Nessa epoca , e cmquanto duraram 
taestemores, ninguem se resolvia sem grande difficuldade 
a ir habitar Anteuil , ou Crenelle ; porem depois da fun- 
dagao do Louvre, e principalmente desde o reinado de Hen- 
wque IV , recuperou a cidade a sua natural direcgao. 

Pensa o Sr. Elias de Beaumont que as causas indicadas pelo 
Sr. Junod pode ainda addicionar-se o estado hygrometrico 
do ar, que e geralmente mais humido durante os ventos 
de Oeste e de Sudoeste , do que os de Leste , e de Nordeste. 



A Lltteratura nos Estados-Vnldos. 

Ja que desde os primeiros tempos da emigragao puritana 
nos Estados-Unidos em 1621 , differentes genios privilegiados 
procuraraui esclarecer com o tributo do seu espirito as trevas 
que ainda encobriam este paiz virgem , so desde 50 annos 
e que se pode com acerto fixar a origem de uma litteratura 
propria. Desde entao corypheos em todos os ramos da lit- 
teratura tem poderosamente contribuido para a illustragao 
geral. Nomes taes, como Chamming , Webster, Cooper, 
Irving, Wbeaton, seguidos de innumeros oulros, cuja fama, 
passando para o continente europeo , alem de sanccionada , 
se tornou ainda mais generalisada ; sao uma prova irrefra- 
gavel do quanlo se tem em poucos annos enriquecido a lit- 
teratura dos Estados-Unidos. 

Cumpre-nos dizer que o governo de Washington, solicilo 
cm promover por todos os meios csta benefica reacgao intel- 
lectual , nao deixou urn instante do proporcionar, por nume- 
rosas subven(;ocs , tacilidadcs a[trcciaveis. 



180 REVISTA BRAZILEIRA. 

Basta rcferir que o governo concedeii de algiins annos para 
ca a quail tia de 200,000 dollars para a publicagao de uma 
Historia Natural dos Eslados-Unidos. 

Enlre os ramos das sciencias e da arte, que mais aceitaQao 
sempre tern encontrado neste paiz, podemos citar: Obras 
classicas de autores antigos, Theologia, Technologia, Phar- 
maceutica, Medicina, Homoeopathia, etc. ; entre as quaes, para 
darinosum exemplo da extraccao enorme que algumasdeslas 
producQoes tern havido , citaremos as obras de Washington 
e Franklin, 12 vols. in-S" , a 28,000 exemplarcs; America 
Central , de Stephens , a 30,000 ; Historia do Mexico , de 
Prescott, a 30,000; Geometria de Day, a 110,000; Geo- 
graphia para as escolas de Olney, a 360,000; Uncle Tom's 
Cabin, a 450,000; emfim, Historia dos Estados-Unidos , de 
Bancropts, da qual, em pouco tempo, se extrahirao 10 
ediQoes , algumas ate de 25,000 exemplares. 

Dos periodicos, cujo numero se avalia em 1,800, tem 
alguns conseguido uma extracQao de 60,000 exemplares , o 
que pouco estranhara , quando se souber que M. & S. Beach , 
na Nova-York , empregam machinas movidas por vapor da 
forga de 20 cavallos , que imprimem por bora 12,000 folhas, 
gastando assim 50,000 resmas de papel por anno. 

E' isso mais glorioso testemunho de um paiz, que sempre 
vai caminhando na senda do progress©. 



INDIOE 



POS ARTIGOS CONTIDOS NO N.'' i. 



BoTANiCA. — Eveicicios bolanicos. Tcratologia vegetal. Exposicao de dims for- 
mas de monstruosidadcs observadas no nosso milho conimuin (Zea Mahiz) ; 
pelo Dr. Francisco Freire Allcinao. 

— Anomalias na inflorescencia do inilho Zea Mahiz ; pelo Dr. 1^. Fieire 
Ailcniao. 

— Alguuias consideracoes, e alguns fades novos, coiicernentcs ii estrnctura 
da flor e fructo da Embaiba — Cacropia peltata ; pelo Dr. F. Freire 
.Mlemao. 

Entomologia. — Invostiga^oes sobre os h^ibitoi das formigas indigcnas ; exlrabido 
das Miscellaiieas Scientificas c U.tlerarias dt J. D. Biot. 

LiTTERATiRA. — Juizo Acerca do poeina A Assumpcdo, de Fr. Francisco de S. 

Carlos ; por J. C. Fernandcs Pinheiro. 
IfiSTORiA. — Galileo e a Inqiiisicao; por J. C. Fernandes Pinheiro. 

— Senlenca dos Cardeacs contra Galileo, e sua abjuracao. 

Cantos epicos. — A Gabega do Martyr; por J. Norbzrto de S. S. 
ViAGEN's. — Visita de S. M. 1. o Sr. D. Pedro U a Cachoeira de Paulo 
Affonso. 

— Descripr ao da Cachoeira de Paulo Affonso, extrahida do Helatoriu do Sr. 11. 
J. F. Halfeld. 

Metrologia. — Memoria sobre a ado^cao do systema metrico no Brazil e dc 
uma circulacao monetaria internacional ; por C. B. de Oliveira. 

Eco.NOMiA Politic*. — Esiudo politico, economico e financeiro , sobre a 
Republica da Nova Granada ; extraliido do Journal des Eeonoinistes . 

AsTRONOMiA. — Nota apresentada na sessao da Academia das Sciencias dc 
Paris, de 2i de Outubro de 1859, por Mr. Faye, sobre o eclipse total do 
sol, que deve ter lugar no dia 18 de Julho de i860. 

Minehalogia. — Note sur le diinorphisine de la sillce cristallisde, par M. li' 
Consciller des mines Dr. Gustave Jenzsch. 

FiNAiNgAS. — Falsificagao comparativadas Notasde Banco em circulacao, o da 
moeda real de ouro, ou de prata. 

NoTiciAS sciEXTiFiCAS E ARTiSTiCAS. — Estatisllca : Popula^ao da Terra. — 
Aries indnstriacs : Carruagens illuminadas & gaz ; Casas de algod.lo. — 
Mccanica : Haslilho a vapor sobre o gelo ; Navio de compartimentos. — Tele- 
grapliia clectrica : Minuta das actuaes linhasdatelegraphia electrica acrea. 
— Hygiene: Considcraqoes sobre a salubridadc relativa dos dilTerentcs 
bairros da cidadc. — A Litlcratura nos Estados-Unidos. 



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"®:S^r?i)=e^f« 



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REVISTA BRAZILEIRA 



JORXAL 



£E 



SCIENGIAS, LETTRAS E ARTES 



DIRIGIDO 



FOR CANDIDO BAPTISTA DE OLIVEIRA 



]Vuinero 9< — niaio <le ftSCO 



mo DE JANEIRO 



TYPOGRAPHIA UNIVERSAL DE LAEMMERT 



I 



ana des invalidos, 61 B 



M 









ESTUDOS DE ANALYSE MATHEMATICA 



ERRATA. 



Pagina 193, ultima linha 



leia-se ^^— ='!,? = « tang, h 
4 



00 ..1000, 100, 10, 1, 0.1, 0.01, 0.001 ....o 

Se na equacao (1) so puzer 5 em logar dc (//) , devera o 
expoente (./) tor urn valor fraccionaiio , f[uo sera compre- 
hendido naserie superior eiilre os termos (0) e (1): e re- 
ft. B. III. i3 



ESTUDOS DE ANALYSE MATHEMATICA 



Tlieoria tlos losaritliiuos taliulares. applicada ao 
raleulo iiiinierico. 

\. Seja (lada a equagao 

(1) y={iO)-'' 

na qiial ye x representam numeros variaveis ; de modo que , 
podendo [x] crescer desde zero ale o inflnito posit ivo, ou de- 
crescer ate o infinito negativo, lomando todos os valores pos- 
sivcis denlro desses limites, os valores correspondenles dc (t/) 
lerao por limites extremes o inlinito posiiioo'e zero. 

Ponha-se em logar de [x] na equaQao (1) , successivamente 
OS lermos da serie dos numeros naiuraes, comecando por 
zero; OS valores que resultarem para [y] formarao uma pro- 
gressao geometrica, ciija razao e (10). 

Escrevendo, pois, as duas series dos valores de (.«:) e de 
(//) de modo que estes se correspondao , dentro dos limites 
respectivos ; ter-se-ha 

—1, —% —3..— 00 

0.1, 0.01, 0.001 ....o 

Se na equacao (1) se puzer 5 em logar de (y) , devera o 
expoentc [xj ter um valor fraccionario , rpie sera compre- 
liendido na serie superior enlre os termos (0) e (1): e re- 

R. B. Ilf. i3 



CO . 


. 3, 2, 


1, 


0, 


00 . 


.1000, 100, 


10, 


1. 



182 REVISTA BRAZILEIRA. 

presenlando pov (5) essa Irac^ao sob a forma decimal ; ter- 
se-ha 

{m) 5 = (10)^-° 

valor numerico de (S) , nas eqiiacDcs desta natureza , 
que perlenceiii a classe das (pie se cliamam transcendentes 
na analyse algpbrica,s6 pode ser dolenninado approximada- 
rnenle pela theoiia das series inrmitas . como adiante se vera 
em logar compelente. 

Se amhos os meinbros da eqiiacao [m] forem multiplicados 
primeiram elite por (10) e depois por (10)' ; vira 

[n) 50H'»0)^-°+'* =(10)^-^ 

(p) 5oo=(iO)^-"+- =(10)^-^' 

Se , em logar de multiplicar , se dlvidirem ambos os metn- 
bros da eqiiacao ',m) primeiramenle por (10), e depois por 
(10)'; vira 

(n') o.5=(10^^'"~' =(l0)'*-°° 

(p'\ o.05=(lO)^-'~'^ =(10)^-^ 

Dos resultados precedenles [n , p] . e [n' , p') , se dediizem 
OS corollarios sogiiintes : 

1.*^ « Se na eqiiacao fl) se considerar (//] represonlando 
um niimero qiialqiier inloiro, on decimal, intercalado enlre 
dons lermos da [irogressao geomelrica acima , c lizer-se esse 
numerolO, 100, 1,000 vezes maior; on 10, 100, 1,000 
vezesmennr; a parle decimal fo) do expoonle (x) , que Ihe 
corresponde . sera sempre a mesma: scndo a parle inteira 
desse expoenle angrnenlada de inais 1, 2, e 3 nnidades posi- 



ESTUDOS DE ANALYSE MATHEMATICA. 183 

tivas no primeiro caso ; e de 1, 2, e 3 unidaies negativas no 
segundo caso. 

2.° « A parte inteira do expoente (x) , em rela^ao a um 
valor qualquer dado a (y) , compoe-se de tantas unidades 
positivas, ou negativas, quanlas casas dista o primeiro al- 
garismo a esquerda do niimero (y) da casa das unidades 
prineipaes; a saber: para a esquerda sendo [y] numero 
inteiro, e para a direita se for decimal. 

3.0 « Dado valor numerico do expoente [x] correspon- 
dente a um numero inteiro qualquer representado por [y] , 
poder-se-ha sempre determinar o expoente {:£'] , que devera 
corresponder a outro numero [y'), submultiplo decimal de [y], 
e vice-versa. » 

Gonsiderada a equagao (1) como a expressao geral das duas 
progressoes acima combinadas , e dos numeros intercalaveis 
entre os termos correlativos dos mesmos, diz-se que o ex- 
poente (± x) e logarithmo de qualquer numero inteiro , ou 
fraccionario representado por [y] : e da-se a equagao (4) a 
forma seguinle : 

(2) »=(10) '»?•!' 

A parte inteira que entra na expressao numerica de (log. y] 
da-se a denominagao de caracteristica do logarithmo, a qual 
sera, como se mostrou acima , positiva ou ncgativa. 

elemento constanle representado pelo numero (10), que 
entra na equagao (2) , constitue a base do systema dos lo- 
garithmos denominados tabulares , ou de Briggs ; nome do 
sabio professor da Universidade de Oxford , que o propuzera 
no anno de 1615 , como util modificaQao do systema de lo- 
garithmos inventado pouco tempo antes por lord Neper , de 
que fallaremos adiante em logar proprio. 

Da equagao (2) deduz-se uma propriedade imporlante ; a 
saber — que o expoente qualquer do uma potencia de (10) ^ 



184 REVISTA BRAZILEIRA. 

equivalenlc a iiin niimero dado, e o logarilhnio tabular desse 
miniero. 

Designando por (y') iiin niinicro quahiuer differcnle de (y), 
ler-se-ha pela foi-niida (2) 



^' = (10)1^^-2/ 



Mulliplicando osia oquacao pela equarao (^) , niembro a 
nieinbro , viia 

d'onde so lira 

(3) \Og.y!/l'=\oo.y-\-[oa,y' 

Dividindo as nicsmas cquacues , unia pela ouira , inembro 
a niembro ; vira 

y' 

d'onde se lira 

(4) Log. ^= log. // — log.// 

Elevando anibos os niembros da cqiiaQao (2) a potencia («) ; 
vira 

d'ond*^ se lira 

(5) Log. //'=». log.. V 



ESTliDOS DE AiNALYSE MATHEMATICA. 185 

Exlrahiiido a laiz do graii (;/,) de ambos os meiiibios dessa 
inesiiia equagao ; vjra 



ij 



log. // 

(10) ''• 



d'oiide se tira 



(6) 



Log. 11 " = 



log-y 



As formulas 3, i, 5 e 0, srtoada[ila(lasao calculo iiimieiico, 
iia mulliplica^'ao , divisao, clevarao de polencias, e oxiiaccao 
de raizes de numeros dados ; e eiiunciain-se por sua oideni 
da maneira scgiiinte : 

[a] logarithmo do prodiicto de doiis, on inais numeros, 
e igual a somma dos logarillimos itarciaes desses numeros. 

(&) logarithmo do quoeieiitede dous numeros e igual a 
differenca dos logariUimos do dividendo c do divisor. 

(c) logarithmo da polencia [a] de urn numero dado e 
igual a Ui) vezes o logarithmo dcsse numero. 

[d] logarilhmo da raiz do grao (n) e igual ao logarithmo 
do numero dado , dividido pelo cxpnente da raiz. 



iiiisiiiertca'a. 

1. MuUiplicando successivamente os binomios [x — a), 
[x — b] , etc., por si mestnos, lormar-se-lia o [lolynoniio se- 
guinte : 



11 



n — \ 



ii—'-l 



»— :{ 



.1) .1' — a 


..'; -\-(ib 


X — ahi 


— h 


-|- (IC 


— & 


— r 


-!- be 




— & 


+ & 





± abc . . .n 



186 REVISTA BRAZILEIRA. 

ultimo teimo do polynomio nao contera a quanti- 
dade (x) ; e sera affecto do signal -f-, on { — ), segundo f6r 
par, ou impar o numero («) ; o qual designa quantos fac- 
tores binomios entiam na formacao do polynomio [A). 

F'Azen^o a-{-b~{-c-\-&i=^A.. , ab-^ac-\-bc-\-&i=Aa , 

abc -\- & = A.y , abr...a = N; ler-se-ha 

[B] x^—A^x^^~^-{^A^x^~'^. . .±N={x--a) [x—b] [x—c] 

. . . [x—u] 

Esta equagao mostra que o polynomio yl , sob a forma [B) > 
sera divisivel por qualquer dos faclores [x — a), [x — 6), etc. 

Faga-se agora 

(C) a;^— ^^a;"~*-f ig^/"^. . .±N^=o 

Ter-se-lia uma equagao do grau (ii) , a uma so incognita 
representada por [x]. 

valor numerico do [x] que salisfizer a precedente equagao, 
isto e , que reduzir a zero o seu primeiro membro, chama-se 
raiz dessa equaQao. 

Esse inesmo valor de [x] posto na equagao [B) devera 
tambem salisfazel-a, istoe, reduzir a zero ambos os seus 
membros: e sera por conseguinte esse valor de j;=a , ou 
= b, ou==c,elc. ; para que se tenha a' — a = o, onx — b 
= 0, ou etc. 

Deste resultado se conclue , que a equagao [G] podera ser 
satisfeila por tantos valores differenles de [x], quantas sao as 
unidadcs do expoenle [u] da maior polencia da incognita : 
e que por conseguinte, lera, ella, no niaximo, [n) raizes 
differentes. 



ESTUDOS DE ANALYSE MATHEMATICA. 187 

Desigiiaiido, pois, itor {a, h, c, elc.) as differenles raizes da 
equaoao C , sera esla divisivel por (r— ^/i , [x—h] , etc. 

Se na formagao da equagao C eiitrassc iiin , ou niais fac- 
tores compostos , da seguinte furma 

teria el la por cada uni desles t'aclores 'I raizes iniaginarias ; 
a saber 



X 



= a^l/—b' x = a-~^- 



Estas raizes se descobrein igaalando a zero aquelle poly- 
nomio , e tralando-o coino unia equa(;ao do "2" grau. 
Tem-se com eitcito 

x'-<i a X -h if -b'=-[x - a -\/~^h' ] [x -«+[/- 6') 

Deste resultado se conhece, que na composigao da equacao 
(] , cujos ternios sejain expressos em qiiaiUidades reaes , 
poderao entrar raizes imaginarias , mas seinprc aos pares: 
e que por conseguinte , sendo essa erpiarrio do grau impar , 
tera iiecessariamenle uma raiz real. Se for, porem, o uUiiiio 
lermo da equagao negalivo, no caso do grau par, liavera, 
pelos menos , duas raizes reaes , uma positiva , e outra ne- 
gativa. 

Seja dada a cquarfto nuinerica 

iP) X -\- Ax + Bx -\- Lx . . . .±i\ = o 

Chama-se numeriea a cquacao , em que as quantidades 
conhecidas sao rcpresenladas por nnmeros ; ou aquella em 
fjue OS coefficienles de lodas as poleiicias da incognita, desdc 

x^'diex^, lenj coerficienles numcricos. 



188 REVISTA BRjVZILEIRA. 

Sc a e(iua('ao D e susceplivel dc scr salisfeita, dando 
a incoynita (r) qualqucr valor immerico , toriia-sc ella coni- 
paravel a equarao normal C : o se concluira o scgiiinto : 

1.0 Que, se os termos da ei]uacao D , desdc o primeiro , 
(represenlado pela iiiaior poleucia (.i") da incognila , e tendo 
por coeflicieote a iinidade) , fureiii aHernativamente affeclos 
das signaes + , e { — ) , as suas raizes sorao todas posillvas. 

2." Que, se lodos os ternios da mesma equaQao f^reni 
positives , todas as suas raizes serao negativas. 

Daqui se deduz o theorema , que, na Iheoria geral das 
equa(;oes algebricas , e coiiliecido pelo iioine de — Regra 
de Descartes ; a sabei- : « Que dada uma eqaacao , cujos 
termos sao affectos de signaes posilivos , e negatives , em 
qualquer ordeni de collocaQao , lera ella tantas raizes posi- 
tivas, quantas f6rem as mudanras de signal, de niais para 
menos, on vice-versa; e tantas negativas, quantas forem 
as permanencias dos niesmos signaes ; isto e , passaado de 
mais para mais , ou dc menos para menos. » 

Esta regra . bem como as duas propriedades d'ondc ella 
resulta , so tern logar quando nao en tram na composigao da 
equacao D raized imaginarias. 

De reslo , a sua demonslragao e facillima : porquanto , 
multiplicando lodos os termos da equaQ'io D pelo binomio 
X — li , oaX'\-h: virao duas novas equacoes : a primeira , 
tendo mais uma variarao de signal, proveniente do producto 
do binomio (j; — /<) pelo ultimo terino da equacao; a se- 
gunda. tentlo mais una permanencia de signal , proveniente 
do i»roiluctodo binomio (x+/<) pelo ultimo Icrmo da equagao. 

3.0 Que devendo ter-se \ -= — A, e .V = + N, . resulta 

dalii , que coefficientc (.4) e equivalenic a somma de todas 
as raizes da equacao , tomada com signal contrario ; e ((ue 
ultimo lermo N represcnia o producto de todas as raizes 



ESTDDOS DE ANALYSE MATHEMATICA. 189 

da equacao , afTecto do signal -\- , ou (— ) , segundo for par, 
oil impar o nuinero das raizes I'eaes (positivas). 

2. Na cquarao dada IJ , subsUlua-se em logar do [x] 
I, 2, 3, elc, ()a\ 0.2 , 0.3 , etc. : on 10 , 20 , 30 , etc., 0.01 , 
0.02, 0.03 , etc. , o semelluiiilemcnle — 1 , — 2, —3 , etc. , 
— 0.1 , — 0.2 , — 0.3 , etc. : [)iocedendo asssiin por nuiltiplos, 
ou submultiplos de (10), tornados positiva , ou negativa- 
mente , chegar-se-lia necessariamento a dous valores do pri- 
meiro membro da equa^ao, de signacs contrarios; dos quaes 
se podera deduzir uma raiz approximada, e nienor que a 
verdadeira (a). 

Seja essa raiz aiiproximada re[>resentada por (r) de uiodo 
que se ten ha 

X = r -f- x' 

sendo {x') o que falta a (/•) para dar o valor exacto de (x). 

Substituindo o precedcnte valor de (.t) na equacao D; 
vira 



-o 



x^-\-lkc -\- N 



,-^* 


nr^^ 1 


4- A r«-* 


-in \Ur' ^ 


~{-Br'' 2 


-!-(« 2] Br" '^ 


+ C/-'* '^ 


-[- n 31 CV" * 


-f &c. 


+ "^^c. 



l)es[)reza'ido neste descnvolviineulo os lermos atTectosdos 
faclorcs x' - , .t.' ■' , etc. , por ser {x') unia pcfjuena frac^'ao 
de(r); Icr-se-ha urn resullado approximado do valor nu- 



190 



RE VISTA BRAZILEIRA. 



merico do polynomio D: e substiUiiiido (^t; — ;) em logar 
de (x') ; vira 



n V 

r — ur 

+ A r — jt—[ Ar 



- n- 
)))■ 



1 



I 



+ 
^ -{-{n-llAr" 
B r -— (»— 2) Br"""- -f{w— 2) B) 

[n- 



1 



-\-Cr 

4-&C 



'^~^ («-3^ Cr^^~^ -t-(«-3) C/ 



9 



n—S 



»-4 



.r. .4- .V=o 



d'oiide sc tira 



(^) 



(n— l)r"+(n— 2).4/-"' 



^-f («— 3) 5r"~- 



wr"~*-f («— i) •^'•" '^+ (n— 2)Br"' 



-3 



-!-(«— 4)Cr 



, « — 3 



. — .V 



n — 4 



Uma vcz que sejain dados os valores numericos de (n), 
e de (.4 , B , C , . . .V), a formula ^ dara a raiz (x) da equa- 
cao proposia, approximadainente : praticando-se do modo 
seguhile ; 

Adiado por leulaliva, coino se iiidicou acima . o piimeiro 
valor approximado de uma raiz da equarao pro[>osta , c 
posto elle , na formula E . em logar de ir), vira (effectuado 
calculo) para (.r) um valor mais approxiuiado : subslituindo 
este valor semelhaulemente em logar de /j vira para ^>) um 
seguudo valor ainda mais approximado : c assiui por dianle. 

algarismo , que apparecer cm um dcsses valores appro • 
ximados de (x) , e vier reproduzido na operarao seguinte , 
seni considerado como exaclo. 

Acliado que seja um priineiro algarisuio exaclo. isloe, 

que represenla a parlo luais alia do numcro buscado ; 

onlia-se cm logar de(/), na formula K . o valor approxi- 



ESTUDOS DE ANALYSE MATHEMATICA. 191 

mado de (.t) , liniitado ale um, ou dons algarismos, depols 
daquelle : procedeiido-se da niesma maneira a respeito do 
segimdo , terceiro, etc. algarismo que for veriflcado ; de niodo 
que em cada nova substitui(;ao em logar de (/), alem dos 
algarismos exactos da raiz, entrem soinente um, ou dous , 
dos que seguem depois daquelles, aflm de serem submettidos 
a verificacao do novo calculo, 

Se chegar-se a um valor de (x) , o qual posto em logar 
de (r) , na formula E , appareca reproduzido , na seguinle 
operaciio , em todos os seus algarismos , representara esse 
numero o valor exacto de (x). 

Na liypothesc contraria, term ina ra o calculo , quando se 
tiver chegado por esle processo a delerminar o algarismo 
exacto da casa decimal do numero, ale onde se quertera 
raiz approxiraada. 

Achada assim uma raiz da equagao proposta , seja ella 
representada por (±a): divida-se a equa^ao pelo factor 
(x + a) ; e vira uuia nova equagao de grau immediata- 
mente inferior , a qual sendo tratada do mesmo modo , fara 
conhecer uma nova raiz (+ b) -. procedendo assim ate serem 
determinadas todas as raizes reaes da equacao proposta. 

Para mais facilidadc do calculo , costuma-se transformar 
a equacao proposta n'outra , cm que desapparece (a potencia 
(u — 1) da incognita): o que so conseguira sempre , sub- 
stituindo em logar da incognita (j) uma expressno equiva- 
lente, na qual entra uma nova incognita; a saber 

n 

signal ( — ) e empregado , (juando o coefficiente .4 do 
segundo termo da equa(;ao 6 affecto do signal (-{-): e o 
signal (-f) \v\ hypothese contraria. 

A formula (E) nao e actualmente usada na resolu(;ao das 
equacoes numericas de gniu superior ao 2" , por serem co- 



102 REMSTA BRAZILEIRA. 

nhecidos outios [U'ocessos mais tlirectos, c expedilos; lodavia 
havemos recorrido a(jue)la formula, para cxplicar com mais 
clareza, e mcnor apparalo de combiuarocs analylicas, o 
simples processo pralico da resolucao gcral das cquacOcs 
numericas. 

3. Soja dada a e(]iiarrio do .'5" grau 

4 4 

Esla equacao encerra a solucao do problcma da frisecQ^o 
do angiilo, ciijo coseno e repiesentado [tor (//); seiido (jS) o 
coseno da terca parle do angulo dado , ou do arco (luo llie 
serve de inedida. 

Supponha-sc que e dado (t = cos. 00' = - ; 

a equagao precedente tomara a seguinte forma : 

3 £;':_£ 

h 8 



(w') X — --" — — =0 

h. 



A foruiula E que resolve esta equagao , fazendo uella 
u =- 3 , .1 = 0, Z? == — J , A' =: — -—; tomara a exprcs- 
sao seguinte : 

9r'-^ -I- i 



9 

I'ondo iKi equagao im') a uuidade em logar de (.7;) . c de- 
pois 0.9, virao o> dons scguinles resullados de signaes con- 
trarios 

+ -i , - 0.003. 
Deven't porlanlo fazer-se r == 0.0 



ESTUDOS DE ANALYSE MATHEMATICA. 

Pondo valor de (/) na formula E' ; vira 



193 



X 



2(0.9^+1 
3 (0.9) 



1.583 



2 



1.680 



-=0.94 



Sera por conseguinte (0.9) o mais alio algarismo da raiz ; 
e substiluindo na formula E' (0.94) em logar de (r) , e assim 
por diante , chegar-se-lia a urn valor de (x) approximado ate 
a setima casa decimal : cujo logarithmo dara pelas laboas 
arco de 20° , muito proximamente, 

Obtida esta raiz , e abaixando a equacao (m') ao 2° grau , 
por meio da divisao pelo factor (x — a) : se acharao as outras 
duas raizes pelo processo conhecido da resolucao das equa- 



eoes do 2° grau. 



•i. ItESOLigAO DA EQl'AgAO (?«) PF.I A 
CEOMETRIA ANALYTIC*. 



Fazendo na equacao (m) 

(1) /2=«, 



lomara ella a forma se- 
guinte: 



(2)*(/y-^^j=I 



Fig. (1 



III 




Tiradas as rectas (iia figura I )0X, OZ , indefinidas. e 
formando o angiilo agiido XOZ — 20 : faga-se 



a'-]-b' 



=::] , b = a tang. Q 



194 RE VISTA BRAZILEIRA. 

Com esles elementos descreva-se o ramo hyperbolico 
MAM' , qual tera por asyniptotas as rectas OX , OZ , sendo 
(a) e (6) OS doiis semi-eixos. 

Prolongada ZO ale G , de modo que se tenha 

a 

lire-se a recta Gl parallela a asymptola OX: esobre a recla 
GZ , considerada com iiin diamelro conjugado , descreva-se 

arco paraboUco MGm , com o parametro f — ) 

ponlo .1/ da inlerseccao das duas curvas sera o logar 
geometrico das equaQoes (1) e (2): e ter-se-ha por conse- 
guinle X = 0P= coseno da terca parte do angulo dado. 



Tlieortn dat» series^ eleiiieiitare«i , dediizida do prln- 
eipio do« eoeffleieiites indeteruilnadoe. 

I. 

BIXOMIO DE NEWTON. 

i. Seja dada a expressao algebrica (I + 'O^^ cujo des- 
envolvimento se pede , em uma serie de termos formados , 
segundo uma lei conhecida; sendo (.n uma quantidade qual- 
quer , e o expoente (m) do binomio {i-rXj um numero 
inteiro e positivo, 

Desenvolvendo, pela multiplicagao algebrica, aspotencias 
do binomio ( i + .i) designadas pelos expoenles (0, 1,2,3, 
etc. ) ; virao os resultados seguintes : 

[(•I -\-xf = \ 

({ -\- xf = \ -^ X 

M{{[-\-xf=\-\-'2x-\-x' 
1 (1 4- xf = 1 + 3x -}- 3a'' + x" 
/l-f-.T)*=i-f ij+Cr'-h ^x'-\-x' 



ESTUDOS DE ANALYSE MATHEMATICA. 195 

Os prececlentes resiiltados (azem reconhecer: i", que qual- 
quer que seja o expoente (inteiro e posillvo) do binomio 
(1-j-^), oprimeiro termo da serie, que representa o seu des- 
envolvimento, e sempre a unidade ; T, que a quantidade(.i), 
seguiido termo do binomio , entra em todos os outros termos 
da serie , elevada a potencias , que crescem na ordem dos 
numeros naturaes (1,2,3, etc.) ; 3° , que o numero dos ter- 
mos que compoem a serie e determinado pelo expoente do 
binomio , augmentado dc mais uma unidade ; 4° , que os 
coefficientes numericos (|ue alfectam as diversas potencias 
de (x), no desenvolvimento da serie, sao inteiramente inde- 
pendentes de (.r) , e variam sumente em relacao ao expoente 
do binomio. 

Mediante estes dados , iteduzidos dos resultados (M) , co- 
nhecidos em casos particulares, e applicandoo principio da 
induGQao , poder-se-ba represenlar o desenvolvimento de 
(1 + xy , em toda a sua generalidadc , do modo segninte : 

(1 -I- X) - = [-{- Ax + Rr^-f Cx^ -\- &c. 

As quanlidades iudeterminadas (.1 , B , C , etc. ) , que 
entram no segundo membro desta eqnarao, represenlam os 
coefficientes numericos que mnUiplicam as diversas potencias 
de (x). 

Devendo a serie acima salisfazer aos casos particulares 
(i¥) , e evidente : que na expressao numerica de cada urn 
dos coelTicienles indeterminados U , B, C, elo enlrara em 
geral um factor (m) , afnn de que , na bypotbese de m = a , 
todos OS termos da serie se desvanecam, excepto oprimeiro : 
que, semelbanlcmente, os coelTicientes indeterminados (B , 
C , etc.), deverao em geral lerpor factor a quantidade(m—l), 
aiim de que , na bypotbese de iii=i , todos os termos da 
serie se desvanecam , excepto os dous primeiros : que, assim 
lambem, os coefiicienles indeteruiinados (C, etc.) deverao ter 



1% REVISTA BRAZILEIRA. 

por factor a quantidade (w— 2), afim deque, iia hypothese de 
w=2 , todos OS lermos da serie se desvanerani , oxcepto os 
tres primeiros : e assim por dianle. 
Trr-se-ha por tan to 

A =mA' 

B = m{m—i) B' 

C = m(m—i){m—'^)C' 

&c. 

Nas precedenles expressoes (A' , B' , C, etc.), represenlam 
factores miniericos indeterminados. 

Subslituindo os valores de {A,B, C, clc.)nodesenvolvi- 
mento geral de (l-j-^)"" ; vira 

(2) {{ -{-x)"' = 1 -f wA'x-^m (m—i ) Mr'-f m (m—\) X 
(m— 2) C'x'-i- &c. 

Os factores (A', B', C , etc.) determinani-se facilmcnte , 
comparando o desenvolvimento geral (2) da poleiicia (l+r)'", 
com cada um dos resuUados [M] , achados para o.> valores 
particulares de [m] ; a saber 

Fazendo m={ , na expressao geral da serie (2) ; vira 

d'onde se tira x = A'x ; e por consegiiinte. . . .t'= 1 
Fazendo w = 2 ; vira 

(l-}-rr)^= 1+20:+ ;c^=l -j-2./l'j;-h 2.l.«'.r^ 
2x + a--=::/l'.2,/;+2/i'..<- 

Esta eqiiacao ficara salisfeita , isto e , o segundo membro 
sera idenlifo no primeiro . sendo r = l, e por conse- 

guinte. ../;'=- 



ESTUDOS DE ANALYSE MATHEMATICA. 197 

Fazendo m = 3 ; vira 

-\- :].±\.c'x' 

3x + Sx' + x' = A'.Sx + ^B',3x' +3.2.C'a:' 
Esta equacao ficara salisfeUa, sendo A'=\ , B' = y , 

e por consegiiinte ^''' "^ ^ 

Fazendo w< = i , acliar-se-ha semftlhantemente 

1 I i 

A I 1 R' — _ r'=zl-. 1)' = 



2 ' 2.3' 2.3.4 

Destes resaltados so pude concUiir rigorosamente , que os 
valores acliados paia os factorcs indeterminados (.1', B', C , 
etc.), sao independeiites da grandeza do expoente [m) do biiio- 
mio; ficandopor oulra parte manifesta a lei da suaderivacao, 
a parlir do primeiro factor ; a saber 

A' B' CJ 

^• = l,fi' = i-.C'=3 ,/>' = ^,&c. 

Substituindo estes valores na expressao geral da serie (2) ; 
ter-sc-ha 

(3) (\-[-xy" = i -^mx 

_^^___., +— 2 ^x , X 

Esta equaQao encerra portanlo a solucao completa do 
problema proposlo ; e servira do formula geral para o des- 
envolvimcnto em serie de uma potencia qualqiicr do binomio 
(1 -\~x) , ciijo oxpoenle seja numero intciro e poaitivo. 

K. B. III. i^ . 



198 



REVISTA BRAZILEIRA. 



2. Supponha-se agora , que o expoente (w?) e numero in- 
teiro e, negativo : a equagao geral (1) lomara a forma se- 
guinte : 



,—m 



(4) (1 -i-x) "'=\-\-Ax^ Bx^ + Cx^ + &c. 



m 



MuUiplicando ambos os membros desta equacao por (I -\-x) ; 



vira 



(1_|_^)^= \=[\^Ax-^ Bx' +C.T* + &) {{-\-x 



m 



Desenvolvendo em serie (l-|~jj'" pela formula (3); execu- 
tando depois a multiplicacao indicada ; e ordenando todos 
OS termos , segundo as diversas potencias de [x] ; vira 



o = A 

-\-m 



X 



-\-m 



+ B 

-\r niA 

[m—\) 



X 



-f m 



-\-m 



+ C 

-}- m B 
[m— \ ) A 

2 

(w— 'l)(w— 2) 



X -|- &c. 



3 



Para que esla equacao de condicao tenlia logar , as quan- 
tidades indelerminadas (A, B, C, etc.), deverao satisfazer 
as equa^oes seguintes , independenlemenle do valor de (x) : 

,4 -f- tn = 

_ , . , (m— 1) 
B-{-mA-^m — —-'=0 

C + mB -I- m^-^A + wA-^-^ 2" = ^ 

Substituindo na terceira equacao os valores de A , e de fi , 
tiradosda primeira, e da segunda; ter-se-ha 



. = -,„, B=,/!^>, c=-,/!^) C^^ 4C. 



ESTUDOS DE ANALYSE MATHRMATICA. 199 

Siibstiluindo esles valores na eqiiagao (4) ; vira 

(o) (1 -f-a^) =1 — irix + ?w^ — ~ — . X 

(m+1) (m+2) 3 , , 
— w ■ ' — ^x -f &c. 

Este niesmo resultado se acharia directamenle , fazendo 
applicaQao da formula (3) ao presente caso : e procedendo 
do seguinte modo : 

Pela divisao aluebrica lerii-se 



i 2 3 

-- \ — X -^x" — ,T -f &C. 



Elevando ambos os membros desta equacao a potencia 
[m] ; ter-so-ha 



^jq^„.= (1 ^x) *"= ( I —X + x"— t'V &c. j 



m 



Desenvolvendo a potencia im) do polynomio peJa formula 
(3) , considerando-o sob a forma de urn binomio ; a saber 

<1 -|- (— X --(-.X —X + &c.) j , 

vira segundo membro da equaglio (5). 

in 
3. Se expoente im) e fraccioitario da forma — , sendo 

P 
[m) e [p] numeros inteiros; a equacao geral (1) se mudara 

na seguinte : 

m 

(6) (1 -j_a;) ^ = 1 -f- yl X -f Bx^-l Cx^-^ &c. 



200 RE VISTA BRAZILEIRA. 

Elevando a potencia [p] amLos os menibros desta equagao ; 
vira 

(l^rr)"'- = (1 JrAx + Bi^ + Cx^+&iC.f 

Desenvolvendo ambos os membros desta equaeao pela for- 
mula (3) : e passando depois todos os lermos para urn dos 
membros, ordenados segundo as diversas potencias de [x); 
ter-se-ha 



o = Ap 
— m 



X 



+ Bp 



~m 



2 
{m—\) 



x- -\-Cp 

^p^l^hAB 



r'"^ + &c 






2 3 ^^ 

(m—i) (w— 2) 



Procedendo como se praticou no caso predenle , ter-se-ha 

(/>— 1) ■ 2 (in—i) 
Ap—m=o, Bp + p^f-^-'A —m^-j- =o, 

(p-1) (p-2) 3 



Cp + P (P-I) ^-1^ + 7^ ^ 



m 



3 

{m—\) (m— 2) . 

I, ' ^ =-0 . &c. 

3 



Pondo valor de (»i] , tirado da primeira equagao , nas 
outras duas; achar-se-ha 



, m „ A{A-^) MA-j) (4-2). 
^="7'^== ~'^ 2 3~' 

Substiluindo estes valores na equaeao (G) ; vira 



&c. 



ESTUDOS DE ANALYSE MATHEMATICA. 201 



(7) {i+x]P=\ + 'lx + \T~ 



P 2 




Este mesmo resaltado se acharia directamente , desen- 
volvendo primeiramente a potencia (l+j:-)'", pela formula 
(3) , e extrahindo depois a raiz do gran [p] desse polynomio, 
pelo processo conhecido na algebra elementar : mas deman- 
daria esse methodo urn calculo muito mais laborioso. 

4. Deveiido a equagao (3) ter logar, quaesquer que sejam 
as quantidades Anitas [x] e [m] , como se acaba de ver ; ella 

subsistira ainda, pondo em logar de {x] a fracgaof— j: 

feito que , e multiplicando depois ambos os membros da 
equacao por (a'"); ter-se-ha 

(8) (a+x) =a +-J a . x + -y^-y- « x 
, m(m—\)Cm—-2) ni—3 3 , , 

E esta a formula conhecida sob a denominacao de — Bi- 
nomio de Newton — , o qual nao dera todavia nma demons- 
tragao geral , e rigorosa desse bello theorema : tlcando isso 
reservado a outros distinctos geometras , e com especialidade 
a .1. HernoulU , cnja demoiistraQao , posto que nada deixa a 
desejar , pelo que respeita ao rigor da deducgao analytica , 
e , em o nosso entender, iiienos comprcheusivel para os prin- 
cipianles , do que o processo mais simples , e nao menos 
rigoroso , que liavemos empregado para chegar ao mesmo 
fim. 



20:2 REVISTA BRAZlLliIRA, 



NOTA. 



Os faclores {A',B', 6", etc.], que entrain na expressao 
geral da serie (2), podein ainda ser determinados por dous 
outros diflerentes niodos , como se vai mostrar. 

!.• Ponha-se priineiramenle {—Xj cm logar de (x) na equa- 
cao (2) ; e faca-sc depois ./•= I. Tcr-se-lia 

(a) (1— I)'^=o = -l —mA' + m{m—\]B' 
— m [m—i] (m— 2) C + &c. 

Fazendo nesta equac-ao m=i , w=2 , m='3 , elc. ; virao 
as equa(,ocs seguinles : 

0=1 — 4', = 4 -2 A' + '2B' , = 1 - 3.4' 
+ 6fi'-6C', &c. 

Sendo a segunda o terceira cquagao , equivalentes ao qua- 
drado , e'ao cubo da priineira , a qual icprcsenta o binomio 
eleinenlar da polencia (m) ; deverao ellas ser satisfeitas ao 
mesmo lernpo pelos valores numerlcos dos factores {A\ B', 
C] : que equivale a dizer-se , que todos os factores inde- 
tcnninados , quo entrain na cxpressiio geral da serie (2) , sao 
independentes da grandeza do cxpoente [m]. 

Tirando puis os valores de [A'] e do [B'] da prinieira , e 
da scgund'i equacao , e subslitnindo-os na terceira; ter- 
se-lia 



ESTUDOS DE ANALYSE MATHEMATICA. 203 

2." Fazendo j; = 1 , na equa^ao (2); vira 

(6) (■\+if^ = 2"^ = 1 +mA' + m (m -l)fi' 

+ m[m—i] (m— 2)C' + &G. 

Escreva-se , correspondenteniente a esla equagao, a equa- 
Cao (a) 

= 1 —mA' + m {m—\)B'-'m (m~\) (in—^)C + &c. 

Fazendo m = \ , na equagao [b] ; ter-se-ha 

2=1 + l.i'; e i'=-l 

Tirando a seguuda equagao da primeira , e fazendo ?w=2 
vira 

4 = 2.2i'; .4'=! 

E' logo [A') iiidependenle da grandeza de [m]. 
Fazendo /w=2 , na eqiiarao [h] , e siibstituindo nella 
valor de (i') ; ter-se-ha 

4=1 -h 2.1 + 2ii' ; 5' = 4" 

Ajunlando a segunda equagao a primeira, e fazendo w=3 ; 
vira 

8 = 2 + 6.2 fi' ; B'= i 

E' logo iW) independente da grandeza de (m). 

Semelhantemenle se acharia C'= -^-, qualquerque seja (m) 

2.0 

Mas havendo assim detnonslrado , que os faclores indeler- 

niinados {A\ B', C, etc.) sao independentes de (m), passamos 

a exprimlr os seus valores por meio de uma serie infinita. 



204 REVISTA BRAZILEIRA. 

Poiilia-se, na equagao (b) , [m — l] em logar de (m); e 
vira 

2"^~*= 1 + (m-I).l' + [m-i] {m—2)B' 
+ (w— I) (w— 2) {m^3)C> + &c. 

Fazendo nesta equacno m=o : vira 

^"^=--^=1 + (-l).l'+ (-1) (-2) B' 
" + {~\) [-2] {^3]C' + &c. 
Tirando 1 de ambos os nicmbros desta equagao ; vira 

— — '^ — A> + 2B' — ±3C' + 2.3.4Z>' — &c. 

Trocando o signal em ambos os membros desta eqiiagao ; 
vira 

[c] i- = A'—2B' + 2.3.C' — 2.3.4Z>' + &c. 
Tem-se pela divisao algebrica 

= 1 — a 4- a — (/ -\- a — &c. 



1 + a 
Fazendo nesta equagao a = 1 ; vircA 

^==1_H_ 1_1 + 1 _&c. 

Devendo o segundo membro desta equagao ser identico ao 
da cquacao (c) ; ter-sc-ha 

J'=l,— 2/r = — I, 2.3(;'= I, 2.3.4/> = — 1, &c. : 

e por conseguinte 



ESTUDOS DE ANALYSE MATHEMATICA. 205 



II. 



Deseitvolvlmento das fti«c?6es ei.|ioneitrlae« , e 
I»S«ritlimUa^ , e«i series eouveageutesi. 

1 Seja dada a funcgao cxponeucial (a'] , cujo desenvolvi- 
mento se pede , em uiiia serie ordenada , segundo as polcn- 
cias ascendentes do expoente (^0- 

Faca-sc 



a 



-i=h 



e applicando a formula ja conhccida do binomio de Newton ; 
ter-se-ha 



Esla se^unda serie c deduzida do precedentc dcsenvolvi- 
.„3iUo de (1 + I)f, executando nesle a mulliplicar.ao dos fac- 
iores, que formam os coefficientes das diversas potencias de 



mci 



506 



REVISTA BRAZILEIRA. 



{h); e ordenaiido a somma de todos os tcrmos , seguiido as 
diversas polencias de [x]. 

Na formacao dos differeiiles lermos da serie (.4), observa-se 
seguinle : 

1.*' Que coetficienlo de f-i-j foiina-se do (iiiadrado da 

serie , que exprime o coefficiente do (x) , ale a potencia [h'') , 
ou ale a ultima polencia de (//) no tertno em que parou a serie 

precedenle : que u coetticienle def ^ J 6 o cubo da referida 

serie, ale a mesma potencia de (//) , e scmellianlemente pelo 

que respeila aos coetiicienles de I ^yy), de (.5-^) , elc. 

2." Que numero dos termos da serie que forma coef- 
ficiente de [x] , ii igual au numero dos termos do desenvolvi- 

mento da funccao (I -r/r\. menos urn: de modo que. quando 
for cste desenvolvimcnto expressopor uma serie intinila , sera 
igualmenie infiniia a serie >\ue exprime coefTiciente de [x). 

S.' Que na hypothese de lornar-se inlinita a serie que 
forma coefTiciente de (x), serao igualmenie inlinitas as 
series que exprimem os coelBcienles das diversas polencias 
de [x] , nos lermos sul)scquenles : de modo que : represen- 
tando por (.4) aquelle primeiro coefTiciente, serao os outros 
represenlados ordenadamenle por (.4-), (.4*), {A'*], etc. 

i.° Qiic no caso de ser (.t) (expoente da funccao binomial) 
numero fraccionario , ou negativo , a serie que represenla 
desenvolvimenlo dessa funccao sera infiniia ; visto que ne- 
nbum coetlicienle de qualquer das polencias de 'h], no pri- 
meiro desenvolvimenlo, podera lornar-se nullo: temlo logar 
oconlrario, quando aiiuelle expoente f6r numero inleiro c 
posilivo ; pois que entao sera desenvolvimenlo da funccao 
binomial dado por uma serie de numero delerminado de 
lermos , a menos de ser inlinito expoente (x). 



ESTUDOS DE ANALYSE MATHEMATICA. 207 

Supponha-sc, pois, que o cxpoenle da (imcg-ao pioposla e 
fraccionario da fonna (-|-) , seudo o nuii.erador desla Irac- 
r/ao am namcro itiloiro dado : a equacao (.1) tomara a forma 
seguinle : 



.4 X 



IB] a- = I + - . J + ■-r--,;^ '^' lif'TJ7^ "^ m^'l .2.3.4 

+ etc. 

Ter-sc-ha lambem , substituindo por ( li ) a quanlidade 

(a-\), 



(C) 






Faca-se, naequacao(B) ,x=^.oquQe admissivel; 
por ser (m) urn immero arbilrario , e podeudo considerar-se 
come urn mulliplo do (-1) : e ter-sc-ha 

a'^=\ +1 +11+ 03+ illA -^ '^'• 

Kazendo e = 2.7182818 ; numero .pic reprcsenta a somina 
dos tcrmos da serie precedcnte , approximada ate a selima 
casa decimal ; vira 

a = 6'* ; d'ondc se lira log. a = A log. e ; e 

Iq. a 

Ig.c 

Sabstiluiudo valor dc [A] nas e(iiiacoes (B), e (C); ter- 
se-ha 



208 REVISTA BRAZILEIRA. 

1 / Ig. a \ X 1 / Ig. a V? x^ 



^^' "" ~^^ milg.el'i ^tiAlg.ef- 1.2 
, 1 fhj.aY x' , , 

lg.a _ (a-l)_ (o^)^ , (a- if (±d.^Vetc 
A equagao (6') pode ser escripla da seguinte maneira : 



1 

111 , <, 



Esla equag-ao subsistira ainda, substituindo-se a quantidade 

representada por (a~'j por qualquer outra de grandeza arbi- 

traria , e linila, a qual podera ser a mesma quantidade repre- 
sentada por (a) . 

Ponha-se, pois, nessa equagao (a) cm logar de (a'"j; e 

vira 

(^) ^^ ^ ^ + /— • T + l/^)- 11+ l/^j- 1:2:3 

+ etc. 



Da equagao (C) tira-se 

a~l {a—Vf , (a— ly^ (o— 1] 



,r,i , , /a~l uf— 1)' , 



4 



i + etc. 



A equacao (D), cncerrando desenvolviincnlo pcdido , 
mostra por outra parte a dependencia que cxiste enlre a scrie 
que cxprime e aquclla que e dada pcla equacao (£). 

Ambas essas scries sao de subida importancia . lanlo na 



ESTUDOS DE ANALYSE MATHEMATICA. 209 

analyse algebrica , como no calculo infinitesimal : sendo a 
applica^ao pratica tla segunda [E) a detcrminacao do loga- 
rithmo de urn numero dado [a] , no systema em que for co- 
nhecido o [log. e). 

Ciimpre fazer aqiii uma observacao importante acerca do 
processo analytico que havcmos empregado, partindo da 
equagao [D], em que a funcgao exponencial tem por expoente 

a fracgao ( — ) > para chegar a equagao [D] , em que o ex- 
poente (;f) da mesma funccao e um numero inteiro : ficando 
assim demnnslrado, que o desenvolvimento da funcQao ex- 
ponencial , em ambas estas hypotheses , e dado pela mesma 
serie inflnita ; comprehendendo-se ahi evidentemcnte o caso 
de sero expoente negativo. 

Os geomctras, porem, que tem tratado dcste ponto da ana- 
lyse, emprcgando o principio dos coefficientes indetermi- 
nados, consideram o expoente da funcgao exponencial em 
toda a generalidade, nao adverlindo, que a serie (E) , que 
forma o coefficiente de [x] , no desenvolvimento da funcgao , 
nao pode ser dada , senao na hypothese de ser o expoente da 
funccao exponencial fraccionario , ou negativo , para que 
aquella serie seja inflnita, como havemos mostrado acima : 
porquanto , de outra sorte , os coefflcientes das outras poten- 
ciasde(j:;) nao exprimiriam o quadrado, o cubo, etc. , da- 
quello primeiro coefTicientc , que havemos representado por 
{A). Esta circumstancia , cuja apreciagao escapou aoproprio 
Lagrange, c somente attendivel pelo que respeita ao rigor da 
deducgao analytica. 

2. A serie (/)), que representa o desenvolvimento da func- 
gao (rt'^) , sera semprc convcrgentc, como se mostrara adiante 
em logar competcnte, quando so tratar das series infinitas 
com espccialidade: isto e, a somma dos sens termos tendera 
a approximar-se de uma quantidade finita, sendo [a] e [x) 
quacsquor numcros dclerminados. 



210 REVISTA BRAZILEIRA. 

A serie [E] , qiifi representa o desenvolvimfinto da fnnccao 
[log. n), sera sumente convergenlc, quando se der a (a) nm 
valor qualquer , comprehendido dentro dos limites de 

a=2, e (1 = 

Assim applicando a formula [E] a estes dous limiles do 
valor de(n), e ao caso intermediario , isto e, a = \ , ter- 
se-ha 



/111 \ 

Log. ^ = lg.e (I -■}- — + ctc.J = n 

Log. i = lg.e(0~ -|-+ -^ — etc. j = 

/ 111 \ 

Log.0^lg.el—\ — — ~- — — — etc.j=-Qc 

prinielro resuUado repr(?senlado por [n] sera conhecido , 
quando f6r delermlnado o valor numerico de {log. e) , no sys- 
tema de logarithinos de que se Iralar : o segnndo, e o terceiro 
resuUado terao senipre logar , qualquer que seja a base do 
systema adoptado ; coino ja se vio anteriormenle. Ii-atando-se 
dos logarithmos tabulares. 

Posto que , rigorosamenle fallando , a formula [E) pudcsse 
servir para construir taboas de logarithmos, em um systema 
dado, pode ella ser Iransformada em oulras formulas mais 
adapladas para esse fim ; lanto poi' sei'em estas applicaveis a 
qualquer uumero . comprehendido entrees limites dezero e 
infimto , como principalmente por tornar-se mais conrer- 
gente aserie em queseaohamexpressas: o que passamos a 
fazer. 

Ponha-se, na formula [E) , (1 -\-a) em logar de (a) ; e vira 



2 ,,5 



Log. i4-h«j = /(/. e la — y ' "a T "^ *'^*'' ) 



ESTUDOS DE ANALYSE ^fATHEMATICA. 2H 

Ter-se-ha semelhamemenle 

Tirando a segunda equacao da prinieira, niembro a mem- 
bro ; vim 

Ponha-se agora , nesta equacao(||-^) em logar de (a) ; e 
vira 

/1 + tlv 

(G) Log I -__!!±1 _,,. , _2 /,. .f ^ + i^izdll 
\ n+il 

+ d— nrr + etc. 

Ponha-se ainda , na mesma equacao, (---!— \ em loear de 

\2a-\-\J " 
(a) ; e ter-se-ha 



{H) Log. {a+\] = hj. a +2 Ig. e [— 



4-1 ' 3(2a-f-lf 
5(2.^ 



"^ -^'^a+ijV "^ ^**^" 



A formula (//) dara o valor do logarilhmo de qualquer nu- 
mero dado [n] , augmeiilado da unidade , uma vez conhecido 
[log. a] pnla formula [d] -. depondeiido somcnte da delermlna- 
cao de [log. c], de que passamos a Iratar. 



212 REVISTA BRAZILEIRA. 

Na formula [E] ponha-se fa " I em logar de (o) ; e vira 

Log.a"^ = 1g.c\ — ^ ^ — 2~" "^ 3 ^^^*) 

Sendo [m] urn numcro de grandeza arbitraria , podera elle 
representar iini valor fal , que torne a "■ ou i/^/ tao pro- 

xima da unidade, quanto sc queira; de modo que as potcncias 
1 

HI 

supcriores de a — 1 possao ser desprezadas para uma dada 
approximacao do log. a~: e nesta hypolhese a prccedente for- 
mula e susceplivel de uma expre?sao mui simples: a saber 



(L) Log. a =m. /{/• ^ \ / (i — 1 



V 



Esta bella e ulil transformacao da formula geral(E), ex- 
pressa em uma serie de convergencia arbitraria , e devida a 
Lagrange. 

Tem-se vislo na precedenle analyse, que o desenvolvimento 
da funcQao logarithmica, sob as diversas formas em que o le- 
mos apresentado , e sempre acorapaubado do factor constanle 
[log. e). 

A determinarJio numerica dessc factor conslante, em (]ual 
quer svstema de logarilbmos , da-lhe o caracler proprio que 
distingue dos oulros : e a esse elcmento assim determinado 
tern OS geomelras dado o «omc de modulo dosyslema. 

Sao conhccidos presentemente dous systemas de logari- 
thmos ; a saber : o primitivo , denominado — Ne|)eriano — , 
do nome do seu inventor Lord Neper (o qual e tambem deno- 



ESTUDOS m ANALYSE MATHEMATICA. 213 

minado — Systemadoslogarithmoshyperbolicos), cuja base 
e numero , que na precedente analyse havemos designado 
pela letra [e). E o outro aquelle, que ja aiiteriormente fizemos 
conhecer, comonomc de— Systema labular, ou deBriggs, 
cuja base e o numero 10. 

A determinacao do modulo, no primeiro systema, limita- 
SG SiisLzev log. e= \ ; o que dn notavel simplicidade ds for- 
mulas que acima deduzimos. 

Para determinaro modulo no segundo systema, p^de em- 
pregar-se com vanlageni a formula (L] de Lagrange ; poudo 

nella (10) em logarde(a) , e (2'*j em logar de {m); e ter- 
se-ha 

Log. 10 = 1= (2^) /(/. e[ V^lO^l) 

expoente [n] do algarismo (2) expriine , pelo que respeita 
ao radical, numero de vezes que se deve extrahir a raiz 
quadrada de (10) successivamente , para ter-sc valor de 
[log. e) com uma approxiinagao que satisfaga a uui limite 
dado. 

Da eqnagao precedente se lira 

1 

[M] Log. e= — =0./i342944819 

2 _____ 

2"VlO— 1 

Esle resultado, approximado ate a 10* casa decimal, e 
tirado do calculo que fizera Briggs, para determinar modulo 
do seu systema , faz,jndo w = 54 , d'onde resulta 

^'10'= 1.000 000 000 000 0001278191493 

R. B. III. 15 



214 REHSTA BRAZILEIRA. 

Ficando assim determinado o modulo {M) do syslema dos 
logarithmostabulares, as formulas (G) e (H) bastarao para 
calcular os logarithmos dos teraios que forroam a serie dos 
numeros naturaes , partindo da unidade, ate o numero que 
se quizer fixar como limiie superior : e ler-se-ha deste modo 
conslruidouma, ou mals laboas de logarithmos desse sys- 
tema. 



III. 

Fune^oeit cii>cu!ares ilef^envolvldaii eiii taerie. 

Sejam dadas as funccoes sen. x, e cos. x, cujo desenvolvi- 
mento se pede, em series ordenadas. segundo as potencias 
ascendentes de (x). 

Supponha-se que tern logar a etiuacao seguinte 

(i } Con. x=\ — [Ax + Bx^ -f- Cx' H- Dx' -f ^.t-' + Fx' 

+ etc.) : 

sendo oscoefiicientes indeterminados (-4, B, C, etc.) quan- 
tidades constantes, e independentes por conseguinle da gran- 
deza do arco variavel (x). 
Te r- se- h a se m elh an tem en le 

Cos. <ix= i — [A [2x) H- B (2a:)' + C(2xf + D i^x]" + E {^x)' 

+ F(2,if 4-etc.) 

A Trlgonometria d;i a seguinte rolagao entre cos. x, e 
COS. 2a:; 

2 

cos.^x=^ros. X — 1 

Substituindo nesla equacao os valores de cos. ^x, e cos. x; 
vir4 



ESTUDOS DE ANALYSE MATHEMATICA. 



215 



\ — (A {2x) -f- 5(2;r)- + C{2xf + Z)(2.ti" -(- E{2x]' + F(2a;f 

+ etc.) 
= 2 { 1 — (ia;+ 5a;' + Crr* + /^x" 4- E^H ^^' + etc.) }'— 1 

Ordenando todos os termos desta equacao em urn s6 mem- 
bro , segundo as dilTcrentes polcncias de [x] : vira a socruinte 
equaQao de condicao : 



0=2 + 2/1 l.r -[- [\D 

— 2|— liAl — ZiC 

+ 2A' 



.1-2 +^C 
-liC 
+liAB 



j;3 + 16 0. J", -f 32jB'a.-5 +6Z|Fia-6+& 



6 D| — /l E 
+ UACl + liAD 
+ 2 B' ! + hBC 



■k F\ 
+liAE\ 
+llBD\ 

+2 C2i 



Igualando a zero cada urn do.s coefficientes das diversas 
potencias de [x] ; viiao as equagoes seguintes, que farao co- 
nhecer(i, B, C, etc.) : 



2i — 4i==o 
4JS— 45 + 2A'=o 
8C — 4C + 4.iB=o 

46D — 4Z)-l-4.4C4-2/i' = o 

32 E — 4^:4- 4/1/)+ 4BC = 

64F— 4F+ 4^7i + 4iiD+ 2C'=o 



i = o 

C=o 
0= — 



2.3 



F=o 



F= 



J5' 



3.5.6 



Substiluindo na equagao (1) os valores achados ^q[A , B, 
C ,D , etc.) ; vira 

(2) Co&.x= 1 -- Bj;'+ 2^ x' — gyg a;« + etc. 

Seja semelhanlemenle 

(3) Sen. x = A^x-\- B'x^ + C'x' + D'x' + F'a;= + F'o;'' 



216 REVISTA BRAZILEIRA. 

Tem-se pela Trigonometria 

9 2 

1 =sen.''x-\- COS. x 

Substitiiindo nesta equacao os valores de sen. x , c cos. x , 
(2, e 3) ; e praticando o que se fez precedenlemente , virii a 
equagao de condigao , da qiuil se dednzirao os valores de (.4' , 
B' , C , etc.) ; a saber : • 

B- . „ 



0—1 


— 2B 




.. - 


x' 


5 B' 

T 

5.9 


1 


+ -4'^ 


+ 2.4'F 


+ B' 


+ 2/1^/)' 


B' 
3 








+2i'C' 


+ 2 5'C'' 


+ 24'£:' 
+ 2JS'i)' 



d'onde se lira 



>!'' — 25=0 

2^'7J' = o 

~-VB''-\-^A'C ^B'^ = o 



2.4'Z)' + 2 5'C 



//^' 



= 



B= 



6^'=- 
D'=o 
E'= 



BA' 



2 d( 



B'A 



Levando desenvolvinienloate(a-'), ter-se-hia F=o 

Subslituindo na equacao (3) os valores achados de {B', O, 
D', elc.) ; vira 



(4) Sen. X 



., I Bx' 



Bx' . B'x 



1! .,5 



etc. 



3 ' 2.3.5 
Resla pois determinar os valores de (.4'), e 'B), que deverao 



ESTUDOS DE ANALYSE MATHEiMATIGA. 217 

9 

satisfazer a equagao .1' — ^B = o: o que se fara da ma- 
neira segainte : 
Dividinclo ambos os membros da equagao (4) por [x] ; vira 

Na equagao (n) a qnanlidade (-77- ] cresco, a medida que 

diminue [x] ; e tem por liraite niaximo [A'] , quando e x = o. 

. sen. X sen.x ^ .... , „ 

Mas e ■=cos.x; e lem por limite cos. = 1 ; fi' 

tang, x tang, x 

cara valor de [A'] comprehendido dentro desle limite ; e 

ter-se-ha portanto 

1 

i'.= 1 ; e por conseguinle B = -—- 

Substituiiido estes valoresnas equates (2) e (4) ; ter-se-ha 
linalmente 

(5) COS. X- = 1 - ^ + f^ -iJMH + '^- 

5 5 

(6) ,se«.x=x--..|- + ,f^-etc. . 



Senaserie exponencial 






puzer-se Ix y M em logar de [x] ; vira 



218 REVISTA BRAZILEIRA. 



— 1 



^V ,/-! ./ZTT j-zri 

e = l + ^I/ — x" — . tT 4- x!^ + j;T 

1 1.2 1.2.3 1.2.3.4 1.2.3.4.5 

— etc. 

'""'^ "" o "^ 0x4 ~~ T2:3X5r6~ ^ ^^^' 

= Cos,j:-fl/ — 1, Sew. j; 
Ter-se-ha semelhantemente 

-V=^ ._ 

<? = co^, X — [/ ^ 1 • Sen. a; 

Reunindo os dous resuUados precedentes , sob signal 
duplo (±) ; vira 

±x\/—i __ 

(7) & = COS. a; + 1/ — 1 . Se7i. a; 

Este hello resuUado (considerado p'r Lagrange entre as 
rnais imporlantes descoherlas aiialyticas) e devido a Euler : e 
rnostra elle por niodo bem singular a relacao queexiste entre 
as funcf'oes circiilares e as exponenciaes, mcdianle emprego 
de urn syinbolo imaginario. 

Da eiiuarao (7) se deduzem lacilmenle os valores de [co?>.di\, 
e4e(sen. x) ; a saber 



ESTUDOS DE ANALYSE MATHEMATICA. 219 



(8) Cos.x = - ±- 



(9) Sen. X == 



xl/— \ — it l/ — 1 

e — e 



2(/- 



l 



Pondo [mx] em logar de [x] , na equagao (7) ; sendo (m) urn 
numero qualquer; ter-se-ha 

(10) Cos. mx ±1/ — 1 . Sen. mx 

= lcos.x±i/— i . sen.x " 



Esta engenhosa, e util transform agao da equac-ao (7), e 
devida ao distinct.o geometra Moivre. 

Notaremos aqui de passage™ , que essa equacao, conhecida 
geralmente pelo iiome dc formula de Moivre, e consequencia 
immediata de Lima propriedade inuilo iiotavel , inherente ao 
desenvolvimento das funcgoes exponenciaes. 

Com effeilo , pondo (mx) em logar de (x) na equagao 

.y* y»2 'Y'O /y«-l 



ter-se-ha 



mx , nfx- . m^x^ . m'^x'* 



^1 ^ 1.2 ^ 1.2.3 ^1.2.3/t 



etc. 






220 REVISTA BRAZILEIRA. 

Se nas equacoes 



e =cos.x-\-w — \. Sen. X 

e =cos. x—y — I . 



Sen. X 



se tpmarem oslogarithmos do ambos os membros; vira 

« 
xw — 1 .loij. e =log.(cos. x +1/ — I . Sen. x J 

— xu — 1. log. e =/of/.[ Cos. x— 1/ — \. Sen. x j 

Subtrahindo a seguiida equagao da primeira ; ter-se-ha 

COS. X -{-1/ — 1 . Sen. x 

2:i;l/— 1. log.e= log. 



■log. 



OS, X — 1/ — 1 . Sen. x 

(\ + \/~^\. tg.x 
l_|/_.l. tg.x 



Pondo na formula conhecida 



1/ — 1 . tg. X em logar de {a) ; vira 



I 



ESTUDOS DE ANALYSE MATHEMATIGA. 22 1 

(11) x = ^—-^^ +^ -^4- etc. 

Esla equagao notavel (devirla a Gregory , compatriota e 
emulo de Newton) faz conbecer a grandeza de um arco (x) do 
circulo, cujo raio e a unidade , uma vez que seja dada a sua 
tangente , expressa no raio. 

Sendo tg. x = o , quando q x^^o ; ^ Ig. x = yj , quando 
en;==-^: segue-se, que a equagao (li) someide tera logar 

denlro dos limites do Quadrante. 

Toraando o arco de 45'^, cuja langente e igual ao raio do 
circulo, que supporemos sera unidade; a formula (11) dara 
seguinte resultado : 

1111 

(12) arco de 45"=- -^ +— — y + etc. 

1 

Semelhantemente , sendo sen. 30° = — ; ler-se-ha 

1 



tang. 30° = — . = . — : e por conseguinte 

(13) arco de 30« = -jj^ - ^ +53, -7^,+ etc. j 

As equates (12), ou(13), oJtereceni um meio obvio , e 
pratico, para delerininar com sumuia faciUdade, e com ap- 
proximayao iudclinida , a razao do raio para a semicirciim- 
fexencia do circulo ; sendo esla igual a 4 vezes o comprimento 
den arco de 45° , e (3 vezes o do arco de 30'^. 



222 REVISTA BRAZILEIRA. 

Lagny , servindo-se da equa^ao (13) , acliou o compriniento 
da semicircumferencia do circiilo , do raio igaal a unidade , 
representado [)elo niimero 

7T = 3.1 41 59, etc. 

levando a approxiinac-iio ate 127 casas decimaes. 

Sendo as circumferencias de doiis circulos differentes pro- 
porcionaes aos seus raios, on aos diainetros; o iinmero 
(tt) represeiitaia, em urn circulo qualquer, a razio constante 
da. semicircamfereii,cia para o raio, on da circamferrucia para 
diametro. 

Pondo , na formula conhecida, 

Log.(i-\-a) = log.el^~—~ +-|- — |-4-etc.j 

1 

— em logar de (a) ; vira 

Log. l+- = /o^. -^ = log.e^--^ 



f— 1 —2 —3 —4 

Log.(\-^a)—log.a=log.e\—^ -^+ ^ T "^ ^^^ 



Tirando esla equacao da primeira ; vIra 



i\ —1 2 —2 3 —3 

[a — a a — a , a — a 
Log. a =log. e \— — ■] etc. 



) 



ESTUDOS DE ANALYSE MATHEMATICA. 223 

Fazeudo nesta formula 



a=e ; ter-se-ha 

x^ — \ . loq. e=log. e\ — — 

• 7. 1 r; " —etc. 



Siibstitiiindo nesta eqiiacao as quantidades exponenciaes 
pelas funcgoes circulares equivalentes ; a saber 



x'^—X —xV — 1 



e — e = 2^— 1 . Sen. ^x; 



e — e = 31^1 . Sen. 'Sx ;etc. 



VI ra 



,,,^ X Sen.x Sen.^x , Sen. 3x Sen.kx , ^ 
(14) 2 = -i 2—+^ — + "''■ 



Esta elegante formula da a grandeza do arco [x], expressa 
em senos de arcos multiplos de [x]. 

Candido Baptista de Oliveira. 



ECOKOIIA POLITICA 



Da insts'iiecao considerada do poiito «le vista 

econoBuico. 

homem e uma forga produeliva , e ate a niais prodiictiva 
de todas as forgas , porque della e que diraanain e dependeni 
todas as outvas. 

Antes porem de ser educada , poiico vale essa forga , por- 
que no eslado priinitivo o espirito lunnano e como a mesnia 
terra, uma machina muito imperfeita. 

A sciencia e a sua arma otFensiva e defensiva contra a na- 
tureza, e occupa o primeiro logar entre os instrumentos pro- 
prios para se adquirir o bem-estar. 

Per niaior que seja o interesse que nos inspirem os pro- 
gresses agricolas , CO melhoramento das ragas animaes ; o 
aperfeicoainento do iionein o sobrcpuja, ainda mesmo do 
ponto de vista economico. 

Antes de apresentarmos alguinas reflexoes que nos pareceni 
uteis sobre os principios de uma materia, que longe esta ainda 
de se esgotar, convem lembrar um principio anterior, admit- 
tidopela mur parte dos cconomistas, e que nos servira de 
ponto do parlida ncstas investigacoes. 

No estado presente do mundo , cm que a distribuigao da 
riqueza nao offerece o espectaculo dessasdesigualdades mons- 
truosas, conservadas a custa e a forga de leis de privilegio , 
problema economico consisle principalmente no augmento 
da produccao. 



226 REVISTA BRAZILEIRA. 

Se cada urn dos membros de que se coinpoe a sociedade 
laboriosa nem sempre obtem pelo seu trabalho, e seus es- 
forgos, iiina retribuigao que chegiie para ter o bem-estar , e 
porque a prodiicgao total ainda e insufficienle. 

A razao ordena, portanto, quo se desenvolvam as for^as 
productivas , e em priineiro logar as do produclor. 

Como podera porein o produclor de&envolver-se, e adquirir 
forcassuperiores? 

Por meio da educacao c da nistrucgao. 

Pomos em prniieiro logar a educacao ; e ninguem o devera 
estranhar, porque, como muilo bem disse Charning : « a 
exaltaQao do talento acima da virtude e a maldig.ao do se- 
culo. » 

A educacao e a escola da vontade; e sobre ella que cumpre 
sobretudo actuar, porque ahl csla a origeni das resoluQoes 
humanas. 

grande lim da educagao e, a nosso ver , enslnar ao ho- 
mern a ser util a si proprio, a elevar-se , e a clevar-se sempre; 
quando oulros ficam estacionarios , ou principiam a decahir , 
e a viver sempre sob a vigilancia da cousciencia e da razao. 

A educacao, ao passo que modlfica e du'ige as alTeigoes e 
OS senlimentos , inspira ao boinem o espirito de reflexao e de 
prudencla : e e esla a sua grande obra. 

Ill ainda a educa(;ao que forma os habitos ; poder esle , de 
que se podedizer, como se diz da opinifio, que governa o 
mundo. 

Do ponlo de vista especial em que aqui nos collocamos, 
tem a educagao uma importancia immensa c decisiva; pi)r- 
quanto , ja ninguem conlesta, que os bons babitos moraes sac 
tao neccssarios as condi(;oes da vida cconomica, como o 
saber, a pericia, e o talento dos produclores, 

Impossivel fora compreliendcr-sc a exislcncia dc uma in- 
duslria poderosa, e mesmo do habilo da economia, que e o 
seu principal alimento, u'um povo, cujas fei^oes caracleris- 



ECONOMIA POLITICA. 227 

ticas fosseni o desprezo da probidatle e tla justiga; a frivoli- 
dade descuidosa c delei^^ada , e o amor da osientacao levado 
ao excessive ponto de umapaixao. 

E indispensavel que cada prodiiclor se compeiietre alta- 
meiite do seatimeuto do dever. 

Nao e isto mera declamacao ; e se piidossemos no Qm tlo 
anno fazer a conla do (empo que se dissipa, das faltas que se 
commettem, so porque a religiao do dever nao se achabem 
flrmada no coracao de cada nm dos agentes da produceao , fl- 
cariamos maravilhados do sou resiiltado. 

Emfim , nao e por sem duvida quasi no dia seguinte a re- 
volugoes sociaesqueja atteslavam profunda perlurbacao dos 
espiritos , antes de laucarem a desordeni nas Iransaccoeseco- 
nomicas, que ha nccessidadc do observar quanlo e chimerico 
esperar que liaja ordem'na sociedadc , no meio de tantos con- 
llictos, c de tant.as paixoes odiosas, se a educagao nao flzer 
penelrar e inlillrar na alma de todos alguma equidade, bene- 
volencia , e caridade reciproca. 

Cumpre tambeni que o homem, collocado em baixo na 
escala social , aprenda duas cousas de igual importaiicia para 
si : uma , e resignar-se aos males que se nlo podem evitar ; 
oulra, e lesislir aqueUes que se podem veneer. Deveremos 
dizel-o 1 Parcce-nos , porem, que aqui e que esta a origem de 
todo nosso mal. 

Com a mesma sem razao nos revoUamos todos , e nos re- 
signamos. A rcvolla coolra os males , que sao inlierentesa 
condigao bumana em geral , e a cada condigao em particular, 
so pCde Irazer decepcdes para quem a ella se entrega, e 
desordem para a sociedade ; por outra parte tambem a 
resignaglio nao deve ser levada ate esse abandono de si , que 
produz a dcgi-adacao de nossas melliores faculdades. 

Tudo (luanio na educagai puder contribuir para que o 
lioinem so envergonlje do estado da priuiitiva abjecgao , e 
quanto fur itroprio para iuspirar-llic a vontade fu'me de saliir 



228 RE VISTA BRAZILEIRA. 

clesse estado por meios licitos e hoiiestos , merece cei'taraente 
ser approvado pelo moralisla , que tern em vista a dignidade 
dos individiios, e recommendado pelo cconomista que se 
preoccupa do bem-eslar delles. 

Distingue-se a inslruccao da educacao ; e se bem que a ins- 
truccao bem comprehendida nao seja senao iima parte da 
educacao geral , que e a que diz respeilo e se dirige as facul- 
dades do espirito , todavia a distinccao que se faz destes dous 
aspectos de um mesmo e unico objecto , que c a cultura da 
natureza humana cm tt)das as suas paries , tern chegado ate a 
uma especie de opposicao. 

Assim e que a educacao moral nao carece do defesa ; mas 
nao se da o mesmo a respcito da instruccao propriamcnte dita. 
A instruccao auubi inspira muita desconfianca , e muitoses- 
piritos se preoccupam dos seus perigos, quer relativa'Tienle 
a humanidade em geral, quer em relaclo as classes operarias. 
Nao ha quern nao tenha lido o celebre Discurso de Rousseau 
sobre a influencia das sciencias , das letras o das artes , e 
sabem todos de quanlos males nao accusa elle a inslruccao. 
Quern nao dira quo nao e isso mais do que um paradoxo ? 
Entretanto talvez Rousseau nao Rzesse senao expri^nir uma 
opiniao muilo espalhada , o arraigada em muilo bons espi- 
ritos. 

Os que prelendem quo os crimes aiigmentam com a ins- 
lruccao, e em virtiide dos progresses que ella faz , raciocinam 
exactamente como esse espirito misanthropo , que tratam de 
sophisla, 

Os que sustcntaui que a humanidade se corrompe a medida 
que se vai instruindo; os que dizcin que os povos os mais 
civilisados sao os que estao mais proximos da decadencia: 
exprimem por venlura oulro pcnsamenlo, que o philosopho 
panegyrista da vida selvagem , a fiuem Voltaire, para o com- 
primentar dizia, qne lendo os seus escriplos , linha vonlade 
de pOr-se a andar de qualro pes? 



ECONOMIA POLITIGA. 229 

Em nossos dias , niiigiiem tern tal desejo , mas e cerlo que 
muitas pessoas nao deixam passar occasiao algiima de mos- 
trar que temem esse excesso de civilisapo e de luzes ; mal 
que ja nos ameaga , scgundo peiisam , se e que ja nao nos 
arrasta para o abysmo da decadencia. 

Sera poreni I'undado esse temor, e havera realmenlo de que 
nos inquietar? Nao, de ccrto; basta considerar que a igno- 
rancia e a rolina ainda dominaiii cm mnilos pontes e locali- • 
dades. A insiifficiencia de conhecimentos exaclos e precisos^ 
de habilidade prolissional , quasi por toda a parte ; as capa- 
cidades faUando [lara os logares , uiuilo mais do que faltain 
OS logares para as capacidades, ta! e a muitos respeitos, e nao 
obstante os successivos melboramentos que se tein reabsado 
de cincoenta annos para ca, o verdadeiro eslado da sociedade 
laboriosa. 

Estamos convencidos que nao se repetiria tanto que « ha 
homens de mais» , se houvesse mais homcns en estado de 
trabalbarem para si e suas familias;- capazes de arrancar a 
terra e a industria uina quantidade mainr de product isuteis , 
e de empregal-os com mais previdencia e habilidade. 

Se a fe , ua ordi^m moral, pixlo levantar montaniias, ne- 
nhuma duvida ha d(} que a capacidade industrial na produc- 
Qiio , e poder da economia , sao capazes de operar iguaes 
milagres, na ordem oconomica. 

Quando se Iraia de assumptos desta ordem, que cntendem 
com OS pontos mais fuiKlimentaes da iuoralidade , e as con- 
digues mais essenciaes da economia politica, como o livre 
arbitrio , a justiticacao das machinas, e dos processes novos e 
aperfeiQoados de producc-ao; o Irabalho livre, a innocuidade 
e OS beneficios da instrucgao , forcoso e ir a um.a queslao su- 
perior ; isto e, indagar se o mundo , como esta, e bem ou mal 
feilo ; se a grande lei que o rege e uma lei de harmonia, ou 
uma lei de contradiccao; ora, por isso que o mundo subsiste, 

dcvemos crer que a ordetn sobrepuja a desordem. Neste sim- 
K. B. III. m 



230 REVISTA BRAZILEIBA. 

pies enunciado ja se acha iimaJListilicacao da instriiccao, o 
coQio que lima induccao certa de que, cxistindo ella na or- 
dem , e em si iim bem e nao um mal. E, na verdade , a exis- 
tencia de necessidades imperiosas , que o liomem nao pode 
deixar do satisfazer, sob pena de perecer, suppoe a idea de 
faculdades aptas para descobrir os meios, scm os quaes a sa- 
tisfacao dessas necessidades seria impossivel. 

Aqui esta, portanto, rcconliecida a neccssidade da inslruc- 
Cao. Essas necessidades podem , com se sabe , lomar grande 
desenvolvimento ; d'onde resulla tambem a existencia de fa- 
culdades perfectiveis , sem as quaes soffreria o liomem o sup- 
plicio de iiira impotencia absolula, de uma conlradiccao, nao 
parcial , mas radical e complela enlre assuas necessidades e 
OS meios de satisfazel-as. 

E isto uma supposicao , que repugna a razao , e que e con- 
traria a experiencia. E a supposicao que condemna o homem 
a cultivar suas faculdades, e a sa encontrar a desgra^a como 
unico resultado dessa cuUura , sera por ventura menos ab- 
surda? 

Sem duvida , o privilegio do saber pode Irazer comsigo 
novos soffrimentos e iiovos perigos; ninguem o contesla; e 
OS mais sabios tem muitas vezes occasiao de reconhecercm , 
com aiuarga e pungenle dor , quanto sao eslrcitos os limites 
da sciencia bumana. 

A vaga percepcao dessc mundo desconbecido , que recua 
sem cessar , arrancou ao illustre pbilosopbo Rover Collard 
essa espccie de grito intimo,ou dolorosa confissao , que a 
sciencia bumana nao faz mais do que « desviar a ignorancia 
dasua maislonginqua e elevada origem » , expressao bolla 
e verdadeira , e que explica o que levamos dito sobre os solTri- 
mentos inherentes ao privilegio de saber c de pensar. 

mysterio por loda a parte nos cerca c nos csmaga : dabi 
vem para a reflexaoas incerlezas cbeias de anguslias; dabi 
nasce a inquictacao dos syslemas , os ensaios c lenialivas de 



ECONOMIA POLITICA. 231 

solugao (le loda a especie, e que o espirito liumano considera 
poralgum tempo como definitiva, e de que depois se abor- 
rece.; semelhaiite ao doente , que se revolve no leito , e que 
acaba por achar insupporlaveis todas as posiQoes que procura 
para alliviar seus males. 

Tudo isto , repelimos , e exacto e muito exaclo , e por outra 
parte tambe;n e infelizmeiite verdade que toda a forga nova, 
que se adquire, inspira a tenUierio de abusar-se della. Ora , o 
quee a instruccao senao urn poder, irna forga ? E natural, 
pois, murmente em epocasde perlurbagao moral , que se faga 
man uso desse inslrumenlo , se a educagao nao o vier im- 
pedir. 

Nao e, porem , isso, razao snfficiente para condemnal-o e 
proscrevel-o, o que seria tao pouco sensato como proscrever 
vapor por causa dos accidentes e desastres das estradas de 
ferro, ou as machinas por causa das crises do trabalho. 

Em ultima analyse , a humanidade deve colher beneficios 
e vantagens da cultura de suas faculdades, que constitue para 
ella, segundo o piano da Providencia , uma necessidade, e ao 
mesmo tempo um dever ; ou enlao, deve-se recoidiecer que 
nao e uma lei de barmonia, senna a mais absurda contradic- 
cao, c a mais incomprebcnsivel loucura , que governam o 
mundo. Nao sera, porem, ja muito baslante, que a contra- 
dicc-ao e o mal tenbam no mundo um grande, triste e eterno 
iogar, para que ainda vamos tornal-os soberanos e omni- 
potentes? 

Talvez incorramos na censura de insistirmos de mais sobre 
verdades tao coubecidas , que ncm precisam exprimir-se. 

Seria, porem, isso, uma injusliga; e a prova esta no poder 
da opiniao pouco favoravcl a inslrucgao popular. Nao nos illu- 
damos : uada nestos tempos deixa de sofTrer contestagao ; 
assiin e que uma idea, que, simplesmcnle enunciada, pare- 
ceria ale trivial ; por excmplo , a utilidade da instrucgao , le- 
vanta iiiontoes de objeccoes e de duvidas, logo que se trata 



232 REMSTA BRAZILEIRA. 

de pur em piatica o aphorismo, ao qiial lodos se inclinam ; e 
em vez do accordo tao nnanime, que cbegava a ser monotono, 
apparecem os mais violentos dissentiitientos, e o povo acaba 
por nao saber em que ba de crer. 

A Economia Politica nos ministra , a cada momento, a de- 
monstracao desse estado , por assnn dizer, fluctuaiUe e con- 
Iradiclorio da opiniao; qiier soja porqnc o publico nao saiba 
que pensar do lal on tal pnncipio , quer seja porque , ad- 
mittindo pnncipio, raciocina, coino so o ignorasse on ne- 
gasse. 

queacabainos do dizer d;i instriiccao poderemos appbcar 
a idea mais geral da civilisacao , cujo desenvolvimento cons- 
tllae, em uUima analyse, n principal objecto da Economia 
Politica. 

Se, como julgamos, a moralidadi' e a riqueza nfio sao dous 
lermos de uma antilbesc ; se eslas duas ideas , pelo contrario, 
t(5m entre si numerosas e estreifas relacoes, difficil e deixar 
de admiltir, qneafpielles quo accusam a civilisacao de cor- 
romper a biunanidrule, cabeui u'uma grando confusao de 
ideas. 

Examinemos mais um pouco estc ponlo. 

que e que se qiier dizer, quando se emitle a opiniao tao 
geralmente aceita, que o h()in(M)i corrompe-se pela civili- 
sagao ? 

Nao bavera nislu alguma prevencao, algnm /r/o/o (como 
dizia Bacon) , ([ne preoccupa o espirito ? 

Nao se amesqiiinbara a uocao de civilisarFu) . leduzindo-a 
arbitrariamenle ao luxo , aos prazeres materiaes , as artes e 
as luzes, que se concentram em certas classes, e se confnndem 
muitas vezes com a immoralidade e o sophisma? 

Sera por venlura bem comprchender a civilisaQao dclinil-a 
porumunico, ou so por um cerlo numcro dosseus altribulos, 
ou pelos abusos que dcUa se podo fazer ? 

Emquanto a nos , parece-nos que a civilisacao e a cultura, 



ECONOMIA POLITICA. 233 

por assim dizer, do iiomem lodo, oiitalvez com mais proprie- 
dade , de toda a hiimanidade ,- em todas as faculdades de cada 
individuo , como em todos os individuos que a compoem. 

A verdadeira civilisaQao iiao 6 i>ai"cial,'nem oligarchica; 
nao exclue nenluitii dos aspectos da natureza luimana, e en- 
cerra em si a moralidade, assim como comprehende a ins- 
triicgHo. 

Uma civilisacao immoral nao e portaiilo iima civilisagao 
excessiva, mas siu) iiicompieta. 

Uma civilisacao , que sc funda e basea iia InjustiQa , e na 
desigualdade abasiva , nao e senao uma mislura de civilisa- 
cao e de barbaria. 

Um povo, verdadeira c completamenle civilisado , nao e 
aquelle em que as artes estao corrompidas , as ideas sopbis- 
madas, e em que ha abuso de gozos e prazeres sensuaes; um 
tal povo so e meio civilisado , quando muilo ; um povo, ver- 
dadeira e complelamente civilisado , e,ou, antes, seria um 
povo moral, instruido, religioso, sein supersticoes vaas; phi- 
losopho .. sem gosto para os paradoxos : apaixonado das artes, 
sem niaterialismo; que po^suisse vastoseimmensos recursos, 
sabendo nsar delles com prndeocia e criterio; c que, alem 
de ludo isto, gozassede iimn iiberdadeassazextensa, no meio 
da ordem regular. 

Quando um destes elementos falUa, ja nao existe a imageni 
perfeita da civilisacao; c cntao, ou so reina na superficie, 
ou apparecem lacunas e mnnchas deploraveis. 

Tal foi a civilisacao das sociedades antigas. 

A idea , que siqtpoe a civilisacao, tomada na sua mais larga 
accep(jao , e dcfinida como a mais elevada cultura possivel 
do complexo de todas as nossas faculdades , exclue ate o pen- 
samento de excesso, 

Por sem duvida . |)6de-se lor sciencia de mais , artes de 
mais, prazeres em excesso, mas nunca civilisacao de mais. 

que se cliama excesso de civilisacao , com a mesma sem- 



234 REVISTA BRAZILEIRA. 

razao com que em Economia Polilica se diz, que ha excesso 
de producc->o , nao 6 senao imia falta de equilibrio. 

que e verdade e que a producgao geral e lolal iiunca 
pode ser excessiva,"poniuc a humanidade nao pode nunca ter 
de mais, e em excesso, cousas ou objeclos, que sao uteis e 
necessariosa vida; e nunca tambem, mesmo nos paizes os 
mais ricos, chegou a produccao a esse ponto de abundancia ; 
d'onde sc concbie, que a palavra excesso dever-se-hiasub- 
stituir a palavra insurficieiicia, que e niuito maisjusla e apro- 
priada. 

Porlanto , o que o homein deve fazer e conquistar, para a 
civilisa(;ao , a porcao ainda mui consideravcl de barbaria, que 
exisle em nossas sociedades ; e nao , e de modo algum pos- 
suir-se de urn terror pueril e vao , pelo excessivo desenvolvi- 
mento da civilisag'o. 

Seha, na verdade, alguma cousa evidenle no mundo, e 
isto que acabamos de dizer. 

Bastam , nos parece , as observacoes que precedem , para 
repellir essa espccie de exceprao percmploiia , que sc oppoe 
aos que ainda se animam afallar da nccessidade de derramar 
a inslruccao , como se fossem inlelligencias temerarias, eiva- 
das dos mais arriscaios c perigosos paradoxos. 



II. 



Quaes sao as condicoes mais essenciaes, que a instruccao 
deve salisfazer, para iornar-se uma causa e origc :ti do bem- 
"eslar e prosperidadc ? 

Quaes sao as razoes que reclamam a inlervengao da ins- 
truccama inihislria , ou anlcs no conqjlexo dos Irabalbos, 
que tern por Inn ompregar a nualeria para o scrvigo e salis- 
fagTiO das necessidades do bomem , i»nr meio da producgao 
direcla e da permula'? 



KCOMOMIA POLITICA, 235 

Toda a instrucgao deve, tanlo no interesse da riqueza, como 
de todo outro qualquer ponto de vista , satisfazer a uma con- 
digao dupla: ser ao mesmo tempo geral e especial. 

que e instrucgao geral? E primeiramente a que confere 
certos instrumentos indispensaveis a todos, como ler, escre- 
ver e contar ; em segundo logar, e a que se propoe fazer do 
espirito o excellente inslrumento, que se destina a investigar 
e a descobrir a verdade , e que para isso deve aprender a ob- 
servar com exaclidao , a reflectir com madareza, e a concluir 
comjusteza, qualquer que seja o objecto a que se applique. 

A instruc(^ao geral comprebende o complexo das faculdades 
intellecluaes; nao cultiva nenhuma dellas cxclusivameiite , e 
trata a intelligencia como uma forca superior e preexistente. 

Quaes sao os meios mais seguros para dar a esta gymnas- 
lica intellectual toda a forga e todo o poder de que e capaz? 
E evidenle que, quaesquer que sejam, nao podem ser iden- 
ticamente os mesmos em todos os graus de instrucgao. 

P6de-se discutir se o melbor instrumento de uma tal cultura 
e , quanlo a instrucgao secundaria, o estudo profundo das lin- 
goas mortas , ou immortacs da anliguidade , tao ferteis em 
obras primas ; p6de-se mesmo indagar se nada poderia sub- 
stituir trabalbo da traduccao , que fazendo penetrar no es- 
pirito um certo numero de ideas geraes, e de sentimentos 
elevados pertencentes a todos os tempos, obriga a intelligencia 
a lutar com as mais delicadas e imperceptiveis rnodificaQoes e 
gradagoes do pensamento c da expressao ; p6de-se tarabem 
indagar se esta ordcm de estudos e que mais convem a maioria 
das intclligcncias, mesmo nas classes mais abastadas da so- 
ciedade; tudo isto e uma qucstao de applicacao , do que nao 
nos devemos occupar a([ui , c cuja solucao nao entcnde com 
as classes populares, que nao aprendem o grego nem o latim. 

Limitar-nos-hemos apenas a sustentar , que a instrucgao 
g(M-al correspondc a uma nccessidadc commum a todas as 
classes ; ponjue, prescindindo-se da diversidade de vocagoes, 



?36 REVISTA BRAZILEIRA. 

e de carreiras , que so mais tarde delermina a escolha dos in- 
dividnos, e que cxigem cntao estiidos especiaes, ha umn 
jrrande e preciosa unidade aeoi)servar-se,a aiigincntar mesmo, 
SB f6i' possivel, eiilrc todns os ineudjros que com poem a grande 
familia. nacional , social ou liumana. 

Tudos sao coparlicipanles da nalureza liumaiia; e e jusla- 
inenle essa naturoza liumana tpie se devc desenvolver, tanto 
nas ideas . como tios simlimcnlos que constituem a sua digni- 
dade e a sua iiohreza , e (fue Ihes pei'iuiUo senlirem-seiden- 
licos de um a outro liiuile do inundo , reialivamenle a certas 
ideas essenciae?. Sem essa iustruccao geral , ter-se-ha o es- 
pectaculo da diversidade de ideas, de linguagem , de liabitos 
ede costumes, que iiianifesta anatureza liumana, tao fertil 
em conlradiccoes. 

Asociabilidade exige, pois, o dosenvolvijnenlo, por ineio 
da inslrucc'io c da educac^ao , dessa unidade sem a qua! nao 
havera senao individuos i olados , e nao liomens ligados por 
communliao de crencas, e por sym[)athia de opinioes e de ma- 
neiras dc sentir. 

Em cadaepoca ha como que um patrimonio intellectual e 
moral , que constitue o cabedal ou o fund ) commuin da civili- 
sacao: eejustamen^c deste cabedal que devein todos com- 
partilhar, e que podein repartir entre si, sem empobrecer 
ninguem, e pelo contrario enriquecendo a todos; e ainda 
este mesmo patrimonio, (jue devem tomar como ponio de par- 
lida dos progressosuUeriores, que semprc ficam para rcalisar. 

Nao sera iima vergonlia, e ainda mais um flagello e um 
perigo para a civilisacao do secuio 19 , (|ue haja homens para 
OS quaes a moral chrislaa como que nao cxisle , e por quern 
passaram dezoilo seciilosde civilisa(;.ao moderna, sem deixar 
menorvesligio n'ahna'? 

Nno sera uma vi-rgonlia e um tlagello . (pic com esses pagaos 
da civilisacao moderna, que podiam ter nascido entre a plobe 
do tempo de Aiigusto e de Tib^rio, viva uma porclo de ho- 



ECONOMIA POLITICA. 237 

mens, que ainda esltio na media idade com as suas grosseiras 
supers! icoes , para quem os seculos 17 e IS, e o grande movi- 
meiito dc 1789 sao como se nunca tivessem exisfido ? 

Nao sera por veritura u:;i dever para (odos iios o Irabalhai', 
para que iVao liaja maisliomens complctamente desherdados 
desse patrimonio commiim , dessa heraiica moral dos seculos, 
que forma , porassim dizer, a alma da humaiiidade? 

A essa grande necessidade da instruccao gei'al corresponde 
quasi por toda a parte a inslruccao litteraria. Sem duvida 
alguma, as lelras deveui entrar eiii grande parte na satis- 
facao dessa necessidade , sobretudo a proporeJio que se eleva 
grau de instruccao. Mas as letras e as sciencias , que se en- 
sinam conjunctamente, ou a parte, baslarao para a instrucQao 
do pro due tor ? 

Antes deserinstrumenlo animado, o intermediario iutelli' 
gente que preenclie e executa uui fim particular e o productor 
membro da grande sociedade laboriosa. 

E nao sera, pois, uma necessidade , o reservar um logar na 
sua instruccao, para o ensino moral, e para c;.'rt:is nogoes de 
economia politica e social 1 

Parece diilicil que um liomeuj, que nao conhece os sens 
deveres, nem tern idea exactados sens dircitos, nao se torne, 
niurmentc nestes lempos, no meio de tantas excitagoes e ten- 
lagoes, que por toda a parte o cercam, um instrumenlo de 
urn partido ou de um poder, ou um descontente em perpetua 
conspira(;ao contra a ordam social. 

5;sta ignorancia da moral social nunca produzio senao a 
mais profunda degradacno , ou o mais louco espirito de re- 
volla, e muilas vezesuma e oulra cousa ao mesmo tempo. E 
que dircmos nus desses fei"Ozes preconceitos , dessas anti- 
pathias furiosas contra os estrangeiros , senlimenlos em que 
tern origem ocego e fatal esi^irilo guerreiro? A moral, na sua 
parte social , a que trata de nossas relagoes com os nossos se- 
inelhantes, c a unica que pode fazer penetrar nos espiritos 



238 REVISTA BRAZILEIRA. , 

luzes c conliccimenlos, que intcressam, tanlo a saiide e ao 
vigor da alma, como a razao publica c a formaclio das riqiiczas. 
Nfio esquccanios tainbem que a moral lern por missao, nao 
30 inslruir o homem dos sens devercs para com a socicdade , 
mas tambeiii dos sous deveres para comsigo proprio e para 
com Dens. 

E aqui nao se pode doixar de observar , que a boa ou ma 
direccao, que se der ao ensiiio moral , deve infliiir podorosa- 
mente na i)roducc.ao , c ([ue a sua complcla ausencia deve dar 
logar a funestissimos erros ; assim e que as cscolas rnracs e 
primarias, eslabelceidas ba cerca de oi tenia annos no norlc 
da Alleiuanba, e em cpoca anterior na Escossia presbyteriana, 
produziram optimos e admiraveis resultados. Nao se lem po- 
rem insistido n'nma clrcumstancia imporlante , e vem a ser 
que esses esfabelccimentos escolarcs linbam um Urn essen- 
cialmente moral e religioso ; era na Biblia que se ensinava a 
ler aos fillios dos operarios e dos camponezes; e os outros 
livros, que depois se llies davam para ler, eram meditagocs 
moraes, retlexoes sobrc as maravilbas da nalureza , bistorias 
verdadeiramenle patriolicas, c narragao de accrues proprias 
para bonrarem a natureza bumaua, as quaes se accrcsccn- 
tavam noroes sobre as sclencias e as artes. 

A instrucgao primaria , dada neslas condicoes , fortilica as 
inclinagoes boas c bonestas; reprime as mas lendencias ; con- 
serva o espirilo de famiba, o amor da patria e os bons cos- 
tumes. 

Ouiro lanto diremos dos principios elemcnlares do cco- 
nomia politica e social, (que se cnsinam quasi por loda a parte, 
excepto em Franga) (1) cuja ignoranciae, por assiui dizcr, o 

(1) Scria loucura o prcteuder-sc que n;is escoliis priniurias do Diazil , incsmo 
nas da capilal do Fmporio, se cnsinasscm os principios clcmoiilarcs, on riirti- 
moDlos (la Eionomia Politica, fpio nao sc a|)r('n(lctn ncin nos t'stabrUMimcntos 
de niais cIcNaila inslrticriio. 

Despindo-sc por(5m os principios cconomicos das suas formas c vesles scienti- 



ECONOMIA POLITICA. 239 

passaporte do erro, c constilae iima lacuna na inslruc^rio 
geral, com que quizcramos cnriquecsr e ornar o espirilo de 
lodos OS pi'odiiclores , quer grandcs , qner pcquenos. 

Aleiii do grande provoilo ([lie com isso teriam suas facul- 
dades, liabituaudo-se a combiaar as ideas, e areflectir nos 
pheuomenos e nas relagoeo que os lij^'am, ol)leriam, com os co- 
nhecimenl.os posilivos quo daa EconoiniaPolllica, meios para 
triumphar de uma niva causa de pertui'bagao e de desgraga. 

Com effcito, supponliamos que esse tal ou qual coidieci- 
mento da ccouomia social iiao exisle cm ucnhum dos graus 
ecamadas da popalac'io : vejamos o quo acoutccc. Um povo 
inlciro, que ignora as leis naturaes que rogem o trabalbo e as 
riquezas, o n~io sabe inesmo que taes leis cxislem, fara 
depeuder a sua salvacao c sua felicidade das revoluQoes cm- 
prelicndidas em nome das mais chimericas ideas de renovagao 
social. Hoje , applaudira cllo um chadatao ou um louco, que 
pretenda enriquecel-o com um montao de papeluchos, a que 
sechama mocdD. Amanbaa, invocara prohihigoes contra os 
produclos eslrangeiros, embora venlia a pagar luilo mais caro, 
e corra o risco de nao ler os objectos mais indispensaveis a 
vida (I). Aqui, queimaranas pragas publicas as macliinas que 



ficas, ficani apeiias pheuomenos sociaes , factos da vida quolidiana , que eslao 
ao alcance de todas as inielligeiicias, ainda as mais teuras , c qiiepoderiam ser 
assumpto c objecio do leiliiras faceis, agradaveis e iiislriictivas. 

Os coiilos sobre a Ixonomia Polilica de Miss Martineau , e os Manuaes de 
moral e de economia politica , piiblicados por occasiao do coiicurso aberto pelo 
Iiistitiito de KraiK/a , nao sao de mais dilTicil compreliensao que as hislorias de 
Simao de Nanlua , e os 'rratados de liistoria universal , que andam por abi nas 
maos dos nioninos, e que so servem para falsear-llics e conomper-Uies o espidto. 

A traduc(;ao e vulgarisarao do manual que oblevc o premio do Tnstituto de 
Kran(;a seria a nosso vcr um seiviro de grande alcance que se preslaria ao 
paiz. M. 0. F. 

(1) Nao esia a h'ran(;a a csle icsj)eilo mais adiantada que o Brazil, e, para 
console nosso , lalvez devessenios dizer que estit mais atrasada. 
Causa realmentc do o que se diz e o que se escreye enlre nos ciceica de ques- 



2-40 RE\1STA BRAZILEIRA. 

Ihe i.im Oar urn novo proiUicto iiiais bavalo , c obrigar o em- 
presario de imkislria a eiipregar dez vezes snais operarios que 
d'antes. Acola, niaUralaraos atravessadores; islo e, os nego- 
cianles de cereaes, que cspalhatido a mercadaria por iimasu- 
perficie extensa, nivelam por loda a parte os prccos, e ini- 
pedem os horrores da foine de se manifestarcm perto de uma 
eolheila suiierabundaiile, (juc leriaarruinado o lavrador i)ela 
baixa excessiva dos preros. Outras vezes reclainara as leis do 
maximum, ou, convencido da bostilidade radical entre o Ira- 
balbo e o capita! , exigira o aiigrncnto dos salaries por ineio 
da inter\ encao abusiva da forra on da lei ; tornar-se-ha adepto 
dos systemas de orgauisacao do trabalho, de que seria ellc a 
primeira victima: exigira a taxa dos pobresquc pesaria uiii- 
cainenle sobre o operario laborioso ; em uma palavra , com 
lodo tervor e leiiacidade da ignorancia presumpcosa , en- 
tregue as suas proprias illusoes, e abandonada como uma 
preza aos fazedor.es de experiencias sociaes in anima vili, em- 
pregaraesse povo, baldo de principios elemcntares de eco- 
nomia pobtica, todosos seus esfoicos e recursos para fazor 
mal a si nroprio , e desmoronar o edilicio do bem-eslar que 
com tanta dil'ticuldade e sacrilicios priucipiava a levantar se. 

Dissemos que a segiuida condicao da instrucgao era a de 
ser especial ; e e sem duvida por meio da ditfusao da instruc- 
cao especial que as riquezas podem chegar ao mais alto gniu 
de desenvolvimento. 

E aqui que se eucoidra a maior ditliculdade , e principal 
causa de divisao entre os cspiritos; porqne nlo so e pouco 
facil darconjuncta ou successivamentc duas ordens ou es- 



tocs em que a sciencia economica tcin chpgndo no ultimo gn'm de posilivismo f 
evidcncia. 

Ouira prova nao piccisainos apiescniar, al^m dessa pioluugada abcnaqao da 
opiniao publica , na q:p'slao bancaria, que foi levada ao pailamcnlo na sessao 
do anno passado. U. 0. F. 



EGONOMIA POLITICA. 24i 

pecics de ensino, que exigem muito leiiipo, e que sao suscep- 
tiveis (le formas egraus mui divci'sos, scgundo as classes da 
sociedade a que se deslinam ; mas e que, aleai disso , quasi 
que negam alguiis a utilidade da instruccao especial , ou su- 
hordinam-na a iik4rnci,'ao geral ; ao passo que outros parecem 
crer que o ensino especial nunca occupa demasiado logar , e 
deve principiar o mais cedo possivel. Neste syslema principia 
nienino por aprender um officio , e depois e que vem a ins- 
truccao geral, como for possivel ; julgando sem duvida, que 
so ensino de uma prolissao poe em movimento baslantes 
ideas e facfos, e exercita baslantes faculdades , para que a 
educacao geral da inlelligencia seja dada, [lor assim dizer, 
como accrescimo. 

Este erro, a nosso ver, deve ser forlemente combatido ; 
porquanto o conhecimenlo dos processos e das operagoes 
de um oiticio , ainda que seja complicado , ou de uma pro- 
lissao, ainda ({ue se supponha elevada, nao da ao espirilo 
ideas geraes, nem sentimenlos moraes, nem mesmo a facul- 
dade de adquiril-os. 

A instruccao especial produz na ordeui intellectual os mes- 
mos elfeitos , que o exercicio exclusivo de um so dos nossos 
membros na ordem physica ; hypertrophia , por assim dizer , 
a faculdade que se exerce so, em delrimento da substancia 
das onlras, como faz a dansa para as pernas do dansarino de 
prolissao, e em outrasprofissoes o habilo de exercer constante- 
menle os bracos : liaja vista o que na esphera das ideas mo- 
raes esociaes [em ate aqui produzido a instruccao exclusiva- 
Mienle mathcmatica e scienlitica. 

Honiens hahituados a Irabalharsobre quanlidades abstrac- 
tas, sobre numeros inseusiveis, sobre toda a casta de objectos 
(juc se deixain classitlcar e manipular, sem op^xjrem a menor 
resislencia, quaiido Ihes vein a velleidade de se occuparem 
lambem com o coracao bumano e com a sociedade , nao e de 
certo para estudal-os em sens variados pbonomeuos , tendo 



242 REVISTA BRAZILEIRA. 

em vista essa muUidao de moiliricaQocsdelicadas, que os com- 
plicain , e essas iiifluencias e resistencias occullas, qiienem 
sempre e dado dominar nem mesmo prevor, mas e unica- 
mente com o fim de transtornar e refazer tiido de novo e 
vasar iViim molde ideal. Esses espiritos positwos que , se- 
gundose diz, habituam-se a precisao e justeza estiidando a 
geometria, sao jiista nentc os que se tern mostrado os mais 
chimericos e temerarios utopisias do nosso tempo. 

Assim e que Fouriei' e sens principacs discipulos, ora se 
deixam sediizire embriagar pelo especlaculo de uma hnrmonia 
imaginavia, sobrc o qual modelam a bumaiiidade conforme 
ao typo da astronomia , e ora censiiram e criticam a iiossa 
civilisacao com azediime e violencia. 

Foi tambem do seio dasinalhcmaticas exclasivas que sur- 
giram outros visionari )S, que felizmente no mcio das nossas 
ultimas revoUicoes, limitaram-se a representar o papel de Ar- 
chimedes distrahido, IraQando na area suas impMlurbaveis 
figuras de geometria applicadas a sociedade, quando tiido a 
roda delles estava a ferro e a sangue, esquecidos de que, se 
a sociedade e uma especie de cobiiea, e todavia u;na cohuea 
que se quebra em mil pcda^os, desde que a querem fazer 
muito regular de mais , e que as abelhas nao fabricam mel 
senao trabalhando a sua moda, e divagando pelos ares, como 
Ibes pede a pbantasia. 

Sem embargo, pois, dasdifficuldadesdo problema, e mistiT 
que se trate de conciliar a instriicQao geral com a instruc(;ao 
especial. 

Sem querermos entrar aqui na discussao dos mcios mais 
proprios para operar esta conciliarrm necessaria, diremos 
sempre, de enconiro a opiniao (pie parece [)revalecer, rpie 
estas duas especics de cnsino devem ser separadas. 

Fara as classes populares, a inslrnccao primaria corres- 
ponde a instrnccao geral ; mas a cscola nao se devc confmulir 
com apreudizado di'. um olficio: para cada cousa sen tempo, 



ECONOMIA POLITIGA. 243 

e para cada genero de estiido e de cnsino , suas escolas e me- 
thodos especiacs. 

Desconfiemos desses programmas , que fazern milagres e 
maravilhas no papel , dando aos pais incxperientes a idea 
falsa de quo sens lillios Ikio de saliir dos bancos dos collegios 
doutores em lodas as sciencias ; o que daria como idtimo 
resiiUado a perUirbaglo completa do espirilo liiiniano desde a 
mais tenra idade, se felizmente njo fosse o perigo altenuado 
em parte pola impossibilidade da execucao. 

Vitii breiris, ar.s longa; devcria este axioma estar scmpre 
prcscnte a lembranga desses fornecedores de inslrucQao rc- 
pentina e universal, que qucrem ensinar tudo a lodos, e que 
parecem parlir de uma deslas duas supposicoes igualmente 
inexactas : ou que seus alumnos levam vinle annos a estudar, 
ou que cada sciencia se pode ensinar cm uma ou duas semanas. 



III. 



A instrucclio especial, como so acha organ isada, tambem 
nos parece insurficientc; e quando mnilo exisle ella apenas 
para algumas profissoes em Fran(;a('l). 



(1) Oulro laiito podemos nos dizer a rcsp;!ilo do Brazil. 

Essa n(?cessi(lade de insiruccao especial c piofissional e satisfeita entre nos 
com ensiiio das escolas de niedicina , de diieilo e mililar , de niarinlia , 
de algiins seniiiiarios episcopaes , c da acidemia das hcllas-ailes. 

Serao poiem cssas as imicas vocacoes dos iiidividiios de que se compoe a nossa 
sociedade ? 

O Instituto Commercial , cxpressao de uni pensanieulo generoso e inlelligeiile, 
nao pi-eenche infelizinenle os lins da sua creaeao ; basla, porem , reformal-o, 
para que se lornc ainda uma iuslituica > ulil, e altamcntc proveitosa para o paiz. 

A agricullnra e a indiislria nao lem orgao aiguni no ensiuo piddico ; dir- 
se-hia que nao sao fontes de ri(iueza , e que nao prccisam de insiruccao para o 
si'u descnvolvimento e aperl'eicoamento. 

i\ao qucrcmos, porem, que o nosso paiz principiopor onde outros acabam ; nao 
queremos acadeinias de indiislria e dc agricullura, nem eslabelecimentos orga- 



244 REVISTA BRAZILEIRA. 

As escolas de rninas, e de pontes e calgadas; a escola flo- 
restal , e a vcterinaria de Alfort; a escola de marinha , a nii- 
litarde Saint Gyr, e algumas oiitras do mrsmo genero, sao 
verdadeiras escolas profissionaes. 

ensino industrial conla inui poucas escolas; apenasexis- 
lern algumas, isoladas umas das outras, c que ncnliuma in- 
duencia exerccm na vida qaatidiaiia das popiilacoC';. 

Tambem temos em Lyao a escola de LamarlinitMe, que cor- 
responde a instriicgTio profissional. 

Em Pariz ha alguns oiitros eslal)elecimentos , que est'io por 
assim dizer nosultimoslimiles da instrucQao geral e da ins- 



nisados como os que ti^in os paizos imiilo mais adiantados do que o Brazil ; que 
remos, e desojanios ardetuemeiile, que se faca alguma cousa adaptada o accom- 
modada as nossas circumslancias. 

Emquanto nao pudcrmos , e iiao dcvcrmos ter Inslitntos asionoinicoscomo o 
de Versailles . e mesiiio escol.is cfimo as dc Orignnn, tenliamoi ostabeicciiiicnios 
onde pralicamente sc cnsinoni os piocessos da lavouia , o or.dc vac aprendcr os 
fdhos dos nossos lavradores, como sc faziia Inglalona : os losultados serao mais 
cerlos e mais pioinplos. 

Emquanto as nossas ciiciimstancias nao peimillom a crearao de urn oslabelcoi- 
menlo como a Escola Central de Pariz , lenhamos aliijmiia cousa que se appro- 
xime mais As — Mechanic's inslilnlions — da Inglaiena , ou a escola de Lainar- 
liniere de Lyao, que lao bons resnlados lorn coiislanlemcnie prorluzi.lo. 

I'rincipiemos por cousa ainda mais simples , e ctijos resnIladjS serao, qnanto 
a nos , ainda mais iiifalliveis. 

Principiemos pela crearao c vuigarisacao de escolas de desi'nlio , aiiitla mcsnio 
linear ; nada ha que mellior I'orme e rectiliqiie o esi)irilo e o prepare, para os 
iraballios induslriaes. A siiperioridade iiiconleslavel que mostrou a Franca na 
grande Exposiciio Universal de Londres (• allribuida por Dupiii A vulgarlsacao 
do descnlio linear . cujo ensino sc deve sobreludo a.) governo da nionarcliia de 
Luiz I'elippe. 

A necessidade d) ensino do desenlio e Ho sent id t pela popuiaQao do Ilio de 
Janeiro, que ja nma assjciarao parlicidar lem empreliendido salisfazCl-a. 

A Sociedade Propagadora dns Hellas- Artes creon um Lyoeo de artes e oilicios. 
em que o conliecimenio do desenho e farullailo a todas as pessoas que o desejaui. 

Folgamos ler nma occasiao dc palenlear os servii;os que a induslria do paiz 
presla essa mil e patriotica associacao. 

»/. 0. F. 



ECONOMIA POLITICA. 245 

trucgao especial , e que satisfazem as necessidades indus- 
triaes e commerciaes da classe media , e da porgao mais ele- 
vada das classes operarias ; esses estabelecimentos, porem , 
nao sao numerosos, nem sufficientes para um paiz como a 
Franca. 

Devemos aqui distinguir daas cousas , que ordinariamente 
se confundem ; a saber : o ensino industrial, que tern por fim 
preparar productores, antes da escolha de um officio, e o en- 
sino proflssional, propriamenledilo; estas duas especies de 
ensino tem relagoes intimas entre si , mas nao se devem con- 
fundir. 

As escolas de artes e officios , estabelecidas em Chalons , 
em Aix, e em Angers, dependem do governo , e tem um ca- 
racter mais proflssional que o alto ensino industrial do Gon- 
servatorio das artes e officios de Pariz , em que predomina a 
theoria. 

As escolas de artes e officios tem por fim formar operarios 
habeis; cada umadellas divide-se em quatro officinas, que 
sao : forja , fundigao , marcenaria e apparelhos ; e offerecem 
um nivel de ensino , que pode servir para termo de compara- 
Qao e modelo. 

Esta qualidade a nenhum outro estabelecimento compete 
melhor do que a escola central de artes e manufacturas , que 
tem por fim formar engenheiros civis, directores de officinas, 
chefes de fabricas e manufacturas, e que comprehende quatro 
especialidades, que correspondem a quasi todos os ramos do 
trabalho industrial ; a saber : artes mecanicas, artes chimicas, 
metallurgia e construcc-ao de edificios. 

Em algumas grandes cidades industriaes ha outras escolas 
locaes destinadas para estudos intciramente especiaes , como 
dcsenho para estofos, a tecelagem, a lithographia, etc., etc. 

Nao obstante tudo isto , o ensino industrial ainda nao e em 
Franca o que exigem as necessidades da epoca, e o interesse 
das classes operarias. 

R. B. III. 17 



246 EEVISTA BRAZILEIRA. 

E nao se pense que esta censura se dirige unicamente a 
Franca ; de alguns anuos para ca tern a Belgica feito grandes 
esforQOS para organisar urn niodo on systema especial de ius- 
trucgao. Uoia lei de 1850 ordenou a organisagao do que se 
cliama ensino medio. 

Os estabelecimentos creados para esse flni sao de dous 
graus: escolas medias superiores, e escolas medias inferiores, 
as quaes podem depender do governo, das provincias, ou das 
municipalidades. 

As escolas medias superiores comprehendem duas seccoes, 
uma para humanidades , e outra para o ensino profissional, e 
servem mais para as classes abastadas do que para as classes 
operarias. 

Na Prussia , e algumas outras partes da AUemanha, ha bons 
estabelecimeiitos de instruccao profissiorial, e e escusado dizer 
que na Inglaterra tambem os ha. Entretanto , nesta terra da 
industria, a instrucgao profissional esta longe de ser tao adian- 
tada, e desenvolvida conio se poderia pensar. Na higlaterra 
pensa-se, com muila razao em alguns casos, mas exagerada- 
mente em outros , que o escriptorio , o armazetn e a oflicina , 
constituem o verdadeiro ensino industrial ; para aprcssar os 
progresses da industria , nao sao sem duvida as esco'as os 
unicos meios que se devam empregar, e nao e niesmo por 
meio das escolas propriamente ditas que se opera o progresso 
agricola na Inglaterra; entretanto a instruccao occupa certo 
logar nos desenvolvimentos dessa magnifica agricultura, de 
que a Inglaterra com tanta razao se orgulha. 

A theoria (entendendo por theoria , nao urn complexo de 
hypotheses arbitrarias, massim a sciencia das regras appli- 
caveis a uma industria, e aexplicagao de praticas ja cxpe- 
rimentadas} tern o seu orgao n'uma grande quantidade de 
jornaes agricolas, que os lavradores lem com avidez : os mes- 
mos lavradores fazem muitas vezes reunioes e meetings, que 
sao como que uma escola mulua agricola , em que a educagao 



ECONOMIA POLITIGA. 247 

continua sempre , e em que poe-se em dia com todos os aper- 
feiQoamentos. Quantos concm'sos de animaes , e de instru- 
mentos, nao tem espontaneamente nascido do desejo de se 
instruirem; feitosasua propria custa, sem a menor inter- 
vencao do governo ? Quantas sociedades de agricultura nao 
existem nalnglaterra, propagando as luzes ea instrucgao por 
lodos OS pontos do terrilorio? 

Quepoderosa central isac^ao do ensino agricolanao constitue 
essa grande sociedade , que lem um rendimento annual de 
250,000 francos ; verdadeira assemblea deliberante da agri- 
cultura, que se compoe do que tem a aristocracia de mais 
elevado , dos mais intelligentes proprietaries e rendeiros, que 
nao conta menos de cinco mil socios , que paga professores 
para ensinarem as sciencias applicadas a agricultura , e cujos 
membros communicam uns aos outros os resultados de sua 
propria experiencia, e de seus ensaios de melhoramentos ! 
Nao e finalmente raro , que os lavradores inglezes ponham 
seus fllbos para aprenderem em casa de ontros , que se dis- 
linguem por algum talenio ou superioridade particular na la- 
voura. 

Tudo isto forma sem duvida um excellente ensino profls- 
sional , se bem que nao se trate dos bancos de uma escola , 
onde vao os mogos para estudar. A mesma utilidade p6de-se 
altribuir em Franca a influencia que exercem algumas socie- 
dades, infelizmenle pouco numerosas, como a sociedade in- 
dustrial de Mulhouse , que tambem tem aberto cursos de ins- 
trucQao variada para os operarios, e confere premios pelas 
melhores obras ou experiencias sobre os processes aperfei- 
Qoados da industria. 

Como ensino industrial, osestabelecimentos cbamados — 
Mechanic's institutions — existem em grande numero na In- 
glaterra , e occupam igualmente um logar distincto e impor- 
tarite. 

Desses estabelecimentos nao cxiste equivalente em Franga. 



248 REVISTA BRAZILEIRA. 

Nao podemos deixar de fallar nos Eslados-Unidos , a res- 
peito da questao de que tratamos. 

que caracterisa os esforcos , que se tern tentado nos Es- 
tados do Norte, em assumpto de educacao publica , segundo 
observa o autor de urn cstudo recente sobre a instrucgao nos 
Estados-Unidos , e que o Estado nao estabeleceu llmiles fixos 
nas siias obrigacoes para com os individuos, e admitte-se pelo 
contrario , que esses limites devem sempre variar. Ha, por 
assim dizer, um certo minimo de inslruccao , abaixo do qual 
ninguem deve ficar; mas esse minimo vai-se sempre elevando 
a proporgao que cresce a cultura geral do espirito , a riqueza 
e a prosperidade publica. 

Por muito tempo considerou-se na Nova Inglaterra, que 
ler, escrever e contar, eram elementos sulTicientes da inslruc- 
cao publica , mas depois augmenlaram muito esses rudimen- 
tos ; e quer-se boje que o Estado ministre aos menos favore- 
cidos da fortuna uma instruccao , com que possam com 
probabilidade de successo entrar nesse theatro da vida, 
que a raga anglo-saxonia compara aumcampo de batalha. 

Devemos porem observar , e nisto consiste a feiQao carac- 
teristica da doutrina americana , que , se o Estado distribue 
liberal mente a instruccao elementar necessaria a todos , tam- 
bem nao se importa com o que e necessario unicamcnte a 
alguns; assim e que a inslrucgao superior, o adianlauiento 
das sciencias , e o progresso das letras sao cousas indepen- 
dentes de todo o patrocinio da parte do Estado ; os collegios , 
as universidades e as academias, fundam-sc e perpetuam-se 
sem a intervencao do poder social , e unicamente pela asso- 
ciacao de for^as individuaes; nisto, como em tudo o mais, 
tern sido a America fiel a seus instinctos puramente demo- 
craticos. 

Nada diremos do que respeita a organisacao do ensino su- 
perior nos Estados-Unidos, porque do ponio de vista econo- 
mico nao offerece particularidade alguma notavel ; e asse- 



ECONOMIA POLITIGA. 249 

mellia-se a organisaQao de todas as escolas de iastrucgao 
secundaria: o que consUtue a base desse ensino e alittera- 
lura; elementos de philosophia, algumas scieiicias , latim , 
grego, inglez, francezedesenlio, particulartnente em Boston, 
a Athenas americana , a cidade brilhante dos Emersons e dos 
Ghannings. 

complemento das escolas de instrucQao primaria nao e 
unicamente o ensino superior dos coUegios e universidades , 
e tambeni a aula do commercio e da industria, e especial- 
mente os tao conhecidos Lowell-institute, onde so fazem cursos 
e leituras sobre inui diversos e variados assumptos ; que sao 
mui frequentados mesmo por mulberes , e onde a popula^ao 
industrial encontra uma instruccao geral e apropriada. 

Insistimos talvez de niais nestc assumplo ; mas quizemos 
apresentar modelos , e mostrar pelo exemplo dos povos mais 
moralisados e industriosos quanto e util e salutar essa ins- 
trucQao , de que infelizmenle ainda se desconhecem os bene- 
ficios e a influencia no aperfeigoamento dos costumes , e o 
bem-estar economico das classes operarias. 



IV. 



Ou muito nos cnganamos, ou as consideraQoes que aca- 
bamos de apresentar sobre a instrucQao , considerada do ponto 
de vista economic ;, mostrara exuberantemente que, tanto a 
moral como a economia politica, tern que reclamar nesse 
grande assumpto do ensino publico; e a este respeito devemos 
rcconliecer , que os conselbos e exigencias de uma e de outra, 
em vez de se contradizerem, como se aQgura aos espiritos 
supcrficiaes, cbegam exactamente aos mesmos resultados. ' 

Quer com effeito a moral que o homem forme suas ideas, 
e eleve sens senlimentos pelo cstudo do verdadeiro e do bello, 
pelo Irato intimo das grandes producQoes do espirito humano. 



250 REVISTA BRAZILEIRA. 

pela reflexao applicada a sua propria natureza , e por tudo 
quanto pude ensiriar-lhe a cuUivar os bons e nobres aspectos 
dessa mesma nalureza ; pede , e reclama a moral urn ensino , 
que tempere as emocoes pe!a analyse , e no homem dirige-se 
ella as suas mais nobres faculdades , ao amor do bem , e i 
idea do verdadeiro , do bello e do juslo. 

E com que direito excluiria a moral o estudo da natureza 
exterior , cujos segredos se nao podein descobrir , sem que 
encontre o espirito novos motivos para admirar a sabedoria 
infmitaque nella se revela, e para abysmar-se com Euler, 
Newton e Pascal n'uma profunda adoragao pela infinita sabe- 
doria e infinito poder ? Os primeiros e maiores dos poetas , 
Homero, Lucrecio e Virgilio, admirar-se-hiao certamente 
desta exclusao das sciencias, quando elles queriam admittil-a 
ate na propria poesia ! 

Verdade e que a economia politica pede , antes de tudo o 
mais, quese formem operarioshabeis c peritos; e empresarios 
e industrialislas capazes e intelligentes. E o que ha nisto, que 
mereca censura? 

Por Ventura essa aptidiio de todos os agentes da industria , 
para preencherem os deveres de sua profissao com capacidade, 
exactidao e pontualidade , nao sera uma garantia de ordem, 
e por consequencia uma satisfa^ao , que se da a moral ? 

Na industria, deve-se dar logar ao que se chama fogo sa- 
rjrado, que e o que impelle a descobrir, e aperfeigoar , pelo 
desejo de ser util, e pela ambigao de distinguir-se , o que e 
muito differente da a nbigao de fortuna e riquezas ; e um 
ensino technico nao desenvolveria por certo no homem esses 
nobres senlimentos, nem Ihe daria os meios necessaries para 
a invencao e a descoberta. 

Em geral a industria nao revela os seus segredos senao aos 
espiritos muito exercilados, mormenle a proporgao que as 
descobcrtas exigem maior forga de combinaQOCS ; lalvez se 
possam cilar algumas exccpgoes na mecanica que forma 



1 



ECONOMIA POLITICA. 251 

como que um genio de instinclo em alguns individuos privi- 
legiados ; mas nao ha excepcao alguma para as grandes des- 
cobertas , que se devem a cliimica , a physica e as mathema- 
ticas. 

A democracia (bem entendido , a que deseja elevar a todos 
sem rebaixar ninguem) exige , em nome da igualdade e do 
progresso geral , que os agentes da producgao sejam todos 
homem hem educados no seutido nobre e elevado da expres- 
sao), e capazes de entrar em communhao de ideas e lingua- 
gem com OS que occupam um logar superior na gerarchia 
social e intellectual. 



V. 



Terminaremos por algumas reflexoes sobre a utilidade es- 
pecial , que para os productores offerece hoje a instrucgao , 
bem como para operarios, como meio de bem-estar e um dos 
remedios aopauperismo; o que nos dara ainda opportuni- 
dade para refutar as objeceoes , que se baseam em pretendidas 
razoes moraes e economicas contra a instruccao popular. 

Antes de tudo diremos, que a instruccao parece-nos o me- 
Ihor, ou talvez o unico remedio contra os inconvenientes da 
divisao do trabalho. 

abuso da especialidade pode transformar o homem em 
simples machina, ou n'uma especie de manivella. A instruc- 
cao remove este inconveniente pela variedade de ideas e de 
occupaQoes, e pelo movimento de espirito que oppoe a essa 
uniformidade e monotonia acabrunhadora. 

Economicamente fallando, a divisao do traballio quepro- 
duz tantosbens, e sem a qual a sociedade licaria estacionaria, 
offerece um inconveniente grave, quando nada o vem corrigir ; 
e do prender o operario a uma so e unica tarefa , em que 
se torna elle perito , eimpedir, nas occasioes de exuberancia 



252 REYISTA BRAZILEIRA. 

industrial , que se opere com a desejavel facilidade a passa- 
gem do trabaUio para outra induslria que exija novo concurso 
de intelligencla e de bracos. Sem duvida alguina, e isto uma 
inferioridade , que lem o trabalho a respeito do capital , que 
e rauito mais movel ; mas o operario, que e instruido, des- 
loca-se com menos difficuldadc , porque o sen espirito e mais 
flexivel e os seus conhecimentos mais faceis de se desenvol- 
verem , e applicarem-se a oulro objecto. 

A instrucQao pode portanto prevenir e allenuar as crises, 
que sao o flagello das classes operarias. 

Vamos agora a objecgao, que a todos e familiar, e que 
entretanto quasi que se tern vergonha de disculir ; e vem a 
ser que a instrucgao tornaria o operario exigente de mais, e 
que ella so serve para augmentar a raga e o nuinero dos revo- 
lucionarios inimigos da propriedade e do capital. 

Receia-se que a instrucgao torne o operario mais exigenle 
a respeito do salario ; reconbecemos que esse resultado ha de 
dar-se, e que ja se da, a medida que a inslrncgao se propaga ; 
que negamos, porem, e que seja isso cousa para lemer-se. 

Ha com effeito , ou pode haver, da parte dos operarios duas 
especies de exigencias : umalegitima, fundada em direito e 
boa em seus resultados ; outra injusta, e funesta. 

Injusta e funesta e a exigencia, que quer salarios mais ele- 
vados, quando o trabalho nao augmentou cm quantidade, 
nem melhorou em qualidade. 

Mas nao havera tambem uma exigencia legitima, tao fun- 
dada como a dos empresarios, para realisarem vantajosos 
lucres, e tao justa como o direito que tem o inventor sobre o 
producto de sua invencao? De certo; e quern disto duvidar , 
duvida, sem o saber , do que constitue o signal da civilisagao ; 
e juslo, e natural, que a remuneraQao se eleve com acapa- 
cidade do operario ; para o trabalho [)uraniente muscular e 
mecanico, salarios baixosc mediocres; para o trabalho menos 
grosseiro, e que exige inlelligencia, salarios elevados ; para 



ECONOMIA POLITICA. 253 

homem que so tem as necessldades do animal, salarios que 
bastem para iSso ; mas, para o homem ciiltivado, salarios que 
cheguem para a satisfagao de necessldades mais nobres, mais 
desenvolvidas, e mas dellcadas. E por isso que o trabalhador, 
operario francez, e mais bem pago que o operarlo iriandez ; 
que official e mais bem pago qm o servente ; e que o tra- 
balhador do seculo 19 e mais bem pago que o do seculo 12. 

A segunda parte da objecQao cahe com a primeira. 

Receia-se que a instruccao nultiplique o numero dos ope- 
rarios, violentos c syslcmaticoB inimigos da ordem , aponto 
de fazerem contra o capital e a propriedade o juramento de 
Annibal. 

Se se trata da instrucgao , nao apropriada a condigao do 
homem , entao o perigo 6 real; mas qual e o insensato, que 
quer a instrucgao sem a cduca(;ao , e instruccao sem relagao 
alguma,com a carreira que o individuo tem de seguir ? 

Mas nao se trata de distribuir uma instrucgao estupida- 
mente igual e uniformc para todos : tao abusiva maneira de 
entender a democracia seria a morte da mesma democracia ; 
que se quer, e o que se deseja e uma instruccao de tal modo 
combinada, que nenhuma capacidade possa dcixar de ap- 
parecer, qualquer que seja a profissao e a condi^ao do indi- 
viduo , para que n i industria , assim como no exercito, possa 
qualquer pi'incipiar como soldado e chegar a ser marechal. 

Nao devemos, pois, temer esta instrucgao, e, muito pelo 
contrario , devemos com toda a confiauQa esperar pelos sens 
buns resultados. 

A instruccao e o unico caminho quo conduz aos dous gran- 
des fins, saber e poder , assim como constitue a grande via de 
communicaQao cntre as intelligencias ; a instruccao e a edu- 
ca^ao sobre o homem, e a sciencia nas suas applicagoes ao 
mundo externo, pertcncc conlinuar o combate contra a mi- 
seria material c moral, que dura desde o principio dos tem pos ; 
e a nossa epoca nao so poderia dc certo proper obra mais' 



254 REVISTA BRAZILEIRA. 

bella, coinmelti nento mais nobre, e einpresa mais gloriosa, 
do que o resgate das alinas por meio da ndnca^ao o da ins- 
trucrao. 

Aos economislas cabe urn pouco dessa gloria , porqiic a sua 
scienciaja tern dissipado muilos erros grosseiros, e sua accao 
ja se tern manifestado no inundo de maneira sensivel e evi- 
dente. 

I^ sem duvida a propaganao da econoniia polilica que se 
deve a substituiQao do trabalho livre aos regulanieiilos abu- 
sivos; e p6de-se suslentar que nao e ella estranba a emanci- 
pacao dos servos na Russia, que fava epoca nas grandes datas 
da historia , nem a destruicao das corporacoes na Allemanha, 
nem tao pouco a organisacao do ZoUvercin , imagem de unia 
futura associacao commercial em grande escala. 

Em toda a parte lem a economia politica feito penetrar e 
arraigar a idea da superioridade do Iralialho livre , e da con- 
currencia. 

E , cntretanto , duraiile seculos inteiros, estiveram mistu- 
rados com a economia politica erros tao absurdos , como 
era no sen genero a pedra philosopbal. 

A economia politica tambem teve sous empiricos, exacta- 
mente como a chimica , quando nao era mais do que a 
alcbimia , e a astronomia, quando a muitos respeitos se con- 
fundiacom a astrologiajudiciaria. 

Nao havia mais loucura em acreditar-se no systema de Para- 
celso , do que no systema de Law e nas riquezas do Mississipi, 
e regente era tao logrado pelo cbarlatao que Ihe mostrava o 
diabo , como acreditando no espirituoso Escos^ez , que se jul- 
gava capaz de pagar as dividas do Eslado , c enriquecer o 
reino com os sens bilhetes de banco ; o que e preciso, porem, 
e continuar esse trabalho de ulil propaganda, deslruindo no 
maior numero possivel de espirilos a ignorancia e o erro, que 
matam oshomens, destroem as riquezas, e impedem os ca- 
pitaes de se forrnarem. 



ECONOMIA POLITICA. 255 

Se a sclencia, porem, em suas rela^oes com o espirito 
humano, destniindo o obstaculo interior da ignorancia , e 
essencialmente productiva , nao devemos tambem esquecer 
qiianto se moslra ella fecunda em suas applicagoes directas a 
indastria. 

Emquanto forem contestadas as vantagens economicas da 
instriicoao, nao nos devemos cansar em lembrar o que fizeram 
as sciencias pliysicas, a mecanica e a chimica , por exemplo , 
para tornarem melhor c mais agradavel a vida physica,por 
meio das descoberias que se Ihe devem. 

Percorrendo-se as transformaQoes por que tern passado a 
navegagao, a indiistria manufactureira , a industria locomo- 
tiva e a agricuilura , nao se pode deixar de repetir que o saber 
ou a sciencia , segundo o pensamento de Bacon , e um poder 
e uma forga. 

Resta pois a vulgarisar e a applicar a sciencia adquirida , 
e faze!-a penetrar no que tem ella de util, na intelligencia dos 
numerosos produclores que formam o corpo das nagoes; e 
paraisso e mister que a nossa epoca aprenda a n'»o desconfiar 
do que illustra e esclarece o espirito humano. A obra divina 
so pude ganbar e nao perder em ser conhecida , como ganha 
a terra em ser explorada. 

mundo , vencido pelo homem , e muito superior ao que 
era antes, porque e mais fecundo e mais bem ordenado. A 
ordem e a grande obra que o homem tem por missao reahsar, 
cm si proprio e a roda de si ; ora a instrucQiio e o espirito , 
mais rico e mais bem ordenado em suariqueza, deque era 
na sua miseria , [azendo dimanar mais riquezas sob a forma 
de bens materiaes , c mais harmonia sob a forma de institui- 
COes uteis e de concordia sobre loda a sociedade ; e esta a 
obra da instrucc-ao , quando nao a alteram e falseam. 

Varios seculos de hberdade , de exame e de pensamento , 
em todos os sentidos e direcQoes , tornam hoje mais facil essa 
instrucgao; ao passo que a energica aspiragao de todas-as 



256 RE VISTA BRAZILEIRA. 

classes para iima cerla abaslanga e beiii-estar, tornam-na 
tambem necessaria. 

Alem , e fora da instruccao , que uunca por motio algum 
separamos da ediicacao, poder-se-liao sem diivida achar meios 
de illudir esta grande necessidade do nosso seculo; mas, 
quanto mais se reflectir, tanto mais se ha de ver que so a 
instrucgao pode salisfazel-a de modo efficaz. 

desejo e ambicao do bem-estar , scparado do amor do 
Irabalho, e dos meios de fecundar o mesmo Irabalho, nao 
faz mais do que alear os instinclos de animal que todo o ho- 
mem lem em si, e que acabam muilas vezes por se apode- 
rarem , e tomarem conta do homem inteiro ; e sendo assim , 
tudo quanto moralisa, esclarece e illustra, sera reclamado pela 
economia poUtica, como a origem do loda a riqueza, e aiuda 
mais, como garanlia da riqueza ja produzida e adquirida. 

Entre orico de hoje e o miseravel , ou , ainda melhor, enlre 
a sociedade civilisada e a que nao o e , ou a que apenas priii- 
cipia a sel-o , ha por assim dizer um abysmo ; nesse abysmo 
cahe muitas vezes o pobre , e entao , na sua colera , quer 
tambem arrastar e precipitar o rico. 

A instruccao, acompanhada de uina boa cduca^ao , e uma 
especie de ponte lancada nesse abysmo, c o que cum pre a 
sociedade e fazer com que nao haja um so homem que nao 
possa passar essa ponte, ate que a margem habilada pela igno- 
rancia,pelabrutalidadee o crime, esteja inteiramente deserta. 

A religiao, em nome da caridade, o reclama ; a philosophia, 
em nome da dignidade humana, o exige; e, por tudo (pianto 
acabamos de dizer, ve-se, (jue a economia politica tern dircito 
de exigil-o tambem em nome da riqueza publica ; isto e, em 
nome do interesse bem cntendido de cada um e de lodos , o 
que nao e mais do (jue uma das formas da justiga , c a mani- 
feslagao da ordcm universal na humanidadc. 

(Jonml (lus Economistas.) 
M. 0. F. 



llTTERilTRA 



I.itteratiu«a brazileira. 

DA INSriRACAO QUE OFFERKCE A NATUBEZA DO NOVO MUNDO A SEUS 
POETAS, E rAKTICULAKMENTE BRAZIL. -OPINIAO A RESPEITO DE 
NOSSO PAIZ RELATIVAMENTE k QUESTAO DESENVOLYIDA PELOS SRS. 
ALEXANDRE DE HUMBOLDT , SANTIAGO NUNES RIBEIRO, MAGALHAES, 
VISCONDE DE S. LEOPOLDO , FERDINAND DENIS, DANIEL GAVET ET 
PHILIPPE BOUCHER, d'aRCET , VALERA, ETC. - REFLEXOES DO AUTOR 
A RESPEITO. — POETAS BRASILEIROS EMINENTEMENTE INSPIRADOS 
PELO PAIZ (*). 

Pude Brazil inspirar a imaginac-ao de seus poetas? 

Aniiestao da intliiencia dosclimas, da configuragao dos 
lerrenos, da physionomia dos vegetaes, do aspecto da natu- 
reza risoiiho ou selvagem , sobre o progiesso das artes e o 
eslvlo que distingue as suas producgoes, tern sido geralmenle 
debalida enlrc os sabios do velho mundo. Buffon procurou 
proval-a com os argumenlos fornecidos pelos seus estudos , 
como meslre que era na materia. Montesquieu exagerou-a a 
ponlo de considcral-a mais poderosa do que as leis do que 
OS usos, do que os costumes, do que a religiao. Vo taire a 
den por nulla, e, para comprovar a sua opiniao, notou que 
sendo ceo da Grecia ainda tao formoso e puro, o da Italia 

r) Canitulo Ul do Vrimeiro Uvro da Hisloria da Litleralura Bradleirado 
Sr.S! Smo de So«.a Si.va, Uda e.n u.na das sessCes do In.tiUUo n..onco 
no anno de 1855. 



258 REVJSTA BRAZILEIRA. 

tao brilhanle e azulado, como nos tempos de Homero e Vir- 
gilio, vegetava sob o primeiro nm povo escravo , e que o 
capitolio era habitado por trades barbadinbos, e acaba por 
dizer que as artcs florescem em toda e qualqner parte sempre 
que acham protectores, como Augustos e Mecenas. Hippo- 
crates, que OS precedeu, apresenta a justa apreciacao con- 
ciliando estas oppostas opinioes coiu a sua obra de Acre 
aquis et loch, pelo que o digno Santiago Nunes Ribeiro 
decidiu-se a adoptal-a como a verdadeira. 

Em relaQao ao uosso paiz, isto e, se o Brazil pode inspirar 
a imagina^ao de seus poetas, lem sido esta questao o ol)jeGto 
das retlexoes de litteralos estrangeiros de reconhecido merito, 
e que altamente sympatbisam com a nossa patria, e por na- 
cionaes que se interessaui pelas nossas cousas ; e a sua de- 
monstraQao facil e persuasiva se apresenta ante o espectaculo 
pomposo que offerece a natureza sob esses ceos, por esses 
mares e nessas localidades que encantaram a Pedro Alvares 
Cabral e a seus companbeiros. Todos elles se acbaram pos- 
suidos desse entbusiasmo que brilba em suas descripgoes; 
todos elles, como se colbe de Caminba, escreveram ao rei , 
a quern a fortuna accumulava de seus favores, pintando as 
excellencias do paiz que descobriam e as scenas apraziveis, 
belias ou assombrosas da natureza virgem e luxuriante do 
novo mundo, que se desenrolavam a seus olbos como um 
novo paraiso ! iiiustre sabio do nosso seculo , o Sr. Ale- 
xandre de Humboldt, que averiguou com a profundidade de 
seus conbecimentos a forga do rctlexo do mundo sobre a 
imaginagiio do homem, bem deixa ver nas suas eruditas 
pesquizas sobre osentimento danatureza,scgundo a differenga 
das ragas e dos teinpos, toda a importancia dos paizcs ame- 
ricanos, quando vieram pelo seu descobrimenlo a concorrer 
com contingente de suas magnificas imagens. 

* Pela primeira vez (diz o iiiustre antor do Cos/»o.s) o 
mundo dos tropicos apresentou aos Europeos a magnificencia 



LITTERATURA NAGIONAL. 259 

de suas planicies fecundas, todas as variedades da vida or- 
ganica graduadas sobre o declive das CordiUieiras, sob o 
aspecto do clima do Norte, que parece refleclir-se nas espla- 
nadas do Mexico , da Nova Granada e de (Juilo. A imaginagao, 
sem cujo prestigio luio e possivel existir obra hiimana ver- 
dadeiramente grande, outorga urn altractivo singular as des- 
cripgoes de Colombo e de Vespucci. Este ultimo provou , 
descrevendo as costas do Brazil , o conhecimento exacto que 
possuia dos antigos e rnodernos poelas. As descripgoes do 
outro, quando pinta o doce ceo de Pavia e o vasto vio do 
Orenoco , que deve ter a sua cabeceira , segundo o seu pensar, 
em paraiso, sem que por isso mude de logar, estuo cheias 
de um scntimento grave e religioso, A medida que cresce 
em annos, e que tern que lular com injustas perseguigoes , 
degenera-se-lhe essa disposicao em melancolia, degenera-se- 
Ihe em exaltacao chimerica. 

« Nessas epocas hcroicas de sua iiisloria, uao foram os 
Portuguezes e Castellianos unicamente guiados pela avidez do 
euro, como por falta de melhor comprehensao da tendencia 
desses tempos se tern supposto. Havia um nao-sei-que que se 
apoderava de todos , e os levava a emprehender essas expe- 
dJQoes ionginquas, forgando-os a correr os seus azares. Os 
nomes de Haiti, de Cubagua, deDarien, seduzia as imagi- 
nagoes no comego do seculo XVI, como depois as viagens de 
Anson e de Cook, os nomes deTenian e de Otahiti. Bastava 
desejo de ver paizes longinquos para arrastar a mocidade 
da Peninsula Hespanhola, deFlandrcs, de Milao, do Sul da 
AUemanlia, a cadea dos Andes, e as planicies abrasadas de 
Uraba e de Curo sob a bandeira victoriosa de Carlos V. De- 
pois , quando se adogaram os costumes, e que se patentearam 
a uma todas as partes do inundo, tomou essa curiosidade, 
entretida por outras cousas , nova direcgao. Apaixonaram-se 
OS animos pelo amor da nalureza , cujo exemplo ministraram 
OS povos do Norte. Ao mesmo tempo que o circulo da obser- 



260 REVISTA BRAZILEIllA. 

vaQao scientifica se dilatava, elevavam-se as vistas. A len- 
dencia sentimental e poetica, que ja entao daminava no mais 
intimo dos coragoes, adquiria no fim do seculo XVuma forma 
maisfirme, e deu origem a obras litterarias dcsconhccidas 
em tempos anteriores. 

« Se levarmos ainda uma vista d'olhos pela epoca dos 
grandes descobrimentos que prepararain o Iraballio novo dos 
espiritos, veremos que serao ainda as descripcues da natureza 
que proprio Colombo nos dcixara, que primeiramente se 
nos apresentaram. Ha bem pouco tempo que conhecemos o 
Diario de sua viagem maritima, suas Cartas ao Ihesoureiro 
Sanchez, a Ama do infante D. Juan, Jiianna de la Torre, 
e a rahiha Isabel , ejd na obra Examen critico da historia da 
geographia nos seculos XV e XVI procurarei mostrar que 
profundo sentimento da natureza animava o grande viajante, 
— quenobreza, que simplicidade de expressao resalta da 
descripQao que fez da vida, da terra e o ceo, desconhecida 
ate entao, que se descortinava a seus olhos (viage nuevo al 
nuevo cielo i mundo que hasta entonces estaba en oculto) ; 
cujas piiituras so podem apreciar os que bem comprehendem 
toda essa energia da velha iinguagem hespanhola. 

« A pbysionomia caracteristica das plantas , a espessura 
impenetravel das florestas, nas quaes mal e dado saber a que 
tronco pertcncem as tlorcs e as folhas, a bravia abundancia 
das plantas que cobrem as margens alagadigas , os passaros 
aquaticos que occupados em pescar desde o alvorecer do dia 
animam as fozes dos rios, attrabem a alteuQao do velho mari- 
timo : emquanto percorre o litoral de Cuba, enlre as pequenas 
iihas Lucayas c os Jardinillus, que eu por mini proprio visitei. 
Cada novo paiz que descobria llic parccia ainda mais bello do 
que aquelle que precedentcmentc descrevera, Lastima a falta 
deexpressHes, que meilior pintem as sensagoes que cxperi- 
menta a cada inslante ; estranho de todo em todo a bolanica, 
se bem que um tal ou qual conhecimento superlicial dos vege- 



LITTERATURA NACIONAL. 261 

taes jaa esse tempo vogasse pela Europa, gragas a influencia 
dos medicos arabese judaicos, o simples sentimento da natu. 
reza o levava a observar attentamente tudo quanto llie ofTerecia 
uin aspecto estranho. Eni Cuba disUnguiu elle sete ou oito 
especies de palmeiras das mais bellas e altas que as que pro- 
duzem as tamaras (Variedades de pcdmas superiores a las 
nuestras en sii belleza ij altura). A.o seu amigo Argliera com- 
munica que se maraviliiara do ver em o mesmo sitio pabiieiras 
e pinheiros (pahneta etpineta)gvn])diAos, c entremeiados uns 
aos outros. Examina os vegetaes com vistas tao penetrantes 
que foi o primeiro que sobre as montanhas de Gibau notou 
pinheiros que em vez dos fructos ordinarios produzem bagas 
semelhanles as oliveiras de axarafe de Sevilha. Assim Co- 
lombo, comojadisse, distinguira a primeira vista o genero 
podo carpus na familia das alietinees. 

« encanto desse novo paiz (diz o grande navegador) 
excede em muito ao das campinas de Cordova. Brilliam as 
arvores com as suas folhas sempre verdes, e mostram-se 
eternamente carregadas de fructos ; altas e floridas terras 
cobrem a superficie do solo; o ar e quentc como em Castella 
durante o mez de Abril ; o rouxinol canta com uma dogura 
que impossivel seria d'^screvel-o; pela nolle , outros passaros 
mais pequenos cantam por seu turno ; ouqo igualmente o 
zunido dos grillos e as vozes das raas. Cbeguei-me urn dia a 
uma bahia profunda, contornada por todos os lados, e vi ahi 
que jamais viu alguem neste mundo. Do alto de uma mon- 
tanba rolava e despedagava-se uma cascata formosissima ; 
era a montanha coberta de pinheiros e de outras arvores de 
formas diversas, ornadas todas das mais bellas flOres. Su- 
bindo rio , que se langava na bahia, nao pude deixar de 
admirar a frescura das sombras, a transparencia das agoas , 
numero dos passaros que cantavam. Parecia-me que jamais 
poderia abandonar tal sitio, que nem mil linguas saberao 
descrevel-o e menos ainda minha mao, que esta encantadal » 

R. B. III. IS 



262 REVISTA BRAZILEIRA. 

Ve-se aqui pelo Diario de um homem desdotado de toda a 
culturalitteraria, que poder nao exercem sobre uma alma 
sensivel as bellezas caracteristicas da natureza. A emoQao 
ennobrece a lingua. Os escriptos do almirante , sobreludo 
quando ja na idade de 67 annos emprehendeu a sua quarta 
viageni , e narra a sua maravilhosa visao sobre as costas de 
Veragua , sao , se nao mais casligados , pelo menos raais in- 
teressantes que o romance pastoral de Boccace , as duas 
Arcadias de Sannazar e de Sidney , o Salicio y Nemororo de 
Garcilasso ou a Diana de Jorge de Montemayor. genero 
elegiaco e bucolico reinoii dcsgracadamenle por muito tempo 
na litteratura italiana e hespanhola. Era necessario o interesse 
sorprendedor que Cervantes langonnas aventuras do heroede 
la Mancha, para fazer esquecer a Galatea do mesmo escriptor. 
romance pastoril que bem merecia ser relevado pela per- 
feicao da linguagem , e delicadeza^ dos sentimentos, e con- 
demnado pela sua propria natureza a ser frio e languido como 
as subtilezas allegoricas em voga entre os poetas da idade 
media. Para que uma descripQao respire a verdadc , preciso 
e que seja calculada sobre objectos existentes; tambem tem- 
se querido ver nas mais bellas estancias da Jerusalem liber- 
tada os tragos da impressao que sobre o poeta produziu a 
natureza pittoresca que o cercava. e uma lembranga saudosa 
do gracioso valle de Sorrento. 

« Tal caracter de verdade, nascido de uma observagao 
immediata e pessoal , brillia em todo o seu esplendor na 
grande epopca nacional dos Portuguczes. Scnte-se fluctuar 
como um perfume das tlores do Indo atraves desse poema es- 
cripto sob o ceo dos tropicos, na gruta de Macau e nas ilhas 
Molucas. Sem que me demore a discutir a opiniao arriscada 
de Frederico Schlcgel, scgundo a qual os Limadas de Cannes 
supplantariam com grande vantagem o poema de Ariosto pelo 
esplendor e riqueza de imaginagao, affirmarei lodavia, como 
observador da natureza , que nos logares descriptivos dos 



LITTERATURA NACIONAL. 263 

Lusiadas jamais o enthusiasrno do poeta , o encanto de seus 
versos e os doces accentos de sua melancolia alteram em cousa 
alguma a verdade dos phenomenos; a arte tornando as im- 
pressoes mais vivas , associou-se antes a grandeza e a fideli- 
dade das imagens, como acontece as mais das vezes que ella 
se dirige a uma origem pura. Camoes e inimitavel quando 
pinta a mudanga perpetua que se opera entre o ar e o mar; 
as harmonias que reinam entre a forma das nuvens ; suas 
transformaQoes successivas, e os diversos estados por que 
passa a superficie do oceano. Primeiramente elle a mostra 
surcada por um ligeiro s6pro de vento ; as vagas apenas em- 
poladas brilham agitando-se aos raios da luz que se reflectem 
nellas ; outras vezes sao os navios de Coellio e de Paulo da 
Gama, que, assaltados por terrivel tempestade, lutam contra 
todos OS elementos desencadeados. fi elle, no sentido mais 
amploda expressao, grande pintor maritimo, que guerreou 
junto as abas do Atlas, no imperio de Marrocos, que combateu 
no Mar-Vermelho e no Golfo Persa, que dobrou por duas vezes 
cabo da Boa-Esperanga , e que durante 16 annos, penetrado 
de um profundo amor pela natureza , perscrutou attenciosa- 
mente nas praias da India e da China todos os phenomenos 
do oceano. Descreveu o fogo electrico de Sant'Elmo, que os 
antigos personificaram sob os nomes de Castor e de Pollux , e 
que elle chama o lumevivo, que a gente maritima tem por 
santo; elle mostra a formagao successiva das trombas amea- 
cadoras, e como as nuvens ligeiras se condensam em um 
vapor espesso que rola-se em espiral e desce como uma co- 
lumna que sorve avidamente as agoasdomar; como essa 
nuvem sombria , depois de se ter saturado, recolhe a si o pe 
que tem no mar, e , fugindo para o ceo, torna em agoa doce 
as ondas que Ihe lomara. Quanlo a explicagao desses mys- 
terios maravilhosos da natureza , deixa-a o poeta, cujas pa- 
lavras parecem ser ainda a critica dos tempos de agora, aos 
escriptores de profissao, que altivos de seu espirito e sua 



264 REVISTA BRAZILEIRA. 

sciencia, desdenham as narragues colhidas daboca dos na- 
vegadores sem outro guia que a experiencia. 

« Nao e Camoes unicamente grande pintor na descripgao 
dos phenomenos isolados ; avantaja-se tambem qiiando abraca 
as grandes massas de uma su vista d'olhos. terceiro canto 
reproduz em alguns tragos a configuracao da Europa , desde . 
OS mais frios sitios do Norlo ate o reino da Lusitania, e ao 
estreito onde Hercules poz terino a seus traballios. Por toda 
parte allude aos costumes, c a civilisagio dos povos que ha- 
bltam esta parte do muado tao ricainente arliculada. Da 
Prussia, da Moscovia, e dos paizes que lava o frio Rheno, 
passa rapidamente as terras deliciosas da Grecia, que crearani 
OS peitoseloquentes. No decimo canto o borizonte se engran- 
dece ainda mais. Conduz Thetis ao Gama a uma alta mon- 
tanha para Ihepatenlearos segredos da estructuia do mundo , 
e curso dos planctas, segundo o systema de Ptolomcu. E 
uma visao no estylo dc Danlc ; e como a terra e o centro de 
tudo que se move com ella, o poeta se aproveita para expor 
que entao se sabia dos paizes recentemente reconhecidos, 
e de suas diversas produccoes. Naosebmita, como no ter- 
ceiro canto, a representar a Europa; passa em rcvista todas 
as partes da lerra sem exceptuar a propria terra da Santa 
Cruz, Brazil, e as costas descoberlas por Magalbaes, « esse 
fdho infiel da Lusitania, que renegou de sua mai. » 

• Louvando a pintura maritima de Camoes , quiz mostrar 
que as scenas da natureza terrestre o impressionaram menos 
que as maritimas. Ja Sismondi no¥ira que nada havia em seu 
poemaque testemunhasse ter clle jamais contemplado a ve- 
getagao tropical e suas formas caractcristicas. Falla apenas das 
especiarias e producQoes de que se aproveitava o commercio. 
episodio da ilha encantada offerccc por sem duvida a mais 
graciosa dc todas as paisagens ; mas a dccoragao nfio se com- 
poo, como convem a uma ilba dc Venus, senfio de myrtos, 
de limoeiros, de romeiras coutros ari)ustos odoriferos, todos 



I 



LITTERATURA NACIONAL. 265 

proprios do clima da Europa meridional. Cliristovao Colombo, 
maior dos navegantes de sen tempo , sabia melhor gozar 
das florestas que bordam as costas , e dar mais attencao a 
physionomia das plantas ; mas Colombo escreveu urn Diario 
de viagem , e tracou as vivas impressoes de cada dia, em- 
quanto que a epopea de Camoes celebra a fa^-anlia dos Portu- 
guezes. Oposta, habifnado aos sons barmoniosos, nao se 
decidira a pedir a lingua dos indigenas nomes baibaros, para 
fazer entrar as plantas exolicas em a descripgao de uma paisa- 
gem , que, alem disso , nlio era mais do que o fando do painel 
em frente do qual figuravam as suas personagens. 

« Tem-se consfantemente approximado da figura cavalhei- 
resca de Camoes a figura nao raenos romantica de um guer- 
reiro hespanhol , Alonso de Ercilla , que serviu no reinado de 
Carlos V, no Peru e no Chile, e sob essas latitudes longinquas 
cantou as acgoes em que elle proprio tinha tomado parte 
gloriosa. Mas nada indica na sua Arancana que elle obser- 
vasse de perto a natuieza. — Os volcoes cobertos de neve 
eterna ; os valles abrasados nao obstante a sombra das flo- 
restas; OS bragos de mar que avangam pela terra a dentro , 
nada Ihes inspiraram de poetico. — excessivo elogio que 
Cervantes teceu a Ercilla, quando passou divertidamenle em 
revista a bibliotheca de D. Quixote, so se podera explicar pela 
ardenle rivalidade que existia entao enlre a poesia hespanhola 
e a poesia italiana ; e foi se:n duvida desse juizo que se illudiu 
V^oitaire , como outros maitos criticos modernos. fi sem du- 
vida a Arancana um livro que respira nobre sentimento na- 
cional; os costumes do povo selvagem, que combate pela 
liberdade, sao nelle descriptos de uma maneira ardente; mas 
a diccao de Ercilla c languida, sobrecarregada de nomes 
proprios, sem um s6 laivo de enthusiasmo poetico. » 

« Os descobrimcutos do Colombo , de Vasco da Gama e de 
Alvares Cabral (continua o illustre Humboldt) em o ccntro da 
America , na Asia meridional e no Brazil ; a extcnsao dada 



266 REVISTA BRAZILEIRA. 

ao commercio de especiarias e de substancias medicinaes 
que faziam com as Indias os Hespanhues, os Portuguezes, os 
Italianos e os Neerlandezes ; o estabelecimento de jardins bo- 
tanicos fundados em Pisa, em Padua, em Boulogne, de 1544 
a 1568, sera todavia o util accessorio das estufas, todas essas 
cousas reunidas familiarisaram os pintores com as formas 
maravilhosas de grande numero de producQoes exoticas , e 
atelhesderam umaidea do mundo tropical. Joao Brenghel, 
que comegou a lornar-se celebre pelos fins do seculo XVI , 
representou com verosimillianca encantaduraramos, flores 
e fructos de arvores estranhas a Europa. Mas so depois do 
meiado do seculo XVII em diante e que veio-se a possuir 
paisagens pinladas pelo artisla sobre os proprios logares, e 
que reproduzem o caracter proprio da zona torrida. merito 
de tal innovagao pertence , como nol-o da Wagen a conhecer, 
a Francisco Post, de Harlem, que acompanhou Mauricio de 
Nassau ao Brazil, quando este principe, tao curioso pelas 
producgoes tropicaes , foi nomeado pela HoUanda governador 
das provincias conquisladas aos Portuguezes (1637 a 1644). 
Muitos annos levou Post em sens estudos da natureza sobre o 
cabo de Santo Agostinho , na Bahia de Todos os Santos, sobre 
as margens do rio S. Francisco, e nos paizes regados pelo 
curso inferior do rio Amazonas. Desses estudos sao uns pai- 
sagens acabadas, outros foram gravados por Post de um modo 
original. A essa mesma epoca pertence o quadro a oleo de 
Eckhont, composigao muito notavel, conservada em Dina- 
marca, na galeria do bello castello de Frederiksborg. Eckhont 
se achou tambem em 1641 sobre as costas do Brazil com o 
principe Mauricio de Nassau. As palmeiras e paisagens, as 
bananeiras e os heliconios sao representados nessa paisagem 
sob tragos caracteristicos , como tambem passaros de bri- 
Ihante plumagem , e pequenos quadrupedes particulares a 
esse paiz. » 

« A escola historica de Hegel (escrevia assim Santiago Nu- 



LITTERATURA NACIONAL. 267 

nes Ribeiro) tern posto a questao dos climas em sua verda- 
deira luz com a superioridade de vistas que o distingue. As 
influencias que ella cliama exteriores, o clima , as ragas, sao 
outras tantas fatalidades naturaes com as quaes a humanidade 
travou a luta que os seculos contemplam, progressivo 
Iriumpho, a emancipacao da liberdade, do eu, e o resultado 
que ella nos vai dando. Assim e que a educacao moral e re- 
ligiosa pode nuliificar os effeitos da acgao das fatalidades 
physicas de urn clima, por exemplo , que em nos desenvolva 
OS appetites sensuaes. Cumpre porem notar que a mesma 
educacao, a moral bem entendida, e mais que tudo a religiao 
favoneam o desenvolvimento legitimo das nossas faculdades, 
ou corporeas ou animicas, e longe portanto estao de con- 
trariar as intluencias salutiferas de um ceo benigno, de uma 
terra fertil e piltoresca , abrilhantada e aquecida por um sol 
vivificanle, refrigerada pelas viragoes suaves, por manhaas 
Qrvalhosas e nuvens que em pura chuva se desatam ; de uma 
destas plagas admiraveis que fallam a imaginagao e ao senti- 
mento pela magniiicencia dos rios caudaes e oceanos que as 
circumdam , pelas correntes que as banham , pelo alcantilado 
de suas montanhas, pelas floreslas mysteriosas, por mil as- 
peclosemfim, bellos, sublimes e graciosos. E a que outra, 
senao ao Brazil, podem competir as grandiosidades e primor 
que em mortecor pintamos, fitando apenas alguns pontos 
desse que nos offerece immenso e animado panorama? Sim, 
bello phenomenal se mostra com a maior pompa neste solo 
afortunado ; e nao poucos arlistas brazileiros e estrangeiros 
beberam nelle inspiragao mais pura , a inspiracao creadora 
de obras excellentes, revestida de vivas cores, de donosas 
formas, idealisada nas harmonias da arte musical e poetica. » 
« Tao geralmente conhecida e esta verdade (ajunta o Sr. 
D. J. G. de Magalhaes) , que nos a passamos como um prin- 
cipio, e cremos iiiutil insistir em demonstral-a com argu- 
mentos e factos por tantos naturalistas e philosophos apreseri- 



268 RE^^sTA brazileira. 

tados. Ahi estao Buffon e Montesquieu que assaz o demons- 
tram. Ainda hoje poelas europeos vao bcbcr no Oriente as 
suas mais bellas inspiraQoes. Byron , Chateaubriand e La- 
marline sobre sens tumulos racditaram. Ainda hoje sc admira 
tao celebrado ceo da Grecia, o ceo que inspirara aHomero 
e a Pindaro, e o ceo que inspirara Virgilio e Horacio. Nos 
vimos ceo que cobre as ruinas do Capitolio e as do CoUseo ; 
sim, elle ebello; mas oh! que o do Brazil nao Ihe cede em 
belleza! Fallem por nos todos os vinjores, que, por estran- 
geiros, de suspeitos nao scrao taxados. Sem duvida fazem 
elles justiQa, e o coragao do Brazileiro nao tendo muito de 
ensoberbar-se quanto aos productos das humanas fadigas , 
que so com o tempo se adquirem , enche-se e pal pita de sa- 
tisfacao vendo as subUmes paginas de Langsdorff, Niwed, 
Spix, A. Martins, Saint-Hilaire, Debret, e uma multidao de 
outros viajores, que as bellezas de sua patria conhccidas fi- 
zeram a Europa. 

« Este immenso e rico paiz da America, debaixo do mais 
bello ceo situado, corlado de tao pujantes rios, que sobre 
leitos de ouro e pedras preciosas rolam siias agoas caudalosas ; 
este vasto terreno , revestido de eternas mattas , onde o ar 
esta sempre emba!samado com o perfume de tao peregrinas 
fl6res, que em cliuveiros se despencam dos verdes doceis pelo 
entrelacamento formado dos ramos de mil especies: estes 
desertos remansos, onde se annuncia a vida por essa voz so- 
litaria da cascata que se despenha ; por este doce murmurio 
das auras que se embalangam nas folhas das palmeiras ; por 
esta harmonia grave e melancolica das aves e dos quadru- 
pedes; este vasto edcn, separado por enormissimas mon- 
tanhas sempre esmaltadas de verdura, em ciijo tope collocado 
se ere o homem no espaQo mais chegado ao ceo (]ue a terra, 
e debaixo de sens pes vendo desnovellar-se as nuvcns, roncar 
as tormcntas, e disparar o raio; com tao fclizes disposigoes 
da natureza, Brazil necessariamente inspirar devera seus 



LITTERATURA NACIONAL. 269 

primeiros liabitaclores ; os Brazileiros, musicos e poetas nas- 
cer deviam. Quern o diivida? — EUesoforam; elles ainda 
lioje sao. 

« Do que dito havemos, concluimos que a poesia iiao se 
oppoeo paiz, antes pela sua disposigao physica muito t'avonea 
desenvolvimento intellectual. » 

« Brazil, debaixo de um ceo benigno c ameno (accres- 
centa o digno visconde de S. Leopoldo), erapolada a terra de 
cordilheiras de moutesde conformagao variada, ora coroados 
de picos escalvados, que rompem as nuvens, ora acapellados 
de maltas cerradas, jorrando de seu seio estrondosas cascatas ; 
contrasta este terrivel magesloso com a macia verdura dos 
valles cultivados; mesmo em nossas provincias de planicies, 
OS campos dobrados represenlam as ondas do oceano de re- 
pente paradas. Aqui tudo ri ou assusta. Tanta variedade de 
vistas e sensacoes desperta e interrompe tediosa monotonia. 
GoUocado o Brazil no ponto geographico o mais vantajoso 
para o commercio do universo, com portos bonissimos sobre 
oceano , grandes lagos ou mares mediterrancos ; rios nave- 
gaveis ou com proporcoes de o serem , por centenares de 
legoas; a agricultura e a industria em emulagao attrahirao a 
concurso as nacoes cultas e polidas, que a par dos lucros do 
commercio nos trirao civilisacao; o estrangeiro, avido de 
sciencias, vira neste solo virgem estudar a natureza eem- 
beber-se de inspiracoes, com preferencia a essas romagens, 
quese nos referem, aSuissa, so com o fito de alimentara 
vida intima e intellectual , ao aspeclo dos despenhadeiros dos 
Alpes. Vulgares invejosos nao viram em nossosjovens mais 
que uma ephemera imaginaijao ardente, influencia do clima, 
quando naila menos era que os vislumbres rapidos e frisantes 
do talenlo. Tudo emfim presagia que o Brazil e destinado a 
ser, nao accidentalmente , mas de necessidade, um centro 
de luzes e de civilisagrio, e o arbitro da politica do novo 
mundo. » 



270 REVISTA BRAZILEIRA. 

« E que espectaculo (pondera lambem o Sr. Ferdinand 
Denis), e que espectaculo ! Como deixar de admiral-o ! Nas 
ribanceiras do mar , no seiodesuas profundas bahias, onde 
as ondas mansamente expiram, as mais das vezcsbalancam- 
se docemente os coqueiros on a ipomoea tapiza as aridas areas 
daspraias; la o mangue forma seuslabyrinlhos de verdura; 
ea vista dessas ilhas longinquas, dessas tlorestas viridantes, 
dessas humidas praias, dessas ferteis coUinas que se desen- 
rolam aos olhares, vem a imaginaglo a idea do mais pacifico 
abrigo e de uma solidao sem lurbagao. As vezes a briza marl- 
tima SB impregna de odores da terra , e se uma fresca aragem 
agita OS jardins de lararigeiras , derrama para logo na almos- 
phera delicado perfume que embriaga o olfacto , foge agora, 
agora volta , e depois desapparcce no esparo. Sob clima lao 
delicioso reuniu-se tudo para encantar , e apenas o tempo da 
secca interrompe por alguns mezes a belleza da paisagera. 
No interior, porem, sobre as margens desses rios immensos 
que inundam o paiz, uma bumidade benelica entrctem quasi 
que sem interrupcao a pompa vegetal. Nessa grandeza da na- 
tureza, nessa desordem de suas producgoes , nessa fertilidade 
bravia que se ostenta a par e passo da arte, nessa esperanga 
que da aabundancia da terra, ao mugido das florestas pri- 
mitivas, ao arruido dascascatas, que se despenham de ro- 
chedos em rochedos, ao bramido dos animaes selvagens, que 
parecem desafiar o homem no imperio de seus desertos, uma 
nova energia se apodera do pensamento dos Brazileiros ; e 
tanto e isso assim, que o viajanle se sentenaluralmente dis- 
posto a fazerresoar as florestas de seus cantos, e maravilliosas 
narrag5es dos tempos dosdescobrimentos encantam o rancho 
das bandeiras. » 

« Ah ! ]£ no Novo Mundo , exclamam os Srs. Gavet e Bou- 
cher , que poeta pode estudar a sua arte ; 6 la que deve 
brotar por demais forte e superior o sen pensamento creador; 
ahi se encontra o gracioso ao lado do soinbrio e do horrivel ; 



LITTERATURA NACIONAL. 271 

em face de um painel palpilando de vida , immenso , mages- 
loso e radiante de poesia, cercam-o, electrisam-o, atormen- 
tam grandes leinbrangas de todos os generos que acabam 
por abalal-o profnndamente, por arrancar-lhe lagrimas e por 
inspirar-lhe cantos que nao perecem, cantos sublimes! Es- 
treine^a de alegria o genio ! Faga elle resoar as cordas de uma 
nova lyra em o Novo Mundo ! 

t Nada de gasto, nada que sinta a lima europea deve ser 
ouvldo no paiz das maravilhas , onde tudo e novo, onde corre 
uma seiva de fogo , onde o pensamento se eleva e se engran- 
dece, livre, virgem, natural e bello. Assemelhar-se-ha a Ame- 
rica ao nosso continente? A poesia que ella revela deve pa- 
recer-se com a poesia que se aprende nos livros? Nao; 
bastante forte e ella para ser applicavel a tudo, e indistincta- 
mente a tudo, como aquella de que se acha as regras flxas 
e reproduzidas ha seculos. La, onde tudo se mostra scintil- 
lante de sublimes bellezas, radiante das mais vivas c6res; 
la, onde montanhas gigantescas se alevantam escarpadas, 
asperas, terriveis, sobre abysmos cujos flancos tenebrosos 
encobrem agoas que se nao vem , mas que se ouvem rugir 
entre rochedos, e d'onde parece que saheni vozes que fazem 
estremecer; la, onde as florestas curvam-se sobre florestas; 
onde oslagos se despenham em lagos, onde cascatas resaUam 
sobre cascatas; la , por certo que para exprimir o que se sente, 
para pintar o que se ve , nao e preciso constranger o pensa- 
mento; necessita-se de pincel largo, emprehendedor, novo, 
audaz, de toque vigoroso, verdadeiro. Se nao tendes ahi a 
vossa palheta, se imitais os homens alii onde nao ha outra 
imitagao a seguirsenao a da natureza, frio copista, o deserto 
vos repelle; nem e por vos que elle se reveste de magnificen- 
clas, e que exhala suaves odores ; nao. Ahi onde o machado 
de vossos povos civilisados impede continuamente a vegetagao 
de velhos troncos sobre as margens das torrentes, — jamais 
pudestes comprehender o que e uma floresta ; — jamais pu- 



272 REMSTA BRAZILEIRA. 

destes comprehender o que e uma taba (liutte) de selvagens, 
no meio dessa floresta que nada vos inspira; ide buscar uma 
alma, e tornai depois para perder-vos em labyriiilhos frescos e 
verdes. Vede : tudo quanto tocou o vo?so halito , ludo ([iiauto 
sahiu de vossas maos depois de um penoso trabalho e secco, 
inanimado, vazlo de interesse, falto de idea; nao queremos 
um cadaver onde tudo esta cheio de mocidade e de vida. 
Differencai os homens, ascousas, os logares; nao vos inspire 
a America como a Franga ou a Italia. Oh ! diga-vos algnma 
cousa de mais esta bella America com suas longas madeixas 
de tlorestas virgens, coin suas tribas selvagens que a espada 
europea golpeou lentameute, com suas massas de rochedos 
suspensas sobre osabysmos, com sens mil perfumes, com 
seusrios, com sens massicos, com sens grandes lapetes de 
verdura, de purpura e de ouro, com as maravilhas de um 
solo que produziu e que devorou cem nacoes, que chamamos 
barbaras, cuja coragem, porem, nos espanlara sempre, cujas 
desgraoas serao deploradas por nos, e cujo exterminio appa- 
recera odioso ante as idades que alii vem, como uma velha 
vergonha da Euro pa. 

« Nao e nessa terra, tfio fecunda para o genio , que a ins- 
piracao se apodera do coracao do poeta, agitando-o e tirando 
delle sons que jamais sc ouviram ? Nao e ahi que o grande 
livro da natureza se abre deslumbr»ite e se desenrola pagina 
a pagina aos pes do Eterno ? » 

« Ah! e que bello pniz nao e o Brazil (declarava ainda 
nao ha muitos annos o barao d'Arcet, esse talento, como dizia 
um de nossos escriptores , queimado em flor como a innocente 
mariposa), ah ! e que bello paiz nao e o Brazil ! Parece in- 
crivel o que tern a sua natureza de poder, de forca e de vigor; 
tudo ahibrota, tudo ahi cresce; e uma vegetacao perpetua, 
desl umbra nte. 

« Ao chegar a esse paiz, e primoiro que se examine o que 
sejam os homens, o quetem feito por si, como (pie se fica 



LITTERATURA NACIONAL. 273 

detido na cuntemplaQao de sua admiravel natureza. Ah! o 
ceo offerece um bello espectaculo aos pobres assaz ricos em 
poderein-o ver e co:npreliendel-o ! Que orchestras poderao 
jamais valer essas harmonias ? Que pompas poderao nunca 
rivahsar corn taes maravilhas? ! Tudo e grande , tudo e bello 
quando se recebe das maos da natureza, e tudo quanlo ella 
vai produzindo! Um insecto, umafolha, podeni ser consi- 
derados de face ou de perfll , tudo tern seu lado poetico ale aos 
olhos do botaDico e do chimico. Acreditcm ! A sciencla nos 
arrefece esses ardores do pensamento, que fazem delirar; e 
ella assaz fertil para nada materialisar ; vivifica e nada esteri- 
lisa. Toda a sabedorla esta em nao chegar senao aos limites 
do incomprehcnsivel, c de k'l ao incognito nada mais pode 
fazer que admirar e calar ! . . . . 

« Sob melhor ceo do mundo encanta ainda um ?nar sem 
igual, e muito mais bello do (jue os de Italia, da Grecia e do 
Egypto. Reuna se a isso tlores e h'uctos sem numero; passaros 
einsectos, como diamantes com azas; um solardente, na 
verdade, mas tambem ama viragao que vcm quotidianamente 
ao meio dia para suavisal-a; uma viragao com a qual se conta, 
.que e quasi um direito; emfim, a salubridade do chma, e 
convir-se-lia que e preciso ser, como dizia Montaigne, assaz 
eslropcado de espirito, e, dil-o-hei eu, de coragao , para nao 
amar o Brazil. » 

« Os Brazileiros (exprime-se assim o Sr. Juan Valera) pos- 
suem um inexhaurivel manancial de poesia nessa natureza 
virgem que os rodea, repleta de bellos e magnificos objectos 
que ale o presenle nao te;n sido descriptos ; por toda a parte 
Ihe cercam mil novas imagens com que possam revestir sens 
|tensamentos, e mil novas inspirag^ues nao sentidas pelos poe- 
las da Europa. E certo que a hisloria de sua conquista nao 
e tao romancsca como a do Peru ou do Mexico ; nem tem 
como esles dous paizes Iradicoes tiio maravilhosas, nem my- 
thologia l"io variada. Nao ha lembranga, nem consta de suas 



274 REVISTA BRAZILEIRA. 

chronlcas que jamais existisse no Brazil uma tal ou qual civi- 
lisagao indigena comd essa dos Incas ou a dos Aztecas; nem 
muito menos ainda uma civilisaQao mais anliga como a que 
contou Mexico antes da invasao dos Aztecas, e de que fallam 
por si mesmo soberbas e cyclopicas ruinas. Nao faltam , to- 
davia, tradigoes brazilicas nem legendas de que se pode apo- 
derar apoesia, e das quaes com effeito se vao servindo ja 
OS poetas contemporaneos. » 

<f Parece (publicava ainda ha pouco um escriptor argen- 
tine) , parece que as artes e as sciencias buscam os formosos 
bosques de palmeiras do Brazil, suas montanhas e suas ilhas 
perfeitamente verdes , para plantarem no meio dos mysterios 
de uma naturezavirgem um romantico pavilhao para sen culto. 

< Alii tudo convida a essas pacificas victorias do espirito 
humano; e ao observar-se o voo magestoso das ideas nessa 
regiao afortunada , revive a desmaiada fe sobre os destinos 
do Novo Mundo. Emfim, um soberano dotado de uma intel- 
ligencia tao elevada, como seu coragao , ostenta no throno e 
na flor da mocidade o amor philosophico a liberdade e a sa- 
bedoria. » 

Do que flea exposto podera objectar-ss, nao obstante a 
opiniao de Humboldt, de Siuitiago Nunes Ribeiro, de Maga- 
Ihaes, do visconde de S. Leopoldo , de Ferdinand Denis, de 
Gavet e Boucher, do barao d'Arcet e outros a respeito de 
nosso paiz, que para aquelle que nasce debaixo de um ceo 
brilhante, — cercado de lodos os quadros de uma nalureza 
portentosa , viviflcado pelas auras perfumadas das (lores de 
sens bosques , que se acostuma desde a infancia, que se aveza 
todos OS dias ao espectaculo risonho, ou magestoso dos silios 
de seu patrio ninho , ncnhuma inllucncia devc exercer sobre 
a sua imaginagao e sobre o estylo dc suas obras — esse clima , 
— essa configuragao de seu solo, — essa physionomia de sens 
vegelaes , — esse aspccto da natureza risonha ou selvagem 
de seu paiz. 



LITTERATURA NACIONAL. 275 

Todavia , nao e o que acontece ; a imaginagao avigbra-se 
nesse bergo immenso, educa-se com o espectaculo que tern 
ante si, e como o condor, nascido nos pincaros dos Andes , 
olha e contempla ainda implume a immensidade do espago , 
e depois sem temor ensaia o hardido voo ; nao e o adejo do 
passaro que vai como a briza sem murmurio pela superficie 
das agoas ; nao e o voo da ave que nao se atreve a conquistar 
gremio das nuvens; e a balada do gigante dos ares que 
sacode de suas amplas azas o ronco longinquo do trovao, cujo 
imperio atrevido invade, devassa, domina. Ah! bem de- 
pressa a inspira^ao impera em seus cantos immortaes ; parece 
que resoam nos seus versos as agoas sonoras das cascatas de. 
suas serranias , e das Igcoaranas de seus rios , o bramido 
do oceano minando as cavernosas penedias de suas praias , 
trovao repercutindo-se nas abobadas abrasadas pelo halito 
da tormenta, e echoando nas quebradas das cordilheiras ; o 
grito immenso, horrendo, roufenho do tufao baloigando-se 
nas grimpas externas das floreslas; parece quese ouvem em 
suas endeixas o gorgeio doce e suave dos passaros, os solugos 
da briza que passa por entre (lores ; o seu estylo reflecte como 
um espelho o azul de suas serras, o anil de seu ceo , a luz de 
seus diamantes, o brillio de seus astros, o iris de suas flores, 
verde de seus bosques. Umas vezes e como a ave que re- 
monta de um so voo a immensidade e some-se no infinito; 
outras , raio que estala nas abobadas celestes ; agora sera 
a borboleta de azas de ouro, e que esvoaga como uma flor 
aerea ; logo a abelha dourada que susurra seu hymno, libando 
nectar das flores ; alii e o rio caudaloso que tudo arrebata 
em sua marclia triumphal coroado de pennachos de florestas 
que arranca as suas margens , entoando no seu bramido o 
canlico do suas victorias antes que se perca no oceano; aqui 
ribeiro que serpea entre as hervas aromaticas e se espre- 
guiga pelas campinas. Seus liymnos sao o reflexo de sua 
imagina(;ao, sua imaginagao e o espelho do seu paiz , que se 



276 REVISTA BRAZILEIRA. 

anima como uma prosopopea sein fim ao aceno que o inter- 
roga. 

E certo que nos primeiros cantos de nossos poetas nao se 
enconlram inspiracoes nascidas da natureza americaua. Nao 
foi a educaQao europea que Ihes apagou a inspiragao — era a 
itlade que ahida Ihes nao havia Iransmittido o enthusiasmo — 
era a idade que ainda nao havia foraiado o seu canto sob os 
ensaios de sens gorgeios. Ningaem ainda buscou nos pios in- 
fantis das aves implumes, quando mal ensaiam sens adejos, 
as harmonias com que depois saudam os arrebues da manhaa 
e da tarde. Os primeiros preludios perdeiam-sc talvez na 
B razU ia de (jOUQuIo daFranga; repetiram-S3 depois na lyra 
de Claudio Manoel da Costa, e no alaude amoroso de Silva 
Alvarenga; as primeiras harmonias soaram no r/v/(/»rty de 
BasiUo da Gama , no Caramuru de Santa Rita Durao , na 
Assumpi'do de S. Carlos, nas odes palrioticas deNalividade 
Saldanha; nas eslrophes brilhantes de Jose Bonifacio, nos 
mysticos SMS])jros de Magalliacs, nos bellos Ca»/os de Gon- 
Qalves Dias, e nas porlentosas BrazUianas de Porto-Alegre. E 
quem dnvidara que elles sejam inspirados [)ola natureza do 
sua palria? Nao ouvis nos cantos de Claudio Manoel da Costa 
OS trinados das aves dos nossos bosques? Nao sentis nos ma- 
drigaes e rondos de Silva Alvarenga o perfume das flores ainda 
agitadas pelo rapido adejo do beija-flor? Nao conheceis lodo 
nosso paiz nos cantos de Santa Rita Dnrrio e de B.isilio da 
Gama? Nao encontrais no Paraiso de S. Carlos as flores , os 
fructos, as arvores, os bosques, os monies, as cascatas de 
nossa terra? Nao escutais nas odes pindaricas de Natividade 
Saldanha o ribombo daartilhariadosBatavosretumbando nas 
serras dos Guararapcs, e a iuta disracas que compoem a 
colonia, actuando unidas para urn mesmo llm, debaixo de 
urn unico principio? Nao assislis a esse catadysma ijuc innda 
a conligiiracao da antiga Guanabara na Metamorphose de 
Januario da Cunha Barbosa? Nao vos assombrais com a des- 



LITTERATURA NACIONAL. 277 

trui^ao das florestas de nossa patria, ou nao exultais de prazer 
com a pompa, com a grandeza colossal do Rio de Janeiro , 
nas Brazilianas de Porto-Alegre ? Nao suspirais pelas terras 
da patria , palpitando de amor por elia nos Siispiros de Ma- 
galhaes? Nao penetrais na taba ruslica do indio, e nao la- 
mentais as suas desgragas nos Cantos de Gongalves Dias ? 
Nao vos engrandeceis com a pintura do oceano immenso , e 
do espaQO sem fim , quando Jose Maria do Amaral exclama : 

Quero entornar minh'alma em tauto espa^o, 
Quero em tanta grandeza engrandecer-me ? 

Poetas nacionaes , elles nao forgaram a imaginaQao para 
produzir o que unicamente Ihes inspirou a patria, e alguns 
delles bem distantes della ! Sim , e longe da patria que a ins- 
piraQiio actua com mais forca : e a imagem do sol se repro- 
duzindo no seio das .trevas, bcUo e pomposo como surgiu do 
nada a voz de Deus. Tanta for^a tern a inspiragao para o poeta 
que para elle nao ha mares nem espagos ; elle pede a sua me- 
moria a pinlura de sua patria ; longe, distante, os objectos 
como que se cngrandecem avultando no seu horizonte im- 
menso, e dahi a e^ageraQao ; e o pincel que carrega na tela 
a medo que as tintas se Ihe desbotem, esmoregam e morram ! 

A natureza, fonte perenne, nao se esgota; a inspiragao 
dimana della inexhaurivelmente ; o Brazil , dotado de seus 
primores, de suas beliezas, de suas maravilhas e de suas 
iiiagnificencias, tem ante si urn futuro que pasma . cheio de 
grandeza , de gloria e de prosperidade ; elle inspira , e pois 
elle tera nessas epocas, que ahi vem,grLipos brilhantes de poe- 
tas em todos os generos , como as constellagoes luminosas e 
scinlillantes de seu ceo. 

Nada dependera da natureza da patria que clla inspira , 
mas ludo dos homens e de suas instituigoes. « America ! (ex- 
clama urn de seus illustres filhos, um poeta argentino, o Sr. 

n. B. III. 19 



278 RE VISTA BRAZILEIRA. 

Jose Marmol) quando a liberdade tiver cravado o sen throno 
de alabastro debaixo de teu forjiioso ceo ; quando a civili- 
sagao se derramar sobre a fronte do sens Qlhos, bellas como 
sol que as doura,, o genio americano abrira suas azas sobre 
mundo , e, a sua sombra, os Andes e o deserto, o Parana 
eoAmazonas, tuas flores e teus bosques, tuas tradicoes c 
tuas glorias , nao serao ja senao propriedade de teus filhos. 

« Esse dia chegara porvir do luundo e o patrimonio da 
America; porem os decretos da Providcncia sao executados 
pelo homeni, .e e necessario trabalhar. 

« Nossos pais nos derarn niiia indcpeudencia politica; cum- 
priram a sua niissao, nao devemoscxigir mais. Sonios nos, 
sens filhos , os que dovemos dar contas as geracoes futuras 
do emprego que fizemos da nossa epoca. Temos de continuar 
a revolucao, porque a Hespanha e Portugal ainda iniperam em 
suas antigas colonias ; e temos de finnar uma independencia 
quica mais cara — a independencia intellectual. » 

J. NORBERTO DK S. S. 



LIlVGlIISTia 



Carta do Dr. Castro liOpes ao 111°'° e E^^""" Sr. Dr. S. 
sobre a utilidade tlo estudo da lingua latina. 

Em resposta a sabia e obsequiosa carta, que V. Ex. me 
dirigira para provar que o estudo da lingua latina e inutil na 
actualidade, promettendo-me moslrar em uma segunda parte 
que e tambem pernicioso ; cumpre-me , antes de encetar a 
refutagao dos seus argumentos, pedir venia para , desviando 
de mim como improprias e mal assentes as boas palavras , 
de que tao generosamente dignou-se de usar a meu respeito, 
empregal-as em referenda a pessoa de V. Ex. , a quem per- 
feita e verdadeiramente quadram. 

Satisfeito este dever , comecarei a tarefa , que , embora 
deleitosa , nao preencho agora com o mesmo prazer de outros 
tempos, em que nao arrastava uma vida ingloria e melanco- 
lica , tropegando a cada passo na senda de prosaico positi- 
vismo, mas vagueava de continuo pelas especulativas regioes 
da amena litteratura. 

Diz V. Ex. que a proposigao , que se encarregou de de- 
monstrar , fara sem duvida arripiar as carnes e o cabello a 
quasi todos os que a ouvirem ; e que eu mesmo nao a po- 
derei ler tranquillo : devo desde ja prevenir ao meu adver- 
sario (so relativamente as suas ideas quanto ao latim) que, 
comquanto defenda por convicgao a these contraria, nao per- 
teuQo todavia ao numero daquelles , que a forga de muito ha- 
verem estudado latim , tem-se lanto enamorado dessa lingua , 



280 REVISTA BRAZILEIRA. 

que tudo quanto latim nao seja, entendem que nno presla, ou 
e pelo menos muito inferior ao idioma de Cicero. Sirva esta 
previa declaracao , cuja verdade se prova nos esforcos , que 
emprego para acabar com a rotlna do cnsino do latim, e que 
me hao de adquirir mais desaffeigoados do que amigos , — 
para tornar menos suspeitos os meus argumentos , que serao 
portanto fillios legitimos da razao , e nlio fructos de uma cega 
paixao por essa lingua , de que nao quiz V. Ex. , apezar de 
condemnal-a, prescindir na sua cilaQao tao modesta — Si 
deficiunt vires , etc. 

Traga V. Ex. em um breve , njas vivo ([uadro, o estado dos 
conhecimenlos Immanos na idade media, epoca na verdade 
triste para as letras pela barbaria, que reinava entao no 
mundo conhecido. Nao descoberto ainda pelo incansavel 
Gutlemberg o prodigioso meio de perpetuar a palavra , nao 
Armadas ainda em cada nac/io as linguas , mas confundidas 
e adulteradas pela mislura das vozes barbaras dessa torrente 
invasora das regioes hyperboreas, e enlorpccido o progressivo 
movimento , que doviam naturalmente ter as sciencias e le- 
tras da antiguidade por esta catastrophe de onze seculos de 
duragao, — e evidente que os conhecimenlos humanos de 
entao eram ainda os que pcrtenciam ao dominio das nagoes 
antigas, Grecia eRoma principalmente, c que as linguas, 
em que elles se cncerravam , eram a grega c a lalina. A Phi- 
losophia , a Historia , a Jurisprudencia , a Poesia , a Rhe- 
torica linham como oraculos aqucllos mesmos nomes famosos, 
que cnnobreceram os seculos de Pericles e de Augusto ; por- 
que espirito guerreiro e fanatico daquelles tempos nao se 
dirigia ao cultivo e aperfeicoamento das letras, entregue so- 
mente ao furor dos combates, a cegucira da superslicao , e as 
alternalivas de romancscas aventuras. 

Em uma palavra, as linguas grega e latina eram as de- 
positarias do que em letras e sciencias se conhecia, e por 
consequencia, como judiciosamentc observa V. Ex., muito 



LINGUISTICA. 281 

cxplicavel e que iia idade media se aprendessem aquellas 
duas linguas mortas, que com toda a razao e niuito devida- 
mente se chamaraiii sabias, visto que continham toda a scien- 
cia de cntao. Comego, pois, ja desde este ponto, a discordar, 
bem a meu pezar, da opiniao de V. Ex. , quando diz nao ser 
latim lingua sabia ; e entendo que , se iiaquellas epocas era 
apropositadamente assim denominado, por e ncerrar a scien- 
cia daquellas idades, nao menos propria sera hoje a denomi- 
napo que se Ihe da de universal , e ainda de lingua sabia , 
visto que em todas as Universidades , Academias, Faculdades, 
e Sociedades scientiflcas ou litterarias do mundo , e a lingua 
de que podem usar os estrangeiros cm quaesquer obras que 
Ihes apresentem. Ainda accre.^centarei mais as boas razoes 
que ha para acertadamente serem cbamadas sabias — o po- 
deroso auxilio philologico, que ambas estas linguas (o grego 
e lalim) prestam a technologia de todas as sciencias, ainda 
mesmo as de que nao tivera conhecimento a antiguidade ; e 
V. Ex., eximio cultor daquellas, nieUiordo que eu sabe quao 
valiosa e importanle e nas sciencias essa linguagem peculiar 
acadauma, e esses neologismos, que, pela admi ravel vir- 
tude dessas duas linguas , se formam de palavras , que , ex- 
priinindo cada uma de per si noyoes universaes, representam, 
por artificiosas conibinaQ(5es, ideas novas, que difficilmente 
achariam termo equivalenle nas linguas modernas. Daqui , 
pois, se ve que, mesmo para a facil comprehensao do tech- 
nismo das sciencias, e de utilidade o conhecimento de qual- 
quer das duas linguas, muito devidamenle chamadas sabias. 
Mas, diz V. Ex. , sera bom, util , sera natural no seculo 19 
estudar-se latim ? Haveraquem diga que o latim seja instru- 
mento para acquisigao das sciencias e artes ? Sera nas obras 
que nos deixaram os Romanes, continua V. Ex. , que apren- 
dcrcmos a Physiologia, o Direito, a Religiao , a Historia, etc. ? 
Logo depois estabelece V. Ex. como principio incontroverso 
(jue saber uma lingua , assim como saber ler , nao e mais que 



282 REVISTA BRAZILEIRA. 

possuir urn instrameiito ; e que (iia sua opiniao) para nada 
sei'vindo latim , e rematada loucura aprendel-o, gastando 
com isso tempo, que em vao empregamos por esquecermos 
logo esse inutil instrnmento apenas apreiidido. Exaininemos 
estes argumentos. 

I5 sem duvida, meu illustrc doutor, bom , e util, e ate e 
natural estudar o latim mesmo no seculo 19 : ao menos na 
Europa culta, e nella em todos os paizes onde a inslrucQao c 
um ramo de servi^o publico, para o qual se allende com lanto 
ou maior cuidado como para outros que affectam os vitaes 
interesses do Estado, o estudo do grego , e principalmcnte do 
latim, occupa a attencao do governo , c dos liomens sabios , 
como melhor do que eu V. Ex. sabe. Os milhares de edi^oes 
que de todos os cla^sicos latinos se tern feito com um esmero 
e escrupulo nunca assaz admirados ; as investigagoes philolo- 
gicas dos profundos litteratos da AUemanha sobre a lingua 
latina, sao provas irrefragaveis de que e util estudar mosmo no 
seculo 19,e ate a consummagaodos seculos, a lingua quefallou 
esse povo late rex. Apresento o argumento da universalidade 
do ensino do latiai, porque estou bem certodequeV. Ex. 
nao podera ter como cousa que pouco vaiha, e erronea, este 
geral consenso de opinioes nos paizes cultos sobre a conve- 
uiencia do estudo da lingua latina. Uma lingua ja de si difli 
cultosa, nao fallada, e que entretanlo lodas as nac^oes polidas 
cultivam com ardor e paixao, tern em si mesma alguma cousa 
de grande ; e sob essa illusoria apparencia de inutilidade en- 
cerra, e contem por certo muito de proficuo e de util. Antes 
de desenvolver-me mais a este respeilo, devo occupar-me 
com argumento principal , sobre que V. Ex. se flrma para 
provar a inutilidade do latim actualmentc. Saber uma lingua, 
e na verdade possuir um inslrumento , e sendo o latim lingua 
nao fallada liojc , e debaixo deste ponto de vista inutil estu- 
dal-a, diz V. Ex. ; mas sera so proficuo aprender linguas vivas 
pela necessidade que temos de communicarmo-nos com os 



LINGUISTICA. 283 

povos que as fallam ? Se esta fosse a uiiica vantagem , nao 
deveriam ser aprendidas todas as linguas vivas , ainda mesmo 
as das mais barbaras e selvagens nacoes, com preferencia ao 
gregoaiitigo, e ao latim, que ninguem mais falla? Nao e, 
porem, diz V. Ex. , a unica vantagem de aprender as linguas 
vivas possuir urn instrumento de correspondeacia interna- 
cional ; mas poder estudar e acompanhar o progresso das 
sciencias, que eslao escriptas em francez, inglez, aliemao, 
italiano, etc. 

Nao necessito dizer a V. Ex. que em sciencias at6 o meio 
do seculo passado, e mesmo hoje, posto que mais raramente, 
nos paizes que mais a cultivam, lem-se escripto em latim : eu 
mesmo ha dous ou tres annos Iraduzia, e ja tinha quasi em 
metade uma obra scientifica moderna — A materia medica 
brazileira escripta recentemente em latim por Martins — , 
quando lui surprehcndido pela publicagao de uma traducgao 
da mesma obra, cujo iiiterprete comegara antes de mim, 
sem que eu soubesse , igual tarefa. Todos os dias ahi appa- 
recem medicos estrangeiros , que ignorando a lingua portu- 
gueza, escrevem em latim, isto e, na lingna que deve ser 
conhecida pelos homens da sciencia, as suas dissertagoes , 
respondendo , esendo muitas vezes arguidos em latim pelos 
respectivos cxaminadores. 

Alem disto V. Ex. sabc que para os botanicos e o latim a 
lingua da sua sciencia, sejam Brazileiros* Portuguezes, Fran- 
cezes , Inglezes , etc. 

Posto que ja por muitas e diversas causas nao seja o latim 
tao geralmente bem sabido como outr'ora, quando represen- 
tava mesmo que hoje representa o francez ; bem que ne- 
nhum povo falle latim classico, e as sciencias estejam es- 
criptas mais commuminente em linguas modernas, — ha, e 
havera scmpre uma indeclinavel necessidade de estudar essa 
lingua, nao pelas duas razoes, que diz V. Ex. apontam os sens 
apaixonados, isto e, desenvolvcr a intelligencia, e aperfeicoar 



S84 REVISTA BRAZILEIRA, 

a lingua portiigueza ; razoes que, tendo alguma cousa de real, 
nao sao todavia absolutaraente, e em toda a sua latitude 
verdadeiras ; mas pelos motives que acabo de exhibir , e per 
oiitrosque passo a expor. 

A preponderancia , universalidade, e per asslm dizer a 

soberania da lingua latina pertenceriam do mes iio mode a 

qualquer oulra lingua , cujo povo se achasse nas circumstan- 

cias especiaes , em que se acbava o romano , que parecendo 

ter, ou antes tendo realmente tocado o apogeo da gloria, do 

poder, e da civilisacao relativa a lodos os oulros povos do 

mundo entao conliecido , devia forgosamente imprimir na- 

quelles, que por muito tempo Ihe pagavam vassallagem , o 

caract^r indelevel do seu dominio : tudo quanto por conse- 

quencia estivera sob o poder romano conservou mais ou 

nienos modificados pelo correr dos seculos os vcstigios da 

primitiva influencia dessa nacao conqiiistadora ; e tao fundas 

foram as raizes que por todo o vasto lerritorio de suas con- 

quistas langara esse povo colossal , nao obstante liaver a in- 

vasao dos barbaros alterado as linguas dos paizes por elles 

subjugados, — que predominou comtudo em quasi toda a 

parte a lingua lalina. Com effeilo, assim era natural succeder, 

por ser uma lingua ja firmada , polida, e que encerrava o que 

de melhor se conhecia em sciencias c letras; accrescendo que 

foi elia afonte d'onde extrahiram as linguas do Meio-dia , 

e mesmo as do nort?J da Europa , a immensa copia dc voca- 

bulos, com que se enriqueceram. A Peninsula Iberica, cspe- 

cialmeute a Lusitania , e nao fallo ja da Italia , territorio pelos 

Romanos babitado, ahi eslao provando nos sens respectivos 

idiomas a influencia latina. A V. Ex. nao podc ser estranho 

por certo quanto se infdtrara por toda a Europa o clemento 

romano , pois que ate principiosdo seculo 17 lodos ou quasi 

lodos OS actos ofliciaes em Franc,a , Iiiglaterra , Alleraanha , 

elc. , cram escriptos em latini , lendo sido ale em Franga ne- 

cessaria a publica^rio de cinco editos ordenando aos magis- 



LINGUISTIC A. 285 

trados e autoridades civis que escrevessem em fraiicez. Em 
Portugal, e entre nos ate o principio do seculo actual, muito 
vulgar era o emprego do latitii em pe^as officiaes , e prin- 
cipalmente no foro ; tanto que, ainda ha dous annos, fui es- 
colhido para Iraduzir cm uns autos tengoes dos desembarga- 
dores, que as escreveram em latim, 

Dir-me-ha, porcm, V. Ex., que lacs causas sao verdadeiras^ 
e que por certo ja Ihe eram conhecidas ; mas insistira na sua 
pergunta: — porque ainda latim , se em linguas mais faceis 
temos todos os conhecinienlos humanos , todas as sciencias , 
etc. ? Eis ponto essencial. 

Segundo me parece, essa paixao, esse ardor, e direi mesmo 
veneragao, com que as nacoes civilisadas ainda neste seculo 
se entregam ao latim , e fazem obrigatorio o seu ens i no para 
OS que pretendem iniciar-se nas sciencias e letras , procede, 
talvez, alem de outras razoes , que daqui lia pouco apresen- 
tarei , de um certo instincto de gratidao , de um como vinculo 
consanguineo, que liga o mundo moderno ao mundo antigo : 
apego a lingua latina , o estudal-a apezar de suas difficul- 
dades, e como que a expressao de um amor filial, que busca 
por este mesmo cultivo patentear-se ; e, por assim dizer, o 
modo de pagar a immensa divida contrahida pelos modernos, 
que dos antigos beberam as sciencias e letras , que depois 
aperfeicoaram com o anrlar dos (empos. Em verdade, quando 
nenbum outro motivo bouvesse para esludar o latim, bastaria 
a consideracao unica de que foi esta lingua a mestra dos sabios 
niodernos, que tanto aprezaram, e veneraram, — para reser- 
varmos um espaQo de tciiq)o, ([ue nunca se perde , em apren- 
del-a. 

E aqui occasiao de enfadar-me um pouco com V. Ex., quan- 
do na sua vebemente colera contra o latim, e sens defensores , 
parece negar aos antigos vastos e vari^dos conbecimentos, 
muitos dos quaes, bem consideradas as circumstancias do 
mundo actual com as daquellas epocas, nao se tern propor- 



286 REVISTA BRAZILEIRA. 

cionalniente adiantaclo quantoerade esperar, attenlo o pro- 
j,'resso, que anima e ennobreceos tempos moderiio>. Pergunta 
V. Ex. , para provar a inulilidade do estudo do lalim , se sera 
per Ventura nas obras , ([ue nos deixaram os Romanes , que 
aprenderemos a Astronomia, a Chimica, a llistoria, o Direito, 
a Medicina, etc.? 

Nao e certanieote nessas obras que ircmos de prefercncia 
estudar essas scicncias ; assim como tanibem nao c preferindo 
asedigoes antigas as novissimas de livros scientificos c litte- 
rarios , escriptos em linguas vivas , que nos vauios instruir da 
marcha dos conbecimentos bumanos : nao obstante , essas 
mesmas obras latinas devem ser consultadas por todos os que 
se appUcam as scicncias, e indispensavebnente pelos que se 
dao ao estudo puramenle biterario. Nao temos, e verdade , 
livro algum dos Romanos sobre financas , sobre economia po- 
litica, sobre geologia ; mas depois dclles tambcm, por muitos 
seculos nem se suspeilava a existencia dcsta e de outras scien- 
cias. Diga-me porem, nieu iliuslre doutor, sc para aquelle 
que querpassar, verhi gratia , por uni distincto arcbitccto , 
nao e trisle que ignore a lingua cm que escreveu Vifruvio, 
inipedido assim de ler originalmente as suas obras, aRm de 
conhecer ao menos a historia da arte que professa ? Nenbum 
medico certamente estudara porexemploCelso de prefercncia 
a qualquer escriptor de medicina moderna (ainda mesmo 
aquelles que formam grossos volumes inventando Ibeorias, e 
creando palavras, mas nao adianlando nada do positivo e de 
util sobre a tberapeutica); porem que medico dcve ignorar ao 
menos as sabias inslruccoes dietelicas, e mesmo a parte ci- 
rurgica do Hippocrates nedioirua, do Cicero medico , como a 
Celso cbamavam os medicos do 15° e IG*^ seculos? Nao e antes 
para lamentar que alguns profissionaes, pela ignorancia das 
antiguidades, caiam no absurdo de suppor que Hippocrates 
escrevera em latim (como ja lenbo ouvido) , isto por que nao 
aprcndcm pela mor parte o grego, e mal conbccem Hippo- 



LINGUISTICA. 287 

crates [)ela U'aduc(;ao latina, cujos aphorismos copiam cle 
umas para oiilras theses os aspirantes ao doatorado medico? 
Muito se ha escripto em medicina; mas que sabio moderiio 
jamais soube exprimir tao concisa, e tao synlheticamente , 
como veiho de Gus, certas verdades geraes, e axiomaticas, 
que podem-se considerar como pontes cardeaes da medicina? 
Pergunta tambem V. Ex. se nas obras que nos deixaram os 
Homanos e que iremos apiender aHistoria? e onde pode- 
riamos nus outros aprendel-a seniio nelles, pe^o eu agora 
venia para pergunlar a V. Ex.? que saberia o sapientis- 
simo Cesar Canlu, RoUin, Anquetil, e mil outros, se as aureas 
fontesdos Livios, dos Sallustios, Floros, Cesarese Tacitos nao 
Ihes fornecessem o conheci.nento dos usos, dos costumes, e a 
veridica narra^ao dos successes contemporaneos ? Em uma 
palavra, o quesaberiam os modernos acerca do mundo an- 
tigo , se nao fossem os iivros latinos ? Todos os que lemos a 
Historia, vemos a cada passo as citagoes daquelles autores 
latinos, iinicas fontes para a historia antiga de grande numero 
de paizes. Das Gallias, da Germania, por cxemplo, e de 
suas extravagantes usancas, o que conheceriamos nos, se 
nao nos deixassem Cesar e Tacito minuciosas descripgoes, 
cste ultimo principalmente no sen livro — De moribus 
Germanue ? 

Os antigos nao devem ser desprezados ; e sobre sens pro- 
prios erros que se ergue magestoso o ediflcio da sciencia mo- 
derna : o culto que elles mesmos renderam aos que os pre- 
ccderam, insiincio que no ho mem se revela sem.pre , e um 
exempio que as geracoes vindouras vao sempre imitando de 
umas para as outras : as ideas crroneas , que sobre muitas 
sciencias tinham, se niio nos illustram por absurdas, gozam 
da feliz vanlagem de despcrtar-nos , e estimular-nos na pes- 
quiza da verdade: olhando compassiva, ou desdenhosamente 
para scus defcitos, csforc^amo-nos em nao soffrer da posteri- 
dade igual dcsprezo. Plinio, o anligo, que nos legou 37 Iivros 



288 REVISTA BRAZILEIRA. 

sobre Historia natural, com todaarazao chamados Encyclope- 
dia Romana, trata ne'les Jeastronomia, geoiiietria, inineralo- 
gia, agriciiltiira, physica, bolanica, anatomia,artesmccanicas, 
e de luxo, etc. E deve ser tido em poiico urn homem, que tendo 
escripto alem desta iimitas outras obras, quenao chegaram as 
nossas maos , serviu como mililar a sua palria, e administrou 
provincias? E por sem duvidadigno de todo o respeito um 
sabio tal,qae tem enlre assuas glorias haver servido de modelo 
ao eloqacnte ButTon, e ter sido annolado pelos professores do 
Jardim das Planlas, e por alguiis merabros do Instiluto de 
Pariz. Pergunta mais V. Ex. se sera nos livros que iios dei- 
xaram os Romanes, que aprenderemos o Direito ? A este res- 
peito mui pouco direi , porque seria grandc ousadia da minba 
parte fallar com um jurisprudente, como e V. Ex., sobre ma- 
teria para mim tao estranha : comtudo permilta V. Ex. 1cm- 
brar-lhe que sabios jurisconsultos estao de accordo em con- 
siderar o Direito Romano como a base e o complemento das 
legislacoes modernas, e tal c o elogio que delle fazcm, que o 
denominam — a razao escripta. 

Nao direi, I'allando em geral do Direito Romano, o que 
exageradamente disse Cicero (De Orat., 1. 1, c. 44) fallando 
das leis das doze taboas : « Bibliothecas, me hercnle, omnium 
philosophonun unus mihi vidctur XII tabularum libeUus, si 
qiiis legum f antes, et capita v icier it, et auctoritatia ponder c et 
utilitatis nhertatc super are; » mas citarci as palavras de 
Leibnitz quando, referindo-se ao desenvolvimento da sciencia 
do Direito, assim se exprime: « Dixi sa'pius , post scripta 
geometrarum nihil exstare cpiod vi ac siibtilitate cum romano- 
rumjurisconsultorum scriptis comparnripossit ; tantam nervi 

inest, tantum profunditatis V. Ex. deve mui bem co- 

nhecer OS nomes e obras dos Mucins Sctevola, Servus Sul- 
piliusRufus, Tubero, Gajus, Emilius, Papinianus, .lulius, 
Domitius Ulpianus, Paulus, Modoslinus, etc. , nomes illustres 
na sciencia do Direito. Creio mesmo que ainda hoje sao eslu- 



LINGUISTICA. 289 

dadas as Panckctas do imperador Justiniano, e nao sei se os 
sens Institiita e Novella. 

Suppondo haver mostrado que a lUilidade do estudo do la- 
tim nao consiste so em desenvolver a intelligencia , porqiie 
entao , como judiciosamente diz V. Ex., todos quantos nao 
soubessem a referida lingua seriam menos intelligentes, o 
que nao vemos acontecer , direi comtiido que e o seu conhe- 
cimento urn indispensavel auxiliar para os que se dedicam ao 
estudo das bellas letras ; guardando-me para daqui ha pouco 
provar esta ultima proposifao. Antes porem notarei , que se 
V. Ex. me apresenta os nomes de diversos artistas, como 
Rubens, Donizetti, Bellini, Vaucanion, que foram eximios 
na sua arte sem sabercm uma so palavra de latim (o que nao 
posso affirmar) ; isto nao prova: 1'^, que se o soubessem, te- 
riam sido inferiores; 2°, que qualquer homem , notavel em 
algum ramo artistico , litterario ou scientifico, sabendo latim, 
perca por isso de seu mereclmento, ou niio sejatao conspicuo 
como aquelle, que iguulando-o na arte ou sciencia que pro- 
fessa, ignore a lingua latina : e se o conhecimento dcsta nao 
pode directamente concorrer para fazel-o mais insigne na 
respectiva profissao , tambem o seu espirilo nao perde com 
a posse desse instrumento. Urn pintor, por exemplo , que 
soubesse hem latim , teria muitas vezes occasiao de repro. 
duzir habilmcnte sobre a tela, materialisando a palavra do 
poeta, essas bellas descripgoes de Yirgilio , de Ovidio, etc. ; 
e e isto o que vemos succeder com os grandes mestres em 
pintura, quando possuem bom cabedal de eruuigao. 

Tambem 6 aijui logar de observara V. Ex. queNapoleao, 
se e verdade o que diz Guizot , amava o latim, e os escriptores 
romanos. Scrvir-me-hei das palavras do mesmo Sr. Guizot, 
proferidas no discurso de recepgao de Biot na Academia 

Franceza cm scssao de 5 de Fevereiro deste anno : 

« Como ! replicou Napoleao , ja nao sc sabe o latim em 
Franga ?! Oh ! hei de ver isso. » E assim foi com effeilo. As 



290 REVISTA BRAZILEIRA. 

sciencias prosperavam antes delle, e sem elle ; a restauvagao 
porem dos estudos litterarios e classicos foi obra sua : Os 
creadores humanos do hello (note V. Ex. como o proprio Guizot 
denomina a Virgilio e a Cicero) , Homero e Virgilio, Tluici- 
dides e Cicero , retomaram , gragas a Bonaparte , sua posigao 
e seu imperio no desenvolvimento das jovens intelligencias 
(vide Jornal do Commercio n. 83 de 25 de IVIargo do 1857). 
Toco neste ponto em resposta ao que em sua carta me diz 
V. Ex., quando desta sorte se exprime : « Napoleao, o maior 
homem dos tempos modernos, nunca pode entrar com o 
latim. » 

E' tambem geralmente sabido que esse mesmo homem 
admiravel commentara as obras do immortal Cesar, onde por 
certo bebeu as inspiraQoes guerreiras , c a quem em tudo 
quiz imitar ; pois que, semelhante ao vencedor das GalUas, o 
filho de Leticia manejou com liabil dextra a espada e a penna. 

Ja disse, ha pouc >, que nao dava como unica razao da 
utilidade do estudo da lingua latina o desenvolvimento da in- 
telligencia; mas estou longe de negar que tal estudo concorra 
para esse fim ; e V. Ex. iguahiicnte o reconhece , quando diz 
que, uma vez que com elle se exerce o cerebro , tem-se ipso 
facto aperfeiQoado o orgao do espirUo. 

Entre as provas , porem , que apresenta para mostrar que 
sem latim nao deixa de haver intelligencia, nota que em 
geral as mulheies nao sabem esla lingua, e sao entretanto 
intelligentes. Concordando com V. Ex. , faco todavia uma 
restriccao , e vem a ser que M'"'- de Stael , Dacier , Sevigne , e 
outras apuraram essa mesma intelligencia tao geral nas mu- 
Iheres, e distinguiram-se d'entre as do seu sexo, por isso que 
sabiam nao so o latim , mas o grego ; sendo que Dacier 6 uma 
das melhorcs commentadorasde Homero.e dclloracio nasua 
ArtePoefica. E se eslas tanto apuraram a sua intelligencia, 
porque nao devercmos antes desejar que essa amavel porgao 
da humanidade se illustre igualmente, e cstude o grego e o 



LINGUISTICA. 291 

latim, bases eternas de uma educacjao Utteraria completa, 
afim de tornarem mais cheia de encantos a sociedade con- 
jugal ? 

Diz V. Ex. que os Grcgos nao sabiam latim, e que entretanto 
escreveram obras adniiraveis: nao serei eu por certo quern o 
negue ; mas parece terse V. Ex. contradicto , vlsto que , 
menoscabando as sciencias e letras dos antigos, diz na 3=^ 
pagina da sua carta : « Serinstruido, saber portanto nesses 
desgragados tempos era ter conhccimento do que haviam 
escripto Epicuro , Socrates , Platao , Aristoteles, etc. ; » entre- 
tanto que na pagina 8" dessa inesma carta diz que os Gregos, 
apezar de nao saberem latim, tinham tanta intelligencia, que 
escreveram obras que ainda lioje se lem com admiragao. 
Convem conlessar que assim e, mas cumprc reflectir que os 
Gregos, como todos os oulros povos que vao sempre buscar , 
nos antigos e nns nacoes que o.s tern precedido em civilisacdo , 
conhecimento das sciencias, letras e artes ; — iam estudar 
no Egypto, como fizeram Thales, Solon, Pythagoras , etc. — ; 
que os Romanos iatn bcber a instruccao na Grecia , como o 
proprio Cicero nos refere a seu respeito : por consequencia, 
do mesino argumento de V. Ex. infiro que cumpre remontar 
aos antigos, ale porque assim o espirito bumano percorre a 
escala do seu progresso , e lira a vantagem de conbecer as 
suas phases rcalisadas e possivcis. Em summa, o principal 
argumento de V. Ex. , para mostrar a inulilidade do estudo 
do latim , reduz-se ao seguinte : — que nao se deve estudar 
aquillo que nao pOde ter uma utilidade immediata, saliente, 
e de cujo conhecimento as necessidades da vida actual nao 
tirem proveito. 

Na verdade, nunca pensei que V. Ex. fosse tao exclusiva- 
raente ulilitario e positivista; pois que, se este argumento 
prevalece contra o estudo do latim, deve igualmente prevalecer 
contra o estudo de qualquer outra especialidade das que 
constiiuem as liumanidades propriamente ditas. Tal argu- 



295 RE VISTA BRAZILEIRA. 

mento e susceptivel da maior extensao, que se pode imaginar; 
porquanto, se diz V. Ex. que sem o latim podem haver grandes 
artistas, grandes medicos, grandes niathematicos, etc., com 
igual razao p6de-se tainbem dizer que o estiido da rhctorica, 
porexemplo, e inutil, porque nao tern uma immediata ap- 
plicagao ; que o estudo das mathematicas inutil e la-nbem , 
porque alem de ditficii, nao e tanlaa vantagein quecncerre, 
que se nao possa dispensar : visto como tantos c tao notaveis 
sabios tern florescido , nao sendo grandes niathematicos , e 
tendo ate para semelhante ramo decidida negacao. Urn prin- 
cipio falso arrasta sempre consequencias absurdas ; abyssus 
abyssum vocat. 

Eq , como ja fiz ver a V. Ex. , nao sou cego defensor do 
latim; mas no que jamais concordarei e em que deva ser 
abolido o estudo de uma lingua que e a fonte e origcm do 
hello, embora possam sem ella passar, e effectivamente 
passem se:n grande prejuizo, os artifices , os operarios , on 
OS que -vivem de qualquer oulra industria em condi(jrio menos 
nobre na sociedade. Apresenle-se porem um Jurisconsulto , 
um Medico, um Poeta, um Oradar, um Naturalista, um 
homem emtim que aspire aos foros de lelrado , ja nao digo 
de sabio , mas ignore o latim (note V. Ex. que me refiro a 
povos civilisados, e nao aquellcs que por muitosseculos en- 
cerrados em seusproprios dominios.ou habitando regioes fora 
do contacto do elemento civilisador da Europa, ignoraram o 
grego e o latim, como o resto do mundo ignorava a sua 
lingua e costumes); que importa que lenha qualquer delles 
talento natural e decidida vocacao cada um para o seu ramo , 
se esse talento nao se apura, nfio se llrma, nao se apcrieigoa 
noselernos modelos daantiguidade? 

Em toda a cruel exprobracao , que faz V. Ex. aos que pcr- 
dem tempo em estudar latim, nao vejo que ncgue, ao menos 
nas obras puramcnte lilterarias dos Romanos, o mcrito do 
pensamento, agrandeza, e sublimidade da idea; masque 



LINGUISTIGA. fdS 

somente condemna o ensino actual de uma lingua, cjue psitti 
ser aprendida demanda largo espa^o de tempo. Ora, sendo 
innegavel, e V. Ex. nada diz em contrario, que etVi poesia, 
porexemplo, seraoscmpre admiradas as mellifluas compo- 
siQoes de Virgilio, os sentimentaes e apaixonados tersos do' 
desditoso Ovidlo, o magestoso e energico estro de Horacio, 
etc. ; como prescindir de aprender, e bem , a lingua etn (fae 
taes thesouros se encerram ? Poder-se-ha dizer tambem aqui, 
como affirm a V. Ex., que nas linguas vivas acliamos lioje 
trasladadas todas as obras latinas, e que por isso nao xleces" 
sitamos de aprender a lingua do original? Se assim fosse , 
tambem nao seria a cegueira uma desgraga completa; porque 
ente, que viesse ao mundo privado da visao, podia julgar 
compensada essa falta, satisfazendo-se com a narragao do 
pasmoso panorama do mundo : o ho nem , que jamais tivesse 
ultrapassado os limites de seu paiz, nada perderia em nao- 
ter empregado algum tempo de sua vida viajando pelos paizes 
estrangeiros para admirar-lhes os monumentos, e maravilhas 
da natureza ou da arte; porquanto o buril do gravador Ihe poria 
diante dos olhos a estampa fiel de todas essas obras porten- 
tosas. Mas pode o cego de nascenca ter jamais uma idea ve'r- 
dadeira e completa do brilhantismo do sol, do pomposo e' 
arrebatador espectaculo da aurora , da magnifica e sublime 
abobada cerulea inundada pelos raios da alvinitente lua, e 
de fulgurantes estrellas? Pude elle formar uma ideaeXacta 
docoruscante lampejar do fuzil, dos escarceos do oceano ehi 
furia? E que importa que a arte reproduza na tela a imag'etft' 
de objectos, que nunca impressionaram nossas vistas? Por 
mais fiel que seja o transumpto, e sempre como a \ui rever- 
berada, pallido e libio. Semelhantemente, quern nunca tivfer 
estudado a lingua vernacula, jamais tera perfeito corihefci-^ 
mento das bellezas da forma, que nas obras de imaginagao 
poderosamente concorrem para aprimoral-as : oS grandes 
rasgos do pensamento, e a harmonica escructura, que o 

R. S. III. 30 



294 REVISTA BRAZILEIRA. 

reveste, se na mesma lingua nao podem ser expresses por 
mais de urn modo , menos podem ser transportados e vertidos 
para lingua estranha. Daquise infere portanto que, ao menos 
para a lilteratura propriamente dita , e indispensavel o estudo 
e conhecimento do latim. 

Aponla V. Ex. Mahomet como grande legislador, e diz que 
nao sabia latim : eu nao entro nesta qiiestao , mas apenas 
observarei que tendo elle escripto o seu Koran ou Alcorao , 
sob as inspiragoes da Biblia, e do Evangelho, e havendo-se 
ligado em suas viagens com. urn rabbino e um monge christao, 
pareccque, ou do grego, e mais provavelmente "do latim, 
devi'a ler conhecimento : nao obstante, nao cuide V. Ex. que 
disto quero concluir que procedeessanomeada, queopro- 
pheta arabe tivera; poisja tenho dito que pode haver e ha 
quern tenha vasta intelligencia sem saber lalim, como sem 
saber allemao, grego , rhetorica , etc., mas que nao concordo 
em que dahi se coUija que e inulil qualquer dessas cousas 
por ser possivel a existencia de grandes homens que as 
ignorem : a poi^se ad esse non valet consequenlia. 

Diga-me fmalmenlc , meu respeitavel amigo , poderia V. 
Ex. supportar um poeta, cuja imaginagao fosse alias bri- 
Ihante, se elle, nunca tendo hdo os inimitaveis preceitos da 
Arte Poetica de Horacio, desse codigo do bom goslo em 
poesia, soltasse as bridas a essa mesma inflammada imagi- 
nagao, e percorresse os ethereos espagos da phantasia? Nao 
seria essa mesma imaginacao, illudida specie recti, e igno- 
rando as restricQoes que a arte aconselha, capaz de pintar 
delphinum sylvis , fluctibiis aprum ? 

Quem , por maior que seja a eloquencia de que a natureza 
dotasse, pode dispensar pelo menos o modelo do eslylo 
oratorio do vehemente accusador de Catiliiia, se o proprio 
Cicero traduzia, copiava, e tinha sempre dianle dc seus olhos 
exemplaria (jrceca ?. . .. 

Meu illustre doutor, a cada pagina que escrevo para res- 



LINGUISTICA. 295 

ponder-llie, me parece que commetto uma especie depleo- 
nasmo ; porque lal e a convicgao que tenho destas verdades, 
e lao incontroversas as considero, que chego muitas vezes a 
persuadir-me de que a sua carta e mais um desses paradoxes 
litterarios, com que, novo Rousseau, folga V. Ex. de ostentar 
brilhantemente os seus vastos recursos intellectuaes. Mas , 
como quer que seja, eu devia a V. Ex. uma resposta; e aqui 
adou, mal fcita e verdadc, e tardia, por motivos porem 
independentes da minha voiitade. 

Permitta-me ainda que, ao terminar estas mal tragadas 
linhas, eu pe^aa V. Ex. que comigo se congrace acerca deste 
ponto, para que nao possa cahir sobre V. Ex. a justa incre- 
paQao que faz La Bruyere aos que nao olham com a devida 
veneragao para os antigos: «0n se nourrit des anciens, on 
les presse, on en tire lepliis que Ton pent, on en renfleses on- 
wages ; et qitand Von est auteur , et que I' on croit marcher 
tout seul, on s'eleve contre eux, on les maltraite , semblable a 
ces enfants diirs efforts, d'un bonlaitqu'ils ont suce, qui hat- 
tent leur nourrice. 

Rio de Janeiro, 5 de Abril de 1857. 

Sou de V. Ex. 
Aniigo respeitador , e criado obrigadissimo 
Dr. Antonio de Castro Ijdpes. 



CANTOS EPICOS 



\ Covda, de fogo* 

Era noite, — no ceo sereno e bello 
Brilhavam as estrellas. Fresca aragem 
Yinha ondeando brandamente as agoas 
Do aiireo Tejo, que em murmiirio triste 
Levava seus queixumes ao Oceano , 
• Que outr'ora o sceptro Ihe entregou dos mares. 

Placida e meiga , reclinada a margem 
De seu queixoso Tejo , adormecera 
A soberba Lisboa. — Decahida 
Senhora do Occidente, — nobre sombra 
De pompa, de grandeza e mageslade ; 
— Illastre moribiinda , a quern o fogo 
Da vida , que se exUngue , ainda aquece ; 
— Mai de lantos herues , que a eiiiiobreceram 
orbe avassallaiido ; — ella repousa 
Sobre Iropbeos de esplendidas victorias; 



208 REVISTA BRAZILEIRA. 

Cinge-lhe a fronte regio diadema 

Nodoado de sangue (1) e nos seus niuros 

Pompa, miseria, corrupgao , virtude, 

Supersticao e ignorancia dormem 

Dormem .... mas vela o fanatismo , e soffrem 
Em negros antros desgragados entes 
P'ra qaem a morte eternamente impera, 
Sem que a esperan^a Ihes lampeje ao mcnos 
Como um raio de luz rompendo as trevas. 

E dormia tao bella como d'antes 
Quando Gama voltava do Oriente 
Por indomitos mares nao siircados ; 
Quando Cabral buscava no Oceano, 
Para asylo da estirpe lusitana 
Nos evos do porvir, um novo imperio ; 
E Camoes, embocando epicatuba, 
luso no universo eternisava ! 

E dormia tao bella como d'antes 

Com seus sonhos de gloria, que na mente 

Em amplo peristyllo llie moslrava 

Do passado as accoos , que a beroificaram : 

Mas la d'entre os heroes que a patria vo'tam 

Curvados aos tropbeos que coniuistavam 

Tanto sangue vertendo , eis que desponta 

Um vulto feminil trajando verdes 

Douradas roupas. Vem em luz envolta , 

Incerta — ja mais bella— emriui distincta , 

E pura como a luz do diamante. 

Na fronte tern o elmo luzidio 

Inda c'roado co'as vistosas pennas 

De seu patrio cocar ; a dextra empunha 



A cor6a de fogo. 299 

A espada ratilante , que Ihe dera 

sen primeiro heroe, que em paz descansa 

Dentro nos miiros seus (2). E traz na sestra 

Escudo cor do ceo , onde rulila 

Aurea espliera armillar (3). No largo peito 

Inscripgao diamantina em faxa de ouro 

Patentea o seu nome Guanabara, 

E mais se approximava. No semblante 

Amorenado, como a tez do jambo, 

Tern urn riao-sei-que de magoado 

Que vem do coragao. Nos olhos bellos 

Duas ardentes lagrimas Ihe rolam ; 

Lisboa a reconhece. E ella , e ella , 

A princeza da America! Nosbragos 

A aperta, a beija, e as lagrimas Ihe enxuga, 

Que mal estanques novamente brotam ! 

« — Salve, augusta rainha do Occidente, 
Mai de tantas cidades, e senhora 
Das agoas do Universo , salve ! » 

Disse 
E se calara , e os echos acordando 
Nas quebradas da serra repetiram 
Tres vezes « — Salve! — » Magestosa e triste , 
Suffocando os solucos e contendo 
As lagrimas de dor, prosegue a bella, 
Fauslosa Guanabara : 

<•< — Sim , cidade 
Dos sete monies, gloriosa e ingenfe. 
Que tens sob teus pes leus verdes loiros ; 
Mai de heroes, que no orbe elernisaram 
Tantas virtudes coin teu nome e gloria , 
Quando remotas plagas perlustraram 



300 REVISTA BRAZILEIRA. 

Co'a palavra de J),eus , n'ellas plantando 
A civilisa^ao ^o som da harpa. 
Da flaula e do anafil , ai ! decahiste 
Do teu throno de gloria!. . .Envilecida 
Rojaste a regia fronte a torpe infaniia 
Do fanatisnio vil ! Ludibriado 
Por injuria sacrilega, cobarde, 
Cuspida sobre a campa , inda orvalhada 
Das lagrimas do povo , esposa e filhos , 
Aguarda o grande rei , o teu monarcha (4-) 
A hora da vingaiiga que nao soa ! 
E tu que eras inveja das cidades, 
Hoje em triste ignominia has convertido 
Teu fausto e tua fe. Cantos entoas 
A Deus por tanta infamia e iniquidade , 
Qqando outr'ora subias tuas preces 
Pelas tuas empresas. Os ministros 
Da tua Igreja alfim se corromperam, 
E em vez de asylo que a miseria amparem, 
Cavam masmorras humidas, sombrias. 
Esse inferno de horror, onde a tortura , 
Para saborear os seus martyrios , 
Suslem a vida na agonia extrema, 
Urn a urn arrancando os ais da morte ! 
jLa aos gritos de d6r e do martyrio 
Em torpes lupercaes a vida passam ! 

— Cerdos — qo lodo do prazer se eevam , 

— Midas — em fontes de ouro se saciam , 

— Abutres — os mortos desenterram , 

— Atheus— com a tonsura se cor6am 
E profanando do Senhor o nome 
Vertem os labios seus sagrados cantos ! 

*i E tu dprmes, Lisboa, recosla^«i 



A gor6a de fogo. 301 

Em Iropheos de victoria, como nunca , 
Oh ! nunca mais alcanQarao teas filhos t 
Mortos sao os heroes ! Cohorte infame , 
Pelo facho sanguento das fogueiras 
Trocou OS gladios seas. Em vez de ago 
Se vestem de eslamenha. E o qae te lucram 
Saas victorias? Que tropheos ? Queloiros? 
Que novas possessoes?. . . Somente cinza , 
Cinza fria, que ahi dispersa o vento ; 
E a vergonha emfim, labeo tremendo 
Que urn dia pelos povos do universo 
Em rosto a Portugal sera langado 
Como um escarneo vil, como um ferrete. 
Tu dormes , e o patibulo de fogo 
Se prepara nas pracas aguardando 
As victimas que os carceres povoam , 
Ja cansadas de tratos e flagellos , 
Que e para ellas lenitive a morte. 

« Rainha do Occidente ! Nao estranhes 

A filha tua esse dizer singelo ; 

Na nossa cara America — innocente — 

Como a filha da taba humilde e tosca , 

So tem cabida as fallas que nao mentem. 

Nascida ingenua nos mens verdes bosques , 

Onde viviflcou-me a aura sagrada 

Da liberdade , desconhego a arte 

Com que em tua c6rte adorna-se o discurso ; 

Mas justa e minlia d6r, e verdadeiras 

As lagrimas que choro agora e sempre. 

« Rainha do Occidente, empunha o gladio 
Com que outr'ora mil pugaas pelejaste , 



302 REVISTA BRAZILEIRA. 

E apaga essas fogueiras , e dos templos 
Varre esses sacrileges ministros, 
Auri-sedentes , pcrfidos algozes. 
Abre as portas aos carceres. Penetra 
A luz da liberdade essas masmorras, 
E vinga-mc tambem. Oh ! sim, Lisboa, 
Do filho de tiia lilha a vida salva ! 
Madrasta de Canioes, ai !'reslitue-me 
filho , meu poeta (5) que mais prezo. 
Ai! basta de niartyrios e flagellos, 
Que algozes nao. porem santos ministros 
De urn Deus, que e todo puro amor , inventam ! 

« Ah ! vinga me tambem ! Leva teus olhos 
Pelas plagas da America , que inculta 
Se diz a falta de fataes fogueiras, 
De tribunaes de sangue, de masmorras ; 
Veras minhas irmlis em d6r envoltas 
Chorando os fllhos seus , que Ihes roubaram , 
Para transpondo n mar , o ceo transpondo , 
Expiarem nas pragas e masmorras 
Ligeiras culpas que nem sempre existem ! 

— Nem pudor da Candida donzella , 

— Nem a honra da esposa e da viuva , 

— Nem fructo da industria c do trabalho 
Que obleve o anciao na mi)cidade, 
Podem nossas florestas occuUar-lhes. 

Os bracos da fatal concupiscencia , 
Da sedenta cobiga , vao la mesmo , 
Roubar-lhes ludo a troco de tormentos! 

« digno rival de Gil Vicente , 

Plauto do Brazil que Lysia honrava, 

Definha na masmorra (6) ! Denlro em breve 



A cor6a de fogo. 303 

sol vira dourar teus sete montes, 

E filho do Brazil , meu caro fllho , 

Entregue a vis algozes e a fogueira , 

Entre o horror das chammas ondulantes 

Sua alma mandara a eternidade. 

Com elle morrerao os seus martyrios , 

Mas ai da mai, da esposa e fliha sua (7) 

Que n'um valle de lagrimas expostas , 

A irrisao flcarao da bruta plebe ! 

Vede-o la iia masmorra (8) ! fi elle ! ^ elle ! 

Bragos cruzados sobre o peito , envolto 

Em longa noupa (9) , pensativo erra , 

E suspira e pranteia de saudade 

Longe de Leonor e de sua filha , 

A tenra filha , que no berco dorme ! . . . 

— Em vao por elle os grandes se interessam , 

— Em vao por elle os seus amigos pedem, 
E proprio clero o defender procura; 

— Em vao da esposa as lagrimas ardentes 
Correm, mas nao abrandam-lhe os verdugos! 

E elle soffre ; e n'aquella vasta mente , 
D'onde Deus fezbrotar tanta poesia, 
Arde a fogueira. que queimal-o deve , 
Mais e mais realQando os seus horrores ; 
No duro lei to se recosta e dorme , 
E no meio danoite acorda o triste 
Eatre a chamma e a fumaga de seu corpo. 
fi a febre que o escalda ! . . . Sao os sonhos 
Que porvir Ihe antecipam!.. . Que agonia 
De longas noites , que jamais se Qndam , 
Quando , ai ! pobre'^de mim, misero d'elle , 
Alegre o povo teu — ebrio de g6zo — 
Seu genio applaude em publico theatro !... 



304 RE\aSTA BRAZILEIRA. 

« Lisboa , inda uma vez attende , escuta 

A triste Guanabara, a predilccta 

Filha de tua America ; — Desperta ! 

Vinga a ti e a mim ; acorda os Lusos ; 

Chama por teus heroes ! Ah ! vence e doma , 

E aniquila o tribunal de sangue , 

Que a coroa de espinhos convertera 

Em carocha, e o sudario em sambenito, 

A cruz no poste erguido da fogneira, 

fel da esponja era fogo chanimejante , 

E na sua irrisao se disse — Santo ! » 



« Rainha , eis-nie a teu lado , e a teu lado 

Ac brado teu se enfjleirao teus filhos ! 

Radiante de gloria e ciilta e livre 

Eia te ostenla entre as nacoes do orbe. . . . 

E entao?. . . . Ah! decrepita ramha , 

Decahida senhora do Atlantico , 

Desamparada ficaras dos filhos! 

Rotos OS laQos, quinda a ti me ligam , 

Nao compartilharei tuas infamias. ... 

Olha, transpOe os annos, ve, escuta 

brado ingente : — Independencia ou morte ! » 

* 

sonho ou a visao se esvaecera , 9 

E ao som dos sinos lugubres Lisboa 

Desperta e ouve a funebrc arvorada J 

D'esse dia fatal ! Oh ! Ceos ! que pompa 

Ostenta a cathedral do luso reino ! . . . . 

Cruenta procissao sanccionada 

Co'a prescn^a do rei la sahe , la segue 

E no meio dos marlyrcs caminha 

filho do Brazil. . . (10) Retumba a nave 



A cor6a de fogo. 305 

Os canticos divinos com que os homens 
Tudo profauatn na viriganga sua. 

Para occultar aos ceos esses horrores 

— Esse duro liolocausto — essa hecatombe, 

— Esse acto de fe — esse espectaculo 
Sacrilego, tremendo. . . . qual os deuses 
Dos barbaros nao virani , ja sem raios 
Transmoiita o sol, e desce a esciira noite 
Pejada de tristeza. Eis se dispersa 

Do templo a multidao , que afflue a praga (11) 

Impassivel e muda. Aos vis algozes 

As victimas se entregam. La crepitam 

Ensanguentadas labaredas! Elle, 

Primeiro do que todos , sobe altivo 

E impavido a fogueira — o altar de sangue: 

Saiida a patria e o seculo futuro, 

Que saberao vingar sua memoria , 

E co'o norne da esposa e Deus nos labios 

Se consome iias chammas ; p6 e fumo 

Se torna emquanto o espirito sublime , 

Phenix do ceo , regressa a origem sua , 

E entra em Siao ao som de dulios hymnos ! 

A aragem da manhaa tomou-lhe as cinzas, 

Leve rogando as azas na fogueira 

Extincta e fria, e as sacudiu ao longe. 

Tejo as recebeu , e o Oceano , 

Melhor , mais compassivo do que os homens , 

As trouxe as praias de seu patrio ninho. 

J. NORBEHTO DE S. S. 



NOTAS. 



(1) Das victiraas da iaquisigao. 

(2) Estacio de S^, que morreu pelejando pelo Rio de Janeiro. 

(3) Armas do Rio de Janeiro nos tempos coloniaes , e que hoje 
figuram no pavilhao nacional. 

(4) D. Joao IV , cuja luta com a inquisigao 6 geralmente sabida. 
Foi a elle que Joao Fernandes Vieira , era Pernambuco, e Amador 
Baeno da Ribeira, em S. Paulo , provaram a sua fidelidade , e que 
OS herdes do Brazil nao eram inferiores aos lierdes da India. 

(5) Antonio Jos6 da Silva , poeta comieo , nascido no Rio de Ja- 
neiro em 8 de Maio de 1705, e para quem Portugal uao teve senao 
uma cor6a de foo-o ! Era filho de Joao Mendes da Silva , tambem 

D 

natural do Rio de Janeiro , e que teve os maiores creditos de poeta 
em seu tempo , e de Loureriga Coutinho. Esta desgragada mulher , 
que tanto sofiVeu u'este mundo , foi arrastada pelas ruas do Rio de 
Janeiro, mettida numaembarcagaoe levada d inquisi^ao de Lisboa, 
e d'ahi se orio-iaou a des^raoa d^i Autoaio Jos6 , que , na idade de 8 



308 REVISTA BRAZILEIRA. 

annos , acompanhou-a a Portugal com seu pai e seus irmaos. Aos 
21 anuos formou-se elle na universidade de Coimbra , e de volta k 
Lisboa , foi u'esse anno , a 8 de Agosto de 17*26 , levado ao tribunal 
do Sancto Officio , e solto dous mezes depois n' urn auto de f6. Desde 
entao se deu , pelo espago de dez annos , a coinposieao das suas 
operas comicas , que tanta voga tiveram no Brazil , n5o obstante 
opinifio em contrario, como mostrarei em logar mais competente. 

(6) Em 5 de Outubro de 1737 entrou Antonio Jos6 pela segunda 
vez para os carceres da inquisicao , dos quaes s6 sahiu para a horrivel 
fogueira dous annos e quatro dias depois. Nas masmorras foi posto 
a tratos e padeceu os tormentos da pole. 

(7) Casou-se com D. Leonor Maria de Carvalho em 1734, e em 
Outubro de 1735 nasceu-lhe a filhinha Lourenca. 

(8) Carcere n. 6, coi-redor meio novo. 

(9) Trajava um roupao azul forrado de encarnado , e passeava 
com as m5os mettidas nas largas mangas , e para repouso s6 tinha 
duro taboado da tarimba de seu carcere. 

(10) Lavradaaosll de Margo de 1739 a sentenga de Antonio 
Jos6 era que foi condemnado por convicto uegativo e relapso , foi-lhe 
ella intimada na tarde de 16 de Outubro d'esse anno, e logo entregue 
no oratorio ao "cuidado do jesuita Francisco Lopes, e no auto de fe 
de 19 d'esse mez subia elle k fogueira ! Estremego de horror quaudo 
contemplo essaepooa negra de Portugal , Hespanlia e Italia ; n'esses 
paizes, e durante t5o barbaro fanatismo , envergouliar-me-hia de 
ser christfio. 

(11) Campo da La , logar em Lisboa , onde hoje existe o haver 
do peso e o terreiro publico. 



PHYSIOLOGIA 



O eomuambuliemo ««atural e o Itypiiotiamo. 



t apenas apparente a multiplicidade dos phenomenos de 
que se compoe o universo : as forgas physicas, por mais nu- 
merosas que paregam , iiao sao mais do que diversas mani- 
festagoes dos mesmos principios, sempre activos, mas cujos 
effeitos variam segundo o seu modo de applicagao e duracao 
de sua acgao. Reciprocamente exige o mais simples piieno^ 
meno o concurso d'uma serie de vaiias acgoes, tomadas para 
nos de outras tantas forgas disliuctas. Nao ha portauto facto 
isolado na natureza em desharmonia com a ordem geral : 
sendo cada phenomeno uma consequencia de leis universa©^.- 
E se essas leis nao nos sao igualmente conhecidas na com- 
plexidade de suas applicagoes , indicam-nos ao menos o seu 
caracter e marclia os factos que quotidianamente presea- 
ciamos. Assim , pois, os espiritos criticos, educados na escola 
da experiencia scientifica, recusam aceitar esses systemas 
especulalivos , essas Iheoriassobrenaturaes, que suppoera no 
universo phenomenos em desharmonia com os principios que 
OS regem. Logo que urn facto desta ordem e proclamado , 
submette-o a sciencia ao seu exame, e demonstra immediata- 

n. B. III. 21 



310 REMSTA BIL\ZILEIRA. 

mente pertencer elle a categoria das forgas analogas as que 
inlervem nos phenomcnos anterlormente observados, obrando 
porem de diverso modo. 

Applica-se esta observacao ao que se tern dito acerca dos 
phenomenos do magnelismo animal, ou mesmerismo. Em- 
quanto nno fora siiflicientemente estabelecida a realidadc dos 
phenomenos, emqiianlo escrupiilosa experiencia nao acau- 
telara contra a fraude e a il'.usao , foi tralada com desprezo 
pelos sabios a pretengao dos magnetisadores de produzirem 
umaordem de faclos contrarios fisleisphysiologicas, porque 
semelhante pretengao conslituia por si so legitimo motive 
de suspeita; porem , no dia em que algjns dos factos magne- 
ticos foram submetlidos a serias-observagoes , e verificados 
por espiritos prudentes , o que apresenta\ a-se com a appa- 
rencia do maravilhoso offereceu immediatnmente novos ef- 
feitos que registrar da parte dos agentes que presidem a sen- 
sibilidade e a vida. Enlrou enlao o magnetismo animal na 
senda verdadeirainente scientifica , c uma parte das obscuri- 
dades que o encobriam foi dissipada. 

Recente foi esta rcvolugao , que apenas coinega. Apos tres 
quartos de seculo de cbarlatanismo e illumini^mn , pheno- 
menos singuiares , estranhos ao primeiro aspecto , foram es- 
clarecidos pela physiologia e pathologia, e desappareceu todo 
cortejo do maravilhoso de que se rodeara para dar logar k 
acQao nervosa que ora trata-se de esludar sob as suas varlas 
formas e graos de intensidade. As recentes communicagoes 
fellas ao Instituto a respcito do hypnotismo, promettendo as 
sciencias novos dados, Aieram confirmar a? ideas que certos 
physiologistas haviam concebido do verdadeiro caracter do 
somnambulismo artificial. Procuremos compeiidiar a hisloria 
destes successos scientificos , que , como lantos outros , es- 
trearam por urn periodo de fabulas e chimeras , e cujo pri- 
meiro resultado contribuc para melhor julgarmos da extensao 
e variedade dos phenomcnos da vida. 



SOMNAMBULISMO NATURAL E HYPNOTISMO. 3H 



I. 



Dr. Alexandre Bcrtrand, um dos primeiros observa- 
dores que, com complela boa fe, e seguindo um methodo 
racional, emprehendeu uma serie de experiencias acerca do 
magnetismo animal , veio ao conhecimento de que os phe- 
nomenos desta ordem , se existem , nao poderiam ser factos 
isolados , manifestagoes em que a natureza se conlradissesse 
a si propria. Em duas obras , publicadas ha mais de trinta 
annos, esforgou-se por averiguar a que ordem de factos 
physiologicos e pathologicos se prendiam os estranhos effeitos 
que observara. Reconhecia quanto e ridicula a theoria do 
fluido magnetico animal, que Mesmer pretendia identiflcar 
com que outrora denominava-se — fluido electrico — , e 
cuja intervengao nas acgoes que resultam do exercicio da 
nossaecoriomia, queria substituir esse sonhador. Achou, no 
que se contava dos possesses do demonio, e especialmente 
das religiosas de Lodun, dos pro[>hetas protestantes de Ce- 
venues, dos convulsionarios de S. Medard, e d'outras sin- 
gularidades hisloricas, a prova de que o somnambuiismo 
artificial nao e mais do que uma forma de extase cataleptico, 
affecQao rara, mas real, que de tempos em tempos reproduz- 
se epidemicamente. fi pouco mais ou menos esta a these que 
acaba de sustentar o Sr. Luiz Figuier na sua Historia do Ma- 
ravilhoso. Para que mais sensivel se tornasse essa identidade, 
fora precise ter a vista , e de novo observar essas curiosas 
epidemias mentaes. Nao viam alguns nellas senao a loucura, 
ecomprehendiam-nas na classe dasperturbagoes inlellectuaes 
que desenvolvem-se em certas occasioes como um contagio, 
que parecia ao Dr. Bertrand uma afTecgao especial e parti- 
cular desordem ; outros, prevcnidos pelas fraudes e embustes 
que haviam surprehendido no exercicio do somnambuiismo 



312 REVISTA BRAZILEIRA. 

aquetinham assistido, nao viam senao illusao e charlata- 
nismo nas possessoes , no entlmsiasmo dos fanaticos , e nas 
convulsoes produzidas no tumuto do diacono Pariz. Por mais 
graves e sinceras que fossem as observagoes de Bertrand , de 
Georget, e de tantos outros medicos convencidos da reali- 
dade do magnetismo animal, cnmpria comtiido estar alerta 
contra as impulsoes de que os espiritos eminenles nem 
sempre escapam. Sem fallar de Swedenberg, que associava 
conhecimenlos mineralogicos e physicos as mais extrava- 
gantes ideas, e as mais chimericas illusoes sobre os pheno- 
raenos da natureza, muitos outros sabios foram o ludibrio 
de sua propria imaginaQao , em face da menor apparencia 
do maravilhoso. 

: Tinha Descartes por certos os sonhos dos vera-cruzes , e 
quiz filiar-se d sua sociedade. Urn celebre naturalista allemao, 
corapanheiro do capitao Cook, Jorge Forsler. confessa ter 
cahido por algum tempo em todas as extravagancias do illu- 
minismo e d'alchimia. fino e espirituoso observador Ra- 
mond nao soube se preservar das imposluras de Cagliostro, 
e Arago deixou-se enganar com a preseiiQa d'uma supposta 
rapariga elecirica, Angelica Cotin. Assim, sem irrogar injuria 
aos homens distinctos que haviam admittido a realidade dos 
effeltos do somnambulismo artificial, podia-se ainda supp6r 
que as suas experiencias nao eram absolutamente conclu- 
dfentes. Consistc a difTiculdade de bem veriflcar a exactidao 
dos factos que pertencem ao systema nervoso , e:ii nao se 
apresentarem elles nunca com constancia e regularidade pro- 
prias para serem estudados ; porquanto , nada e mais movel 
ecaprichoso do que as affeccoes ncvropathicas. que domina 
hoje, pode deixar de dominar amanhaa: a doenca nervosa 
e um verdadeiro Protheo, que se transforma de minuto em 
minuto, e cada caso d'hysteria , d'hypocondria , offerece-se 
com um caracter diverso , que a cada instante se moditica. 
mesmo acontece com a alienagao mental , onde extraor- 



SOMNAMBULISMO NATURAL* E HYPNOTISMO. 313 

dinariamente varios e muUiplos sao osphenomenos psychicos. 
Cada loucura tern sen particular genero de delirio. Nao e 
concludente a grande objeccao dirigida contra o magnetismo 
animal , e reproduzida pelo Sr. Mabru n'um livro destinado 
a combatel-o. Se existisse , como pretendem os magnetisa- 
dores de profissao , um tluido magnetico animal , a que S6 
referem todos os factos da ordem intellectual e moral , de* 
veramos encontrar em sua distribuigao e modo de ac^So a 
mesma constancia que se observa na electricidadee magne- 
tismo terrestre: nao pode porem lao chimerica theoria resistir 
a um profundo exame , scndo , como o demonstrou o Sr. 
Mabru , um tecido de extravagancias e contradicgoes, Nad 
consiste porem nisto aquestao: trata-se de veriflcar os factos 
physiologicos e pathologicos , cuja irregularidade nao pode 
despertar o nosso scepticismo , por isso que as affecgoes de 
que dependem sao por si mesmo caprichosas e variaveis em 
sens symptomas. 

Ha no magnetismo animal um facto, pordemais verifieado, 
para que possa ser posto era duvida ; isto e , o somno e a 
insensibilidade. Ora, encontra-se, fora dos casos magne* 
ticos , doengas , ou situaQoes em que se observam pheno- 
menosinteiramenteidenticos. Bern que a catalepsia seja uma 
enfermidade pouco conhecida, esta comtudo sufficicntemente 
estudada para que se conteste o caracter que Ihe e proprio. 
individuo, possuido por uma especie de torpor , torna-66 
subitamente immovel e insensivel ; retira-se a sua vontade , 
ou cessa de poder governar os membros , que conservam 
desde entao a posigao em que estavain no momento da in- 
vasao do mal, ou naem que foram collocados, Se a doenga 
e muito pronunciada, debalde dar-se-hao as pernas , bragos e 
cabega as altitudes as mais constrangidas, fica quasi que 
indefinidamente o corpo ncssa posigao faligante. Nao e oca- 
taleptico acommcttido pela febre; nenhuma alteragao parec© 
experimentar a sua economia interna : as oscillagoes do oo*. 



314 REVISTA BRAZILEIRA. 

raQlIo , a respiragno, os movimentos dos inteslinos executam- 
se como no ostaclo normal ; tornani-se unicamente os mus- 
culos incapazes de movimentos espontaneos, e soffrem, a 
semellianca dos corpos inertes, a i'npulsao das forgas ex- 
ternas. Pude ser a catalcpsia mais ou menos completa ; re- 
apparece por intermitlencia, e algumas vezes maiiifesta-se 
independente de phenomenos precnrsores. Entorpece-se a 
intelligencia; sendo quasi sempre este entorpecimento pre- 
cedido por sonhos penosos e verdadeiro delirio. Accidental- 
mente pode qualquer caliir n'lim soinno analogo ao que se 
prodnz sob a iiifluencia dos processes usados pelos magne- 
tisadores ; e se devemos precaver-nos acerca da realidade do 
somnambulismo, apreseotado por alguns profissionaes , nao 
esla todavia o facto inteiramente em contrario ao que tem-se 
observado em alguns doontes. 

Basta , quanto ao somno ; passemos a insensibilidade. fi 
incontestavel que respiram impunemente os somnambulos 
ammoniaco niui concentrado , deixando-se belliscar, fazerco- 
cegas, e ate ferir, sem que manifestem a minima d6r , o 
menor signal de sensibilidade. Urn celebre cirurgiao , o Sr. 
Julio Cloquet, declara ter extirpado urn tumor do seio direito 
d'uma mulher mergulhada em urn somno magnetico , sem 
que observasse nella o mais ligeiro indicio de dor. Em 1846, 
OS Drs. Loysol e Gibon, do Clierbourg, fizeram a ablagao 
d'uma glande cancerosa em uma mulher adormecida por um 
magnelisador , a qual mostrou-se insensivel durante a ope- 
racao. No anno seguinte , um medico dc Poitiers praticava 
uma operagFio igualmente dolorosa sobre um somnambulo , 
que nao manifestou a menor sensibilidade. Esles faclos, bcm 
que perfeitamente authenticados, tinliam provocado algumas 
duvidas; depois, porem, da descoberla dos anasthesicos, o 
que antes parecia um milagre converteu-se depois n"um phe- 
nomeno qnolidiano. Pela acgfio toxica, prudentemente appli- 
cada, do ether sulphurico, do chloroforniio, da amylena, 



SOMNAMBULISMO NATURAL 'E HYPNOTISMO. 315 

p6de-se determinar uma insensibilidade completa, e reproduz- 
se agora em poucos niinutos o que excitava, ha viiite annos, 
a admiragao do Dr. Cloquet. Reapparecem no somno oc- 
casionado pela inspiragao dos anasthesicos quasi todas as 
circumstancias que se dao na catalcpsia. A insensibilidade 
dos somnambulos , bem como a relaxagao dos seus musculos, 
a perda da vontade , nao estao pois em conlradiccao com a 
physiologia , e se o uso dos toxicos da logar aos phenomenos 
da catalepsia e iiysteria, porque nao poderao ser os mesmos' 
phenomenos nervosos produzidos por outros processos? 

somno leUiargico e a insensibilidade , pontos de partida 
do somnainbulismo arlificial, nao sao ainda os mais singu- 
lareselTeitos. Alem destes phenomenos, reproduzem-se mui- 
tas vezes uin deseiivolviniento particular, uma exallagao da 
sensibilidade , e uma super-excitacao das faculdades intel- 
lectuaes. ComeQa aqui o dominio do que chamou-se mara- 
vilhoso do magnelismo. 

De ha muito que se haviam observado, nos hystericos, 
effeitos nervosos da mesma ordem dos que se tem veriflcado 
no somno magnetico. vulgo , sempre disposto a fazer in- 
tervir o sobrenatural para explicar o que excede aos pheno 
menos que Ihe sao familiares, via, com os magnetisadores, 
maravilhoso em todos esses effeitos. 1^ sem duvida a hys- 
teria uma das mais curiosas enfermidades que se possam 
encontrar : a pessoa que por ella e atacada passa successi- 
vamente daprostragao completa, que muitas vezes se con- 
funde com a morte, a uma excitacao prodigiosa, que com- 
munica aos sentidos certo grao de finura e de perspicacia , 
desconhecidos no estado normal. mesmo da-se com os 
etherisados : o ouvido , por exemplo , como observou o pro- 
fessor Gerdy , assaz embotado para nao perceber os sons arli- 
culados, ouve todavia os sons com uma repercussao que 
duplica e triplica a intensidade. mais ligeiro ruido fazia 
experimentar o somnambulo cataleplico , descripto pelo Sr. 



316 REVISTA BRAZILEIRA. 

Piiel , uma especie de commogao electrica. Esse subito e in- 
solito desenvolvimento da sensibilidade nunca foi tornado 
por urn dom particular : supp6z-se que essas hystericas eram 
inspiradas por espirilos, ou atormentadas pelo demonio. 
Como bastava-llies a minima sensacao para serem adverlidas 
da presenca de qualquer pessoa , ou objecto , como o sen 
ouvido e vista estendia-se muito, chegou-se a acreditar que 
eram dotadas de verdadeira adivinbagao, d'uma virtude pro- 
phetica. que ainda corroborava os espiritos supersticiosos 
nesta opiniao , e que mostram os enfermos , durante esses 
accessos, prodigiosa mamoria, e facilidade e clareza d'elo- 
cu^ao inteiramente extraordinarias. Victimas dessas halluci- 
nac5es, e visoes habilualmente em relagao com as ideas que 
OS preoccupam , ou provocados por sensagoes internas e in- 
solitas, que neUesse produzem, contam, niiin tom inspirado 
e convicto, o queviram durante o sou delirio, sendo outr'ora 
recebidas essas narrativas como outras tantas revelagoes. Os 
chronistas e analystas da idade media estao cheios de factos 
de semelhante especie , que taiTibem se encontram entre os 
povos anligos e sel\ agens. 

Em lao intima dependencia acha-se a intelligencia do sys- 
tema nervoso, que nunca profundas commocoes affectam 
este, sem que um delirio, quasi sempre associado com o des- 
envolvimento excessivo de certas faculdades intellectuaes, se 
produza consccutiva'nente. fi o que diariamente se obsen-a 
na alienaQao mental. Causa pasmo a forga da memoria de 
certos loucos, locando muitas vezes a sua loquacidade as 
raias da eloquencia. 

Van Swieten cita o caso de uma moga costureira , que 
jc^mais manifestara as menores disposigoes para a poesia, e 
que no dtilirio da febre p6z-se a fazer versos. Sr. Michea. 
observaque, na especie de loucura chamada eici(af;ao ma- 
niaca , as analogias de palavras , as semeihangas das conso-: 
nancias apresentara-5e lao rapidamente ao cspirito do doente, ; 



SOMNAMBULISMO NATURAL E HYPNOTISMO . 317 

que dam-llie extrenia facilidade em fazer trocadilhos , apre- 
Sentando-se ao seu espirilo a poesia primeiio do que a prosa. 
Sentia-se Tasso mais iiispirado nos seus accesses de loucura, 
do que iios lucidos intervallos. Accrescenta outrosim o re- 
ferido Sr. Michea , que no hospicio de Bicetre vira um rapaz 
camicciro , que n'uui accesso de mania recitara passagens da 
Phedra de Racine, que apenas lera umasovez, nao lh6 
gendo possivel recordar-se d'um so verso , quando reslituido 
a razao. Affirma Erasmo ter ouvido um mancebo de Spoleto 
fallar correntemente allem'o , n'um delirio provocado pela 
presen^a de vermes intestinaes , nao possuindo dessa lingua 
senao ligeiras nocoes. Pessoas simples e ignorantes, pes- 
suidas pela monomania religiosa , dao provas d'um conheci- 
menlo dos tcxtos sagrados e das malerias theologicas , que 
Causa verdadeira sorpresa. As cita^oes que ouviram n'um 
sermao , as oragoes que chegaram aos sens ouvidos durante 
officio divino , voUam-lhe iinmedialamente a memoria, e 
sabem distribuir convenientemente pelo discurso, a que com- 
municam certo ar de inspiragao. Coleridge, em sua Mogm- 
phia Litteraria, mencionou o exemplo de uma criada louca, 
que , ainda que completamente analphabeta , repelia seii- 
tengas gregas, extrahidas d'um padre da igreja , que acci- 
flentalmente ouvira ler em voz alta pelo pastor, a cujo ser- 
vice se achava. 

Foi reconhecido nos somnambulos magnelicos esse assom- 
broso desenvolvimento da memoria. Ja no somno simples, 
durante o sonho, achamos a lembran^ade objectos, figuras, 
passagens de autores, que, acordados, haviamos inteira- 
tnente esquecido. fi ainda mais pronunciado este retrocesso 
da memoria nos somnambulos naturaes. Um medico italiano, 
Pezzi , refere que um seu sobrinbo, sujeito a accesses def 
somnambulismo, procurara um dia recordar-se decertapas^ 
sagem d'um discurso, relativo ao entbusiasino nas bellas- 
arles, sendo baldados lodos os esforeos que para esse fim 



318 REVISTA BRAZILEIRA. 

empregara. Cahindo, porem, n'um accesso de somnambu- 
lismo , nao so encontrou a passageni que procurara , como 
cilou volume , pagina , e ale a linlia. E ja que fallo de som- 
nambulos naturaes , farei notar que por mais d'uma vez viu-se 
em suas respostas a mesma concisao , propriedade de termos 
e ate essa eloquencia observada n'uma multidao de hyslericos, 
Da-se sonho em accao no somnambulo natural, anda, move- 
se, conversa sob o imperio do sonho (pie o domina , e no 
qual as sensacoes externa^ , como em muitos sonhos ordi- 
narios, intervem a titulo de elementos geradores. Somnam- 
bulos e hysteiicos , cataleplicos e extaticos, tem todos suas 
visoes, ou sonhos, reflexos mais ou menos complelos de 
suas sensagoes e ideas. Reproduz-se o mesmo phenomeno no 
emprego dos anasthesicos ; tendo as pessoas submettidas a 
etherisagao quasi sempre sonhos , em conformidade com o 
seu estado physiologico, ou pathologico. Por occasiao das 
primeiras experiencias tentadas em Franga, sobre as ins- 
piraQoes ethericas, um celebre cirurgiao, o Sr. Laugier , lendo- 
feito respirar a uma inoija de dezesete annos, a quern f6ra 
amputada uma coxa, uma mistura de ar e vapor d'ether * 
cahiu essa moga, d'um espirito naturahnente mystico, n'um 
verdadeiro extase. Despertada , apos a operagao , lamentou 
haver voltado para entre os liomens , e referiuque, durante 
seu somno . vira Deus e os anjos. Os proprios animaes 
experimentam o mesmo effcito , e o Dr. Sandras observou 
que OS caes, a que fizera respirar chloroformio, davam gritos 
e faziam gestos, indicando claramenle que eram atormen- 
tados por sonhos e por uma especie de delirio. Deu ainda os 
mesmos resuUados o recenle emprego da amylena. Donzellas 
tratadas pelo Dr. Roberto ioram acoinmettidas de singular 
dehrio , acompanhado de gritos , rises e solugos. Ninguem 
desconhece as visoes extaticas, occasionadas pelo opio eo 
hachisch. 
E pois natural que o somnambulismo artificial , que 



SOMNA.MBULISMO NATURAL E HYPNOTISMO. 319 

produz um estado nervoso analogo ao que se observa na hys- 
teria, catalepsia, e somiiauibulismo natural, e por conse- 
quencia na inspiragao dos anasthesicos , reproduza effeitos 
do mesiijo genero. Nada ha de niaravilhoso no que se conta 
das pessoas magnetisadas , nem dessa hypereslhisia , ou su- 
per-excitagao dos sentidos, do accrescimo da memoria, e 
das visoes que algumas vezes eslao em exacta relagao com 
que somnamhulo podia saber, ou sentir da reaUdade dos 
factos. Por nao saberem apreciar o caracter do phenomeno, 
foi que os espiritos enlhusiastas , e o credulo pubUco da 
idade media, buscaram expHcacoes sobrenaturaes. Nestes 
phenomenos , ja por si baslante singulares , basta exagerar 
um pouco que nelles ha de eslranho , para chegar ao 
maravilhoso ; e sob o dominio da admiragao provocada pelos 
phenomenos inesperados, accrescentamos, talvez sem querer, 
na balanga do espirito , o peso que fal-a pender para o lado 
do absurdo. 

. De tal modo se prendem os effeitos do iiiagnetismo animal 
com as affecgoes nervosas, aeima mencionadas, que de or- 
dinario comegam pela mesma furma. Um grande adepto da 
doutrina, o Sr. baraoDupotet, espirito sincero, porem pouco 
critico, diz nos que osindividuos a quern se comega a magne- 
tisar sao alacados de convulsoes assaz piolongadas. Ora, 
e exaclamente o que acontece no emprego dos anasthesicos, 
eque constitueumdos fundamentaes symptomas da liysteria. 
Muitas pessoas submettidas a inspiragao do ether cahiraiH 
n'uma especie d'epilepsia , ou de furor , e eu proprio live 
occasiao de observar este facto em muitas pessoas magne- 
tisadas. Foi anno passado snjeito ao conhecimento do tri- 
bunal de Donai um processo em que tratava-se d'uma affec- 
Cao epiieptiforme, delerminada pelo emprego do magnetismo 
animal. 

Para acabar de convencermo-nos do estreito parentesco dos 
factos magneticos , e os da pathologia nervosa, basta estudar 



320 REVISTA BRAZILEIRA. 

somnambulisnio naiural. Desde o comeco que nao deixou 
de caiisar impressao as somelhan^as que existem cntre o 
estado em que cahe o magnetisado , e o que olTerecem os 
gomnambulos propriamente ditos. Foi essa mesma seme- 
Ihanga que fez concluir a identidade dos dous phenomenos, 
e determinou o ampliar-se o nome de somnambulismo ao 
estado magnetico. Prejudicou demasiadamente essaconfusao 
aos progresses dos conhecimentos positivos sobre os effeitos 
do magnetismo animal. Gomo era mais facil magnetisar os 
individuos . do que procurar e observar pessoas acommet- 
lidas d'um verdadeiro accesso de somnambulismo, voUou-se 
toda a attencao para o que denominou-se — somnambulismo 
artificial — , sendo dest'arte desprezado o natural , ou es* 
sencial. Alexandre Berlrand chamou a attengao dos sabios 
sobre este ultimo ponto ; limilando-se, porem, a coUeccionar 
em sua obra factos que ainda nao haviam sido submettidos 
a sufficiente exame, os quaes, sem serem apocryphos, nao 
tinham sido estudados nas suas circumstancias principacs , 
decisivas para a apreciagao da verdadeira natureza do phe- 
nomeno. Outro grave experimentador, o Sr. general de en* 
genheiros Noizet, nao fez em sua Memoria mais do que 
reproduzir os mesmos testemunhos. « Nao fallei do somnam* 
bulismo natural , escreve elle , senao porqiie e geralmente 
conhecido. » que nao e exacto ; porquanto, nada tem sido 
iftenos estudado do que este estado ; bem que muita genta 
discorra a sen respeito por simples informacoes, e ligeiros 
boatos. Limitaram-se pela mor parte a exames superficlaes, 
sern que buscassem verificar por que caminho chegam As 
sensa^oes ao somnambulo. A Sociedade Medico-psychologica, 
fundada nestes ultimos tempos para o progreSso da palhologia 
mental, fez do somnambulismo natural assumpto de novas 
indaga^oes, e serias pesquizas. Resullou dc certas communi- 
caches, (lue esse eslado, ainda que anormal, nao origina 
nenhuma inversao das leis physiologicas. Haviam-se ja pro- 



SOMNAMBULISMO NATURAL E HYPNOTISMO. 321 : 

posto varias theorias mais fundadas n'uma coneepgao a 
priori , do que em observa^oes posilivas. Reconheceu-se nos 
actos do somnainbulo , assim como no sonho , um augmento 
excessivo da memoria ; nao e, porem , ainda sufficiente este 
phenomeno , para dar conta de todos os actos , como ser4 
facil de convencermo-nos por alguns exemplos. celebre. 
somnambiilo Castelli traduzia em seus accessos do italiano 
para o francez, e procurava os vocabiilos no diccionario. 
U<n pharmaceutico somnambulo , cuja historia conta-nos o 
professor Soave, de Pavia, levantava-se de noite para pre*; 
parar osseus medicamentos, e, quando via-se embaragad<3, 
ia consultar as receitas dos medicos, guardadas na gaveta. 
Por mais poderosa que seja a memoria , impossivel e admitlir- 
que Caslelli soubesse de cor, pagina por pagina, o diccionaria • 
italiano-francez, e que o boticarlo de Pavia lesse simplesmente 
pelo pensamento as receitas ja gravadas em seu espirito. Yem 
portanto OS somnambulos, ainda que flquem seus olhos in-: 
sensiveis a luz : nada vem do que os cerca , e prosegaem no • 
mundo real a realisagao de ideas chitiiericas. Contribuiu este 
facto para que prevalecesse a opiniao de que o somnambulo 
sente , percebe por outros conductos , outros orgaos diffe- 
renles dos das pessoas acordadas: porem nao passa isto de- 
unia hypothese; havendo de ha muito estabelecido a obser- . 
vagao, que no estado do somnambiilismo natural nao se 
aitham fechados todos os sentidos. Sem fallar do tacto , que : 
noloriamenle conserva-se assaz des'3nvolvido , o ouvido nao 
seachasenao n'am torpor imperfeito, como frequentemente 
aconlece no somno ordinario ; porque quern dorme faz al- 
gumas vezes intervir em seus sonhos os rnidos que vem im- 
pressionar o sea oiivido. Casos ha em que os somnambulos 
sao sensiveis a acgfio da luz. Castelli , havendo apagado a 
vela, collocada sobre a sua mesa de trabalho, foi as apal- 
padclas aceiidel-a nacozinha. Mas, se os olhos continuam a 
ver, uao e a sua faculdade visual inleiramente semelhante 4 



322 RE\aSTA BRAZILEIRA. 

nossa; por isso que os somnambiilos executam nas trevas os 
mais difficeis Irabalhos, e andain com firmeza sobre os tectos 
das casas , para onde , durante o dia , teriam grande difficul- 
dade de se dirigirem. 

Fez observar o Dr. Michea , que para explicar este phe- 
nomeno basta admittir leve iiiodificaclio no apparelho visual. 
N3o e faclo inaudito a faculdade de ver na escuridao : os mo- 
chos, ratos e gates tern a retina tao impressionavel , que 
distinguem claramente os objectos durante a noite ; e exis- 
temmuitosoutros animaes, ciijos babilos nocturnos suppoem 
a mesma faculdade. fi sufficiente uma excitagao do orgao da 
vista, analoga a essa excitacao do ouvido, que faz perceber 
ao hysterico os mais leves ruidos, para que adquiram os 
nossos olbos a faculdade que possuem oulros cntes. Ignorase 
por ventnra que as pessoas atacadas de myclalepia nao podem 
versenao nas trevas? Verificou-se igualmente nos somnam- 
bulos a excessiva dilatagao da [mpilla ; nao sendo pois neces- 
sario recorrer-se a transposigao dos sentidos para explicar 
OS actos que praticam durante os sens sonhos. Nao e a vista 
unico orgao super-excitado ; o tacto , ja tao delicado nos 
cegos de nascenca , vem , como a memoria , em auxilio da 
vista ; participando tambem este orgao da hyperesthisia dos 
outros. 

Demonstrsi o es^tudo do somnambulismo natural . que nao 
e elle juais do que urn sonho em accao , um desses somnos 
nos quaes os sentidos continuam a transmittir cerlas im- 
pressoes, os membros e a voz a obedecer a vontade; assim 
como se observa nos somnos agitados em que falla-se e ges- 
ticula-se. Procede o somnanibulo conforme as imagens que 
se desdobram diante de sua imaginacao, e absorvido neilas 
nao ve, nao ouve senao para tr.msmittir ao seu sonho o que 
impressi lua a sua vista, ou o seu ouvido. Se Ihe fallam, 
respondc spgundo o curso de suas ideas ; assim como o so- 
nhador, semcomparar as visoes que o rodeam com os ob- 



SOMNAMBULISMO NATURAL E HY^iNOTISMO. 323 

jectos reaes que Ihe revelariam a natureza faataslica. Eis o 
que acontece no somnambulismo magnetico. Nao ouve o 
magnetisado senao a voz do magnelisador, conservando-se 
estranho a tudo o que em toriio delle se passa. Esta como o 
somnambulo natural, absorvido n'umaidea, n'um acto, e 
e per isso que ambos revelam tanta exaclidao. Fazem os 
soinnainbulos adormecidos o que nao poderiani executar 
acordados; devendo o desenvolvimento da sua memoria ex- 
plicar-se pela absoluta concentracao da sua attengao n'um so 
objeclo. 

Em resume, se o somnambulismo natural traz comsigo 
maior actividade nervosa, ou mesmo quando associado a ca- 
talepsia, a hysteria, nao deixa por isso de ser uma forma es- 
pecial de somno, eo somnambulismo nao e por sua vez senao 
uma modificagao mais desenvolvida e particular do somnam- 
bulismo natural, como bellissimamente o demonstra o general 
Noizet, quando reconhece nos tresestados oulrostantos graos 
do mesmo plienomeno. 

Assim encarado, perde somnambulismo o sen caracter 
maravilhoso para entrar na ordem dos phenomenos , de que 
se pode dar completa explicaQ'io. Permiltem-nos estes dados 
reduzir ao seu juslo valor os factos os mais eslupendos que 
foram citados pelos magnetisadores, e que successivamente 
provocaram credulilade absoluta e louca superstig-ao; pare- 
cenda-nos. pois, conveniente estanciar por alguns instantes, 
afim de esmerilliar a verdade, desfigurada pela credulidade 
e.a fraude. 

Nao vem os somnambulos naluraes sein o intermedio do 
apparelho visual , como liavia-se affirrnado : nem tao pouco 
6 exaclo que dislingam os magnetisadospela cavidade do es- 
tomago , polo occiput, pela fronle, e ate pelas pontas dos 
dedos; factos estes admittidos por Alexandre Bertrand. Eis, 
segundo cremos, aorigem do equivoco : os somnambulos e 
oshystericos, quando victimasde violenla crise nervosa, que 



324 REVISTA BRAZILEIRA. 

tern sua sede no epigastro , imaginam, assim como muttos 
hallucinados , experimentar sensagoes em partes do seu 
corpo , que por forma alguma sao affectadas. fi este um phe- 
nomeno de sympathia enferma, analoga a que experimentam 
as mogas alacadas de clilorose, e que crem ao ruido do sangue 
que circula pelas suas arterias, c reage fortemente sobre o 
seu ouvido , ouvir cantos harmoniosos. Em presenga d'uma 
attenta verificaQau do phenomeno , desapparece completa- 
mente a prova que alguem pretendeu tirar do somnambu- 
lismo natural, em prol da transposicao dos sentidos no estado 
magnetico. 

Basta, para o primeiro prodigio ; passemos ao segundo. 
Muito SB tern fallado acerca da previsao dos somnambulos 
magneticos. Cumpre procurar a origem desta crenga nas vi- 
s5es, sonhos, mais ou menos em relacao com a realidade , 
que experimentam os catalepticos e os somnambulos; e nos 
quaes com cerlo gran de condescendencia, p6de-se descobrir 
uma especie de intuigao do passado, do longinquo c do 
fiituro. Deslas supposlas prophecias nao exisle uma que seria- 
menle se baja realisado. 

• Fornece-nos Sr. Mabm curiosos specimens, pouco pro- 
prios para recommendar o espirito e o juizo dos somnam- 
bulos, se somnambulos sao , porque as mais das vezes essas 
dizedoras de boaaventura, a soldo de algum cliarlatfio, eslao 
mais acordadas do que os assistcntcs. Ha outro genero de 
previsoes, sobie o qual com mais preferencia tem-se insistido, 
e que serve de pretexto para explorar a credulidade dos 
doentes. E a visao atraves dos corpos, a intuioao tlierapeu- 
tica, e a previsao dos remedios. S.lo puras cbimeras, que 
taivez achem explicagao no sentimtmto por vezes bastante 
exacto, que possuem os doentes no estado somnambulico, do 
tratamenlo que mais ihes convem. Apresentam o mesmo ins- 
tincto mui*osenfermos; inslincto (pie tainbem inanifesta-se 
nos animaes, sem serem por isso dolados de faculdades mag- 



SOMNAMBULISMO NATURAL E IIYPNOTISMO. 325 

nelicas ; mas e por demais favoravel aos iiiteresses de certos 
magnetisadores a prelencao de ciirar enfermidades e dures, 
que nenhum refrigerio obtiveram da medicina, para que con- 
fessem elles a sua futilidade. Esses somnambulos, f[ue dizem 
possuir a sciencia medica infusa, nao pnderam ainda des- 
cobrir urn unico especifico, e trilham as mui conhecidas 
veredas das Pharmacopeas. 

Segundo a propria confissao dos mals graves c sinceros 
magnetisadores, o conhecimenlo das molcstias reduz-se nos 
somnambulos a consciencia mais ou menos dislincta das 
modificaQoes organicas, que nelles se operam. Ora , para 
este phenomeno, nao pude o magnetismo animal reclamar o 
monopolio; porquanto, em muiias enfermidades, princlpal- 
mente nas nervosas , a consciencia da crise que vai dar-se 
revela-se de notavcl maneira; mas esse sentimenlo, por via 
deregravago, nao passa de um primeiro symptoma. Pre- 
dizem os sens acce; sos os alienados e hystericos, e os epilep- 
ticos recoidiecem froquenlemcnte, pela indisposicao precur- 
sora, a primeira invasao da crise. Concebe-se facibuenle, 
sem necessitar-se de recorrer ao dom propbetico , que esta 
faculdade de prever as mudangas- que vao operar-se no or- 
ganismo scja mais pronimciada nas pessoas, cuja sensibili- 
dade acha-se mais excilada. Demais, se em alguns casos 
predizem com exactidfio os somnambulos o instante em que 
devera vir, ou cessar a crise , acontece-lbes tambem enga- 
narem-se grosseiramenle , como confessam-no os proprios 
adeplos do magnetismo animal ; e nai prevem jamais as cir- 
cumstancias indepcndcntes , ou accessorias , que podem 
adianlar, ou rclardara invasao do mal , ou o momento da 
cura. 

Provem essas prcdicc^oes, nlgumas vezcs assombrosas , do 
j-cnlimenlo pn nunciado do tempo, como foi veriflcado por 
observadorcs de boa fe, a cuja frcnle cumpre coUocar o ge- 
neral Noizct, e ultimamenlc o Ur. Pucl, n'um cataleptico 

R. B. Ill, 22 



326 REVISTA BRAZILEIRA. 

submettido a observacao peraiite a academia de medicina. 
Fornece-nos igualmenle exemplos de igiial sentimento o 
somno ordinario. Nao se despertain certas pessoas exacta- 
mente a hora que dBterminaram em seu espirito ? Os aiii- 
maes, que nao possuem peridiilas iiem relogios, tern o mesmo 
instincto ; e ha cao que sabe , com a maior exacgao , a que 
boradar-se-lhe-ha acoinida. E uma nova analogia entre o 
somno e o estado somnambulico : a qual deve ainda ser su- 
jeita a derradeira verificag,rio, 

Apresenta-se a memoria , nao so com exlrema vivacidade 
no estado somnambulico , como que se apura de uma crise 
a outra de modolal, (jug vc-se o somnambulo praticar, em 
certos accessos , actos que sao a conseijuencia dos ([ue come- 
Cara no preccdenle accesso , ainda que durante o lucido in- 
tervallo perdesse complctamenle a sua nocao. Foi este sin- 
gular phenomcno o])servado da mais concludentc maui'ira 
pelos Srs. Arcliambaulte Meslet, n'uma somnambula natural, 
cataleptica c hysterica. Victima , durante sous accessos , de 
uma monomania suicida, que desapparecia na vigilia, e de 
que nao tinha a minima idea, acabava nas crises successivas 
de preparar os meios de buscar a inorte. Do mesmo modo 
que nos somnambulos magnetisados , a Icmbranca das res- 
postas dadas n'um prccedonte accesso, apagada durante urn 
intervallo , volla, com extrema lucidez. Passa-se nos sonhos 
semelhante facto ; e eu mesmo fui perseguido n'um sonho 
por uma serie de actos imaginarios, coinecados nos prece- 
dentes, e de que entao reconiavarnc muito bom, posto que 
acordado as tivesse inteiramcnic esquccido. Muito concorreu 
esse curioso phenoineno para fazer crer que o estado som- 
nambulico 6 uma cxistcncia intellectual indepcndcnie, e que 
nos Iransporta a um mundo impenetravel ao pensamento do 
homem acordado; releva, pore.n, nao buscar nolle senao 
uma progressao de lembrangas, idcnticas as que anlerior- 
monte indiquei. Finalmente , affirmam muitosobsorvadores, 



SOMNAMBILISMO NATURAL E HYPNOTISWO. 327 

que em casos rarissimos, e quanto a ideas mui simples, existe 
uma communicacao entre o pensamento do magnetisador e o 
do magnetisado. Confesso que parece-me o facto por demais 
problematico : quando, porem, tratar do hypnolismo , mos- 
trarei como urn phenomeno desla ordem, quando demons- 
trado, acharia ainda explicagaosem dependencia das relaQoes 
sobrenaturaes. 



II. 



Acabamos de ver como os factos verdadeiramenle averi- 
guados do somnambulisiuo artificial nada offerecem de in- 
compativel com os fornecidos pela oliservacao medica , nao 
podendo-se poitanlo por em duvida a sua possibilidade ; mas, 
se sao esses phenomenos possiveis, e ate entram na categoria 
dos que tem sido por \ arias vezes verificados, produzem elles 
por Ventura por mein dos processes usados pelos magnetisa- 
dores? Se e uma entidade chimerica o fluido magnetico, como 
esses passes e gestos singulares , que denomina-se magned- 
sagao, podem arrastar a um estado proximo a catalepsia, 
e determinar artificialmente uma faculdade tal como o som- 
nambulismo, que parece idiosyncrasica ? Apresenta-se na- 
luralmente aqui esta segunda questao, cuja resposla servira 
de prova a precedente verificaQao. 

Reconhecem muitas pessoas a possibilidade e a realidade 
de certos phenomenos magneticos ; mas negam absolutamente 
que a magnetisagao conlribuisse para isso em nada. Obser- 
vando que os processes de que se servem os magnetisadores 
sao exlremamente diversos e sem connexao sensivel entre si, 
e que a faculdade cliamada magnetica precede diversamente 
nos individuos, e nao termina em nenhum resullado , con- 
cluiam que a verdadeira causa dos phenomenos era a im- 
pressao feila sobre a imaginagao do individuo magnetisado. 



328 REVISTA BRAZILEIRA. 

Os que cahem n'nm estado somnambulico sao quasi sujeitos 
a uma affeccao nervosa , ou possuem um temperamento ex- 
cessivamente impressionavel. Sob o imperio de uma preoccu- 
parao, de iima especie d'espera temerosa, terminani por suc- 
cumbir a uma verdadeira crise hysterica , ou cataleplica ; e 
atlribue-se ao magnetismo animal elTeitos nervosos, unica- 
menle devidos a [lassageira enfermidade que se dcclava. 

E esta opiniao certamentc plausivel , e apoia-se eui obser- 
vacoes , na apparencia deeisivas. Um partidista cntbusiasia 
do magnelismo animal, cujo Icstemunbo ja invoquei , o Sr. 
barao Dupotet, rcfereque, havendo-se coUocado ao p6 de 
algumas pessoas , que estavaui persuadidas cpie ia magne- 
tisal-as, viu-as cahir n'um estado somnambulico, ainda que 
nenhum meio houvcsse empregado de magnetisarao , nem 
mesmo tivesse scmelhante pensamcnto. Sera, pois, pura in- 
lUiencia da imaginagao , que produza lodos os resullados 
magneticos? Alguns magnetisadorcs, por exemplo o celebre 
abbade Faria, recorreram , para adormeceros sens doenles, 
a unica forca de sua vontade -. nlUavam-nos fixamente , c a 
simples palavra — dormi — apossava-se delles o somnn. Con- 
vcnho que seja facil de illudir-se um magnclisador lao con- 
fiado na virtude do sen olhar; mas o general Noizet diz ter 
experimentado aiiifluencia desse terrivel — dormi — .« Apenas 
ouvi-o , lancou-sc sobre os mens olhos um espesso veo , um 
desfallecimento apoderou-se de mim, acompanbado de ligciro 
suor e forte pressao no estomago ; todavia, ainda que repe- 
lisse a experiencia, nao chegou a emocao ate o somno. » Asse- 
melha-se tudo istoaosefTeitos da imaginacao; e comparando- 
se a radical dilTerenca que separa os proccssos de Mesmer, 
e OS de Puysegur, flcamos absortos pela somelbanga dos 
resultados detcrminados por lao diversos methodos ; e somos 
naturalmente inciinados anao vcr no magnelismo, bem como 
nas operaQoes dos magicos, senao um meio de imprcssionar 
OS espiritos, e preparal-os para lodas as iliusocs. 



i 



SOMNAMBULISMO NATURAL E HYPNOTISMO. 329 

Importa , porem , que nao nos percamos n'am labyrhUho 
dc palavras. que- e obrar sobre as imaginacoes? pergimtam 
com razao os fautores do magnetismo animal. Em que con- 
siste isso , e nao teria essa expressao uma elasticidade que 
dispensasse de ir ao a?nago do plienoineno "? E evidente que, 
todas as vezes que em nos se produz um facto psychologico, 
e elle acompanhado de outro physiologico , que Ihe corres- 
ponde. deliriodo febvicitante, assim como a hallucinacao 
do maniaco, procede de certa comnioQao cerebral e ner- 
vosa, que, por nao ser ainda bem dellnida e esludada , nao 
perde por isso o seu caracter particular. Pode acontecer que 
a imaginacao seja impressionada ; mas o que se passa em 
nossa economia quando tern logar semelhante phenomeno 
psychologico? Vejamos que solugao offerecem-nos as recentes 
observacoes feitas sobre o hypnotismo. 

Haquinze annos que um medico de Manchester, o Dr, 
James Braid, quese occupavacom o magnetismo, descobriu 
novo processo para abysmar sens pacientes n'um somno som- 
nambulico. Tomava um objecto brilhante, por exemplo o 
estojo da lanceta, e punha-o diante da pessoa a quem queria 
adormecer, n'uma distancia de trinta centimetros dos sens 
olhos, e n'uma posigao lal que pudesse ter a vista constante- 
mente fixada sobre o objecto brilhante, convidando-a a nao 
pensar senao no objecto que deslumbrava osseus olhos. De- 
pois de se haverem por um instanle contrahido as pupillas 
da pessoa submettida a expcriencia , dilatavam-se excessiva- 
iiiente, llcando os olhos n'um movimento de fluctuaclo ; 
declarava-se depois o somno cataleptico , entravam em sin- 
gular exaUacIio os sentidos e algumas facuklades mentaes , 
alTectando os musculos extrema mobilidade : e a esse periodo 
de exaltacao seguia-se por ultimo o do torpor e insensivel 
iminobilidade. 

Dous distinclos medicos, os Srs. Azam c Bjroca, cxpcrimen- 
(aram recentementc no hospital de Necker, sobre mogasque 



330 REVISTA BRAZILEIRA. 

queriarn operar, o processo descripto por Braid. Completo foi 
oresultado: cahiram as doontcs em manifesta anasthesia ; 
tomaram seus membros a rigidez cataleptica , e ficaram in- 
sensiveis aos belliscos e picadas , de modo que sem d6r al- 
guma pode effectuar-se a operacao. Foi so depois de ter-se-lhe 
tirado de defronte o corpobrilhante, e com o auxiiio de leve 
fricgao e insiifflacao de ar, que despertou-se uma das doentes, 
vinte minutos depois de haver principiado o accesso catalep- 
tico. Comove-se, eo processo dedespertar em ludo identico ao 
empregado pelos iiiAgnetisadorcs para com seus somnambulos. 
Havera ainda influencia da imaginagao? Parece difficil. 
Produziu-se certamente urn effeito pathologico, como vai de- 
monslnir-nos o seguinte facto. Sr. Michea experimentou 
sobre gallos e galiinhas, cujas cabegas conservava suspensas, 
e sobre cujos bicos, partindo da raiz, tracara uma linha recta 
com giz. Collocada a ave sobre um banco de pan pintado de 
verde , on sobre o vidro contiguo ao seu bico e a linha branca 
prolongada sobre esse vidro, ou banco, no fim de alguns 
minutos. o animal que antes da operagao levantava-se com 
forca sobre os seus pes, e linha grande mobihdade no olhar, 
comegou a fechar as palpebras, enlangueceram depois seus 
muscnlos, e declararam-se a anasthesia e a catalepsia: nao 
sentindo o gallinaceoasespetadellas d'agulha. Foi o despertar 
annunciado por um Ugeiro grito, e, tomando seus primitives 
movimenlos, procurou fugir. Ha mais de dous seculos que 
essa curiosa experiencia f6ra descripta pelo padre Kircher, 
sob nome de actinobolismo , em sua Ars mafjna : sendo 
porem inadmissivel a explicagao dada pelo sabio jcsuita. 
Achou-a igualmente o Sr. Guerry consignada com circum- 
stancias, (|ue nao podem ser desprczadas.n'uma obra hoje 
rarissima , as Delicke Plii/sico-matliemntic(P de Daniel Sch- 
wenler, pubhcada em 1636. Era este meio tao conhecido 
pelos pelotiqueiros, que transmitliam-no como um segredo 
niagico i»ara adormecer os gallos. 



SOMNAMBULISMO NATURAL E HYPNOTISMO. 331 

Em presenga de taesexperiencias, tantas vezes repetidas, 
impossivel e admitHl-as coino simples effeito da imaginagao. 
Produz-se naturalmeiite iima verdadeira vertigem em conse- 
quencia da fixidade do olhar desliimbrado; e essa vertigem 
era de ha miiito conhecida, havendo-se della apoderado a 
superstigao. Na primeira metade do XVI seculo imaginaram 
que, Iicando-se por maito tempo com os olhos flxos no em- 
bigo, e espirito absorvido nesta contemplacao , via-sealuz 
divina, de que se rodeava Jesus-Ghristo sobre o Thabor. 
Foram por essa razao appellidados do enphalopsychicos , ou 
umbicilanos ; e o singular processo que empregavam para 
ver a Deus , fora ja preconisado no XI seculo por um abbade 
do mosteiro de Xerocerca, em Constantinopla , por nome 
Simeao , em sen Tratado espirittial , onde faz mengao da 
especie de somno produzido por este methodo, e das visoes 
por elle alcancadas. 

E porlanto pela fixidade do olhar sobre um objecto de 
natureza propria a attrahir a attengao , e a impressionar a 
nossa retina , c pela absorpgao do pensamento nessa con- 
templagao , que declara-se uma vertigem, seguida da cata- 
lepsia. Na opiniao dos physiologistas , tern esta pratica por 
effeilo causar uma hyperemia, o plethora do cerebro , que 
e a sede do phenomeno. Ve-se muitas vezes o refluxo de 
sangue no cerebro, acompanhado de certa excitagao nervosa, 
determinar varios accidentes nevropathicos. Nao tem outra 
causa a hysteria nasmocas, e mulheres cujas I'uncgoes pe- 
riodicas nao sao convenientemente regutadas. Occasiona tam- 
bem certa hyperemia cere])ral a excessiva attengao. Dr. 
Baillarger cita o exemplo d'um mancebo que cahiaem epi- 
lepsia, se, lendo, encontrava uma palavra que o embara- 
Casse, provocando insolita attengao da sua parte. Produz 
mesmo elTeito uma viva impressao sobre a retina; e o Dr. 
Pierry conta que uma rapariga tornou-se cataleptica por ter 
olhado fixamenle para o sol. Como faz observar um celebre 



332 REVISTA BRAZILEIRA. 

physiologista italiauo, o Sr. Tigri, n'uma nota enderegada a 
Acadeiiiia das Sciencias , os processes usados pelos magneti- 
sadores lem os inesmos elToitos que a liypnotisa^ao, por isso 
que SB prescreve ao paciente ter a visla constantemeiite 
dirigida para OS olhos do magnetisador , collocado do ordi- 
nario n'nma posi(;ao mais elevada, por isso que esta de pe, 
e maguetisado dcitado ou sentado. Determina esta attilude 
no ultimo urn strabismo convcrgente e prolongado, que, junto 
a altenrao que se llie rcco i;rnenda, lanca-o n'um estado de 
vertigem , identico ao que obteve Baird e sens iinitadores, 
vertigem que conduz a catalepsia. 

Nao sao, pois, illusorios, os metliodos enipregados para 
magnetisar; tern seu elTeito poreni diverso do que suppoem- 
no OS defensores do magnetismo animal. Consisle a sua vir- 
tude cm delerminarcm excessiva attencao , que nas organi- 
sacoes nervosas e delicadas termina n'um estado hysterico, 
ou calaleptico. Eis a razao por que so os individuos impres- 
sionaveis e nervosos sao os proprios para screm magneti- 
sados ; nao operando outrosim o liypnotismo senao nas 
pessoas de igual conslitdicao. Nao obram do mesmo niodo os 
anastliesicos sobre todos os temperamentos ; e ba quem seja 
completamente rebelde a accao do ether e da a'nylena. Se tal 
c a impressionabilidade, que a simples olhar, como o do padre 
Faria, dotado de uma for^a e vivacidade que perlurbam ou 
alerram, os olhos do magnetisador desempcnliam o pape^ 
analogo ao do estojo do lanccta, ou da chapa de metal luzenle. 
fi que parece que succedera as religiosas deLoudun; o 
olhar de Urbano drandier punba-as fOra de si, e todos os 
pbenomeuos da catalepsia e hysterica declaravamse nellas 
apenas avistavam-no, sob o imperio do medo, ou da sym- 
pathia , eapazes de perturbarem suas fracas imaginagrjcs. 

Cumpre accrescentar que, uma vez manifestada a molestia 
nervosa, propaga-seella pela imitacao. Sabem todos os medicos 
que sao conlagiosas as affeccoes dcsle genero pela simples 



SOMNAMBULISMO NATITRAL E HYPNOTISMO . 333 

vista : :i epilepsia, a hysteria, a loucura, nao tern outra origem.' 
Descrevcu llecker a liistoria dessas curiosas epidemias , que 
desenvolveram-se debaixo da iiitluencia das crencas supef^' 
sticiosas, e cujo intcressante quadro tragou o Dr. Calmeil , 
nasua interessanteobra sobre a Lo^tcura. Declaroii-se ulti- 
mamente no norte da Islandia uina affecgao convulsiva, acom- 
panhadade halkicinaQoes, coin symptomas mui analogos aos 
prccedentemente descriptos. Impressionadas as imaginaQoes 
de algumas infelizes mocas por fanaticas predicas, cahiram 
ellas cm accessos de catalepsia , que foram tornados por ex- 
tases sobrenaturaes, e communicagoescom a Divindade. Nin- 
guem ha, que por si inesmo nao haja verificado a influencia 
do cxemplo nesse espasmo nervoso chamado — bocejo — . 
Pude tambem o somnauibuhsmo natural assumir ao caracter 
do urn contagio ; porquc estabelecem recentes observagoes 
a intima affinidade desse estado com a hysteria e a catalepsia. 
Refere Pezzi que sen sobrinho fora acommettido de accessos 
de somnambuhsmo, em consequencia de prolongadas leituras 
sobre esta extravagante alTecgao, da qual igualmente partici- 
para o criado empregado em seu servigo. 

Nao nascem por certo caprichosamente os sonhos , ou vi- 
soes, que se manifestam durante as crises de quasi todas as 
nevropathias : porquanto , esiando em estreitas relagoes com 
as sensagoes particulares da hysterica, ou do somnambulo, 
reflectemr as preoccupagoes do seu espirito , e sobretudo as 
modiricagoes que em seu organismo se operam. Segundo J. 
Baird, e o Sr. Azam , podem ellas ser provocadas nos hypno- 
tisados , cujos sentidos adquirem extrema agudeza , por movi- 
mentos que se Hies fagam executar , ou ainda pelas ideas que 
se Hies suggerem. Tenho tido muitas vezes occasiao de ob- 
servar, que respondendo a uma pessoa adormecida, e que 
falla durante seu somno, p6de-se leval-a a pensar sobre 
objcctos que Ihe scrvcm do assumpto a novos sonhos. P6de-se 
produzir nos somnambulos um facto analogo ; e assim se 



334 REVISTA BRAZILEIRA. 

explicaria o phenomeno da sugycstdo alleslatla por pessoas 
dignasde fe, e a que denominou-se communicarao dopensa- 
mento. 

A attitude dada aos somnambulos causaria nelles certas 
visoes.. que se achariam entao em couformidade com a idea 
do magnetisador que Ih'as communicassc. E certamente por 
identico influxo do estado pliysico sobre o ccrcbro que veni- 
se OS ebrios , ou as pessoas etherisadas terem constantemenle 
em suas hallucinac-oes as mesmas illusoes, ou preoccupagoes 
delirantes. Cita-se o exemplo da casa de Tropea na Calabria, 
na qual aquartelou-se urn regimento franccz , local baixo e 
insalubre, e onde sonhava com urn cao prelo quem abi per- 
noitava. A iufluencia physica e moral dessa habitagao levava 
cada individuo ao mesmo estado physiologico, e por conse- 
quencia ao mesmo sonho. E quasi que invariavelmente in- 
separavel a loucura paralytica das ideas de grandeza e opu- 
lencia, que fizeram dar a primeira phase desla molestia a 
denominagao de monomania ambiciosa. ^ uma nova prova 
da dependencia em que estao certas liallucinaQoes das des- 
ordens particulares do cerebro , e do systema nervoso. 

Essas correspondencias significativas explicam as sym- 
pathias, e tornam possivel a produccao concomitanle das 
mesmas ideas nas pessoas de analoga or^iianisag^ao , ou collo- 
cadas nas mesmas condigoes physiol igicas. Se , como ob- 
servou Adam Smith, [)rocede a sympathia menos do espec- 
taculo da paixao do que da presenga das circumstancias que 
a provocam, com mais forte razao devera ella nascer de 
umarelagno nas modilicagocsda economia, de uma especie 
de harmonia preestabelecida entre dous tempcramentos su- 
jeitos a intluencias physicas e physiologicas identicas; sem 
que haja precisao alguma da raysteriosa transmissao dos pen- 
samenlos, para explicar como a mesma imagcm otTerece-se 
simultan^amenle a duas imaginagoes. Ainda foram , porem, 
mais longe : no dizer dos experimenladores (refiro-me aos do 



SOMNAMBULISMO NATURAL E HYPNOTISMO. 335 

maior conceito , (como sejatu o general Noizet e o Dr. Puel), 
pode magnetisador suggerirao somoambulo umaopiniao, 
uma verdadeira idea delirante , de que este fique por algum 
tempo dominado ; n'nina palavra , Iransmittir-lhe urn sonho 
a seu bel-prazer. Delicada e a verificagao deste phenomeno , 
porque e sempre facil ao magnetisador enganar ; c dous 
homens de espirito, fervorosos partidislas do magnelismo ani- 
mal , Deleuze e Piiysegur, parece terem sido por mais de uma 
vez mystificados desse modo. E ainda quando cliegasse esse 
phenomeno a ser definitivamentcv verificado , nao veriamos 
nelle mais do que nova forma dos que ja havemos estudado. 
Existem individiios de tal maneira sensiveis, que, como 
pondera o general Noizet , basta despertar-lhes a idea de 
certas modificayocs da sua existencia , para que se llies re- 
prodazam : e e o que succede no somnambulismo, quando 
soffrem os nervos incrivel excitacao. Nos bypocondriacos e 
hystericos ve-se nascer a dor , e manifestarem-se os symp- 
tomas, pela mera conviccao de que existe o mal. Nao sac 
raros os casos de pessoas persuadidas de padecerem desta, 
ou daquella enfermidade , apresentarem logo os symptomas 
dessas enfermidades : bastando acalmar o seu espirito , e des- 
viar-lhes aattengao, para que desappareca o mal. Se pois, 
como pretendem os observadores que acabo de mencionar, 
paralysias imaginarias foram provocadas nos somnambulos, 
e ainda sobre individuos submettidos ao imperio de uma forte 
impressao , como acontecia no salao do abbade Faria , e por- 
que espirito reagia sobre o cerebro e o systema nervoso , 
para ahi produzir sensagoes identicas as que teriam resultado 
de uma causa morbida real. Serviria tudi isto para explicar 
porque OS somnambulos necessitam de fe para serem influen- 
ciados; nao que seja esta)» fe um salvo-conducto , como pre- 
lende o charlatanismo , mas por ser ella a condic'io que 
estabelece mais intima connexao entre a imaginagao e o or- 
ganismo. 



336 REVISTA BRAZILEIRA. 

Releva, porem, nao esquecer que o phenomcno da sug- 
gestao nao e aiiida urn facto suflicientomentc demonstrado, 
aconselhando a priidencia aguardar novos e concludentes 
experimentos , antes de pronunciarmo-nos. Ainda nao so 
pode, no actual estado dos conhecimentos, dar explicaylio 
das circumstancias que acompanhain o hypnotismo ; o modo, 
porem, por que se produzem os phenomeuos que o deternii- 
nam, ligam-no a classe das molestias, que teve por caracter a 
exaltacao , ou o torpor quasi que simultanoo dos sentidos. 
Ii; um somno nervoso provocado, como a catalepsia som- 
nambulica , por uma vertigcni , e que expoe a sensibilidade 
as anomalias proprias das atYeccoes nevropathicas. 

Assim, que poder-se-hia chaniar dc naturalismo do soiu- 
nambulismo artiflcial , e as praticas empregadas pelos mag- 
netisadores, sao factos que sobresaliein dos niais serios c 
Criticos estudos. Nada tern de cominuin com os milagres e 
com a magia os phenomenos a que alludimos : entram na or- 
dem natural, bem que accidental, das cousas; porque tambcm 
OS accidentes tern saas leis. Longe de contrariaiem as nogoes 
que nosfornecem a observagao e a experiencia, alargam pelo 
contrario o seu circulo : nao nos transportam as elevadas re- 
gioes do sobrenatural, deixando nos no flrme terreno dos 
phenomenos terrestres , para ondc so sabemos dirigir-nos. 
Convenho em ser este terreno monotono e semeado de 
abrolhos; convidando-nos a imaginacao para remonlarmo- 
nos as nuvens. Qiiein porem succuinbe a essa tentacao en- 
contra quasi sempre a sorte de Simao Mago, e abala-se a razao 
na queda,se de todo nao succumbe. As theorias psycbologicas 
que se quizeram bascar nas espcculac-oes mystico-magneticas 
sao empresas deste genero , sempre imprudentes e nao raro 
funestas. erro dos adeptos do magnetismo animal foi o 
de associal-o a observacoes cujo valor compromcttiam-no. 

Uma vez voltado para o inlinilo, nao ve o homem mais do 
que suas proprias sensagocs, nada podendo taclear, ncm 



SOMNAMBULISMO NATURAL E HYPNOTISMO. 337 

comprehender : olha-o coino para urn espelho de augmento , 
que Ihe Iransmittc a sua propria imageni. As hallucinanoes do 
sonho, da catalepsia, do extase e do somnambulisnio , sao 
como as mesas gyraiites e fallantes, quenao respondem senao 
ao que temos no pensamento, no temor , ou na esperanga. 
Existe certamente em nus mais alguma cousa do que essa 
?nateria inerte e inintelligente, que sera preza dos vermes e 
se decompora em imperceptivel p6; porem o principio mys« 
terioso , que nos anima tanto , intervem nos actos da vigilia , 
coinodo soinno cataleptico ou magnetico. Ncste ultimo estado 
torna-se a alma muito mais vezes ludibrio da imaginagao e 
dos sentidos ; pois que passiva e a vontade. Soffre forgosa- 
mente o nosso espirito a influencia das imagens que fazem 
nascer os moviineutos espontaneos da fibra cerebral, ou ner- 
vosa: eutramos, ate certo ponto, pelo somno na vida instinc- 
tiva, inscienle de si , como a dos auimaes : a razao , essa su- 
blimo coiiquista da experiencia, esse producto completo do 
juizo, escapa-nos, ou envia-nos entao uma luz que apenas 
serve para lancar-nos na incerteza sobre o verdadeiro caracter 
das visoes , que nos rodeam. Perde por ultimo a nossa pessoa 
sentimento da sua identidade, uma das mais rigorosas 
provas do que o eu e distincto de um organismo sem cessar 
renovado e Iransformado ; porque, ao despertar-se o som- 
nambulo, e algumas vezes o sonhador, ludoesquece, e pa- 
recellieque outro individuo disse e fez tudo o que a seu 
respeito ouve referir. 

Nao e portanto nesses anomalos eslados em que reduz-se 
homem a um enle inslinctivo, especie de automato, que 
Deus, a suprema c eterna razao revela-se-nos ; porque entao 
estaria o bruto mais vizinho a Divindado, do que o homem. 
Cumprc procurar no somnaml)ulismo cousa diversa. Instrue- 
nos csle plienomeno das inliuias relagoes do organismo coui 
a irilelligencia, de certos mcios de descobrir o poderio de 
uuia cconouiia perlurbada e enferma sobre a imaginagao , 



338 REVISTA BRAZILEIRA. 

que pede ao corpo os elementos de suas creacoes, quando 
cessa espinto de fornecer-lh'as, pela sua regular e extrema 
actividade. E igualmente o magiietismo animal um meio de 
dar ao systema nervoso certa acgao que Ihe falta, ou acalmar 
uma excitagao que o exhaure. Foi por muitos medicos em- 
pregado no curativo das molestias neviopathicas, para as 
quaes era a therapeutica impotente : procurou allivio a dores 
excessivas, e somno reparador, apos prolongadas crises; 
supprindo em alguns casos o use dos anaslhesicos. Sao estes 
relevantes servigos que fazem-no digno do nosso reconheci- 
raento. 

Esclarecer o homem sobre a nalureza do elasterio, a que 
obedece seu organismo , mitigar seus soffrimentos, els por 
certo virtudes que fallam a muitas philosophias, e de que se 
honram muitas sciencias. 

Reclaiiiam elles para o magnelismo animal alguma cousa 
maisdo ([ueo desdenhoso indifferentismo que moslramos aos 
charlalaes, e que seria injusUficavel logo que liomens ho- 
nestos e graves apresenlam-nos factos, cujo esludo por longo 
tempo OS occupara. 

Alfredo Maurv. 

(Extrahido da Hevista dos Dous Mundos.) 



ASTRO^OMIA 



Siir la iioiivelle planete aiiiioncee entre Mereure 

et le Solell {*). 

\° L'observalion du Dr. Lescarbault est fausse. 

Je vois dans le compte rendu de la seance du 2 Janvier 
1860, une lettre du Dr. Lescarbault qui annonce avoir vu 
passer ie 26 Mars 1859 dans la region voisine du p61e nord du 
soleil un point noir, parfaitement rond, et qu'il attribue au 
passage d'une planete devant le soleil. 

A la lecture de cet article, je me suis empressse de verifier 
dans mes notes si je n'avais point observe le soleil le meme 
jour, vu que vers cetteepoque, c'est-a-dire , depuis Janvier 
jusqu'a Aoiit 1859, j'ai fait dans la bale de Rio de Janeiro 
a S. Domingos de tres nombreuses observations, ayant pour 
but de determiner le decroissement de Tintensite lumineuse 
du soleil depuis le centre ju^qu au bord et de I'equateur aux. 
p6les. Les resultats de ces observations seront publics ulte- 
rieurement dans uu ouvrage sur la constitution physique du 
soleil, auquel je travaille deja depuis long temps et dont j'ai 
public quelques fragments dans le journal la « Science » en 
1858. 

Or, le 26 Mars je trouve deux series de comparaisons, la 
premiere de IT' 4" a 11'' 20"' surl'inlensite relative du centre 

(*) r>uljlicainos esle imporlaiiK! trabalho do disUncto aslronomo, Mr. Em. 
Liais, em fiancez, para que possa olio »cr conliccido, e apreciado dentro e fora 
do Brazil. (0 Editor.) 



340 REVISTA BRAZILEIRA. 

et du bord du soleil, la seconde de midi 42" a 1'' 17"' pour 
la comparaison des poles et de Tequateur. L'intervalle cnlre 
les deux series est dii a des nuages. 

En ayant egard a la difference de 3 heures entre les longi- 
tudes d"Orgeres oil a observe Mr. Lescarbaull et S. Doniingos, 
on trouve que 1" entree du point noir d'apres son observalion 
d'entree aurait eu lieu a 1'' 5'" de S. Doniingos, et celle de 
sortie a 2*" 23" du meme lien. A 1'' 17'" de S. Domingos, la 
tache etait done entree sur le soleil a Orgeres depuis 12", et 
d'apres la vilesse de sa marcbe d'apivs Mr. LescarbauU, elle 
aurait avance de l',4 sur le disque , de sorte que sa plus petite 
distance au bord du soleil eut ete de plus de 20 secondes 
d'arc. Cette quantite est trop grande pour que la difference 
des parallaxes dOrgeres et de S. Domingos eut pu Taneantir , 
et en consequence, quandj'ai fait ma derniere comparaison 
j'aurais du voir sur le soleil le point noir en question s il y 
avait ete a Orgeres, et cela d'aulanl plus que d'apres Mr. 
LescarbauU, ce point est entre a environ H° du pole nord 
du soleil , region que jexplorais. Or, est-il possible que dans 
un travail fait pour des rechercliessur la consUtulion physique 
du soleil je n'aurais pas remaique une tache du soleil a 79° 
de son equateur etcela avec un grossissemcnt double de celui 
qu employait Mr. LescarbauU, et quand pour cha([ue compa- 
raison je visilais avec soin la region solaire pour tenir comple 
de ses variations apparenles dintoosile par les rides et les 
lucules ? 

Je suis done en mesure de nier de la facon la plus nette 
et la plus positive le passage d'une planete sur le soleil a 
I'heure indiquee. Cest au resle ici le lieu de faire reniarquer 
une contradiction notable qui existe dans larticle de Mr. Les- 
carbauU. 

Dans sa leltre, il presente ses observations conuue s"il 
avait observe reellcmeiU lenlrec sur le disque solaire; apres 
avoir donne Iheure de cette entree, il ajoute: lerrour possible 



NOVO PLANETA ENTRE MERCURIO E SOL. 341 

est de 1 a 5 secondes moyennes qu'il fandrait ajouter, tandis 
qu'il donne pour errcur possible a la sortie de 1 a 3 secondes 
moyennes qu'il faudrait retrancher. L'erreur sur Tentree 
n'excede done giiere celle sur la sortie, et par leurs grandeurs 
ces erreurs sont cellos que les astronomes donnent generale- 
ment aux passages de Mercure, celles d^entree a peu-pres 
doubles toujours de celles de la sortie. II est done parfaite- 
ment evident que Mr. Lescarbault apresente etentendu pre- 
senter son observation comme ayant reellement observe Ten- 
tree. 

Or, Mr. Le Verrier, quand il Fa consulte sur ses obser- 
vations, n'a pas manque de lui en faire Tobservation ; car si 
pour une planete attendue, comme Mercure ou Venus dans 
leurs passages , on pent saisirla moindre impression, surtout 
par I'avantage que Ton a de conccntrer son attention sur le 
point solaire ou doit avoir lieu le phenomcne , il n'en est pas 
de meme quand il s'ajit d'une planete inconnue qui a du se 
projeter sur le soldi en totalite pour etre vue, aprcs quoi 
I'observateur qui uattendait pas le phenomene a dii re- 
chercher la seconde a sa montre et se preparer a I'obser- 
vation. 

Or, devant la remarque de Mr. Le Verrier, Mr. Lescarbault 
s'est retracte, comme il resulte de la phrase suivante de Mr. 
Le Verrier : 

« Mr. Lescarbault a bien voulu nous permettre d'examiner 

dans le plus scrupuleux detail les instruments dont il s'est 

servi , et il nous a donne les explications les plus minutieuses 

sur ses travaux et en particulier sur toutes les circonstances 

du passage d'une planete sur le soleil.— L'entree elle meme 

n'a point ete observec par lui ; la planete avail deja parcouru 

quelques secondes sur le disque du soleil au moment ou 

Mr. Lescarbault I'a apcrguc, et c'est en tenant compte de la 

Vitesse qu'il a reconnue, qu'il a juge le moment de l'entree. » 

Or, ceci est en contradiction manifesto avec lamanieredonl 
K. a. Ill 23 



342 RE VISTA BRAZILEIRA. 

Mr. Lescarbault apresente Ventree. En effet, il resulte de la 
description meme de ses inslrumenls quMl n'avait pas les 
moyens de mesurer une distance de la planeteau bord, mais 
seulenient ceux de determiner des angles de position. Le 
calcul de Tentree ayant ete fait aprescoup, n"a pu etre fait 
en consequence quesur nne estimation de cette distance. Or, 
par les incertitudes qu'il laisse a reslime du diametre de sa 
planete, Mr, Lescarbault reconnait lui-meme Timpossibilile 
d'une telle estimation exacte. 11 regne dans ses expressions a 
cetegardnne incertitude de plus demoi tie de la valeur la 
plus probable, on de plus de deux secondes. A plus forte 
raison dans Testime de la distance de la planete au bord 
avait-il conscience de pouvoir se tromper de 2 on 3 secondes 
ou meme plus, puisque la planete, dit Mr. LeVerrier, etail 
deja entree de quelques secondes (on ne donne meme pas le 
nombre estime) , et cette erreur pourrait etre en plus ou en 
raoins. 

Or, la planete supposee cmployant 11 secondes de temps 
environ a parcourir une seconde sur le disque solaire , il en 
resulte que d'apres la vitesse observee , el I'estimation de la 
distance, I'erreur possible sur Tentree presentee comme le 
fait Mr. Le Verrier eut ete de 20 a 30 secondes et meme plus, 
et cela en plus on en moins. 

Si done , des Tabord Mr. Lescarbault avait entendu pre- 
senter son observation comme il Ta dit a Mr. Le Verrier, il 
aurait dit aprcs lindication de I'heure d'entree : I'erreur pos- 
sible est de 20 a 30 secondes en pins on en. moins , au lieu 
de Terreur possible est de 1 a 5 secondes moi/ennes qull fau- 
drait ajouter. II resulte de cette comparaison des textes que 
Tobservation du Dr. Lescarbault est partiellcmenl fabriquee 
apres coup, et des lors, il ny a pas plus de raison pour 
qu'elle ne ie soit en totalite. Par consequent, elle ne merile 
aucune creancc, memo abstraction faite des observations si- 
multanecs, En presence de cotle contradiction, il y a lieu aussi 



NOVO PLANETA ENTRE MERCURIO E SOL. 343 

au sujet du retard apporte a la publication , d'etre moins in- 
dulgent que Mr. Le Verrier qui avail interet a ce que Ton 
accordat creance a Mr. Lescarbault. Porquoi en effet, apres 
une pareille decouvcrte, ne pas appeler de suite les efforts 
combines dcs astronomes de tous les pays a chercber le retour 
de cette planete ? Si Mr. Lescarbault eut possede une obser- 
vation reelle de cette importance , il I'aurait publiee depuis 
long temps. Ne doit-on done pas supposer que c'est parce 
que I'attention a ete appelee sur ce sujet par le travail de 
Mr. Le Verrier sur le mouvement du peribelie de Mercure , 
que certain d'ailleurs de trouver de Tappui , il a voulu arriver 
de suite a la celebrite ? 

2.'' Contrairement a I'assertion de Mr. Le Verrier , toute 
planete plus rapprocbee du soleil que Mercure , serait plus 
visible hors du soleil dans les lunettes que cette derniere pla- 
nete , a la seule condition de presenter un disque sensible, 
Une observation facile prouve done qu'il n'existe pas de grand 
planete entre Mercure et le soleil. 

La visibilite des etoiles et la visibilite des planetes en plein 
jour dans les lunettes sont reglees, comme le fait remarquer 
Arago, par des lois differentes. Pour ces dernieres , pourvu 
qu'elles presentent un diametre sensible dans les lunettes, la 
visibilite ne depend nullement de ce diametre, mais unique- 
ment de I'eclat de la surface , et par consequent elle augmente 
avec le rapprochement du soleil. Ainsi Jupiter malgre son 
diametre ne pent etre vu de jour au meridien que le matin 
et le soir quand le soleil est pen eleve sur I'borizon ; Mars, 
quoique beaucoup plus petit, pent dans des cas favorables etre 
vu jusqu'a S"" de difference d' AH du soleil ; Venus se voit 
plus prcs encore , mais la seule planete que Ton puisse suivre 
dans le voisinagc pour ainsi dire du soleil, est Mercure. 

Je Tai obscrvcc une fois moi-meme a I ° du soleil, et d'autres 
astronomes ont fait des observations scmblables. 
Tuule planete plus rapprocbee du soleil que Mercure sera 



344 REVISTA BRAZILEIRA. 

plus fortement eclairee , et par suite presentera plus pres du 
soleil encore sur la region atmospherique, oii elle se projetera 
I'exces de 1/64 de lumiere qui peut la rendre visible. 

Admettons done pour la planete de Mr. Lescarbault la 
distance qui resulte deses observations, c'est-a-dire , la dis- 
tance de 1,427 , il est facile de calculer que I'eclat qui est en 
raison inverse des distances sera 7,36 plus grand pour la pla- 
nete en question que pour Mercure. 

Cela pose, admettons pour limite de visibilite de Mercure 
la distance de l"au soleil. A cette distance, I'intensitedela 
surface de Mercure sera done egale a cellc de I'atmosphere 
plus 1/64 de cette derniere ou 7,47 fois plus grande que celle 
de I'atmosphere a 1" de distance du soleil. Elle presentera 
done sur une atmosphere plus lumineuse de 7,36 fois que 
I'atmosphere a 1° du soleil I'exces de 1/64 de lumiere qui peut 
la rendre visible. 

Or, les experiences photometriques d' A rago nous ont appris 
que I'atmosphere solaire est d'une intensite a pen pres cons- 
tante dans une etendue egale nu diamctre solaire , ce qui 
indique que I'intensite varie Ires lentement dans le voisinage 
de cet astre. Quelques experiences m'ont au rcste indique 
qu'a 30' du soleil , Vintensite est de 2 a 3 fois plus grande au 
plus qu'a 1°. Done avec Tintensite en question , la planele de 
Mr. Lescarbault" pourrait etre viiehors du soleil a pen pres 
jusqu'au contact avec cet astre , pourvu qu on niit son disque 
hors du champ. Done elle serait visible en permanence avec 
les lunettes- 
En visitant les environs du soleil avec soin, enfaisantde- 
crire a la lunette une serie de cercles de plus on plus grands, 
autour de cet astre, ou ne pent manqiier de voir la planele, 
si I'observalion est faite seulement 2 jours conseculifs, pour le 
cas oil le premier la planele aurait ete derriere le soleil. Tout 
le monde peut repeter cette observalion qui donne un i^^sui- 
tat negatif. 



NOVO PLANETA ENTRE MERCURIC E SOL. 345 

Le genre cVobservation que je viens d'indiquer prouve non 
seulement que la planete de Mr. Lescarbault n'existe pas, mais 
il fait voir en plus quil n'existe aucune planele dans le voisi- 
nage du soleil , assez grande pour quon puisse observer son 
passage sur le disque, du moins avec des grossissements 
moderes ; car loute planete qui serait vue en projection sur 
le soleil, aurait un diametre sensible plus grand meme qu'il 
ne paraitrait sur cet astre a cause de I'irradiation. 

Quant a la planete de Mr. Lescarbault , elle avait d'apres 
lui un diametre tres sensible : « La planete , dit-il en effet , 
parail comme un point noir d'un perimetre circulaire Men 
arrete, » etplus loin « j'ai la conviction que quelque jour on 
verra repasser devant le soleil un point noir parfaitement 
rond. » Ges indications si nettes sur la forme , indiquent un 
disque bien marque , comme au reste son estimation a vue 
du diametre qu'il compare au quart de celui de Mercure dans 
ses passages I'indique egalement. Cette planete serait done 
nettement accusee par le genre d' observation que je viens de 
rapporter, et c'est une nouvelle preuve de sa non existence, 
et meme de celle de toute autre analogue. 

Quoique devant etre visible dans le voisinage immediat du 
soleil, les planetes da genre de celle de Mr. Lescarbault 
deviendraient de plus en plus brillantes en s'en eloignant. Au 
dela de la limite ou on pent voir Mercure, c'est-a-dire, au dela 
de 1» leur eclat ne pourrait manquer de frapper I'obser- 
vateur le moins attentif. 

Je dis maintenant que la planete de Mr. Lescarbault, si elle 
cxistait, serait visible a I'oeil nu le soir apres le coucher du 
soleil et le matin avant son lever, quand elle est dans les en- 
virons de sa plus grande elongation. 

En effet dans ma traversee de France a Rio de Janeiro en 
Juin etJuillet 1858, j'ai tons les soirset meme frequemment 
le matin fail des observations suivies sur le crepuscule ; ob- 
servations , dont j'ai meme communique anlerieurement le 



346 REVISTA DRAZILEIRA. 

resultat a rAcademie. Or, en meme lemps que je m'occiipais 
du crepusculeel de la lumicre zodiacalc, j"ai toiijours porte 
uneattenlion speciale aiix regions voisincs du soleil, afin de 
voir si je n'apercevrais pas quelque comcte ou planelc. Dans 
ces observations, j'employais unc petite lunette de Galilee du 
grossissement de 3 fois , vu la difTiculte a bord par suite des 
mouvenicnts du navire, de pouvoir (aire des rcchcrches avec 
mes autres instruments. 

Or, je trouve dans mes notes que le 14 Juillet par l** de lati- 
tude sud et 28 de longitude ouest, apres le couclier du soleil 
j'apergus Mercure sans dailleurs le cherchcr d'abord avec ma 
lunette; puis en fixant la meme region a Tail nu , je la dis- 
tinguai a environ 4° au dessus de Thorizon. En faisant au 
moyen des ephemerides le calcul de sa distance au soleil , a 
cet instant, il est facile de voir qu'elle etait de 7° 10' et que 
son diametre vu de la terre souslendait seulement un angle 
de 5", et etait plus de deux fois plus petit que son diametre 
dans ses passages sur le soleil. Le IG Juillet par 5'' de latitude 
sud et 31 de longitude ouest, Mercure etait apercue dans le 
crepuscule sans difTiculte et au premier coup d'oeil. II etait 
alors a 9" 15 du soleil. 11 resulte de ces observations que dans 
la region equaloriale, Mercure peut etre vu le soir apres le 
coucher du soleil des que sa distance angalaire a cet astre 
approche de 1". Dans ce cas la planele ne presentant pas de 
disque appreciable, la visibilite depend de la lumiere totale , 
c'est-a-dire , a la fois du diametre et de fecial superficiel. 

La planete de Mr. Lescarbault a d'apres son estimation un 
diametre inferieur au quart de celui de Mercure dans son pas- 
sage sur le soleil, c'est a-dire, un diametre de moins de 2", 5. 
Avec le grossissement de 150 fois qnil employait, le diametre 
de 2", 5 lui aurait paru soustendrcun angle de 0' 15",et meme 
moins, 4 a 5' au [)lus en tenant comptc de Tirradiation. Or, 
remarquantquune minute est la limile de visibilile a laquelle 
on ne peut dislinguer aucune forme, et que les lermes dont 



NOVO PLANETA ENTRE MERGURIO E SOL. 3i7 

s'est servi Mr. Lescarbaiill im point noir parfaitemcnt rond , 
un perimetre bien circulaire, bien arrete , indiquent neces- 
sairement un diametre do 4 a 5 minutes au moins , on voit 
que son estimation que la planete serait inferieure au quart 
du diametre de Mercure projete sur le soleil est un pen faible 
par rapport a sa redaction, et on se trouve force d'admettre que 
cetle planete soustendait au moins 2", 5 pour paraitre avec le 
grossissement employe comme un disque bien arrete et par- 
faitemcnt circulaire. 

Ce diametre de 2",5 est la moitie de celui de Mercure le 
jour queje I'ai apercue a 1" du soleil. La surface de la planete 
serait done aussi le quart de cellc do Mercure le memo jour , 
mais comme I'eclat est 7 fois 36 plus grand par I'effet du 
rapprochement du soleil, on voit que la lumiere totale envoyee 
a la terre par la planete Lescarbault devait etre double a peu 
pres de celle de xMercure le 14 Juillet 1858. Done, comme Mer- 
cure etait dans ce dernier cas visible a 7" 10' du soleil pres 
de I'eqiiateur ou cet astre s'abaisse rapidement sous I'liorizon, 
11 s'ensuit qu'on peut affirmer avec certitude que la planete 
Lescarbault doit etre visible sous Tequateur des qu'elle est a 
5 a 6° du soleil , et par consequent en approchant Tepoque de 
sa plus grande elongation qui serait de 8", et lorsqu'elle a 
atteint cette plus grande elongation elle doit etre tres-brillante. 
La visibilite k I'oeil nu soit avant le lever du soleil , soit apres 
le coucher de cet astre, aurait lieu alors pendant plus de la 
moitie de la revolution de cette planeie, c'est-a-dire, pendant 
plus de la moitie du temps. On la verrail alors pendant 5 jours 
environ apres le coucher du soleil, elle disparaitrait 5 jours 
ct paraitrait 5 jours avant le lever et disparaitrait de nouveau 
environ 5 jours pour reparaitrele soir. II s'ensuit done qu'une 
serie d'observations du ciel dans la zone intertropicale apres 
le coucher du soleil, prolongee pendant plus de 5 jours seule- 
ment avant le lever et apres le coucher du soleil, ou bien 15 
jours apres le coucher de 1' astre seulc, la ferait apercevoir. 



348 REVISTA BRAZILEIRA. 

Or, mes observations en considerant seulement la partie faite 
dansle Irajetdu Iropiqne du cancer an tropique du capricorne 
forment une serio bcaucoiip plus longiic dans laquelle je 
n'aurais pas manque dc voir la planelc Lescarbaull, ou loule 
autre plancte seniblable, s'il avail existo des astrcs de celle 
nature. De plus, depnis ISmois que je suis au Bresil, j'ai bien 
des fois eu Toccasion de repeter ces observations. Au reste en 
pared cas on no serait pas venu jusqu'au 19« siecle sans 
lesvoir, et les nombreux observateurs qui chercbcnt sans 
cesse des cometes Ic matin et le soir dans les environs du 
soleil, n'auraient pas manque de decouvrir la planete de Mr. 
Lescarbault, ou Tanneau de planetes de iMr. Le Vcrrier, s'ils 
etaient des realiles. 

3.° Dans les eclipses dc soleil , la planete de Mr. Lescar- 
bault n a pas ete vue. 

Pendant Teclipse du 7 Septembre 1 858 a Paranagua , un 
soin trcs-grand a ete apporte par la Commission Scientifique 
pour reconnaitre les etoiles qui pouvaient clre visibles. Les 
environs du soleil ont ete explores avec soin , pour voir s'rl 
n'y aurait pas quelque comete. Or, tons les points lumineux 
apergus sur la totalite du ciel ont ete reconnus pour Mcrcure, 
Venus ou des etoiles, et ils sont designes dans le rapport dc 
la Commission. 

Le preparatcur des plaques photograpbi(|ues qui sortail de 
I'obscurile et devait par suite , conformement a la rcmarque 
dc Mr. Fayc, avoir les yeux plus sensibles encore ([ue les 
aulres personnes a la lumiere, a rcmanpie les etoiles lorsqu'il 
a regjirde le pbeiiomene en sortant de la cliambre obscure 
avec les plaques preparccs que je me proposals de tircr. II a 
vu Mcrcure, mais n'a pas vu plus que les autres personnes un 
cortege dc planetes autour du soleil. 

Le genre d' observation demande par Mr. Fayc cxiste done, 
et ;i moins de fairc h supposition que tout Tanneau dc pha- 
iietes de Mr. Le Verrrer serait venu se placer juste derrierc lo 



NOVO PLANETA ENTRE MERCURIC E SOL. 349 

soleil au moment de TecUpse, ce qui bieii que possible k 
supposer pour quelques uus iic peut etre admis par la totalite 
de ces corpuscules ; I'eclipse de Paranagua fournit le moyen 
de repoiidre negativemenl a I'existence des planetes en ques- 
tion. 

A ce sujet , 11 est bon de premunir les observatem*s de 
Teclipsede i860 qui s'amuscraient a chercher des planetes, 
contre une apparencc qui pourrait se produire et qui pourrait 
les tromper. Deux fois un point lumineux a ete vu sur le 
disque de la lune dans des eclipses par Ulloa et Mr. Valz. 
Celte apparencc parait due a des refractions anormales ou une 
sorte de mirage, qui aurait porte Timage d'un point du soleil 
dans cette direction pour I'observateiir. II pourrait done se 
faire que des points semblablcs pussent d'une station paraitre. 
hors des deux disques. 

Une telle apparencc ne prouverait done I'exislence de pla- 
netes qu'a la condiction de se reproduire identique dans di- 
verses stations. 

II resulte de tout ce qui precede qu'il n'existe pas entre 
Mercure et le soleil de planete assez grande pour etre vue 
projetee sur le soleil avec des instruments d'un grossissement 
modere. Le mouvement du perihelie de Mercure, s'il est du a 
des planetes circulant entre le soleil et la terre , ne peut done 
provenir que des efforts combines d'une multitude de petltes 
planetes. Mais alors les passages sur le soleil doivent etre 
frequents. Comment done se fait-il que les observations con- 
scientieuses des nombreux observateurs qui sur tout depuis 
quelques annces observcnt les tacbes du soleil avec soin et 
pfesque en permanence avec des instruments puissants n'aient 
pas vu ces passages. Comment se fait-il aussi que quand avec 
les memos instruments on a explore les regions voisines du 
soleil avec tant do soin pour tacher de voir la couronne ou 
des flammes rongealres, on n'ait ricn vu, puisque ces planetes 
dcvraient etre trcs-brillantes ? Comment aussi se fait-il que 



350 REVISTA BRAZILEIRA. 

dans les eclipses on n'ail pas vu la couronnc solaire rcmplie 
de points brillanls ainsi que les regions voisines du soleil , 
lorsqu'on sest arrele aux nioindres details do ces appa- 
rences ? 

II ne faut pas perdre de vue que depuis un siecle surtout 
les observations du soleil el les dessins de ses laches onl eu 
lieu par milliers. 

Dans toute cetle immense quantile de materiaux on ne 
trouve rien qui permelte d"admettrc Texistence de corpuscules 
lournant aulour da soleil, Les observations de Pastorfl, rap- 
portees par Mr. Hervick dans sa communication a llnstilul du 
21 novembre 1849 ; dans lesquels eel observaleur aremarquc 
quelques laches qui ont eprouve un grand deplacement en 
peu d'instants sur la surface solaire, se lient a une autre 
classe de phenomenes; les changemenls rapides qui onl lieu 
quelques fois a la surface du soleil. On a meme vu plusieurs 
fois des laches naitre et disparaitre pendant que Tobservaleur 
avail Foeil a la lunette, et meme une tache disparaitre et 
paraitre un peu plus loin ; ou de grandes taches changer 
rapidement de forme. 11 ne faut pas confondre ces apparences 
vues par PastorfT avec desplanetes passant sur le soleil. 

On est done fonde a conclure que, si Taccroissemenl du mou- 
vement du perihelie de Mercure est du a ratlraction dematicre 
comprise entre le soleil et cette plani'te, cclle matiere ne forme 
pasdesplanetesproprementdites; elle est a letat de poussiere 
cosmique et fcrait des lors parlie de la ncbulosile solaire ou 
lumiere zodiacale. 

3.*' Ce n'esl qu'en supposant aux observations astronomi- 
ques une precision dont ellesne soul pas susccptibles,qae Mr. 
Le Verrier a suppose lexistcnce d'une forte perturbation entre 
Mercure et le soleil. 

Le mouvemcnt du perihelie de Mercure a etc dcduit des 21 
passages observes de celle plancle. Mais dans cc travail , il 
eut etc important de lenir comptc de la refraction qui, comme 



Novo PLANETA ENTRE MERCURIC E SQL. 351 

jel'ai fait voir dans im mcinoirc recent, change le lieu d'ou la 
projection de Mcrcure sur lo bord du soleil est vue en iin 
instant donne. En refaisant le calcul de cette maniere , on 
trouverait necessairement pour expliquer le mouvement de 
Mercure, un mouvement du perihelic tin peu different de 
celui qu'indique Mr. Le Verrier. Les observations comportent 
d'ailleurs des erreurs tres notables, et on pourrait par un mou- 
vement du perihelie un peu plus petit que celiii que suppose 
Mr. Le Verrier, les representor d'une maniere satisfaisante, et 
des lors ce mouvement pourrait etre explique en supposant 
la masse de Venus plus grande d'une douzieme a une quin- 
zieme. 

11 est vrai que dans ce cas, la variation seculaire de I'obli- 
quite de recliptiqiie serait un peu modifiee et introduirait des 
erreurs de 1",4 sur la mesure de Tobliquite. Lorsqu'on re- 
marque: \\ que les observations des bords du disque solaire 
donnent lieu a des equations personncUes tres-fortes;2'', qu'en 
Europe ou ont etes observes les 7 solstices d'oii la valeur de 
I'obliquite est deduite, le soleil est tres-bas en hiver et dans 
une zone oil les refractions sonttres-fortes; 3°, que les di- 
verses tables de refraction presentent entre elles des diffe- 
rences deja plus grandes ; 4% qu'on n'a pas encore determine 
si les memos tables conviennont au jour et a la nuit ; 5<', en- 
fin , que le nombre des solstices en question n'est que de 7 : 
on est bien force d'admettre la possibilite d'erreurs de cette 
grandeur, et memos d'erreurs plus grandes, surtout si on ajoute 
aux considerations precedenles la remarque que pour une 
memo otoile, telle que la polaire , deux pointes distantes de 
quelquos minutes donnent, ramenees au meridien, des diffe- 
rences de hauteur qui peuvent attoindre deux secondes. 

II sufTirait d'admettre une erreur possible de 2",5 surl'obli- 
quile de rocliptique pour augmenter d'un dixieme la masse de 
Venus et expliquer la totalite du mouvement que Mr. Le 
Verrier trouvc au perihelie de Mercure. Or, d'apres ce qui 



352 REVISTA BRAZILEIRA. 

precede une telle erreur est admissible quoique Mr. Le Verrier 
la rejette. Mais coiiimc il n'y a pas lieu de supposer toutes les 
erreurs sur I'obliquite deleclipUque, et qu'il y en a bien aussi 
sur les passages de Mercure , il ne resulte quavec une aug- 
mentation moindre de la masse de Venus on rendaisemenl 
compte des deux choses avec une approximation plus grande 
pour Tobliquite et siilfisante pour les positions de Mercure. 
C'est done, en supposant aux observations astronomiques 
une precision dont elles ne sont pas susceptibles, quo Mr. Lc 
Verrier a emis Topinion de la necessile de plajietcs entre le 
soleil et Mercure pour expliquer le mouvement du perihelie 
de cette derniere. 

.4u reste en renongant a Tinvariabilite des mouvemenls 
moyens qui suppose la Constance des masses et que rien 
ne proure , on peut encore expliquer les positions de Mer- 
cure, sans supposer un mouvement si grand de son perihelie. 

Emm. LiAis. 



Premiere ai»iiro:Kiiiiatioia Ae» elements tie la Co- 
mpte decoiiverte a Olintle le t6 Fevrler i960 , par 
mr. Euim. Llals. 

Distance du perihelie 1,20 

IncUnaison 80*^ 5' 

Longitude dunoeudascend. 324" 0' ^ Equinoxc moyen du 

Longitude du perihelie 174° 2' \ I" Janvier 1800. 

Passage au perihelie lOFevrier a 23''i8"'temps moyen 

d'Ohnda. 
Sens du mouvement : direct 

Ces elements qui recevront ulterieurcment les corrections 
indiquces par les observations futures, ont etc dediills des 
observations faitcs par la methode du micrometre circulaire. 



t 
i 



HISTORIA 



A estatua da lllia do Coi-vo. 

E quer na nuvem propria que te iadico 
Que esse cadaver meu vS transportado 
E na ilha do Corvo do alto pico 
O vejam n'uma ponta coUocado ; 
Onde accne ao paiz do metal rico , 
Quo ainbicioso europeu vendo indicado 
Dar5 logar que oiivida nella seja 
A doutrina do C^o e a voz da Igreja. 

(CARAMURt' — Canto I , Est. 63.') 

rnartello demolidor da critica historica tern deatruido em 
nossos dias os vetustos monamentos do erro e da supersticao : 
OS factos , que melhor averiguados pareciam , os axiomas pe- 
Irificados pelos seculos tem sido submettidos a analyse, a cuja 
luz electrica hao poiicos resistido. 

Impiedade ! exclamam alguns ; e dest\artc profanar o pas- 
sado, e expOr ao ridiculo as venerandas tradi^oes de nossos 
pais.— As tradi^Ses, convertidas em legendas, sao, respon- 
deremos nos, excellentes para o romance, para as baladas e 
canQoes, que formam a poesia do povo ; nao podendo por6m 
aspirarem os foros da liistoria , nem com ella cumpre que 
confundidassejam. Resentem-se os chronistas e historiadores 
antigos da falta de critica ; acolliiam os boatos com a facili- 
dade dos modernos jornalistas, e sem se darem ao trabalho 



354 REVISTA BRAZILEIRA. 

de examinarem os principios, apressavam-se em tirar as con-, 
clusoes : tal e seu mor defeito. 

Escolhemos para assumpto deste esliido uma dessas tradi- 
Qoes, que mereceu a honradescracolhida por graves autores, 
passando ale nos com a aureola da verdade. 

Da fama era que no cimo d'uma montanha da ilha aQO- 
riana, denominada do Corvo, achara-se aestatua d'um ho- 
mem montado em um cavallo sem sella, com a cabega des- 
coberta, a mao esquerda collocada sohre a crina do cavallo , 
e a direita estcndida para o Occidenle , como para indicar 
aos navegantes essa direcgao. Accrescentava-se que era essa 
estatua de pedra, em cujo pedestal da iuesma pedra viam-se 
alguns caracteres desconhecidos. 

Vejamoscomo um dos nossos primeiros chronistas, Damiao 
de Goes , refere esse achado , na sua Chionica do Principe D. 
Joao , piiblicada em Lisboa no anno de 1507, a fl. 9, v. 

« Hos mareantes Ihe chamam — ilha de marquo — , por- 
que com ella (por ter uma serra alta) se damarqa , quando 
va demandar qualquer das outras. No cume desta serra , da 
parte do Noroeste, se achou liua estatua de pedra, posta 
sobre uma lagea, que era hum home em cima de hum cavallo 
em osso, e o home vestido de hua capa quam bedem , sem 
barrete, com hua mao na coma do cavallo, e o brago direito 
stendido, e os dedos da mao encolhidos, salvo o dedo se- 
gundo, a que OS Latinos chamam index, com que apontava 
para o Ponente. Esta imagcm que toda sahiamacigadamesma 
lagea, mandoa el-rey D. Emanuel lirar pelo natural por um 
seu criado debuxador, que se chamava Duartc Darmas, e de- 
pois que viu o debuxo mfidou hum homein engerihoso, na- 
tural da cidadc do Porto , que andara inuito em Franga e 
Italia, que fosse a esta ilha para cD nparelhos que levou tirar 
aquella antigualha , ho qual quado delta lornou dixe a el-rey 
que a achara desfeita de hua tormenta que lizera o inuerno 
passado. Mas a verdade foi que a qnehraram por mao azo, c 



A ESTATUA DA ILHA DO CORVO. 355 

trouxeram pedaQos clella, — s. a cabega do home, e ho brago 
direito co a mao e hua perna , e a cabega do cavallo , e hua 
mao que slaua dobrada e aleuantada, e urn pedago de hua 
perna, ho que tudo steue na guarda roupa del-rey alguns 
dias, mas ho que se despois fes destas cousas, ou honde se 
puseram eu nam ho pude saber. Esta ilha do Corvo, e san- 
tantam foram de Joam dafonseca , scriuam da fazenda del rey 
D. Emanuel , e delle has herdou seu filho Pero dafonseca , 
scriuam da chancellaria del rey D. Joao terceiro, seu fllho, 
ho qual Pero dafonseca no Anno de Mil C.XXIX , has foi ver, 
e soube dos moradores que na rocha abaxo donde stiuera a 
statua, stauam talhadas na mesma pedra huas letras, e por 
ho lugar ser perigoso pera se poder hir honde o letreiro sta , 
fez abaxar algus homes per cordas bem atadas , hos quaes 
imprimiram has lelras que ainda ha antiguidade de todo 
nam tinha cegas , em gera que pera isso levaram , contudo 
has que trouxeram impressas na cera eram ja mui gastadas, 
e quasi sem forma , assi por serem taes , ou por ventura por 
na companhia na haver pessoa que tiuesse conhecimento 
mais que das letras latinas, e este imperfecto, n'hu dos que 
se alii acharam presentes soube dar rezam , nem do que has 
letras diziam, nem ainda puderam conhecer que letras fos- 
sem. » 

Sujeitando ao crisol da critica esta narragao de Goes, ve- 
mos que refere-se elle a um boato, ou rumor vago, que correra 
em seu tempo , sem que affirme haver presenciado nada do 
que conta. Nao viu o debuxo , que do monumento fizera 
Duarte d'Armas, nem os fragmentos da estatuaque por alguns 
dias estivera na guarda-roupa do rei , porque talvez nessa 
epoca ainda nao eslivesse empregado no pago ; levado , po- 
rcm , pc'lo maravilhoso, registrou a legenda, que por algum 
malicioso fora inventada. 

Dos sous poucos conhecimentos geographicos da o chro- 
nisla cxubcrante prova, affirmando que a ilha do Corvo, por 



356 REVISTA BRAZILEIRA. 

ter uma serra alta, serve de demarcaQao aos navegantes, que 
buscam o archipelago dos A(}ores. 

« A ilha do Gorvo (diz o Sr. Jose de Torres) e a menor e a 
mais septentrional das agorianas. Quem vai do Norte , Leste 
ou Sul, quem vai do Yelho-iMundo , topa primciro com as 
outras, maiores, mais elevadas, mais grupadas, emflm. Quem 
vemdo Sul ou doOeste, quem vem do Novo-Mundo, succede-lhe 
outro tanto, ou primeiro avista a ilha das Flores, que, se apenas 
esta separada da do Corvo por urn canal de nove milhas e 
meia, fica porem mais ao Sal, e mais a Oeste, e e terra muito 
mais alta e volumosa. So quem vem do Norte, ou Nordeste da 
America, a pode avistar pelo Noroeste, on Norte; e ainda 
assim nao sabemos se a avistara primeiro, ou independente 
da proxima ilha das Flores, quando a maior montanha desta 
{o Morro-Grande AO Norte) mede 9/]2metros, emquanto a 
maior rlovagao da ilha do Corvo e de 777 metros, do pico pelo 
Sul ddi Caldeira {{). » 

Invcsliguemos a mui notavel circumslancia de apontar a 
dextra do cavalleiro para o Poente. 

Ninguem ignora que desdc a mais remota antiguidade 
exisliu costume d'erguerem os povos navegadores, padroes 
que marcassem o termo das suas viagens. Com o andar do 
tempo variou a natureza desses padroes, que foram successi- 
vamente coiumnas, arcos, e finalmcnte eslaUias. A dous 
desses marcos, designando os limites do mundo conhecido, 
e situados nos monies Caipe e Abyla , denominaram-sc co- 
Inmnns d' Hercules , de tao poelica c legendaria rccordagao. 

A propor^ao que foram-se adiantando os conhecimcntos 
geographicos , mudaram essas coiumnas de direcgao, scndo 
facil, como observa o sabio llimiboldt, de acoin[)anhar com 
certeza esle mytho gcographico cm sua direcQao de Eslc para 



(1) Oriffiniil. da Naveff. do Occano Atl. Sept. r do Descobr. das suas llhas 
petvs Port, no 5fCH/o A F.— Lisboa, 1857. 



A ESTATUA DA ILHA DO CORVO. 357 

Oeste. Strabao , fallando da fundacao de Cades pelos Tyrios,- 
disciite com miiita argucia e liberdadc de espirito o que deve, 
ser entendido pela denominacao de columnas , e perguiita se 
assim devem ser appellidados os monumentos aH'ados pela 
mao do homem, nos logares que delles derivararn seus nomes. ■ 

Herdando dosGregos o sceptro dos mares, aceitaram os 
Arabes a mesma usaiiga; variando porem em sua lingua apa- 
lavra cohurma de significagao , e sendo tomada corao syno- 
iiyma d'estataa. Seus viajantes e cartographos semearain 
pelas ilhas do mar tenebroso, estatuas de bronze , cobre , ou 
granito , apontando para tras , e como que acoiiselliando aos 
navegantes que nao so aventurassem pelas regioes do Occi- 
dente, de que tao liorriveis cousas contava a tradicao. 

Facil e de suppOr que nao deixassem de parlilhar os prede- 
cessores dj Gama desses preconceitos; e que na exaltada 
imaglnaQao de nossos maiores, os gigantes e bippogryphos 
do mar dos idolos occLipassem distincto logar. 

Se alguns vestigios se pudessem descobrir desse debuxo / 
de que falla Goes, sustentavel serla a bistoria da estatua. As 
conscienciosas e profundas indagagoes do Sr. Jose de Torres , 
cuja autoridade folgamos de repetidamente citar, provarani 
porem, a lodas as luzes , que imaginario era o debiixo : por- 
quanto, o unlco autor que dcllepoderia fazer FTiengao, Duarte 
d' Armas, na unica obra que delle exists com o titulo — Das 
Fortalezas que estdosituadas no exiremode Portugal ede Cos- 
tella—, guarda a Lai respeitj o mais compieto silencio. 

Continuao cbronistaemsuanarragao, dizendo: qnebrar'am 
a estatua por mdo azo , mas desculparain-se com o rei que a 
tinham achado desfeita por tormenta do inverno passado. 
Claramente ve-se que os encarregados dessa missao historico^ 
scientifica desempenbaram na dc mancira infiel, e que, no 
piano inclinado da menlira e da fraude , difflcil sera sempre 
marcar um paradeiro. Note-se que nada diz o cbronisla sobre 
merito arlislico da estatua , quo , pela sua remota antigui- 

R. B. III. 2/> 



358 REVISTA BRAZILEIRA. 

dade, nao deixaria de despertar a curiosidade dos arclieologos. 
mesmo desprezo em que foram tidos esses fragmentos pa- 
rece estar demoiistrando que couhecera el-rei que haciam-no 
mystificado , julgando mais prudente nao dar-se por achado, 
e castigar com severidade os falsarios. 

Qualseria, poreni, a origem de sentelhante I'ahula? — A 
configurai^ao das rochas volcanicas dos Agores , que de certa 
distancia apresenlam cm suas cristas furmas tao phanlaslicas, 
que com facilidade se prestam a illusao , que passando pelo 
microscopio do maravilhoso. engrandcceu-sc ao ponto em que 
a vimos chegar. 

« Concebe-se, diz Humboldt, queumadessas configura- 
tes grutescas e imitativas . tao communs entre os rochedos 
volcanicos de basalto, de trachytes e de porphyro amphibolico, 
puderam dar logar ao conto de uma estatua equestre , que os 
eruditos nao deixaram de attribuir aos Carthaginezes e Phe- 
nicios, pouco inclinados, coino se sahe, a mostrarem aos sens 
rivaes o caminho das suas descobertas (2). » 

Se por Ventura em algum tempo tivesse exisiido semelhanle 
eslatua, nao deixaria a tradigao de conservar a sualembranca, 
maxime num paiz onde , a mingoa de grandes acontecimen- 
tos, cuidadosamente archiva os pequenos successos a memoria 
dos povos. E que rcl'ere a tradic'io a tal respeito? Oucamos 
testemunho do general Antonio Hoinem da Cosia Xogueira, 
perfeilo conhccedor da localidade : 

Os naturaes (da ilha do (^orvo) , que nao excedem a mil 
almas , nenhuma tradigao tein de haver na ilha nem vestigios 
daquella estatua ; sendo (ine , se o achado dclla fosse his- 
torico , memoria de monumenlo tao nolavcl nao deixaria de 
perpetuar-se de pais a filhos. que [loreui e inconleslavel , 



(2) Examen Critique de I'Hisloire d itelaGi'ograpliicduNouvcau Continent, 
Tom. IF. 



i 



A ESTATUA DA ILHA DO CORVO. 359 

e que ja sobre as rochas, ja na superficie do terreno, se 
avjstam penedos, que em certa distancia, ao olho iiu, parecem 
figuras semelhantes a organisadas. Nas immediagoes do Cal- 
deirao, agradavel cratera d'um volcao extincto, coberta de 
iagose ilhotas, matizadas,como as inargens, de bella verdura, 
ao Norte da iiha, e ja notadas nas cartas inarilimas do capitao 
Vidal, abundam osexemplares dos taes peaedos-estatuas (3).» 

Nada vimos por ora senao o resulfado de arrojadas imagi- 
nagoes, que, alimentadas pelas reminiscencias da antigui- 
dade, julgaram descobrir nos rochedos da illia do Pico uma 
estatua equestre. Onde porem se manifesta a iiialicia , e in- 
lencional proposito de roubar a Colombo a gloria do desco- 
brimento do Novo-Muudo, estana affirmacao de haver-lhe 
ella servido de guia, ou, como se expressa Manoel de Faria e 
Souza , nos seus Commentarios aos Lusiadas de Camoes : » 
« Tambien es de creer le serveria de luz.... al mismu Colon,... 
aquella estatua equL^slre hallada de los portuguezes en la isla 
del Cuervo, una de las llamadas Azores, i la mas occidental, 
e septentrional delas. . .co. . . em brago derecho rendido , 
apuntando con el indice azia Poniente : que sin duda moslrava 
essa America Occidental ...» 

Cumpre notar que, antes do feliz descobrimenlo de Co- 
lombo , nenhuma mengao se faz dessa estatua, nem apparece 
ella indicada no globo de Martim Beh;)ii) , publicado em 1492, 
quando e certo que nao se olvidara esse illustre cartographo 
de registrar as menores circumstancias relativas as ilhas ago- 
rianas as quaes, uma residencia de muitos anuos no Fayal 
permittia de amplamente conhecer. Nenhum escriptor con- 
temporaneo relata a sua existencia, nem delta possuiam a 
manor idea. U. Diogo Ortiz, bispo de Ceuta, c os mestres 
Hodrigo e Josepe, a quem , na phrase de Joao de Barros 
comjneUia el re' (D. Joao II) cssa.s comas de geogmphia e des- 

(3) Revista dos Azores , Tom. 1 , pag. 93, 



360 REVISTA BRAZILEIRA. 

cobrimentos ; porquanto, se assim nao fosse, assifinalariam 
tao singular circumstaiicia , quando'enf 1484 . istoe.trinta 
e dons annos depois da descoberla da iiha do Corvo, acon- 
selhavam o indeferimento da supplica do Genovez , por ser , 
diziamelles, fnndada em imariinnrdes e cmians da ilha do 
Cypango de Marco Polo. 

Deraonstrando a impossibilidadc de ser vista a pretendida 
estatna antes do descobrimento da America, serve-se destas 
palavras illnstre sabio , cnja morle prantea a AUemanlia e 
mnndo : 

« Corvo nao e absolntamenle o ponto mais occidental do 
grupo dos Azores, estando a 3" 5" mais para o Oriente do que 
Flores; porem voltando do Brazil, do Mexico, das Antilbas, 
OS navios favorecidos pelo Gulf-Strenm (correnle de agoa 
quente do Allaniico) , prefcrem a ilhota mais septentrional 
a propria ilha do Corvo. A forma d"nni rncbedo do cabo 
Noroeste nao pode receber sua mysteriosa significagao senao 
depois da descoberta da America , e no tempo em que lornou- 
se mais activo o comniercio , e por consequencia mais fre- 
quentado o mar dos Agores (4). " 

Parece, pois, evidente, que ninguein cogilava de seme- 
Ihantemytho, antes que o genio e a portinacia de Colombo 
dotassem a Hespanba com os thesouros do Novo-Mundo. 

Obtido maravilhoso resultado , que conlundia a sciencia 
dos sabios da epoca, desperlou-se a inveja, buscando obscu- 
recer, on altenuar o valor do feito. Invenlaram-se muitos 
contos, cada qual mais ridiculo; ora o de uni piloto por- 
tuguez, residente na Madeira, de qucm recebera Colombo 
a derrota, que com tanta seguranga devera depois seguir; 
ora da eslalua da ilba do Corvo, que llic indicava o caminbo 
do Occidente , etc. 



(4) HlsiBOLDT. — Ernmen Critique de Cllishire et Geograpliic du Nouveau 
Continent, Tom. If. 



A ESTATUA DA ILHA DO CORVO. 361 

Distiiictos escriptores portuguezes haviam ja poslo em du- 
vida semelhaiite tradi^ao, e, nao desejando para o seu paiz 
nada que de justi^a nao llie pertencesse , recusaram acieditar 
que a estatua a que nos referimos fosse a indigitadora do des- 
cobrimento da America. Aferravam-se porem outros anarra- 
Qao de Damiao de Goes, e, julgando-a associada a honra 
nacional, por ella pleiteavam, como pela appari^ao d'Ourique. 
Coube ao illustrado Sr. Jose de Torres descarregar a clava de 
Hercules da crilica em tao carcomida creiiga , e exuberante- 
mente provar que fOra ella fdha d'um sentimento, que por 
forma alguma se concilia com a lealdade do caracter por- 
tuguez. 

Julgamos que agradavel sera aos leitores depararem aqui 
com imparcial juizo, que a tal respeito forma o escriptor 
acima mencionado : 

« Os offerecimentos de Colombo , primeiro 

desprezados por Portugal, depois aceitos pela Hespanha, e 
coroados do successo promettido , foram u i a accusagao a 
ignorancia, a imprevidencia, ou a ma vonlade dos nossos 
sabios e polilicos. Dcspeitaram-se contra os novos descobri- 
mentos, que iam enriquecer outra nagao rival. Daqui por 
Ventura inventaram , ou apoderaram-se da no^ao popular e 
phantastica d'uma estatua na illia do Corvo, com o intento 
secreto de tirar por este meio a Colombo a originalidade e 
prioridade de sens descobrimentos, que desde muito o dedo 
do cavalleiro, apontando para o Occidente, indicava conhecer. 
Assim descobrimento d'America pelos nossos rivaes ficava 
reduzido a facil consequencia d'um descobrimento portuguez, 
e da luz que delle emanava. Quando nao podiam desluzir o 
feito, por elles perdido, minavam-lhe sua reputagao d'ori- 
ginal, e queriam do algum modo associar Portugal, ao menos 
pela historia, a gloria daiiuella descoberta. Se a sua impru- 
dencia nos fizera perder o dominio daquellas importantissimas 
regioes, queriam , c em compensa^ao , levantar ao orgulho 



362 REVISTA BRAZILEIUA. 

nacional urn fa'so monnniento, que attestasse a paternidade 
da idea ; c mlentar o dosconten(ameiito publico com a van- 
gloria, e distral)ir-liie a attengao das accusaeoes que tambeni 
inereciam os que aconselliaram , e os que rejeitaram as pro- 
poses do aventurarlo navegante geiiovez. luitretanto, mal 
sabiam elles que , lisongeando as ruins paixoes do seu tempo, 
combatendo surdamente a prioridade dos descobrimentos 
liespanhOes no Novo-Mundo, tambem davam falsas armas, 
com que OS inimigos pndessem combater a originalidade da 
nossa navegacao , e descobriuicntos modernos no alto mar 
atlantico septentrional. Para salvarem o ciume nacional dos 
niartyrios da occasiao., sacrificavam as consequenciasd"uma 
fabula, grande parte da nossa gloria passada (5). » 

Desterrada da historia pela severidade da critica, pode ser 
erecta a estatua, que se dizia enconlrada na illia do Gorvo, 
no paiz das legendas, de sociedade com tantas outras bri- 
Ibantes chimeras, em que por largos annos acreditaram os 
homens. 



(5) 0:'iginaL da Naveg. do Oceino Atl. Scptent. e do Descobr. dassuas lllias 
pelos Port, no seciUo XVI. 

J. C. Fernandes Pinheiro. 



Re^iiin<» (la^ oliserva^oes ■iieteorologricai'i feifas no 
liniiorial Observaturio Ai^troiioi»ECO no periodo 
decorrido de $»etenibro de 1S59 a Fevereiro de 
i860. . 



1859 — Setembro. 

HORAS THERMOMETROS BAROMETRO HYGROM. COKD. 

Faluenh. Centigr. Reaum. red. a 0" de tp. De Saussure. 

m CI o .) 

7 70,326 21,292 17,034 

9 758,063 

12 93,683 

3* 72,064 22,258 17,806 92,000 

5 756,079 

Medias 71,224 21,791 17,433 757,164 92,886 

Total 
Dias de ceo limpido 1,2,3,4,5,8, 9,10, 

15, 16 10 

Dias de ceo nublado 6, 7, 26, 27 4 

Dias de ceo eiicoberlo 11, 13, 14, 17,18, 

19,21,22, 23,28,29 11 

Dias de ar seinpre nevoado 11 , 13 , 14,15, 

17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 28 12 

Dias nevoados s6 de manhaa 2, 4, 5, 9, 10, 

16, 24, 26 8 

Dias de chuva 12, 20, 24, 25, 30 5 

Alturas do pluviomclro 11.2. 4,25. 4,25. 4,84 26,34 



364 REVISTA BRAZILEIRA. 

Dias de evaporacao 2, 3, 4 ■ 5, 6, 7, 8, 9, 
11. 12, 13, 16, 17, 18, 21, 22,23,24, 
28,30 20 

Alturas do pvaporatonietro 0,75. 4. 6,25. 
13,1.2,25.10,75.9,6. 6. 16,25. 3,8. 2.25. 

_. . ^ mm 

, 8. 15,8. 2,5. 14. 1,3.9. 2,5. 4.2 134,10 

Dias de vento constante 1, 3, 12, 29 : 4 

Runio dos ventos, SE. 

Dias de vento variavel 11, 13, 14, 16, 19, 2'2, • 

23, 25, 30 9 

Ruiuos dos ventos, NO. SO. S. SSO. SSE. NE. 

Dias de terral e viracno 2, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 

15, 17, 18, 20, 21 , 2i 26, 27, 28 17 

I l.l n 

Temperaliiras extraordinaiias '^'^ '^'^' '^^ t ^^^'^ 

/Dia25, as7 19.5 

Outiiltro. 

HORAS THERMOMETROS BAROMETRO HTGROM. COND. 

Fahrenh. Centigr. Reaum. red. a 0" dc tp. dcSaussurc. 

nl o o ■! 

8 70,007 21,115 16,890 

«7 ••••.. •••••■ •••••■ • •jJuy'i;L%J 

mm 

10 755,131 

3' 90.726 

4 752,898 , 

5 71,368 21,871 17,497 

Medias 70,747 21,526 17,221 754,144 91,739 

Total 
Dias de ceo limpido 1, 4, \\, 12, 16, 17, 20, 

21.27. 30 10 

Dias de ceo nublado 3, 5, 6, 7, 10, 13, 19, 23, 

24, 25, 26, 28 12 



OBSERVACOES METEOROLOGIGAS. 



365 



Dias de ceo encoberto 2, 8, 9, 14, 11, 20. . . 6 

Dias de ar semprc nevoado 7, 8, 9, 14 4 

Dias nevoados so do manhaa 12, 13, 17. . . . 3 

Dia tie trovoada 15 1 

Dias de cliuva 15, 18, 31 3 

mm 

AUiirasdo pluviometro 13. 13,8. 23,2 50,00 

Dias de evaporagao 2, 4, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 
16, 17, 19, 20, 21, 22, 23, 24, : 5, 26, 29, 
30, 31 21 

Alturas do evaporatomelro 3,75. 1,1. 4,25. 1. 
7,75. 4. 8,8. 18. 13,8. 7,25. 1. 12,1. 9,25. 1. 

mm 

8,3. 11,5. 7,25. 9,3. 3,5. 10,5. 8,3 151,70 

Dias do vento constante3, 7, 10, 11, 17, 20, 

26,29 8 

Rumo dos ventos, SE. 

Dias de vento vaviavel 1,9, 12, 13, 15, 18,23, 

27, 31 9 

Rumos dos ventos; SO .SE.NNO.SSE.NO.SSO.S. 
Dias de terral e viracjao 2, 4, 5, 6, 8, 14, 16, 

19, 21, 22, 24, 25, 28, 30 14 

^ ,. . (Dial9,as''7 19!00 

Temperatuvas extraordinarias { i„ 

(Dia 30, as 7 24,75 
IVoveinhro. 

HORAS THBRMOMEtROS BAROMETRO HYGBOM. CORD 

l'\ihiciili. Ceiitigr. lleaum. red. a 0" de tp. de Saussure. 

n, 

5 92,817 

6 70 "655 21 ,475 1 7,1 80 

mm 

4' 72,140 22,300 17,840 752,862 

8 90,833 

10 754,763 

Medias 71,422 21,901 17,521 753,755 91,742 



366 REVISTA BRAZILEIRA. 

Total 
Dias de ceo limpido 3, 4, 13, 17, 18, '25, 27, 

28, 29, 38. 10 

Dias de ceo nublado 5, 6, 8, 1 1 , 1 4, 19, 21 , 26 8 

Dias de ceo encoberto 12, 15, 16, 22 4 

Dias nevoados so de manliaa 6, 11 , 18, 19, 28 5 

Dias do cliuva 1 , 2, 7, 9, 10, 20, 23, 21 ... . 8 
Altiiras do pliiviomelro 3,25. 9,75. 1. 4. 5. 2. 

inin 

14,5. 4,5 44,00 

Dias de evaporagao 2, 3, 5, 6, 7, 8, 1 1 , 1 2, 1 3, 

14, 15, 18,19,21,23,24,25,26,27,29,30 21 

AUuras do evaporalometro 1,25. 8,75. 19,34. 

22,34. 12,5. 9,34. 12,5. 9,59. 1,35. 9,5. 

10,84. 11,25. 13,59. 11. 12,81. 3. '21,34. 

mm 

15.7,34.23,34. 11,5 247,50 

Dias de vento constaute 1, 8, 9, 11, 12, 15, 

16,22 8 

Rumos dos ventos, SE. SSE. NO. 

Dias de vento variavel 10, 23, 25, 28 4 

Rumos dos ventos, NO. ONO. SSO. SE. SSE. 
Dias de terral e viragao 2, 3, 4, 5, 6, 7, 13, 14, 

17,18,19,20,21,24,26,27,29,30 18 . 

^ , , .■ . UMa 2, as'S 19^5 

Temperatiiras extraordniarias u 

(Dia30,as3 25,5 
Dezeiiibi'o. 

HOB.A«i THERMOMETnOS BAROMETUO HYGROM. COND. 

Fahrenh. Ceiitigr. IWauiii. red. a 0" do Ip. de SaHssure. 

Ill " 

7 93,317 

8 73,"l 44 22,858 1 8,286 

11 753"'322 



OBSERVACOES METEOROLOGICAS. 367 

HORAS THERMOMETROS BAROMETRO BYGROM. COND. 

P'al)rcnli. Centigr. I'.i^aum. red. a 0" de tp. De Saussure. 

2^ 74,345 23,525 J 8,820 

4 ....' 751,311 

5 91,900 

Medias 73,726 23,181 18,5i5 752,166 92,497 

Total 

Dias de ceo limpido 5, 16, 29 3 

Dias de ceo nublado4, 12, 13, 15, 18, 19,20, 

21 , 28 9 

Dias de ceo encoberto 6, 8, 14, 17, 22, 23, 

25, 31 8 

Dias de ar sempre ncvoado 3, 27 2 

Dias nevoados so de manhaa 5, 6, 20, 28, 31 . 5 

Dias de trovoada 7,15 2 

Dias de chuva 1, 2, 3, 7, 9, 10, 1 1, 24, 26, 27, 

30 11 

Alturas do pluviomelro 4,34. 1 1 . 8,5. 1 ,75. 3. 

mill 

4,25. 1,75. 5. 9,34. 48,3 'i. 3,2 100,47 

Dias de evaporagao 1, 4, 5, 6, 7, 8, 10, 11, 12, 

13, 14, 15, 16, 17, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 

28, 29, 30 23 

Alturas do evaporatometro 3. 5. 9,3/i. 2. 14. 

7,84. 2,75. 14,25. 6,1. 6. 17. 3. 18,6. 2,75. 

mm 

10. 8. 16,34. 13,34. 9. 12,6. 2,5. 18,1. 3,5. 205.01 

Dias de vento constante 4, 5, 8, 9, 11, 15, 16, 

22, 27 9 

Rumo dos ventos, SE. SO. 

Dias de vento variavel 2, 7, 20, 24 4 

Rumodosventos,SSE.SO.ESE.NO.ENE.OSO. 
Dias de terral e viragao 1, 3, 6, 7, 10, 12, 13, 

14,18, 19,21, 23, 25, 26, 28, 29, 30, 31 . 18 

JDia 7, a 1 26,25 
Diall,as8 21,25 



Temperaluras extraordinarias < i„ 

fi 



368 REVISTA BRAZILEIRA. 



i960 — Jnueiro. 

nORAS THERMOMETBOS BAROMETRO HYGROM. COND. 

Fahrenh. Centigr. Reaiim. red. a 0" de tp. de Saussure. 

m o o o o 

6 74,257 23,476 18,781 92,323 

iiitn 

9 753,489 

4' 751,897 

5 75,708 24,282 19,426 90,790 

Medias 75,011 23,895 19,116 752,729 91,541 

Total 
Dias de ceo limpido 7, 8, 9, 10, 11,1 2, 1 3, 1 4, 

15, 16,31 H 

Dias de ceo nublado 17, 18, 20, T2, 23, 24, 

27, 29, 30 9 

Dias de ceo encoberto 1, 2, 6, 19, 25 5 

Dias nevoados so de maniiaa 7, 8, 9 3 

Dia de trovoada 28 1 

Dias de chuva 3, 4, 5, 21, 26, 28 6 

uini 

Alturasdopluviometro 1.0,25.1,75. 3. 6,75.1 13,75 
Diasdeevaporagaol, 2, 3, 4, 7,9,10, II, 12, 

13,14, 17, 18, 19,20,22,23,25,26, 27, 

28,29, 30,31 24 

Alturas do evaporatometro 11,5. 9,7. 3,25. 

22,8. 19,8. 8,5. 17,8.6. 16,8. 8,75. 17,6. 

15,5. 14,3. 8,25. 9,1. 8. 14,1. 12,75.8,3. 4. 

mm 

11,5. 10.8. 4,25. 22,1 285,45 

Dias de vento constante 1, 3, 14, 17, 28. . . . 5 

Rumo dos ventos, SE. NO. 

Dias de vento variavel 2, 4, 5, 9, 19, 23, 25, 

26,29, 38... 10 

Rumo dos ventos, SE. SSE. NO. ONO. SSO. 

OSO. SO. 



OBSERVACOES METEOROLOGICAS. 369 

Dias de terral e viia^ao 6, 7, 8, 1 0, H , 1 2, 1 3, 

15,16.18,21,22,24,27,28,31 16 

!bni n 

Dia 4, as 10 21,75 

Dia 15, as 6 26,75 



feverelro. 

HOB4S THEBMOMETROS nAnOMETRO HYGROM. CONI). 

Fahrenli. Ccntigi'. H^aiim. red. a 0" de Ip. de Saussure. 

m n on 

6 74,095 23,386 18,709 

8 92,919 

nun 

11 752,131 

3' 76,285 24,603 19,682 

4 90,707 

5 750,250 

Medias 75,603 24,224 19,379 751,333 91,872 

Total 

Diasde ceo limpido 10, 15, 16, 17, 20, 21, 27 7 

Diasdeceonuhlado4,6, 9,11,14, 18,19,20 8 

Dias de ceo encoberto 2, 3, 7, 22, 29 5 

Dias de ar sempre nevoado 13, 29 2 

Dias nevoados so de manhaa 6, 1 2, 1 5, 1 6 . . . 4 

Dias de trovoada 7, 8, i 2, 1 9, 23 5 

Dias de chuva 1,5, 8, 12, 13, 23, 24, 25, 28. 9 
AlUirasdopluviomelro 12,75.0,5. 1,75. 1. 1,5. 

11,5. 8,6. 2,75. 4,25 4T,60 

Dias de evaporaQao 1, 2, 3,4,5, 7, 8, 9, 10, 

11,12,13,14, 16,17, 18,19,20,21,22, 

27, 28 22 

AUuras do evaporatometro 3,3. 7,8. 12,3. 3,3. 

14,3. 8,8. 5,3. 8,3. 14,8. 18,6. 7. 6,5. 10,6. 

mm 

6,5. 19,3. 11,8. 1,8. 3,8.2,8. 12,8. 15,3.6,5 211,50 



370 REVISTA BRAZILEIRA. 

Dias de vento constante 9, 15, 18, 26 4 

Rumo dos ventos, NO. SE. 

Dias de vento variavel 12, 13, 1 4, 20, "23, 24, 

29 7 

Rumo dos ventos, NO. SSE. SE. SSO. SO. 
Dias de terral e viragao 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 

10, 11, 16, 17, 19, 21, 22, 25, 27, 28. . . . 18 

, .. \Dia21, ns3 27°75 

Temperaturas extraordinaiias { i,n, 

(Dia 26, as 7 21,5 

Nos dias de chiiva incluem-se aqiielles em que so choveu 
de noite. 

Os instrumentos estao 28,5 bragas (62,7 metro.s) acima do 
nivel do mar. 

Rio do Janeiro, 9 de Mar^o de 1860. 

ajudante , Francisco Duarte Nunet. 



VARIEDADES 



Om vnivesis ila foriiisia na^ iiicltistrias. 

Parece que por prazer e por systema, ha coiisa de meio 
seciilo para ca, a iiuluslria nlio faz senao lamenlar-se. 

Entre as queixas, algurnas ha, que sao fiindadas, e oulras 
que nao resistem ao exanie m'ais superlicial ; en lodas ha 
cerlacxageragao, quesempre perde as meUiores causas. 

Sem querermos enti'ai uo cxaine niinucioso dos aggravos 
da industria, vanios fazev alguuias breves retlexoes acerca de 
urn ponto especial desta queslao. 

Nos soffrimeulos de que sao acommettidas as vezes eertas 
iuduslrias, alguns resuUaui da orderu natural das cousas, e 
dependem de circuuistancias que era facil jirever. 

Sao inevitaveis vaivens da forluna; euma especie de ex- 
piacao, de que as viclimas nao pociem ian^ar a culpa a nin- 
gueui, porque sao ellas as unicas culpatlas; e uin pcriodo de 
languidez e lorpor, ([ue succede a excesses de actividade ; 
sao alguns prejuizos e perdas, depois de vantajosos lucros e 
consideraveis beneliclos. 

Citetnos alguns exetnplos. 

No tempo eai que a guci'ra da Crimea exigla um grande 
descnvolvimento de transportes, foi preciso appellar para as 



372 REVISTA BRAZILEIRA. 

companhias de navegagao , e para os arniadpres paiiiculares. 
Todos OS vasos, (luer a vapor, qiier de vela, flcaram a dispo- 
siQao do governo para o embarque de Iro.pas e de material 
de guerra, e nem permittiani ascircumstancias que se olhasse 
parao preco e condicoes de afretamenlo. Tudo servia; nunca 
igual actividade tinha-se visto nos porlos da Franga, c a in- 
dustria, com o fito nos grandes lucros, respondeii ao appello 
com todo ardor e promplidao. 

Bello tempo foi esse para a marinlia mei'cantc e para as 
companhias que podiam dispor de alguns paqueles. 

Compraram-se navios estrangeiros , pozeram-se outros em 
construcgao nos estaleiros, com a esperanga de que esti 
vessem promptos e acabados antes que se esgolasse a veia. 

Trcs ou quatro viagens bastavam para cobrir o capital em- 
pregado : as sociedades faziam taes lucros, que p6de-se dizer 
que baliam moeda; as accoes elevaram-se tres e quatro vezes 
ao va'or da emissao, multiplicavam-se as acgoes, e assim mes- 
mo nrio chegavam para todos. 

Qual era , porem, a base de todo este iiiovimento, e de tao 
grande acti\idade '? Apenas uina clrcumstancia fortuita que 
tinha um periodo determinado, c que, cessando, deixaria 
sem causa todos esses effeitos : foi cxactamente o que acon- 
teceu. 

Acabada a guerra , ainda durante alguns mezes conlinua- 
ram as operaQoes, que nao esiavam liquidadas; e quando o 
ultimo soldado e a ultima pega de artilharia eiitraram em 
Franga, acharam-se em presenga de um material sem des- 
iino, efitrade toda a proporgao com as necessidades ordi- 
narias. Muilos desscs navios dcsarmaram-sc, e ficaram sem 
prestimo algum , porque la se liidiam id;) os bellos dias. 

Essas acgoes, outrora tao procuradas, desceram de pre;o, 
foram abaixo do par, liveram descoulo, c ainda assim nin- 
guem as queria. Entao liouve o que nao podia deixar de 
haver: liquidagoes forgadas , c cmbaracos linanceiros. Desse 



OS VAIVENS DA FORTUNA NAS INDIISTRIAS. SI'S 

tempo para ca muilo lem cuslado a indiislria maritima a le- 
vari tar-sc, e rcslabelccer-sc dessc pcriodo dc prosperidade , 
rapido como o rclampago , o scgiiido do adversidadc mais 
duradoura. A forlLiiia vinga-sc das violcncias que Ihc fazem ; 
podese ale certo poiilo sorpreudel-a, mas mo se pcide fisal-a. 

Nada e mais proprio para eiUorpecer as iiidiistrias, do que 
05 successes que cllas oblem scm csforco ; mais valealuta 
nas suas mais rigorosas condicoes. ]L na lucla que as indus- 
trias ganliam uma tempera soUda, c mosti-am o que realmente 
sao : fora dislo, tudo e arlilicio' ; e ao primciro cheque, nao 
tendo forcas projirias para resislir, desfallcccm e morrem. 
N'uma existencia uiais sobria, adquircm as induslrias i'or(jas 
mais verdadeiras, c menos susceptiveis de se allcrarem . uma 
constituieao mais saa , c disposicoes viris; woi momentos 
de crise devem cllas ser os seus pronrios medicos, e nao alor- 
menlarem o goverao com qucixas, a (jue por sua dignidadc 
deveriam renunciar. 

A induslria maritima nao grila, e nnnca fez muilo barulho ; 
sabe soffrer sem murmurar, e exemplarmenlc supporta os 
vaivens da fortuna. Deveriam as outras induslrias iuiitar lao 
digno procedimento, c deixar-se desses ares de arrogancia c 
lurbulencia, e cuidar mais em se aperfeicoarem , cm conlar 
comsigo mais do que comosoutros, e empregar em desen- 
volver OS seus recursos, loda essa aclividadc que se em[)rega 
cm defender os seus privilegios ameacados. Enlao marcliariam 
em lerrcno solido, conqiiislado poUegadapor poUegada, mais 
solida e definitivamente adquirido , que as poria ao abrigo 
das inquictacocs c dos cmbaraQos da dependcncia. 

Vamos a oulro cxcmplo. 

Ha alguns annos, a induslria da disliilagao de espirilos e 
da agoardente perlencia quasi exclusivamcnle ao Meio-dia da 
Tranca; as viidias davam productos lao regulares e abun- 
daules, que excluiam toda a concurrencia. Apenas fabii- 
cava-se no Norte alguma agoardente di? ccrcacs por pro- 

t\. U. III. 25 



374 rsEVISTA BRAZILEIRA. 

cessos inleirameiUc elemenlares e primilivos. De rcponte ap- 
parece um tlagcllo que atacou a vinlia ; osprec-os da agoar- 
dente e dos alcoos clevaram-sc a lacs propor^ues, que 
dispularam e dcsaRaram a cspcculacao ; co que entao se 
passou lodos sabeiw. 

Em todos OS paizes produclores de belerraba, eslabelecc- 
ram-se fabricas dc dislillar, c apparcceram no mci'cado novas 
especies de alcool , a par da agoardente da uva ; c foi Tio 
cvescido o uumcro dcssas fabricas , que a pvoduceao do as- 
sucai" rcsenliu-se, diminuindo consideravehiiente ; brilban- 
tes lucres acompanbavam ejusiificavam todo esse movimenio, 
tanto que a Picardia, Fiandrcs c oulras provincias, amca- 
gavam transforuiar-sc iruma vasla c iinuieusa fabrica de dis- 
lillacao. Foram iudo assim as cousas , ale que a viulia pode 
lirara desfqrra daepidemia que a alacara; e nao obslanle 
scr a cura parclal , foi quanlo bastou para causar abaixa dos 
prccos , e o dcsmanlclamento das fabricas de agoardenlc de 
belerraba, que uao se acbavam nas uiclhores condicocs. 
vaivem lornou-sc cvidenlc, co enlbusiasmo esfriou ; c de 
enlao para ca a marcha dessa industria improvisada tern sido 
decrcscenle. E sc agora conscguir-sc a cura coniplcla da 
nioleslia da vinba, sc a agoardenlc do Sui vollar aos prccos 
antigos, c sc todas essas fabricas monladas com enormcs 
despczas se fecharcm uma auma, de qucm sera a cidpa? 
Neste caso nao havcra o commodo cxpcdientc de lanQar a 
rcsponsabilidadc sobrc o governo, c de pedir-lbe a repara^rio 
de um damno , que os proprios fabricanlos volunlariamcnle 
procurarani. A iiuUislria licUcia dcsappareccra com as causas 
qiu^ Ibe deram o ser; um accidcnlc a creara, oulro accldentc 
a malara. 

Ilavera uuia li(iuidacrio forcada, em tpie alguns podci'^o 
ganhar, e cm que oulros Icrao dc pcrdcr. 

Na induslria dos cercaes livemos um cspeclaculo analogo, 
porem com oulro dcsfecho. 



OS VAIVENS DA FORTUNA NAS INDUSTUIAS. 375 

Do 1835 a 1857, qiiatro colhcitas escassas piizeram a 
Fiaiitja na necessidade do recorrei aos prodiictos estran- 
geiros para so abaslocer ; os preros nos mercados cram ver- 
dadeiros preros do fomc ; em taes circiimstancias era mister 
(omar urn parlido. Gonccdeu-se loda a cspecie de franqueza 
a importacao de gcneros alimenlicios, c cxcitou-so a espe- 
c'lilarao particular por mcio de favores e recorapcnsas. Por 
sua parte a agricultiira , attraliida pelo lucro , mulliplicou as 
sementeirasc procuroii stipprir a penuria dos productos. 

Ate aqui iiada haquedizer, c cada um prcencliia a sua 
missao: o governo, conjurando os elfeitos da cscasscz ; os 
lavradores, procurando tirar partido da situacao ; estcs no seu 
interesse particular, o governo no interesse geral. 

Ninguem sc podia queixar. 

No cntretanto poz o Ceo tregoas a seus rigorcs ; os campos 
principiaram a mostrar-se menos avaros , as colheitas torna- 
ram-se mais bellas e abundantcs, e os depositos e armazens 
comecaram a enclier-se de novo. 

Era um dos vaivens da fortuna dc que todos devem soffrer 
as consequencias. Nenhuma objeccrio, ncnliuma qucixa tinba 
feitoo consumidor, quando os prccos do mcrcado eram pesado > 
e cstavam acima de suas posses, e ncm perguntava se nr\o seria 
possivel ganhar-se menos , para que o pobre nao soffresse 
tanto; seu respeito pcla liberdadc das transaccoes abafava 
grito da fomc. Clicga porem o movimento inverso; porque 
razno nao lia dc o productor guardar a mesma rcserva ? 
Com que direito vira. clle pcdir soccorro para os seus prc- 
juizos, quando ninguem sc iuiportou com os seus lucros? 
Seria isso uma falta de justica, seria o mcsmo que ter dous 
pesos e duas mcdidas, c prcvalcccr-se da liberdadc a seu favor 
c contra os outros. 

Pois foi isso cxactamciite o que se fez. Apenas baixou o 
prcro dos ccreaes, logo os olliciosos Icvanlaram a voz para 
dcclararcm que o preco crainsufficicntc, que nao era um prcf'O 



37G REVISTA liilAZlLElRA. 

1-cinunerador; c nao obstante os cousclhos (lo algiuis hotnens 
scnsatos, pOz-sc do novo em cxecucao alcgislacao niais ab- 
sui'da que 6 possivel imaginar-se , e a que so da o nonie do 
cscala move}. 

Taes sao os cxeinplos dos vaivens da fortuna a que cslao 
cxpostas as industrias ; c o que se devc notar uesses casos 6 
a que ponto os pdvilegios aggravam as crises, e o Irabalho e 
as dilficuldades com que luctam as industrias para sahircni 
do urn regimen de favor, e cntiarcm em condicoes regu- 
lares. 

caraclcr proprio dc lodo o excesso 6 produzir o cxccsso 
contrario ; porlanto nao ha em todos estes cxemplos cousa 
alguma que cause estranlicza. 

As industrias lem todas mais ou menos urn caracter csscn- 
cialmente aleatorio, que ao mesmo tempo que consliluc a sua 
forca eo seu principal escoUio ; devem portanto deixal-as in- 
teiramcnle Uvres cm sous actos, guardando porem ellas a 
rcsponsabilidadc que Ibes e inherente. 

Se ba verdnde que precise e deva cntrar c fixar-se na con- 
sciencia publica, 6 queaoEstado ou ao governo nao pertence 
fazcra fortuna das industrias. Estado so llics deve, como 
a todaa communliao polilica,seguranr,a, liberdade dc movi- 
inento, o direito de usar do suas faculdades c de suas forgas , 
e nunca, e dc modo algum, ser o sou arbilro c garante. 

Se governo manifestasse i)or uma classe uma prolccgao 
e uma solicitude especial , todas as oulras classes poderiaui 
com razao querer tambem ser protegidas; e nao sei de que 
modo poderia o governo cs(iuivar-sc a essa obrigacao. 

No movimento da riqueza do paiz, o que se cbama genc- 
ricamenlc imlustria tern em ultima analyse o inelhor quinlifio, 
e em ncnbuma outra classe clevam-se em tao pouco leuq)o 
existencias mais brilbanlcs; deixemos-lbe, pois , em com- 
pensa(}ao o sea caracter aleatorio , e os rcvezes que podem-lhe 
sobrevir como em lodas as outras cari'ciras. Se nao fosse assim, 



OS VAIVENS DA FORTUNA NAS IXDUSTIUAS. 377 

qivain 6 q;i3 S3 quer^riii rcsigaara essas fancgoes iiigi'atas,ein 
(jiie a (ledicaQrio domina mais que o interessc, a esses cargos 
uteis a sociedadc, o que quem os excrcc sabc que volla as 
costas a fortuna "? 

Qacm e que se resignaria, por exemplo, a condierio que 
Impoe a vida do magislrado, do professor, ou do soldado '? 
Quem e que de boamcntc iria occupar-se de salisfazer as nc- 
cessidadesmoraesdasociedade, se as necessidades materiacs 
so toi'uasscni objecto do umaprefercncia manilesla e evidenle 
da parte do Estado , c se este se aprescntasse por assim dizer 
como iiador de cerlas classes ^ prompto para soccorrel-as , 
todasasvczesque soflVessem algum revez? Nao ; paraqueui 
tern a seu cargo os destines de um povo , nao pode ser essa a 
preoccupacao mais legitima e mais momentosa. 1'^ mais cle- 
vada a missao dos que governam : dcvem ellcs dominar 
as cousas , e nao ser por ellas dominados ; sobranceiros 
a todos OS inleresses , nao devem aquilatar a sua iuipor- 
tancia pelo alarido que fazem , nem pclas prelenQocs que 
ostenlam. 

Em geral as industrias nao gostaui que se llies dem con- 
selhos, porque pelo habito de dominar lem-se tornado allivas; 
dir-lhcs licuios entretanto, e ainda que nao nos prestem ou- 
vidos, que o parlido mais diguo e maishonroso que poderiam 
loaiar seria o de iiabituarem-se a viver sem o governo, e a 
caminharem para a indepcudencia. 

Este regimen que aconselliamos n:!0 tern os perigos de que 
se arreceia a industria, c lalvez produza mais vantagens do 
([ue se suppoe. 

.Ill mostramos de que modo e como do scio do privilegio 
nascerain os rcvezes deque lanto tem cuslado as industrias 
levantar-se; cilaiuos exemplos da industria do alcool de be- 
lerraba c dos ccreaes, e poderiamoslamljem citar a industria 
do ferro, e nniitas outras; o em todos esses excmplos veria- 
mos que as industrias soUVem , quando abusam, e expiam 



378 REVISTA URAZILEIRA. 

por vaivens da forluna , a prosperidadc ephemera do que 
gozani. 

renicdio esla, pois, no regimen da liberdade, c com ella 
emancipar-se Imo as industrias dossas iin]uietaeoc3 poriodicas, 
que llies inflige a instabilidadc da legislacao ({uc Ihes diz rcs- 
peitOjB entuoobterao ellas o que favor algum pude-lhes ga- 
rantir; isto e, a seguranga nas suas comligoes do CKistencia, 
a posse plena e completa do presentc , e a cerleza absoUila 
do fuluro. 

As indusUias nessas condiroes poderao dispoi de si , e so 
de si dependerao ; lerao entao o legitimo orgullio que acom- 
panha as posicoes regulares; c gozando do soccgo c dcscanso, 
rcspeitarao laml)em o descanso do governo. 

A aclividade que empregam cm recriminaroes sera mais 
bem empregada n"um Irabalho regular e porliado, em que os 
successos serao proporcionados aos esforgos , c a recompensa 
ao merito. 

Por sem duvida, ainda assim terao do passar por provaoocs ; 
maseisso a condicrio da aclividade liumana, de qualqucr 
forma que se excrca , e essas provagoes serao inherenles a 
natureza das cousas: alem de que, numerosos e\cm[»los mos- 
(ram que essas provacoes nao sao iao frequenles nem lao 
crueis sol) um regimen , que, respeilando os dircilos de lodos, 
assume um caracler de duracao c [)crmanencia. 

As feiidas (jue nasceui do exercicio da liberdade sao da- 
ipiellas que so curam por si, c promplamenlc se cicaUizam. 

(Jorna! dos Eco)wmis(ai>.) 
M. 0. V. 



QVAORO Ii:^TATII§STI€0 

Da quantidade universal, e do valor do ouro, o da prala, 
produzidos desde os tempos liisloricos ale o anno 
de 1855. — Evtrahido da obra do econoniisla russo 
(c Narce6- Tarassenko-Otresrlikoff. » 



PAIZES 

PR0DUCT0RE3 



rERIODOS 
I)E PRODUCCAO 



Eiiropa compre-\:r„ 



hendendo a 
Russia. 



hi" 



America cnm- 
preliendondn 
a California. 






r 



Asia comprc- 
hendendo a 
Oceania, . , 



I 2" 



de J. C. a 
do 1492 a 
delSlOa 
de 1825 a 
de 1848 a 
do 1851 a 



1° nao exisle 
2» de 1492 a 
3" del 8 10 a 
4" de 1823 a 
de 1848 a 
de 1851 a 



1492 
1810 

1825 
1848 
1851 
1855 

1810 

1825 
1848 
1851 
1855 



TERMO MEDIO ANNUAL DA PRO- 
DUCgAO DO OURO E DA PRA- 
IA NAS EPOCAS INDICADAS 



orRo 

hilogrammoa [i] 



PRAIA 

hiloiiraiiiiiios 



de J. C. a 1492 
do 1492 a 1810 
de 1810 a 1825 
de 1825 a 1848 
de 1848 a 1851 
do 1851 a 1855 



106 

905 

2220 

11757 

27392 

25931 



2905 

43985 

84612 

117922 

149290 

148410 



7512 389379 



7792 

10787 

61786 

156911 

3000 

3000 

6000 

12000 

20000 



319215 

568857 
755180 
755180 

6000 

6000 

12000 

40000 

100000 



27000 110000 



TOTAr. 

Francos (2) 



1056588 

13002788 

26184012 

65429621 

124606448 

117210879 

102729782 
96980000 
162490000 
374112280 
691612280 

11441708 
11441708 
22683 ilO 
48924932 
88958056 
114527820 



(1) Kilograninio = 2,2 libras piox. 

(2) Franco = 352 r^is. 



380 



REVISTA BRAZILEIUA. 



PAIZES 
PRODUCTORES 



PERTODOS 



DE PRODUCOAO 



Al'hca. 



/ ,j o 

\ 2° 

[50 
KG" 



de J. C. a 1492 
de 1492 a 1810 
de 1810 a 1825 
de 1825 a 1848 
de 1848 a 1831 
de 1851 a 1855 



Aii^lralia 



I 1", 2", 3°, 4" e 
) 5° periodos nao 
i existem 
6° de 1851 a 1855 



TERMO MEDIO ANNUAL DA PRO- 
DUCCAO DO OURO E DA PRA- 
IA NAS EPOCAS IiNDICADAS 



our. I) 

Kiloi'i'Uiiiios 



1000 
1000 
2000 
3000 
iOOO 
4200 



190570 



I'llATA 

Kilneaniiuos 



» 
)> 
» 



TOTAL 

franfos 



3331332 

3331332 

GGG26G4 

10007G18 

13338980 

13980G72 



G56300000 



RESUMO. — Produccao geral e lolal desdc a anliguidade alo 1855; 
a saber : 

Ow/'o.— Qaanlidade presumida ale tempo de J. C. 2,245,5G2 Kil. 
» )) produzida dessa data ale 1853— 13, 0G9, 091 » 

Tolal 13,314,053 Kilogr., valendo cui francos 50,882,324,020 

Pr«^r/.— Quantidadc presum. ate tempo de J. C. 03,030,123 Kil. 
» » prod, dessa data ale 1855— 180,780,017 » 

Total 244,410,170Kilogr., c valendoem francos 51 ,802,590,172 

TOTAL DO VALOR PRODUZIDO EM EPvAXCOS . 102,084,914,102. 



OSieei'vn^oes. 



iraportantc trabalho exccutado pelo Sr. Narc^s , cujos resu!- 
tados se acham comprehendidos no prccedente quadro sjnoptico , 
olTerece materia para delles so tirarom iiitoressaiitcs dediic^oes ; o 
nus passamos a assignalar af|ucllap rjiio raais podcm intorcs.sar a o 
leitor. 

1." Comparaudo o 2' periodo da produccao do oiiro e da prafa , 



VALOR DO Ot'RO E DA I'RATA. 381 

na America, com o 6° periodo, a saber, o espaoo de 318 annos com 
o de 4 annos, acha-se que o termo m^dfo annual da referida pro- 

Iducgao foi no 6° periodo cerca de 7 vezes maior do que o termo 
m^dio annual da mesma produccao no 2" periodo , no qual se com- 
prehendem todas as riquezas em ouro e prata que alii eneontraram 
accumuladas os Hespanlio'es na 6poca da coaquista (1492). 
2.=* Continuando a Australia a produzir ouro , segundo o termo 
medio annual que teve logar uo periodo de 4 annos at6 1855 , a 
saber, 190,570 kilograramos , no fim de 12 annos tera ella scj pro- 
duzido maior quantidade de ouro , do que a que existia em todo o 
mundo antes do uascimento de J. C. , isto 6 , 2,245,562 kiloQ-ram- 
mos. 

S.'' Comparando o uumero de kilogrammos , que representa a 
quaatidade total do ouro produzido at6 o anno de 1855, com o nu- 
mero que exprime a quantidade total da prata produzida at6 essa 
mesma epoea , acha-se a seguinte relacao numerica : 

1 para 15.9 

Esta relacao approxima-se por modo rauito uotavel daquella que 
exprime actualmente o valor comparative do oiiro jmro para o da 
frata fura, a saber : 

15.3 para 1 ; 

isto e , « valor de urn kilograramo de ouro equivaleao valor dc 15.3 
I kilogrammos de prata. » 

Se, pois, se considerarera os dous metaes, acima comparados, 
no seu estado de pureza , a primeira relacao achada entre as respec- 
tivas quantidades produzidas em bruto podera ser substituida pela 
segunda , sendo invertidos os termos dcsta ; a saber: 

1 para 15.3; 

, isto e , sera a relacao entre as quantidades produzidas de ouro, e de 
prata, inversa daquella que guardam entre si os valores compara- 
tivos dos dous metaes. 

Da conformidade dessas duas relagOes deduzem-se os resultadoa 
I segiiintes : 

R- I!, nr. 2G 



382 REVISTA BRAZILEIRA. 

I. Que a producQao do ouro, e da prata, ficou subordinada ao 
principio economico da proporcionalidade do valor no custo de prc- 
ducQao de cada um dos dous mctae.? , na hvpothesc da livre oft'erta, 
eillimitada demanda , resultando dahi que as quaiitidades produ- 
zidas deum, e de outro metal , representam ig'ual valor ; indep.en- 
dentemente das qualidades pbysicas que especialmente caracterisam 
cada um desses metaes , sob o ponto de vista da iitilidade, nos va- 
riados empregos para que suo adaplados. 

II. Que a verificacao desse mesmo facto e prova irrecusavel da 
esactidao dos elementos que compoem o interessante quadro elabo- 
rado pelo Sr. Narces (quaudo tornados em inassa), tanto quanto 
comportam as investigaooes estatisticas sobre semelhaute materia , 
a qua] nao e susceptivel de rigorosas averiguaeOes. 

C. B. 0. 






JNDICE 

1>0S AETIGOS CONTIDOS NO N.° 8. 



EsTl'DOS DE Analyse Matiiematica. — Thcoria dos logaritliuios tabularcs, 
applicada ao calculo numeiico. — Coiiiposi^ao c rcsolucrio geral das cqua? 
cocs nuniciicas. — Thcoria das series clcmenlarcs dcduzida do principio 
dos coeflicientes indclerminadas , por C. B. de 0. 

Eco.NOMiA Politica. — Da instruc^ao , considerada do ponto de visla cco- 
nomico , com observaroes do Dr. Manoel dc Oliveira Fausto. 

LiTTERATLRA Brasileira — por J. N. de S. S. 

LiNCDiSTiCA. — Carta do Dr. C. L. sobrc a uliiidadc do esludo da lingua 
latiua. 

Cantos epjcos. —A Coroa dc logo, por J. IS. de S. S. 
Physioldgia . — somnambulismo natural e o hypnolisnio. 
Astronojiia. — ^ovo Planeta cntre IMercurio c o Sol, por .M. Emm. Liais. 
lIisTORiA. — A Estatua da ilha do Corvo, por J. C. Fernandes rinliciro. 

Observacoes Meteorologicas fcitas no Imperial Obscrvalorio astronomico , 
de Setcmbro dc 1859 a Fcvereiro de 1860. 

Variedades. — Os vaivens da fortuna nas induslrias. — Qiuadro cstatistico da 
quantidade universal e do valor do ouro e da prata produzidas desde os 
tempos liistoricos at<5 o anno dc J 855, com observardes de C. B. 0. 



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M REVISTA BRAZILEIM 




JORIV \L 



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8ClENniA8, LETTllAS E AllTES 



mniGiDO 



FOR CANDIDO BAPTISTA DE OLIVEIRA 



1%'iiinero 9. — Scleiubro tie iSGO 






\\\0 DE JANEIKO 



T Y P a II A V H I A IT N I V E II SAL I) E L \ E M M E II T 



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Bua dos Invalidos, 61 B 



:^tj^o^^^^ 






ESTUDOS DE ANALYSE MATHEMATICA 



IV. 



Foriiiiilstta de liiter|io1a^ao. 

Sejam dadas as quanlidades da mesma ospecie yi , y-,, y^ , 
. . . .y„, forniaiido uma seric crescenle : e lomcm-se as difTe. 
ren^as primeiras enlre estas quanlidades, combinadas duas 
a duas, na mesma ordem em que esllio disposlas: depois as 
differengas entre as differengas primeiras, ou as differengas 
f^ec/undaa : e do mesmo mode as terceiras , quartas diffe- 
rengas, etc., ate chegar a differenga fiual da ordem [n — 1) ; 
a saber : 



l*^differenQas, 

?/2— 2/1 =Ayi 
2/3 —yt = Afh 
y/.— l/3 = A2/3 



2^^ differengas. 

A?y2 — A?/i = A7/1 
A?/3 — /\y = A'«/2 
Ay* — Ayl = A7/3 



*]'^ difTerengas. 

A7/2 — A'2/i=A>yi 
A'2/3 — A>-=A'2/2 



4"* dilTerencas. 

A%—A%=A"yi 



As caracterislieas A^ A^ A*, ^t^"-? indicam as difTereiiras 
H. B. III. m 



384 REVISTA BRAZILEIRA. 

(la pvimeira, scgunda , terceira ordem, etc., em relacno as 
(luantidades ?/, , y^, th , etc. 

Sommando , nienibro a inembro, as equacoos que ex- 
primem as primeiras differengas; vira 



y^ — yx=- Avx -h Ay^- + Ay^ + Ay-. 

Exprimindo A'/j, A?/s. A.Vs' nas differengas da !•, 2^, 
3* e 4=^ ordem de (yi), por meio das eqiiacoes que dao as dif- 
ferengas 2»s, 3*'s c 4^*, a equagfio precedenle se transformara 
na segiiinte : 

?/.=«/i + ^A2/i + '»AV. -I- 4A'yi + A% 

Semelhanlenienifi exprimindo A^'y^ em fnncgoes das quan- 
tidades y^, y-i, y^, yi,, y^, por meio das eipiagoes que dao as 
differengas 3''^ '2»s e l^s; ler-se-ha 

A'//i = ?/r. — 4?/, H- 6;?/;, — 4?/o -I y, 

t evidenle que os coeffieientes nnmericos que affeclam os 
termos, que formnm o segnndo memhro desta eqiiac'io, e 
tamliem os da equacao precedenle, s'lo os mesmos coefficien- 
tes dos termos que represenlam o desenvolvimenlo de urn 
binomio , cujo exponenle e 4: e que por consegninte, sendo 
{u) numero das quantidades y^ , y-i , etc. ; ter-se-ha em 
geral 



D 



(1) ?/«+i=y^ -VnAy^ 4 n^^-A% 

(11— \) (w— 2) , , , 



ESTUDOS DE ANALYSE MATHEMATICA. 385 

(n—\) 
(2) A"y. =\+i- ^^y.. + n '-^ !/^_^ 

(n—i) (w— 2) 
-^^-2- -3-^n-2 ±y^ 

A formula (1) dara qualquer termo da serie proposta, da 
ordem (w-f-1), uma vez que sejarn conhecidas as differengas 
das diversas ordens , relativa> ao primeiro lermo da serie , 
ate a differenQa {/yyO • ou que essas difTerencas sejam dadas 
pela formula (2). 

Fazendo , na equagrio (2) , /^^"^, = o : vira 
^ , (n—i) , (w— i)(w— 2) 



±y 



Esta eqiiagao de condiQalo dovera ser salisfeila por lodos os 
termos, que na serie proposla se seguirem , depois do termo 
(y , ,|) se todos elles satisfizerem por outra parte a hypo 

these precedenle ; isto e , se as differen^as da ordem [n) a 
que correspoudem forem nullas : pondo na equacao acima , 
em logar de (w), numero inteiro que Indira a posicao de 
cada um desses termos, em relag.'io ao primeiro da serie. 
D'onde se conclue que a formula (1) exprimira tambem cada 
um dos referidos termos da serie, pondo nella successiva- 

mente (w+1), (w-(-2), (w-f3) (s) em logar de (n); 

tomando assim a forma geral, em rela^ao a qualquer termo 
da serie da ordem deslgnada |)or (s-f- 1) ; a saber 

(s \) 



386 RF.VISTA BRAZILEIRA, 

Ter-se-ha tambom 



n—\ (w— 2) 

±y^ 



Siipponha-se agora que os ternios da serie proposla (//i , 
iji,. . . . ?/„) sFio tlados pela eqnacao seguinle : 

(m) V = f(,r) 

A lelra /", que entra na exnressao do segundo membro 
destaequacao, euni symbolo indelerininado, que precedendo 
a quantidade variavel (j j , de cujo valor depeiide (//) , abi 
sidjslilue a locucao tecbnica - fiincrao de (.c) : pela qual 
se designa qualquer combiuacao em que possa enlrar (.r) 
com uma, ou mats quantidades constaiUes, afim de igualar 
a quantidade , lanibem variavel , represenlada por (?/). 

Faca-se, na equacao (m), r = sA ; donde se lira 

X 

sendo(/0 uma quanlidade ronslanle, e (s) urn numero in- 
teiro , de grandeza variavel. 

Substituindo a precedente expri^ssao de (s) na formula (a); 
vira 

X ^ , X (x — // ) ^ o 

X (X— /() (.r— 2/0 , , , , 



ESTUDOS DK ANALYSK MATHEMATICA. 387 

fi evident^, (|iie I'azeiido nesta fornmla ///^l , vira a for- 
mula (3) , visto liavcr-sc su[»poslo aciina, (iiie (x) reprcsenta 
urn nuiliipio dc (70, seiido por coiisegiiinlc nuineroiiiteiio, 
como e (s) ua formula (3). 

A formula (3) e apropriada cspccialmciitc para coiiliiiu.ir 
a serie proposla iiidulinidameiilc, dopois dos («) pi'imeiios 
lermos, cujas dilTereiicas sejam dadas , ale a diiTeroiiga cons- 

lanlc(A"~ ); ou calculadas pula formula (4) : podendo 

ao mes uo tempo applicar-se a delerminaeao de quahpier dos 
(ii) primeiros lermos, daiido a (s) o valor convcniente, desde 
's=o ate s=n — 1. 

Se, na formula (5), sc considerar a quautidade (.x) ex[>ri- 
miudo mulliplo de uma fracgao de (h) ; fjca evidenle , que 
por essa formula se podera Hilercalar urn, ou mais lermos, 

en Ire dous quaesquer lij, e ^ . | ) da serie proposta , dan- 
do a (~) valores fraccionarios coinprehendidos cnlre 

— =5,0-7- =s+i- 
h Ii 

A formula (5) dependera tambeui da formula (4) para cal 
culo das difTerengas ale a differenca conslanle ( A ,, ) . se 
nao forem eslas achadas directamente. 

Se , na equacHo (jn) , pondo 

X = d} , X = a", X ■-= a^", etc. , 
resullarciU para (/y) respcctivameulc os seyuinles valores : 

y=yi, i/ = i/2, ii = i/i, etc., 



388 



REVISTA BRAZILEIRA. 



a equagao (m) , que em geral pode ser dada sob a forma se- 
seguinte 

(m') y=A-{-Bx-\- Cx- + etc. , 

ficara satisfeila, fazendo 



(6) 



( x— g') ( a;— a;" ) 



Com effeito , se nesta equagao se puzer (a') em logar de 
(a;) , desapparecerSo todos os termos do segundo membro , 
excepto aquelle em que e factor (y,) ; e ter-se-ha 

Pondo semelhanlemenle (a") em logar de (x) ; v'lti 

y = y2 

Fazendo a mesraa subslituigao por (a"') ; vira 

Dando pois a (a:) valores arbitrarios, comprehendidos 
cntre 

x='a\ e x=a^^ , 
virao outros lantos valores para (y), comprehendidos entrft 



y = yi, c y ^yz 



ESTUDOS DE ANALYSE MATHEMATICA. 389 

A fonmila ,0) 6 portanto adaptada parainlercalaros terinos 
que se qiiizor enlre dous quaesqiier termos da serie yi,yr, 
ifi , etc , uma vez que sejam conhecidos os valores de a' , a", 
a'" , etc., que os deterininam na equagao (m). 

Essa bella formula e devida a Lagrange ; e tern ella sobre 
a formula (5) a vantagem da maior generalidade , nao dc- 
pendendo da condicFio, a que esta esta subordinada, de variar 
valor de (j;) por differen^as constantes, na equagao (m) , 
que determina os termos da serie. 

Se na formula (6) se suppuzer, que as quantidades (a} , a" , 
a"', etc., crescem por differengas constantes, ella setornara 
identica a formula (5) , como se vai mostrar. 

Seja a'' = a'^h, «"'=a'' + /i=a'+2/i, etc.: desig- 
nando por H a ditTerenca variavel entre a quantldade (x) c 
(a'); ter-se-ha 

x — a}=H, x — a}' = x^o} — lt=H—h, 
a; — a"' = x — rt' — 2/i=/f— 2/<,elc. 

Substituindo as expressoes precedentes na formula (6) , e 
desenvolvendo a soric ate o Icrcciro tcrmo sumeute; vira 



(H—h)(H-m , H{H—U] , H{H—h) 



~ li. 2/i {H H—h H~'ih\ 

Pela formula (1) tem-sc 

. j/2=yi + A^i; e</.-yi + 2Ayi + A'yi 



390 REVISTA DRAZILEIRA. 

Substiluidos esles valgres de (^i) e de (yj) naprecedente 
equa(;,ao; viia. 



(7) 



H ^ , H{H-h) ^, 



Pica poifanto denionstradn , (jue levando o desenvolvi- 
mento do segiindo memhro dosla equarao alern do terceiro 
teinio da serie, se chogara a reproduzir a formula (5), com a 
unica difTeien(.a de designar-se lUKpiella por(f/) a quantidade 
que e nesta i<*pieseiUada por (;r)- 



Da formula (3) se dcduz com facilidade oulra formula 
apiopriada paia delerminara soinma dos (n) l»''imeii'OS tcr- 
mos da serie y\, Ui, iJo- ■ • y., uu de (w) lermos quaesquer, 
que forem dados, como se vai mostrar. 

Seja pedida a somma dos (n) priuieiros lermos da serie 



(A) 



a, h, c, d, e, etc. 



Forme-se com eslas quaiilidades a serie seguinle, lomando 
zero para primeiro leinio : 

a-\-b^c-\~d^e, etc. 

Applicando a esta serie a formula {-') ou (4) ; ler-se-ha 

^y, = rt — =ff ; por sery,=0 

^■11^ = a -\- h — ta = h — a ^- /\a 

^yy^ = a-\-b-\-c — 3 (a^b) -}- 3a = c — 2& + a=c 

— b — (b—a) = Al> — A" =A'« 

^',j, =,a-{~b-\r c-^d — i (a-^b^c) + (> (a+b) — 4rt= d 

— 2c -f 6 - (c— 264- ")= A'^ — A'a==" A'a 
Etc. 



ESTUDOS DE ANALYSE MATHEMATICA. 391 

Sabstituindo na formula ( 3 ) os valores precedentes d^ 
(yi> A^i. A'yi. A'yi, etc.); e desigiiando por (S„) a somma 
dos (n) termos da serie pro[)Osla (A) , a qiial represenla na 
serie (B) o termo da ordem (w+1) ; e mudando (.s) em (n) ; 
ter-se-ha 

(8) s. = «a+n'l^'A<.+ n'^-" V'^'« 



Esta formula resolvei a o problema proposto , sendo dado 
numero (n) , e conhecidas as differencas /\a , /\;a , Z\^a, 
etc. , com primeiro termo da serie (a), 

Passamos a exemplificar a applicagao das formulas (3) e 
(8) em algumas series numericas. 

I" £a;emp/o.— Pedc-se a somma dos (») primeiros termos 
da serie dos uumeros naturaes : 

Ter-se-ha 1, 2, 3, 4, 5, etc. 

Primeiras differencas 1 , 1 , 1 , i 

Segundas differenQas 0, 0, 

Subsliluindo estes valores na formula (8) ; vira 



S,. = n.l + /r— 2-^.1 = ^ ^^~T~ 



392 REVISTA BRAZILEIRA. 

2" Exemplo.— Seja dada a serie dos (luadrados dos nu- 
meros naluraes 



\\ 2", 3-, 4% 5-, elc; 

cujo decimo termo seja pedido : e bem assim a somina dos 
dez primeiros lermos. 

Ter-se-ha 1, 4, 9, 16, 25, elc. 

Primeiras differencas 3, 5, 7,9 

Segundas differengas 2 , 2,2 

Terceiras differencas 0, 

«/.= !; Ayi = 3; AV. = 2; AVi = ; s = 9 

a = {; A a= 3 ; A'« = 2 ; A'« = ; « = 10 

Subslituindo estes valores lespeclivamcnle nas formulas 
(3) e (8) ; vira 



i/94.1 = i+9-3 + ^.2 = (i0)^ 

10.9., , 10.9.8. ., _^ 
S,o=10.l4-2-.3 + -^;3-2^385 



Se fosse pedida a somma dos (n) primeiros lermos; ter- 
se- hia 



., = „+n(i^).3+,/'i=l-^ ^t!).,=,/'!+!](?!t+i) 



ESTUDOS DE ANALYSE MATHEMATICA. 393 

3° Exemplo. — Pede-se o decimo termo da serie dos cubos 
dos numeros naturaes ; e a somma dos dez primeiros termos. 

Ter-se-ha, procedendo como se praticara nos exemplos 
antecedentes 

yi=l; Ay. = 7; AVi=12; A*y.=6; AVt=0; s=0 

^9+^ =1+9.7+^.12+11^.6= (10)' 

,^ 10.9 ^ , 10.9.8,^ , 10.9:87^ ^^.^^ 

^io==^^+-^-^+¥:T^^ + -13T-^='^'' 

Se fosse pedida a somma dos (n) primeiros termos ; viria 



S„ = n+» ^ . 7 + iy-^T— -15— . 12 



+»V^^^^^-^>B=«'^=K)- 



designando por (S'J a somma dos (w) primeiros termos da 
serie dos numeros naturaes : propriedade bem notavel , em 
virtude da qua! sera (l'+2'+3'. . . +10*) == (1+2+3. . . 
+10)'==(55)'r=3025. 



394 REVISTA BRAZILEiaA, 



V. 



§>erles iiiflnltas. 



Chainam-se infinilas, na analyse algebrica , as series cujos 
lermos procedem iiidefinidameiile, de modo (jue qualquer 
delles e mato/-, oa menor do que o precedenlc, os quaes 
guardain entre si uma dada razao , conslaiilc ou variavel : 
louiando a serie a denominagao de cresceu'e no primeiro 
caso, e decrescente no segundo. 

As series cujos termos, em numero infiiiito, sao iguaes 
enlre si , e affectos alternativamente dos signaes (+) e (— ) , 
chamam-se neutras. 

As series infinitas dividem-se tambem em corwerijcntes , e 
divergentes. E convergente a serie, na qual a soiuma de um 
numero finito dos seus termos decresccnles approxima-se 
tanto mais de uma quantidade tinila, quanto for maior o 
numero de termos contemplados naqucUa somma: sendo a 
serie divergente, na hypotliese contraria. 

Toda a serie infinita crescente e necessariamenle diver- 
gente. 

Ha tambem series infinitas, cujos termos comecam por 
convergir, divergindo depois, c vice-versa: ncsle caso tomam 
essas series a denominagrto de mixtas. 

Seja dada a serie infinita decrescente. 

1 1111 



ESTIIOOS DE ANALYSE MATHEMATICA. 395 

Ponha-se 



1 1 1 



represenlando por S' a somnia dos termos impares da serie 

{iv). 

Subtrahindo a segunda equaQao da primcira, niembro a 
membro; vira 



1 \ \ 

1/4 1 \ \ 

— 9." • '^ 



Ter-se-ha porlanlo 

2-(S-S') = S 

Desta eqna(;7io se lira a proporcao seguinle 
.S: .S— S':: 2"": \\ 
da qual rosulla , compondo 

SV S— .S'^::2'"— 1: 1 



396 REVISTA BRAZILEIBA. 

Representando (s — s') a somma de todos os termos pares 
da serie dada , este resultado se enunciara da maneira se- 
guinte : 

« A somma dos termos impares da serie infinita (w) esta 
para a somma dos termos pares, assim como a potencia (m) 
de 2 , diminuida da unidade , esla para (i). » 

Este ciirioso resultado , que se encontra na Ars conjectandi 
de J. Bernoulli , e attribuido a Lorgna por Lacroix. 

Fazendo , na serie {w),m. = S, m = 2 , m=^\; virao OS 
seguintes resultados: 



(i) 
(2) 
(3) 



S': S-S'::7:l 
S': S—S' :: 3:1 
S*: S—S' ::1:1 



Isto e : na serie formada de fracgoe.s, cujos denominadores 
sao OS numeros naturaes elevados ao cnbo ; a somma dos ter- 
mos impares esta para a somma dos termos pares, assim como 
7 esta para i : sendo os denominadores quadrados , a pri- 
meira somma est:i para a segunda , assiin como 3 esta para i : 
e finalmente , no caso de serem os denominadores simples 
numeros naturaes , sera a somma dos termos impares da serie 
rigorosamente igual a simma dos termos pares. 

A serie que corresponde a este ultimo resultado 



11 1 1 1 

(»•) S=1 +- + _ + -+ ^+- + etc. 



lem nome de serie harmonica , em razao do uso que delia 
se faz na theoria dos sons. 

Cumpre aqui observar , que se pude cbegar ao mesrao 



S 



ESTUDOS DE ANALYSE MATHEMATICA. 397 

resnUado acima dediizido do theorema de Bernoulli , relati- 
vamente a serie (w^), procedendo do seguinte modo : 

111 1/11 \ 

_ + _+^+etc. =^(1+^+3- +etc.) 

/Ill \ 1 1 1 

Ill 11 

_ + _ + _+etc. =,+_ + _ + elc. 

A conlradicorio apparenteqne apresenta a iqualdade destas 
duas series, prolongadas ate o infinito, com a desigualdade 
que guardam enlre si quaesquer dous termosconsecutivos da 
serie («<;') , se desvanece , considerando o desenvolvitnento in- 
definido desta serie do modo seguinte : 

Crescendo indefinidamente os denominadores das frac- 
coes, que formam os lermos successivos da serie (id'), chegar- 
se-ha a dous termos contiguos, cuja diffcrenga seja menor. 
do que qualquer quanlidade assignavel , sem que por oulra 
parte sejam nullos esses mesmos termos : de modo que dahi 
em diante continuara a serie ate o infuiito, sendo formada de 
termos constantes, e iguaes enlre si. 

Com effeilo , lome-se a fraccao algebrica 



a -{- nc n , , , 

_^= sendo (a. b,c, d) . 

-+" - 
n 



398 REMSTA BRAZILEIRA. 

quantidadesfinilas , e (w) urn coefTiciente numerico que pode 
crescer indefinidamenle. 

Fazendo nessa expressao «=o; ter-se-ha 



a-\-nc c . , „ • r^ 

^ , ^ = — - = | , na hvpolnese acima fi- 
b + nd d 



giirada em que se tern c = d : d'onde se tira 
a-\-nc = h 4- nd 

Daqni se conclueque a sommadeum numero infinito de 
lernios da serie harmonica (w') nao pode ser representada 
por unia quantidade finita, que seja o limite do seu cresci- 
mento: e que por conseguinle e aquella serie divergente, nao 
obstante ser formada de termos decrescentes. 

Em dilTerentes categorias devem ser consideradas todas 
as outras series comprehendidas na expressao geral {id). 

Porquanto as series , em que a polencia (/») e o quadrado , 
quarta potencia , etc. , sao susceptiveis de um limite represen- 
tado por uma dada fracgao do quadrado, etc. , da quarta po- 
lencia da semicircumferencia do circulo do raio igual a 
unidade ; comose mostra no caiculo intinitesimal. 

Fazendo, por exemplo , m=2 , na equagao (u') ; ter-se-ha 



TT 



.1 



till 

=-1+37 +^+TT+TF+elC 



Todavia taes limites nao podem exprimir-se em numeros , 
senrio approximadaniente , em razao de dependerem da re- 
laglio do raio para a semicircuuiferencia, a qual e designada 



ESTUDOS DE ANALYSE MATHBMATICA. 399 

na precedeiUe equaQao por (tc) , qiianridade que nao tern um 
valor numerico exacto, e e represeiUada approximadamente 
pelo numero 3.14159, etc. 

Dada uma serie infinita, e decrescente, procure-se a expres- 
sao geral de qualquer dos sens lermos ; dediizindo dahi a ex- 
pressao do anterior. primeiro termo, dividldo pelo segnndo , 
dara a razao de uma progressao geomelrica decrescente, cujo 
primeiro termo e aquelle lerino da serie tornado para divisor 
do immediatamente rnenor, e o ultimo termo zei^o. 

Se , pois , conhecida assim a expressao geral da razao entre 
doustermos contiguos da serie, se reJuzir ella a zero, quando 
considerada no infinito, se concluira dahi que a serie proposta 
e convergente. 

Nesta hypothese , tornado nm termo qualquer da serie para 
primeiro termo da progressao geomelrica , e calculada a 
razao da progressao como se disse acima , achar-se-ha a 
somma dos termos da mesma progressao pela formula 
sabida; e essa somma sera o liiiiite maximo do resto da 
serie , em relag.ao aos termos que precedem o primeiro da 
progressao. 

P(ir este modose julgara tambem da maior, on menorcon- 
vergencia da serie proposta: e cumpre advertir, que esle 
processo e somonfe applicavel as series, cujos termos sao to- 
dos positivos, ou lodos negativos. 

Nos casos em que tor praticavel este methodo de investi- 
gagao , podera acontecer, que o valor da expressao geral da 
razao entre dous termos consecutivos da serie, qiiando con- 
siderada no infinito, se apresente sob a forma iiuleterminada 
(l), ou igual a nnidaie. De um, ou outro d sics resultados 
nao se concluira, que a serie de que se trala e convergente, 
ou divergente : e ronvira recorrer a oulro.; meios pai'a resolver 
essa ambiguidade , como abaixo se vera. 

Applicando o processo indicado as series que s'u) conipre- 

R- B. III. 37 



400 



REVISTA BRAZILEIRA. 



hendldas na forma geral (w), ter-se-ha para expressao da razao 
enlre dous quaesqner termos da serie 



Este resultado comprehende tanio a serle harmonica (ir') , 
que ja havemos mostrado por ouira maneira nrio ser concer- 
gente , e tambem lodas as nutras series, que acima dissomos 
terem limiles expressosem funccoes circulares, enlrando por 
fonseguinte na oategoria das series convergenles, 

Na serie logarillimica fundameiilal 



(p) \Qg.a=\og.el 



a~\ (a—\Y (a-Vf (a-\y 



1 2 

+ etc. ) 



3 



fazendo r/ = 0; vira 



/ \ i \ \ \ 

log.O=log.c (l +2 + ;{ ^I"^ r> "^ ^^^ I 



Em qualquer syslema de logaritlimos tem-se 



log. 0= — « 



Se, pois, nao fora ja sabido, pel.t diuilrina precedenle, 
que a serie, couq)rehendida na expressjo aualytica de. (log. 0), 
e divergente , este resultado , deduzido da theoria dos loga- 
rithraos , o faria conhecer. 



ESTUDOS DE ANALYSE MATHEMATICA. 401 

Fazendo na niesma formula (p) 

a =2; vira 

(1111 \ 

A serie que enlia no segundn membro dpsla pquagao puile 
lransforn)ar-se nn spjjuinle 

111 1/11 \ 

Pelas consiilcracoes feilas auleriormenU; sobre o deseu- 
volvimenlo da serie barmouira (yr') . se mostra facilmente. 
que a serie ((/) , cujos leniTos oxpri;iiein as dilTeren^as dos 
lermos conseculivos daquella , decresceri indefinidamente 
ate urn termo (jue sera rigorosaineule zero . seii^ que os dous 
correspondentes na oiilra serie sejani iinllos: enlrando por 
(•(Hisp^uinte na categoria das series convergenles. 

Pai'a descol)rir poreni a cnnvergencia dessa serie pelo pro- 
eesso aciina indicado , iiotar-se-ba, que seiido a serie [q 
equivalente ;'i nielade da serie , que se compoe dos terrnos 
impares da seguinle 



111111 

0) ' + 3 + li+ro+T5+3l+5S^'*- 



cujos tennos le n por denoiiiin.Hlores os uunieros conhecidos 
pelo nome de fi iaruiulares, na classe dus que se chamam figv- 
rados ; bastara mostrar que esta serie pertence a calegoria 
das convergentes. 



402 REVISTA BRAZILEIRA. 

Se exprimir-se um lernio qualquer da serie (r) por 

— , que precede sera expresso por , : sendo por 

consegiiinte a expressao geral da razao entre dous qiiaesquer 
termos da serie 



n — n^ . n' 



n 



n 



Crescendo f??') indefinidamente, a medida que [n] cresce, 
como e facil de verificar na serie (r) , ter se-ha no infinilo 
n=n^: e por conseguinte 



n — IV 
n 



= 1 — 1 =0 



^ portanto convergente a serie fr) ; e por consegiiinle tam- 
bem a serie [q] , que faz parte inlegrante della. 

A somma do numero infinilo de termos, que formam o 
desenvolvimenlo da serie [r] , pode ser acliada mni faiil- 
niente, do modo seguinte : 

Represenlando por (S) essa somma ; ter-se-lia 



2S 



=^+Kt+ I)+ ' (n]+ u)+'ih+^) + '''■ 



= 2 + 1 + 1+1+1+1 hHc. 

= 2+ S: por conseguinte 
S=2 



Designando por (m) a somma dos termos impares da serie 



ESTITDOS DE ANALYSE MATHEMATICA. 403 

(r) ; e por (/t'l ;i soinma dos termos (pares) ; .ter-se-hao as 
duas equaC'Oes segiiintes: 



2 = u-\-u\ log. 2 = — - log. e : d'onde se tira 



^;__ 2log.2 ^^,__^^ 2log.2^, Jlog.(^-log.2 _^_|Qg2 
log. 6? ' log. 6? *" log. e log. e 



Ter-se-ha porlaiilo a segiiiiile proporcao 



?/: u^ :: log. 2: log.- :: 1 .- 0.4425 piox. ; 

propriedade analoga a do theorema do Benioulli : d'onde se 
deduz 



«= 1.3865, /i' = 0.6 135. 

A theoria das series iiirinilas Icin por objeclo representar 
por lima expressao geral qualquer termo do UDia serie pqiii- 
valcnle a uma fuiicr.ao dada: ou determinar a somiiia dus 
lerinos de uma serie dada, em numero finito, ou illimi- 
tado. 

Foi Archimedes o primeiro geometra , que deu a conhecer 
esse poderoso instrumento da analyse mathematica , quando 
acliou, pela souimagao de uma serie indnila , aquadratura 
da parabola. E, cousa hem iiolavel ! so em meiado do se- 
culo xvii, cerca de 2 mil annos depois de Arcliimedes, come- 
^^aram os geometras modernos a dar a esse objecto a devida 
allenrao. 

Dous geometras inglezes , Wallis e Gregory, foram os pri- 
meiros a revclar com os seus impoilaulissimos trabalhos 



404 REVISTA BRAZILEIRA. 

a rigueza dessa iitina , que depois delles fora profiindameute 
lavrada por Leibnitz , e iiiuitos ouiros geometras, enlre os 
quaes figuram , coin notavel distinccrio , os dous irmaos Ber- 
noullis (Jacques , c Joao). 

Sao mui variados os melhodos que hoje se conhecern » 
destinados a sommacao das scries infinitas , segundo varia a 
forma destas : iiao fallando do desenvolvimento das series . 
de que jci tratamos anteriormente. 

Daremos aqui, como specimen desses engenhosos processos 
analyticos , uma das formulas devidas a Jacques Bernoulli , a 
qual e applicavel as series menos compostas. 

Seja dada uma serie , cujo termo geral se represente pela 

P • V 

fracc-ao — , e outra cujo termo geral seja 



w ni-q 

Subtrahindo da primeira fracgao a segunda; ler-se-ha 





pq p 


P . 




n{n^q] u 


n+q' 


'onde se tira 








P ^ 1 V 


V 



primeiro inembro desta cquacao pode ser considoiado 
como a expressao do term) geral de uma terceira serie , 
lormada com os elemeulos das duas series dadas : e ter-se-ha 

n[n^-q) q \ n n-j-ql 

A caraclerislica 2 indica, no primeiro membro desta equa- 



KSTUDOS DE ANALYSE MATHEMATiCA. 405 

po, asuiiinia do lodos os terinos da seric, cujo Icrmo geral e 
; e no segundo membro sommas analogas, da serie 



cujo termo geral e ( — ], e da que tern por lermo gend 

P 
>— — ; dando-se a (n) os valores que comportar, desde n=l, 
n-i q 1 I > 

ate n= <x> . Se porem se coiisiderar [n] variando ate uni valor 

tinlto, serao as referldas sommas parciaes, relativamentc as 

ires ditfereutes series. 

1."^ Seja dada a serle infinita 






cuja sonima total e pedida ; ter-se-ha 

p = \ , (/=2, n = l, 3, 5, etc. 

Foruiando com esles elementos as duas sci ies [tarciacs , 
iudicadas uo segundo membro da formula (.s); vira 

I 1 1 

1 -f — — \- -r- + -!=--{-• ' • ctc. = l ; c por conseguinlc 

/111 V 

-(ir+- + -+-'""=-) 

P ^ 

asomina, dos Icrmos dascrie comi)Osla s — — i- — r= -— , 

• u{n^q) 2 

somma pedida. 



406 



REVISTA BRAZILEIRA. 



Se fosse itedida a somma da serie , ale o numero (n') dos 
seus ternios ; ler-se-hia 



1 \ 1 

'+T^■T + 7-+■■ 

/I 4 \ 



1 ^ 4 2n' 

2«'— l"" Sw'+l—Sn'+l 






;e 



por conseguiiile 



n' 



«(M + ^j 2«'+l 



2.° Seja pedida a somma da serie 



1 1 1 

+ -rT+ . o + etc. 



2.4 4.6 ' 6.8 



Ter-se-ha 



pr=[ , ry =- 2 , « = 2 , 4 , 6 , etc. 

Ill 1 

Y -I T~^ ~^~^~"- ^^^- ~ Y ' ^ porconsegumte 



1 1 

^+- + ..,010, 



= --7-; somma pedida. 



n{n-\ (]) 4 



Se forem reiiiiidas em uiiia so as duas* series iiiliiiitas dos 
prcccdcntes exemplos ; ler-se-ha 



ESTUDOS DE ANALYSE MATHEMATICA. 407 



11 1111 

__j__L-u_4.__lJ_-j_ _-4- etc. 
3 ^ 8 ' 15^ 24. 35 ^ 48^ 

1111 



r—{ ' 3^—1 ' 4^—1 ' 5-— 1 
3 

Esta serie , cuja soinma f6ra achaJa prinieiramenle por 
Leibnitz, nas suas invesligacoes sobre a quadratura do cir- 
culo , offerece iima circumstancia bem nolavel em relagao a 
este objecto ; a saber : 

Se da serie precedente forem separados o sen primeiro 
termo, o quinto , o nono , e procedendo assiin dc qnatro em 
quatro lermos , depois de cada termo separado ; formarao 
todos esses termos a serie infinita 



111 111 

T-+ 15-+ w+ ^^^-==1:3+ 5-7+ 9lT+^*^- 



Esta serie pode ser deduzida da formula, anteriormente 
achada em outro logar , a qual da a grandeza de um arco 
expresso na sua tangente ; fazendo nclla tang. x = \. 

Leibnitz demonstrou , pela analyse intinilesimal, applicada 
ao problema geral das qiiadraturas , que a area do circulo , 

1 

cujo quadrado inscripto e representado pela fracQao —j- , ou 

4 

CQJo raio ^-r-y ^' ficariageometricamentedeterminada, 

se fosse possivel acliar a somma dessa serie infinita, que Ihe 
e equivalente : o que ate o presente se nao lem conseguido , 
e e talvez impossivcL 



408 



RE VISTA BRAZILEIRA. 



Parece em verdade cousa beni singular, que, fazendo essa 
serie parte integrante de outra serie infinita, cuja somma 
se determinou acima , nao seja ella susceptivel de repre- 
seutar-se , na totalidade dos seus termos , por nenhum nu-' 
mero racional ! 

Jacques Bernoulli , a quern deve a sciencia preciosos tra- 
Italhos sobre esta matei'ia , pondo reiuate a sua Iheoria das 
series infinilas, na imporlante obra ja cilada, sob o titulo 
de — Ars conjectandi — , resumio em dous versos latinos, 
de sublime conceito , oobjeclo, e o immenso alcancedesse 
fecundo ramo da analyse mathematica. Eil-os : 

« Cernere in iinmcuso parvuin die , qiuiiUa voluplas ! 
In parvo immensum cernere, quanta, Deum ! » 



Terminaremos esta resumida exposirSo dos principios , 
que servem de base asommarao das series intinilas, fazendo 
uma observa(}ao importante, sobre a applicagao da formula 
logarilhmica {p ). 

Pondo nessa formula (—a) em logar de [a] ; vira 



Log. [—a] = — log. e ^— j— + 



M+^^tl)Vo.c. 



Scndo evidentemente divergcnte a serie que entra como 
factor no segundo meiiibro desla equa^ao , sera infinita a 
somma dos seus termos : e ter-se ha por conseguinte 



Log. [—a] = —x> 



ESTUDOS DE ANALYSE MATHEMATICA. 409 

Por outra parte , qual.iuer que seja o systenui de loga- 
rithmos, tem-se 

Log. (0) = — 00 . 

Nao podendo subsistir o priineiro resullado , em presenca 
do segundo, deve concluir-se dabi , que nao pode exprimir 
valor algum real o logarithmo de uma quantidade negativa ; 
e e por esla razao (jue os geometras adniittem a sua ex- 
pressao symboUca, sob a furma imaginaria; a saber: 



Log, 



[-a]=A^/-\; 



entendendo-se por esla expressao, que o logarithmo de [—a] 
e imaginario. 
Com effeito , na equagao transcendentc 

Cos.a;+ |/ — 1 Sen.a;=e 
ponha-se (7:] cm logar de [x] ; e vira 

Cos. n^y _i.Sen.T: = (? 

/ — y-^ 



- 1 -=/ 



410 REVISTA BRAZILEIRA. 

Tomando os logaiilhnios de ambos os menibros desta equa- 
^ao; ter-se-ha 



ou 



Log.(— l)=rj/— 1. log. e; 
L0g.(— l)-=(7rlog.c)|/ — 1 



factor (t: log. f) que muUiplica (l/ — 1) , no segundo 

nienibro desta equagao , coriesponde ao que acima se de^ 
signou por (.4) na expressao de log. ( — a). 



ECONOMIA POLITICA 



Adao Smith. 

Logo no principio da segnnda metade do seculo xviii 
apparece a economia politica em quasi todos os pontos da 
Europa ao mesmo tempo. 

Na Italia, Verri e Beccaria langam os primeiros alicerces 
desta nova sciencia, e a administracao do condeFirmiani na 
Lombardia , e a do grao-durpie Leopoldo da Toscana poem 
em pratica os novos principios para a felicidade dos povos 
que governam. 

NaHespanlia, Campomanes, logo depois seguido por Jo- 
vellanos, tern a coragem dedizer e proclamar no paiz classico 
dos monopolios, do syslcma proliibitivo, e dos preconceitos 
monetarios, algmnas verdades uteis , que nao o impediram 
de ser nomeado presidenle do consellio de Castella. 

Em Franca, o Dr. Quesnay, medico de T^uiz XV, publica 
seu fainoso — Quadro economico — , e a roda delle se agru- 
pam algnns amigos e discipulos, como Gournay, d'Argenson, 
Mirabeau pai , Lemercier de La Riviere, Dupont de Ne- 
moens, e finalmenle Turgot, omais illustre delles todos. 

Na Inglalerra, onde depois da revolu^ao de 1688 tudo 



412 REVISTA BRAZILEIRA. 

quanto podia contrlbuir para o bom governo das nagoes era 
mais livremente estiidado que ivoutro qualquer paiz, appa- 
rece iima mullidao de publicaQoes sobre as questoes de pu- 
blico interesse , e a economia politica constitue-se quasi em 
snas formas defmilivas nos trabalhos do simples professor 
escossez Adao Smith. 

Indagar qual a parte exacta que teve, e a infliiencia que 
exerceu cada urn destes escriptores no ediflcio da doulrina 
economica, seria u:iia questlo insoluvel e superflua. Quern 
podera contar a multidao de arroios que concorrem para for- 
mar um regato, e a multidao dosregatos que contribuem para 
formar um rio ? 

Denlre os tres reinos reunidos sob o sceptro da Graa- 
Bretardia, era a Escossia o que por sen genio e liistoria me- 
Ihor se preparava para ser nm dia o berco escolhido da eco- 
nomia politica. 

Sr. Cousin, noseu — Curso de histnriada philo?;ophia — , 
depois de observar ipie a Escossia piiiicipiou seudo profunda- 
mente religiosa , accrescenta : 

• Do seio dessas fortes crencas nasceu um povo que foi 
senipre liel a causa da Uberdade religiosa e politica; illustre 
p bravo, honesto e seiisato, nioderado ao mesmo tempo que 
tenaz, tem representado u n papel particular nas revoluQoes 
da Ciraa-Bretanlia. 

« A Escossia nao tem com effeito passado por neuhum dos 
excessos contrarios que a Inglalerra tem atravessado para 
cbegar a constiluir o governo que e hoje a sua forga e a sua 
gloria. 

« Desde IGlOqtie os membros do ^7o/T»r(»/ escossez es- 
lavam em plena insurreicao conlrao poder absobilo; mas, 
n'lo obstante , liveram toilo o cuidado de nao lomar a menor 
parte na Iragcdia de I('>'iU,e em vez de mancbar suas maOs 
com o sangue df Carlos I , o parlamento escossez inlercedeu, 
SB beui que inulilmenle, a favor da viclima real. 



EGONOMIA POLITICA. 413 

« Em compensacao, porem, quando inais tarde , no rei- 
nado de Carlos II, expiava o povo ingiez os seus excesses 
democraticos pelas loucuras de um despoils vo corruptor, os 
intrepldos Escossezes, por meio de revoltas nao inlerrom- 
pldas, alimentavam o espirlto de independencla que devia 
trlumphar em 1688. » 

* Sr. Cousin termina este bello quadro hlsioiico por esle 
topico, que pinta perfeitamente a Escossia dos nossos dlas: 
« Em parte alguma do mundo e a creatura humana mais 
illustrada e honesta , e por consequencia feliz. >. 

No melado do seculo xviii possula a Escossia uma reunlao 
de homens emlnentes, que Irradiavam sobre ella um brilho 
quasi, sem igual no resto da Europa. 

Tres nomes enlre todosbrllhavam naprimoira plana. David 
Hume, hlstoriador da Inglaterra, e pbilosopho successor de 
Locke ; Dr. Robertson , historlograplio de Carlos V , da 
Escossia e da A-nerica ; e finalrnente Adao Smitb. 

Depols destes vinbam, o moralista Fergussjn, o cbimico 
Black, critlco Blair, e o agronomo lord Kanney , etc. 

condado de Fife, essa verde peninsula que se prolonga 
no mar defronte de Edimburgo , entre a embocadura do 
Fortb e do Tay , e lalvez a parte mais risonlia da Baixa- 
Escossia, 

Todos OS reis da casa de Stuart desde .lacques I ale Jac- 
ques VI, tlnbam abi sua residencia favorita, no solar feudal 
e campestre de Falkland. 

Um dos pequenos portos da costa , ondc apenas se reco- 
Ihiam e abrigavam entao algumas barcas de Pescadores, foi 
berco de Adao Smitb. 

pai do futuro fundador da econoniia politica exercia 
ne.sse porlo as funcgoes de conferente da alfandega. 

Depoisdos primeiros estiidos feitos na escola da sua aldeia 
natal , foi o joven Smitb passar tres annos na Universidade 
de Glascow , e depois mais sele na de Oxford. 



414 REVISTA BRAZILEfRA. 

Estabeleceu-se em seguida em Edimburgo, onde abrio um 
curso de bellas-letras ; e o successo desse curso foital, que 
foi Smith nomeado para a cadeira dephilosophia moral da 
Universidade de Glascow, que acabava de serilluslradapor 
Hulchesou. 

Foi portanto o ensino das bellas-lelras , e da moral , que 
levou SmJth a economia poUtica. 

Como , e por que caminho? 

Nao poderemos sabel-o melhor do que interrogando ossens 
primeiros escriptos. 

A Theuria dos scnthnentos inoraes ou Ensaio anahjtico dos 
jiiizos que formam os homens sobre as ac^oes dos outros e 
sobre as suas propriufi accoes , appareceu pela prlmeira vez 
em 1759; ha justamenle um seculo. Este livro original foi 
pela primeira vez traduzido em francez em \ 766 , com o ti- 
lulo de — Melaphysica da alma — ; a segunda vez em 1774, 
pelo padre Blavet, bibliotliecario do principe Conli; e a ter- 
ceira vez, em 1798 , pela viuva de Gondorcet ; provas estas 
do grande successo que obtivera essa obra, e que ainda du 
rava quarenta annos depois. Dizem que Adao Smith preferia-a 
a sua grande obra economica, que sem duvida contribuio 
muito mais para a sua gloria. 

Nao analysaremos as doutrinas dessa obra, depois do ex- 
cellenle Irabalho que a tal respeito publicou o Sr. Cousin ; 
apenas diremos que o principio de Smith e a sympathia , isto 
e, que uijs julgamos a'< accoes boas ou mas, pela sympathia 
ou antipathia que ellas nos inspiram. Hutcheson ja tinha 
dado por fundamento a n:oral a benevolencia; ve-se pois 
que enlre os dotis systemas ha apenas uma pequena diffe- 
rence. 

Segundo mclhodo. habitual na escola escosseza. Smith 
l»rinciiiia jiela observarao de inn facio de senlimento, e delle 
deduz uuia nuillidao de consequencias engenhosas, que en- 
chem dous volumes. 



J^.CONOMIA POLITICA. ~ 415 

Adao Smith reduz os differentes systemas de philosophia 
moral a tres principaes , que sao : o que faz consistir a vir- 
tude no que ella chama conveniencia ou propriedade das 
cousas ; o que faz consistil-a na utilidade pessoal ou na pru- 
dencia ; e, fmalmente, o que faz consistil-a na benevolencia 
ou sympatliia. 

Estes tres systemas , diz elle, contem todas as definigoes 
que se podem dar da virtude. 

Adao Smitli nao exclue nenlium delles , mas da a pre- 
ferencia ao terceiro, que approxima o homem de Deus, 

porque : 

« A benevolencia devc ser o unico motivo dos ados da 
Divindade , porque e difficil conceber-sc que oulra qualquer 
causa possa actuar sobre urn Ser independente e perfeito. • 
amor da humanidade c o principio dominante da phi- 
losophia do seculo xvni ; e este principio sera sempre a 
grandeza: desse tempo, apezar dos sens erros. 

Com semellianle moYel nos espiritos, nao e de admirar 
que seculo xvm tenha sido o bergo da economia poUtica, e 
que tenha esta sciencia sahido ja feita e completa do seio 
da philosophia escosseza , como sua emana^ao natural. 

A economia polilica nao 6 com effeilo senao uma applica- 
^ao do amor da humanidade. 

Ao passo que a moral da sympalhia nos leva a procurar o 
hem dos nossos semelhantes na ordem moral , a economia 
politica nos ensina a procural-o na ordem material ; e o vin- 
culo entre estasduas ordens de ideas e a theoriadajustiga 
e do direito que participa .de uma e de outra. 

curso de Ilutcheson comprehendia nas suas subdivisoes 
rudimentos de economia politica, conjunctamente com a 
moral c a politica propriamente dila. 

Adao Smith tambem tinha concebido o projecto de escrever 
Ires grandes tratados que deviam ser partes de um s6 todo ; 
umtratado de moral, um de economia pohtica , e um de 



R. B. III. 



28 



4IG REVISTA BRAZILEIRA. 

legislaQao : o primeiro o o segundo existem ; mas mio teve 
tempo de acabar o terceiro , que devia ter por titulo Theoria 
da JHrisprnclencia, e CAijo?, ksigmenioi pediii elle antes de 
morrer que fossem dcsli'uidos ; perda immensa, que tcra sem 
duvida demorado no mundo iiiteiro o aperfci^oamcnto das 
leis escriptas. 

Tal era o intimo accordo que nesse grande espirilo unia 
todos OS ramos das scicncias moraes e politicas: deviam ellas 
separar-se, para quepudesse cada umaconsliluir-se a parte, 
mas nunca devendo pordcr de vista a sua origem commum. 

Adao Smith deixou mais alguns ensaios philosophicos que 
attestam a exlensao e a variedade dos sous estudos : uma 
Dissertaciio sobre a origem das Ihujnns ; uma fJistoria da 
Astronomia , da Physica e da Metaphysica dos antigos ; e 
Considera0es sobre as artes de imitagdo ; tudo porem des- 
apparece perante as Iiwestigaim's sobre a natureza e a causa 
da riqueza das na0es. 

Adao Smith deixou a sua cadeira em 1703: e depois de 
duas viagens a Franca, onde foi acompanhar o joveii duque 
de Buccleugli, encerrou-se por assim dizer por espa^o de dez 
annos em Kirkcaldy, junto de sua mai, para compor sua 
immortal obra. 

Entre os escriptos de que se inspirou Adao Smilli , deve-se 
citar em primeiro logar, depois dos economislas francezos , 
nove pequenos ensaios puhlicados em 175^2 por seu amigo e 
compatriola David Hume , sobre o counnercio , o hixo, o juro 
do dinheiro, os imposlos, o crcdito publico, abalanca do 
commcrcio e a populacao. 

A reputarao de Hume, qucr como pliilosoplio, quer como 
histoiiador, prejudicou os sens Irabalhos como economista ; 
e entrelaulo acham-se nos sens ensaios nniilas vistas novas e 
jiistas; entre outras, a refutacao do erro geralmente admit- 
lido, que no commercio entre duas nacoes o iurrodeuma 
suppoe necessariamente o prejuizo de oulra; em duas ou ires 



feCONOMIA POLITICA. 



417 



paginas da Hume a clemonstraQao coiitraria com uma precisao 
e uma forca , que sera difficil exceder. 

bomsenso dos Escossezes ja tinha adivinhado o que as 
duas grandes nacoes commerciantes de entao , a Hollanda e 
a Inglaterra , ainda nao sabiam , e o que taiitos oulros povos 
custam ainda hojc a comprehender. 

Outroamigode Smith, lord Kames, escreveu urn livro 
de economia rural , que ainda hoje e auloridadc. Todos esles 
csludos especiaes deviam de cerlo conlribuir para a vasta 
generalidade de esludos e do ideas que apresenla a Riqueza 
das nacoes. 

Pouco tempo depois da publicaQao destaobra, foi Adao 
Smith, em recompensa dos sens Irabalhos , nomeado com- 
missario do governo junto as alfandegas , com residencia em 
Edimburgo ; funccoes que exerceu ate a sua morte, que teve 



logar em 1 790. 



11. 



anno de 177G niarca umagrande data para a economia 
polilica, e por consequencia para a humanidade, porque foi 
a epoca em que appareceram ao mesmo tempo os edictos de 
Target para a emancipa(;ao do trabalho, e a obra de Adao 
Smith. 

N'um parallelo entre estes dous illustres contemporaneos , 
qual delles teria a primazia? 

Turgot era o mais mo^o dos dous, tinha 39 annos em 
1776, quando Adao Smith ja tinha 43; e entretanto os 
grandes actos do primeiro precederam os escriptos do se- 
gundo. 

Turgot tamljem se deu a metaphysica , como o prova D 
artigo Ercistozda da Encyclopedia, em que principia a des- 



418 REVISTA BRAZILEIRA. 

pontar a philosophia espiritiialista que tinha de succeder a 
escola de Condillac. 

Dislrahido dos sens estiidos scientificos pelos trabalhos da 
administragao , Turgot, nao obstante os cuidados que Ihe 
dava a intendencia de Limoges , aiiida achou tempo para 
escrever uma Memoria sobre os emprestimos de dinheird , 
Cartas sohre a liberdade do commercio dos cereaes , e Re- 
flexoes sobre a forma^ao e a distribui(;ao das riquezas; obras 
admiraveis, que todos os escriptos ulteriores nao fizerani 
mais do que repetir , e que nem niesmo os de Adao Smith 
fizeram esquecer. 

Turgot ainda fez mais : n"um minislerio de menos de dous 
annos , emprehendeu ousadamente por em pratica todos os 
seus principios ; e se nao logrou desde logo o seu intenio, a 
semente que langara a lerra devia produzir fructos quinze 
annos depois. 

Voltaire, que era bom julgador, tributou a devidahome- 
nagem a curta e luminosa appariQao de um minisiro phi- 
losopho. « Eu soube , escrevia ^Ue por occasiao do edicto 
sobre a liberdade do commercio dos cereaes , que um mi- 
nistro acabara de publicar um edicto pelo qual, sem embargo 
dos mais sagrados preconceilos, se permittia a lodo equal- 
quer babitante do Perigurd vender e comprar farinba na 
Auvergne , e a lodo o babitante da Champanba comer pao de 
farinba comprada na Picardia. 

« Ha tempos vi eu uns poucos de iavradorcs lendo a som- 
bra das arvores o edicto de Turgot ; um delles, velbo ja car- 
regado de annos, e cbeio dejuizo e bom senso, dizia aos 
oulros: . Cousa admiravel , ha perto de sessenta annos que 
leio ediclos; todos elles nos tiravam a liberdade natural em 
um estylo que ninguem podia entcnder ; este, reslitue-nos 
a liberdade que nos foi arrancada por outros, c eu entendo 
facilmenle todas as palavras. K a primeira vez que ncsia terra 
rci raciocina com o seu povo : foi a liumanidade que es- 



ECONOMIA POLITIGA. 419 

creveu e o rei assignou; oi*a, gracas a Deus, islo ja da von- 
tade dc viver, comtanto que o rei e o sen ministro vivam 
tambeni muilos annos ! » Iiifelizmente iiem um neru outro 
viveii niiiito tempo, e os votos do velho lavrador nao se rea- 
lisaram. 

Quando Voltaire soubc da queda do minislerio de Turgot, 
desesperou ; estc raio, dizia ellc, foi-medireito ao coragao e a 
cabegare logo diiige ao ministro decabido afamosa Epistola a 
um homem, que foi um dos ultimos accordes de sua velhice , 
porque eiilao Voltaire ja tinlia mais de oitenta annos. 

Emquanto se passaram em Franca estas scenas lumul- 
tuosas, sahia pacificamente da modesta aldeia de Kirkcaldy o 
fructo de dez annos de meditaQoes, e sem descer a mesma 
arena, ia a obra de Smith consummar para sempre a conquista 
imperfeitamente realisada de Turgot. 

Esta grande obra fez a principio pouca sensagao em Franga, 
onde se agitavam entao outras paixoes ; foi porem acolhida 
com admiragao na Inglaterra. Na occasiao em que em Franca 
se encarnicavam os odios ao simples nome dos economistas, 
ia na Inglaterra a mesma doutrina tomando posse dos es- 
piritos illuslrados, e penetrava sem combate na opiniao pu- 
blica. 

Tal e muitas vezes a differenQa entre os grandes homcns 
dos dous paizes ; aqui sao elles maltratados c repellidos , la 
sao ouvidos e respeitados. Dabi vem tambem a difTerenga nos 
destines dos dous povos : um , prospera e se engrandece sem 
interrupcao e quasi sem tumulto ; outro, nao pode dar um 
passo sem soffrer convulsoes. 

Toda a tbeoria de Adao Smith se encerra nesta phrase por 
(jue principia sua obra: « trabalho annual de umanagao 
6 fundo que fornece para o consumo annual todas as 
cousas necessarias e commodas a vida ; e estas cousas sao , 
ou producto immediato dcsse trabalho, ou compradas a 
outras nagoes com esse producto. » Esta proposigao funda- 



420 REVISTA BRAZILEIRA. 

menial , no nionienlo cm que Smilli a enuncioii , eslava beni 
longe tie ser vulgar , como sc tornoii dcpols. So loilos os es- 
criplos inspirados por ella,sem nicsmo cxcepluar os de Smith, 
se perdessem n urn grandc naufragio , c que so cseapassc 
csta phrasL' , bastaria ella para reconstruir completamcnlc a 
scicncia cconomica do que e ella o elemenlo gerador. 

Anles de Smith , ja muito se havia indagado e procurado a 
origem da riqueza; uns, encontravam-na nos metacs pre- 
ciosos, outros descobriamna na terra ; ninguem porem tinha 
chegado a esta formula tao clara : toda a riqueza emana do 
trabalho , isto e , do homem. 

Foi uma vcrdadeira descoberta que com. sua luz dissipou 
todas as trevas. trabalho ! eis o principio da economia po- 
litica de Smith, assim como a sympathia e o principio de sua 
moral ; e o moralista o mais sevcro approvaria esladoutrina, 
ainda mais do que a prinieira, porquc o trabalho e uma lei , 
um dever, uma necessidade superior, e um freio imposto 
por Deus as nossas ambigoes , a nossa cubica e as nossas pai- 
xoes. 

primciro livro da obra de Smith trata do trabalho c de 
sens productos, considerados debalxo de dous pontes de vista 
principaes — aproducclio c adistribuigao. A primeira parte 
comeca pelo celebrc capitulo sobrc a divisao do trabalho , 
no qual Adao Smith quiz imprcssionar profundamcnte os 
espiritospclo espectaculo das maravilhas que podem resullar 
dcssa divisao. Nao ha quem nao conhcga o curioso cxcmi»lo 
dos aUinctes, que se tornou classico, c que foi naqucllc 
tempo uma verdadcira revelaQao: de entao para ca, a 
divisao do trabalho fez immensos progresses, c oscxcmplos 
(]ue hojc sc podcni cilar sao innumcravcis. 

Esta bclla Ihcoria, que 6 das que mais parlicularmentc 
pertenccm ao philosopho cscosscz, tevc alguns conlradic- 
lorcs cm Franca , no principio dcslc scculo. Nao sc Icntou 
Iiegar os cllcitos da divisao do Iraltalho sobrc a producgao , 



ECONOMIA POLITICA. 421 

que seriaimpossivcl, mas deplorou-se sua nociva iiifluencia 
sobre a saudc c a inlclligencia dos operarios: « que podera 
ser urn homem , diziaiii os contradiclorcs , que passa sua vida 
a fazer cabegas de alfinete ou pontas de agulha? Seu espirilo 
c seu corpo nao podem deixar de alrophiar-se n'ama occu- 
pacao niecanica, que so cxige o habito sem pensamento, e a 
assiduidade sem esforgo. » 

A observagao e exacta a alguns respeitos ; ludo lem incon- 
venientes iiesie mundo ; mas se se deve olhar com attenc^ao 
para as funestas consequencias que accidentalmenle pode ter 
a applicaQlio dos melhorcs principios, lambem c mister que 
alguns resultados infelizcs nao nos occultem o lado favoravel 
das cousas, que em ultima analyse fazem cem vezes mais 
bem do que mal. 

Tal e com effeito a proporcao entre os bons e os maus 
effeitos da divisao do trabalho ; e a experiencia acabou de 
demonstral-o com tal forca e evidencia , que as apprehensoes 
contrarias nao podem mais hoje dizer palavra. A divisao do 
trabalho , como ja havia notado Smith , conduz directamente 
ao emprego das machinas , o emprego das machinas a al^a 
dos salaries, e ao bom mercado dosproductos, a alga dos 
salaries combinada com o bom mercado dos productos ao 
rnelhoramento da condicao material dos operarios, o melho- 
ramenlo material a cultura da intelhgencia, e a cultura da 
intelligencia a elevacao das ideas e dos sentimenlos. 

Da divisao do trabalho na mesma fabrica passa natural- 
mentc o espirito a applicacao do mesmo principle de uma 
olficina a outra, e de um paiz a outro paiz. Adao Smith, 
continuando a sua analyse , ve a causa priinaria da divisao 
do trabalho na tendencia que leva os homens a traflcarem 
entre si , e enlao chega'clle a sua segunda maxima: « .4 
(Uvisdo do (rabalho c limilada pcla extensao do mercado. » 

Se ha facto incontcstavcl, e de certo este; a medidacom 
effeito que o mercado se restringe, como, por cxemplo, n'uma 



498 REVISTA BRAZILEIRA. 

aldeia, cada homem e obrigado a cxercer varias industrias ao 
mesmo tempo, e por conseguinle a exercel-as mal ; a medida 
pelo contrario que o niercado sc alarga, como, por exemplo , 
nas capUaes como Londres on Pariz , apparecem as espe- 
cialidades que iialuralmcnle vao so dividindo por si proprias, 
e cada ramo de industria vai-se aperfeig-oando separado dos 
oiilros. 

Foi entretanto £ste priiicipio lao claro c lao simples que 
causou a mais violenta guerra a cconomia politica, porqiie 
e priiicipio que conduz a liberdudc do coinmercio e das 
transacgoes eiilre lodos os habitantes da mcsma localidade , 
enlre todas as localidades da mesma provincia , entre todas 
as provincias de um Eslado , c entre todos osEstados do 
universo. 

A segunda parte do primciro livro , que tra(a do modo de 
distribuigao dos productos , tern muilo mcnos clareza que a 
primeira. pensamento de Smith c a priiicipio obscuro c 
confnso , e elle proprio o sente , porquc pede dcsculpa de nao 
ser claro ; pouco a pouco , porcm, as ideas vao-se destacando 
do veo que as envolve , e a analyse sabia apparece de novo. 

A nocao que tanta dil'licuklade tem assim em saliir da obs- 
curidade e a nogao de valor [paliie], a mais abstracta da cco- 
nomia politica. 

Smith enlra em materia pela sua famosa distinccao entre 
valor de mo c o valor de j^crimifa, aceita c desenvolvida 
depois pela maior parte dos economislas , cspccialmentc pelo 
professor Rossi, que dcUa fez o assumpto de quasi todaa 
primeira parte do seu curso. 

prero real (rm/pj-ice) de cada cousa eotrabalho quce 
ftieciso ler para obiel-a ; e o que cada cousa vale realmenle 
para quem a possue, c que [trocura desfazcr-sc della, e o 
Irabalho on o esforQO que essa cousa Ihe poupa , c quem a 
possue pode exigir de oulra pessoa. Nao e com ouro ou prata, 
e com Irabalho quo todas as riquczas do mundo sao origi- 



ECONOMIA POLITICA. 423 

nariamente compradas ; e o valor dessas riquezas, para quern 
as possue , e exaclaniente igual a quantidade do Iraballio que 
ellas podem comprar ou obler. trabalho e porlanlo a unica 
medida que pode servir em lodos os tempos e logarcs , para 
apreciar-se o valor das cousas : o trabalho 6 o preco real , 
dinheiro e apenas o prego nominal. 

Para bem comprehender-se a ulilidade dcstas dislincgoes, 
e preciso trazer a lembranoa quaes as opinioes (jue corriam 
quando Smith escreveu a Riqueza das naroes. Povos e gO' 
vernos, estavam todos imbuidos da idea que a unica riqueza 
era o ouro e a prata ; a distinc^ao entre o valor de uso e o 
valor de permuta , entre o pre^o real das cousas c o preeo no- 
minal, tern por fim mostrar o contrario. 

« As verdadeiras riquezas, repete Smith, sob todas as for- 
mas, sao os productos necessarios, ou commodos a vida , e 
sen verdadeiro valor vem do uso que della se pode fazer; 
valor de troca nao e mais do que a expressao desse valor de 
uso. » 

Esta Iheoria do valor nao e completa, mas basla para o fim 
que tinha o autor em vista : Smith ainda reproduz depois a 
mesma idea na distinccao entre o preco natural e o prei^o do 
mercado , c a este respeito desenvolve elle uma das mais lu- 
minosas formulas da economia politica ; a formula da ol'ferla 
e da procura {command and supply). 

Apressemo-nos porem em sahir desla mctaphysica ccono- 
mica, que nao tem hoje a mesma importancia que tinha na 
origem da sciencia , e vamos as applicag.oes positivas. 

Smith distingue no preco das cousas tres partes : uma que 
serve para remunerar o trabalho propriamente dito do ope- 
rario, e que elle denomina — salario do trabalho {wages of 
labour) ; outra que serve para pagar os instrumentos de tra- 
balho, e que elle denomina — hicros do capital (|)ro/*/s of 
stock) ; e a ultima que serve, pcio menus na maior parte das 
niercadorias, para pagar o aluguel da terra, e que elle cliama 



424 REVISTA BRAZILEIRA. 

— rendada terra (rent of land). E por esles Ires camiiihos 
que prcgo sc distribue por cnlre os dilTerentes mcmbros da 
sociedade: salario, lucro c renda, cis as fonles de lodo o 
rendimento, beni como do lodo o valor permutavel. 

Tralando separadamenle do salario e dos liicros, menciona 
Smith duplo facto quo se da em todo o paiz que se enri- 
quece ; a saber : os salarios vao subindo por efleito da de- 
manda crescenle de trabalho , e os lucros dos capitaes vao 
baixando em virtude da mulliplicacao, e por conseguinte da 
offerta crescente dos capitaes. 

Smith mostra depois como, tanto os salarios como os ca- 
pitaes, estao sujeitos a desigualdades naturaes, por clTeito da 
maior ou mcnor difficuldade de trabalho, do maior ou menor 
risco, etc. 

Cada uma destas consideraQoes da logar a interessantes 
desenvolvimenlos ; mas todas ellas desapparecem pcrante 
esta consideracao suprema que as termina : Das desigual- 
dades causadas nos salarios c nos lucros pela poliiica geral 
da Enropa. E com elTcito aqui que sc aprescnla em face dos 
anligos privilegios o que se pode chamar o principio dos prin- 
cipios — a libcrdade do trabalho. 

« A mais sagrada e a mais inviolavel das propriedades , 
diz Smith , 6 a do trabalho , porquc e a causa origiiiaria, c 
a fonle do todas as outras. palrimonio do pobre esta na sua 
for(;ac na habilidadc de suas maos; impedil-o porlaiilo de 
empregar a sua for^a e habilidadc da maneira que ellc julgar 
maisconvenienle, c uma violac~io manifesta dessa propricdadc 
primiliva. E uma usurpagao clamorosa da libcrdade legilima , 
tanlo do operario, como daquelles que eslariam disposlos a 
dar-lhc trabalho ; e impedir a um , de trabalhar no que ellc 
julga mais hicrativo , a outro , de empregar quem Ihe parecci', 

« A solicitude que alTecla o legislador para preveuir ipie 
sc cmpreguem pcssoas incapazes , e tao absurda como o[»- 
prcssiva. » 



ECONOMIA POLITICA. 425 

Nesla passagem do Smilli rcconhcceni-se , uao so os priii- 
cipios, tnas ate quasi os proprios tcrmos do celebre ediclo do 
Turgol, publicado mczcs antes : 

« Deus, dizia elle , dando ao homcm nccessidades , c fa- 
zendoparaeUciiKlispensavelo recurso do Irabalho , fez do 
direito de traballiar a propriedade de todo o homem ; c esta 
propriedade e a primeira, a mais sagrada, e a mais impi-es" 

criptivel de todas. -> 

Eis em toda a sua siniplicidade a phrase que mudou o 
mundo , e que ainda hoje o esta transformando. 

Dianle desse principio cahiram as aiitigas corporacoes : as 
aUandegas internas, os monopoUos excessivos; e diante delle 
hao de desapparecer ainda lodos os outros obslaculos que se 
oppoem a emancipagao do traballio. 

Diante desse principio recuam a miseria, a ignorancia, o 
vicio e crime ; porque, diga-se o que se disser , o mundo 
vaimelliorando,tantonaordem material, como na ordem 

moral. 

A delicada questao da renda da terra nao foi lao bem elu- 
cidada por Smith , e foi talvez a sua definicao que fez toda a 
confusao desta materia. 

Smith , bem como Ricardo e todos os economislas inglezes, 
dao a renda a signilicacao de premio que se paga ao proprie- 
tario [landlord] , pelo gozo do poder productivo inherente a 
terra; mas nao 6 esse o unico seutido que o uso da a palavra 
renda. Entende-se ordinariamentc por esta palavra , e neste 
sentido tambem a emprega Smith, toda e qualquer especie 
de retribuiclio paga ao proprietario pelo usufructo, quer da 
terra propriamente dila, quer dos capitaes incorporados a 
terra , como os cercados , conslrucQoes , edilicios , camiidios, 

dcrrubadas , etc. 

Smith teve consciencia desta confusao , mas nao tratou de 
desfazel-a. habil autor da liiqaeza das nagoes leria pou- 
pado nmitas torturas a seus successores , c alguns desvios a 



426 RE VISTA BRAZILEIRA. 

sciencia, se, iusislindo mais nesta idea, livesse adoptado pa- 
la vrasdilTerenles , para CNprimir coiisas lambem difTerentes. 

Rigorosamentc seriam precisas tres; porque a palavra ge- 
nerica rendu devia scr empregada segundo o uso universal 
para dcsignar a retribuicao que se paga ao proprielario : de- 
pois, esta nocao devcria subdividir-sc em duas — a retri- 
buigao que se paga pelo uso da faculdade productiva natural , 
e inherente a terra ^l) , e a retribuicao que se paga pelo uso 
dos melhoramentos incorporados : uma poderia chamar-se 
renda /(a^(//a/ ou gratuita, e outra vmdsi ailquirida ou capi- 
talisada. A primeira das duas recua e desapparecc com (> 
tempo , e acaba quasi sempre por absorvcr-se e fundir-se na 
segunda. uso e emprcgo de uma so palavra para cstas tres 
signiflcaQoes levou alguns espiritos exaltados a monstruosos 
erros , e entre outros a negagao mais ou menos formal do 
direito de propriedade. 

Esta observacao nao c a unica que suscita esta parte da 
obra de Adao Smilli. principal defeito desle precioso livro, 
e que torna a sua leitura dilTicil para quern nao tiver uma 
attencao firme e perseverante , c a cxtensao deas digressoes. 



(I) Sobre as fiincslas coiisequencias que podcm rcsullar da doulrinadeSiiiilli 

da inaior paile dos economistas , dccica da lenda da terra , veja-se a bclla 
obra dc Hasliat — Harmonies I'conomiqucs — , c cspecialmenlc os capitulos 
5" , O" e 13. 

Sr. I., do Lavorgnc, ccnsuraiulo, c com razao,a doulriiia dc Smilli, cahio 
no niesmo erro , porquc diz que a renda « e a retribuiqao que sc paga pelo 
uso da faculdade productiva , iulierenic ao solo. » 

Se assim fora , jnslificado ficaria o faninso Proudiion, quando fez esla icrrlvc 
iiilerrogacao , seguida , como diz Uasliat , de aflirmarao ainda mais terrivel : 

« Quem (5 que lem direito a reiida da terra ? Sem duvida o produrtor da 
terra. Ora , queiii fez a terra ? Deus. ISesle caso , rrtira-tr. propHrlario. n 

\ verdadr e que nao se paga cousa alguma pela ulilidade ou fecundidado do 
solo ; que se paga i' o trai)allio do lionieni ou da sociedadc , n'uma palavra 
valor, e nao a ulilidade que d sempre gratuita. 

M. 0. F. 



tCONOMIA POLITICA. 42? 

Por occasiao do estudo sobre a renda da terra, materia 
ja bastante ardua em si , entra Smith de repente, e sem que 
se possa a primeira vista descobrir a ligaQao das ideas, n'uma 
dissertaQao sem fim sobre as variagoes da prata [silver] , a 
partir do seculo xiv. 

Esta discussao historica abunda , como tudo quanto es- 
creveu Smith , em investigagoes cnriosas e em vistas pro- 
fundas; mas nao guardaa devida proporgao com aextensao 
total do primeiro , de que forma ella a terca parte pouco mais 
ou menos. assumplo merecia uina obra a parte, porque 
ha poucos pontos mais ol)scuros na sciencia , ainda hoje 
que tantos trabalhos importantes lem lentado ehir,idal-o. 

Nao obstante, porem , estes defeitos de ordom e de me- 
thodo , e primeiro livro da Riqueza das naroes o magiiifico 
portico de um magnifico monumento. 

Ja a economia poUtica, pude-se dizer, que ahi esta com- 
pleta ; OS successores de Adao Smith poderao ter mais ordem 
e methodo na sua exposigao, elucidar melhor alguiis pontos 
obscuros, desenvolver com mais minuciosidade algumas ap- 
phcagoes da sciencia , mas em nada poderao mudar as bases, 
que Smith estabeleceu de accordo com Turgol. 



III. 



segundo livro e consagrado aos capilaes. Para exprimir 
a idea que se liga a palavra —capital—, Adao Smith serve-se 
de dous termos : stock e capital. 

Stock 6 uma palavra ingleza que siguiflca loda a especie de 
abastecimenlo e provisoes, quer sejam deslinadas para o con- 
sumo, quer para servir de inslrumenlos de producgao ; ca- 
pital e palavra que designa a parle do stock ((ue serve para a 
producQiJo. 



428 RE VISTA BRAZILEIRA. 

Depois desla primeira distincgao enli'e o fando de consumo 
e fundo de produccao de iim paiz , Smith eslabelece outra 
da mesma, senao de maior imporlancia, entre os capitaes 
fixos e OS capitaes circulantes. 

Quantas nacoes, c quantos particulares nao se tern perdido 
por nao lerem comprehendido eslas simples differeiiQas entre 
fundo de consumo e o fundo de producgao , entre o capital 
fixo e capital circulanle , e por terem sacrificado um ao 
outro (1)? 

A nocao do capital conduz naturalmente a theoria da cir- 
culagao [currcncij]. dinheiro [momu/] e, segundo a feliz 
expressao de Smith , a grande rod'i da circulai'ao , e e esse 
seu verdadeiro officio. 

Por intermedio do dinheiro podem os capitaes passar ra- 
pidamcnte de mao em mao , e multiplicar a sua forca pro- 
ductiva, tanto pela quanlidade como pelo movimento. Quando 
este movimento se accelera, podem o ouro e a prata ser ate 
certo grau substituidospelo papel, c a circulagao se estabelece 
entao sohre uma segunda roda que custa muito menos 
a fabricar c a sustcnlar do que a primeira. 

Deque modo, porem, e com que condicoes sera possivol 
esla subslituicao? Aqui expoe admiravelmente o autor a 
theoria dos bancos em geral, e dos bancos da Escossia em 
particular: e esla parte da obra de Smith e com razao uma 
das mais celebres , e quem accusar a economia polilica de 
imprudenle e avenlurosa , basta lel-a para desenganar-se. 

lima viva polemica suscitou-se entre os economislas acerca 



(1) firandc pane das diinculdatlcs com que liilu aciualiiK^nle o nosso paiz, 
e da crise que estS alravessando, deve ser lan^ada & conla da ignoranria desla 
doulrii);i ftiiidanienlal, uma das de maior alcancc praliro. A men ver, nenliiim 
esrriplor lorn mellior i-iiiridado esta materia do ([iie Wilson, iia sua (»l)ra — Ca- 
pital , currency and banking. 

M. O. F. 



ECONOMIA POLITICA. 429. 

de outra distincgao que faz Smilli enlre o trabalho prodiictivo 
e trabalho improduciivo. 

Segundo Smilli, su e Iraballio prodiiclivo aquelle que, in- 
corporando-se as cousas, da-lhes niaior valor, como o Ira- 
balho do lavrador e do operario ; todos aquelles cujo trabalho 
nada augmenla ao valor dos objcctos materiaes , como os 
homens de sciencia, os medicos, os adniinislradores, os mi- 
litares, os legistas, sao trabalhadores improduclivos. 

rigor desta linguagem offendeu os mais rcspeitosos dis- 
cipulos do illuslre meslrc, e J. B. Say csfor(;ou-se por cvitar 
mesmo escolho por uma nova classificaQno dos productos 
materiaes e immaleriaes ; classificacao ([iic o Sr. Dunoyer 
posteriormenle adoplou , modificando-a e precisando-a me- 
Ihor (1). 

Adao Smith foi do certo longe de mais, emprcgando estes 
termos; mas para rectificar o absoluto de sua linguagem 
nao nos parece necessario mudar a significagao da palavra 
produdo , applicando-a a objectos nao materiaes; basta ad- 
mittir-se, o que e exacto, que as artes que actuam sobre as 
pessoas podem conlribuir para a producg-ao , como as que 
actuam sobre as cousas, com a differenga, porem, que so as 
ultimas e que cream productos, e as primeiras servem para 
formar os productores. 

Deste niodo permanece inlacta a especialidade da sciencia 
economica, rclativamcnte aosoutros ramos das sciencias mo- 
raes e polilicas ; e os trabalhos immateriaes nao entram no 
seu dominio senao emquanto se realisam, directa on indi- 
rectamente, em productos materiaes uteis. 

Qiianlo a dislincgao cm si , e ella fundamental , como fodas 



(1) A theoria de Bastiat sobre a imitualidadc dos sprvi(;os parece remove!' 
as difliculdades que , nao obstante os esrriptos do Sr. Dunoyer , ainda siiscila 
esta parte da sciencia. 

M. 0. F. . 



430 REVISrA BRAZILElRA. 

as de Smith ; e nao ha verdadeiramenle trabalho produc- 
tivo, do ponto de vista economico, senao o que CFeautili- 
dade. 

que importa aqui, e o que queria o autor da Riqueza das 
nacoes , e bem estabelecer a existencia de occupaQoes total- 
mente improductiyas, afim de assignalar, e de evitar quanto 
for possivel os parasitas] de toda a casta que vivem a custa 
do trabalho e do capital alheio ; o nial consiste em applicar a 
uma ordem e categOria inteira de funcgoes o que so se deve 
appHcar ao abuso. proprio J. B. Say, que em parte recti- 
ficou esta confusao , tambem a commetleu e ate aggravou-a , 
qnando admittiu que os produclos immateriaes , como elle 
chania, se dissipam e desapparecem , a medida que sao 
creados , c nao fazem parte do capital accumulado da socle- 
dad e. 

Sr. Diinoyer foi o unico que elucidou completamente 
este ponto. Nao so o juiz, o soldado, o medico, o advogado. 
sacerdote e o sabio , contribuem para a produccao material 
quando fazem bem o seu dever, favorecendo a scguranga, a 
propriedadc , a saude , a nioralidado, e a habilidade dos pro- 
ductorcs ; mas tambem os fructos do sea trabalho nao des- 
apparecem, a medida que se cream, e conslituem por sua 
accumulacao um capital particular, que e o capital intellectual 
c moral da sociedade. 

Este capital , longe de ser o menos util , exerce sobre a 
produccao uma influencia mais poderosa que o capital ma- 
terial ; e se n'um calaclysma fosse preciso escolher o que se 
pudesse salvar para assegurar o prompto restabelecimenlo da 
produccao , os depositarios das luzes deveriam ter o primeiro 
logar, porque o espirilo, armado das conquistas seculares da 
civilisagao , mais depressa conquistaria de novo sua acfao e 
superioridade sobre a materia, do que a materia mesmo a 
mais rica. poderia suscilar o fccundo poder do espirito. 

Qnando se remonia a origem da producgao, encontra-se a 



ECONOMIA POLITICA. 4S1 

intelligencia humana ; e este facto esta subentendido na 
theoria do trabalho de Smith, mas nao o exprimiii elle com 
a clareza necessaria. 

Depois destas premissas, nao ha difficuldade em claramenle 
definir-se o que se passa no emprestimo a juro. Os homens 
OS mais eminentes daquelle seculo, como Locke e Montes- 
quieu , tinliam commettido o erro de supporem que o aug- 
mento da quanlidade do ouro e da prata , proveniente do 
descobrimento dashidias, tinha sido a causa de baixar na 
EurOpa a laxa do juro ; Smith demonstra que nao e a maior 
ou menor quantidade de moeda, e sim a maior ou menor 
por^ao de instrumentos de trabalho e de produclos obtidos 
com esses instrumentos, que faz augmentar ou diminuir o juro, 
Esta demonstraQao responde aos escrupulos dos casuistas que 
repelliam o emprestimo a juro , fundados em que o dinheiro 
por si so nada produz ; e pela theoria de Smith nao e o di- 
nheiro que produz, e o capital que se obtem com o dinheiro. 

Ve-se despontar neste capitulo a doutrina que mais tarde 
teve de ser desenvolvida por Bentham, da legilimidade do 
juro convencional. 

Passando as difTerentes maneiras de empregar os capitaes, 
Smith distingue quatro, que sao: a agricultura, as manu- 
facturas, o commercio em grosso, e o commercio de retalho. 

Cada um destes quatro modos de empregar um capital Ihe 
parece essencialmente necessario , tan to para a extensao dos 
outros, como para a commodidade geral da sociedade: o 
que elle prefere, porem, como mais vantajoso, e a agri- 
cultura, porque nenhum capital, cceteris paribus, poe em 
actividade mais trabalho productivo que o dos lavradores. 

Smith consagra quasi todo o quarto livro de sua obra ao 
cxame minucioso do systema conhecido pelo nome de sys- 
tema mercantil , c verdadeiramente a obra toda nao tern 
outro fim , porque o systema mercantil resume em si todos 
OS erros que a economia politica vinha combater. 

R. B. m. 29 



432 REVISTA BRAZILEIRA. 

Sendo a causa do systema mercantil a eterna confusao 
entre dinheiro e riqueza , Smith comega por demonstFar que 
unia nagao pode ser pobre com muito dinheiro , e rica com 
pouco dinheiro; e depois examinaos expedientes empregados 
para altrahir a cada paiz a maior porgao possivel de dinheiro 
a custa dos seus vizinhos, e que consistiam em diminuir por 
todos OS meios a imporlacao de mercadoriaseslrangeiras para 
consumo , e a favorecer a exportacao dos productos da in- 
dustria nacional ; era isto que se chamava por a halaiiQci do 
commercio a seu favor. Comprar pouco , vender muito , c 
saldar a differenca em dinheiro, era o ideal que procuravam, 
tanto OS governos como os particulares ; e para reahsal-o 
recorriam a toda a sorte de leis e regulamentos , que ainda 
hoje nao desappareceram inteirameute da maior parte das 
legislacoes. 

Os argumentos de Smitli contra semelhanle systema tem 
sido tantas vezes reproduzidos , que desnecessario se torna 
apresental-os aqui. 

Depois de combater e rcfutar o systema mercantil, consagra 
Smith um capitulo especial ao exame da doutrina dos econo- 
mislas francezes, a que chama systema agricoJa , por oppo- 
sigao ao outro. 

Na realidade as ideas dos physiocratas nao differiam 
muito das suas: mas os escriptores h'ancezes sao em geral 
mais claros e mais brilhantes que os escriptores inglezcs ; c 
como tem, por assim dizcr, os defeitos proprios das suas qua- 
Udades, cahem facilmcnle na exageraclio systematica. 

A escola de Qiiesnay queria, como Adao Smith, combater 
a escola mercantil, c substituir-lhc a liberdade do trabalho; 
via ella tambem que a agricultura era a primeira das indus- 
trias, e que a nogao falsa de riqueza e que a tinha rebaixado 
ao ultimo logar, mas nao se contentou com isto; c exage- 
rando uma opiniao exacia chcgou a suslentar que o trabalho 
agricola era o unico product ivo, o unico que augmentava 



EGONOMIA POLITICA. 433 

alguma coiisa a riqueza da sociedade. Facilmenle refutou 
Smith esla exageracao , demonstrando que a induslria e o 
commercio prodiizem tanto como a agricuUura. 

Nesta disciissao , porem , usa Smith de um tom affectuoso 
e mesmo respeitoso, muito differentc da vivacidade com que 
julga systema opposto. Conhecera elle os principaes phy- 
siocratas na viagem que fizera a Pariz, e muito linha apro- 
veitado com o tralo c escriptos delles, a poiito de dizer que, 
seQuesnay ainda vivesse em 177G, ter-lhe-hia ellededicado 
a sua obra. 

Depois das violencias dos tempos barbaros, e das prohi- 
bigoes da escola mercantil , ainda ha para os governos um 
meio de perturbar a ordem estabelecida por Deus para o 
desenvolvimento da riqueza : esse meio e o imposto. 

Pago portodos, deve o imposto ser gasto emproveito de 
todos; senao, torna-se um poderoso instrumento de espo- 
liacao dos fracospelos fortes; desvia os capitaes dos empregos 
uteis, que elles naturahiiente procurariam , para perdel-os 
em empregos improductivos. So falta, pois, a Smith, para 
finalisar a sua obra, determinar em que casos as despezas 
publicas sao legitimas, e em que casos deixam de sel-o. 

quinto e ultimo hvro trata deste objecto, que foi sempre 
a pedra de escandalo entre os economistas e os governos. 

Smith dividc-o em tres partes: a primeira, occupa-se das 
despezas que devem ser feitas pelo Estado ; a segunda, dos 
melhores systemas de impostos; a terceira, das dividas pu- 
blicas. 

philosopho escossez nao admitte verdadeiramente senao 
duasespecies de despezas, que devam ser confiadas ao Es- 
tado: as que exige a defesa do territorio, e as que servem 
para sustcntar a dignidade e o prestigio do soberaiio; se bem 
que nao exclua elle absolutamente a intervencao do Estado 
nas despezas que exigem a administraclio da justioa, oculto, 
a instruccao publica c as obras publicas. 



434 REVISTABRAZILETRA. 



IV. 



Taes eram os problemas que occnpavam ha cem annos, no 
fiindo (le uma pobre aldeia de Pescadores, as meditagoes de 
am professor de philosopliia moral. Do entao para ca, a dou- 
trina do soli tar io pensador caminhou pelo mundo ; e por toda 
aparle em que foi applicada, mesmo imperfeitamente , logo 
appareceu uma prosperidade ate entao nunca vista. Sua terra 
natal foi sem duvida a que colheu melhores fructos ; mas o 
resto do mundo vai-se aproveitando tambem pouco a pouco. 
E essa doutrina que faz nascer e prosperar nagoes novas nos 
confins da terra , e que impelle as nagoes mais rebeldes do 
velho mundo. 

Entretanto, se dermos ouvidos aos moralislas intolerantes, 
a economia politica e um estudo matcrialista, que so cuida 
nas necessidades do corpo. 

E exacto ; a economia politica cuida de dar pao a quern 
tern fome, e de vestir a quern tern frio; de mulliplicar quanto 
for possivel o numero das creaturas de Deus, a quem chegam 
OS seus beneficios ; do derramar a abastanga e o beni-cstar 
em roda de si , e de fazer todos os povos mais ricos c mais 
felizes. 

E quaes serao os meios para isso se conseguir ? 

Unicamenle a juslica e a liberdade, diz a economia po- 
litica. 

E sera por ventura islo o que merccc o dcsprezo c os ana- 
themas? 

Dizcm que a economia politica e ascicncia das riquezas, 
ou a arte de se enriqueccr por lodos os meios. 

Ha nislo, porem, ma fe ou engano, porque ha duas espe- 
cies de riqueza : a verdadeira, legitima, que provem do tra- 



ECONOMIA POLITICA. 435 

balho e da economia; e a falsa, injusla, que piovem da 
fraude e da astucia. 

A primeira adquire-se lenla c laboriosamenlc, c aproveila 
a toda a sociedade, e essa a economia polilica procura c 
aconselha ; a segunda obtem-se a ciista dos outros, eessa 
a economia politica condemna e esligmatisa sem piedadc. 

Se a sciencia economica estivesse mais espalhada e conhe- 
cida, haveria certamentc menor nuinero de pobres ; mas 
tambem haveria menor numeio dc ricos. 

trabalho , mesmo nos paizes em que e elle inleiramenle 
livre, poucas vezes faz homens ricos ; crea muilas riqiiezas , 
e verdade, mas essas rlqiiezas rcparlem-se mais igualmente, 
e pouco resla para a ociosidade. 

Quem mais do que a economia politica lem alacado o 
luxo ? 

Quem tern melhor demonstrado a uniao intima do luxo e 
da miseria ? 

Vimos que a economia politica nasceu da moral , pelo me- 
noscomoa entende a escola escosseza, e que ambas lem 
um principio commum , que e o amor da humanidade. 

Ainda mais : a idea de responsabilidade pessoal domina a 
moral, e domina tambem a economia politica; e e sem duvida 
uma das circumstancias que mais mal the tcm feito. 

A fraqueza natural do homem repugna a essa sciencia 
austera, que, despojando de suas vestes o mysterio da ri- 
queza, mostra por toda a parte a dura nccessidade do tra- 
balho c da economia. 

credito , essa palavra magica que parccc que crea the- 
sourossem conta, a economia politica mostia que tem por 
origem, para cada qual, a estricta hdelidade em cumprir a 
sua palavra e os seus compromissos. 

Todo preceito economico suppoe uma virtude ; e toda a 
conquista legitima de bem-estar depcndc do cu'nprimento de 
um dever. 



436 REVISTA BRAZILEIRA.- 

Depois de fazer quanlo c [lossivel para evitar a pobreza, a 
economia polificaainda ensina a solTrcr sem murmurar, mos- 
tranilo que todo o soccorro implica urn sacrificio , c que iiao 
se pode dar a uns sem liiar a outros; o que e de cerlo o mals 
duro casligo que pode soflrer a iiuprcvidencia liumana. 

I)ir-se-ha que islo nao basla? E quern afilrma o conlrario? 
A ecouoniia polilica nao e a moral, assiiu como a moral luio 
e areligiao ou a polilica, uem a philosophla e a liisloria na- 
lural ou a litteratura. 

Para que a unidade primordial sobrcviva a csta diversi- 
dadc, basla que cstes differcules meios concorram para o 
mcsmo lim : c a expcricucia moslra et'fectivamciUe que as 
populagoes que devem ao Irabalho a abaslanca e o bem-eslar 
material, sao lambem as luais moraes, mais livres, mais 
religiosas, mais illuslradas, maispolidas, c asmaissaas de 
corpo e d"abna. 

No bcm, como no mal, Uido se liga c se encadeia nesle 
mundo. 

As virtudes publicas lambem lem diversos nioveis ou mo- 
tivos, como as virludes privadas: e o inleresse bem enleu- 
dido , se nao e o unico , 6 o mais poderoso c o mais vivaz de 
todos. 

Os povos que mais lem perdido o senlimento de seus di- 
rcitos ainda conservam o de sens inleresses ; c cmquanlo 
csla niola nao esla qucbrada , nao esla tudo ainda perdido. 

N'uma socicdade sceplica e^desorganisada, pode cada qual 
Icr csperanca de fundar ou salvar sua propria forluna sobrc 
a ruina dos costumes publicos; mas cbega um dia em que 
todos vem que, se nessa misera loleria os que ganbam sao 
aos centos , os que perdem sao aos milboes, e entao co- 
meram todos a chorar e a pranlear as garantias pcrdidas. 

Nao ba, pois, prosperidade duradoura para uma nagao, 
forado cumprimcnlo viril e sensalo dos deveres politicos. 
Esla vcrdade podcm os povos csquecel-a n'um momenlo 



ECONOMIA POLITICA. 437 

de cansaQO on de desanimo , mas as licocs da experieiicia se 
encarregam de lembrar-llf a ; e na falta de nobres inslinclos , 
Iristemente obscurecidos , o aguilbao da necessidade mais 
tarde on mais cedo levanta as almas decahidas. 

E este urn dos caracteres que mais dislinguem as socie- 
dades modernas das aiitigas ; e qualqner que seja sempre a 
forga eo poder dos elemenlos moibidos, a reacgao vital e 
lioje mais fortes e e por isso que nao se pode mais repro- 
duzir nada que se assemelhe ao imperio romano. 

De resto , a moralidade de uma doutrina julga-se pelos seus 
fi'uctos ; isto 6 , pelo procedimento publico e privado dos que 
a professam. v 

movel especial dos estudos economicos e o interesse ; 
mas e o interesse de outrem , o interesse nacional e patrio- 
lico ; interesse do genero humano. 

As exageracoes de Bentham , aggravadas ainda por com- 
mentaries malevolos, nao devem desnaturar o verdadeiro 
sentido de uma doutrina, que, setoma por guia o interesse 
privado , e porque elle se conlunde com o interesse geral , e 
que repelle logo que deste se desvia. 

Quanto a preoccupagao exclusiva do interesse pessoal , 
quern mais do que os economistas tem-se mostrado isento ? 

Quem como elles tern repudiado as riquezas mal adquiridas, 
OS monopolies lucrativos , as honras que se obtem por meios 
duvidosos , etc. ? 

Quem mais a peito descoberto tem resistido as violencias 
populares nos dias de revolucao, e as cobardes condescen- 
dencias dos tempos de servilismo? 

Quem melhor tem vivido e sabido morrer do que elles , que 
supportam sem trcpidar as provaQocs da vida , e a provagao 
suprema do ultimo suspire? 

Em Franca, a economia politica comeca com Vauban, que 
morreu no desagrado de Luiz XIV, por tcr tide a coragem de 
Ihc dizer a verdade. 



*'* REVISTA BRAZlLlilRA. 

fundadoi da escola dos physiocratas, Dr. Quesnav con- 
serva-se pobro no ineio da corlcde Franca, qnando melhor 
do que n.nguen, podia die , polas funccoes que exereia junto 
apessoadorei, alcaiu-argracascpensDes 

a iiDeulade do commercio. 

Turgot arrosla a coleia dos parlanieiilos c. da corle- nSo 
rece.airdenconlro aopinir.o publica, e cahe do poder sem 
hes.tagao e sem pezar, para nada coder do que considerava 
como a salva^ao do Ihrono c do paiz. 

Sobreveioarevolucao, c Dupont de Nemoens anima-se 
a lutai- contra Mirabeau. para combaler a funesta creacao dos 
assignados. 

Morellet clama contra a confiscacao das propriedades 
Lavoisier sobe Iranquillo ao cadafalso, com o unico pezar 

de deixar incompleta unia experiencja de chimica. 
Condorcet entrega-se a sens iniinigos, depois de com mao 

tmm tracar as ultimas paginas do sou Esbofo dos progresso^ 

do espinto humano. 

Em nossos dias J. B. Say, excluido do governo do seupaiz 
antes quiz, para vivcr, monlar uma fabrica de fiacio , do que 
dobrar-se a inflexivel vontade que governava cntao a Franca ■ 
e,finalmente, Rossi morrc assassinado, por qucrer glorio- 
samenle resislir as faccocs. 

Na Inglaterra , onde a sociedade e mais cabiia e a virtude 
maisfacil, os cconomistas nao passaram pelos mcsmos pe- 
ngos; mas,se o tlieatro e menos agitado, o exemplo que 
la mesmo daj os cconomistas nlo e menos digno de res- 
peito. 

Nao Ika vida mais pura, mais dcsinlercssada, e mais de-' 
dicada a sciencia , que a de Adao Smith. 
Malthus , cujo nome excita tantas imprccavOcs , era o mais 



ECONOMIA POLITICA. 439 

ameno, affectuoso e sincere dos liomeiis, e um verdadeiro 
philosopho christao. 

Sahindo-sc do domiiiio da sciciicia pura para cnlrar-se no 
das applicaQoes , encontram-se iiomes coino os de Pitt, Hus- 
kisson , Robert Peel , etc. 

Pitt, que na leitura assidua de Adao Smith fora buscar a 
coragem rara que mostrou na iuta que emprehendera contra 
OS abuses , e de quern o condc de Adhemar , cmbaixador de 
Fran^^a , escrevia em 1785: « Pitt ousoti entrar no exame de 
lodos OS (janltos illicitos , e de todos os abusos ; fa^a-se idea 
se e oil ndo um homem perdido. » 

Huskisson, (jue, apezar da opposi^ao I'uriosa dos interes- 
sados, fez em 1824 levanlar a prohibicao das sedas estran- 
geiras , e que nao teve medo de atacar o aclo de navegagao 
e as leis dos cereaes, que poderosos preconceilos ainda pro- 
tegiam. 

Robert Peel, que antes quiz romper com o seu partido, 
mudar publicaniente de opiniao , c condemnar-se ao isola- 
menlo para o resto dos sens dias, do que demorar um so 
momento o triumpho de uma idea verdadeira, que por muito 
tempo combatcra, e de que aflnal se tinha convencido. 

Sealgum dia houveactos de desinteresse,sao de certo esles, 
porque todos esses homens teriam pessoaUnente ganho muito 
mais, sustenlando opinioes conlrarias ; mas ao menos na 
Inglaterra iia uma opiniao publica, as ideas economicas fa- 
zem progresses todos os dias , mosmo nas classes populares, 
e (|uando Robert Peel morrcu, a nacao inleira chorou a sua 
iiiorle. 

Em oulros paizes , infelizmente , nao acontece o mesmo ; 
nao so OS economistas excitam a colera e o odio dos parasitas, 
dos privilegiados , mas ainda sao detestados pelos proprios 
•lue deveriam ouvil-os c respeital-os. 

E ate povo que a economia politica devc tudo quanto 
tern ganho de ha cem annos para ca , e que a ella devera 



440 REVISTA BRAZILEIRA. 

ainda tudo quanto gaiihar , chcga a maldizel-a cm sua igno- 
rancia ; gosta mais dos que o lisongeiam e o pcrdeni , do que 
daquelles que o scrvem , illuslrando-o e dirigindo-o para o 
caminho da verdade e dajustica: o povo lembra-se de Ro- 
bespierre , e nem conliece o nomc de Turgot. 

Se as verdades econoniicas fossem sujcilas ao suffragio 
universal, seriam provavelmenle condemnadas por imiiiensa 
maioria, como muitas outras verdades. 

Mas nao importa ; as verdades economicas ate aqui nao 
morreram e nao niorrerao mais ; essencialmente pacificas , 
nada pedcm ellas ao numero e a forca , c lambeni, sirva islo 
de alento aos que poderiam desanimar — o numero e a forga 
nada podem contra ellas. 

(Extrahiclo.) 

M. 0. V. 



ASTRONOMIA 



note sue les observation^^ iihyeiqites de la coutefc 
«1evouvei'te a Oliiitla le 96 fevrier I960. 



Le 20, jour de ladecouverte et le lendemain 27, la comete 
a prcsenle Ic meme aspect. Elle offrait deux ncbulosites dis- 
tinctes, I'unebeaucoup plus grande que Faulrc. La grande 
nebulosite qui entrait la premiere dans le champ de la limette, 
avait une forme allongee sensiblement dans le sens du rayon 
vecteur du soleil. C'etait aussi dece cole qu'elle avait le plus 
d'eclat et elle y presentait vers son extremite un petit point 
lumineux comparable pour rinlensite a une etoile de 8° a 9'^ 
grandeur. La seconde nebulosite paraissaitapeu prescircu- 
laire et employait 4 secondes pour passer , ce qui, vu sa de- 
clinaison, liii clonnait un diametre de 29 a 30 secondes d'arc. 
Cclte seconde nebulosite elait plus faible que la premiere et 
elle suivait celle-ci le 27 a 10'' 25 "' de 27 secondes de temps 
en ascension droite, Sa declinaison sud etait plus petite de 
r 8". La faiblesse de la lumiere de la seconde nebulosite 
surloul rend ces mesures un peu incertaines. Les observa- 
tions etaient tres-dilficiles vu I'impossibilite d'eclairer con- 
vcnablement le champ sans faire disparaitre I'astre. La grande 
nebulosite n'avait ni sa grande , ni sa petite dimension 



442 RE^^STA brazileira. 

dans le sens du niouvemcnt diurne ; ses dimensions n'ont 
done pu elre etudiecs par la duree du passage , mais je les 
ai estimees par comparaison avec la petite nebulosile , savoir 
la petite dimension au double, la grande do C a 8 fois plus 
grande que le dianietre dc la petite nebulosite. L'aspect dc 
lacomele ne changea pas sensiblement jusqu'au 3 mars, 
loutefois la seconde nebulosile surtout me parut diminuer 
beaucoup dintensite. Le 3 all'' 16'" cette seconde nebulo- 
sile suivait la premiere de 23 secondes de lemps en ARcl sa 
declinaison Sud etait plus petite de 46''. Le 6, lalumiere de la 
lune, malgre Tetat favorable du ciel sufiit a empcchcr de rc- 
trouver la comete. 

Le 10 mars, la seconde nebulosile de la comete qui etait 
a peine visible le 3, etail beaucoup plus brillanle qu"a cetle 
derniere date. A 8'' 25'" ellc suivait la premiere de 21 secondes 
de temps en ascension droite el sa declinaison sud etait infe- 
ricurc de 21 secondes d'arc. EUe etait commeprecedcmmcnt 
sensiblement circulairc el employail de 4 a 5 secondes a 
passer, cc qui, vu sa declinaison, lui donnerail un dlamelre 
dc 34 a 42 secondes d'arc. La partie anterieure de cette ne- 
bulosile etait la plus brillanle , mais loutefois , loules ces 
lumiercs etaient faibles. 

La premiere nebulosile etait beaucoup moinsallongee quo 
lors des observations anterieures ; sa largeur depassail cerlai- 
nement le double el atleiguait presf[ue le triple de celle de la 
petite nebulosite. Le point brillant avail disparu. La grande 
longueur etail encore sensiblement dans tare de grand cercle 
passant par le soleil el dans la partie siluee du cote de ccl 
aslre, ily avail une condensation tres-nolable el a peu prcs 
circulairc de la maiierc nebuleuse. Cesl au centre dc cellc 
region condensee qu'onl ele rappoitees les observations. Le 
rapport des deux dimensions de la grande nebulosile etail 
sensiblement celui de 2 a 3. 



COMETA DESCOBERTO EM DLINDA. 443 

Le H mars, la comete aete vue, mais au moment oii je 
m'appretais a determiner sa position, les nuages sont venus 
interrompre les observations. La premiere nebulosite etait 
sensiblement de meme forme et de meme grandeur que la 
veille , mais la condensation de matiere qui s'y remarquait , 
ne presentait plus le meme aspect. Au lieu d'un centre de 
condensation , 11 y en avail deux plus petits places a pen pres 
sur Tarxe de lagrande dimension. La seconde nebulosite pa- 
raissait d'une intensite uniforme sur tout son contour. Elle 
etait beaucoup plus faible que la veille et pea visible. 

Des dessins de Taspect de la comete le 10 et le 11 mars ont 
(independammentdu dessin faitdejaleS? fevrier) cte execu- 
tes par Mr. Ladislau de Souza Mello Netto. lis sont d'une 
exactitude parfaite. Un exemplaire a ete envoye a I'lnstitut 
de France, Tautre est ci-joint. 

Le 12 mars, la grande nebulosite avait encore la meme 
forme que la veille, mais 11 n'y avait plus quun seul centre 
de condensation place a pen pres comme le 10 mars , mais 
plus faible d'intensite et plus grand. Les dimensions angu- 
laires semblaient toutes agrandies. C'est avec beaucoup de 
difficulte qu'on distinguait la seconde nebulosite , et seule- 
ment par instants. 

Le 13 mars , il a ete impossible de voir aucune trace de la 
petite nebulosite. La grande presentait un aspect beaucoup 
plus uniforme. On n'y distinguait plus aucune condensation 
circulaire de matiere nebuleuse, mais une region plus intense, 
decroissant regulierement d'intensite en tous sens. La comete 
etait presque circulaire, presentant encore une petite ellipti- 
cite, mais peu prononcee. Sa lumiere etait tres-faible. En 
doublant Timage avec un prisme birefringent, les deux images 
ainsi obtenues etaient peu visibles. J'ai utilise cette faiblesse 
meme des images pour rcconnaitre la polarisation de la ma- 
niere suivante. .I'ai diminucpar un diapbragme I'ouverture de 



444 REVISTA BRAZILEIRA. 

I'objectif jusqu'a ce que les images fussent tres-difficiles a 
voir et j"ai alors constate en faisant tourner le prisme que 
I'une dcs images seulcment se voyait quand la section prin- 
cipale da prisme etait ou situee dans Tare de grand cercle 
passant par le soleil, ou perpendiculalre a cet arc. Dans le 
premier cas, c'otait Timage extraordinaire, dans le second, 
I'image ordinaire. Cette observation indique une polarisation 
notable dans le plan passant par le soleil, c'est-a-dire, une 
polarisation par refle^iion. La comete iVetait cependant pas 
alors dans les conditions du maximum de polarisation, les- 
quelles doivent avoir lieu quand Tangle entre le soleil et la 
terre vu de la comete est de 90°, car cet angle d'apres les ele- 
ments que j'aicalcules, n'etaitquede 50^ J'ai constate que 
ni Venus, ni Jupiter ne donnaient de polarisation sensible 
dans la region oil se projetait la comete, en remarquant que 
la visibilite des deux images dcs plus petites eloiles dans 
le voisinage de la comete, n'etaitpas modiflee (en separant 
completement les deux champs) par la rotation du cristal. 

Le 43,lavaleur moyenne du diametre de la comete , es- 
time par la duree du passage (19 secondes environ) etait de 
2' 45". Cette estimation est toutefois incertaine et plutot au 
dessous de la vcrite. La lumicre se fondant insensiblemant 
sur les bords. 

DepuislelS mars, la comete na pas etc revue. L'atmos- 
phere s'etanl pendant le voyage de la commission a Taman- 
dare,montrec defavorable les premiers jours, quand les dispo- 
sitions du voyage auraient permis d" observer. Plus tard, la 
puissance limitee des instruments de la commission comme 
pouYoir optique, n'a pas permis de la retrouver. 

Emm. LiAis. 



Sur d'aiicieiis de|ilaeeiiieiits «1e taclies eiir le soleil a 
I'oceasioM de la note de Mr. ^Volf, iiniiriiiiee dans 
le conipte-rendu de',1' Academic dcs Selenees de Pa- 
ris*, en date du S mars tS60. 



Dansle compte rendu dela seance du 5 mars 1860 de 
I'Academie des Sciences est imprimee line note de Mr. Rod. 
Wolf dans laquelle sont rapprochees quelques dates ou ont 
ete observes de grands deplacemenls de taches sur ie soleil. 
Ces dates, dit Fauteur, semblent se rapporter a des passages 
de la planete Lescarbault sur le soleil. 11 les compare de la 
maniere suivante : 

OBSERVATIONS. DIFFERENCES. 

Dangos. . 1798 Janvier 82 jours jours 

Fritsch.. 1802 octobre 10 1725= 82 x 21.037 

Stark.... 1819 octobre 9 6208 = 296 x 20.973 

Stark.... 1820 fevrier 12(1) 126= 6 x 21,000 

Lescarb.. 1859 mars 26 14287 = 680 X 21,010 

L'accord entre la duree des periodes ainsi calculees d'apres 
le intervalles, parait frappant an premier abord, mais il n'en 
sest pas moins ficlif et resultc uniquemcnt de ce que pour 3 
intervalles, les nombres supposes de revolutions sont Ires- 
grands. Or, il est evident que quand les intervalles sont 



(1> Dans le conipte-reiidii il y a une fanlo (rimpression: on a mis 2 fevrier au 
Ilea lie 12 li-vricr. 



446 REVISTA BRAZILEIRA. 

tels que les diviseurs doivent etre tres-grands , en les faisant 
varier arbitrairement d'un nombre convenable d"unites, on 
peat faire que les quolienls different entre eux d'une fraction 
tres-pelite. 

En conduisant le calcul d"une autre maniere , il est facile 
de voir que les observations cilees par Mr. Wolf ne peuvent 
etre des passages de la planete annoncee le2G mars 1859 par 
Mr. Lescarbault. 

En elTet, il y aurait eu, daprosMr. Wolf, pour expliquer 
lesdiverses observations en question, 1064- revolutions entre 
Tobservation de Dangos et celle du Dr. Lescarbaull , et Tin- 
lervalle de ces deux passages serait de 22346 jours ; ce qui 
donnerait 21,00*2 jours pour la duree moyennede la revo- 
lution synodique. 

Remarquons mainlcnant que cette valenr de la revolution 
synodique donncrait entre Tobservation du Dr. Lescarbault et 
celles de Stark et de Fntscli les nombres de jours suivants : 



Xombre >le jours XomLirc it iour« liilrreare 
calrul^. (ibstn*. rilr, — ob*. 



pour I'observ. lUi 12 ftivr. 1820 680 r(«voliU. U281 l/i287 — G 
id. du 9 octb. 1819 G86 id. l/i'i07 I'liia — 6 

id. du 10 oclb. 1802 982 id. 2062/i 20621 + 3 



Comme on Ic voit, les differences avec ce que donnerait la 
revolution moycnne alteignent prcsquele tiers dc la prriode , 
et entre les observations de 1819 — 1820 et celles dc 1802, 
existe la plus grande difference qu on puissc renconti-er, celle 
d'une demi-periodc, car il y a entre elles une difference 
de 9 jours. Loin done qu'il y ait accord de periode cnlro 
ces diverses observations, ily ale plus complcl disaccord. 

II est impossible de recourir ;i une grande exccnlricite de 
Torbilc pour expliquer le disaccord des dates des diverses 
observations cilees par Mr. Wolf, car alors cette excentricrte' 



MANCHAS NO SOL. 447 

devrait etre enorme et inadmissible, d'autant plus qu'une 
grande excenlricite en plagant le perilielie tout pres du soleil 
rendrait les passages tres-frequonts, contraireuient aux ob- 
servations de tous les astronomes qui observent le plus as- 
siduement le soleil. Une grande excenlricite ne pourrait 
d'aillcurs expliipier le menie retard pour deux observations 
distantes de 4 inois , celles de 1819 el 1820, et de plus la 
grande difference de 9 jours enlre les conjoiictions a precise- 
nient lieu pour des observations de la menie epoque de I'annee, 
celles de 1802 et 1819. En outre pour expliquer la rarete 
des passages , il faut admetlre une grande inclinaison , et des 
lors il n aurait pu y avoir a la fois passage le 9 octobre 1849 
et le 12 fevrier suivant. 

J'ai an reste,dans une note precedente,cite mes observations 
qui prouvent que le point noir dont parle le Dr. Lescarbault 
doit etre explique autrement que par un passage de planete, 
sans quoi je Taurais egalenient vu a S. Domingue oii j'obser- 
vais le soleil au meme instant. Mes notes disent regions po- 
laires du soleil tres-unifornm cVintemite, pen de pointille. Je 
cherchais les points a peine visibles et je n'aurais pas vu une 
tache enorme. C'est un fait impossible indepeadamment des 
considerations fondees sur fintensite de la lumiere et sur les 
observations d'eclipses et enparticulier, celle deParanagua, 
considerations qui prouvent quMl n'exisle pas de seniblable 
planete. Mon observation negative ne pent rccevoir aucune 
explication autre que la non-existence de la planete en ques- 
tion , tandis que I'observation affirmalive du Dr. Lescarbault 
pent etre expliquce par une illusion due soil a un phenomene 
subjectif de vision, provenant de la fatigue de I'oeil, soit peut- 
elre meme a un phenomene de refraction on exterieure ou 
interieure a la lunette et qui aurait forme sur I image solaire 
celle d'un point noir en transportant d'un lieu sur un autre 
lieu de limage les rayons venant d'un certain point et qu^ 

«. B. HI. 20 



448 REVISTA BRAZILEIRA. 

alors auraient manque en ce point , phenomene semblable a 
celui qu'on remarque dans les occuUalions d'eloiles par la lune 
ouquelquefoison voitl'etoilcseprojeler surledisque lunaire; 
soit peut kve encore a un passage de bolide on a un phenome- 
ne meteorologique que Tiieure de I'observation d'Orgeres per- 
meltrait egalementde supposer. Je veux. parler de ces bandes 
de nuages noirs que Ton voit souvent quand le soleilest bas, 
couper nettement le disque solaireet qui qiielquefois pre- 
sentent sur leurs bords une nettele tres-grande que n'annule 
pas le grossissement de la lunette. Qiielquefois avec ces bandes 
de nuages, apparaissent des petils points noirs detaches. J'en 
aivu plusieurs exemples donl le plus remarquablea ete note 
dans la bale de Rio de Janeiro le 8 seplembre 1859 , mais le 
phenomene appartient a tons les climats. Ne serait-ce pas 
un ou plusieurs points consecutifs de cette nature qu'auraitvu 
leDr. Lescarbault? S'il areellenientaperQu le point noir en 
question, il est du inoins certain qu'il avait garde du doute 
sur la nature de son observation , puisqu'au lieu de lacom- 
muniquer de suite, il a attendu 9 mois dans Tespoir de 
revoir le meme phenomene , ce ipii indique qu'il n'osait pas 
publier sans verification. Go n'est que quand il a cru voir 
dans la note de Mr. Le Verrieriine probabilite tres-grande pour 
une planete, qu'il s'est hasarde a faire connaitre son obser- 
vation. Au reste, quelle que soit Texplication qu'on veuille ad- 
mettre, il n'y a pas lieu de s'arreter aux details , vu (ju'ils ont 
ete arranges, comme je le fais remarquer dans ma [>remiere 
note, de maniere a presenter une ohservation d'entree sur 
le disque, observation impossible pour un astre inconnu. 

Emm. Liais. 



Snv Aeu%. pliciionieites reninrquables observes daiia 
la Froviiife de Pernaiiibiico , le it avril 1S60* 



Le 11 avril 1860, la commission scientiflque qui s'oc- 
cupait alors dans son voyage de retour de Tamandare, de 
divers travaux iiydrographiques sur la cOte , partit de I'em- 
bouchure dii Rio Formoso , rive gauche, pour celle du Se- 
rinhaem. Pendant le commencement de la route, je m'occupai 
avec Mr. le if" lieutenant Luiz Antonio de Souza Pitanga de 
relever quelques details de la cote pres de I'embouchure du 
Rio Formoso. II etait alors ^'" du soir. Ce travail nous mit en 
retard et nous restames en arriere du reste de la commission, 
avec un cavalier portant notre signal poui' I'emploi de la 
lunette de Rochon. 

Quand la nuit fut tombee , nous accelerames la marche de 
nos chevaux , mais, au bout de quelques instants, nous sen- 
times passer des bouITees d'air brulant qui nous flrent eprouver 
un pen de malaise. En meme temps, nos cUevaux refuserent 
de courir, baletants et epuises. A chaque instant, ils ten- 
daient a tomber et nous fumes obliges de continuer la route 
au pas. 

Nous suivions le rivage de la mer et la brise venait du 
large. EUe etait fraiche et de temps en teinps, toutes les 
minutes environ , on sentait passer pendant quelques se~ 
condes un air soufflant de la meme direction et d'une tem- 
perature briilante. Du cote d'oii soufflait le vent , c'est-a-dire 
dans I'Est-Sud-Est , I'air etait charge de vapeurs epaisses pres 
de rhorizon. Vu leur peu de duree, il eiit ete impossible de 



450 REVISTA BRAZILEIRA. 

mesuier la temperature de ces bouffees d'air, mais la sensa- 
tion n'etait pas seulement celle d'lin air tiede ou cliaud , mais 
celle d'un vent brulant. Cette circonstance pour un vent 
venant immediatement de la mer est tres-remarquable et 
merite d'etre cilee. 

En arrivant a Serinhaem , je sus que les autres membres 
de la commission avaient fait la meme observation que nous. 

Lel6avril, la commission rentra a Olinda. La nous ap- 
primes que le meme jour 11 avril , il avait ete remarque vers 
midi dans les villes de Olinda et du Recife un autre phenomene 
qui pent avoir quelques relations intimes avec le premier. 
Entre H*" 1/2 etmidi, I'eclat du soleil s'afTaiblit notablement. 
L'astre pouvait etre regarde a I'oeil nu pendant quelques 
instants, etautour de lui on voyait, quoique le ciel parut pur, 
une couronne irrisee qui, d'apres la description qui m'en a 
ete donnee, ressemblait a la couronne meteorologique. En 
meme temps, plusieurs personnes du peuple et un des arti- 
ficiers au service de la commission laisse a la garde de la 
station d'Olinda, Joao Baptista Hylario, apergurent a I'ceil 
nu et a Test du soleil une eloile brillante qui , d'apres la 
position indiquee , ne pent etre que la planete Venus. II n'y 
avait de nuages que pres de Ihorizon et le pbenomene n'a 
dure que quelques minutes. 

En apprenantce fait, mon premier soin fut d' examiner 
comment il se faisail que nous n'eussions pas remarque ce 
phenomene a I'embouchuie du Rio-Formoso, et je trouvai 
dans nos notes quapres une sortie fatigante sur la cote, sous 
un soleil ardent et sur le sable brulant, sortie faite pour quel- 
ques triangulations, nous entrames vers IT dans une maison 
on on nous avait offert Thospitalite, aQn de nous reposer en 
attendant un voyage en mer pour quelques sondages , voyage 
pour lequel une embarcation etait commandee pour midi et 
ne Vint qu'a 1 heure, 



DOUS PHENOMENOS OBSERVADOS EM PERNAMBUCO. 451 

Apres cette veriflcation de nos notes, il n'y avait pour la 
commission aucuu motif de rejeter les informations re- 
cueillies, et attestees par un grand nombre de temoins. 

La visibilite de Venus a I'ceil nu, le H avril, est un fait tres- 
remarquable. Eneffet, ce meme jour, cette planete n'elait 
qu'aux 3,5 environ de I'intensite repondant a son maxiinum 
de visibilite a I'oeil nu, et, dans ces circonstances , elle ne 
pent etre vue sans instrument. Depuis le H avril, Teclat a 
augmente, et cependantMM. Pitanga, Januario Candido de 
Oliveira et moi , nous avons constate a la date du 18 et meme 
du 28 avril qu'elle n'etait pas visible. Or, si alors nous n'avons 
pu I'apercevoir meme en la cherchant, il faut admettre une 
forte reduction de la lumiere atmospherique pour qu'elle ait 
frappe des hommes du peuple qui ont vu une belle etoile. 

La diminution de I'eclat solaire le 11 avril ne pent etre 
attribuee a une cause meteorologique , c'est-a-dire , atmos- 
pherique , car alors Venus , loin d'etre plus visible , aurait 
ete moins perceptible encore. Le phenomene vu parait done 
de la nature de ceux qui ont etc remarques en 1 106 , 1 208 , 
1547 et 1706 etque M. Erman a attribues a des passages de 
nuages cosraiques d'asteroides devant le soleil. 

A cet egard, il estdignede reinarquer que les 4 epoqiies 
que je viens de citer, ont ete a 6 mois environ des epoques 
de maximum d'etuiles filantes d'aoutetde novembre. Fareille 
chose a lieu pour le phenomene que nous rapportons , qui 
s'est produit a 6 mois du maximum du 1 1 au 29 octobre. 

On pourra peut-etre savoir si le phenomene dont nous 
parlons, a ete remarque sur une grande surface de terrain 
en longueur et en largeur, et hors de I'Amerique Meridionale. 
Dans ce dernier cas, si le phenomene est du, comme il y a 
lieu de le croire , a un nuage cosmique, ce nuage aurait ete 
tres-eloigne de la terre. Si, au contraire, I'observation est 
plus locale , la relation du phenoaiene avec le fait meteorolo- 



452 REVISTA BRAZILEIRA. 

gique note le meme jour par la commission serait plus visible. 
En effet, la localisation de Tapparence proviendrait de ce 
que le nuage aurait passe assez pres do la terre pour que, 
comme dans les eclipses de soleil, les differences de parallaxe 
aient suffi a projeter en un point le nuage sur le soleil , et en 
d'autres hors de cet astre. Mors quelques uns des corpuscules 
auraient pu renconlrer ralmospliere et y determiner une 
notable perturbation locale. 

Quant a la couronne vue autour du soleil , elle pourrait 
recevoir deux explications : ou bien elle a ete produite par 
diffraction dans le nuage cosmique compose alors de pous- 
siere dime grosseur assez uniforme, ou bien , elle est due a 
un petit refroidissement , lequel aurait determine dans I'at- 
mosphere la formation de globules aqueux , assez pen nom- 
breuxpourne pas allerer sensiblement lalimpidite du ciel , 
mais en quantite sutTisante pour , avec la lumiere solaire 
encore assez vive, donner lieu au phenomene de la couronne 
meteorologique. Quoiquil en soit, la visibilite nelte de cette 
couronne, quon ne pent apercevoir dans les cas ordinaires 
quen attenuant I'intensitc des rayons solaires , est un indice 
de plus de la diminution de I'eclat du soleil et pourrait meme 
permettre d'evaluer numeriquement la perte d'intensile. 

Emm. Liais. 



ASTRONOMIA 



Elements paraboliques de I'orblte de la grande 
Coinete de I960. 

Passage an periheUe=16 juin a C'Sl'" 34', temps moyen 

de Rio de Janeiro. 
Distance perihelie = 0,2896823 

Longitude du noeud ascendant = 84° 27' 3",3/Equino« mojcndu 
Longitude du perihelie = 160° 51' i5",4(p--n--"i»6<' 

Inclinaison = 78° 54' 8",6 

MOUVEMEiNT DIRECT. 



Ces elements ont ete deduits des trois positions norm ales 
suivantes , determinees au theodolite repetiteur. 

Temps nioyen de Rio de Janeiro. Positions apparentes. 

8 juillet644'" 8\3 AR= 9'^47™39\91 ; Z)==19°31' 3",7xV 
13 .iuillet6"50"53',4 4/^=1 0H7" 3^64; D= 2o41'8",5/Y 
17 ,juillet6'■55'^32^9 4/?=ir26'"22',21 ; Z)= 9°24'20"7S 

Les elements qui precedent, sont une seconde approxi- 
mation de I'orbite , les observations ayant ete , a Faide d'une 
premiere approximation , corrigees des effets de la parallaxe 
el de I'aberration de la lumiere. 

Ces elements ne ressemblent a ceux d'aucune autre comete 
connue. (') 

Rio de Janeiro , l^"" aoiit 1860. 

Emm. Liais. 



(*) II restera h I'aide de la totalitc des observations quand elles seront r^u- 
nies, a reconnaiire si celie coinfete n'a pas un mouvement elUptique. 



454 



REVISTA BRAZILEIRA. 



Posl^oee do Coineta de 4 de Julho de l§60. 



DIA 




T. M. 


T. S. 


POSigOES UO COMETA 


ESTRELLASDECOM- 


13 










PARArAO 


ii 
7 


17 3,'7o 


b ui 5 h ni s 

14 49 1.19 4i? =10 49 17,61 

D— '2 11 0,02 .V. 


h ni f 

10 58 52,61 [A) 
1 57 50,02 Af. 


15 


7 


27 37,40 


15 3 33,13 


AR=\i 1 56,61 
D = 51 44,24 S. 


11 8 41,61 (B) 
52 54,24 S. 


16 


7 


15 14,40 


14 55 4,98 


AR =11 16 49,43 
D = 6 21 26,52 S. 


11 18 27,26 (C) 
6 25 26,52 S. 


18 


7 


32 52,32 


15 20 38,59 


>1R=11 35 20,77 
D =11 24 8,84 S. 


11 36 12,39 (D) 
11 21 1,34 5.1 


19 


7 


49 41,80 


15 41 27,39 


/1R=11?43 9,19 
D=l4pl8 36,94 -S'. 


11 43 14,39 (E) 
14 24 58,14 S. 


23 


7 


36 59,97 


15 44 29,70 


ylK=!l2 13 58,25 
D=:22 10 11,14 S. 


12 27 4,25 (F) 
22 37 41,14 S.I 


2Zi 


6 


56 51,11 


15 8 10,80 


AR =12 19 30,24 
D=1lx 1 6,05 S. 


12 27 4,24 (F) 
22 37 41,05 S. 


26 


8 


27 33,68 


16 47 1,39 


Ai?=12 31 34,72 
D=26 58 30.87 6". 


12 27 4,22 (F) 
22 37 40,87 S.\ 


27 


7 


37 4,11 


16 20,06 


/1R=12 36 58,71 
D =28 51 40,78 S. 


12 27 4,21 (F) 

22 37 40,78 S. 

1 


28 


8 


.29 11,21 


16 56 32,29 


AE =12 42 28,70 
D =29 23 40,69 S. 


12 27 4,20 (F) 
22 37 40,69 5. : 



ESTRELLAS DE COMPAKAgAO. 



(!6bel 
Boguslawski 



\ 



Calalogo de Berlin para 1800. 



W 
iB) 
(C) 
(D) 

(E) ) J ' 

(F) ^ Cdrvo 

Imperial Observatorio do Rio de Janeiro, 1 de Agosto de 1860. 

Antonio Manoel.de Metto, director do Observatorio. 



CANTOS EPICOS 



Yplransa 

Detem-te, 6 viajor! — Nao ves o rio 

Que a montanha contorna e alem se perde 

Por entre arbustos sussurrando e rindo ? 

Nao ves o sol abrilhantado e bello 

A descambar no fiilgido horizonte? 

A brisa que respira o odor das flores ? 

As aves que acolher-se aos ninhos cantam ? 

E pastor que o rebanho ao aprisco leva 

Ao som da frauta suspirosa e triste? 

Tu estas no Ypirangal. . . Ah! que nesta hora 

Ainda o echo dos vizinhos monies 

Repete o brado : « Independencia ou morte ! » 

Oh! nesta hora tambem Cabral pairava 
Sobre o Oceano, extatico, enlevado, 
Ante dos Aymores o erguido cume , 
Que dourava tambem em Uiz immensa 
Vaidoso o sol no rubido Occidents ; 



456 REVISTA BRAZILEIRA. 

E da terra, que entao se alevantava 
Como uma flor do seio do Oceano , 
Trazia a brisa sobre as carvas azas 
hymno da brazilia liberdade, 
Que morria p"ra senipre se quebrando 
De encoulro as proas dos bateis soberbos. 

Era sol como agora! Oh! como agora 

A aragem murmurava os seus queixumes 

Enleada nos leques das palmeiras , 

Ou sorrateira ao manaka roubava 

Subtil perfume, que embriaga, encanta, 

E as azas encolhendo docemente 

Se extinguia. No fulgido occidente, 

Rubro como um oceano incendiado , 

sol fluctuando como um globo de ouro , 

Magestoso ao occaso caminhava, 

E a luz dourada que mandava aterra. 

No bello valle projectava a sombra 

Do vulto equestrc que assomando vinha. 

Seguia-o numerosa comiiiva ; 

E elle era bello em seu corcel fogoso , 

Como anjo da guerra em seu cavallo 

De vastas azas com sua brida de ouro , 

Voando sobre o campo da balalha ; 

E seu corcel nitria — sequioso 

Do pouso amigo que adivinha ao longe. 

Pensativo, em si mesmo recolhido, 
Nao falla o cavalleiro, e o silencio 
Pende dos labios dos fieis que o seguem ; 
Dorme tambem nas quebras das montanhas 
echo, que a gloria do porvir uem sonha , 



YPIRANGA. 457. 

Sem saber qiial o brado que da inercia 
viia despertar p'ra todo o sempre. 

Pensativo — e seguindo, elle dizia 

Naquella alma tao grande como o imperio 

Que elle creou depois no novo mundo : 

« — Salve, 6 terra benigna e hospitaleira , 

0' patria de Amador ! (1) Rei qu'um segundo 

Eternisou por seculos e seculos 

Deixando-lhe na fronte magestosa 

brilho da coroa que engeitara , 

Tanto a abnegagao no mundo e rara! 

E qual ten premio foi? Livraste a patria 

De iberos ferros entregando-a aos lusos ! 

Talvez que o sangue tepido , fumante , 

Do martyr (2) , que jorrou as maos de algozes , 

Te coasse na lousa do sepulchro 

E humedecesse teus mirrados ossos ! 

E quando o craneo seu livido e secco , 

Inda ensombrado por melenas negras , 

Rangesse volteando sobre o poste 

Da praga ao bafo da nocturna aragem , 

Quern sabe se o rumor nao te quebrava 

A mudez do sepulchro interrompendo 

teu dormir de morte ? Alem , la nessas 

Terras de diamantes s'ergue altivo 

monnmento (3) que o seu crime lembre, 

E teu nome esquecido a patria deixam ! . . . 

« Negreiros , Camaroes , Rabellos , Dias , 
Jazem sob a poeira em que repousa 
As cinzas de urn traidor (4), cuja coragem 
Contra a patria alenlou estranha guerra ! 



458 REVISTA BRAZILEIRA. 

— Herdeiros de Ca'iioes — brazilios bardos , 
Sobre a terra africana a vida exhalam , 

E tu, 6 Amador, dormes na campa , 

E teu dormir nao e de paz por certo ; 

Mas dorme, e urn dia acordaras de todot 

« — Gigante do poder — em vao tua palria 
Inda no berco seu ergueu seus bragos; 
Negros grilhoes os pulsos Ihe opprimiram ; 

— Escravo — pelejou como homem livre, 

— Infante — batalhou como um gigante , 
Mas tudo Ihe faltou , que nao medrasse ; 
Artes, letras, sciencia e commercio 

Lhe negou a miserrima politica 
Desses tempos de entao, e o Luso ufano 
E avaro das riquezas deste solo 
Trancou os portos seus ao orbe inteiro. 
Fora de Portugal restava — um mundo, 
Porem para o Brazil mais nada havia ! 

€ Ah ! nao foi illusao , quando cansado 
De longo viajar oiivi o brado 
Do gageiro que a terra annunciava ; 
Entao mens olhos absortos viram 
Sobre a plaga da America ditosa 
Resupino gigante (5) , e no seu sonho 
' Pareceu-me dizer com voz tao clara 

Que OS povos todos do Universo o ouviram 
« — Vem com tua palavra despertar-me ; 
« Da-rae esse gladio , tira-me as algemas ; 
« Ah ! ja me cansa esse dormir de pedra ; 
« Dize qu'eu viva , manda que me erga , 
« E mundo todo ficara pequeno 



YPIRANGA. 

Ante gigante arniado de teu gladio ! 
Em troco tu teras immenso imperio, 
Seguro throno , diamantina c;r6a; 
Junto a cruz de Cabral daras aos povos 
Sagradas leis em taboas argentinas ; 
E unida a monarchia a liberdade 
Em sagrado consorcio, a taa estirpe 
Eterna gozara de seu imperio. 
Oh! brilhante futuro ! La nos Andes 
Sobre o seu throno de alabastro e ouro 
Se sentara brazilia liberdade ! 
— Rainha das nagoes — seu justo sceplro 
Nao pesara jamais sobre o universo ; 
Nao ter^ por tributos de outras plagas 
Os sanguentos tropheos de escravos povos ; 
Nao virao os bateis sulcando os mares 
Trazer-lhe as pareas de vend das gentes ! 
Outrasera sua gloria, outra mais bella, 
Digna da human idade. De seu throno 
Ha de a filha t6) sahir que os Lusos livre 
Do rude despotismo. No seu throno 
Se mostrara o rei as musas dado , 
Pio , clemente , justiceiro e grande. (7) 
; Folga, ditosa America! As esquadras 
1 Da brazilia nacao singrando os mares , 
I Soltas as velas aos galernos ventos, 
i Nao irao aviltar nagoes estranhas , 
i Nem deixando OS exercitosasfronteiras, 
« Como longa guerreira caravana . 
« Serpeando nos aridos desertos , 
« Irao a conquistar estranhas terras, 
« Mas farao baquear os falsos thrones 
« De novos Neros , que o teu solo insultem , 



m 



460 REVISTA BRAZILEIRA. 

.< E auri verde pavilhao brazilio 
« Ovante ondulara por toda a parte ! » 
« E caloii-se. Tambem as naiis ja vinham 
Longe cortando as marulhosas ondas, 
E em breve o nao vi mais. Qual visao grata 
Despareceram do gigante as furmas ; 
Desfeito todo em monies e collinas 
Patenteava assim o seu imperio ; 
A brisa me irazia urn como hymno 
Da plaga que meas ollios encantava ; 
Eis ribomba o canhao, eis la risonha 
Abra immensa — do mundo maravilha 
— Prodigio sem igual da natureza — (8) , 
Em seu seio acolheu as naus possaiites (9). 

« Folga genio da America — com o riso 
Da vinganQa nos labios — vendo a estirpe 
De aniigos reis buscar segnro abrigo 
Na terra onde o tinido das cadeias , 
Que OS seus conquistadores Ibe traziam, 
Afugentou a patria Uberdade, 
Deixando escravos os seus tao livres povos. 

« Foi longa a escravidao , porem o dia 
Cbega ja de ser livre ! La estala 
primeiro griUiao do captiveiro ! 
Os portos abrem-se as nagoes do mundo, 
Prospera a agricultura, e o comniercio. 
E a industria e as artes avultando crescem ; 
Renasce a imprensa , brilliarn as sciencias, 
E na brazilia sonorosa lyra 
Preludia seu hymno a independencia. 

if. Vai, saudoso baixel , vai, entra o Tejo 
Que viu a esquadra de Cabral parlindo, 



TPIRANGA. 461 

Ir longinqua buscar um novo imperio , 
Onde a criiz do Senhor abriu seus bragos ; 
Leva rei (10) que de Lysia adorne o throno , 
E eu ficarei na terra americana .... 
No festim das nac^oes — novo conviva — 
Recebe os parabens , Brazil potente ! 
La vence a independencia ! Livre , exulta ! 
Em breve tempo que porvir risonho t 
Rompem canaes a terra ; ferreos trilhos 
Varam a noite das umbrosas selvas ; 
— Gloria da nossa idade — orgulho do homem — 
rapido vapor vencendo o tempo 
As distancias encnrta e estreita os lagos ; 
Surgem cidades e pullulam povos; 
Provincias honlem ja sao hoje imperios ! 
Oh gloria ! Oh meu porvir ! Nao es um sonho ! » 

Pensava assim. Veloz como o relampo 

Junto a elle parou um mensageiro ; 

Rapido salla do fogoso bruto , 

Que nitrindo , co'as maos o chao escarva ; 

E mensageiro se descobre ; beija 

A regia dextra; entrega-lhe amissiva, 

Que vem de longes mares, longes terras, 

Ah! de fadiga o seu corcel arqueja, 

E entre vellos de espuma o freio tasca! 

Parara a comitiva. Toma a carta 

principe , e a percorre e a le de um rasgo I 

Na frenle bella, magestosa e vasta 

Contracgao de pezar Ihe notam todos ; 

Eis subito se anima ; — no seu peito 

Se Ihe dilata o coragao ; — os olhos 

Ac longe os leva — , e a terra se Ihe avulta ' 



462 REVISTA BRAZILEIRA. 

Em extensa campina e serra immensa, 

Que cingem rios que o universe assombram ! 

— Elle ve uni imperio ingente e bello, 

E invicto brada: « Iiidependencia ou morte!. . , 

Que electrico furor ! Que enlhusiasmo 

Inunda as almas de prazer divinol 

Abrasados do santo amor da patria , 

Cheios de brio e ardor os cavalleiros 

As espadas arrancam repel indo 

grito, que soara magesloso, 

Como vagido immense de um gigante 

Que ahi nascia para o orbe. Ainda 

Pela ultima vez o sol luzira . ' 

Sobre as espadas que cruzadasbrilham 

Symbolisando um santo juramento , 

E se abvsmara no borizonle in Undo, 

Deixando o ceo apavonado e liello. 

Tambern a numerosa comitiva , 

Como longa serpente sinuosa , 

A estrada voltejando se sumira, 

Ouvindo sempre o portentoso brado, 

Que de echo em echo revivia ao longe. 

Cahe a sombra da noite. sol ja brilha 
A outros povos como novo astro , 
E amanhaa luzira a um povo livre 
Que sem sabel-o vivira em ferros ! 
Porem o brado relumbando em breve 
Desde a foz do Amazonio a Toz do Praia 
Fara cahir as ultimas algemas. 

— 0' princeza do Sul — , sentada a margem 
Do Tamandatahy (11), — illuslre bergp 



YPIRANGA. 463 

Da lil)erdade , indepeiidcneia e gloria — , 

— Nobre terra de heroes ! — Clti'ia de gozo ,. 
Que OS ares encha derramado em vivas , 

E a te sorrir de amor, rccelie , acala 
Bravo gnerreiro que as tuas portas entra , 
E vem do campo da maior victoria! 
A sua espada nTio goleja sangue, 
Nem retiuio na pugna nial ferida ; 
sen ginete nao calcoii cadaveres . 
odor da gueria respirando em fnmo ; 
A hatalha eustou somente urn brado, 
Cadente brado que o Ypiranga ouvira ! 
Ah! primeira que todas as cidades, 

— 0' fdlia do Brazil — virgem do valle — 
Proclama e c'roa em leus invictos muros 
grande imperador — Pedro Primeiro, 

Seteinbro 7 de 1855. 

J. NORBERTO DE S. S. 



K, B. Ill, 



NOTAS. 



(1) Amador Biieuo da Rib^ii'a , nobre Paulista , que rejeitoii o 
titulo de rei que llie offeroceram os sens eonterraneos. Vid. Madre 
DE Deus , Mernorias historicas da capitania de S. Vicente. 

(2) Tiradeates. Executado no Rio de Janeiro em 21 de Abri! 
de 1792, sua cabeca foi exposta no Gamfo da Forca , era Villa- 
Rica , sobre urn poste , para exempio dos inconfidentes ! 

(3) A easa de Tiradentes em Villa-Rica , hoje cidade de Ouro- 
Preto, foi arrasada, salgado o logar, e levantou-se ahi um monu- 
mento oii padrdo de infamia , que depois um illustre Mineiro , o 
Sr. Jorge Benedicto Ottoni , conseguio que se desmoronasse, 

(4) Calabar. 

(5) gigante que dorme k eatrada do Rio de Janeiro. 

(6) D. Maria II , rainha de Portugal. 



466 



REVISTA RRAZILEIRA 



(7) S. M. I. oSr. D. Pedro II. 



(8) A halii.-i (In Rill dc Janoii'o. 

(9) A esquailrn jiin-tu^-ue/.a tiniMrouxe a familiareal. 



(10) D. .To?io VI. 

(11) A cidrt U' do. S. Pa'do , a qaal Do.n Pelro ponferia o titiilo 
de imperial pui H de Margo de 1 8'23. 



OBRAS DO DIABINHO DA MAO FURADA 



r.Vr.A KSPl^lllO I>F. SF.LS l.\r,AM)S li DlifiENGAMl Hi: SEIS ARlilTHlOS 

I'Al.liSTKA M(M\M F, I'llOFANA 

O.NHE CliRlOsO APRE.NDA I'ARA O HI VEUIIMtMO I'lfJAMLS 

i; I'MtA PASSMEMPK UtrREIOS 

omiA i.m;i»it.v di^ amomo .iosi;i'I1 da silva 

N;i|iir;-il ilu Hin ili' .hiiiriro 

COPIADO ni> MH1G1NAL I'DU lir.II.lGliNCIA D(i sit. MA.NtlliL t)li AKAl lO roRTO-ALEGRE 



A QUEM LER. 

Lcitor curioso , iiestas fahulosas obras do Fradinho da mac 
fiirada tc ott'ercro doscngaiios das suas leiitacoes , c escar- 
iiiciilo das pi'.iias deltas , para fiigires a umas, e temeres ou- 
Uas ; i[w 110 uulrclcniinenlo da jocusidade acharas o provei- 
toso, se prudcnle tc (luizcres inclinar A douliiiia que iiellas 
se to ouvolvc, para qm ache cm ti o mcUior acolhimcnto o 
moral ciitrc o profaiio , como sc disl'arca ; iiue eslao os gostos 
hojc do tao man gostu, que sc inclinam mais ao que damna , 
que ao que aproveila. 

Faze signal da cruz primelro que leias , para que o mau 
luja dc U , e ■<» bom Ic persuada. 

Dc ciuco lolhclos le dou esla bebcragcm ; se te nao soubor 
bein, suspcudc no i>rimeiro a liia direccao, que Ic nao vai 
nisso nada ; calumnia e niiirmura (]uanlo ([uizercs, pois es 
livrc c sci\hor do leu alvediio, (> sao baldadas as desculpas 
com lenta^oes maliciosas. 



468 



REVISTA BMZH-EIHA. 



PROEMIO. 



Estranhos sao os irioios que a IVirUma toma para facilitar 
felicidades aos homens ; clos mais iiobrcs nascimeulos muitas 
vezes OS expoe as dignidadcs supreraas , e dos mats nobres c 
ricos OS precipita para as desgragas incomparaveis. 

Baldadas sao as diligcncias contra esle destine impenclnivcl 
eniysterioso, sem prcjuizo da Uvre vontade; quantos dc- 
meritos com todo o scte-eslrello esUmados eprcferidos! cf- 
fcito monstruoso da fortuna , cujos sumpluosos cdilicios cos- 
lumam fabricar sem alicerces , e por esla razao duram lao 

pouco ! 

Nao e a penetragao deste segredo para liumana cai.acidade, 
mas concernente a nossa historia o principio do priinciro pa- 
ragrapho: como se vera no meio que a fortuna lomou para 
enriquccer urn affligido e pobre soldado. 

Nem senipre se podem escrever historias verdadeiras , po- 
liticas e exemplares: tambem do fabuloso e jocoso se colhe 
muito fructo. por ser salsa para desfastio da donlrina que 
nella se pode envolver aos que se applicam mais a ociosidade 
illicita. que a ligao dos livros espirituaes e graves. 

Dequeservem as fabulas, que os antigos escrevcram . 
mais que de invenliva e assumplo de catholicas inoralidados? 
que nao profana a licao o fabnioso, quando se toma por inotivo 
para inclinar an acerlado : nem reprovar ocio<idades geral- 
menle dos que prcvaricam olTendc os merecimenlos dos que 
seguem dictame da razao, nao sotTrcndo o genio curioso 
ociosidades , por nao mallograr o lempo. 



DIABINHO DA MAO FURADA. 469 



Obrns do DiHl»iuli4» d» iiiao furailn. 

FOLHETO 1. 

Relirou-se uiii suklado ilu iiiilicia do Flandres em tempo 
de Pliilippe 11, cliamado Andre I'eralU, aflliclu c mallralado 
da gueri'a, lau pobi'c cumu suldado, e lau dcsgiacado como 
pobi'e. Dei)ois de eiilrar nesle leiiiu, uiide liavia nascido, c 
caiiiinhava paia Lisbua, [tati'ia comiimm de eslrangciros , 
madrasla de iialuiacs e pruleeluia de veulurusus, comeguu 
de anoitecer-lhe irma legiia de dislaiicia da eidade de Evora, 
em iim sitio unde cstavam iimas casas aberlas e dcsoccupadas 
de genie. Vendo o soldadu eamiidiaiile que anoite amearava 
escuddau, e iiue as uiivcns sem descansar clioviam , se re- 
solveu a [»assar a noilo, como pndesse, em algum aposenlo- 
mais leparadu daijiielle edilicio, eoiitenlaiido-se nelle, para 
sen suslento, com o liniitado provinuMdo du sen ali'orge; e 
coilando com a (;spada i"irnos de umas arvores e vallados , 
que perlo eslavaiu , para acender logo a que se enxugasse e 
reparasse do IVio, so rcrulheu a nm dos a|)Osenlos, que julgou 
por mais accommodado. 

Tirou do allorge luzil c [lederneira, tpie e a mais imporlanle 
alfaia de quem caminlia , acendendo fogo, a cnja daiidade 
vai'rendo com nns ramos parte do aposeiilo,em que se aceom- 
modou , depois de se enxngar ceiou do pobre snslenlo que 
Irazia. 

Ja linha soldado, depois de ceiar, dormido um breve 
somno , (jue seria passada a terga parte da iioitc , quando 
acordando a nm grande cstrondo , que nas viziubas salas se 
I'azia , ap[)licou ao lume algnns ramos , para que com mais 
luz pudesse mellior testemunhar o (jue aquillo era : ouvio 



470 REVISTA BRAZILEIRA. 

que uma voz desenloada c iiicilouha Itic dizia : « Dcspeja , 
atievido soldado , csic aposenlo , se nao queres perecer iiellc , 
derribando-o c desfazendo-o sol»re li. » 

A esta voz altendciido o suldado , viu (jiie, a seu parecer, 
as paredes do ctdjiculo estrerncciam . piognosticando sua 
ruina, e que os traguieiilos das anligas porlas e jaiicllas sc 
rj[uebravam ; mas nem por esse respeito perdeu o animo ; fa- 
zendo das tripas coracao, pelo nao matar primeiro o medo 
que pcrigo (como muitas vezes succede aos desalentados) , 
respondeu a dissonante voz , dizendo : « Se es espirilo Irans- 
migrado desla vida, e iiccessilas dealgutu suffragio nella , eu 
tc requeiro da parte de Deus me digas quem es e o (jue pre- 
tendes , que animo tenlio para le servir, e te promello fazer 
lodo de que necessitaves para leu remedio ; ahida (jue por 
ser um pobre soldado me seja forcoso mendigar para o fazer. 
E se es espirito damnado , nada me da de teus ameacos , ijue 
aqui tenho a cruz da minlia espada, c palavras me eushia n 
sanla fe catholica, que me livrarao de li e de leus poderes ; pois 
nao tens jurisdiccno para execular sem a divina juslira o per- 
mittir ; demais , que se eu aqui te enfado , poucu leiiq)o leras 
essamolestla; pois eja da noite passado tan to csparo, e 
apenas apparecera a luz da resplandecente aurora , (piando 
despeje ; que o rigor da escuridao e lempestade uie nao da- 
logar a obedecer-le logo. Com isto me parece que se eui ti ha 
algum conhecimento da razao , te podes dar por satisfcito c 
haver-me por desculpado de me atrcver a ser leu hospede ; 
que se no campo havia dc perecer a vida csla nolle a chuva e 
ao Irio , mais licito me pareceu fial-a ao abrigo do solitario 
desla casa. » 

Replicou a voz : " Ora ja (luc eslas tao perlinaz em nao 
despejar, lanto chovera aqui , como no campo » ; — e dizendo 
isto, em um breve inslante se destelhou o telhado do apo- 
senlo, e ficou chovendo nelle como ua rua. 



DIABINHO DA MAO FURADA. 471 

soldado veiido-seuaquelle apcrto, nao leve oiilro remedio 
mais quo mcller-sc no caiilo da diamine, c tornandose as 
boas coin o dono da casa (que ale o diabo se obriga dc li- 
sonjas pelo (jiic lem de cngaiiador) , Ihe disse: « Senhor 13ar- 
rabas , Aslaral , Belial, Asinudeii , Levilan on Berzabii , ou 
qiia](iiier oalro i)riiicipe infernal que Vossa JJiabruia seja , 
nao e [jolilica de giandes sujeilos usareni ri gores com os hii- 
niildes. Perd6e Vossa Diabrura Aiolar o solifario desta casa 
com minba assistencia ; e considerando (jue o niedo c o frio 
faz metier o bomem com sen inimigo , ecomo o desta noite 
era lao grande , me obrigou a nao reparar no terror dclla : 
^irva-se Vossa Diabruia de lornar a lelbar a casa , porque me 
repare da cliuva, (|ue em rompendo a Uiz do dia a despejarei 
logo. Conlente-se porcasligodo men erro com os sobresallos 
e moleslias, que me lem dado, que lanto e o demais, como 
de menos ; e se quer que conversemos um pouco, appareca, 
que aiiimo lenlio pai'a isso , e por mais leio que se me rcprc- 
sente, nao me ai)roveilarei das palavras que sei para me livrar 
deSuaDcmoneiicia, nem llie dh-Gi oadc refro , nem o noli- 
llcarei com os exorcismos, que lanto descompoem a Vossa 
l)ial)rin*a. » 

Palavras nao eram dilas, ([uando ja a casa estava oulra vez 
telliada, e o Diabinbo da mao furada em presenca do nosso 
soldado Peralla , em figura de Iradinbo de pcfjuena eslaluru , 
mas de disformes ieicoes, os iiarizes rombos e ascorosos de 
moncos,aboca formidavel com colmilhos dejavali, e os 
pes de bode ; o qual ao sobresaltado Peralla arliculou estas 
palavras : 

' D' animoso soldado, nao sou nenhum desses i)riiicipes 
infernaes (|ue dissesle; sou, sim, commissario geral para 
lontador e provocador das maldades; depois (jue , por so- 
berbos e ingralos , o nosso inelTavel Creador nos des[»enbou 
das celesliaes alluras, uns de nos oulros foram sepullados 



472 llEYISTA BRAZILEIRA. 

nos abysmos inlertiaes , uutros ticauius no m a superticie du 
lerra leiulo iiossa pciia. para inovL'inios as leinpcslados e 
lerreiiiolos, iiuando o poder, quo nos precipiluu, o peiiuittL' 
por casllgo ao niiiudo. Di'sles sou eii iiiu dos inais ptMversos 
e endiabiados do lodos. En t'ui o que invculei o loiiiar. ta- 
baco, para que os honiens perdesscui o senlido e rei^'alo do 
olfaclo, c andasseiii stMnpre (Muiudoados nolle; obem se vc 
que foi inveuliva niiidui soniolliaido vieio. lanlo sem gosto, 
pois nao sotlroni os quo o loiuain qiiando ospirraiii, <juc Ihes 
dlgani Duniinti!>-levum , porquc rcspondoui logo [)ara ovilal-o : 
— Seiilioros, e labaco — , o loni por dolicia uiellel-o eui p6 
polos narizes, e bobendo-o oni fiuiio pola booa , a iuiilaoao 
do Inl'orno. Eu invenlci os sapalos acolliorados coin um palino 
do polivi sua fonpiiidia adianlo oin signal do quo mereco 
quom OS usa. Eu invenloi os robuoos do nieio olbo, por levar 
as inuliieres liberdadossob capadolle; os monbos e as ana- 
goas, OS guarda-inlanlos, ponlios bancozos polo nieio dos 
braoos, e doeolados provocadoros das lascivias. Nao fallo em 
rapainas, sorainl)i(|Uos, cliacoinas, sarabandas e soguidillias 
deshonoslas. ([uo isso sao cousas do nonada para mini. Uns 
me cbamam Diabinlio da inao fm'ada, e onlros Eradinlio, por 
alguns do nns Umuios as niaos lao rotas deiibordadcs, tjue em 
muitas casas ondo andamos lazonios lorvoi o mel, crescev o 
Hzeite,angmonlar-5oosbens, lograrem-so folicidades, e sobro- 
ludo, quando n(»l-o morocom rom ;i boa oompatdda quo nos 
fazom , descoltrimos lh(;souros escondidos aos donos das oasas 
oni que andamos. A eslas me inclinoi para miidia liabilacrio, 
pelos iidolizos donos (]no liveram , e os oxocravois malelicios, 
que nellassocxccularam : daqui tonbo ordem do. Lucifer para 
acudir a lodos os magicose bruxas, quo comnosco lom paclo. 
elliosdar razao do (juc por moio do minlia industria (pio- 
rcm sabor. Dolcrminava I'azor-lc ma bosi>odagom, mas vcndo- 
fe tao animoso e juslilicado, revoguei minba longao (quo alo 



DIABINHO DA MAO FlRATiA. -47 J 

OS diabos, polo ([lie liveinos de alicvidos, rcspeiUunos os su- 
jeilos valorosos); quo nao somos lau leios , couio uos pinlani : 
e ja fol!,'0 dc le ler hospcdado csla node para a passar con- 
versando romligo, por seres lioiiiciii de inestiinavel valor, a 
((uein iiiiuha preseiiea iiao ateiiKirisa , coinu a algiiiis que so 
do iiome della se assomhraiii e arripiaiii ; assiiii nao parliras 
daqiii seni ir aproveilado e Ic fazer grandes bens. " 

llespondeii o l*eralta : >< Agradeco a Tua Diabrura, Sr. 
Diabiiibo da inao furada, a bospedageiii desta node , por ser 
incseiisavel , mas os I'avores , que pronielle, os esciiso ; por- 
<inc, coino Sua Denionencia costuina por o mel pelos beieos 
de seuielhantes proinessas, com (]iie engana os parvos, para 
ilepois se pagar dellas com lanto damno dos (jue Ibe dao cre- 
ddo, nao quero en pralo de ouro em que hei de escarrar 
sangue, e sangue espirilual com risco de minba salvacao -> 

« Ora digo (r(q»Iicon o Diabinbo) que es discndo, pois me 
conheces lao bem : e vcnhub- ((iie a protissfio de nunba nalii- 
reza R a que suppOes ib' eujaiiai' ntm promessas de bens, 
para delles lirar males de ipjcni os rccebe. S('m coiisiderar a 
pensao com ipic ih'os coiicedo : ponpie os ignoraides ciiidam 
qm"' 110 rccclter nao ba engano; mas de mim jxides estar se- 
guro, ipic t\t' li nao (piero naibt iiiais que I'azei'-le hem : por- 
que part^'cc (|uc ouh'ttdemo couKM'u me corloii o embigo. » 
« Naoenfendo respnndeu Peralta;, a mim nao meenganam 
palavras: a vcrdadeira lebcidade nao consiste em lerludo, 
senao cm dcscjar iiada , c Sua Dcmonencia bem sabe que 
ncsic uinmio o lazcr mal e I'azer bem lem igual perigo; por- 
ipie nimca laUa conbadiceno aquem bem, obra, nem (pieni c 
niau tcm boa correspondeneia. Sem[tre oliservei o nao teimar 
com rei, nem superiores, nem com osricos, e muilo menos 
com osdiabos; porquenaoba valor na natureza buraana i)ara 
l>orliar muib), bavendo de medrar pouco. Alguns avisos se 
dao aos superiores, que nao sao fallas do infamado , senao 



474 REVISTA liUAZlLEIUA. 

mentiras do invejoso , o por isso conimuninienle leva o prcinio 
quein uao mcroce. A Sua Deinoneiicia nao pe^o nada inais 
que me deixe socegado passar o lestanle da teinpestiiosa 
noite. » 

« Nao sejas lao descuiifiado da all'eicau nuc le luiiiei (les- 
poiideu Diabinlio) , por que lu iiaq i)areras iugrato ; che- 
gasleaqui pobi'c, c (juero q*ue vas rico ; coiisideia. pai'a uao 
engcitarcs n que te otl'eref^o, o que diz o caslelhano : — huya 
sfi milcKjro , y haija lo d diablo » ; — au que lespoudeu Pc- 
ralla : « Se Vossa Dialtriiia quizer obrar coinigo essa grau- 
deza, scui esperar de mini quequebiaule em nada a obrigaeao 
de liel caUiolico, no acrn mi ikclia Uiutu , qiuuitu scrii mi 
fdazer. » « Ainda (replicou o Diabiuho) nao se pescaiu liulas 
a bragas euxulas. » — Hespondeu Feialla : « Taiidjeui se lo- 
Fuaiu Irutas a bragas enxutas. Os J)ous Pescadores as lomam 
l)reseiiladas ; e presentes ba (juc iiaocuslam a quern osiecebe 
mais ({ue o aceilal os. » — Teimou o Diabinbo : >< Nunca o 
muilo cuslou pouco ; ja le disse uao ijueria que Ic cuslassem 
nada os favores tjue Ic lizesse , porque me i»ago delles no goslo 
que lenbo de I'allar comligo. >■ 

Quereudo a isto responder I'eralla. Ibd iuipediu a \isla 
dc(iuali'o feinininos vullos , (jue com nolavel eslioiubt cn- 
Iravam pela jauella com grandes alaridos, e as gienbas sollas 
e empe(.aidas e negias , as caras disformes , as carnes curlidas, 
e lias grosseiras e loi'|»cs maos umas camleinbas acesas , as 
quaes ajoelbando ao Dialjinbo , Ibe I'allarani na IVm'uki se- 
guinle : 

'< A ti, 6 [(oderos) couiuiissario do principe das leiiebras . 
revereuciamos e icndenios grat^-as; como fidedignas subdilas 
luas, vimos publicar os bcnclicios ipie leums I'eilo, em virliidi^ 
do paclo que comligo lemos celeluado . para (pie o julgues 
por bom acerlo, e nos uao falles <piaudo le invoearmos. » 

t Ku vos agradeco, amigas minbas (respoudeu o Diabinlio). 



DIARINHO T)A MAO FURADA. 47-^ 

esse cuidado e adnr.ieao que mefazeis: assim hem podeis 
rolatar as maravilhns que lendes executado cm virlude do 
favor que vos eoncedo. » — f.evanloa-se uma das bruxas com 
linmilde submissao, o disse ao Diabinho : « Eo , u Lucifero 
Commissario , venbo esia noile de ebupar o sangue a urn me- 
nino , que uao bavia mais que dons dias fora baptisado , e o 
deixei scm vida; » — ao que respondeu o Diabinlio. daudo um 
I'ormidavel i^rilo : « 0' monsfm iudigiio de nieu favor , e do 
liliilo de bnixa , mereceras por lal feilo logo , logo , em corpo 
e ahna le sepubasse nas profiuidas do inferuo, e que nao viras 
mais biz do mundo ! Nao fura mais licilo que anies de se l>ap- 
lisar esse menino Ibe tiraras a vida ; que entao, quando nao 
livera peua, uao gozara a gloria, que perdeu a uossa soberba, 
cuja inveja nos abrasae obriga a |»rorurara perdicao de lodas 
as creaturas , poi'que nao occupem as cadeiras que nos per- 
demos? — A innocences em graga matas, feminino Herodes, 
para i rem gozar da eterna gloria? Nao fora melbor que esse 
innocente vivera ate a idade em quepeccara , para que ti- 
veramos parte nelle , que nao evilar-lhe este perigo com Ihe 
tirar a vida ? » 

« Orandes diligeneias fiz , o indignado commissario (res- 
pondeu a bruxa) , por executar minba maldade antes de se 
baplisar; mas semeando sens pais mostarda pela casa, le- 
vanlando os fi^rrolbos das port.as , e pondo as espadas nuas 
nas entradas deltas, nVa impediram; que nao sei a anti- 
palbia que tern comnosco a virtude destas cousas , que nos 
enconlram com grande violencia nossos intenlos ; se nao e 
tpie procedeu de semelbante etTeito da virlude de alguma re- 
liquia , que ao infante se tinba posto , que sera o mais certo. 
Quanto ao (pie me dizes , que mais justo fOra que vivera 
aquelle innocente ate idade em que peccara, para nelle teres 
parte , contenta-te com a que tivesle pela culpa original que 
lavou baptismo ; pois se vivera poderia ser nm grande santo, 



476 REVISTA BRAZILEIRA. 

alem de Hear por tal capaz de maior !j;loria. que piidera acou- 
tecei'com sen exeniplo rednzir mnitas alnias a Deiis, e tirar-le 
das inaos as prezas dellas ; o soljreltido In tens a culpa da 
minha hydmpisia do san^nie Inunauo. puis le tizesir insaciavel 
sangnesnga delle. » 

Demonio endemouinliado llie disse : « 0' inl'erno abre- 
vado ! (I I'eniiuiuo Heiodes 1 u diabo dos diabos I pois ator- 
nienlas coin o sangne que cbnpas aos innocentes baplisados; 
nao te in'is daqui, o indigna da minba presen^a e de mens 
favores, som o merecido castigo! " — E sem niais nem mais, 
lomando nin [mu dos que l*eialla tinba deibcado para o lume, 
a nioen em pancadas, de sorlc (pie Ibe alcijou nnia perna. 

Admiiado eslava Pernbii , e 1'ura dc sen senlido , de ver 
agnelle especlacnlo , c dc lia\cr genlc liaplisada, que per 
gozar lavores do demonio para sua elerna condemnacao sof- 
fresse tal ignominia! Descjava-se ver dali cem leguas, e mal- 
dizia em sen coiagao a sorle que ali o trouxcra, onde sejul- 
. gava cm lamanbo perigo, vcndo , a sen parcccr, o inferno 
em vida ; se bcm fiava de sen animo e coracao , tpie cncom- 
• mcndando-sc inlcriorincnte a Dens , medianle o sen divino 
favor escaparia de tudo. 

diabo depois quederrcou a brnxacom o referido casligo, 
I! Ibe mandou qnc deniro (b) quiiize dias nao lizcssc signos 
salon^onicos, nem o invocassc, solt pena de Ibe lirar bigo a 
vida,e Ibe anleoipar o inferno, (indo cli;riuuncnlc beberia 
cbnmbo derrelido, pcio sangtie iniiocentc baplisado que cbu- 
para, mandou as conq^anbeiras (pn^ referisscm o que linliam 
fcilo , ao que ellas logo (ibedeccraiii . rclalando laes enormi- 
dadese lorpczas, qnc l»erall,a.por ibe parecerem indignas de 
se cscrcvercm , nao fez dellas mcmoria -. so rcfcMinqnc foram 
taes, f[ue o Oiabinbo Ibes dissc : « Vi( lor ! aniig.is minbas! 
vos oufras sim , que sols merec-cdoras iW mens favores: en 
vos engrandcco por sn|>erlalivas Itnivas : c por.|nt' l.'nbo o 



BIABINHO DA MAO FUR ADA. 477 

liospede que all vedes , eejatarrte, vos podeis reslituir as 
vossas habitacoes. » — Ellas, que ale entMO nao tinham re- 
paradn em Peralla . por allenderem sumente ao Diabinho , e 
PeraUa eslar mnilo qnielo e seni fallar palavra retirado ao 
canto do aposento, lantn que delle Uveram visla , transfor- 
mando-se em gatos negros, saUavam pela janella fora da 
quadra com horrendos manJos. 

Assombrado esl.ava Peralta e sem goUa d<3 sangue, porque 
todo Uie linlia o coiacao , com Icinor do que tiuba vislo , pa- 
recendo-lbc illusao do diabo o que julgava realidadc, quaudo 
desappai'ccidas as bruxas llie disse o Diabinbo : « Que ie 
parece daquellas subdilas minbas? » — Peralla respondeu : 
« ICslou admirado e alloiiilo como IVnii de uiim : dizer que 
baja genie tao brula. lito cega e lao iii;hioual, que couhe- 
cendo-le a l.i, por execular inaldades conlra sens |>roximos , 
e viver qualro (baslicenciosameule a cusla do desprezo com 
que as tralas, comprem um infeiuo , onde biio de pcnar eler- 
namente; o miseria grande , o exccravel maldade ! Eu le 
confesso que vivia enganado ; porque por mais rpie ouvia 
dizer haviam bruxas, e que com leu favor obravam grandes 
maleficios, e para isso te communicavam , m\o me podia 
persuadir que assim fosse, imaginando que naopassava de 
supersticoes de mulheres embusleiras ; mas agora que vi com 
OS mens ollios o conlrario do que Imaginava , so nao foi il- 
lusao do teu engano, fico descnganado, que coraclio sem arle 
nao cuida maldade. " 

" Ouantos desses enganos ba, no mundo (disse o Dia- 
binbo) ; mal sabes quecorre nellc, e ([uantos fazem praga 
de Uinorafos e virtuosos que me estao entregues ! » 

« Con m pan s^ lo c.mnan (respondeu Peralla), que eu Ibes 
nfio Icnbo inveja, e la Ibes vira sen S. Martinbo a tempo que 
arrependimento nao tenba remedio ; que qiiem tempo tern, 
e tempo espera , tempo e que o detno Ibe leva ; mas e nalu- 



47« 



REVISTA BRAZILEIRA. 



rcza humana que com a idade. com a fortuna, com o inte- 
resse , c com paixao se vai mudando . assim como os malo- 
volos com as palavras , viso c lagrimas encol^rcm o que lem no 
coracao : erram com capa de bcm , o com amor jiroprio pcrse- 
vcram e fazem rcpiilacao da viniianra o da cnicldadp. Qiianto 
melhorfora ao siijeilo, que pcrsuadido de l,i engana ao muudo 
com capa de virlude , o nao haver nascido nelle; nem visto 
a liiz do sol , pop se livrar da etcriia condemnacao ! Assim e 
aquelle que nas necessidades e liumilde , e fora dellas arro- 
ganle e desprezador ; o que em si louva e alTecIa , e o que Ihe 
faita; julga-se fino na amizade, mas nao a sabe guardar : 
dcspreza proprio , e ambiciona o alheio; quanto mais al- 
canga , mats deseja ; com bens e accrescentamentos albeios 
se consome e invcja. » 

« Mais pareces pregador , que soldado (disse o Diabinbo) , 
contra o baliifo da lua profissao ;porque os mais dos soldados 
se naosTio diabos, sao as pelles delles na blaspliemia e Hber- 
dade da consciencia , com que execulam sens vicios. " 

« ^] verdade que a vida do soldado e muito Mcenciosa 
(disse Peralla); mas nem por isso deixa de baver muilos li- 
moralos (^ I'eformados : porque os peiigos de que escapam na 
gueira, muilas vezes Ibes fazem emendar a vida . pov nao os 
tomar nelles a morte carregados de maleficios. » 

« Esses sao poucos (respondeu o Diabinbo; ; nao queiras 
l,u ser agora corrector do mundo, e\amina-te ; porque nao es 
tao Paulo (pie nao tenbas cabido em bastantes maleficios : 
nao To digo , porque In o sabes ; c no menlivro de uiemoria 
Icnho loniado assento para tuaaccusaciio. quando for tempo ; 
mas ningucm ve as trancas nos sens olbos , e s6 \(' os ar- 
gueiros allieios. >• 

Disse Peralla : « Confesso que lui mono e soldado , c que 
como lal cabi cm grandes desacerlos (X)ntra a obrigacao de 
catbolico ; mas ja agora arrependido c confessado procuro 



DIABINIIO DA MAO FURADA, 479 

emendar-me de meus erros ; que gato escaldado d'agua fria 
tern medo ; e porque este conhecimento me obriga a apartar- 
me da tua companhia , e a luz da manhaa vem ja rompendo , 
peco-te me des liceiiga , para proseguir meu caminho. » 

« Nao sei que secreta causa (disse o Diabinho) me obriga 
de te fazer bem ; segue-me , e iras aprovcitado , ja que tua 
Ventura assim o pcrmitte. » — E descendo por uma escada 
abaixo, disse a Peralta o seguisse , o que elle fez contra sua 
vontade, e cbfigando a uma agotea, ondc signalando-Ihe o 
Diabinho urn canto della Ihe disse, que cavasse com a sua 
adaga , que com pouco trabalho descobriria uma panella com 
quinhentos cruzados em ouro , que ali deixara enterrados 
certo miseravel , que naquellas casas morava e morrera su- 
bitamenle, havia mais de cem annos. 

Assim fez Peralta, e brevemente descobriu a panella com 
a quantia mais copiosa, que o Diabinho disse accommodasse 
no alforge e se partisse logo, que elle o queria acompanhar 
ate Lisboa, pclo Uvrar de alguns contrastes , que no caminho 
Hie podiam succeder , e manifestar-lhe os enganos do mundo, 

Sentidissimo flcou Peralta da offerta da companhia , e antes 
de boa vontade largara o dinheiro , que ir com o diabo ; e 
assim Ihe disse : « Dcixe-me Vossa Diabrura ir so , porque 
tenho muito medo de sens enganos , e me nao deixara lograr 
uma so bora de descanso ; e se para isso e necessario largar 
a panella de dinheiro , eu o faro de muito boa vontade. ■» — 
Ao que o Diabinho replicou : « Nao sei que secreta causa me 
obriga a respeitar-tc c a fazer-te bem ; e assim te nao hei de 
largar ate te por em porto seguro. » — « Pois ja que assim e 
(respondeu Peralta) , e te resolves a acompanhar-me , ha de 
ser com condigao , que me nao has de impedir as boas obras 
que fizcr. » — Disse o Diabinho : « Disso te dou cu firrae pa- 
lavra. » — E Peralta respondeu : « Vamos em boa hora. » 

Nesla conformidadc partiram da pousada (ou conciliabulo) 

u. B. III. 32 



480 TIF.VISTA RRAZILEIRA. 

Diabiiilio Ja mao fiirada c o famoso Peraltn. Chegatlos quo 
foram a ribeira chamada Enxavrama, viram como naquella 
iioite linhacliovido, niuita agua iade monte a monle; mas 
sem embargo disso , disse o Diabinbo a Peralta que passasse, 
que elle tornaria as costas, e a peenxulo o poria da oiilra 
parte do rio em paz e salvo ; nao consentin l^eraUa, dizendo- 
Ibc : « Vossa Diabriira faz de mun Judas , quer-me mergulhar 
com a panella de dinbeiro: rodcemos um ponco , e vamosa 
ponte, que e o mais seguro e o mais acertado» ; — no que 
com facilidade veio o Diabinbo por ter occasiao de mostrar a 
Peralta que, por mais que se acautelasse dos seus enganos, 
sc nao poderia verlivredellcs, so elle os quizesse executar. 
Caminbaram breve espaco , e pareceu a Peralta que estava na 
ponte ; porque o Diabinbo pbantaslicamente Ufa represcntou 
fingida, e indo passando ao parecer de Peralta pela ponte , no 
meio della desappareceu a supposta macbina , e se via Pe- 
ralta no meio do rio , sustcntado no ar do Diabinbo , o qual 
Ibe disse , que ali veria o pouco que importavam para com 
elle prevengoes e cautelas^ quando quizesse executar nial- 
dades ; porem , que nao desconfiasse mais delle por nao dar 
occasiao a fazer verdadeiros seus receios. 

Assombrado flcou Peralta quando se viu no meio da cor- 
renle impetuosa , pendcndo da vontadc de quern o sostinba ; 
imaginando que para executar a maldade de se afogar na- 
quelle rio , usara o Diabinbo com elle os referidos enganos ; 
fazendo interiormentc naquelle aperto actosde contricao, 
c pedindo soccorro ao Ceo, estevcpor muilas vczcs largando 
alforge com oscruzados que trazia, julgando-os lio falsos 
como dono, portambem ficar mais descmbaracado para 
lutar com as aguas; mas fazendo das Iripas corarao , e da 
necessidade virtude, moslrando que nao Icmia nem devia, 
disse ao diabo que o puzesse em terra ; que dali por dianle 
roconbccia por del amigo. Assim o fez o Diabinbo , e foram 



niAljINIIO M MAO rORADA. 481 

'caminliatido para a cidade de Evora ; Peralla imaginando no 
ineio que liavia tomar para se aparlar dc lao prejudicial coni- 
panhia.e o Diabinho fulminando embelecos para executar 
suas inaldades. 

Chegaram a dita cidade, ondo se apresenlaram em uma 
estalagem a Porta de Aviz ; nella deixou o Diabinho a Peralta, 
dizendo-llie qne descansasse e se regalasse aquelle dia , que 
clleiadaruma volla pela cidade a fazer umas galanterias , 
que a noite se veriam. 

Com isto se despediu Diabinho, e Peralla se recolheu a 
\\m aposento, onde fechando-se tirou do alforge o dinheiro, 
porque se nao podia persuadir que fosse tao favorecido da 
Ventura, que por tao estranho modo Ihe deparasse aquelle 
rcmedio parareparo de tanlas miserias e trabalhos, como na 
milicia tinha padecido. 

Tirado o dinheiro c desenganado com a vista delle , e de 
sua realidade , nao cessava de dar gragas ao Ceo por aquelle 
amparo ; porque como nada se move sem permissao sua , 
ainda que o instrumento daquelle bem fosse o demonio , o 
altribuia a maravilha da Divina Providencia, e assim em agra- 
tlecimento de tal merce, promeltia de fazer todas as boas 
obras quepudesse. 

Depois de Peralta contar o dinheiro Ires ou quatro vezcs, e 
tirar delle o que Ihe pareceu necessario para os gastos do ca- 
minho , pediu linhas e agulha a dona casa ; gastou o restante 
da manhaa em coser os dobroes en Ire os forros do jubao e da 
roupeta. 

Acabadaestaobra pediu dej an tar, e tralou do regalo da 
sua pessoa , como qiiem se achava com dinheiro fresco ; que 
pela vida que professava de soldado nada tinha de miseravel, 
como alguns malditos, que feitos escravos do dinheiro , por 
nao trocarem um tostao se deixam percccr do fome, c jejuam 
sein algum merecimenlo , poupando para outrem o que nlio 



482 r.KVISTA UaAZlLElRA, 

lofrram para si. nnsso Pcralla que era livre desla rele mi- 
seravel, a!em da ulha da hospedaji^ein , mandou assar uma 
boa franga , e com os mais fraginentos do qiieijo , azcitonas e 
bom licurdc pera-mansa fez a razao ; c depois de janlar, como 
tiiiba velado a noilc passada, fecliada a porla do aposcnlo se 
lanrou a dormir. 

Entregues os sen lidos exlciiorcs ao somno , ociosidade da 
alma e esqiiecimenlo dos males , e sollos os iiiteriores . como 
se Ihc nao lirava do seiUido o Diabinlio , Jhe occorreram a es- 
limaliva c phaiUasia imagiiiacoes, ajudadas do vapor do pera- 
mansa, e se llie figiiroii com rcpresenlagoes evidcnles se via 
com clle no inferno. 



FOLIlliTO II, 

Clicgado Peralta com o Diabinho por reprcsenlacocs a 
porta do inferno, viii que urn grande Iropel de gentc vinha 
correndo para elle llie prelerir na enlrada dclla; c admirado 
de ver tao grande alvoroco para tao Irislc liabitacao, pcr- 
giinton ao endiabrado companheiro, que gente era aquella ? 
ao (]nc Ihe rospondeu, que eram unscondemnados poi lui- 
seraveis, queuao souberam na vidaque cousa cradar esmola, 
nem fazer boa obra, nein tao pouco ser senhores do que 
tinham ; os quaes tinham passado a vida em tanla abslinencia, 
que llies represenlava a sua ignorancia que a haviam ler 
menos penosa no inferno ; e por esse respeilo viniiam com 
tanta pressa a to;nar logar, cuidando furtavam bogas ; 7na^ 
alia se lo lUvan de misas. 

.\dmirado ticou Peralta da brulalidade de tal gentc ; c en- 
Irando (a sen [jarecer) pela boca da infernal gruta , o alur- 
diram c assoinhr.ir.vn nluruns horrendos latidos do cao Ccr- 



DIAUIMIO DA MAO FJUAriA. ' 4S.'| 

bero, a quom o Diabinho assobiando socegou , (lizondo que 
erain ainigos. Passaram adiante. Em o priineiro aposcnto viu 
Pcralla muitos homeiis em pe, arrimados a varas do justica , 
e deti'as delles oatros tantos escrovendo en feitos , e imi 
grandc numero de dcinonios espancaiido 03 com vaivjocs lao 
compridos, q(io alcariravam a todos. Os quo tinham as varas 
clamavam palos cscrivaoA, que da parlc d'ol-roi noUficassem 
aquelles pervcrsos malditos para aulos de resistencia; porqiiy 
aqueiles desacatos feilos a minislros ofliciaes reaes, eram 
digncs de iim asperissimo castigo; c nbto persisliatn do con- 
tinuo , e qLiaiito elles inais gritavam , mais l!ics davam , di- 
zondo-ihes: 

Yaras que por ambirnes 
Do inleressc e da cobira 
Mcdiram mal a Juslioa , 
So toriiaram vaiejoos. 

Que genie era aqiiella, pcrgunlou Peraltaa s^ni socio, por- 
quc ab nao so conliccia rci , ncrn roqiic? resnoit(]oii-lbo: quo 
eram ministros, meirinhos e alcaides, e delras delles sous 
escrivaes c porteiros, que haviam sido condL!miiados por 
obrarem mal em sens oflicios, e que por havere.n sido ins- 
Irumenlo da sua condcmnacao po!a ma admiiiislracao da 
justiya, suborna^ao que ne'da tiveram , respe'rtos c einpenhos 
por que a mal usaram , pcilas e iuteresses que receberam por 
proferirem senteiiras iujustas, so usava iiaquellc logar do 
poder e jnrisdiccao infernal, atormcnlando-os com pancadas 
daqnelles varejoes, sem allon(;ao a requerimenlos, aufosoii 
proleslos, noin appellarao ou aggravo , nom outro algum re- 
cnrso superior. 

Em oulra estancia so representaram a Peralla algumas 
pessoas graves sonladas eai iribunai's ascurosos , a quom 



484 " REVISTA BRAZILEIRA. 

muitos espiritos nialignos defiimavam com papeis queimados, 
c abrasando-os com fogo lento , liies diziain : 

interesse e respeito 
A tal pena causa dciain , 
Pois iia vida vos lizcrain 
Fazer do torlo direito. 

E informando-se Peralta do seu Fidus Achates quern eram 
OS defumados, Ihe disse: que cram alguns ministros condem- 
nados por confirmadores do julgado contra o direito e o merc- 
cimento dos autos, movidos por paixues , pcilas ou respeitos, 
ou tambem de sua ma tengao, de que do tudo procedem as 
fumacas, com que osolTendiam, que significavam os maos 
feitos delles ; o que nao succede aos bons, bem tencionados, 
porque em todos os estados ha maos e bons. 

Em outra parte viu Peralta outros com alguma autoridade, 
e ao redor delles muitos demonios atordoando-lhes os ouvidos 
com disformesbuzinas, dizendo-lbes de quando em quando 
seguinte quarteto : 

Ouvidos, que ouvir na vida 
Nlio quizcram pretendentes, 
No inferno as tristes buzinas 
Ouvirao elcrnamente. 

Pcrguntando Peralta a seu familiar, qucm cram aquelles? 
respondeu , que cram ministros occullos das paries , que fc- 
chavam as portas e cerravam os ouvidos, fazendo dos plei- 
teantes aves baldias ; as cbancellarias sao a era onde se puc 
cebo para enganal-os ; o juiz a rede , c os advogados c mi- 
nistros OS cagadores ; c por ma'l obrarem cararani os tor- 
mcnlos que eslao padccendo. 



DIABINHO UA MAO FURAUA. 485 

Admirado eslava Peralta de ver taes espectaciilos , e nao se 
podia persuadir que fossem verdadeiros , senao outra illusao 
phantastica,semelhante a da fingidaponte; porque se Ihe nao 
accommodava a boa razao que houvesse sujeitos de juizo e 
catholicos romanos taes que com conliecimento do bem e mal, 
dessem occasiao a commetlerem laes aggravos a Deus, que 
OS sujeitou aquellas penas infernaes, sem remedio , quando 
no mesmo dislricto se Ihe representaram oulras figuras fo- 
Iheando grandcs livros , os quaes Ihe arrebatavam da mao 
alguns demonios , e com elles Hies davam muUas pancadas , 
dizendo-lhesde quando em quando os epigrannnasseguintes: 

• Folheai sem descansar 
Os textos com desprazeres , 
Pois vossos maos procederes 
Vos fizeram condemnar, 

Padecei a infernal ira , 
Pois fazieis com maldade 
Ou da menlira verdade, 
Ou da verdade menlira. 

Pergunlou Peralla ao Diabinlio companheiro , qucm cram 
aquelles? respondeu-lhe que eram advogados constituidos 
em trapa^as , onzenas e alTectaroes, que por terem das paries 
inleresses e dadivas com esporlulas inais excessivas ao mere- 
cimenlo de sen Irabalho, fulminavam requerimenlos chimc- 
ricos, sem fundamcnlo de razao ou jusliga, afun de alropellar 
c inquielar socego justo , limitando as leis, dirigindo-as 
com diversos scnlidos, Irazendo auloridades e lingindo-as 
apparenlcs ao caso ; inculcando-sc por discrelos , doulos e 
verdadeiros, sendo cnlranhavclmenle enganadores, vaos e 
menlirosos, e por isso eram com os mesmos livros cspancados 
do3 demonios c condciimados a ctcrnas penas. 



486 REVISTA BBAZILlilRA. 

A esles se seguia oulro conclave de genie muilo esfarra- 
pada, rota e inal vestida; uns niuito pensalivos e cuidadosos, 
outfos mordendo nas unhas, e outros dando palmadas na 
lesta, fazendo acgoes coino doudos, e juntos a clles alguns 
demonios, dizendo-lhes os segaintcs quarletos : 

Prodigos, que dispendendo 
Tanto euro, e tanta prata, 
Tantos nibins c diamantes , 
Tantas perolas e csineraldas, 
Encarcccndo bellezas , 
Que se liao de tornar em nada , 
Apcnas no fim da vida 
Tivesles uma mortalha! 

Informando-se Peralta do companheiro das maos rotas, que 
genie era aquella? Ihe respondeu que cram poelas, que se 
condemnaram per dareni cpilheto as bellezas humanas , cha- 
mando-lhesdivinas, angelicas, idolatradas e sobcranas , com 
outras semclhanles loucuras , que por mais que se quizcram 
desculpar dizendo , que cram ornalo e exaltacao da poesia 
as hyperboles daquellas lisonjas , llies nao foi aceita a dcs- 
carga. 

Aquclles que ali ves pensativos estao dcsatinados, buscando 
conccitos no cntcndimento para um ccrtame poetico , que 
Plutao ordenou sobre o roubo que fez de Proserpina ; c os que 
ves batendo na testa c mordendo as unlias, estao buscando 
conceitos para os versos que tern ja comccados; e o premio 
que por elles liao de recebcr sao os lormenlos dobrados que 
padecem , pois nao sei que anlipalhia tern a forluna com a 
pobreza, que tJo pouco favorecida c della no mundo, sendo 
lao applaudida nelle; ncm que implicancia lem a poesia com 
a pobreza c niiscria , que nao bouvc professor scu, por mais 



DIAUIN'IIO UA MAO FJilADA, 487 

insignc que fosse, que nao acabasse infeliz e miseravcl; por 
isso esta naquelle canto Ovidio, acoutando-o scu pai por fazer 
Tersos, e elle promettendo em verso de se emendar; porque 
e tal a doenga da poesia , que por mais que procurer os 
genios, que a professam , deixa!-a, se nao podeni livrar 
della. 

Nao tinha o Diabinlio acabado as referidas razoe?, quando 
Peralta olhou c viu muitos cavalleiros vcstidos de capa o 
volta , sem espadas , com anneis de bispo , e luvas fecliadas 
nas maos, vireni fugindo de grande muUidao de genlc, que 
OS seguia, dizendolhes : « Esperai, infamcs macOes, verdugos 
da morle, que vos aqiii pagareis as erradas medicinas , que 
nos applicastes, sem maisconhecimento, ourazao dasqueixas 
que aqucllas que voluntariamente arbilrava o vosso asnatico^ 
entender , sem cessardes , com o sangue das velas de nossos- 
corpos , nem com as beberagens das boticas sem serem coa- 
dunadas as queixas ; nem de leites, frangos, ajudas, e ultima- 
mente se nao morremos de garrote , banhos e fora da terra ; 
extorquindo-nos o cabedal tanto do corpo, como da fazenda ; 
e peior foi , estaiido nos morrendo , dizerdes escapavamos 
da morte, niolivo por que nos descuidamos da nossa salvacao ; 
pelo que vos, malditos, fostes o instrumento de virmos aqui 
com este epigram ma : 

E assim com razao pagais 
Com pena o rigor tao forte , 
Seres na vida da morte 
Gadan'ias universacs. » 

Seguiram tambem a eslcs carnicciros da gcntc humana dous 
lumullos de gente, uns tirando-llies com redomas, alinofarizes- 
c espalulas , c oulros com malvas , violas c jogos do tabulas^ 
dizcndo-lhcs os primciros : « Aqui , falsos dalenos , nos lia- 



488 REVISTA BIUZILEIKA, 

vemos de vingar de serdes a causa da nossa perdigao com a 
prodigalidade de vossos recipes , sendo igualmente interes- 
sados com os boticarios ; » — os segundos clamavam, arguin- 
do-lhes a culpa das innumeraveis execucoes das sangrias e 
sarjas. 

Nao ignorou Pcralla que os cavalleiros eram medicos, e os 
das redomas e guitarrinlias boticarios e barbeiros ; por isso 
nao pergunlou ao Diabinho quern eram , atlendendo so a ver 
em que parava aquella revolla , que foi o cliegarcm todos aos 
doutores , e depois de os derribarcm das beslas abaixo , e os 
arrastarem largo espa^o , os boticarios llies dcram ascorosas 
beberagens, e os barbeiros muitas sangrias com lancctas 
abrasadas em fogo. 

Occupado estava Peralta na rcpresentacao deste objocto , 
quando adverliu delle, outro, do um grande Iropel de genlc, 
uns com sovelas e tesouras nas maos, fazendo uma barafunda 
de todos OS diabos, e a causa da sua ditTerenga era sobrc 
quaes foram na vida maiores mentirosos ; e como os das so- 
velas eram sapateiros e os das tesouras aUaiales , nao sc re- 
solveu; alguns demonios os acompanhavam a delerminar a 
questao , dizendo-Uies : 

Destes por ser singular 
mentir por seu prazer , 
Podemos nus aprender 
A mentir e a cnganar. 

Logo nas costas dcsles viu PeraUa que vinliam oulros 
muitos , c atras delles oulros lantos demonios, que os traziaui 
de raslos a lancar em um lag© de agua sordida , fedorenia o 
turva . para que bebessem nelle a que linham Jancado nos 
vinlios, que venderam por screm tavernciros ; elles gritavam 
que OS nao lancassem , (pic nau mereciam lao graudc caslign 



DIABINHO DA MAO FURADA. 481) 

poi' baptisarem o vinho , c o fazerem christao : os demonios , 
em paga de uma lao boa obra , como era o serem missionaries 
baptisantcs , Ihes diziam : 

Recebei nesta eternidade , 
VeUiacos dc inCame ser , 
Dcssa agua mais quantidade , 
Que aqui fizestes beber 
Aos homens contra vonladc. 

Eslava Peralta admirado, considerando como se pagavam 
no inferno as maldadcs , que se faziam no mundo , quando 
viu saUir de uma sala , ou gabinete , muitas mulberes enfei- 
tadas e besuntadas , olbando para os peitos se os levavam 
altos e bem puxados, c para os pes se brilhavam , e as meias 
se appareciain , fazendo-se escoadas da barriga , e botando 
cii para tras , intluindo mais gravidade , e circumdando-sc 
todas, se foram chegando paraasoutras, que jala estavam, 
e mandando-as retirar para tomarem melbor logar, nao Ibes 
quizeram as outras obedecer , supposto estavam mais des- 
preziveis ; e sobre o — tire-se para la , e — va para acolu , e 
— nao quero , c — olhe para ella — , houve tal tumulto no 
inferno , que nem os diabos paravam ; engadelbaram-se umas 
nas outras , e tudo ardia em tanto fogo e alarido , quo 
atroavam os infernos ; alguns demonios Ihes diziam : 

Porquc nao ardem galantcs 
Nesta infernal officina , 
A todas as circumslanles 
Manda queimar Proserpina 
Os monhos c guorda-infantes. 

Sori;indo-se Pcralla du ver suiiicllianlc barafuuda , pci'- 



iOO RliVlSTA IJUAZILKIRA. 

puntou a sen Diabiiiho, qiiem eram as dnas ninlheres, que 
vira como senhoras mandar qiieimar as onl.ras os monhos e 
gnarda-lnfantes? — rcspondeu-lhc o Diahiiilio que emrn En- 
ridice c Proserpina, que os poelas lingiram scr roiibadas do 
principe infernal, — « e foi fa!so testemunho que liie levan- 
taram, que ale os dcmonios no inferno mo eslao livres delles; 
e a verdade e que ellas pelassnas obras e por seus pes vieram 
ca, que ninguem as foi buscar, » 

Nao bem linba o Diabinho acabado de referir estas palavras, 
quando Peralta em ontra parte via muitas pessoas cobertas de 
asperos cilicios, macilenlas e fracas , a.joe!hadas dofronic do 
um demonio , que cstava sentado sobre um tbrono do fogo , 
que ardia sem dar luz, e coroado de negro funio. Assombrado 
Peralta de talvisao, perguntou a seu familiar infernal que 
gente era aquella ? — elle Ibe responden : que eram martyres 
do Diabo, que na vida chamavam bypocritas, que com as 
contas na mao fingia-n que rezavam , e com a juelles cilicios 
c outras penilencias se mostravam virtuosos, para os lerem 
por bons, scndo os mais pervjrsos e depravados delles, por 
cjjo respeito tinham no inferno as insignias com que o gran- 
gearam , podendo ser inslrumento da sua salvarao , e que o 
principe a quern adoravam era o grandc Lucifer, o qual Ihes 
dizia : 

Casliga-te men poder, 
Sem ninguem poder livrar-le; 
Pois tc quizeste perder , 
Ninguem podera salvar le. 

Em outra pnrte se represenlaram a Peralta muilosliomens 
cm grandes porHas com compassos, quadranles c esplieras 
lias maos , cujas insignias os manifestavam por astrologos : 
nns defendiam que nao bavia inais que o ceo einpyreo, c que 



DIAHINilO DA MAO FJUADA. 491 

no corivexo dcllc eslavam as cstrellas c mais corpos celestes ; 
oiilros iiegavarii a esphera do fogo ; outros conlradiziam esta 
opiniao; e sobrc isto havia taes grilarias, que o mesmo in- 
ferno se assonibrava de os oiivir ; sobre cujas porfias se vic- 
ram a descoinpor de inanelra que se liravam uns aos oulros 
coin OS globos celestes e terrcslres espheras , astrolabios , 
bussolas, dioptras, cylindros , compassos e pantoaietros . 
fazendo tal revolta, que urn diabo que os acompanhava Hies 
disse : « Maldita gente , quern te mette a querer testemnnhar 
do que nao viste, e a trochemoche dizer taes disparates ? Que 
astrologia, on que sciencia foi a tua , pois te nao sabes livrar 
de vir argumentar sobre ella nesle logar e abysmo ? Por vida 
do Sr. Lucifer , que se mais alguem falla palavra , que hei de 
tapar a boca a cada urn com seu demonio , que o martyrise ; 
deixem estar o cei, as estrcllas, o sol e a lua em suas es- 
plieras, e nao se mcttam no que nao sabem, nem deste abysmo 
se pude considerar. » — Calaram-se todos , e o demonio pro- 
seguiu, dizendo : 

A astrologia divina , 
De que todos sois indignos , 
De entendimcntos divinos 
SJmentc pode ser digna. 

Em oulra parte appareceram grande numero de mancebos, 
csmeradas em todo o asseio , vestidos a moda, com calcas 
justas, meias de glovia, sapatos acoUierados com sua for- 
quinlia e saltos de palmo, as cabclleiras bem talliadas e muito 
polvilliadas , dando muitas vezes a cabega por ver se desco- 
briam jancllas , e ncllas alguma dama para cxercitarem os vis 
e escandalosos rompanlcs de que usam , e ainda nos temples 
com mais devassidao e tolcima, ludibriando do divino culto, 
c nellc com muilos risos c escarncos , fazendo mais capriclio 



402 



IlEVI.^TA nUAZII.EmA. 



(la vaidade e namoro que da ovariio : dclras desles cslavam 
rnuitos demonios entaiTuscando-lhes os veslidjs , c sujando- 
Ihes as ineias e sapatos , pondo-llies logo as cabellciras , c 
nicltondo-lhcs tiroes pelos narizes , com qnc desalinavam , c 
faziani notaveis clamorcs e gritarias , rogaado aos demonios 
quo antes Hies Qzessem outros males, que snjar-lhes os ves- 
lidos , porque na limpeza dellcs estava o remedio do sens cn- 
ganos; mas elles nao cessaram so com este maleficio , porque 
depois de os cnnodarem, Ihes enlraram com tcsouras ar- 
denles a tirar as giiedclhas , c qiieimar as bigodeiras , com 
que elles faziam tacs extremos de senllmento, que pareciam 
doudos ; c 03 demonios Ihes davam vaias , dizcndo csle epi- 



gram ma : 



Yossa perversa maldade 
Aqui d"onde parar veio 
Fez a limpeza e asseio 
Convertcr-se cm sugidade. 



Pcrguntou Peralta ao sen interprele de mao furada, que 
gente era aquella? respondeu-lhe que cram puloes, que sem 
cira nem beira ostenlavam aquella limpeza ; porque com ella 
passavam praga do que nao cram , e enganavam o mundo ; e 
que em pena disto se Ihes fazia o refcrido , que elles senliam 
mais que oulro qualqucr tormento. 

Nao linha acabado bem Peralta dc se admirar desta repre- 
scntagao, quando por onlra parte viu que vinham correndo 
muitas pcssoas vestidas de comprido , com barrcles e bada- 
mecos, e com elles outros tantos demonios, dizendo-lhcs : 
« Vao-se com lodos os de cavallo de nosso inferno a ser de- 
monios do mundo , como cram , que nao queremos ca tal 
gente nolle; porque so nao levantem com nosso imperio,e 
usem de sous embuslcs c Iravessuras : » — c sobrc nao ha- 



DIABlXllO DA MAO FUIUDA. 403 

vcmosde tr, sim havemos deir, foi grande revoUa. Aqni 
acudiu Diabinho, e porquc via eram estadantes, os expulsou, 
dizendo: «apaz, a paz , cavalleiros , amigossomos todos ; 
estes seiihores foram ineus companheiros em execatarem mal- 
dades; Vossas Diabruras mc hfio dc fazer mcrce do Ihcs dar 
gasalhado , pois tantas diligeiicias fizeram na vida pelo me- 
recer; » — dizendo-lhes cste satyrico epigramma : 

Sao de maneira endiabrados 
Os estiidantcs bragantes , 
Que d'onde eslao estudantes 
Sao demonios escusados. 



Comtudo foram admittidos por intcrcessao do interlocutor 
infernal , o Fradinho da mFio furada ; c por isso se disse que 
ale no inferno era bom ter um amigo. 

Enlevado estava Peralta na ditarepresentaQao, quando por 
uma infernal rua viu passar grande numero de coches e li- 
teiras, do que admirado disse ao Diabinho : « El possivel que 
lambem no inferno se ande em coches e liteiras ? » — Disse- 
Ihe Diabinho : « Daquillo ha infinito numero » ; — porque 
nelles e nellas penaram aquelles a quern os coches e liteiras 
haviam trazido ao inferno com innumeraveis malericios» ; — 
ao que Peralta replicou, dizendo : « Como podiam os coches 
e liteiras ser causas da sua condemnacao , se ella pendia dos 
sens insultos e maosprocedimentos? » — Respondeu o Dia- 
binho: « Pois elles e ellas os originaram ; porque em se vendo 
em coche ou liteira, qualquer daquelles vao soberbos des- 
prezando a humildade , imaginando se sobre as estrellas, 
cuidando que na carruagem caminham para o ceo, vanglo- 
riando-se daquella ostcntacao , c por Ihes nao faltar para ella 
preciso deixam dc favoreccr os pobrcs , c de pagar o alheio ; 



494 lU'VISTA RRAZlLEinA. 

c por isso digo hem , que nos coclies e liteiras pcnam no in- 
ferno. » A islo rcplicou Peralta, tlizendo : « Sao pragas tuas; 
porque muitos iiJalgos e gramles scnliores conbcci eu em 
carruagens, coclies e liteiras muito caritativos, bcnignos e 
ajiistados com a razao. » — « Nao nego, disse o Diabinho , 
que lia bons c maos ; c os que inerecem o nome do bons sao 
aquclles cujas obras se conformam com a antiga nobreza de 
sen sangus ; porem aquelles que entram no noviciado da li- 
dalguia, cuidam que na inchagao e soberba consisle a sua 
conservagao e respeito. Todos se perdem sem que minbas 
lenUiQoesos obrigucm. ^ A islo ia Peralta para responder, 
quando viu que muitos demonios que seguiam as ditas car- 
ruagens, vinham gritando aos cocheiros : « Para, para » , -- 
e elles fazendo-se moucos as diabolicas vozes , se detinham 
de outros demonios , que Ihes sahiam diante : foi forgoso 
obedecer-lbes, e parados que foram , disseram os demonios 
aos encocbados e liteirados : « Vossas merces, senbores ga- 
lantes, cuidam que neslas carruagens vem passear no in- 
ferno ? pois estao enganados; apeiem-se logo , que Ihes que- 
remos dar os tormentos que raerecem ; » — ao que liies 
responderam que aquelle termo era muito descortcz, e in- 
digno de suas qualidades, que se fossem embora, que elles 
nao se haviam de apear ; e nisto bouve uma revolta lao in- 
fernal, que indignados osdiabos puzeram fogo aoscocbes e 
liteiras, cm que se abrasaram os que vinbam denlro, sem que 
para isso fosse baslanle os laslimosos gemidos c horrivcis sus- 
pires, com que dentro rcpctiam estcs dous resentidos quar- 
tetos : 

Eslcs cocbes c liteiras 
Dcram comnosco alravcs ; 
Porque as vanglorias do mundo 
Nisso scnipre a parar vem. 



DIABINHO DA MAO FURADA. ^405 

0' queni a nascer tornara 
De novo agora outra vez , 
Para que viver soubera , 
Como havia de viver, 

Nao acabou bem Peralta de se admirar desta representa^ao, 
quando em outra parte viu muitos homens agarrados a grades 
de fogo ardente, e outros tantos demonios dando-lhes rigo- 
rosissimos tormentos, de que os atormentados se queixavam 
com lastimosos e horrertdos alaridos , a que os demonios Ihes 
respondiam juutamente : « Padecei , velhacos , ociosos , las- 
civos ; pois tendo na vida tantas mulheres com liberdade para 
vossos gostos, inquietaveis em suas clausuras as religiosas 
dedicadas para esposas do ineffavel Creador , tao cioso da 
pureza, como poderoso para o castigo de semelhante sacri- 
legio; » e depois deste vexarae, Ihes comegaram todos a dar 
vaias, dizendo-lhes : 

Mentecaptos e ignorantes , 
Que fabricais de amor cegos 
Edificios de esperangas 
Sobre alicerces de vento. 

Que pretendeis de mulheres 
Detras de grade de ferro 
Com esposo tao cioso 
E com poder tao immense. 

Sem temer quern pode tudo 
Como brutos , mais que nescios 
Navegais com vento em popa 
Na vida para os infernos. 
R. B. in. * 33 



496 REVISTA BRAZILEIRA. 

Tantalos de vossas glorias 
Sois pois dellas os desejos , 
Tendo-as a vista dos olhos 
Lograis so com o pensamento : 

Que loda a mullier queria , 
Por isso disse urn discreto: 
Mas que a freira e a pintada 
Aborrecia em exiremo. 

Estas lelras vos contamos 
Nao para vos dar conseiho ; 
Mas para vos dar vexames 
De mentecaptos e nescios. 

Acabada a inusica , desalaram os demonios das grades 
aquelles affligidos e os levaram de rastos a lancar em ardenles 
fornalhas , onde se abrasavam ; de que eompadecido Peralla 
contemplava quao aiTiscado dcsaccrto era na vida desin- 
quietar as religiosas dedicadas a Deus , c quao dignos do cas- 
figo que se Ihes dava. 

Nesta coiisidera^ao eslava , quando desapparecida aquella 
visao , viu em oulra parte muilos demouios, os quaes estavam 
fazendo pellas de velhas setenlouas, muilo' aulorisadas com 
seus capellos, inculcando virfiides, que davam rigorosos re- 
chacos de uns para os oulros, com pellas de ferro ardenles 
as faziam em pedacos, e ellas com liorrendas vozes grilavam 
que nao era aquelle o gasalliado que (^-speravam no inferno 
em premio de serem na vida almoeda de lanlas virgindades, 
profanidades de lanlas virludes , e recolliimenlos e motivo de 
tanlos adulterios, e assim reqiieriam as levassem perante o 
Sr. Lucifer , para Ihe pedirem juslica, o que clle estava obri- 
gado a fazer como absoluto senhor e rei do infernal imperio ; 



DIABINHO DA MAO FURADA. 497 

OS demonios Ihes respondiam : « Que justiga se vos pode fazer, 
infames , mais que o que padeceis , que e so o que mereceis ; 
pois OS servigos que allegais ao Sr. Lucifer nao foi pelo obri- 
gardes a elle , senao por vossos particulares interesses , co- 
mendo e regalando-vos com o dinheiro que vos davam pelas 
alcovitices que fazieis ; e assim vos nao deve nenhuma re- 
muneraQao , pelo que justamente se voS da o castigo , que 
padeceis por vossas maldades , e por serdes a causa de todas 
as que fizestes pcccar com vossas persuasoes e enganos, que 
tambem carregam sobre vos; e assim tapai asbocas, e sede 
nossaspellas; » — com que comegaram de novo a pellotal-as, 
e ellas gritavam dizendo este quarteto : 

Penamos, por que de gostos 
Alheios fomos terceiras ; 
Que as pagas que da o mundo 
Sao todas desta maneira. 

Desapparecida esta visao , se representou a Peralta logo 
outra de muitos homens com crueis mordagas na boca , de 
ferro abrasado ; e perguntando a seu companheiro que gente 
era aquella ? elle Ihe respondeu : que eram barqueiros , al- 
mocreves, carreteiros, carniceiros, e os que por dinheiro 
juravam falso; que a todos por blasphemadores e por perjures 
mal tencionados se Ihes dava a pena daquellas mordagas. 

A esta se seguia logo outra representagao de grande nu- 
mero de homens e mulheres , espedagando-se com grandes 
alaridos e gritarias ; perguntando Peralta aoDiabinho, que 
gente era aquella? Ihe disse; que eram os mal casados entre 
OS quaes havia diversidades de genios , de que procediam 
muitas discordias , e taes que raras vezes se conformavam ; 
ellas pelos profanos trajes e appetites de suas pessoas , com 
que vexavam os maridos, obrigando-os a excessivas despezas. 



^498 REVISTA BRAZILEIRA. 

com que as suas possibilidades se nao atreviam , occasionan- 
do-lhes com esta dcsovdem amofinacoes r cmpenhos dc tal 
sorte que passavam a vida desgoslosamenle em conlinuos 
dissabores , pragas e motins tamhem molivados das suas per- 
versas condigoes , alem dos particulares desgovernos de suas 
casas; elles por faltarem as ohvigac-oes de seus estados, e 
terem grande descuido em suas casas , mulhcres e fdhos, sem 
a contribui^ao do preciso frato , doutrina e sustento, conformc 
suas posses e intclligcucia , e de nao reprimircm prudentc- 
raente os desordenados luxos e appetites pvofanos de suas 
fauiilias , instruindo-as em bnns costumes , e tementes ao Al- 
tissimo com seu exemplo e applicacao , resuUando do con- 
trario muitas desordens, c finalmento vircm a padecer no 
inferno os referidos lormentos ; e assim cslavam em porfias 
ellas dizendo : "Voce nao mo dava o ([ue lliepedia, nem 
obedecia aos meus prcceitos . e menos se conformava com a 
minha vontadc ; »— elles dizende: « E voce com as suas per- 
seguicoes , agonias e gritarias , teimas , acintes e rcbcnditas , 
me movia a fazer o que nao devia, e se nao confotmava com 
a minha vontade isto me permittisse; » — e ncstes — dizo 
tu, — direi eu — se travaram de sorte qucsaltaram as punhadas 
entre todos, fazendo tal motim e alarido, que aturdiam o in- 
ferno; asmulheres, umas assombradas dizendo em gritos 
'< Ai! que me quebrou um brac^o este traidor ; )^ — oulras 
'< Ai! que me arranhou a cabcga este inimigo; — ai! que! 
me matoueste ladrao : " — e emquanlo se eslavam espcda-j 
gando feitos uma brasa , os demon ios que Ihes assisliam, Hies 
repeliam o seguinte quarteto : 

Esles desconforines casados 
Em depravadas vontades, 
merecido padccem 
Dc suas desconformidades. 



DIABINHO DA MAO FURADA. -499 

Avistada esla represciilacao , olhou Peralta para um lado e 
viu uma disformidavel porta iiegra, a qual abrindo-se de re- 
peiite com grande cstroudo , se via dentro um intenso fogo 
cm profunda concavidade , e iufinitas pessoas ecclesiasticas » 
divididas em congressos, todos com sens superiores e prelados 
maiores, acumpauliados de iiiuitas legioes de demonios que 
OS acommettiam ferozmeule com execraudos tormentos , e 
laocrueis, que, atemorisado, disse Peralta ao seu Diahinho 
que eram as mais insol'tViveis penas que tinba visto : e a sua 
maior admiracao era executarem-se em pessoas daquella qua- 
lidade e de dilferente jurisdici^ao ! Ao que lire respondeu o 
Diabinho : « Pois que cuidas? serem grandes iudagadores 
das vidas albeias, e as suas deslealdades , ambigoes, man- 
cebias, tratos e commercios illicitos, e a falta de pasto es- 
piritual Ihes move aquelles rigorosos tormentos para toda a 
eternidade ; c para sc dizer tudo em uma palavra, e a peior. 
gente que ha no mundo , excepto alguns bons. » 

Acabada esta representagao, viu Peralta em outra parte um 
rei acorapanhado de muitos bomens, cujos trajes os acredi-^ 
(avam por grandes sujeitos, aos quaes seguia inflnito nu- 
mero de demonios , que os martyrisavam com rigorosissimos 
tormentos, e Ibes diziarn de palavra como por injuria : 

Pagais, des^tgradecidos , 
No eterno fogo infernal 
Pagar na vida tao mal 
Beneficios recebidos. 

Lastimado de ver tao rigorosos tormentos, perguntou Pe- 
ralta ao Diabinho que rei craaqaeUe,e que pessoas eram 
;iquellas que o aconqtanhavam ? elle Ihe respondeu : que eram 
OS ingratos , e que o rei era Saul , que de[)ois dc ser ingrato 
a quern da baixeza da sua humildade o Ievanl,ou a dignidade 



500 REVISTA BRAZILEIRA. 

real, o foi tambem a David, querendo-lhe tirar a vida por ga- 
lardao de o livrar do gigante Goliat , e Ihe lancjar o demonio 
do corpo com a suavidade de seu canticp, e virtude das vozes 
de sua harpa ; e que os que o acompanhavam eram senhores, 
que imitaram em semelhante vicio. 

Por diante fora Peralta com as representagoes das visoes, 
em que estava engolfado , e acabara nellas de revolver o in- 
ferno, se Diabinho da mao furada, enlrando pela janella 
do aposento, Ih'o uao impedira, dizendo-Uie : « Nao durmas 
mais , companheiro , porque e tarde e le podera fazer mal. » 

Acordou Peralta sobresaltadissimo , e disse a seu familiar 
endiabrado: « Ai! companheiro, deixa-me, que me tens 
morto; porque coma communicagao da tua pessoaepre- 
senga de teu espirito estou admirado de hontem para ca : 
acabo agora de umas visiveis representagoes , acompanhado 
de ti no inferno , e estou fora de mim, mais morto que vivo ; 
e quando isto foram horrendissimas representagoes visiveis , 
que fara a realidadc de seu espectaculo ? » 

« Deixa-te desses assombros (respondeu o Diabinho] , que 
isso sao illusoes da phantasia ; que o inferno nao se ve senao 
quando se padece ; porque se o Ceo permittira o contrario , 
ninguera se condemnaria, e estiveram os demonios ociosos. 
Para te livrar dessa imaginacao , quero-te divertir com o que 
passei esta tarde depois que me apartei de ti. 

1 Primeiramente me fui aos estudos , e sobre cerlos argu- 
mentos fulminei taes dissensoes, que sobre ellas se altercaram 
de sorte, que estiveram a pique de se matarem lodos, se os 
religiosos da companhia nlio acudiram com justica a atalhar a 
pendencia, depois de bem escalavrados. Fiz jurar falso a 
algumas pessoas por limitados interesses ; levantar a outros 
falsos testemunhos ; e taes alvoroQOS em toda a cidade , que 
bem diziam todos — anda o Diabo solto. 

« Logo fui a certo convento de religiosas fomentar dis- 



DIABINHO DA MAO FURADA. 501 

cordias que cnlre ellas liavia sobre a cleigao de nova abba- 
dessa. Estavam ellas divididas em doiis ranchos, em cada um 
delles sua cabeca , que motivava as dissensoes ; uma dellas 
inclinada a differente sujeito com tal paix^ao , que diziam 
umas as outras do seu sequito : ^ Manas , Fulana se nao for 
abbadessa, nao seremos nos lilhas de nossos pais ; » — « Pois 
isso (respondiam oulras) i)6de deixar deser, tendo da nossa 
parte lantos votes'? Pelo dia de Deus ! que quando succedesse 
nos faltassem , que seria neste convento outra conio a de Ron- 
cesvalles.» — « Eu (disse outra) lanco muito bem as favas aos 
pausinhos de Santo Antonio , e sempre me sahia a sorle em 
favor do nosso intento. » <> Pois eu , mana (disse outra) , este 
S. Joao passado iancei por ella trcs alcachofras , e todas me 
sabiram floridas , de sorte que nao liavia mais que ver. » — 
>' Eu (disse outra) estive no nosso miradouro com uma bo- 
chechadeagua na boca ate dar meia-noite, e o primeiro 
nome que ouvi foi o da nossa abbadessa. » — « Nao me flo 
dessas cousas (disse a cabeca do bando) , porque todas sao 
superstiQoes e disparates sem fundamento algum , e catho- 
licamcnte se nao devem crer, antes julgo por grande impru- 
dencia e offensa de Deus o exercital-as. » 

* Da parte do outro rancho contrario dizia uma as compa- 
nheiras: « Nao ha duvida que a nossa parte ha de prevalecer, 
porque eu mandei chamar a certa beatinha minha c^nhecida, 
e diante de mini fez andar a peneira como uma desatinada ; 
e um devoto men me avisou que encommendara o negocio a 
certo malhematico judiciario , e que elle levantara figura 
sobre a nossa pretengao , e Ihe uiandara dizer que nao tinha 
duvida. » — « Nao durmamos nOs sobre essas tentacoes (disse 
outra mais ancian) , que destas cousas nao fag-o caso , nem 
cabedal pelo que tem de enganosas , qm os contingenles fu- 
turos so Deus os pode saber. » — « E fallou verdade, que n6s 
oulras nao sabemos mais que conjural-os incertamente. » — - 



50§ REVISTA BRAZILEIRA. 

« Ai! mana, pois dizei-me, os astrologos nao fazem os reper- 
torios, em que adivinham os tempos? » — « E quando (re- 
plicou a ancian) fallaram elles verdade , se nao foi acaso ? 
nSo vedes vos que quando dizem — ha de chover — faz horn 
tempo ; e pelo contrario quando dizem — nao ha de chover — 
entao chovem diluvios de agua ? e por esta razao tomam 
sempre salva de suas mentiras , dizendo : Dens super omnia. » 
— « Pois eu tenho feito devogao (disse outra) para esta noite 
lirar uma alma, que me ha de vir fallar, e dizer-me toda a 
verdade. » — « Tambem disso me rio eu (respondeu a vete- 
rana) , porque a palavra de Deus nos ensina , que a que desla 
vida vai nao torna a ella. » — Disse a que fallava : « Quando 
a difficuldade, que digo, se venga, tereisvos animo para Ihe 
fallar? » — « E como (respondeu ella) que nao ha mulher 
deliberada e appetitosa , que se intimide de nada. » 

« Nestas praticas as deixei ; e eu sou o espirlto que esta 
noite pelas onze horas Ihe hei de ir fallar , que ella cuida ha 
de ser alma passada desta vida ; porque as devoQ5es , que 
ellas para as tirarem fazem , tern pacto secreto comnosco ; o 
peior e que muitas vezes por esta via nos invocam , e quando 
Ihes apparecemos e fallamos nao tern valor para nos ouvir, e 
nos langam de si assombradas com palavras , a que nao po- 
demos resistir ; mas ellas o pagam com o que Ihes custa o 
sobresalto* » 

Admirado estava Peralta de ouvir o Diabinho ; e quanto 
elie mais Ihe manifestava seus poderes e suas obras, mais 
atemorisava sua companhia , e desejava livrar-se della. 

Neste tempo subia ao aposento , onde estava uma frarjona 
muito bom parecida, que na pousada havia , chamada Angela 
Pedrosa,que por tcr ouvido pela manhaa contar o dinheiro a 
Peralta, se vinha a elle , como gato a bofes , confiada na sua 
agradavol prcsenra ; — disse a Peralta que vinha saber o que 
qucria se Ihe ordenasse para a ceia ; o qual respondeu : — 



DIABINHO DA MAO FURADA. 503 

* Senhora Angela , se ha lombo de porco , mande-me assar 
um pedago ; » — ao que ella disse : « Eu mesma o assarei e o 
trarei a Vm. quando Ihe vier por a mesa, porque desejo muito 
agradar-lhe e servil-o. » — Peralta , por nao deixar de fallai* 
ao galanteio de soldado , Ihe disse : « Nao errou quem Ihe p6z 
a Vm. nome que tern ; pois o acredita com a sua gentileza. » 
— « Prouvera a Deus , seahor (respondeu Angela) , que eu 
devera menos a natureza ; porque ella me tern desterrada da 
minha patria e feito grandes males : nasci em Arrifana de 
Souza , fllha de lavradores honrados ; e porque estando uma 
noite fallando a um mancebo que me prelendia para esposa , 
se veio a encontrar com elle outro que tambem me pretendia, 
e movido de ciumes Ihe th*ou a vida ; foi-me forgoso au- 
sentar-me aquella nolle com temor da justiga , e deixar os 
pais e patria ; e por nao moleslar a Vm. , Ihe nao refiro os 
successos que tive no caminho ate chegar a esta pousada , 
onde havera um anno que assisto , servindo. » 

Neste passo den o Diabinho uma risada, que ate all estava 
calado ; e a dita Angela Ihe disse : « De que se Ti Vm. , Sr. 
fidalgo ? » — Respondeu o Diabinho : « Das patranhas que 
Vm. nos conta , nao sabendo que a conheco eu melhor que as 
minhas maos. Vm.nao e fllha de um remendao, chamado 
Joao Fernandes Pedroso ? e por essa boa cara que a natureza 
Ihe deu , nao era ama de um abbade , onde por sua fecun- 
didade deu tal escandalo, que quiz o Ordinario evital-o, 
pondo a Vm. na clausura de Terena , e Vm. por evitar este 
recolhimento , nao tomou as de Villa-Diogo com um soldado 
que vinha do Porto , a que serviu na Jornada de companheira 
de cama e mesa ate chegar a esta pousada , onde a deixou e 
se passou aLisboa? Pois se isto e assim , como Vm. muito 
bem sabe , por que nos esta encampando , vendendo-se por 
outra que nao e ? Cuida que mamamos no dedo , e que nao 
sabemos quantos sao cinco ? » 



504 REVISTA BRAZILEIRA. 

Assombrada flcoii Angela de ouvir a relagao verdadeira do 
Diabinho , fazendo-se muito vermellia , e de envergonhada 
nao soube oiilra cousa que Ihc responder mais que so: « Vm. 
e Diabo ! pois lambein sabe das vidas albeias. » — « Zom- 
bando se dizeni as verdades (disse o Diabinlio), mas ncm polo 
que tenho dito, Vm., Sra. Angela, deve perder com o Sr. 
Peralta ; porque a graga desses olhos , e a perfeigao dessa 
cara, com a disposiQao desse corpo, se faz credora dos maiores 
empregos. cevto 6 que pouco lizera o Sr. Peralla em sc 
obrigar de Vm. e Icval-a em sua companliia ate Lisboa, onde 
Vm. pelo seu bom parecer podera ler melhor venlura. « — 
Bern entendeu Peralta os engauos c gabos de Angela , e o ar- 
bitrio que o Diabo Ihe dava de a levar comslgo em ordem a 
movel-o ao peccado da sensualidade , com o trato e communi- 
cagao de Angela; mas elle que, escarmentado das visoes in- 
fernaes e do que via obrar ao Diabinbo , linlia oulros pensa- 
mentos dirigidos a melbor liin, dissimulando o luciferino 
intento, disse a Angela, dandu-Uie cinco reales para ajuda 
de uns sapatos, que fosse dar ordem a ceia e que mais de- 
vagar fallariam ; ao que ella logo obedeceu , fazendo sua me- 
sura de manteo ate o cliao com esperanga de conseguir aiiuelle 
ganlio. Diabinbo licou contentissimo , parecendo-lbe que 
Peralta se affeicoara de Angela, e assim como ella se retirou, 
llie disse: « Ora ja te fica esta noite com que te divertires ; por- 
que esta moca parece te roubou os alTectos. » 

« Estou tao sobresaltado (respondeu Peralta) depois que se 
nie representaram os borrores do inferno, que as delicias 
da vida me aborreceui , c assim pouco tern Angela que espoi'ar 
de mim , e muito menos as luas persuasoes , a vista desle des- 
engano. » — « Nao te tinba por tao ignorante (replicou o Dia- 
binho) , que cresses em sonlios. » — « Bern sei (lornou Pe- 
ralta) (lue nao 6 licito crer nelles ; mas os que rcpresentam o 
mal para se temer c fugir delle , nao sao sonhos , sao avisos 



DIABINHO DA MaO FURADA. 505 

do Ceo. Se qiieres que sejamos amigos, ha de ser com con- 
digao que nao me has de persuadir a cousa que seja contra o 
meu Creador.)) — « Companheiro (disse o Diahinho) , eunao 
posso deixar.por mais que teu amigo seja, de usar da natureza 
que professo em te armar laQos , em que cahem os fracos e 
iguorantes; vence-os tu com pradencia, que para fugirao 
mao e seguir obom foste creado com hvre alvedrio ; e quanlo 
mais venceres os estimulos de minhas tentagoes, teras maiores 
merecimentos. » — « Confesso que assim e (tornou Peralta) ; 
mas tambem e temeridade flar semelhantes resistencias da 
fraqueza humana ; que quem nao teme os perigos , perece 
nelles; pelo que te peQO, como companheiro, que emquanto 
formos , te queiras moderar comigo nas tentagoes. » Dia- 
hinho, ainda quedissimuladamente , disse que assim o faria; 
e parecendo-lhe que da inchnagao de Angela resultaria o mao 
fim que esperava, se despediu de Peralta, dizendo-lhe que 
tinha certo negocio que fazer aquella noite, e se ficou invisivel 
na pousada fazendo das suas, 

' (Contima.) 



f 



BIOGRAPHU 



Fr. Fi'aiieiseo «le S. Carlos. 

Francisco Carlos da Silva, que na Ordem Seraphica lomou 
nome de Fr. Francisco de S. Carlos, nasceu nesta eidade 
'do Rio de Janeiro aos \'^ de Agoslo de 1763. Baplisou-se na 
I'reguezia da Se como fillio legitimo de Jose Carlos da Silva e 
D. Anna Maria de Jesus , ambos naturaes desta mesma ei- 
dade. 

Na tcnra idade de treze annos tomou o habito de S. Fran- 
cisco no convento de S. Boaventura da villa de Macacii , onde 
mais tarde professou. Sen grande amor pela solidao , e pelo 
estado , levaram-no a dar semelhante passo ; e em verdade 
nenhuma ontra profissno podia tao bem quadrar ao genio me- 
lancolico de S. Carlos. 

No collegio desta capital tez o joven religiose os sens cursos 
<lo philosophia e de theologia , e chcgando a idade canonica 
recebeuo presbyterado quelhe foi conferido pelo illustrebispo 
D. Jose Joaquim .lustiniano Mascarenhas Castello-Branco , a 
quem tanto devc a nossa diocese ; sendo logo depois eleilo 
passante (professor substituto) do sen collegio , em premio do 
seu grande lalcnto e notavel applicagao. 



508 REVISTA BRAZILEIRA. 

A instancias dos seus superiores partiu S. Carlos em 1790 
para a cidade de S. Paulo afim de ahi exercer, por cinco 
annos , o honroso cargo de lente de theologia dogmatica ; o 
que desempenhou com geral applauso. Regressando a patrla 
em 1796, foi nomeado commissario dos Terceiros da Peni- 
lencia , em cujo cmprego pouco demorou-sc por ter de acom- 
panhar a Bernardo Jose de Lorena, capitao-general de Minas- 
Geraes , na qualidade de visitador geral das Ordens Tcrceiras 
e Confrarias Franciscanas. 

Terminada a sua honrosa commissao, voltou ao Rio de 
Janeiro em 1801, onde a fama dos seus grandes talentos 
oratorios o havia precedido a tal ponto , que o bispo Mas- 
carenhas convidou-o para reger a cadcira de eloquencia sa- 
grada no seminario de S. Jose. 

No curto espaQO de cinco annos exerceu duas guardian ias 
(a do convento do Bom-Jesus da Ilha , e de N. S. da Penha da 
provincia do Espirito-Santo) com grande prudencia e crilerio, 
fazendo amar-se pelos seus confrades. Coube-lhe mais tarde 
(em 1813) ahonra de presidir ao convento desta corte, rece- 
bendo em galardao dos seus relevantes servigos os cargos de 
definidor e visitador geral da provincia da Immaculada Con- 
ceigao , como se denomina a ordem franciscana do Brazil. 

Sendo escolhido para pregar por occasiao das festividades 
que se celebravam nesta capital pela chegada da familia real 
(1808) , ficou principe-regente (depois el-rei D. Joao VI) tao 
encantado da sua eloquencia, que confessou nunca ter ouvido 
nada de melhor, escolhendo-o logo para pregador da sua real 
capella; e agraciando-o pouco tempo depois com o honorilico 
emprego de examinador da Mesa da Consciencia e Ordens. 

Retirado do pulpito , thcatro da sua gloria , logo que se 
sentiu fallo de forgas recolheu-se a solidao do claustro, onde 
calmos se deslisaram seus derradeiros momentos, e onde veio 
buscal-o archanjo da morle no dia (» de Maio de 1829 , na 



FR. FRANCISCO DE 8. CARLOS, 509 

idade de scssenta e seis annos , tres mezes e sete dias. Jaz 
sepuUado na quadra em que se enterram os religiosos. 

Esfas particularidades soljre a vida conventual de Fr. Fran- 
cisco de S. Carlos (que devemos a bondade do muito digno 
provincial dos Franciscanos, o Rev'"° padre-inestre Fr. An- 
tonio do Coracao de Maria c Almeida) foram desprezadas 
pelosseus anieriores biographos, por ,julgal-as talvez de pouco 
interesse para o publico. Discordamos do sen juizo , do que 
Ihes pedimos desculpa; porque pensamos que nao pode ser 
indifferente aos vindouros o saberem se o frade foi ou nao 
considerado em sua ordem, quaes os cargos que nella exerceu, 
e a que circumstancias deveu o clevar-se na bierarchia mo- 
nastica. Seria complcta a biographia d'um militar em que se 
omittissem as patentes que obtivera, as batalhas em que se 
distinguira , e as pracas que commandara? — Nao por certo ; 
pois mesmo acontece com o frade, 

Outra consideracao nos levou a indagarrnos dos passes da 
sua carreira claustral. Para obter uui logar distincto na Ordem 
Franciscana do Rio de Janeiro na epoca em que viveu S, 
Carlos, em quo tantos talentos floresciam a sombra do san- 
tuario, em que tao profundo e variado saber abrigava-se de- 
baixo da estamenha, devera-se possuir um merito real, e uma 
illustragao transcendente : taes eram , pois , as qualidades de 
Fr. Francisco de S. Carlos. 

Dupla coroa adornava sua magestosa fronte, a d'orador e a 
de poeta: como orador sagrado maguctisou sens contempo- 
raneos,que chamavam-no — serea do pulpito — ; como poeta, 
legou-nos o poema da Assumpcao da Virgem, que a critica 
colloca a par do Parcmo Perdido e da Memada. 

Fr. Francisco de S. Carlos era o Pindaro da tribuna sagrada ; 
delle diria Bocage: 

« Agilado d'impeto divino 

« Acesos turbillioes na voz desatas. » 



.510 REVISTA, BJEVAZIi,ElllA. 

Torrentes de doquencia despenhavam-se de seus labios , 
como as aguas do rio S. Francisco iia cachoeira de Paulo Af- 
fonso; sua voz raaviosa, semelhante a do sabia , deleitavaos 
ouvidos do auditorio ; emquanto sua vigorosa dialectica pren- 
dia as attengoes. Porvezesabandonava-se a inspiragao ; voava 
sobre as azas do improviso e arrebatava os ouvintes a regioes 
desconhecidas : eutao era Chrysostomo , era Basilio , era Gre- 
goriodeNazianzeno, n'uma palavra, eraMassillon. Afrescura 
das suas imagens, o vigo e o esplendor da sua dicgao trans- 
mutava o sermao em hymno , e dir-sc-hia que dedilhava a 
harpa de David. Na oragao funebre reconheceriam nelle um 
-digno emulo Bossuet e Flechier. Fallando da que pronunciara 
lias exequiasda rainha D. Maria I, assim se exprime o Sr. 
Dr. J. M. Pereira da Silva : 

« Todo este sermao e admiravel ; os peusamentos supe- 
« riores, a elegancia da phrase, a eloquencia das ideas e a 
« vivacidade do estylo se reunem , e se combinam em pro- 
« porgoes iguaes : -a alma do pregador expando-se maravilho- 
« samente ; seu coragao falla em todas as palavras ; sua in- 
« telligencia appareceem lodas as expressoes : Fr. Francisco 
'« de S. Carlos, com este sermao funebre , toma logar entre 
« OS mais respeitados e conhecidos pregadores de todas as 
« modernasnacoes (1). » 

Seguindo a trilha do grande bispo de Meaux na sua famosa 
oragao funebre da rainha de Inglaterra, viuva do desgragadn 
Carlos I, nosso illustre patricio iguala, se nao excede o seu 
modelo. 

que ha de mais pathetico do que o logar em que descreve 
a morte da Sra. D. Maria I , e de mais subHme do que a sua 
entrada na bemaventuranga? .lulgamos nao abusar da bene- 
volencia dos Icitores cilando este bcllissimo irecho : 

(1) Plutarcho BRUit. , Tom. I, pags, 132 e 133. 



PR. FRANCISCO DE S. CARLOS. 5ll 

« — Assim viviamos, quando E direi eu , 

Portuguezes, aquelle sussurro triste e pavoroso , que vossos 
coraQoes presagos rejeitavam , como ave de mao agouro?... 
Aquella voz surda , que sahia pela boca do povo , e que 
dizia, como que em segredo — Nossa rainha esta mal — 
Nossa rainha perece — morre ! — Oxala que nao fora I Ve- 
rificou-se! — Morreu ! — Aqiii a tendes morta ! — Morta ? 
— Eu me reporto — nao — viva , porque os justos nao 
morrem ! — Era necessario que se rompesse esle muro de 
divisao,que impedia-lhe ver o seu Deus sem enigmas: 
era necessario que OS olhos, que foram sempre inundados 
de lagrimas, estancassem o pranto, e vissem aquella fer- 
mosura sempre antigae sempre nova, como diz Santo Agos- 
tinho. Bate pois as azas , oh! pomba , solta-te das prisoes 
terrestres, do peso da casa de barro ! Hoje e o dia dos teus 
triumphos! Ergue o collo altivo ; remonta os voos, atra- 
vessa as portas dos tabernaculos eternos , abysma-te no 
coragao do teu Jesus, cujas ingratidoes nos peccadores 
tanto magoarani o teu. Recebe o sceptro que elle te ha 
preparado; mas que sceptro? — Uma vara arrancada de 
umaarvore, despojada de suasfolhas, privada de fazer 
sombra, a que o artista dando-lhe urn verniz d'oiro nao 
Ihe tirou a condi^ao de corromper-se? Nao.— fi este sceptro 
da virtude de Deus queo Senhor envia a Siao para dominar 
sobre seus inimigos. Arrecada o reino em que teu Deus te 
mette de posse : mas que reino ? — de Portugal , que foi 
fundado em rios de sanguc nos campos (rOurique, que no 
quarto seculo da sua fundagao esteve em perigo de ser a 
heran^a de estranhos, que no sexto gemeu na viuvez, e que 
agora urn atrevido repartia sem ser o seu dono (2) ? — Nao. 



(2) Allude d divisao do reino de Portugal por Napoleao I , em virtude do 
tratado secreto de Fontainebleau, 

R. B. III. 34 



512 REVISTA BRAZILEIRA. 

€ — fi este reino que nao tem fim ; et regni ejus non erit 
« finis.— Recolhe emfim a coroa , que te e reservada pelo 
« justo juiz.— Que coroa ? — Disto que se cliama oiro, a que 
« urn falso brilhantisnio da o merecimenlo, e a avareza o 
« preQO? — Destas pedras chamadas ricas , que brilham com 
< a claridade empreslada do sol , e para dizer tudo — terra 
« e niais terra — ? Nao : a recompensa e coroa e o mesmo 
« Deus recompensador! » 

Juntai ao vivo colorido destas palavras a raagia d'uma pro- 
nunciagao clara e elegante , gestos expressivos e apaixonados, 
a natural sympathia que inspirava uma bella e magestosa fi- 
gura, que seus coetaneos comparavam a de S. Basllio, e for- 
mareis idea do eximio orador que possuiu o Rio de Janeiro na 
pessoa de Fr. Francisco de S. Carlos. 

Mas, me pergunlareis v6s, onde param as homilias , os 
sermoes , as oragoes funebres do illustre Franciscano ? Monte 
Alverne responder-vol-o-ha : 

« A difficuldade da imprcssao, a falta de recursos , a in- 
differenga para com toda a sorte de empresas typogra- 
phicas, talvez mesmo amodestia dos autores, impediam a 
execuglio destes projectos, que illustraram outras nagoes, 
e fizeram avultar a massa dos conhecimentos humanos. 
Todas essas inspiragoes do genio , essas felizes producgoes 
que faziam o encanto e a arlmiragao dos nacionaes e dos 
estrangeiros, eram destinadasa niorrer no mesmo dia de sua 
apparigao, ou quando muiloa obter, qual pega de tbeatro, 
novas recitas. A posteridade eslava fecliada para os nossos 
oradores: as honras da imprensa eram apenas concedidas 
aos discursos recitados por occasifio d'algum grandeacon- 
tccimenlo, e cuja publicagao convinha aquelles , que os 
pregavam , ou faziam imprimir. A ninguem Icmbrou ainda 
rcunir as oragoes i'unebres de S. Carlos e de S. Paio , e for- 
mar uma collecgao , qual a que os Francezes fizerain das 



f 



FR. FRANCIBCO DE S. CARLOS. 513 

oragoes funebres de Bossuet e Flechier. Estes brios na- 
cionaes estao quasi extinctos : para nos tudo esta materia- 
lisado ; nossa vida e para o dia de hoje , porque a vida dos 
sentidos^— e. o presente ; o fiUuro pertence a intelligen- 

* cia (3). » 
Oxala que tao severo anathema nao caia sobre a nova ge- 

ragao : oxala que os depositarios desses magnificos discursos 

OS transmiltani a posteridade pelo maravilhoso invento de 

Guttemberg. 

(3) Obras ORkTORiiLS.— Discur so PreL.pA^. XI. 

J. C. Ferinandes Pinheiro. 



I 



4 



LITTERATUR4 



Di«cur9o proniineiadlo pelo Sr. El>a<) de Beanniout « 
|9re.«ide»te da Socieiladi^ Oevgrajiliica de Paris. 

Senhores, chamado por vossos benevolos suffragios para 
presidir a esta assemblea, rogo-vos que vos digneis de receber 
a expressao do men reconhecimento. 

Independcniemente da alta distincgao que hoje recebo , 
cumpre-me agradecer os valiosos auxilios que para meus tra- 
balhos pessoae:> lenho encontrado em vossas sabias publica- 
coes. A geographia e o ponto. de partida , guia , e, por assim 
dizer, uma das pedras angulares da geologia. 

Occupado em escruiar a natureza interna da terra, em 
invesUgarcm suas profiindidades os muUi>)!os contornos do 
grande mosaico terrestre , apoia-se o geologo nas forcas ex- 
fernas do solo. Uma boa carta topograph! ca e para ellc o 
mais precioso dos instrumentos. Se a geographia psde a 
astronomia os meios de fuar as posi^oes respectivas dos 
pontos mais remotos da superficie do globo ; se pede a phy- 
sica geral os dados que servem para precisar a diversidade dos 
diiiias , faz aproveitar a geologia de todas as luzes por ella 
rounidas. Bimh como as musas sao as sciencias irmaas, e a 
geographia que presta seu concurso a historia para restabe- 
lecer os annaes das mais antigas e esquecidas nagoes, nao e 
menos util a geologia para fazer reviver pelo pensameuto , 



516 REVISTA BRAZILEIRA. 

sob OS cliniasque as viram prosperar, essas racas successivas, 
hoje perdidas, de vegetaes e animaes, que povoaram antes 
da exislencia do honiem as diversas partes do seu futiiro do- 
minio. 

A geographia physica, a iniiieralogica, abolanica, a zoo- 
logica, a das ragas e lingiias luimanas , e a anliga , sao como 
uma brilhante pleiade de sciencias que se juntam sem con- 
fundirem-se, tendo por laco comiiium a sciencia cheia de 
erudicao dos Danvilles, e dos Malte-Bmns , que cstao tao 
longe de se coufundirein que tem autores e monumentos dis- 
till ctos. 

Um so homem conseguira abra^al-as todas , e derramar em 
cada uma das suas paries luzes iguabnente vivas : sua morle 
foi principal luto da sciencia no anno que vai flndar. 

illuslre aulor da Geographia das plantas e dos monu- 
mentos americanos terininou sua longa e laboriosa carreira 
a 6 de Junho ultimo, depois de baver dado a ultima demao 
na grande obra que debaixo do titulo do Cosmos apresenta- 
nos fiel e completo quadro dos nossos actuaes conbeci- 
menlossobre o mundo physico. Pensou, senbores, a vossa 
commissao central, que a primeira sessao publica celebrada 
pela Sociedadc de Geograpbia depois da morte do .*^r. de 
Humboldt , devera em parte ser consagrada ao elogio desse 
excellente e venerando confradc que f6ra um de seus funda- 
dores, um de seus presidcntes, e que por um tergo de seculo 
nao cessara de ser seu maisconstanteeactivo collaborador. 
Confiou a redaccao desse elogio a babil e adestrada penna de 
um de seus mais eminentes membros. 

Outra e dolorosa perda acaba de cxperimentar a Sociedade 
de Geographia no decurso do corrente anno. Sr. Carl Rifter 
succumbiu igualmenle em avangada idade levando ao lu- 
mulo OS iuexhauriveis thesouros d'unia erudicao que nao 
f6ra completamcnte vasada em sua grande obra sobre a Asia. 



DISCURSO DO SR. ELIAS BEAUMONT. 517 

Proporcionando o seu trabalho a imporlancia do assumpto, 
ao numero e extensao dos documeutos que accumulara a 
scieiicia desde Herodoto e SUabao ate Everest , Jacqiicmont e 
de Hugel, o Sr. Ritler apiesentou nos successivos volumes da 
sua Geographia d'Asia [die Erdkande von Asien) o mais com- 
pleto quadro des^a parte do mundo, que foi o bergo do gencro 
huinano , e cuja vasla exleiisao alimenta ainda , na variedade 
inlinita de seus climas, mais da metade dos homens actual- 
menle vivos. 

Tambein teve o corrente anno o triste privilegio de ver 
apagarem-se os ultimos raios da esperanga , que apaixonados 
admiradores poifiavam em conservar acerca da volta de Sir 
John Franklin e de seus intrepidos coUaboradores. 

Regressou este anno a expedig.ao, armada ba dous por lady 
Franklin , e commandada pelo capitao Mac-Ciintock , depois 
de ter invernado por sua vez nas regioes poiares. Trouxe a 
dolorosa nova que Sir John Franklin morrera em seu navio a 
il de Junho de 1849 , e que seus desditosos companheiros , 
apos um novo inverno , passado em seus navios , enclausu- 
rados pelos gelos, viram-se consirangidos a abandonal-os na 
primavera de 1848, perecendo todos antes de poderem al- 
can^ar o rio do Grande Peixe (Great-fish river), que corre na 
extremidade norte do continente da Amerira Septentrional. 

Tributando justa e sincera bomenngem ao hcroico fim 
desses martyres da sciencia , mortos em silencio, e sem tes- 
temunhas no meio das gelidas solidoes, seja-nos licito, se- 
nhores, pagar tambem o tributo de nosso respeito a essa mu- 
Iher admiravel , que superando a prostracao d'nma profunda 
dor, consagrou mais de dez annos d'incessanles esforgos, e 
despendeu a maior parte de sua forluna para saber se seu 
dilecto esposo a precedera na mansao eterna , ou se jazia 
abandonado aos rigores do exilio polar , e as torturas da 
fome. 



518 REVISTA BRAZILEIRA. 

Taes sao com effeito os perigos que arrostaram com tanto 
valor e coragem esses denodados campeoes da geographia, a 
quem devemos saber que a passagem de noroeste so d'illu- 
soria maneiraexiste. Aprouve-vos, senliores, de cor6ar por 
inuitas vezes suas successivas descobertas , e por certo que 
poucas cor6as foram melhor merecidas. 

Sobre o tumulo dos heroes que mais queriam honrar ce- 
lebravam os antigos jogos funebres ; assim por notavel coin- 
cidencia o anno que inscreveu sobre suas taboas necrologicas 
tao gloriosos nomes paraa geographia, foi iguahncnle aquelle 
que vju inaugurar duas das mais imporlantes empresas cujo 
pensamento flzera conceber a geographia, e cuja utihdade 
demonsU'ara. 

Ao passo que ve a humanidade Pinar-se o genio Investi- 
gador que, depois de Christovao Colombo , mais contribuira 
para fazer o novo mundo conhecido ; ao mcsmo tempo que 
ve desapparecer o illuslre sabio, que como o Sr, de Humboldt, 
mais doutamente concorrera para aprofundar o estudo da 
Asia ; quando a descoberta dos vestiglos de Sir John Franklin 
vem encerrar talvez para sempre a serie de audaciosas ten- 
tativas successivamenle eniprehendidas ha quarenta annos , 
com fim de contornar a America pelo noroeste , occupa-se 
a sciencia com os meios de tornar possivel a grande nave- 
gacao que deve rodear o globo , sem sahir das calidas e ac- 
cessiveis regioes , cortando os isthmos de Suez e da America 
central. 

A Sociedade de Geographia associa-se com tanto maior 
prazer a essas duas grandes euipresas , por isso que tiveram 
ellas por advogado a urn dos nossos veneraveis decanos, sabio 
presidente de nossa commissao central , membro sempre 
active e vigilante do antigo instiluto egypcio , a quem o 
Egypto agradecido folga de chainar — Jomard-Bey. — Per- 
tencia por certo ao sabio illuslre que iMehemet-Alli consti- 



DISCURSO DO SR. ELIAS BEAUMONT. 519 

tuira representante da nascerite civilisacRo de sens estados 
junto de nossas sociedades scientiflcas e grandes escolas , o 
assignalar a melhor e mais convinhavel direcgao do canal 
maritimo do isthmo de Suez, bein coino de proclamar a exis- 
tencia no monte Keiiia da principal fonte do iNilo , que desde 
Herodoto debalde buscava-se adivinhar. 

Cumpria igualinente ao zeloso proinolor das pesquizas so- 
bre OS mysteriosos monumentos de Palenque conslituir-se , 
para com os homens da sciencia e chefes do grande raovi- 
inento industrial , o apostolo desse cana! inlcroceanico de 
Nicaragua, cujos primeiros delineamenlos uma augusta mao 
nao desdenhara de tragar. 

Foram esses projectos inspirados por vistas pacificas. As 
colonias europeas espalhadas nos dous hemispherios ; as 
nossas de Taiti e da Nova-Caledonia , que feliz previsao pa- 
rece ter situado como balisas sobre urn dos :)iais dircctos 
caminhos que devera seguir de preferencia a navegac^ao abre- 
viada ; os portos da China e do Japao franqueados ao nosso 
commercio ; Cantao, Touranu e Saigoun , recenteniente oc- 
cupados por nossas tropas, bastavam para dar aos dous canaes 
maritimos maxima importancia; porem, como se semelhantes 
circumstancias ainda nao fossem sufficientes para determiuar 
sua immediata execugao , como se o assassinate dos nossos 
missionarios, com menosprego dos tratados, nao chamassem 
para a extremidade do Oriente as vistas e a espada d'uma 
civilisacao, em que o sentimento da honra predoinina , acaba 
governo desse imperio do Meio , que serve de coinmum 
alvo para o corte dos dous isthmos, de commetler , sem por- 
vocacao alguma, inqualificavel atafjue aos pavilhoes, tlio 
felizmente unFdos da Franga e da Inglaterra , chamando desta 
arte as ribas do Pei-ho alguns dos soldados de Sebastopol , 
Magenta e Solferino. 

Uhia pancada do kque do dey d'Argel valeu a Franga 6 



520 REVISTA BRAZILEIRA. 

magnifico dominio que converteu-se no principal foco da civi- 
lisaQaoafricana ; esperamos igualmente que nao sejam nienos 
proveilosas para o conliecimento ecivilisat^ao da Asia oriental 
as ultiuias injurias do govcrno de Pekin. 

Porem a sciencia que abre a estrada ao conimercio, e que 
honra-se de inarchar nos estados-inaiores dus exercitos e das 
armadas, a frente das expodigoes rnililares , inelhor conserva 
seu caracter e mais completamente se oslenta nas missoes 
pacificas. 

Compenetrada da utilidade que haveria, tanlo para o nosso 
commcrcio conio para o conliecimento da Africa interior, em 
prender por eslreito lago nossas possessoes d'Argelia com a 
nossa colonia do Senegal, tao felizinenle augmentada com a 
sabia e emprebendedora direc^ao do coroncl Faidherbe , 
fundou a Sociedade de Geographia urn premio de 6,000 fr- 
para o viajanle que com mais facilidade conseguisse ir do 
Senegal a Argelia , passando por Tombouctii. 

Justifica a tnagnitude desla excepcional inedida a impor- 
tancia de tal viagem, que ligaria as regioes que possuimos 
com as que percorreu o Dr. Bartb, que tao justamente co- 
roastes. 

Crearia bomens cmprehendedores, que seguindo as glo- 
riosas pisadas de Mungo-Park, de Richardson, d'Ovcrweg, 
completassem o esludo do Niger c do lago Tsad , batedores de 
nossa diplomacia africana , nao reslando mais do que urn in- 
tervallo, comparativameiiie limitado, eiitre o campo das des- 
cobertas que partem do litoral para oesle e para o norte, e os 
paizes alravcssados pcloDr. Livingstone e pelos exi)loradores 
do Niio Branco. 

As regioes em que mutunmenle se enconlram , e algumas 
vezes se combatem as popularoes christ as c musulmanas, o 
Sahara , o Sudan , o Egypto, a Persia e a Turquia asiatica , 
essas regioes que a nossos olhos dao tanto attraclivo as tra- 



DISCURSO DO SB. ELTAS BEAUMONT. 5?1 

digoes biblicas, combinadas com as Icmbrancas das cruzadas, 
parecem proximas a nos serem patenles, nao su pela forga 
e pelo interesse , como pelas sympathias de seus habitantes. 
Tal e , pelo nienos , o objecto dos esforgos d'um pio missin- 
nario que occupa-se em espargir a cwiUmQao na Africa e no 
Oriente por escriptos nas linguas orientaes. Ja o jornal arabe 
inlilulado Birgis-Baris [n aguia de Pariz) , que ha seis mezes 
publica Sr. abbade Bourgade , ciira da capella de S. Luiz em 
Carthago, conta leitores em quasi todas as cidades da Africa 
e do Oriente ate Bombaim e Galcuta. Ciirioso e ler osjuizos 
que acerca delle emittiram alguns dos homens que n'outras 
eras teriam sido os mais ardentes adversarios de tudo o que 
partia do Occidente. ex emir Abd-el-Kader, cuja coragem 
e desditas folga a Franca de honrar , depois de havel-o ven- 
cido, assim se exprimia ultimamente, n'uma carta dirigida a 
redacQiio do jornal : « Li o vosso Birgis-Baris , que causou- 

* me snmma satisfagao. Havia pedido ao vosso agente em 
« Damasco que tomasse a minha assignatura ; mas visto que 
« estainos em contacto, nao ha mais necessidade d'interme- 
« diarios. » 

Oclieikb Nassif-Eliazedj, sabio autorde grande numero de 
obras arabes, escrevia por sua vez : « Vi a brilhante hjz de 

* vossa estrella (allusao ao titulo do jornal Birgis , Jupiter) , 
« cujo encanto domina os nossos coragoes. E na realidade 
« uma bella e util cousa : arte d'estylo, dogura d'expressao, 
« eloquencia depalavras, esplendor de pensamento , con- 
« correm para o complemento do vosso fim. E o nec-plus- 
« ultra dos talentos do escriptor e dos desejos do leitor. » 

Ora , as paginas que inspira-n ao emir e ao cheikh 
estas benevolas palavras, sao consagradas a consideragoes 
lendentes a provar que a respeito da moral e caridadc afasta- 
se menos o Koran da doulrina christaa , do que ate agora o 
pensaram as populagoes musulmanns. 



522 REVISTA BRAZILEIRA. 

E miiitas vezes a flrmeza o mais ctTicaz dos meios concilia- 
torios : e e satisfactorio ver que depois da cxpedigao dos 
Francezes ao Egypto , da conquisia d'Argelia , e da giierra da 
Crimea, estejam mais proximos a se entenderem o Oriente 
e Occidcnte. 

Approximados pelo vapor, e cedo pela electricidade, nao 
Ihes restara, para sereni verdadeiramente irmaos, senao di- 
minuirem por uma instriicgao, cada dia mais facil, os in- 
convenientes das differen^as das lingiias , essa praga do ge- 
nero hiimano, que fez-se datar da torre de Babel, e cujos 
funestos ofTeitos tern a geographia, mais do que qualijuer oulra 
sciencia, frequentes occasioes de deplorar. 

Porem a docura do sentimento religioso, libertado da in- 
tolerancia dos seculos passados, tende a introduzir nas rela- 
Qoes dos povosentre si, parece destinada a progredir cada vez 
mais,revestindo-se das formas da mais graciosa cortezia. Sera 
as senhoras a quern deveremos esta ultima transforma^ao? 

Devemos esperar que nao tarde ella a consummar-se, lem- 
brando-nos que uma senhora de Vienna, a quem a Sociedade 
de Geographia deferiu, por acclamagao, o titulo de membro 
honorario, e a quem o Sr. de Humboldt honrara com uma 
recommendarao para lodos aquelles que coiiheciam seu no- 
ma ; que a Sra. Ida PlTeilTer pode terminar pacificamente sens 
dias em sua cidade natal, depois de ler feito por duas vezes 
gyro do mundo , sem outro proposito mais do que o de ver 
por si mesma as maravillias da creag'io, e ser testemunha 
da curiosa diversidade de usos e costumes dos dilTerentes 
povos. 

Talvez que em breve existam entre as populacoes , sepa- 
radas pelo oceano, nao so relacoes commerciaes, mas ainda 
sociaes e domesticas. Nao sera baslante fazerem-se, em Auc- 
kland e Sydney, cursos sobre as sciencias da.Europa, e 
adoptarem-se na Nova-Caledonia e na Terra de Van-Diemen 



DISGURSO DO SR. ELIAS BEAUMONT. 523 

as modas de Londres e Pariz : estara o homein tao completa- 
mente de posse do globo terrestre , que tratar-se-hao como 
vizinhos os habilanles das regioes aiilipodas 

Senhoras e senhores, a musa da hisloria junta em nossos 
dias grandes e bellas paginas aos annaes liumanos. Coube-me 
a felicidade de ter sido chamado para assignalar , bem que 
imperfeilamente, o glorioso logar que ahi deve occupar a 
Sociedade de Geographia. 

(Extrahido do Bulletin de la Societe de Geographie , torn. 
XVIII.) 



PAIE0NT0L061A 



Kelatorio ucerca do jgruiide preinio das sciencias 
pliysicas para o aiiu» de iS5G , lido iia sessao de S 
de Fevereiro , e cujas coiielusoes forain inipressas 
Ma acta dessa ses^sau (t). 

(Commissarios os Srs. : Elias de Beaumont , Flourens , Isid. Geoffroy Saint- 
Hilaire , Milne Edwards , Ad. Brogniart , relator.) 

estudo das camadas da crosta do globo demonstra que 
a siiperficie da terra soffreu graade numero de revoluQoes 
antes de tomar a sua forma actual. 

Os restos de vegetaes e de animaes, tao abundantes em 
muitas dessas camadas , estabelecem igualmente ' que na 
epoca em que liveram logar essas revoluQoes era ja habitada 
a terra por iiumerosos e varios seres orgauisados. 

Qual, porem, o numero, e natureza desses seres? 

Que mudangas experimentou essa populagao animal e ve- 



(I) A queslao proposta pela acadeniia era a seguinte : 

« 1." Esludar as leis da dislribuicao dos corpos organ isados fosseis nos diffe- 
rentes lerrenos sedimenlarios , sogiindo a sua ordem de superposi<;ao. 

« 2.° Disculir a questao da sua appaii^ao e desapparicao successiva , ou si- 
multanca. 

« 3." Procurar a natureza das relaqoes que existem entre o estado actual do 
reino organico e seus estados anteriores. » 



526 REVISTA BRAZILEIRA. 

getal, emquanto essa longa serie de Iransformagoes modifl- 
cavaiii a superficie da terra? 

Como se effectuaram essas mudangas? 

Pode-se, finalmenle, apreciar as causas que as produziram? 

Taes sao os priiicipaes problemas que comprehende a 
questao posla em concurso e que tao grave interesse Ihe 
commuiiicam sob o ponlo dc vista da historia do nosso globo. 

Para que a sohicao fosse possivel , fora mister que azoo- 
logia e a botariica houvessem chegado a uin grau de aperfei- 
coamento tal , que bastasse o estudo de alguns fragmentos 
desses seres destruidos para chegar ao seu conhecimento 
exacto, e que pudesse com certeza fixar a geologia a sua 
idade relativa. 

F6ra mister ainda que o numero dos restos fosseis conhe- 
cidos fosse assaz consideravel , para que nao viessem novas 
pesquizas profundamente modificar os resuUados obtidos. 

fi que pude-se esperar aclualmente. Com effeito, desde 
comego deste seculo fez a historia natural consideraveis 
progressos em todos os sens ramos. 

No espago de cem annos, de tal modo se augmentaram os 
nossos conhecimentos relativos as especies de anin)aes e ve- 
gelaes que actualmente habitam o nosso globo, que decuplou 
numero das especies conhecidas. 

Ha apenas urn seculo que no recenseamento geral da na- 
tureza, publicadopor Linneo, compreliendia o reino vegetal 
apenas 8,100 especies, estando o reino animal muito longe 
de altingir a este ntmiero. Conhece-se agora mais de 10,000 
especies de cada urn dos dous reinos organisados. 

Tein OS algarismos mais importancia do que se pensa para 
a questao que nos occupa ; porque indicam quao numerosos 
e variados sao os meios de comparagao de que dispomos para 
chegar ao conhecimento dos seres que viviaui durante os pre- 
cedentes periodos geologicos. 



GRAITOE PREMIO DAS SGIENCIAS PHYSICAS. 527 

Mas nao e somente pelo aiigmento do numero das especies 
conhecidas que facilitoii-se a determina^ao das especies fos- 
seis ; mas tainbem pelo conhecimento miiito mais profundo 
de sua organ isac?\o, que permille estabelecer comparaQoes 
certas entre cada uma das pai tes e fragraentos muitas vezes 
imperfeitos e miitilados, conservados no estado fossil. 

Mais r.ipida foi ainda a extensao dos nossos conhecimentos 
felativamenle aos seres organisados fosseis. 

No principio do presente seculo nao existia mais de um 
milheiro de fosseis descriplos com alguma exaclidao ; em 
J 850 mais de 3:2,000 especies podiam ser enumeradas com 
certeza c comparadas com exactidao, quer entre si, quer 
£ntre os seres vivos. 

A propria geologia e uma sciencia moderna. Pelo fim do 
seciilo passado as camadas do globo , que encerram restos 
organicos, eram apena's distinctas umas das outras, e sua 
ordem de successao, isto e , sua idade relativa, base da his- 
toria chronologica dos seres cujos despojos conlem, em parte 
alguma achava-se com exactidao estabelecida. 

Hoje pelo contrario a ordem de successao das camadas 
sedimeiitarias desde as mais antigas ate as mais modernas , 
foi reconbeciua em suas menores particularidades ; compa- 
radas nos pontos mais remotos da terra; reunidas para cons- 
tituir lerrenos correspondentes a outras tantas epocas da 
lormagao da crosta do globo ; epocas que podem grupar-se 
em iperiodos geologicos, cuja diira^ao impossivel de fixar-se 
ao oerto devera prolongar-se por grande nnmero de se- 
culos. 

Ve-se, pela latitude dos nossos conbecimenlos sobre os ve- 
gelaes e animaes vivos, o graii de perfeigao a que chegou a 
geologia dos terrenos scdimentarios; finalmente , o grande 
numero de corpos organisados fosseis, de que acabamos de 
Mar, permitte procurar quaes foram oshabitantes antigos 

R, B. HI 35 



528 REVISTA BRAZILEIRA. 

da terra, e em que ordeni suas diversas racas tomaram siic- 
cessivamente posse della. 

Desde o seculo xvi que os fraginentos dos c^rpos organ i- 
sados, enccrrados em estado de petriticacao nas camadas da 
terra , haviam attraliido a attencao de um dus homens mais 
iiotaveis desse tempo. Bernardo Palissy , esse oleiro artisla e 
sabio , quasi eslranho aos coidiecimentos depostos nos livros 
tao imperfeitos dessa epoca , bcbendo por isso mosmo toda a 
sua instrucgao na observacao directa da nalureza , precedia 
mais d'um seculo as pesquizas dos naturalistas. 

Revoltando-se contra a opiniao da mor parte dos sabios de 
entao , que consideravam as pelrilicagoes como brincos da 
natureza, e simples imitacocs dos seres vivos, Bernardo Pa- 
lissy declara positivamente que a pedra nao pode tomar a 
forma de uma concha , se o animal nao a construir. 

Combate por outra parte a opiniao, ja emiltida por Cardan, 
de que todas essas conchas e outros restos de animals ha- 
viam sido transportados pelo dibivio aos pontos da terra em 
que forain encontrados : « Eu sustento , diz cUe, que as 
conchas quando, sao petrificadas em muitas carreiras, foram 
formadas no mesmo logar , quando os rochedos nao eiam 
mais do que agua e limo. » 

Levandopor ultimo mais longe suas observagoes, collien o 
c desanhando as furmas dcssas petrific.igoes, accr.'sccnta que 
encontrou mais especies de conchas petrificadas do que as 
que existem vivas no oceano; que muitas sao de fonnas com- 
pletamente desconhecidas , e oiitras estranlias aos nossos 
mares vivem somente no das hidias e coslas de Guine, d'onde 
sao Irazidaspelos navcgadores. Nao parecem j;'i formuladasas 
fundamentaes ideas da palcontologia nestas linhas escriptas 
no 11 m do xvi seculo ? 

Todavia as ideas de Bernardo de Palissy , tao notaveis para 
essa epLca , passaram desapercebidas ; e nenhuma influcncia 



GRANDE PREMIO DAS SCIENCIAS PHYSIGAS. 529 

tiveram sobre os traballios dos naliiralistas do seguirite se- 
culo. 

XVII seculo com effeito, tao brilhanle pelos progresses 
do espirito hiimano nas letras , pliilosophia e mathematicas, 
nao occtipou-se no ponto de visla que nos inleressa, seniio 
com discussoGs sobre a origem dos corpos fosseis. As mais 
extravagantes hypotheses reinaram por m iii to tempo acerca 
da foimacHo directa desses corpos no meio das rochas que 
OS contem. Asshn a volta desta idea, que eram restos de seres 
organisados, que tinham vivido na snperficie da terra, des- 
truidos e sepullados depois por uma siibmersao ger'al do 
globo , deve ser considerada como uin novo passo para a 
verdade. 

Reinou esta ultima opini-io durante grande parte do xviu 
seculo. Todos os corpos organisados fosseis , conlidos nas 
differentes camadas do globo, eram attribiiidos ao diluvio 
universal , e considerados como um irrecusavel testemnnho 
dessa grande revolucao do nosso globo. 

Scilla.na Italia; Scheuchzer, Wolkmann, (iesner Walch 
na Allemanha ; Woodward e Brander, na Inglaterra'; Pallas' 
na Russia; Antonio de Jussieu , Bourguet , Guettard, em 
Franca; e muitos outros. que longo seria enumerar, fizeram 
conhecer, com mais ou menos exactidao , esses restos da 
antiga populacao da terra. 

A medida, porem, que esses fosseis eram melhor conhe- 
cidos, que as camadas que os encerrani miis estudadas 
tornava-se cada vez mais evidente a impossibilidade de re- 
fern- a sua origem a um acontecimento unico e de curta du- 
ragr.0 ; e pouco a poiico desapparecia a idea do diluvio como 
causa do todos esses depositos. 

Linneo attribuia-os ja a uma retirada lenlae prolon^ada 
do mar, que successivamente descobrira a superficie^'dos 
nossos continentes, phenomeno de que ainda Ihe offereciam 



630 RE\nSTA BRAZIUiraA. 

recentes vestigios as costas da Suecia. Biiffon considerava-os 
como productos de duas epocas diversas , prolongadas por 
milhares de annos. De-Luc, buscando harmonisar as obser- 
vagoes geologicas com a narrativa do Genesis, considera os 
dias da crea^ao como iDngos periodos, duranle os quaes, e 
de modo inleiramente distincto do diluvio biblico , se pas- 
saram os principaes phenomenos cujos vestigios se observam 
sobre o globo, e de que seria o diluvio o ultimo. 

Houve no flm do seculo passado uma tondencia em dis- 
linguir a formagao das partes superllciaes da terra em epocas 
mais ou menos nnnierosas ; fundam-se porem essas dislinc- 
goes antes em liypotheses do que em factos bem observados, 
e assaz numerosos para firmal-os sobro solidas bases, 

Multiplicavam-se no emtanto as observagoes geologicas: 
deSaussure, estudando com admiravcl talento a estructura 
tao complicada das grandes cadeias de montanbas ; Pallas , 
examlnando com rara sagacidade a constituicao geologica da 
Russia, fazendo-nosconbecer esses grandes mammiferos ainda 
sepultados no gelo das praias do mar glacial , abriam novo 
caminho, e tragavam aos geologos modelos que deveram 
buscar imitar. 

A distinccao das grandes epocas da formagao, caracteri- 
sadas, nao so pela natiireza e posigao das camadas que Ihes 
correspondem , mas pelas producgoes marinlias contidas em 
umas, pelosanimaes terrestres encerradoseai ontras, trazia 
a divisao da crosta da terra em terrenos primitivos , secun- 
darios e terciarios, como ja se nota nas Epocas da JSatureza 
deBuffon , e nos trabalhos de Pal as, de Saussnre, e Dr-I.uc. 

Mas nao existia ainda nesse tempo o estudo coinpieto da 
successao das camadas da superficie da terra , que faz da 
gcologia moderna uma verdadeira bistoria cbronologica do 
nosso globo. 

A idea da rctirada successiva das aguas do mar, que teriam 



GRANDE PREMIO DAS SCIENCIAS PHYSICAS. 531 

priraeiramente coberto o cume das mais altas montanhas, e 
nellas deposto os despojos dos seres qae a habitavam , idea 
que doiiiina geralmente durante grande parte do xvm se- 
culo , lornava-se cada vez mais contradictoria com os factos 
observados, e suppiinha liypotheses de difficil admissao. Nao 
tardoLi que mosfrasse o estudo profiindo dos paizes monta- 
nliosos que a presenga dos corpos fosseis sobre os ponlos os 
mais elevados podia explicar-se pela eleva^.ao dessas mon- 
tanhas de modo mais simples do que pelo abaixamento das 
aguas do mar. 

Nasceu dahi essa theoria da eleva^ao das montanhas, que 
deve a um dos nossos confrades suas leis e admiraveis desen- 
vQlvimentos. Permiltiu-lhe ella fixar a idade de suas diversas 
cadeias, e estabelecer a ordem chronolugica de sua apparigao, 
e tragar de modo seguro a origem dos principaes contornoa 
da conflguragrio actual do nosso globo. 

De maneira clarissima explica semelhante theoria as altera- 
gOes do estado piiysico da superficie da terra nas differente? 
epocas da sua iunda(;ao , mudancas que ligaram-se de modq 
tao intimo aos da natureza organisada. Apresenta alem disso 
essa simplicidade e unidade que, principalmente na natu- 
reza, tern cunho da verdade. 

As revolugoes e mudauras do estado physico da terra re^ 
sultam, segnndo ella, d'uma so causa, a liijuifacQao primi- 
tiva do globo e seu rcsfriamento gradual, plunomanos que 
nao poderiam ser hoje postos em duvida. 

Nao e mais necessario recorrer a elevagao geral do nivel 
dos mares para explicar a presenga dos corpos organisados 
fosseis ate perto do cimo das mais alias montanhas. Os ro- 
chedos que os contem, formados noseio do mar, ergueram-se 
com as montanhas de que fazem parte , ate a altura em que 
OS vemos; podem pertencer as formagoes mais recentes, e 
nao sao , como BufTon suppunha, restos dos mais antigos ha- 
bitantes do globo. 



532 REVISTA BRAZILEIRA. 

Vinios que miiitos naturalistas do ultimo snculo haviam 
reconhecido quo lodos os seres organisados fosseis nao ti- 
nham vivido coiUeinporaneamenle na terra, e muitas vezes 
distinguiram as producgoes marilimas dos terrenos secun- 
darios dos seres niais analogos aos da epoca actual , depostos 
iios terrenos lerciarios e nas graiidi'S alluvioes. Ouao lohge 
porem cslavam essas indicagoes geraes do exacto conheci- 
inenlo dos seres proprios a cada unia das idades da superticie 
da terra ! 

Coniegam com o nosso seculo as primeiras applica^oes da 
paleonlologia a geologia. Viram-na nascer quasi que siuiul- 
laneamente a Franga e a Inglalerra. A distincgao mais minu- 
ciosa dos terrenos sedimcntarlos nesles dous paizes devera 
realmente fixar a altengao dos geologos sobre os corpos orga- 
nisados fosseis que encerram ; identico porem nao foi o seu 
ponto de vista. 

Em Frangia foi o proprio solo do valle de Pariz , que desde 
comego deste seculo constituiu-se objecto das investigagoes 
de Cuvier e de men pai ; depois de dez anrios de pesquizas 
demonstraram no Emalo sobre a Geogvaphia Mineralogica 
dos arredores de Pariz (I), que cada una das catnadas que 
constiluem nossas collinas encerram corpos organisudos 
fosseis que Ihe sfio proprios ; que esses fosseis se encontram 
nas mesmas camadas a grandes distancias , e podem servir 
para caracterisal-os ; devendo por ultimo conciuir-se da na- 
lureza desses seres que uma parte das camadas foram for- 
madasnomar, e outras nas aguas doces , que alternativa- 
mente , e por varias vezes, cobriram o nosso solo. Facil e de 
reconhecer em semelhante estudo do valle parisiense, Ira- 
balhos de geologos a qui'm eiam familiares lodos os ramos 
da hisloria natural, e quedelles sabiam fazer feliz e fecunda 
applica^ao. 

(1) Lido no Institiiio cm 18i0, e publicado ^m 1811. 



GRANDE PREMIO DAS SCIENCIAS PHYSICAS. 533 

Alguns annos depois da publicaQao do Ensaio da Geologia 
dos arredores dc Pariz , um engeiiheiro ing^ez, William 
Smith, no qiial haviam permiltido sens trab.ilhos fazer um 
pi oi'iindo estudo do solo da Inglaterra , e reconhecer a im- 
portancia dos corpos organisados fosseis , como signaes dis- 
tinctivos das formagoes geologicas, publicon igiialmente o 
resultado de suas observaQoes (I), onde assignalou as especics 

(I) A primeira piiblicacao de William Smith foi a sii i carta geologica c!a In- 
glaterra e do paiz de Galles , que appareceii cm 1815, primelrotrabalho deste 
genero applicado a um grande paiz ," e que exiglra multiplicadas viagens e ob- 
fervagoes. Em 1816 comcQou a publica^ao d'uma obra iutllulada Slrnta iden- 
tified by urt/anized fossils, acompanhada de estampas representaiido os prin- 
cipaes fosseis dc cada uma das formacoes disllnctas por elle : nJio appareceram 
mais dij que quatro I'asciculos comprehendendo deziilo cstanpas in li." Abra- 
cam as formagoes desde o a-ageo london-clay ate o oolltho superior e o fuller's 
ra'lh. Em 1817, sob o titulode — .4 stratigrapliical syslcni of organized fossils 
in l\" , publicou sem figuias cnuuieracoes mais extensas dos corpos organisados 
fosseis desscs mesmos lerrenos. 

As outras obras de William Smith sao cartas geologicas locaes , posteriores as 
publicacoes precedentes. Nestas duas obras , cujo assumpto prende-se ci questao 
que nos occupa , nao indica o autor ter o menor conhecimento da Geograplna 
Mineralogicn dos arredores de Pari^ , publicada comtudo em 1811. 

O Sr. .lohn Philips , seu sobrinho e discipulo , professor de geologia em Du- 
blin , que Ihe consagrou uma mui minuciosa noticia biographica {Memoirs rf 
{William Smith , London 1818) , e que deu uma lista das suas obras, nao cita 
outras. mrsmo d;i-se coui o Dr. Filton, n'uni artigo sobre o mesmo sabio » 
publicado na Bevista d'Edimburgo e reproduzido no Philcsophicol Mcejtaire 
(Agosto, 1832) , no qual exprime o pczar de que nenhuma communicaQri;! lenha 
sido dirigida 'i Sociedade I'.eal , e dos uutros corpos scientilicos haja eslabi.lccido 
de modo positivo os resultados das pesquizas deste geologo em dpocas anteriores 
lis pubMcacoes que havemos ciiado. 

Causa pois s >rpresa , que o Sr. Lyell , na Historia da Geologia , que faz parte 
dos sens Prinripios de Geologia , indique at(? na sua ultima ediqao William 
Smith como tendo publicado em 1790 , isto 6 , vinte e cinco annos antes da 
primeira publicarao que Ihe altribueni sens biograpbos , um quadro das camadas 
da Inglaterra : Tabular view of Ihi- V.rislk strata, no qual se acharia esta ap- 
plicaQao da paleoniologia a geologia stratigraphica. 

Tudo denuncia um erro de data, grave todavia neste ponto da scioncia. 
William Smith, nascido em 1769, foi encarregado, de 1790 a 1800 , de su- 



534 REVISTA BRAZILEIRA. 

caracteristicas dos terrenos de sedimento da Inglaterra, cuja 
distinccao e ordem de siiccessao conlribiiira elle para esta- 
belecer ; ve-se poiem que esses fosseis sao antes considerados 
como indicios proprios para reconhecer as camadas que en- 
cerram , do que como indicacao da natureza da creagao de 
cada uma dessas epocas de formacao. 

Geralmente admiltidos foram logo os novos principios : 
sua applicagao propagou-se com rapidez pela FrauQa, In- 
glaterra, AUemanha , Italia e Estados-Unidos ; e no espa^o 
de poucos annos, pelo concurso dos sabios de todos ospaizes, 
boas descripQoes e figuras exaclas fizeram conhecer os vege- 
taes e animae? proprios a cada uma das terras que os geo- 
logos distinguiam por sua posi^ao relativa na superficie do 
globo. 

Fornecia a paleontologia de.-criptiva materias destinadas 
para comp6r tloras e faunas das epocas contemporaneas as 
diversas formacoes geologicas. Emquanto foram mui restrictos 
esses catalogos , nao comprehendendo senao urn limitadis- 
simo numero de animaes e vegetaes contemporaneos dos de- 
positos que encerram seus despojos, ou emquanto esses seres, 
mal conhecidos em sua estructura essencial nao puderam 
com cerleza ser comparados com os que acluainiente vivem , 
nao foram mais do que especies de signalamenlo para cada 
uma dessas epocas; nao se p6de lirar nenhuma consequencia 



perintender os trabalhos de explora(;ao das niinas de carvao de pedra e canali- 
sacao, que dirigirani a sua altencSosobre a stralificaQao dos terrcuos secundarios, 
e sobre os fosseis que contain , e parece inesmo , a vista de uolas e cominuni- 
cac6e5 verbaes , que reconheceii ja por essa ^poca a impovtancia dos corpos 
organisados fosseis como serviiido d ■ caracleres a cci las cauiadas. 

A historia, port^m, dos gi'ologos do continenle , moslraria igiialinente que 
suas ideas eram dirigidas para o mesmo alvo uiuilo leinpo antes das pnblicai^ocs 
que poderiatn fazer conhecer ao publico seus resultados. Nosso unico fiui i, pois, 
estabclecer que as ptiblicafoes de William Smith siio muitos annos posteriore 
4s de Cuvier e Brongniart sobie o valle de Pariz. 



GRANDE PREMIO DAS SCIENCIAS PHYSICAS. 535 

verosimil sobre a natureza do reino aninml , oa vegetal , em 
uma epoca determinada da formaQao da crosta do globo ; 
factos novos nao tardariam em vir conlradizer resultados ob- 
tidos precedentemente , e as generalisagoes so eram permit- 
tidas como simples ensaios, a que cumpria renunciar, a 
proporrao que o exigissem novos descobrimentos. De tal 
sorte porem se multiplicaram ultimamente as observagoes , 
que licito e caminhar com seguro passo no lerreno das ideas 
geraes. 

Em muitos casos nao bastou reunir os restos fosseis que 
podiam offerecer ao colleccionador as exploragoes feitas no 
ponto de vista industrial; em varios pontos da Europa, 
sabios, cheios de dedicagao , fizeram explorar rochas ricas 
em fosseis , no unico fim de reunir da maneira a mais com- 
pleta esses representantes d'uma antiga creacao. Para asse- 
gurar a sciencia a conservagao desses restos da antiga popu- 
lagao da terra, vimos o Estado adquirir n'um departainento 
da Franca um terreno que contem immensa quantidade desses 
fosseis, e fazel-os extrahir com o cuidado i^ecessario para 
a reconstrucgao dos sens esqueletos. Desses trabalhos pro- 
seguidos com ardor no mundo inteiro da Siberia a Nova- 
Hollanda , do Canada as Terras Magalhanicas , resultararo 
progressos inteiraniente imprevistos na sciencia dos fosseis. 

Faunas e floras mais completas, comprehendendo muitas 
vezes milhares de especies , nos representam melhor o com- 
plexo dos seres organisados de cada epoca ; specimens mais 
perfeitos permittiram melhor estudar a organisagao desses 
seres, e estabelecer de maneira mais precisa suas relacoes 
com OS que aclualmente vivem. P6de-se emflm deduzir de 
seu todo leis mais cerlas sobre o seu modo de successao , e 
sobre as suas relacoes provaveis com o estado physico do 
globo durante cada periodo da creacao. 

Per certo que longe esta esta sciencia de haver chegado a 



536 REVISTA BRAZILEIRA. 

seu termo ; novas descoberlas virao enriquecel-a ; o numero 
das especies , do 30,000 elevar-se-lia bem depressa a mais 
de 50,000 ; serao coniplelados alguns fragrnenlos iinp^rfeita- 
mente couliecidos, e algurnas niodificagoes podera experi- 
mentar a sua classificagao ; a massa porem dos nossos conhe- 
cimentos a sen respcito e assaz iiiiportante para que chegass(e 
em opporliino inoineiUo a (jueslao proposta pela Academia : 
porque a sua solugao agora , ainda inipcrfeita em certoi* 
pontos,p6de offerecer novos horisontes , dar iitil direccao 
as futuras indagacoes, e estabelecei as balisas d"uma bistoria 
mais conipleta do globo. 

Mas para chegar a esses rosultados geraes , fora preciso 
orgaiiisar catalogos exactos dos vegetaes e animaes cujos 
restos estao encerrados en cada uma das camadas consli- 
tiitivas do globo ; assegurar-se da exactidao de sua determi- 
naQao , e da nalureza exacta do torreno que as contem ; 
formando dest'arte faunas e floras das epocas correspondentes 
a cada formagiio geologica. 

Era estc longo e diflicil trabalbo que devera servir de base 
a lodos OS raciocinios e gcneralisai^oes que mais tarde poderia 
estabelecer autor. Cuiiipria calcular sobre mais de 30,000 
especies de animaes e vegetaes, repartidas em vinte e cincoa 
Irinla epocas difTerenles de formagao. bicomplelo e inexacto, 
todas as consequencias lornavam-se falsas ou duvidosas , e 
essas conseijuencias formavam a parte mais i : portanle d'um 
trabalbo deste genero. 

Essas minuciosas pesquizas, esses catalogos com cuidado 
organisados, essas coiisequencias deduzidas com prudencia 
e rigor, compativeis em assumplos taes , acbou-as a com- 
missao na grande obra iiianuscripfa , dedicada a Academia 
pelo Sr. Hroini , professor de hisloria natural na universidade 
de Heidelberg , sabio assaz conbecido por todos os geologos 
e paleontologistas, pelos seus accurados estudos nesta materia. 



GRANDE PREMIO DAS SCIENCIAS PHYSICAS. 5^7 

Differiinos apenas em alguns poritos fins opitiiocs omittidas 
pelo sabio alitor da Memoria coroada; lodos os factos que por 
elle nao puderam ser verificados , aceitoii-os na fe dos tra- 
balhos do outros paleonlologistas ; e os inais celebres iiomes 
garantem as suas determinaroes. Nao raro e descobrirem-se 
divergencias de opinioes eiitre os mais afaiitados naluralistas 
sobre cerlas furmas siiigiilaies desses sores destrnidos (1), 
ou sobre a posicrio de terrenos problematicos ; e com justiQa 
nao devem ser exprobrados ao autor algniis eqnivocos que 
em scmelhanle trabalho possam ser encoiiUados. 

Seu principal merito e o de ter sabido grupar esses factos 
com aptidao para mostrar sua mulua correlacao , e com as al- 
teragoesdo cstado physico do globo, d'oiide facil seria deduzir 
oiitras consideracoes geologicas. E o que buscaremos de- 
monstrar, expondo neste relatorio aigiins dos [irincipaes re- 
sultados a que as investiga^oes paleontologicas conduziiam , 



(1) JNcste numcro citaremns o que no trabalho do Sr. Bronn diz respeito As 
sligmnrins, que faz repieseutar urn papel muilo iinportante na formacao do 
carvao de pedra. 

O Sr. Bronn, adoplando as id^as ja antiquadas dos Srs. LindJey e Goeppert , 
considera as sligmarias coino vegetaes de forma especial , ciijo inodo de desen- 
volvimento seria inteiramenle insolito , e que propagando-se em grande numero 
nos paizes dessa (?poca, teriam contribuido mais do que qualquer outra cousa 
para a formacao do carvao do pedra. Numerosas observacoes, por^m , e que 
quotidianamentc se confirmam, est.ibelecem que as stiymnrias nao sao vegetaes 
complelos e de genero particular , mas raizes prolongadas horisontalmente de 
grandes \egetaes arborescentes do genero sigilinna ; podeni ter essas raizes 
coDcorrido para a formacao dos jazigos dc carvao de pedra, mas suas hastes 
volumosas deveram reprcsentar urn papel mais importante nessa produccao, seni- 
fallar dos ranios c das folhas de lanlas planias di\('rsns (jiie por ve/cs f-e rero 
nhece no masmo carviio de pedra. AccresciMitarenios ((ne a esliiiclnra analomica 
das stigmarias , bem conhecida hoje , torna-as ponco proprlas para fornecer 
niuila niali'rii carbunculosa, porque nao possuem ni;iis do que nm eixo lignoso 
^ mui pouco considera vel, relalivamenle ao seu volume total, cuja maior parte 
€ formada pelo tecido cellular. 



538 REVISTA BRA?ILEIM. 

e que mais importancia offerecem para a historia do dosjep- 
volvimento dos seres vivos do nosso globo. 

Um dos principaes resultados dos modernos estudos pa- 
leontologicos foi provar que cada formagao geologica conteni 
muitas vezes fragmenfos de seres organisados completaraente 
differentes dos das outras formagoes, eque'essas mudangas 
na natureza dos seres vivos se renovaram por varias vezQs 
durante a successao total das camadas sedimentarias que 
form am a superficie da terra. 

Como se operaram essas successivas mudariQas ? Foi por 
uma destruigao simuitanea e completa de todos os seres que 
viviam sobre a terra em uma epoca determinada , e pela sua 
substituiQao por um aggregadode seres differentes? Ou entao 
uma parte somente das especies que formavam a populaQao 
do globo foi deslruida em um momento aprazado , tendo a 
outra parte continuado a viver misturada com nova popu- 
lagao? J\'uma palavra , o renovamenlo dos seres vivos foi 
completo e siniultaneo, ou parcial e successivo? 

E esta ultima opiniao a adoptada pelo Sr. Bronn, apoiado 
em numerosos factos , e reconhecendo todavia que em cada 
passage!)) d'uma nova formaQao, istoe, d'uma epoca geolo- 
gica particular, a proporc^o das especies destruidas e das 
novas que as substituem e quasi sempre mui superior a das 
especies que sobreviveram as causas de destruigao , e que 
em certos casos o complexo dos seres organisados parece 
ter cessado de existir para dar logar a evspecies totalmente 
diversas. 

Conduz-nos esta questno a outra mui debatidae quepren- 
de-se as mais sublimes theorias da philosophia natural ; os 
seres de varias formas (jue successivamente apparecem §obre 
globo sao resullado do nova creagao , ou descendentes 
modificados e Iransformados de antigaS especies hoje ex- 
tiuctas ? 



GRANDE PBEMIO DAS SCIENCIAS PHYSICAS. 539 

Sr. Bt-onn, cuja opiniao a tal respeito de bom grado 
aceitamos, mostra quanlo este ultimo modo de explicar a 
producQao das especies . generos, e muitas vezes ale classes 
Inteiras de animaes e vegetaes , completamente differentes 
das que Hies precederam , esta em contradic(jao com todos os 
factos conhecidos e todas as leis da natureza organisada tal 
qual agora a vemos. 

Nao se trata realmente dessas ligeiras modificaQoes que 
poderiam transformar uma especie n'outra vizlnha, e que 
entrarjam quasi nessas mudan^as que as variagoes das con- 
diQoes physicas, ou a influenciado hoinem podem iinprimir 
em nossas racas domesticas. Sao novas formas, typos de or- 
ganisagao completamente novos cuja origem deve ser pro- 
curada em seres totalniente diversos. 

Supp6r que um passaro, ou um mammifero tira a sua origem 
ti'um peixe, ou d'um reptil; suppor ainda que um pequeno 
mammifero insectivoro, como os descobertos nas calcarias ju- 
rassicas, e o tronco d'onde ter-se-hia mais tarde derivado um 
elephante, ou um rhinoceronte, constitue uma extravagante 
theoria, que nenhum facto positivo corrobora , e que per 
ultimo conduziria a esta consequencia , simullaneamente re- 
pellida pela religiao . pela sciencia e pela philosophia , de 
que homem , que por ultimo apparece, como para coroar a 
obra da creacao, nao seria mais do que o resultado de alguma 
transforma^ao das raf;as animaes que o precederam. 

Addicionemos a isto , que o estudo attento da successao dos 
sores nos diversos periodos geologicos nao e de modo algum 
favoravel a semelliante hypothese, que para ter alguma vero- 
similhanca, devera mostrar-nos as transigoes desses seres 
successivamente modificados, e permiltir ao zoologo,ouao 
botanico estabelecer uma serie de anneis que tivesse al- 
guma probabilidade. 

No tiieio da obscuridade que cerca taes mysterios , e que 



540 REVISTA BRAZILEIRA. 

clebalde iiilenta o nosso espirito lobrigar, reconhecemos que 
inenos difficil e para a nossa intelligencia conceber que o 
poilcr (livino , que na terra creou os primeiros seres vivos, 
nao haja repousado, e que continue em outras epocas geo- 
logii-as a exercer o mesino poder creador , iiiiprimindo ao 
coiijuncto dessas successivas creac-oes os caracteres de gran- 
deza e unidade, que o naturalista , mais do que os outros 
lioiiieiis, aduiira em tOilas as siias obras. 

Qui(;a se orij^inara a hypolliese , que acabamos de com- 
bater, d'um principio verdadeiro, mas cuja generalidade foi 
todavia exagerada ; isto 6 , o de aperfeicoamenlo gradual dos 
seres organisados desde os uiais remolos tempos ate a pre- 
sents epoca. 

Cerlo e que lanto no reino animal como no vegetal co- 
mecou a populagao da terra por individuos pertencentes a 
classes geralmente considcradas como as mais imperfeitas, 
ao passo que as mais perfeitas so appareceram em tempos 
relativamenle mais posteiiores. 

Assim OS mais anligos terrenos sedimentarios so conteni 
restos de animaes invertebrados e plantas cellulares, cousi- 
deradas como fazendo parte das mais simples ramiticagoes 
destes dous reinus. Nao tardaram em seguirem-se-llies mais 
perfeitos animaes e vegetaes; osmammiferos, porem, no reino 
animal , e as [)lantis plianerogamas, no vegetal; admittidas 
como occupando a mais insigne ordetn nos dous reinos or- 
ganicos, so se desenvolveram em epoca mais recente no ponto 
de vista geologico. 

Somos portanto induzidos a admittir que uma lei gcral de 
aperfeicoamento dos seres organisados presidiu as succes- 
sivas creacocs (jue babilaram o nosso planeta ; mas , se e ver- 
dadeiro em these gcral este principio , e encarando unica- 
mente as grandes divisoes dos dous generos organico.s deixa 
de ter tao positiva applicagao , quando examinada cm parti- 



GRANDE PREMIO DAS SCIENCIAS PHYSICAS. 541 

cular cada classe do reino animal e vegetal, e muito enganar- 
nos-hiamos se considerassemos o complexo dos seres que se 
succederam nos differcntes periodos geologicos como for- 
mando uma serie regular do simples ao composto. 

Ainda mesmo admittindo ossa geral tendenciapara o aper- 
feicoamento successivo dos seres por uma longa serie de 
tempos geologicos, ve-se que alterou-se ella em sua marcha 
regular por urn segundo principio muitasvezespreponderanle, 
da apropriagao dos seres as condicoes de existencia a que 
erara submettidus em cada epoca. 

Nao so nos mostra o estudo da distribuic-ao geographica 
dos enles que vivem na superficie actual do globo. que cada 
especie requer certa reuniao de condigoes physicas pjra poder 
existir e perpetuar-se ; mas tambem que algumas fatnilias de 
animaes, ou vegetaes nao podem viver senao em determi- 
nadas situagoes. Assim, por exemplo, as palmeiras, bana- 
neiras, e muitos outros vegetaes, so podem viver em climas 
calidos; 03 grandes panchydermes , elephantes , rbinoce- 
rontes, hippopotamos, sao submetlidos as mesmas condicoes 
de existencia. mesmo acontece aos habitanles dos mares: 
nao so as especies, mas tambem os generos das regioes tro- 
picaes sao diversos dos dos mares polares , como certas fa- 
milias so vivem no meio do oceano e longe de todas as praia'^, 
emquanto exigem outras mar pouco profundo e vizinhanga 
de costas. 

Deveram necessariamente intluiridcnticas influenciassobre 
osseresorganisados do velho mundo,e o estado particular 
da superflcie terreslre em cada epoca geologica devera sem 
duvida oppor-se a existencia de detenninados grupos de 
seres, favorecendo ao contrario o desenvolvimenlo de outras 
familias. 

Conslitue estudo dessas diversas condicoes physicas, e 
de sua influencia sobre a natureza dos animaes e vegetaes 



542 REVISTA RRAZILEIRA. 

em catla epoca da formagao da crosta terrestre, uma das 
inais importantes partes da Memoria coroada, a que deu o 
sen aiilor mais amplo desenvolvimento, e onde maior somma 
de novas ideas apresento. Deiiionstra, v. g., que em cada 
epoca dependiam as condigoes de existencia a que eram os 
seres vivos sujeitos : 1° , da natureza da atmospliera , que in- 
fallivelmente devera modificar-sc em differentes epocas per 
erupcoes gazosas , resultantes dos phenomenos plutonicos, ou 
volcanicos. e pela propria influencia dos seres organisados,; 
2°, da mesma teniperatura da terra , que em epocas vizinhas 
ao seu estado primitivo era mais elevada e tornava menos 
sensivel nos seres orLranisados as difTerengas dependentes das 
latitudes o da diversidade das estagoes ; da extensao relativa 
dos mares e das terras ; bem como da profundidade das pri- 
meiras e eievacao das mont.anhas qn > alteravam a natureza 
do clima d"um mesmo logar em radri epoca geologica; flnal- 
mente , o que o Sr. Bronn chama relagoes sociaes , ou antes 
de associacfio , isto e , as relagoes que existem de modo ne- 
€essario entre diversos seres, dos quaes estao uns na depen- 
dencia dos outros. 

Acha-se confirmada, por numerosos factos fornecidos pela 
moderna paleontologia, a influencia dessas diversas condi- 
Qoessobre a existencia, ou desenvolvimento maior. ou menor 
de certos seres em cada epoca geologica, e que a priori podia- 
se quasi prcver; e se rapidamente soguimos a progressao dos 
Xempos e das rcvoliicoes gcologicas desde as epocas as mais 
remotas, em que appaiece a vida na superficie da terra ate 
OS nossos dias, reconheceremos a acgao simultanea dessas 
diversas causas sohre a natureza dos seres vivos que succes- 
sivamente habitaram-na. 

Nao e do nosso inluito o seguirmos essa longa hisloria do 
mundo organisado em sua serie de epocas dislinclas , reco- 
iihecidas pela geologia. Basta-nos assignalar as mais nolaveis 



GRANDE PREMIO DAS SCIENCTAS PHYSTCAS. 543 

mudanQas , operadas nos tres principaes periodos a que po- 
dem-se reduzir as numerosas epocas geologicas : o corres- 
pondente as mais aiitigas formacoes sedimentarias , o secun- 
dario e o terciario. 

Provam-nos todos os phenomenos physicos , relatives a 
formacao do nosso globo , que nos primeiros tempos da con- 
solidagao da sua crosta devera apresentar-se elle sob a forma 
d'um espheroide cuja superficie, sem notaveis desigualdades, 
achava-se coberta, desde que o permittira o seu resfriamento 
d'uina camada de agua de espessura quasi uniforme , e sobre 
qual talvez nao se visse nenhuma particula de terra. Con- 
corda absolutamente com semelhante resultado a natnreza 
dos seres vivos nessa primeira epoca. Aqueiles , cujos des- 
pojos encontram-se nas primeiras camadas de sedimento , 
depositadas nesse mar primitive , sao effectivamente vegetaes 
e animaes maritimos. Nenlium ser organisado terrestre aii- 
nuncia-nos a existencia de terras , ergueudo-se sobre o nivel 
dos mares. Os vegetaes, pouco numerosos, em consequencia 
talvez da facil destruigao dos seus tecidos, fazem todos parte 
da familia dasalgas marinhas, um dos mais simples grupos 
do reino vegetal. Nao pertencem no comedo os animaes senao 
as mais simples ramifica^es do seu reino, e so mais tarde e 
que os peixes e os reptis vem completar esta fauna do pri- 
meiro periodo geologico. 

Muitos differem dos animaes que hoje exislem ; ligam-nos 
comtudo a sua estractura e analogias a mor parte desses mol- 
luscos que vivem longe das costas no meio do oceano nas 
regioes Iropicaes , ou as madreporas , que se erguendo do in- 
terior dos mares pouco profundos, formam ainda em nossos 
dias as ilhas de coraes do grande oceano. 

Revela-nos igualmente a natureza desses animaes que as 
aguas desse vasto mar tinham ja uma natureza analoga a dos 
actuaes, e que participava a suaalta temperatura da do pro- 
prio globo terrestre. 

R. B. III. d6 



544 REVISTA BRAZILEIRA. 

Demonstra-nos outrosim a geologia physica , que durante 
esse periodo de resfriamento da crosta do gloho, occasionou 
dobras e excrescencias, origem das primeiras cordilheiras. 
Deveram essas desigualdades da snperficie terrestre elevar 
acima do nivel das aguas porQoes de terra que formaram ilhas 
numerosas , e mais ou menos extensas. 

Veio a paleontologia confirmar taes resultados; porquanlo, 
pelo meiado e fins desse periodo, vem-se espagos maiores, 
ou nienores da superficie do globo cobrirem-se de abundante 
8 poderosa vegetaQao ; a qual por muito tempo se perpetuara 
por entre as alternativas de destruigoes e novas creagoes, 
jamais abdicando esse singular caracter de simplicidade e 
grandeza , que a differenQa mais do actual reino vegetal , do 
que acontece no animal para com as especies desses lon- 
ginquos tempos. 

Pertencendo esses vegetaes aos grupos menos perfeitos do 
respectivo reino, recordam-nos pela abundancia de certas fa- 
milias, principalmente a dos fetos, as furmas ainda predo- 
minantes hoje nas pequenas ilhas do grande oceano , confir- 
mando dest'arte o caracter insular da superficie terrestre nessa 
epoca. Os restos dessa primitiva vegetacao, accumulados pelo 
tracto dos seculus sobre o solo que Ibe dera nascimento , sao 
a origem dessas poderosas camadas de combustiveis que for- 
mam os nossos jazigos de carvao de pedra, e esse combustivel, 
producto das mais antigas florestas do nosso globo , e con- 
servado por milharesde annos no seio da terra, tornou-se em 
nossos dias um dos principaes elemenlos da riqueza e poder 
das naQoes. 

Durante esse primeiro periodo a elevagao da lemperatura 
devida ao calor peculiar do globo, a pouca importancia das 
primeiras eminencias sobre aguperficie terrestre, e a ausencia 
de grandes continenles e altas montanhas , deveram com- 
municar ao clima dos varios pontos do mundo singular uni- 
formidade. 



GRANDE PREMIO DAS SCIENCIAS PHYSICAS. 545 

E que evidentemente prova o estudo dos fosseis ; porque 
nesse periodo , mais do que em qualquer outro , os seres que 
viviam n'uma mesma epoca sobre as localidades mais remotas 
da terra apresentam identicos caracteres, ou mui passageiras 
differencas; nao selhes descobre apparentemente latitudes, 
nem longitudes, e sua semelhan^a permitte investigar directa- 
mente a unifonnidade quasi absohita de clima em todas as 
zonas do globo. 

Depois dos grandes depositos da epoca carbonifera , a po- 
pulagao marinha, que sob tao variadas furmas se mostrara , 
a vegeta^ao terrestre, tao poderosa e singular , que produzira 
as camadas de carvao de pedra , parece desapparecer com- 
pletamente, ao menos sobre a immensa maioria de logares 
da superfieie da terra , para ser substituida por seres mui 
differentes. 

Come^a o periodo secundario ; novas familias se mostram 
nos reinos animal e vegetal , e sobretudo a variedade das 
formas entre os animaes parece emrelagao com a variedade 
das condicoes physicas que a superfieie da terra comeca de 
apresentar. 

As numerosas elevaQoes que se succediam deveram tornar 
mais desigual essa superfieie , mais profundos os mares, mais 
altasas montanhas, e ilhas mais extensas ja oflfereclam um 
solo menos uniforme. Acarretava cada um desses phenomenos 
mudangas physicas na superfieie terrestre , que causavam a 
destruicao de grande parte dos seres exlstentes, que uma 
creaQao acabava de substituir. E todavia durante esta suc- 
cessao de diversas creagoes , correspondentes ao que geral- 
mente se chamam terrenes terciarios, que parece se completar 
reino animal nas suasprincipaes formas. 

As grandes classes do reino animal , ja existentes nos mais 
reraotos tempos , comprehendem entao formas mais variadas, 
mais perfeitas, e por vezes maisvizinhas as do mundo actual, 



546 REVISTA BRAZILEIRA. 

constituindo tambem typos mais singulares : taes sao esses 
reptis extraordinarios pela sua estructura e modo de exis- 
tencia que formam um dos mais notaveis caracteres dessa 
epoca. 

P6de-se logo no comeco de tal periodo reconhecer a exis- 
tencia de animaes da classe dos passaros , de que nenhum 
indicio encontramos nos terrenes mais antigos. Nada pos- 
suimos desses animaes , excepto assuas pegadas conservadas 
na areia das praias , lioje transformada em pedra-lioz , e que 
nenhuma duvida deixam acerca da existencia de ragas de 
passaros gigantescos. 

Assignalam mais tarde alguns raros fragmentos ossosos a 
primeira apparigao dosmammiferos, queapenasconsislemem 
algumas pequenas especies de pequenissimo tamanho,ede 
estructura assaz anoipala, para quepor muito tempo se iiajam 
conservado duvidas sobre a sua classificagao. Assim , pois , 
principia no fim do periodo secundario o reino animal a 
moslrar-se com todas as furmas que caracterisam suas grandes 
divisoes. 

Nao comprehende ainda o reino vegetal durante a mur 
parte desse longo periodo senao alguns grupos mais simples 
por sua organisagrto , havendo inteiramente desapparecido as 
familias singulares da epoca carbonifera, e diversificando 
muito as furmas que as substiluiram , das que ainda habitam 
nosso globo. 

Vem finalmente nos ultimos tempos desse periodo pequeno 
numero de especies , perlencentes a mais alias divisoes do 
reino vegetal, completar a totalidade dos grupos que o cons- 
tituem. 

P6de-se ainda crer que durante esse periodo secundario 
condiQoes physicas, mui pouco differentes umas das outras, 
reinavam na maior parte da superficie da terra; e que os di- 
versos climas, actualmente tao distinctos, o cram muito me- 



GRANDE PREMIO PAS SGIENCIAS PHYSICAS. 547 

nos entao ; por isso causa-nos verdadeira impressao a seme- 
Ihanga das formas, e ate da identidade de muitas especies, 
que na iiiesma epoca viviam em pontos os mais remotos 
do globo , na Eiiropa , Asia , Africa , e nas duas extremidades 
da America. 

A esse longo periodo secundario , testemunha do depcito 
de tao importantes forniagoes geologicas, desde a pedra de 
cantaria de Vosges ate a greda, e da renovagao tantas vezes 
reiterada das populagoes animal e vegetal do globo, succedem 
notaveis mudancas na constituigao physica da terra , e ao 
mesmo tempo na natureza dos seres que habitam-na. 

Augmentaram maiores protuberancias na superficie das 
terras emergidas ; formaram-se grandes ilhas; ergueram-se 
importantes cadeias de inontanhas ; rios e vastos lagos ac- 
crescentaraiu a extensao das aguas doces. Nao participando 
tanto docalor interno, submetieu-se a superficie da terra a 
mais immediata acgao dos raios solares ; modiflcaram a dis- 
tribuigao da temperatura correntes maritimas e atmosphe- 
ricas, determinadas pela extensao dos continentes ; pro- 
nunciaram-se cada vez mais as differengas dos climas, ea 
proporgao que nos adiantamos para o ultimo periodo , o ter- 
ciario , apiiroximi-se mais a terra ao sen estado actual. 
Dest'arte mostram-se os seres organisados com formas mais 
analogas com as que hoje existem , o que nao tivera log.ir nas 
epocas anteriores. 

Possuem representantes nas faunas e floras desse periodo 
todas as varias classes dos reinos vegetal e animal , e pouco 
difTere a sua proporg.ao das que ora se nos apresentam. Iden- 
tica differenca que agora notamos offereciam os seres organi- 
sados , conforme os logares que habitavam. Differiam entre 
si , como ainda hoje os animaes que viviam nas regioes do 
globo , onde estao actualmente a Europa, Asia, America , ou 
a Australia; sendo portanto evident® a influencia do clima 
sobre os seres organjsadoB. 



548 REVISTA BRAZILEIRA. 

No fim desse periodo os habitantes dessas diversas regioes 
pareciam ter ja recebido em grande parte os caracteres que 
essencialmente distiiigueni as acluaes faunas desses niesmos 
paizes. Apresentam-uos a Europa e a Asia os grandes pachy- 
dermes, elephantes, rhinocerontes, bippopolamos, que ainda 
habitam o antigo continente. Achamos na America do Sul , 
sob analogas furmas , giganiescos tatirs , tamanduas , pre- 
guicas, que ainda actnalmente alii exislem. Na Australia, 
muitos mammiferos fosseis reduzem-se a essa divisao de ani- 
maes marsupiaes tao caracteristicos da modcrna popula^ao 
dessa regiao. 

Ninguem se capacite porem que o aggregado dos entes que 
nessa epoca viviam tenha-se perpetuado ate hoje. Radicaes 
differengas apresentam-se a este respeito , conforme a natu- 
reza dos seres que analysamos. Procedem talvez da influencia 
dos meios em que viviam semelhantes seres, e do gran de 
perfeicao dos sens orgaos, que faziam-nos maisou-menos 
sensiveis a ligeiras differenQas nas condicoes physicas que os 
circumdavam. 

Assim, V. g., OS animaes marinhos, e particularuiente os 
das classes inferiores, paroce terem se perpetuado em grande 
proporgao desde a mais recente epoca terciaria ate hoje. Sua 
organisagao menos desenvolvida, sensibilidadc mais obtusa, 
e vida menos sujeita as variagoes que as circumstancias ex- 
ternas imprimem na atmosphera , podem explicar sua resis- 
tencia em face das influencias que bastaram para destruir os 
animaes e vegetaes das classes superiores , desenvolvendo-se 
uns e outros no nieio da atmosphera, e submettidos a todas 
essas variagoes do clima que ainda hoje limitam a mor parte 
de suas especies nas regioes assaz circumscriptas. Com effeito, 
attento examedos reslosdos mammiferos que viviam pouco. 
mesmo nos tempos mais recentes do periodo terciario, prova- 
nosque a mor parte desses animaes differiam de maneira bem 
notavel dos actuaes habitantes do nosso globo. 



GRANDE PREMIO DAS SCIENCIAS PHYSICAS. 549 

Alem disto, os limites geographicos dessas especies an- 
tigas,actualmenle destruidas.nao eram os de seus congeneris 
do tempo presente. Os elephantes, os rhinocerontes, os hip- 
popotamos, os tapires, as girafas, habilantes actaaes das 
regioes tropicaes, estendiam sea dominio ate as praias do 
Baltico e do mar Glacial. Prova-nos isto que , se nessa epoca 
climas differenles caracterisavam as diversas zonas da siipor- 
ficie lerrestre, nTio tinham ainda tornado seus limites actuaes, 
e por certo que inais elevada temperatura reinava entao em 
nossa zona temperada. que flnalmente distingue estes ul-- 
timos tempos do periodo terciario da epoca actual e ausencia 
do homem. 

Tudo na realidade tende a provar que o homem nao existia, 
ainda mesmo na epoca desse grande cataclysma que cobriu 
vastas extensoes do globo desse terreno d'alluviao, impmpria- 
mente chamado de diluvio, e no qual acham-se ossos de 
grandes mammiferos, hoje extinctos. Nenhum resto humano , 
nenhum resuUado da industria do homem mesclou-se a esses 
ossos nos depositos regulares, resuliantes dessa ultima grande 
revoluQao do globo. 

diluvio cuja narragao nos transmittiu a Biblia , e cuja 
lembranca conservaram todas as antigas tradigoes dos povo5 
do Oriente, seria urn aconteoimento posterior aquelles de que 
a geologia pode ate hoje verificar a existencia e fixar a ordem 
chronologica de maneira segura; seus vestigios teriam gcral- 
mente desapparecidoouse confundido com osphenomenosdi- 
versos que se produzem na superficie da terra desde a creagao 
do homem. 

Assim nao teria elle assistido a nenhuma das grandes re- 
voluQoes geologicas, que deixaram profundos vestigios sobre 
nosso globo , e todavia por sua intelligencia conseguiu 
distinguir essas revoluQoes, representay o estado do globo 
nas diversas epocas de sua formagao , e repovoal-o com os 



550 REVISTA BRAZILEIRA. 

seres que liabitavam ; obra inimensa, cujo piano, hoje em 
parte realisado , Iracava Cuvier , ha cerca de ciiicoenta annos, 
e cuja grandeza assignalava com eslas palavras , que fina- 
lisam sen Discuyso sobre as reoohiQdes do globo : 

Quao bello seria , diz elle , ter a^producgoes organisadas 
« da natureza em sua ordem chronologica , como possuimos 
« as principaes substaucias mineraes, como que gauharia 
« asciencia; daorganisacao os deseiivolvimentos da vida , 
» a successao de suas formas , a exacla determinagao das 
« que primeiro appareceraiii , o nascimento simultaneo de 
« certasespecies, sua destruigao gradual, instruir-nos-hiam 

* talvez muito maissobre aessencia doorganismo, do que 
t todas as experiencias que podemos tentar sobre as especies 
« vivas, eo homem,a quern apenas foi concedido um instante 

* de permanencia na terra, teria a gloria de refazer ahis- 
« toria de milbares de seculos que precederam sua existencia, 
» e de milhares de entes que nao foram seus contempo- 
t raneos. » 

(Extrahido des Comptes Rendus Hebdomadaires des Seances 
de VAcademie des Sciences de Paris). 



NOTICIAS SCIENTIFICAS E ARTI8T1CAS 



(Extrahimos da excellenle obra do Sr. Luiz Figueir , intitulada — Anno 
Scientifico e Industrial , as seguintes noticias que julgamos de summo in- 
tcresse). 

Pliyslca. 

NOVA EXPERIENCIA PARA TORNAR MANIFESTO MOVIMENTO 
DA ROTAgAO DA TERRA. 

Sr. PeiTot, engenheiro, communicou a Academia das 
Sciencias uma nova maneira de tornar manifesto o movi- 
mento da rota^ao da terra. Desde que o Sr. Foucault fez a 
magnifica experiencia que celebrisou o seu nome , e que 
consiste em tornar evidente, pela variagao d'uma pendula 
oscillante , o deslocamento da terra alraves do espago ; desde 
que pela invengao do gyroscopio tornou o referido physieo 
ainda mais simples e pratica a demonstragao do mesmo facto, 
publicaram-se diversos meios para chegar , com mais , ou 
menos exactidao , ao mesmo resultado. Porem de todos os 
methodos que foram propostos para fazer sensivel aos olhos 
movimento da rotagao da terra, omais simples, se n^o 
mais convincente , sera o que prop6z em 1859 o Sr. Peirot. 



552 REVISTA BRAZILEIRA. 

Para manifestar a movimento relative do nosso gbbo, toma 
uma simples celha redonda cheia d'agaa , segura por escoras 
bem lirmes , e fiirada no fun Jo e no centrocom um buraco 
circular para o esgoto d'agua. Segundo as theorias da hy- 
draulica, as particulas d'agua contidas na celha, dirigindo-se 
das extremidades para o centro pelo movimento do esgoto , 
em vez de seguir o raio que vai da circumferencia para o 
centro doliquido, devem-se encamlnhar paraadireita. Ora, 
se espalharmos na superftcie d'agua , e seguindo um raio da 
celha redonda, uma linha de pus, ou pequenos corpos fluc- 
tuantes, formados por exemplo, pela cera de carnauba , 
notar-se-ha que durante o esgoto d'agua , esse raio ao prin- 
cipio rectilineo, curva-se na direcgao d'uma linha cujas partes 
mais vizinhas ao centro inclinam-se insensivelmenle para a 
direita da posigao que teriam occupado se tivessem seguido 
exactamente o raio rectilineo. Quando chegam perto do centro 
de esguto, gyram em espiral, e o seu movimento , observado 
das bordas da celha, e ainda para a direita. A influencia do 
movimento da terra manifesta-se pois por essa direccao que 
tomam os corpusculos chegando ao centro do esgoto. 



VELOCIDADE DA PKOPAGACAO DOS SONS FORTES E FRACOS. 

Sabem todos que os sons fortes, on fracos, propagam-se 
com a mestna velocidade. Eis um facto que parece altestar o 
contrario : 

Em sua expedi^ao aos mares do norteo capitao Parry man- 
dara um dia fazer exercicio de arlilharia , com o fim de ex- 
perimentar a velocidade dos sons , e dcterminara que cada 
artilheiro nao fizesse fogo antes de haver recebidn ordem do 
official. Ora, muitas pessoas , slluadas a alguns kilometres 
de distancia, observaram que ouviam o ruido do canhao 



NOTICTAS SCIENTICAS E ARTISTICAS. 553 

antes de haverem ouvido a ordem para fnzer fogo , provando 
assim que o som da artilharia precedera ao davoz do official. 



INFLUENCIA DA MUSICA SOBRE OS BICOS DE GAZ. 

Observou-se que emquanto o gaz arde no orificio dos bicos 
uma especie de pulsagao, ou de augmento e diminuigao da 
corrente , produzia-sc , a proporgao que ouvia-se musica em 
um aposento illuminado a gaz. Ojornal inglez (]3^ IlhminaQao 
a gaz referiu uma curiosa observagao neste genero. Execu- 
tava-se com piano, violao e violoncello os grandes trios de 
Beethoven , e os bicos correspondiam por um movimento de 
chamma, marcando um compasso em harmonia com o das 
pegas ; e verificou-se que nao procedia tal movimento d'outra 
cousa senao da vibragao do ar pela musica. Pode este facto 
tornar-se assumpto de importantes estudos. 



Mecanica. 

COMMUNIGAgAO ENTRE OS VIANDANTES E OS GONDUCTORES 
DE TRENS NAS ESTRADAS DE FERRO. 

De ha muito que se buscam os meios de por os viandantes 
das estradas de ferro em communicagao com os conductores 
dos trens. Difficil e o problema ; porquanto , se forem dadas 
aos viandantes grandes facilidades para fazer parar o comboi, 
[troduzira isso demoras muito mais perigosas do que os 
accidenles pessoaes de que se desejam remedios. Achou um 
engenheiro inglez em 1859, simples e efficaz meio de obier-se 
semelhante resultado. Consiste esse meio em collocar sob're 
tender , no logar reservado ao foguista, um espelho no qual 



554 REVISTA BRAZILEIRA. 

venha reflectir-se o comboi inteiro. Gragas a esse espelho, 
podem conductor do trem e o machinista verem tudo o que 
se passa no comboi. Logo que apparecer um viajante, ou 
mostrar um len^o na portinhola do wagon , sera este signal 
conhecido, e podera parar o trem a ordem do conductor. Uma 
das vantagens de tal disposi(jao e que nao podera ser contra- 
riada pelas sinuosidades do caininho. 

Parece-nos excellente este systema para o servigo diurno ; 
sendo porem de difTicil applicagao durante a noite. Verdade 
e que pensa o inventor , que fixando duas lampadas nas duas 
extremidades das ultimas carruages do trem , permitlira a 
reflexao dessas lampadas sobro o espelho collocado no tender 
que aviste o conductor toda a extensao do trem , apezar da 
obscuridade da noite, tao distinctamonte como durante o 
dia. Nao partilliamos inteiramente da sua confianga neste 
ponlo : mas confessamos que seria ja um grande resultado o 
de dar durante o dia aos viandanles das estradas de ferro a 
faculdade de se relacionarem com o conductor do trem. Este 
meio , ha tanto tempo procurado , parece-nos haver-se por 
esle modo engenliosamente realisado ; e procederiam com 
acerto as nossas companhias de vias ferreas , se o submel- 
tessera a alguns ensaios. Possuem quasi todas as locomotivas 
sobre o tender grandes oculos postos n'uma vidraga , que 
servem para protegerem o conductor e o machinista contra o 
mao tempo : e, pois , diante dessas vidragas , que collocou o 
engenheiro inglez o seu espelho reflector. 



Clilinlca. 

A ALUMINIA EM FOLHAS. 



Um batefolha d'oiro de Pariz , o Sr. Degousse , conseguiu 
reduzir a aluminia a folhas tao delgadas , como o ouro e a 



NOTIGIAS SGIENTICAS E ARTISTICAS. 555 

prata , e por consequencia a produzir p6 d'aluminia tao fino 
como dos raetaes preciosos. Grandes difficuldades apre- 
sentou semelhante operagao : o recozido d'aluminia deve ser 
bem frequente ; nao podendo porem ser feito pelo niethodo 
ordinario ao ouro e a prata , cumpre empregar o fogo d'um 
braseiro. Simples e commum e batedura. Dest'arte substituira 
em muitos casos a folha d'aluminia a da prata , e ainda que 
menos branca , sera menos susceptivel de alteragao. 



Arte de eonstruc^oes. 

PONTE SUSPENSA SOBRE NIAGARA. 

Acaba de terminar-se a gigantesca obra que devera ligar na 
fronteira do Alto-Canada o caminho de ferro do Estado de 
New-York ao do Canada Oriental, fi uma ponte suspensa que 
pretendeu-se langar sobre o Niagara , a curta distancia das 
celebres catadupas desse grande rio. 

Observada das catadupas , essa ponte, ou ferreo carril, que 
esta a 250 pes acima do nivel d'agua, parece inteiramente 
incapaz de supportar o peso d'uma locomotiva , puxando 
sens carros carregados de 200 pessoas : e nao obstante des- 
empenha ella essa tarefa diariamente. Verdade e que nao 
podem OS viandantes atravessarem essa ponte sem sereni 
acommeltidos d'uma verdadeira vertigem : tendo assim idea 
das sensaQoes que devera experimentar o famoso acrobata 
Blondin, quando realisava em 4859 sobre uma corda esten- 
dida acima das cataractas desse rio , rasgos de agilidade e 
audacia que arrancaram a admiragao enthusiastica e os fre- 
neticos hurrhas demilhares de Americanos. 

A ponte suspensa de Niagara e de dous andares , o que Ihe 
da tanta seguraaQa quanta se pude esperar da ponte mais bem 
suspensa , permittindo-lhe resistir a acQao dos trens e a vio- 



556 REVISTA BRAZILEIRA. 

lencia dos furacoes. Quando uin trem cheio de mercadorias 
carrega a ponte com o peso de 326 toneladas , e apenas a de- 
pressiio de dez pollegadas. Tem 800 pes de comprida , e os 
cabos que a suspendem sao de fio d'ago. 

Serve a ponte inferior para a passagem dos peoes, caval- 
leiros , carruagens , etc. ; sendo a superior exclusivamente 
destinada aos combois do caminho de ferro. Desde a sua con- 
clusao nenliuma deterioragao experimentou, nenhuma repa- 
ragao foi-Ihe necessaria: e mostra mesmo o constructor tal 
confianga em sua obra, que assevera que nem o uso ordiuario 
podera alterar sensivelmenle esta magnifica ponte suspensa. 



Hygiene. 

ACCAO DO CHUMBO SORRE TABACO. 

Ha annos que notara o Sr. Chevallier que o envoltorio de 
chumbo de que se servem alguns negociantes para guardarem 
rape oxyda-se ao contacto do fumo, e communica-liie pro- 
priedades venenosas. Sr. Felix Boudet quiz tratar directa- 
menle desta questao, e assegurar-se urn envolucro de chumbo 
pode por seu contacto, mais ou menos prolongado, commu- 
nicar-lhe propriedades venenosas. 

Introduziu o referido Sr. Boudet certa porgao de tabaco 
n'um sacco de chumbo: coUocou-a n'um quarto, separando 
cada camada de tabaco por discos mui delgados de chumbo. 
Suspendeu depois uma folha de chumbo em uma campona de 
vidro, debaixo da qual puzera uma larga capsula cheia de 
tabaco , de tal sorle , que o unico vapor do tabaco pudesse 
actuar sobre o vidro. 

No fim de algum tempo estava o chumbo rapida e forte- 
mente alacado em cada uma das tres condiQoes experimen- 
taes. chumbo em contacto com o tabaco desmaiava imme- 



NOTICIAS SCIENTIFIC AS E ARTISTICAS. 557 

dialamente, apresentando uma superficie descorada, e na 
qual podiam-se com facilidade observar com a leiite algumas 
manchas esbranqiiicadas. A acQao causada pelo vapor do 
tabaco era muito menor, posto que evidente, e a superficie 
metallica exposta directamente a esse metal cobria-se d'uma 
especie de pennugem esbranquigada que amortecia o seu 
brilho. As porgoes de p6 deslacadas das superficies metalUcas 
encerravam certa quantidade de parcellas esbranquigadas. 

Parte do sacco de chumbo, limpo com cuidado e desem- 
baragado das parcellas de tabaco que adheriam-lhe, foi lavada 
com agua distillada , e nessa agua reconheceu-se, por meio 
de reactivos, a presenga d'um sal de chumbo em dissolugao. 
exame mais profundo da substancia branca formada na su- 
perficie do metal demonstrara que era composta de sub- 
acetalo de chumbo. 

Resulta destas observagoes do Sr. Boudet que nos saccosde 
chumbo , nos quaes se guarda o tabaco em p6, pode formar-se 
sub-acetato de chumbo, que , desprendendo-se com facilidade 
do metal, mistura se com o tabaco. Essa mistura , introduzida 
nas ventas, daria logar a uma entoxicagao chumbaria, e po- 
deria causar graves accidentes. 

Haviam os factos feito d'antemao presentir esta conclusao. 
Acha -se na Gazeta Hebdomadaria de Medicina de 31 de Julho 
de 1857, observagoes do Dr. Mayer de Berlim, que mencionam 
cinco casos de envenenamento e paralysia saturnina , pro- 
duzida pelo rape, que conforme o uso mui vulgarisado na 
Allemanha, fora conservado em saccos de chumbo , e entregue 
neste estado aos consumidores. 



INDICE 

DOS ABTIGQS CX)NTIDOS NO N.° 9. 



EsTUDOs DE An\lvsk Mathematxa. — Formulas tie Intcrpolaruo. — Sprics 
infinitas. 

EcONOMiA POLITICA. — A(lao Smith, traduc^ao do Dr. M. dc Oliveira Fauslo. 

AsTRONOMiA. — Nola sobre as ol)sorva(jocs pliysicas do comcta doscobcrto fin 
Ulinda a 26 de Fcvcreiro dc 1860, por Emm. Eiais. 

Sobrc dous pheiiomenos notaveis obscrvados na provincia dc Pcrnandjiiro 

cm 11 de Abril de 1860 , por Emm. IJais. 
Eiemcntos parabolicos da orbila do grande comcla dc 1860, por Emm. l.iais. 

Posicoes do comola de .'j dc .TiiUio dc 1860 , pelo Vr. Antonio Mannpl dc 
Mello. 

Cantos Epicos. — Ypiranga , por J. Norl>crto de S. .'?. 

Obras do Diabimio da mao flkada. — 1" c 2" Folhetos. Obra incdita de 

Antonio Joseph da Silva , obra acliada por diligencia do Sr. Manoel de 

Araujo Porto-Alegre. 

BiocriAPMiA. — Vr. lYancisco dc S. Carlos, polo Conego Or. J. C. Fernandcs 
Pinlieiro. 

<;eologia. — riiscnrso pronunciado pclo Sr. Eiias de tcaumoni, prosilento d.i 
sociedadc Gcographira dc Pari/. 

Paleomologia. — P.clalorio tkcrct do grande prcmio das sciemias plivMca- 
para o anno dc 1856, lido na scssao de 2 de IVvereiro da Aeadeniin das 
Scienci-iS de Pariz. 

^OTIc;AsSclE^TIFlr.As E Artisticas. — 1'hy.sica : Nova oxperiencia para lornar 
nianiresloo movimento da rotaeao da terra; Velocidade da propagarao dos 
sons fortes c fracos ; liilliieneia da ninsica sobre ns bicos dc g.iz. — Mfctinii n 
Connniinirariio cntre os \iandanles e os conductoTes de In-ns nas cstrnd.i- 
de fcrro. — Chiniica: A alinninia em fnllias. — Arte dc Const rurf'ics: Pom 
siispensa sulne o Niagara. — lli/t/i'm : Acviin do elit^mbj sobre o laliain. 



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REVISTA BRAZILEIRA 



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JORIVAL 



DE 



SGIENGIAS, LETTRAS E ARTES 



DIRIGIDO 



POR CANDIDO BAPTISTA DE OLIVEIRA 



1%'uinero iO. — Janeiro de lS6i 



RIO DE JANEIRO 



TYPOGRAPHIA UNIVERSAL DE LiEMMERT 

Hua dos lovttUtlob, 61 B 



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REVISTA BRAZILEIRA 



JORNAL 



DE 



SCIEIXCIAS, LETTRAS E ARTES 



SIRIGIDO 



pon 



CANDIDO BAPTISTA DE OLIVEIRA 



WiBitiero io. — Janeiro 



RIO DE JANEIRO 

TYPOGPiAPIIIA UNIVERSAL DK LAEMMERT 

RUA DOS INVALIDOS, 61 E 

1861 



ESTUDOS T)E ANALYSE MATHEMATICA 



VI. 



tPoriiiula evoluliva tie I<agi>aiiii'e> 

1. Seja dada uma fimcgao de [x) de qualquer natiireza, 
representada symboUcamente por f{x), cujo desenvolviinento 
sepede, sob a forma de f(x-{-h), em uma serie ordenada 
segundo as potencias inteiras e ascendentes de (h). 

Faga-se 

(1) f{xj^ii^==f{x)^hpix + ali) 

sendo a nova funccao designada por (f) da mesma nalureza 
da proposta ; a saber: algebrica, ou qualquer das transcen- 
dentes; e (a) um coellicienle indclcrininado de [h]. 

fi evidente que a equacao (1) tera sempre logar . qualquer 
que seja o valor assignado a [li\ : com effeito, fazendo h=^0, 
lornam-se identicos os dous membros da equacao. 

Ter-se-ha semelhantemente 



4 . REVISTA DRAZir.ElRA. 

f^[x 4- ah) = fix) + ah r{x ~\- hh] 

f\x 4- hh) =f\x) + hhr[x + ch) 
etc. 

Fazendo as convenientes substituicaes na equafao (1) , vira 

(2) f[x+h]==f[x) + hp[x) + ahTix) + abh' f "(rr) 

-\-ahchT{x) 

+ {abc...t)h'^-'^ /^''-'^yl[abc...n)h''f^''\x+ek) 



A simples inspecQao do segundo membro desla cquagao 
faz ver, que os coefficientes constantes [a, h, c. . J) podem 
ser determinados independentemente do ultimo lermo da 
serie em que e factor f'"''[x-\-Oh) ; o qual por outra parte po- 
dera considerar-se nallo , na supposigao de ser a serie infinila 
e convergente. 

Para esse fnn lome-se a funcgao /"(j; + 1 + //) para ser des- 
envolvida pela formula (2) , ate um dado termo , o quinlo ^ 
por exemplo , em duas series que deverao ser equivalentes ; 
a saber: aprimcira, segando as potencias de (l+/i); e a 
segunda, segundo as potencias de Qi): e ter-se-ha 

A (a: + 1 + /^) = r Ct;) + (1 -h h) [\x) + a (1 + hf r{x) 
+ a6(l+/0'V"'(^) + ahc{i + h)''P''ix) 

='f(x-\-i) + hP{x+[)-\-ah'r(x-{-{) 
+ abh'p" (x+i) + abch' /"'^ (x + 1) 

Desenvolvcndo as potencias de (l+^j no primeiro membro 
desla equaQao, o f {x -{- \) , f{x -[-■[), etc., n^ segundo 
membro, pcla mesma formula (2) ; vira 



ESTUDOS 


DE ANALYSE MATHEMATICA. 


5 


f{x) + Vf{x)~\-a 
+ h\ + 2a/i 
-f ah' 


rx)-\- ab 
+ 3abh 
4- 3abJr 


r [x) + «&c 
-\~Aabch 
-{-Q,abch' 


r'N 


+ r(^) + r [x] 

-\-af{x] -\-ar x] 
~^abrx]-^abr[x] 

-i-abcf'ix] 


/i + /'■ [x] 


ah'- 




abh'^rix) abch 



Supprimidos os termos communs a ambos os mcmbros 
desta cquacao ; a saber : todos os que formao a primeira 
linha do primeiro menibro, e os ullimos de cada uma das 
suas columnas; resultam , da comparagao dos termos affeclos 
da mesma potencia de [h] e da mesma funcgao de (x) em urn, 
e outro membro , seis cquagoes , das quaes sao distlnctas s6- 
mente as trcs seguintes ; a saber : 

2a.hf'{x)=hf'[x] 
3ab.hf"[x)=a.hf'"[x] 
iabc.hP'{x]=ab.hr[x] 

Deslas equarocs se tira 



1 , 



3 



'=T 



Se descnvolvimento da funcrlio proposla fosse levado , 
em cada uma das duas series cquivaleules, ate os termos que 



6 REVISTA FRAZILEIRA. 

tivesseni por factores ((f , e, f, etc.), seguindo a ordem dos 
factores (a , & , acima determinados ; acliar-se-hia seme- 
lliantemente 

d = -- , e = -, f=- , etc. 
5 b i 

Substilnindo, pois, os valorcs niimericos de (a, b, c, etc.), 
na eqiiacao (2); ter-se-ha 

(3) f [x-^h] = f [X] + hf [X) ^^r {^x1 + 1^ /•'" {X) 



' 2.3.4 ' ^ '"' 2.3.4..n 

idtimo termo daserie, que forma o segundo membro 
desta equacao, tem o nome de resto , ou complemento da 
serie , emquanto nao fOr nulla f"'[x], ou infinito o numero 
dos lermos desenvolvidos. Nesta seguuda hypothese o termo 
complementar daserie lendera a approximar-sedo termo que 
precede, ou do subsequenle, a medida que (u) se appro- 
ximar do inlinito , ate que se tenha 

h''f"'(x) h" f'"^ {x + eh) , 
■I . 2 . . n 1.2..n 

qualquer que seja o valor finito de [h): e neste caso sera 0=0. 

Este resuliado suppoe, que a serie e scmpre convcrgente ; 
porque de outra sorte nao exprimira ella a quantidude finila 
representada por f{x-\-h). 

Se por outra parte suppuzer-sc que o termo complementar 
da serie e transportado ;'i origem do seu desenvolvimento , 
devera ter.logar a seguinle cipiivak'ncia , guardada a notacao 
convt'ucional , 



ESTUDOS DE ANALYSE MATHEMATICA. 7 

f{x-\-h) = hT>{x-\-eh] 

Para que haja identidade entre os dons membros desta 
equagao , devera ser 

$ = i 

Deste e do precedente resultado se conclue , que o coeffi- 
ciente (9), que entra na expressao do termo complementar da 
serie , e uma quantidade variavel que tern por limites abso- 
lutos a unidade , e zero. 

Foi no intuito de bem caracterisar o termo complementar 
da serie, que nos havemos notavelmente afastado do pro- 
cesso analytico empregado por Lagrange na deducgao da 
bella formula representada pela equagao (3); chegando n6s ao 
mesmo resultado por um methodo mais simples, e mais di- 
recto , sem quebra (em nosso entender) do rigor analytico, 

Uma vez conhecida a lei que seguem os coefficientes nu- 
mericos , que affectam os termos da serie a partir do primeiro, 
podera dar-se ao desenvolvimento da formula (3) a seguinte 
expressao , que , a par de notavel simplicidade , tem a van- 
tagem de representar o desenvolvimento indefinido da serie ; 
a saber : 

(4) . f[x+h] = f[x] + hf[x^Bh) 

Assim , querendo-se levar o desenvolvimento da serie ate o 
2», 30, etc., termos ; ter-se-ha 



(*) t evidente que o factor {k") nSo p6de ter outro divisor senao a unidade, 
para que a cxpressSo do termo complementar reprcsente neste caso a somma 
total dos termos da serie, a qual se lornaria infinita, sc o divisor de que sc 
trata fosse zero. 



S REVISTA BRAZILETR^. 



nx-^h] = fi^c) + -^ r [x] + ~ r [x + oh) 



Etc. 



Esta proprieclade caracteristica da formula (4) nos induziu 
a dar-lhe a denominagao de evolutiva. 

Para que a formula (4) se lorne applicavel aos usos da ana- 
lyse , indispensavel e conhecer-se previamente o que devem 

exprimir (['(x), r{x), r\x), etc. j em relagao ti f(x) 

dada : e passaraos a mostrar a maneira per que desta funcgao 
se deduziram aquellas. 
A formula (4) dara a equagao seguinte : 

Se, pois, for conliecido o desenvolvimento de f (x-\-h) ate 
segundo termo da serie , sendo esta representada do modo 
seguinte 

primeiro membro da precedente equagao sera divislvcl 
por {h) ; e fazcndo depois h = 0, em ambos os sous mem- 
bros; vira 

A^p{x] 
tcr-se-ha scmclhanlemcnte, usando da mesma formula (m) 



ESTUDOS DE ANALYSE MATHEMATICA. 

f{x-i-h]-r{x] 



h 



:f"{x-^Qh) 



d'onde se tira , fazendo h = o 

A' = p'{x) 

Procedendo deste modo, ficarao determinadas todas as 
funcQoes que entram na expressao do desenvolvimento da 
formula (4) ate o termo , em que se quizer parar. 

Lagrange , na sua preciosa obra intitulada — Theoria das 

FuncQoes — , chamou as funcQoes [ p [x], /""(x) , /"'" [x], etc.) 
1', 2«, 3% etc., derivada de f[x). 

2. Applicagao da formula (4) ao desenvolvimento do bi- 
nomio de Newton (x-\-a)"', sendo dada a func^ao (r'}. 

Posto que o desenvolvimento do binomio proposta ate o 
segundo termo da serie seja conhecido pela applicagao das 
noQoes elementares da algebra, qualquer que seja o expoente 
dado [m) ; a saber, numero inteiro ou fraccionario , positiva 
ou negativo ; nos supporemos , no presente caso , que e (m) 
numero inteiro e positivo : e ter-se-ha 



m m I m — 1\ 

(x-fa) =^x -^ a\mx ]-\-a' 



B 



Pondo este desenvolvimento na formula (»?) , e substituindo 
nella [h] por (a) ; vira 

mx ==A^) 



{0 REVISTA BRAZILEIRA. 

Pondo agora (ic-Hrt) em logar de [x) nesla primeira devt- 
vada ; ter-se-ha , como precedentemenle , 



m 



m—i I m— 1 I m—1\ \ 

[x^a] =m\x +aUm— l)j: l + aB') 



Fazendo a mesma applicagao deste desenvolvimento a for- 
mula [m] ; vira 

m— 2 

m{m — i]x =sf"[x) 

Operando da mesma sorte sobre cada uma das derivadas 
conhecidas ; ter-se-ha 

m(m— 1] (m— 2) x =/"'" (x) 

Etc. 

Substituindo estes valores no desenvolvimento da formula 
(4) ; ter-se-ha 

m m m — I 

{A)f{x-{-a) = {x-\-a) =x -\-mx . a 



lm—\\ m — 2 , 
fm—\\ /m— 2\ m— 3 , 



o' 



+ ±31^"^='+"'^ 



f'^ {x-\-B(i) exprime-se neste caso pela /'" [x], pondo ncsta 



ESTUUOS DK ANALYSE MATHEMATICA. 11 

funcgao [x^Oa] em logar de [x] ; islo e, 

m — 4 

riX'^9a) = m[m—\)im—"2][m—3) {x+9a) 

Fazendo m^^Z no desenvolvimento [A] , a serie terminara 
no quarto termo ; e sera por conseguinte nullo o termo com- 
plementar, como mostra a sua expressao. 

Faca-se agora m=5 , levando o desenvolvimento da serie 
ale terceiro termo : e vira 

5 , _ , , 5.4.a'a;5 , 5.4.'].a' , , , ,, 

x'+ 5ax'-{- ~^—' -f —j^ (x-\-eay 

Se valor numerlco de [9] fosse conhecido , o desenvolvi- 
mento do binomio [x-\-9a]- daria o termo complementar da 
serie equivalente a somma dos tres termos que faltam para 
completal-a. 

1 1 

Fazendo primeiramente ^ = -o^. 6 depois 9 = —-; virao 

as duas series 

x'+^ax'-i- lOa'x'i-iOa'U-f.?^ x+ ■^\ 

x'-i- 5ax'+ iOarx'~\-lOa'lx'+ -i a^+ ^) 

\ l 16/ 

desenvolvimento complete de [xArdf differe de uma 
destas duas series nos dou?, idtimos termos , e de outra s6- 
mente no ultimo ; ficando a somma dos dous ultimos termos 
daquelle desenvolvimento intermediaria ; a saber: 



20 , , 10 , 



5a*a;+ a' 



10 . 

16« 



12 REVISTA BRAZILEIRA. 

Se desenvolvimcnto da serie pavar no scgundo termo 



i 1 

c fizer-sc = — - , = — ; virao os resultados scguintes 



x'-i-5ax'-{- iOa'lx'+'^ax'-i- |-a-^+ |-) 



x'-{- 5aa;»+ 10a«(^^+ a;r+ '|^' + ^) 



Comparando os restos destas diias scries com os lermos 
differcntes no desenvolvimcnto completo ; tcr-se-lia 



15a'a;^-f — a*a;+— a' 
4 o 



10aV+5a\c-f a' 



10 . , 10 , 



Dcstes resultados se p6de concluir porinducQao, que no 
descnvolvimento geral da funcQao [A] coefficiente indeter- 
minado (9) esta comprehendido dcntro de limites variaveis 
com a posigao, que occupa naquellc descnvolvimento termo 
complemcntar da serie: de modo que, sendo/""' (a;-f 9a) a 
funcQao que entra na expressao do termo complemcntar , tera 
valor numcrico de [9] por limites as fraccoes 



I n ' ?i+l / 



isto e , OS menores factores dos cocfiicicntes numcricos de 
dous termos complcmentares successivos. 

Cumpre ainda observar , que 03 resultados acima compa- 
rados fazem ver que vcrdadeiro reslo da serie lendc a ap- 



ESTUDOS DE ANALYSE MATIIEMATICA. 13 

proximar-se notavelmente mais do que du o limile inferior 
do valor de [0] ; isto e , I^tt )• 

Siipposto nao seja licito fazer extensiva esta propriedade 
ao desenvolvlmento das funcgoes transcendentes (exponen- 
ciaes, logaritlimlcas, c circulares) sem que seja ella ao menos 
verificada em resultados parliculares , como liavemos pra- 
tlcado relalivamcnte a funcgao algebrlca (a;+a)"' ; todavia, 
no caso de querer-se somente , no desenvolvlmento de qual- 
quer das referldas funccoes, um valor approximado do resto 
da serie, calculando o termo complementar expresso por 

h" 1 

— — r — P''ix4-9h], poder-se-ha fazer nesta expressao 0= — -7 

\ 

ou 9 = — segundo corresponder a um , on a outro destes 

n > 

Talores limite inferior do resto da serie ; ou, em ambos os 

1 

easos, 9 = : obtendo-se assim resultados tanto mais 

approximados do verdadeiro resto , quanto maior f6r 
numero representado por [n). 

Por outra parte notaremos , que e esse unico uso pratico, 
a que se presla a apreciaQao do resto de uma serie dada (*). 

3. As funcQoes derivadas que empregou Lagrange , no 
desenvolvlmento da formula evolutiva, representada pela 
equagao (4) , nao sao outra cousa mais , que as mesmas func- 
Qoes que Newton e Leibnitz denominaram coefficientes diffe- 



(*) M. Duhamel , no scu excellente iratado de analyse infinitesirrtal , consi- 
dcra a quantidade (e) como funcgao da variavel {x) no desenvolvimenlo da 
formida {li) : nos pensamos ao conlrario, que aquella indeterminada i inde- 
pendente de (.-c), e que so varia coin a posifto do termo complemearar, em 
relaqao ao primeiro termo da serie. 



14 RE VISTA BRAZILF.IRA. 

miciaesaQ[i\ 2\ 3" ortlem , etc.) de uma ilatlu f{x], na 
analyse infinllesimal. 

Comeffeito, segundo anotagao del-eibnUz, que lem sido 
adoptada geralmente , tem-se 






Pondo eslas novas expressoes em logar de if [x], /"" [x], etc.) 
na formula (3) ; ter-se-ha 

, ., , .X , h dy , K- d'y , h' d'y 



• k • 



fe"-' rf"-V h" .d"f{ x-{-9h ) 

'^\.±{n—\ydx' "^1.2..w dx" 

Esta formula era ja conhecida pelo nome do geometra 
inglez — Taylor — que a descobrira , no tempo em que La- 
grange enriqueceu a sciencia com a sua bella formula , na 
qual supprio esse grande geometra o defeito notavel que 
offerecia o desenvolvimento da formula de Taylor ; isto e 
a falta do termo complementar da serie. 

A formula (5) e susceptivel de exprimir-se abreviadamente, 
dando-lhe a forma da equa^ao (4), pondo nella f[x) em 
logar de [y] ; a saber : 

(6) fix+h)^f{x)-\.hdL^^^ 



ESTUDOS DE ANALYSE MATHEMATIGA. 15 

Desenvolvendo esta formula ale o termo complementar da 
ordem (w) ; vira 

Fazendo primeiramente x=0, em ambos osmembros desta 
equagao ; e pondo depois [x] em logar de [h] , o que e licito , 
por serem quantidades independentes uma da outra ; vira 

(7) nx)--no)+x-^+ _.__...+ __^.___ 

/■(O) representa nesta formula o que fica da f(x) fazendo 

nella x=0 : -p- representa semelhantemente o que fica do 

coefficiente differencial de f[x] , expresso em termos finitos , 
depois de fazer nelle x^='0: e o mesmo se dira dos coeffi- 
cientes differenciaes da 2% 3^ ordem , etc. 

A formula (7) e conhecida pelo nome do seu autor o muito 
distincto geometra — Maclaurin. A feliz applicagao das for- 
mulas de Taylor , e de Maclaurin , as questoes mais impor- 
tantes da analyse infinitesimal deve principalmente esta su- 
blime sciencia os mais assignalados progressos , que fizera 
dfisde seculo passado ate o presente. 

A formula (7) exprime-se de ordinario por modo mais sim- 
ples , empregando a nota^ao de Lagrange ; a saber : 

(Uis) f(x)=^f(o) + ~r(o)+ ^r(o)....+ ij^/i^^) 

Se na mesma formula de Taylor , acima desenvolvida , se 



46 REVISTA BRAZILEIRA. 

fizer x^=^a , e puzer-sc depois (;r— a) em logar de [h] ; ter-se- 
ha , usando da nolagao de Lagrange 

(8) /■M=/-(«) + ^~-^t{"] + ^~^)" [a] ... 



+ ^f;2;^frj<«+»(:«^-a) 



Esta formula 6 a mesma de Maclaurin , sob uma cxpressao 
maisgeral; e nella se.torna fazendo a=*0. E ella empre- 
gada com vantagem cm alguns casos , especialmente na ana- 
lyse applicada. 

4. A formula evolutiva de Lagrange pude dar o desenvol- 
Yimento das fimccoes exponenciaes , logarithmicas , e circu- 
lares , praticando acerca deltas do mesmo modo que se pro- 
cedeu em relagao a funcc-ao algebrica (x-i-a)"' : uma vez que 
seja conhecida por qualquer maneira a primeira funcQao (k- 
rivada de cada uma daquellas func^oes , o que so conseguii'a 
mediante algum artiflcio de calculo. 

Nao se conclua porem daqui, que se possa dispensar a 
deduccao das cinco series elemcntares , de que nos havemos 
occupado no artigo I, e seguintes , emprcgando para esse fim 
um processo analytico differente : porquanto, a concordancia 
dos resultados assim obtidos , com os que da a formula de 
Lagrange, servira vantajosamenlc para fori ificar o espirilo 
dos principiautes , inspirando-lhes a necessaria conlianca no 
emprego da referida formula , ou daquellas que Ihe suo equi- 
valentes; a saber: a de Taylor, e a de Maclaurin. 

Pondo termo a esle nosso Irabalho , julgamos opportune 
explicar os motives que nos induziram a fazer objecto dos 
nossos estudos analyticos , publicados ate o presente , ma- 
terias de ordem elementar , e ja sabiamcnte tratadas pelos 
mestres da sciencia. 



ESTUDOS DE ANALYSE MATHEMATICA. 17 

Ha muito que a experiencia do magisterio nos convenceu 
da necessidade de uma instrucQao systematica, clara, e com- 
pendiosa nas referidas materias, servindo de prodromo ao 
estudo da analyse infinitesimal: e e nossa convicQao , que , 
sem essa'indispensavel preparagao , impossivel sera , ainda 
mesmo aos talentos superiores, adquirir uma instruccao subs- 
tancial, profunda, nesse ramo sublime das sciencias exactas. 

Reunindo, pois, em urn corpo de doutrina aquellas ma- 
terias, e expondo-as com simplicidade, e clareza, foi o nosso 
fim meramente ulilitario : e se algama novidade ahi se en- 
contra, em rela^ao ao que escreveram'sobre este objecto geo- 
metras eminentes, nao tivemos certamente a preteuQao de fa- 
zer obra mais perfeita, mas sim o intuito de facilitar o estudo 
de taes materias, removendo os embaragos, com que de ordi- 
nario lutam os principiantes , lanto em razao do defeituoso 
methodo por que as aprendem , como principalmente pelo 
apparato de calculos complicados , e de consideragoes meta- 
physicas, que acompanharn a exposigao de alguns pontos im- 
portantes, que ellas encerrao nos tratados classicos. 

Nosjulgaremosfelizes, se os nossos trabalhos nesta parte 
corresponderem ao designio que os motivara. 

Rio, 30 de Setembro de 1860. 

Candido Raptista de Oliveira. 



R. B. X 



18 RE VISTA BRAZILEIRA. 



NOTA. 

C0RRECC5ES ESSENCIAES. 

1.^ N. 2 da Reimta. — Geomctria analylica , pag. 173 
e 174. — Em logar de 

\ Sen. 14/ ' Sen. S^J 
leia-se 



/ 2 2 \ 

lcos.2^/ + l ' C0S.2B, +1/ 



2.* N. 8. — p. 189— depois das palavras— C/iP(/ar-S6?-/ta 
necessariame7ite a dom valores do primeiro memhro da equa- 
Qcio de signaes contrarios — accrescente-se — (nao sendo a 
equagao de grao par, e o seu ultimo termo positivo). 

3.' Ibidem — p. 221 — depois das palavras — Secjue-se que 
a equagao (i 1 ) somente terd logar dentro dos Umites do qua- 

drante — accrescente-se — pondo nella i~ — xjem logar de 

(x) , quando f6r o arco [x] > 45° ; porque neste caso a serie 
que representa [x] torna-se divergente. 

4.» N. 9 — p. 398 — em logar de ?i = : leia-se : w=qo 

5." Ibidem — p. 400 — depois das palavras — entrando 
por conseguinte na categoria das series conuergentes — ac- 
crescente-se — a qual pertencem em geral as series repre- 
sentadas pela equagao [w) que salislizerem a condiQao de ser 
expoente (?«) maior do que a unidade. Este resultado pode 
ser deduzido da propriedade de guardar a somma dos termos 



CORRECCOES ESSENCIAES. 19 

impares uma relagao numerica definida para a somma dos 
termos pares, em cada uma dessas series : porquanto nao se 
pode conceber a existencia de partes aliquotas em uma quan- 
tidade infinita. 

6.' Ibidem —em logar de : log. = log. ell +— +etc.) 

leia-se : log. ^ — log. ^ (^ + ^ +etc. J 



7.* Ibidem — p. 401 — depois do periodo que termina 
pelas palavras — entrando por cunseguinte na categoria das 
series convergentes — accrescente-se — Por outra parte e 
facil de ver, que em uma serie decrescente, cujos termos sao 
alternativamente positivos, e negativos, um termo qualquer 
e mimericamente maior do que a somma dos termos restantes 
da serie : e que por conseguinte e ella convergente. 



i 



ASTRONOMIA 



Sobre o eellpse do Mol de i§ de Jullio de Iteo , 

■la Hesiianlia. 



Os jornaes scienlificos , vindos pelo paquete inglez, tra- 
zem-nos alguns dos relatorios dos astronomos que observaram 
na Hespanha o ultimo eclipse total do sol. 

fim principal da observagao dos eclipses totaes e de nos 
fazer conhecer com certeza a naliireza do sol , e , em parti- 
cular , a existencia de uma terceira atmosphera em torno 
desse corpo. 

As observagoes das manchas do sol , feitas ha muitos annos 
ja provaram que esse astro e composto de urn globo obscuro, 
cercado por uma atmosphera analoga a nossa, e na qual 
fluctuam nuvens de diversas formas, que lembram as nuvens 
terrestres. No limite superior dessa atmosphera reina uma 
camada quasi conlinua de nuvens luminosas , d'onde partem 
a luz e calor que recebemos. Mas, por sen brilho, essas 
nuvens luminosas, que formam o que se chama segunda 
atmosphera, photosphcra do sol, impedem-nos de distinguir 
se para fora deltas exisle uuia outra camada gazosa. 

fi, pois, somente durante os eclipses, em que a lua vem 
esconder aos nossos olhos a vista do globo luminoso, pondo 
ao mesmo tempo em escuridao a nossa atmosphera , sobre a 



22 REVISTA BRAZILEIRA. 

qiial e projectada a sua sombra, que se pode esperar ver as 
regioes que se avizinham do sol. 

Ora, a historia de todos os eclipses anteriores ensinou 
que, na occasiao desses phenomenos, existe uma brilhante 
aureola de luz, a qual, escondendo o sol, cerca o disco da 
lua. 

Em 1842 celebre Arago chamou sobre esse ponto, de um 
modo todo especial, a attengao dos sabios. Qual e a natureza 
dessa aureola ? Pertence ella ao sol, ou, melhor, depende ella 
da lua, no qual caso seria uma dessas illusoes de optica, 
que tern logar em algumas circumstancias pcrto das bordas 
dos corpos opacos projectados diante de uma fonte de luz , 
illusoes que se designam em physica sob o nome de diffrac- 
Qdo. 

Os eclipses de 1842, 1850, 1851 e 1853 foram aprovei- 
tados para a solugao destas questoes ; mas nenhum resultado 
definitivo pode ser obtido. Arago tinha citado como pedra 
de toque da theoria a polarisagao da luz ; e, cousa singular, 
esse ponto essencial foi quasi completamente desprezado , e 
verdade que por causa de difflculdades de observagao , por 
nao terem delerminado a direcgao do piano de polarisagao , 
pois OS raros observadores que se dedicavara a esse objecto 
nao puderam chegar senao a duvida , e nao apresentaram os 
seus resultados senao com todas as reservas. 

Alem das descripQoes das apparencias geraes do pheno- 
meno, e de uma multidao depormenores, sem duvida alguma 
de grande interesse , a questao principal nao dera um passo 
quando teve logar o memoravel eclipse de 7 de Setembro de 
1858. Estarao lembrados que nessa epoca o governo do Brazil 
nao quiz que a primeira nagao da America do Sul ficasse es- 
tranha ao grande movimento do espirito humano, e orga- 
nisou uma expedigao perfeitamenle calculada que devia ob- 
servar o eclipse no porto de Paranagua. A expedicao prop6z-se. 



SOBRE ECLIPSE. 23 

como fim principal , detenninar se a aureola era realmente 
uma atmospliera do sol, e suas tentativas foram coroadas pelo 
mais completo cxito. Por dous methodos diversos a polari- 
sagao da luz da aureola foi reconhecida , a direcQao do piano 
de polarisa'gao determinada, e uma distincgao se achou clara- 
mente estabelecida entre a polarisaQao da cor6a solar e a da 
atmosphera terrestre . de maneira a nao dar mais logar a 
duvida. 

Foi, pois , em Paranagua, que pela primeira vez executou" 
se a experiencia apresentada coqio decisiva pelo immortal 
Arago. A polarisa^ao da coroa, uma vez conhecida, tornava- 
se evidente que essa coroa nao era urn phenomeno de diffrac- 
Qao , mas um phenomeno real, pois que a luz diffractada 
nunca e polarisada. A coroa provem, pois, de uma atmos- 
phera ; mas uma atmosphera tao extensa nao pode, segundo 
outras experiencias, pertencer a lua. A coroa e , pois , a ter- 
ceira camada do sol, descoherta que tornara para sempre a 
expedi^ao de Paranagua celebre na historia da astronomia. 

Nao foi unicamente pela polarisa^ao que se tirmou a des- 
coherta de que acabo de fallar. Todos os outros pormenores 
da observaQao vieram confirmal-a. A constancia das appa- 
rencias geraes do phenomeno , constancia notada pelo Sr. 
conselheiro Candido Baptista de Oliveira e por mim ; o mo- 
vimento da lua dianle da aureola , movimento que mui clara- 
mente percebi ; emfim , os feixes con i cos e curvos dos raios , 
vistos por todos os membros da commissao, sem excepgao , 
provaram que a coroa nao podia ser um phenomeno de dif- 
fracQao, pois que a diflfracQao nao da raios curvos desta na- 
tureza , pois que cssas observa0es mostravam que a coroa 
estava situada por detras da lua, e que, portanto, pertencia 
ao sol. 

Foi, pois, pelo todo das observacoes, e nao somente pela 
polarisagao , que a existencia da lerceira atmosphera solar 



24 REVISTA BRAZILEIRA. 

fieou eslabelecida ; e, se citei a polarisacao em primeiro 
logar, foi porqiie esta experiencia, como fez uotar Arago, e 
decisiva e esta ao abrigo de qualquer objecQao. 

que acabamos de dizer explica a estiina com que o 
mundo scientiflco acolheu o relalorio da commissao brazi- 
leira, e a immensa publicidade desse traballio ua Inglaterra, 
Franca, Allemanha, Russia, Italia, EstadoUnidos , etc. 

A grande consequencia que acabo de relatar juntou-se 
uma multidao de observagoes curiosas e interessantes que 
vem descriptas no relatorio da commissao. 

Mas ainda que a questao principal, aquella que diz res- 
peito a natureza da cor6a , tenha sido resolvida em Para- 
nagua , nao se deve por isso deixar de aproveitav todas as 
circumstancias favoraveis para observar o phenomeno, e pro- 
curar-se descobrir novos factos concernentes a aureola solar 
e as nuvens que ella conlem , porquanto em um so eclipse o 
sol nao deixa ver lodos os phenomenos interessantes que 
podem ter logar na sua atmosphera. Sob este ponto de vista, 
a importancia das observagoes dos eclipses totaes augmentou, 
em vez de diminuir , com o notavel resultado obtido em Pa- 
ranagua, pois que nao sao mais simples apparencias, porem 
sim phenomenos reaes que se Irataui de observar. Foi , pois, 
com um novo interesse que lemos alguns relatorios, vindos 
pelo paquete inglez. 

Em primeiro logar, entre esses relatorios , deve-se incon- 
testavelmente c Uocar o de men sabio collega da academia 
de sciencias de Roma , o P. Secchi , director do observatorio 
doCollegio Romano, 

Faremos notar primeiramente nesta relagao a verificagao 
da polarisagao da Inz da cor6a e de sens raios , verificagan 
feita por um terceiro methodo, differente do que foi se- 
guido en Paranagua. Esse processo e nienos sensivel do 
que a variagao da inlensidade que tivemos de empregar em 



SOBRE ECLIPSE. 25 

primeiro logar, qiiando a polarisac.ao era ainda duvidosa. 
Mas a variacao de cor, observada pelo P. Secchi, prova qnanto 
essa polarisagao o clara e sensivel, e a verificaijao da pola- 
rlsacao por esle methodo e a confirmacrio mais evidente e 
brilhanle do importante resnltado obtido em Paranagua. 

Mas nao foi somente pelas experiencias do polariscopio 
chromatico que o P. Secchi, e os astronomos hespanhoes que 
acompanhavain os Srs. de Aguilar e Cepeda , conririnaram 
OS nossos resuUados. De nm lado este ultimo obsei'vador 
notou um raio curvo dividido em muitos ramos , e que, por- 
tanto , nao podia ser devldo a diffraccao ; do outro , o rela- 
tofio faz ver que, durante o eclipse parcial , antes da obscu- 
ridade total, o campo da luneta era muito mais claro do lado 
do bordo do sol do que do lado da lua, o que indica evidente- 
mente a influencia de uma aureola em torno do sol , e nao 
em torno da lua. Esse genero de observacao e muito interes- 
sante, e nao posso deixar de com elle confrontar uma obser- 
vacao inedita de um joven amador da sciencia , o Sr. Charles 
Noel , que ja tem publicado muitos trabalhos nas Memorias da 
academia da Belgica. 

Essa observacao foi-me communicadaporseu autor, ecito-a 
na minha noticia sobre a constituigao physica do sol e natu- 
reza deste astro , noticia quasi terminada , e cuja publicagao 
tern sido demorada pelos trabalhos da commissao astrono- 
mica e hydrographica. 

Ha alguns annos o Sr. Porro teve a engenhosa idea de 
substituir os vidros negros , destinados a apagar pela absorp- 
gao a luz do sol , afim de deixar encarar esse astro , por um 
systemapolarisador, formado por dous espelhos pretos per- 
pendiculares, e recebendo um e outro os raios solares sob 
angulo de polarisa^ao. Esse novo instrumento recebeu o 
nome de helioscopio , e tem a vantagem sobre o vidro negro , 
de nao espalhar como este ultimo, sobre a totalidade do 



26 REVISTA BRAZILEIRA. 

cainpo da luneta , unia porQao da luz solar , reflectida no sys- 
tema absorvenle. 

Ora, Sr. Charles Noel , empregando um helioscopio, re- 
conheceu que o sol se mostra cercado de uma aureola em 
todos OS tempos e fora de qualquer eclipse. Poder-se hia ser 
levado a attribuir essa aureola a nossa atmosphera ; mas 
entao, com o ceo carregado de ligeiras nuvens, ou deva- 
pores, a aureola deveria augmentar , se essa explicagao fosse 
verdadeira. contrarlo tem logar , como notouo Sr. Charles 
Noel, e, a vista disto , nao resta outra explicagao possivel 
senao a visibilidade da coroa dos eclipses , a qual se ve assim 
fora da presenga da lua, e consequentemente fora das cir- 
cumstancias em que ella poderia ser explicada pela diffrac- 
cao ou por uma atmosphera lunar. A nova observagao do 
P. Secchi conflrma a do Sr. Charles Noel, e todos esses factos 
vem ainda juntar-se aquelles que anteriormente citamos , e 
que provam de um modo innegavel a existencia da terceira 
atmosphera solar. 

Em presenga das experiencias claras e decisivas que pre- 
cedentemente enumeramos , a impressao das observaQoes e 
certamente de pouca monta. Comtudo , em attengao ao po- 
sitivo e a forga de suas expressoes, nao posso deixar de relatar 
aqui a opiniao do P. Secchi. Esta impressao e inteiramente 
conforme a da commissao do Paranagua : « Nesses momentos, 
diz elle , minha convicgao sobre a natureza do que eu via foi 
quo phenomeno era real , e que distinguia na verdade 
chammas na atmosphera solar e nuvans suspensas nessas 
chammas. 

• Ter-me-hia sido impossivel imaginar outra cousa, comn 
por exemplo , que isso pudesse ser um phenomeno qualquer 
de diffracgao ou de refracgao. 

• .\ graduagao tao clara e a mistura tao sensivel da luz de 
cor flor de pecego , com o branco do que nos chamamos pho- 



i 



SOBRE ECLIPSE. 27 

tosphera , era de urn caracter iiileiramente diverse daquelle 
que tenho vislo nos phenomenos de diffracgao , de inter- 
ferencia e de refracQao , e inteiraiiiente fora dos limites de 
qualquer illusdo. » 

Para quern ja viu urn eclipse total , a narragao do P. Secchi 
e cheia de verdade; julga-se, lendo-a, assistir-se realmente 
ao phenomeiio. Apezar da diversidade de formas, que trazem 
as differengas de epocas, todas as apparencias geraes con- 
cordam com aquellas que vimos a 7 de Setembro de 1858. 
cuidado tido nas observagoes dos eclipses de 1842 , 1850 , 
1851 , 1853 e 1858 faz com que a nova descripgao nao tenha 
podido dar factos novos, a excepgao da parte photographica, 
com que me voq occupar ; mas essa observacao nao e menos 
importante, como conflrmagao brilhante dos resuUados ob- 
tidos em 1851 e 1858 sobre a natureza das nuvens roseas, 
eem 1858 sobre oponto essencial, a existencia daterceira 
atmosphera do sol. 

Acabo de fallar da parte photographica das observagoes: 
e ella devida aos Srs. Monserat e Vinader. 

A duragao do eclipse, duragao triplice do phenomeno 
observado em Paranagua, permittiii dar-se um grande desen- 
volvimento ao estado debaixo do ponto de vista photogenica 
das nuvens roseas ou protuberancias , questao para a qual 
faltou-nos tempo em Paranagua , onde, alem disto, tinhamos 
a resolver um problema mais iniportante. Ora , foi verificado : 
primeiro, que nas provas obtidas as partes as mais vivas nao 
correspondem as protuberancias ; segundo , que a impressao 
dessas ultimas foi quasi instantanea, emquanto que a da 
cor6a requer uma exposigao mais demorada. Segundo os re- 
sultados desta indagagao, sera possivel em.um novo eclipse 
combinar as observagoes , de modo a obter-te bellas provas do 
phenomeno. 

fi este logar de dizer-se algumas palavras sobre a unica 



28 REVISTA BRAZILEIRA. 

objecgao de seria apparencia' que foi feita a existencia da 
atmospbera solar. Essa objecgao taiilo mais merece o nosso 
exame que foi apresentada por um astronomo celebre. 

grande cometa de 1843 passou por tal modo perto do 
sol, que, segundo as dimensoesapparentes da terceira atmos- 
pbera solar , teve de penetrar no interior desta camada gazosa, 
e de soffrer abi uma resistencia, a qual poderia por seu turno 
modificar a orbita desse cometa. Arago nao acbou essa ob- 
jecgao tao importante coino parece a primeira vista, por- 
quanto, segundo a sua justa observagao, o cometa de 1853 
nao foi visto senao depois da sua passagem pelo peribelio ; e, 
portanlo , ignorando nus a sua orbita anterior , nao sabemos 
se ella foi modiflcada. 

Demais, logo que exisle polarisagao da corua, nao se pode 
negar a essa cor6a uma existencia real ; e , se um cometa 
que atravessa a sua regiao nao soffre modificaQao notavel na 
sua orbita , isso nada prova ; e apenas uma indicagao que faz 
crer que esse involucro gazoso e bem pouco dcnso , em re- 
laQao ao nucleo do cometa , para que a perda de velocidade 
deste ultimo nao seja sensivel. Porem , alem disso , ainda 
que cometa de 1853 nao tenba sido visto antes da sua en- 
Irada na atmospbera solar, pude reconbecer, submetlendo a 
questao a analyse inalbematica , que a orbita nao poderia 
ter sido modillcada de uma maneira sensivel. As matbema- 
ticas sao aux ilia res poderosos nessas questoes , e , pode-se 
dizer, em geral, em todas as questoes de astronomia e de 
pbysica. 

No caso presente objecto era complicado; e tal e sem 
duvida o motivo pelo (pial ate agora ainda nao foi submetlido 
ao calculo. Conitudo cunsegui, lirando da lei dadiminuiQao 
do calorico e da luz do centro a borda do disco solar certos 
dados indispcnsaveis, relalivos a lei das densidades com 
a altura da atmospbera, a integrar a equa? ao que da csta 



SOBRE ECLIPSE. 



29 



lei. Pude em seguida obter a expressao da resistencia do 
cometa , segundo seu diametro , fornecido pelas medidas an- 
gulares e segundo a densidade relativa a atmosphera solar , 
densidade deduzida de observagoes photometricas. Nao posso 
desenvolver aqui toda esta theoria por causa de sua extensao, 
e ella sera publicada na minha noticia sobre a constituigao 
physica do sol ; mas posso fazer conhecer o resultado a que 
sechega, substituindo os numeros nas formulas obtidas. 

Esse resultado mostra que a objecgao nao resiste a analyse. 
Comeffeito, a velocidade do cometa, depois da sua sahida 
da atmosphera solar, nao diminuiria de inais de 1 metro 
e 3/10 por segundo. Ora, uma tao fraca diininuicao permit - 
tiria a esle astro , vislo a extensao de sou periodo, circular 
durante mais de um milhao de annoy cm torno do sol , pene- 
trando de cada vez na atmosphera desse corpo antes de ser 
a sua orbita notavelmente modiflcada. Assim cahe por si , e 
independente da consideragao ja apresentada por Arago , a 
unica objecgao a existencia da atmosphera solar. Mas, alem 
disso, euorepito, nenhuma ob.jeccao, por mais seria que 
pareca,p6de ser feita em presenga da verificagao da pola- 
risagao da luz da cor6a. 

fi bem de admirar que as actas da academia de scicncias 
do Institute de Franca nao deem o relatorio da commissao do 
observatorio de Pariz, e que seja necessario procurar este 
relatorio nosjornaes. Eu esperava achar nesse trabalho ob- 
servagoes importantes, e contava a este respeito com o talento 
dos-meus collegas, os Srs. Foucault , Chacornac e Villarceau. 
Mas a minha esperanga fi)i I'rustrada. Gointudo , nao se de- 
veraimputar esse mallogro aos habeis observadores que acabo 
de citar. Isso proveio unicamcnle das instrucgoes que llies 
foram impostas. Assim, leio no relatorio do Si\ Le Verrier 
que Sr. Foucault foi encarregado de funcgoes que, no ap- 
parelho do P. Secchi, eram preenchidas por um relogio ; isto 



30 REVISTA BRAZILEIRA. 

e , de manter dirigido para o sol o apparelho photographico. 
Ao observatorio de Pariz, entretanto, nao faltam equatoriaes, 
movidos por um mecanismo de relogio. Os Srs. Chacornac 
e Villarceau receberam ordem expressa de se occuparem com 
a medida deuma, quaudo rnuito de duas, das protuberancias 
roseas. Mas isso tinha sido feito em 1851 por um numero 
consideravel de astronomos. Era a parte principal das ins- 
trucQoes dadas aos observadores nessa epoca , e a questao 
das protuberancias e hoje uma questao decidida. A expedigao 
brasileira em 1858tambem occupou-se com esse objecto , e 
confirma as conclusoes anteriores. Sr. Le Verrier cita 
como um facto capital o resultado das medidas dos Srs. Cha- 
cornac e Villarceau , medidas cujo unico interesse consiste 
em concordar com as nossas e com a de todos os astronomos 
que observaram em 1851. director do observatorio de Pariz 
julga ensinar-nos que as protuberancias sao nuvens solares. 
Ja sabiamos. Arago e o Sr. Airy sufficientemente o demons- 
traram. Nossas observagoes em Paranagua conflrmaram esta 
opiniao tanto quanto as dos Srs. Chacornac e Villarceau. Nao 
e so isso. 

Essas medidas nao tem a importancia que o Sr. Le Verrier 
Ihes attribue. Em 1851 a comparaQao das apparencias, para 
OS observadores situados na Noruega e na Allemanha, fez ver 
que essas nuvens , como as da nossa atmosphera , mudam 
incessantemente de forma, Alem das mudangas reaes, ha 
tambem mudangas apparentes, provenientes de refracgoes 
anormaes da nossa atmosphera ; refracgoes que, para p Sr. 
Pares e alguns observadores italianos, transportaram em 1842 
a imagem dessas nuvens para dentro da lua. Nao posso mes- 
mo deixar de admirar a singeleza com que o Sr. Le Verrier 
julgou dever certificar-se de que essas protuberancias nao 
perlencem a lua. Se ellas dependessem desse astro , como 
ellas sao rnuito mais brilhantes que a luz acinzentada que 



SOBRE ECLIPSE. 3^1 

vemos , nao se mostrariam ellas sempre em torno do nosso 
satellite , mesmo durante a lua cheia ? 

Sr. Le Verrier julga ter feito uma observagao nova , 
tendo notado uma imagem isolada no bordo da lua, e uma 
cadeia de protuberancias baixfis cobrindo a malor parte do 
disco. Ora, tudo isto foi visto em 1851 tao claramente como 
hoje. 

Mas que ha de mais curioso e ver-se, o Sr. Le Verrier , 
depois de ter contemplado pela primeira vez em sua vida um 
eclipse do sol, nao assignalar neste pbenomeno senao o que 
ja se sabe perfeitamente , depois parti r disto para fazer a de- 
claragao seguinte: « Chego a constituigao physica do sol; 
uma reforma ou mesmo um abandono complete da theoria 
que se tinha admittido ate agora me parece necessario. » 
Depois de ter feito esta declaragao , apresenta uma theoria do 
sol em contradicQao directa com todas as observagoes, com 
todos OS principios bem verificados da sciencia. Diz-nos que 
as manchas solares sao nuvens que interceptam a vista de 
certas regioes do sol. Mas Galileo nao demonstrou que as man- 
chas do sol nao fazem saliencia sobre a superficie da photos- 
phera? Wilson nao provou que sao excavagoes no involucro 
luminoso? E essas demonstragoes tein o caracter da evidencia 
mathematica. Herschell, Arago, de Humboldt e uma centena 
de outros observadores as multiplicaram , e emfim a theoria 
do sol e precisamente fundada sobre observagoes em tudo 
semelhantes aquellas que relata o Sr. Le Verrier. Os eclipses 
anteriores, e o de 7 de Setembro em particular, fizeram ver, 
alem disso, que nao ha nenhuma relagao entre as manchas 
e as protuberancias roseas. Mas, porque cansar-me-hei cm 
refutar uma theoria tao absarda como aquella que nos da o 
director actual do observatorio de Pariz ? Basta appellar-se 
para os tralados elementares de aslronomia, onde se achara 
resposla directa a essas hypotheses. 



32 REVISTA BRAZILEIRA. 

Sr. Le Verrier nao se descuida de dizer-nos que era 
dia claro durante o phenomeno. Entretanto, como em todos 
OS eclipses anleriores, viu-se as eslrellas e os planetas prin- 
cipaes. planeta LescarbauU e o aiinel dos planetas, an- 
nunciado pelo Sr. Le Verrier, faltaram. Flquel multo satisfelto 
por ver que o Sr. Le Verrier p6de por si niesmo verlficar a 
nao existencia desses planetas. Eu ja o tlnha demonstrado na 
gSizeiB. diWem^Sk Astronomische Nachrichten (I) e na Reoista 
Brazileira. 

A parte photographlca e a unlca que pude ser cltada no 
relatorio do observatorlo de Pariz. Bern como o P. Secchl, 
Sr. Foucault obteve algumas estampas. Mas, por habll que 
seja, urn relogio vivo nao se coinpara com um reloglo me- 
canlco. Assim, a julgar-se pekis palavras do relatorio, os 
resultados parecem Inferlores ao da expedigao Itallana e hes- 
panhola. Ha mesmo um facto que faz desconfiar do valor do 
apparelho empregado, ou, se o apparelho e bom , da exls- 
lencla de uma refraccao anormal no sou Interior, devlda sem 
duvida a nao ter sido o inslrumento, antes da obscurldade 
total, posto ao abrigo dos ralos solares. contorno da lua 
nas eslampas nao e regular; entretanto o P. Secchl, e mesmo 
Sr. Le Verrier, dlzem que o desappareclmento do sol teve 
logar normalmente. 



(1) A cste respeito creio (lever reproduzir aqui aopiiiiaodas duas primeiras 
autoridades da Europa, o Sr. l^Mcrs, sobio director do observalorio de Allona e 
das Aslroiiomisclie Nacliriclilen, o Sr. Hansen, o cclebre autor das novas taI)oa.s 
aslronomicas do sole da lua, e director do obser\atorio de Golha. Esta opini3o 
i mencionada na carta seguinte que me foi diripida polo Sr. Peters : 

« Veuillez excnser, monsieur, du retard quo de nombreuses occupations 
nfont fait mctire a vous adrosser mes romorciments pour vos communications 
aussi intihessantes qu'iniportantos. — Vous avcz bien merite des scicncos en vous 
opposanl sdrieusemeiit aux fantaisies k'gfercs relatives ;» I'existcnce d'une plan^e 
entre Mercure ct le Soleil. — 11 vous sera sans doulc agreable il'apprendrc que 
M. Hansen s'accordc avcc vous pour reconnailre que les anomalies sur les- 
quelles M. Le Verrier fonde son hypntliesc dune planf?te inKrieurc.a iMcrcure 
.sonr dues a des erreurs d'obsorvalion, provennnt surtout do ce que les ins- 
Irunienls n'avaient pas il€ niLs a couvert des rayons du soleil. » 



SOBRE ECLIPSE. 38 

As irregularidades nao dependem, pois, do contorno lu- 
nar, como diz o Sr. Le Verrier, e creio que se deve attri- 
buil-as ao appareliio. facto notado comtudo tem analogias 
com as protuberancias negras vistas em 1853 pelo Sr. Moerta. 
Mas, no caso da observagao feita no Chile , a refracgao anor- 
malfoi provavelmente exterior ao instrumen to, na propria 
atmosphera, emquanto que no caso presente devia ter tido 
logar no interior , pois o Sr. Foucault nada de semelhante 
assignalou no seu Chercheur. Sr. Le Verrier quer fundar 
sobre as irregularidades da imagem photographica da lua 
uma theoria da coroa, theoria em que nao e mais feliz do 
que na das manchas solares. Nos nao nos demoramos nesse 
ponto. Os relatorios dos eclipses anteriores a desmentem 
completamente. 

Collocando-se sobre a linha central de urn eclipse , nao se 
ve a vizinhanga immediata das bordas do sol senao do lado 
da immersao e da emersao. Para vel-a no sentido perpen- 
dicular e preciso co!locarmo-nos nos limites norte e sul da 
banda eclipsada. Em Paranagua todo o contorno do sol foi 
observado , teado-se dividido a commissao brazileira em tres 
secQoes, das quaes uma flcava sobre a linha central e as 
duas outras nos dous limites da banda da obscuridade total. 
Se bem que a commissao franceza fosse composta de uma 
dezena de pessoas , como eu soube por uma carta particular, 
Sr. Le Verrier reuniu toda a expedigao em um mesmo ponto, 
de maneira que nao pude fallar dos bordos norte e sul do 
sol (*). A reuniao de todo o pessoal no mesmo logar tinha , 
alem disso , o inconveniente de , em caso de mau tempo , 
ornar todo e qualquer trabalho impossivel. Dever-se-hla 



(*) fi verdade que no dia mesmo do eclipse, veado a atmosphera carregada, 
decidiu-se a fazer duas estacCes ; mas era um pouco tarde. Nao ha via tempo 
para afastal-as suQicicntemeate se o do estivesse na realidade muito ni<iu. 
R. S. I. 8 



34 REVISTA BRAZILEIRA. 

coUocar uma estagao nas praias do Atlantico , uma outra no 
centro da Hespanha , uma terceira nas praias do Mediter- 
raneo , e duas outras nos limites norte e sul da banda eclip- 
sada. Foi so a grande difficiildade de communicacoes que 
nos impediu de estabelccermos em Paranagua muitas esta- 
Qoes sobre a linha central. Nao tinbamos, como a commissao 
franceza, as facilidades offcrecidas por dous mares e pelos 
caminhos de ferro. Teriamos sido obrigados, para estabe- 
lecer estagoes afastadas umas das outras, a penetrar no 
centro da America, e e uma viagem do muitos mezes, que 
nao poderianios fazer em tres semanas somente , tempo que 
nos restava para prepararmo-nos. Sr. Le Verrier queixa-se 
de nao ter tido senao Ires mezes para a preparagao , e do 
eclipse nao ter durado senao tres minutos. Acha o encargo 
ingrato e pcrirjoso !! 

Seja como fur, em um minuto, tempo este que durou o 
eclipse de Paranagua, pudemos assignalar pontos novos, 
entretanto que o Sr. Le Verrier em tres minutos so reconhe- 
ceu que ja se sabia. fi verdade que elle receiava fazer de 
mais, quando diz no sen relatorio que aquelles que nao que- 
rem limitar-se nunca cbegam aum resultado ulil ! 

Sr. Le Verrier declara que em nenhnma circumstancia 
pode acbar o menor signal da existencia de uma atmospbera 
lunar. E verdade que esta atmospbera , se existe , e pouco 
apparente e pouco elevada ; mas a assergao e por denials 
absoluta. Foram observadas , pelo CDUtrario , em muitas cir- 
cumslancias , em particular durante o eclipse de 1858 , al- 
guns factos que podem talvcz ter outras causas , mas que 
concordam tambem com a exislencia de uma atmospbera 
lunar. 

Nao terminaria se quizessc tornar patentes lodes os erros 
desse relatorio. Disse bastante para ter o direilo de accrcs- 



SOBRE ECLIPSE. 35 

centar que e urn tecido de inexactidoes e de desprezos para 
com OS trabalhos anteriores. 

Temos ainda que ver os relatorios da expedigao ingleza , 
OS dos astronomos hespanhoes , os dos Srs. D'Abbadie e Petit, 
e OS de uma multidao de outros observadores. Analysal-os- 
hemos quando os paquetes da Europa nol-os trouxerem. 
Concluimos hoje , exprimindo o pezar sufficientemente justi- 
ficado , pelo que precede , de que a direccao da commissao 
franceza tenha sido tirada ao Sr. Faye. Este habil astronomo 
tinha concebido um piano notavel de observaQoes , que as 
actas do Instituto fizeram chegar ao nosso conhecimento. 
Foi era razao da direcgao que a expediQao de Pariz nau- 
fragou , que o seu relatorio nao pude susteutar comparagao 
com OS feitos sobre os eclipses anteriores. Em 1853 o Chile, 
em 1858 o Brazil, mostraram a velha Europa que a America 
do Sul tem o direito de figurar na historia dos progresses da 
sciencia. 

eclipse de 1860 na Hespanha, para o qual se tinha an- 
nunciado que se devia fazer tantas maravilhas , nao parece 
ter-nos dado mais do que confirm agoes aquillo que se obteve 
em 1858 em Paranagua. Esta longe de ter dado, quanto a 
factosnovos, um resultado igual. 

fi esta a occasiao de lembrar a phrase do escriptor o mais 
popular da Europa, depois da morte de Arago e de Hum- 
boldt , a phrase do celebre Babinet , que escreveu em Pariz 
no Jornal dos Debates : « mundo scientiflco deve , por 
causa da expedigao de Paranagua, um profundo reconheci- 
mento ao Brazil, ao seu augusto Imperador, sabio, mais 
sabio que muitos sabios de profissao » ; expressoes cheias 
de verdade e que sao o maior elogio que pude ser feito a um 
soberano no seculo do progresso , e baseado sobre um facto 
de que se pode gloriar a nagao brazileira. 

Emmanuel Liais. 



ECONOillA POLITICA 



O eonimerelo do eha nn MussIa* 



A importancla e exlensao do commercio do cha na Europa 
e na America torna-se de dia em dia mais consideravel. 

A China ( ate que o Japao se resolva a entrar em concur- 
rencia) e o unico paiz que abastece desse producto as duas 
partes do mundo , n'uma das quaes occupa a Russia como 
consumidora um logar importante. 

E de facto o consumo de clia neste imperio e prodigioso : 
seu uso naturalisou-se a ponto de lornar-se uma necessi- 
dade tao geral , que nenhuma classe da sociedade pode passar 
sem elle: e p6de-se dizer que o cha entra como elemento 
constitutivo nas condigoes de existencia dos Russos. 

Para proteger o coinmercio deste producto, o governo do 
Czar prohibiu a entrada delle por todo e qualquer ponto que 
nao seja a povoagao de Kiakhta ; de sorte que a enorme 
quantidade de cha que se consome na Russia vem toda pela 
fronteira mais distante da Siberia, e ja nos limites das fron- 
leiras da China. 

espago imraenso que percorre assim esse genero ate 
chegar aos centros de consumo , e as muUiplicadas e sue- 



38 REVISTA BRAZILEIRA. 

cessivas taxas de que e carregado , fazem com que os pregos 
se tenhani augmentado extraordinarianiente , e ainda com 
esta circumstancia mais, que, como e o cha quasi o unico 
genero de trafico importante entre a China e a Russia, ve-se 
esta obrigada a grande dispendio de moeda , o que vem de 
alguma sorte corroborar a opiniao dos economistas modernos 
que indicam a Asia como o ponto do globo onde vai-se 
perder o numerario europeo. 

que e, porem , iucontestavel , e que os metaes preciosos 
da Europa nao cessam de se dirigir para as Indias ; e a 
Russia , como acabamos de ver , manda por sua parte uma 
grande quantidade delle para a China pela fronteira de 
Kiakhta, assim como para as regioes da Asia Central. 

Seja, porem, como for, resulta da prohibigao que o go- 
verno russo estabeleceu sobre o cha, que o prego deste ge- 
nero , tao modico em Cantao e nos outros portos da China , 
onde OS Armenios vao compral-o , e tao caro e elevado cm 
Kiakhta, que ha toda a vantagem em introduzil-o por fraude ; 
e assim foi , que nao tardou o contrabando em estabelecer-se 
em tao formidavel escala, que se pude assegurar que a me- 
tade pelo menos do cha que se consome na Russia e inlro- 
duzida por contrabando. 

P^sta situagao tao anormal nao podia deixar de attrahir a 
attengao do actual ministro de financas o Sr. Kniajevitch , 
que por muitos actos ja tem mostrado espirito illustrado e 
vistas largas e organisadoras. 

Para fazer cessar o estado de cousas que acima indicamos, 
nomeou o Sr. Kniajevitch uma commissao a qua! encarregou 
de cxaminare estudar a questao, e de prop6r as medidas 
mais adequadas aquelle fim. 

• Consta que essa commissao j;i conchiiu os sens trabalhos, 
e que propoz medidas, senao radicaes, pelo mcnos proprias 
para darem nova face ao commcrcio dessc artigo na Russia, 
e mesmo modi(ical-o sensivelmente na Europa. 



EGONOMIA POLITICA. 39 

A commissao propoe em primeiro logar que se levaiite a 
prohibigao , e que se deixe entrar livremente o cha por todos 
OS portos e fronteiras do imperio, pagando-se simplesmenle 
um direito, ainda algum tanto exagerado, mas assim mesnio 
muito reduzido , coinparativamente as taxas actuaes. 

E portanto de esporar que daqiii a poaco tempopossaa 
Russia receber excellente cha (cha conhecido no commercio 
europeo por cha de Cantao ) , por pregos razoaveis ; e pude 
ser que as novas medidas tambein produzam a vantagem de 
diminuirem a sahida dos metaes preciosos, que vao, por 
assim dizer, enterrar-se na Asia. 

Estas importantes medidas, cujos effeitos devem-se es- 
tender alem da Russia, suggeriram-nos a idea de fazer uma 
rapida analyse da notavel obra do economista russo Tar- 
rassenko-Otreschkoff, i'ntitulada —£nsa«o sohre o commercio 
da Russia — , obra que ainda nao sahio dos prelos, mas da 
qual ja foram pubUcadas algumas paginas n'uma Revista 
russa de economia poUtica , da qaal exirahimos os seguintes 
dados reLativos ao commercio do cha. 

A Russia entrou em relagoes de commercio com a China 
em 4727 ; ha portanto quasi seculo e meio. 

A essa epoca remonta o co iimercio de cha que faz com 
este paiz, e que tern continuado ale agora, sem que du- 
rante esta longa serie de annos se tenham alterado as bases 
dessas relagoes que eram , e ainda sao mui viciosas; verdade 
e que nestes ultimos tempos fizeram-se algumas 'modifica- 
goes, porem sem resultado apreciavcl , porque eram insufTi- 
cientes. 

cha vai da China para a Russia pcla fronteira de Kia- 
khta ; e escusado pois demonstrar quaes sao os inconve- 
nientes que resultam de uma viagem tao longa , quao lenta 
c escabrosa, e para ovilal-os fizeram-sc ullimamente algumas 
expediQoes pcla cidade de Semipalatinsky , no governo de 



40 REVISTA BRAZILEIRA. 

Tomsk na Siberia , que demora la para as margens do Irtisch 
na fronteira occidental da China. 

Em virtdde porem de embaragos, que nao cabe aqui men- 
cionar, e dos quaes o principal e a alfandega, e apezar das 
vantagens que offerecia a posig-ao destas cldades, as remessas 
de cha nao forain tao importantes como se esperava; se bem 
que chegassem a 144,000 kilogrammas, representando ap- 
proxi madam en te a somma de 350,000 rublos, algarlsmo em 
que nao se conta o cha chamado de iijolo, qualidade gros- 
seira, que se amassa com sangue de boi ou de carneiro, 
e que se corta depois em pedacinhos, ou formazinhas qua- 
dradas, d'onde se deriva a sua denominaQao. 

Esta qualidade de cha, que e o de que fazem uso os povos 
nomadas da Russia e dos paizes vizinhos, so figura nas en- 
tradas de Semipalatinsky pela somma de 50,000 rublos. 

£ isto que dizem os dados officiaes; mas e escusado 
observar que a immensa extensao das fronteiras desse lado 
do imperio da completa expansao ao contrabando , e que os 
contrabandistas nao cruzam os bragos. 

Antes da applicagao da pauta actual , isto e , antes de 
1819, principio que regulava as imporlagoes era mais 
liberal ; sob esse regimen o cha podia entrar na Russia por 
todas as fronteiras europeas, e tambem pela de Kiakhta. 
Veio depois o systema protector de 1822, e de novo a im- 
portagao do cha foi rigorosamente prohibida , excepto pela 
fronteira de Kiakhta. 

Deixando de parte os dados officiaes, e os algarismos que 
apresenta o autor para fundaiiientar as suas conclusSes, 
vejamos as mesiiias conclusoes a que elle chega , segundo os 
documentos que consultou. 

A importagao do cha tern pcrmanecido estacionaria du- 
rante OS ultimos quinze annos , ou'.talvez com mais exactidao 
sc deva dizer que soffreu rniia pcquena diminuigao. P6de- 



ECONOMIA POLITIGA. 41 

se calcular em 3,520,000 kilogrammas por anno , e mai 
2,400,000 kilogrammas de cha-lijolo, o que da , como con- 
sumo official, urn quarto de libra por habitanle: proporgao 
certamente muito inferior ao consumo effective. 

prego do cha na Russia , comparado com o dos outros 
mercados da Europa, e prodigiosamen;:e caro ; assim e que 
a libra (peso da Russia que conlem 409 gram. 3/10) de cha 
ordinario que custa nos portos da China 10 a 25 kopecs (140 
a 350 reis) ou, termo medio, comprehendendo lodas as 
qualidades , 30 kopecs (420 reis) , que sahe em Londres por 
15 a 35 kopecs (210 a 490 reis) , e em Hamburgo por 20 a 
40 kopecs (280 a 560 reis) ; vende-se na Russia e mesmo 
na fronteiia de Kiakhla, sem coniar os direitos d'alfandega, 
por 50 kopecs (700 reis) , e o cha superior por um rublo 
(cerca de 1 $750 reis). Em Nijni , a prlmeira qaalidade de 
cha vende-se a um rublo e 75 kopecs (1^960 reis), e a quali- 
dade inferior a um rublo (1$750 reis), eo mesmo cha vende- 
se a varejo nas loias de Moscow e de S. Petersburgo a 2 
rublos e 50 kopecs (3^500 a 4S200 reis). 

Nao sera talvez destituido de interesse o indagar as causas 
desta carestia , e de antemao pude-se dizer que consistem 
em geral na maneira especial por que se faz esse com- 
mercio. 

Ate agora as compras de cha que se faziam em Kiakhta eram 
reguladas por lei. Os negocios nao se tratavam livremenle 
como nas outras partes ; o negocianle nao tinha a faculdade 
deestipular o pagamento ede e(Tectual-o como Ihe convinha, 
mas sim conforme a regra estabelecida , e durante muito 
tempo a regra era que o pagamento se fizesse por via de 
troca ou permuta directa. comprador pagava o cha dando 
mercadorias russas, principalmente tecidos de laa, veludos 
de algodao , couros curtidos e pelles. Por aqui ja se ve quaes 
deveriam ser as delongas, porque essas mercadorias tinham 



42 REVISTA BRAZILEIRA. 

de ser avaliadas pelos mercadores chinezes ; depois havia 
discussao com os mercadores riissos ate clicgar-se a um 
accordo sobre a fixacao do valor , c a final seiiipre a mer- 
cadoria soffria notavel depreciacao. 

governo actual, para remediar ao menos em parte esses 
inconvenlentes, modificou em 1855 a base e o principio re- 
gulador das transacgoes. 

Permittiu que os pagamentos se fagam , parte em merca- 
dorias, e parte em moeda estrangeira; com a condigao , 
porem, de que esta somma nao exceda a terga parte do valor 
dos productos manufacturados, ou a metade do valor das 
pelles. 

Ate agora, escusado e ate dizel-o, os metacs preciosos 
passaram par^ a China por contrabando ; mas depois do 
novo regulamento , os ncgociantes de Nijni e os de Moscow, 
que traficam com a China pela fronteira de Kiakhta, afim de 
cumprirem a letra da lei, imaginaram converter a moeda 
da Russia ein objectos manufacturados, como vasos, salvas, 
bandejas, jarros, etc., e o metal assim transformado vai 
para a China com a porgao de moeda que o regulamento 
permitte; e e de ccrto esta pratica uma das causas da di- 
minuicao do numcrario da Russia. 

Voltando , porem , a carestia do cha , parece fura de du- 
vida quo uma de suas causas esta tambem na prodigiosa 
dislancia dos logares cm que elle se fabrica e no modo dc 
transportc. 

Os principaes estabelecimcntos e plantacocs, em que se 
cuUiva c manipula o cha para cxporlar, acham-se nas pro- 
viiicias moridionacs da China , e na vizinhanga do literal, 
como Canlao, Fou-Kian, Schang-llai, a ilha dc Einoi, Ning- 
F'o, etc.; isloe, piovincias cujos portos cstao al)crtos ao 
coinmercio ostrangciro, c ondc os Inglezcs c os Americanos 
tem eslabelecido suas relacoes c feitorias. 



ECONOMIA POLITICA. 43 

Quasi toda a porgao de cha que vai para a Russia por 
Kiakhta, c mesmo por Semipalatinslvy , sahe de Fou-Tchaon, 
cabeca da provincia de Kiang-Si. 

E esta mesma provincia que fornece grande parte do cha 
que se embarca em Cantao , e nos outros portos das pro- 
vincias vizinhas, e que dahi se exporta para ainglaterra, 
e em geral para a Europa e America. 

Pelo que respeita a qualidade do cha , pareceria que , como 
a de qualquer outro producto agricola, dcveria ella depender 
do terreno em que nasce o arbuslo que o produz, bem como 
do cuidado que se emprega na cultura. 

Mas e isso um engano ; e os Russos que tem visitado as 
provincias da China, onde o cha e mais abundanto, asse- 
guram que a qualidade da folha dependc principahnente da 
maneira de preparar-se , e sobretudo da colheita a que per- 
tence , porque a mesma arvore d^ ordinariamente duas e tres 
colheitas. 

Da primeira colhe-se o que se chama flor de cha ; na 
segunda colheita sao as folhas menos finas ; e na terceira 
a qualidade ainda e mais inferior ; e por fim , das folhas 
mais ordinarias , e do refugo das primeiras colheitas , fazse 
cha de tijolo de que ja fallamos. 

Desses paizes longinquos que acima citamos e que se ex- 
porta cha que vai para a Russia. 

Antes de chegar a Moscow, gasta em viagem 7 a 10 mezes 
e as vezes mais , porque a distancia que tem de percorrer e 
immensa. 

De King-Si, por exemplo, ate iviakhta, a distancia e de 
5,000 verstes; de Kiakhta a Moscow , de 6,000 verstes; ao 
todo U,000 verstes, cerca de 3,000 leguas ! 

Os perigos e obstaculos que tem de veneer durante uma 
tal viagem, sao extraordinarios ; e ainda e precise , alem de 



44 REVISTA BRASILEIRA. 

tudo , atravessar climas e paizes os mais inhospitos e ri- 
gorosos. 

Ao sahir de Fou-Tchaon, na provincia de King-Si, e o 
cha levado em caravanas ; perlo da cidade de Tsin-Schan , 
descarregam-se as caixas, amarram-se a uns varaes , e car- 
regadas aos hombros de homens, atravessam assim as mon- 
tanhas locaes. 

Descem depois pelos rios ate ao mar do Oriente , que vao 
costejando em juncos durante um mez ou mais , e a final 
desembarcam perto da cidade de Tien-Tsin. 

Chegadas ahi , carregam-se de novo as caixas em camelos 
ebois, e assim caminhatn quatro a cinco mezes ate che- 
garem a Kiakhta. Nesta povoagao sao baldeadas de novo para 
serem transportadas primeiramente por terra e depois pelos 
rios, e assim successivamente descem o Tom, o Irtisch, o 
Obi, Tur, o Kama, e a final o Volga ate chegarem a Nijni- 
Novgorod, grande cidade mercante, emporio geral do com- 
mercio russo do interior. 

Pelo simples e rapido esbogo deste itinerario , ve-se que e 
um grande erro supp6r-se , como muitos , que o cha que 
se consome na Russia e de excellente qualidade , e superior 
ao clvi (lue se toma em muitos outros paizes, por nao ler 
de atravessar estradas maritimas ou tluviaes , quando aca- 
bamos de ver que uma grande parte do immense espago que 
percorre e sobre a agua , e na agua passa mais de metade 
do tempo antes de chegar ao mercado. 

Quanto aos gastos que exige uma viagem desta extensao, 
ja se ve que devcm ser enormes ; e e por isso que com cer- 
tcza pjde-sc calcular que o cha exportado para ainglaterra 
por mar cusla apenas a terca parte desses gastos : e e essa 
sem duvida a causa do contrabando. 

E sabido que a (juanlidadedecha que entra pela (ronteira 
do Kiakhta vai diminuindo todos os annos, ao passo que o 



ECONOMIA POLITICA. 45 

consumo do cha na Russia augmenta de dia em dia. D'onde 
vira a difTeren^a , senao do contrabando ? 

As modiflcagoes que o ministro da fazenda da Russia vai 
fazer neste importante commercio , nao so sao evidenle- 
mente justas e razoaveis, mas serao tambem vantajosas para 
OS consumidores do paiz e favoraveis ao tisco , porque pro- 
vavelmente a receita ha de crescer pela diminuigao do con- 
trabando , e talvez ate por sua completa extincgao. 

A Russia prepara-se , pois , para sahir de seu velho sys- 
tema proteccionista que por tanto tempo conservou a sua 
industria no bergo , e dar o primeiro passo para o systeina 
mais intelligente do commercio livre ; e temos confianga de 
que esse primeiro passo nao sera o ultimo. 

commercio do cha nao tardara a passar por uma re- 
volugao completa ; e e de suppor que este genero seja levado 
a Russia pelos portos de Odessa e de Riga, em navios eu- 
ropeos , e serao sem duvida os Inglezes , os negociantes de 
Hamburgo e da America que abastecerao a Russia de cha. 

[Extrahido.) 



M. 0. F. 



MARINHA m GUERM. 



Do eqiiililirio e do estatio tla<^ for^a^i iiavaes em 
Franca e ln$i;lateri*a. 



Os publicislas , que ligam algum pre^o a manutencao da 
paz maritima , incumbem-se de um trabalho penivel , e 
muitas vezes ingrato ; quando o suppoem terminado , elle 
llies reapparece , acontecimentos iiiesperados o transtornam , 
e perturbam os espiritos, quando menos se pensa. Queirain , 
ounao, coUoca-se a questao entre duas potencias, que tern 
serios direitos ao imperio, e policia dos mares : trata-se de 
saber sempre o que uma dellas tolerara da outra , sein des- 
cobrir-se, e sem rebaixar-se. E assim que a politica geral 
domina o desenvolvimento de for^as, seja qual for sua deno- 
minaQlio e numero. 

Emquanto guarda esta politica um caracter sincero , e 
estao suas intencoes de accordo com o que se diz , ou es- 
creve, nao causa grave inquietagao ver que as proporgoes 
se alteram, c a vantagem vai noloriamente pendendo para 
um dos lados; se nuvens, porem , se espalham por sobrc as 
relagoes; seas notas trocadas mais exprimem pelo que oc- 
cultam do que pelo que dizem; a prudeucia ordena entao 
que se preste particular atten^ao a esta falta de equilibrio, e 



48 REVISTA BRAZILEIRA. 

se redobre de esforgos para oppor-lhe o conveniente remedio. 
Sem exagerar as circumstancias, lemos razao para crer que 
somos chegados a este ponto. 

i\ao pretendemos desconhecer algum dos graves motivos, 
que induzern a acreditar na duragao do accordo entre Ingla- 
terra e Franga; tal como , por exemplo , o estado do Oriente, 
desde a China ale a Syria, e mais ainda o interesse dos dous 
povos tao estreitamente ligados em bem da civilisagao. Nao 
se pode, entretanto, dissimular mais a existencia de symp- 
tomas demonstrativos de que o longo periodo de boa intelli- 
gencia entre os dous Eslados ribeirinhos da Mancha vai ser 
substituido por oulro, nao de hostilidade , por certo, mas de 
resfriamento de relagoes. Sem que se pronunciem ainda , 
observam-se as duas partes mutuamente. A coexistencia , 
e communidade de acgao nos mesmos campos de batalha , 
nao liveram a necessaria forca para dcsarmar as prevengoes 
de raca; os coraQoes prestam-se a isso menos do que os 
bragos. Para que lossem seusiveis os effeitos de um tratado 
de commercio, conviria sujeilal-os a prova do tempo, e fazer 
maior numero de concessoes do que aquelle a que estamos 
dispostos. Do outro lado do canal ve-se uma leva de broqueis 
emtodasas classes, e em todas as provincias; declaram-se 
ameagados para tornarem-se ameacadores, e tomaram apeito 
fazer o estado de paz nao menos custoso que o de guerra. 
Vao as costas ser erigadas de fortes ; voluntarios equipam-se 
a sua custa ; e aquelles que , como eu , assisliram a revista 
de Hyde Park, e ao tiro de Whimbleeton, sabem de que 
espirito estao animadas as populagijes inglezas. A queixa 
principal contra a Franga, que ninguem trala de occultar, e 
iier-se ella ultimamente engrandccido contra a vontade da 
Inglaterra, e, diz-se mais, em opposicfio a compromissos 
formaes. Ter-se-nos-hia perdoado o havcrmos modificado , 
em proveilo alheio, o direito publico europeo; nao se nos 



MARINHA DE GUERRA. 49 

perdoa que o fizessemos em beneflcio nosso. Dahi nascem 
esse equivoco de relaQoes, e deslocamento de alliangas, que, 
subterranean! ente comegados, revelam-se ja por certos actos. 
Outra queixa , menos seria embora , e a linguagem que em 
nosso paiz empregam alguns escriptores. A embriaguez da 
victoria apoderou-se de alguns cerebros , que diariamente 
reformam , a seu talante , o mappa da Europa. Que vasto 
campo para diatribes contra os governos, que se tem mostrado 
economicos do sangue, e do ouro do seu paiz, e que en- 
caram a paz como um bem tao precioso , que por elle nao 
duvidam fazer sacrificios ! 

Mudaram os tempos, e o modo de proceder ! De humildes, 
que antigamente eram, tornaramse hoje altivos ; a Franga, 
dizem , com mais ninguem pode contar , e todo o mundo 
e obrigado a contar com ella ; se desde ja nao reassume 
seus limites nataraes, e por mera generosidade ; e, por ser 
discreta, que nao saqueia seus vizinhos. Eis o quese diz, e 
que se escreve em estylo, e com ares por demais pre- 
tenciosos. Pode ser , talvez , muito a proposito essa classi- 
ficagao , que a si propria se da a nagao , e com que se li- 
songeia a vaidade popular, que de semelhante incentivo 
nao precisa ; mas , admitta-se tambem , esta linguagem doce 
aos nossos ouvidos nao e tao agradavel as nagoes con- 
demnadas a um papel secundario , a quern deve parecer de 
bastante mau gosto o assignalarem-se os factos consuramados 
como prejudiciaes a sua influencia , ou como ameaca contra 
a sua integridade. Nao se accommodam ellas j^ com seus 
decretos de deposigao prematuros, que as levariaa mostrar 
que nao estao, como se pensa, inteiramente desprevenidas 
de recursos , nem faltas de vigor. Inevitavel effeito de um 
regimen, em que o exame exercido sobre as opinioes des- 
loca-lhes a responsabilidade ! Nos paizes verdadeiramente 
iivres a responsabilidade das palavras , e dosescriptos.nao 
R. s. I. u 



50 REVISTA BRAZILEIRA. 

passa de quem as proferiu , ou pnblicou: nao acontece assim 
sob imperio da liberdade velativa; em tudo se ve a mao do 
governo , tanto no que tolera , como no que reprova. 

Tanto nos factos, como nos senlimentos, ha, tambeni, 
um lado bom e outro mau, que convem ler sempre presentes 
quando se queira dar conta exacta de qualquer cousa. Va- 
leria mais, certamente, associar-se aos testemunhos de con- 
fianga, que nos tern chegado este anno de alguns conselhos 
geraes, e com esla so garantia acreditar na manutengao da 
paz. Nao dependeella, infelizmente, nem de intengoes nem 
de desejos engenhosamente expressados; anda adstricta a 
causas mais profundas. esludo de nossas forgas toma, por 
•isso , um interesse facil de comprehender-se. fi bom, sobre- 
tudo, saber em que circumstanclas nos achamos, quanto a 
marinha, que pode passardo segundo ao primeiro piano. Ha 
vinte annos successivos que trabalhos cheios de autoridade 
acompanham e assignalam na Revista os esforgos desta arma, 
suas necessidades , historia, e repetldas transformagoes. 
Conta, pois, esta queslao, na presente obra, nobres e sabias 
tradigoesa cujo abrigo se coUoca o menos competente de todos 
que se tem della occupado. 

I. 



Antes de entrar no exame dos detalhes , e essencial fazer 
justiga a uma palavra bastantes vezes usada, eque, prin- 
cipalmente em Inglaterra , serve para cobrir a exageracao 
dos preparatives. Nao se trata. diz-se, senao de medidas de 
defesa. Mesmo em Franga, falla-se de uma marinha offen- 
siva, e outra defensiva, dislinguindo uma da outra, como se 
desta dislincgao tudo dependesse. Fora preciso , pois, flxar 
a intelligencia sobre os termos desta distincgao. Pode ad- 
mittir-se que os reductos em terra, e as obras fixas, sejam 



MARINHA DB GUERRA, 51 

considerados como simples meios de defesa, com certa re- 
serva , porem ; e a razao e porque taes obras , dando se- 
guranga, deixam mais disponiveis os recursos fluctuantes , 
e augmentam forgas , que podem ser mettidas em linha : 
quanto ao material do mar, equivoca-se o que suppoe haver 
differenga entre ataque e defesa. Urn bosque fluctuante, ani- 
mado de movimento e provido de artilharia, e instrumento, 
tanto offensive como defensivo; o servigo , que para estes 
dous fins tem a fazer, e o mesmo ; nao ha differenga senao 
na maior ou menor quantidade da forga , e sua quaUdade. 
A armada do canal, por exemplo, que o almirantado parece 
destinar a preservacao dascostas, e arsenaes inglezes, nao 
pode , por ventura , em um dia dado , bloquear e ameagar 
nossos arsenaes, e costas? Pouco importaodestinodo mo- 
mento; os destinos mudam-se: o que sedeve considerar e 
menos o emprego do que o valor intrinseco das cousas. 
Dizer que os grandes armamentos destinam-se a propria 
defesa, e mostrar uma boa intengao , a que faltam as ga- 
rantias : e preciso tambem nao tomar estas declaragoes se- 
nao pelo que ellas valein , nao dando credito ao que tenha 
visos de ficQao. fi bom que , neste presupposto , passemos 
ainda uma vez em revista o estado das duas marinhas. Ja 
fizemos no anno passado (1), e voltamos agora a esta grave 
questao com documentos novos. Durante a sessao, que acaba 
de terminar , estudou o governo inglez o modo de entreter 
OS espiritos em alarma, com a mira decerto piano de ds- 
fesa, em que o parlamento difiicilmente consentiria, se es- 
tivesse a sangue frio. Tratava-se de armar as costas, e de 
provar que trezentos milhoes, destinados a esta defesa fixa , 
nao eram um pesado sacrificio paraopaiz, que em menos 



(1) Das duas grandes potencias maritiinas. Revista dos Dous Mundos de 15 
de Setembro de 1859. 



SS REVISTA BRAZILEIRA. 

de cinco annos despendera perto de seiscentos milhoes para 
naval. A tarefa era ardua, e em seu desempenho envidou 
primeiro ministro todas as forcas ; pinion a tragos largos , 
em um painel que phantasiava , os riscos em que era factivel 
incorrer-se ; mostrou Londres ameacada, os portos militares 
destruidos, e o territorio inteiro a merce de nma sorpresa: 
apontou OS armamentos da Franga como desproporcionados, 
e tomando cada vez mais o caracter de dcsafio % ameaca. 
Apoiando-se no relatorio de uma commissao de inquirito , 
reclamon da camara a adop^ao de suas conclusoes. Em vao 
objectaram certos membros, que este relatorio nada mais 
era do que um documento incoherente , aonde cada um dos 
commissionarios abundava no sentido de sua respectiva arma, 
aconselhando o artilheiro baterias em terra , o maritime ba- 
terias no porto , o engenheiro campos entrincheirados , e o 
official de infantaria o augmento da tropa de linha; nem por 
isso primeiro ministro deixou de conduzir sua maioria, 
atraves das tres leituras, ao fim a que se propunba. Com sua 
habilidade ordinaria, e um talento que parecia haver re- 
mogado , illudiu difficuldades , opp6z ironia a irona , mis- 
turou verdadeiro com o falso em razoaveis proporgoes , 
lisongeou as paixocs, e fez um appcllo aos interesses, sa- 
crificando mesmo a um exagerado mau sentimento , terrores, 
que no fundo deveria elle considcrar como chimericos. Era 
indispensavel veneer; venceu, e os milboes foram votados. 
Neste inventario de motivos , que tornavam as precaugoes 
urgentes , nossa marinha nao foi csquecida. Nenhuma outra 
arma e vista em Inglaterra com tanlo ciumc. Nao tcm o pri- 
meiro ministro dcixado de apresentar o dcsenvolvimcnto da 
forga ingleza como conscquencia do da nossa ; so falta ajun- 
tar-lhe, que nesta rivalidade de esforgos se tem o almirantado 
atrasado um pouco ; que e preciso apressar mais os passos 
para alcangar-nos e acompanhar-nos. Lord Clarence Paget 



MARINHA DE GUERRA. 53 

encarregou-se do commentario ; ensaiou restabelecer a ba- 
lan^a entre as duas marinhas , pondo dez naus inglezas fora 
da conta. Estas fiCQoes nada tem de digno , ainda mesmo 
que seja para forgar o voto do parlamento, exacto detalhe, 
e a tabella nominativa dos armamentosinglezes, tern 8ido 
publicados recentemente , e em comparagao com os arma- 
meiitos francezes (1). Com o auxilio destes documentos, e 
dos que fornece o Navy-List do r de Julho de 1860, pode- 
se na presente occasiao flxar , da maneira a mais certa , o 
eslado das duas marinhas. 

Naquella data tinham os inglezes no mar, em estado de 
entrar em combate, 63 naus, e 41 fragatas a helice ; nos 35 
naus e 38 fragatas , tambem a helice , sendo a differenga a 
favor delles 28 naus e tres fragatas. fi , pouco mais ou raenos, 
a propor^ao que no anno passado verificamos. ^ verdade 
que , para tanto adianlar-se , tem o almirantado precisao de 
fazer urn grande e custoso esfor^o. Ha bem pouco tempo , 
regulavam uma por outra as forgas das duas marinhas; e, 
ainda que iguaes em numero , tinhamos a vantagem pela 
qualidade. As festas maritimas de Cherbourg trouxeram a 
Inglaterra a examinar mais de perto sens recursos; fez pro-- 
ceder a um inquirito, e reconheceu , que das 50 naus a 
helice , que figuraram nas listas do almirantado, so 20 eram 
proprias para o servigo de guerra. Tinhamos nos entao 39 
no mar, ou proximas a serem langadas dos estaleiros. A 
Inglaterra contava apenas 34 fragatas, quando nos tinhamos 
46. Assim se achavam as cousas em 1858 ; a vantagem 
evidentemente nos pertencia. Alem disso , um decreto de 
1857 abria o credito de 170 milhoes, repartidos por dez 
exercicios ate 1867, para construcgoes novas que deviam 



(1) Vide — Brochura sobre os orcamenlos da marinha em Franga e Ingla- 
terra — cujo aulor se apreseala dei)aixo dos auspicios do ministro. 



54 REVISTA BRAZILEIRA. 

elevar nossa for^a naval a 40 naus e 50 fragatas a helice. 
Em presen^a destes factos, a Tnglaterra tomou o negocio ao 
serio; viu nesta distribuigao de forgas uma calamidade pu- 
blica, e nada poiipou para conjural-a: despertou, dando a 
medida de sua actividade e poder. Desde o fim de 1858 
quatro naus de vela estavam transforuiadas : em 1859 foram 
langadas ao mar sels outras novas, e ainda cinco conver- 
tidas; duas baterias arietes a vapor entrincheiradas tinham 
side encommendadas a industria" particular: cinco fragatas 
novas, e alguns navios accessorios completavam esta res- 
taura^ao de material. Nunca se vira um movimento igual. 
Segundo os dados fornecidos ao parlamento por Lord Paget, 
secretario actual do almirantado, comprehendiam as cons- 
trucQoes novas, no decurso dosdous ultimos annos, 46,284 T., 
sendo 20,210 para as naus, e 21,268 para as fragatas. Ele- 
vava-se a forga de 16,730 cavallos o numero de machinas 
encommendadas. Em 1860 a 1861 ajuntar-se-ha a estas 
eifras 13,216 toneladas de naus de linha, 13,500 de fra- 
gatas, 4,871 de corvetas, 8,041 de navios inferiores, e mais 
12,800 cavallos de vapor. Parece que, a porfia, os gabi- 
netes que succedem-se acceleram , em vez de retardar , este 
impulso; e,e evidente que, ressentindo-se de um tal pro- 
gresso, comecea forca ingleza a tomar um caracter de exa- 
geragao. 

que faziamos nos entretanto ? respondiamos por esforgo 
igual ao da marinlia rival? deixavamos nos arrastar pelo 
exemplo? Basta recorrer aos documenlos ofliciaes paracon- 
vencer-se de que nao temos levado muito loiige as repre- 
salias. Amarramos-nos estrictamente ao decrelo de 1857, pre- 
parado em 1855 por uma conrnissao, que fixou, com os 
creditosannuaes, as proporgoes de nossa forga naval eflfectiva 
e regulamentar. Nao se ajuntou mais nem uma nau, nem 
um milhao a esta lei , que retarda por dez annos o completo 



MARINHA DE GUERRA. 55 

restabelecimento de nossas forgas. As trinta naus novas , ou 
transformadas, que a Inglaterra fez sahir de seus estaleiros 
em vinte e seis mezes, nao oppuzemos mais do que cinco, 
ou seis da mesrna classc: era isto mostrar uma discriQao 
exemplar. Exigia ella coiisecutivamente, e em tres paga- 
mentos, 200 milhoes para augmento do material naval, e 
nao sahimos dos 17 milhoes, que nosso orcamento destina 
annualmente a este emprego. Como explicar, pois, as re- 
criminagoes de que fazem objeclo nossos armamentos; re- 
criminaQoes que, a bem justo titulo , poderiamos reenviar 
aquelles que as fazem 1 Que para manter a sua grandeza se 
julgue a Inglaterra obrigada a fazer sacrificios ate agora sem 
exemplo : que queira , por meio de preparatives imponentes, 
suffocar em gerinen ate o desejo de attentar contra o seu 
repouso ; que se ponha em guarda ate o excesso contra as 
sorpresas e as aventuras, e isso uma conducta, que por si 
mesma se justifica , sem que seja precise addicionar-lhe 
falsos alarmas indignos de um povo esclarecido e resolute , 
do qual depende so , que as forgas de que dispoe sejam mais 
consideraveis , a medida que tem ellas de operar em um 
raio mais extenso , na certeza de que , a potencia que tem 
muitos pontes a proteger , deve esforgar-se em sstender por 
tedes elles essa protecgao. Eis ahi grandes consideragoes , 
que nada teriam perdido em ser desembaragadas de accusa- 
goes injustas, e terrores pueris. A verdade fallar, o preblema 
da superieridade naval so tern um terme verdadeiramente 
essencial — o dinheiro. Depois que uma nau de primeira 
classe custa cinco milhoes , uma fragata enceuragada seis 
milhoes, e que estas machinas de guerra nao podem entrar 
em operagoes sem uma despeza em combustivel , que orga 
por tres a quatro mil francos por dia, o papel , que se tem 
de representar sobre os mares, esta na razao das sommas 
que para esse fun f6rem consagradas, no que concorre em 



56 REVISTA BRAZILEIRA. 

grande parte tambem o credito e riqueza de urn Estado. t, 
um duello financeiro e railitar; convir-nos-ha leval o a ef- 
feito? convira opp6r milhoes a milhoes? sera preciso dar 
ao exercito do mar o equivalente , ou pouco mais ou menos, 
do que damos ao exercito de terra? a quantas naus construir 
a Inglaterra, responderemos pondo outras tantas quilhas 
nos estaleiros ? collocada a questao nestes termos , resolve-se 
ella por si mesma. Por muito abundantes que sejam nossos 
recursos, tern seuslimites, e seria Iriste exhauril-os todos 
com a marinha de guerra. Basta que tenhamos de sustentar- 
nos em uma attitude dispendiosa de vigilancia contra os 
Estados empobrecidos do continente ; seria temeridade pre- 
tender, a forbade dinheiro , ao imperio do mar contra um 
povo, que por seu commercio e industria poe em contribuiQSo 
todos OS paizes do mundo? A este respeito, o remedio que 
ha , h saber resignar-se , e regular as pretengoes pelo estado 
da propria fortuna. Fizessemos o que fizessemos, ficariamos 
sempre, quanto a numero de armamentos, a uma grande 
distancia da Inglaterra. Podera variar a proporgao , e flcar 
naquillo que a Inglaterra julgar ser util, e prudente. Acaba 
ella de provar que a despeza nao a amedronla , e que neste 
ponto vai a opiniao publica ainda alem da do governo. A 
vista disto, acha-se tragada a marcha que temos a seguir ; 
em falta de numero, e a qualidade que devemos visar: e 
pelo cuidado dos detalhes; pela instrucgao dasequipagens; 
pela escolha dos homens , que se deve ensaiar o modo de 
estabelecer as probabilidades em nosso favor. Tomar a peito 
que cada navio se torne um modelo de perfeigao , aonde 
cada serviQO esleja detalhftdo a quern melhor o saiba cum- 
prir, eisoQ'n a que se deve caminhar, e o conselho que 
dao OS homens esclarocidos. Um official eminente , cujos 
trabalhos os leitores da Revista conhecem, o almirante Jurien 
de la Graviere, Iratando dos recontros maritimos de 1812 



MA.RINHA DE GUERRA. 57 

entre a Inglaterra e os Americanos , recordou , ha pouco 
tempo, que pode uma nascente marinha animada do de- 
sejo de brilhar. Con seis fragatas, e alguns brigues, fez a 
Uniao frente a Graa-Bretanha, que cobria os mares com suas 
esquadras, e trouxe ate as aguas da Mancha audaciosos e 
felizes cruzeiros, fi porque estas fragatas e brigues eram 
navios de escolha, bem equipados e bem commandados, e 
que com sua marcha superior podiam, a sua voiitade, aceitar, 
ou recusar combate, perseguir e fatigaro inimigo ate que 
a fortuna Ihes offerecesse changas de destruil-o. Nenhum 
exemplo prova melhor que o respeito ao pavilhao pode 
fundar-se em outras causas que nao armamentos excessivos ; 
e que, em circumstancias escolhidas , a boa organisagao 
contrabalanga vantajosamente o numero. Esta boa organi- 
sagao tem-a a nossa marinha? esta ella disso bem longe, 
se acreditarmos as censuras recentemente apparecidas no 
seio do corpo legislativo. Um deputado, que representa 
Toulon (1), enunciou contra a marinha accusagoes, que 
chegam a considerar-se amargas. Tornando-se echo das 
queixas, e dos ciumes de que os corpos combatentes jamais 
se tem sabido abster, arremetteu sobretu do contra os corpos 
administrativos, e com particularidade contra os engenheiros: 
lauQou-lhes em rosto, que nao ouvindo o conselho dos ho- 
mens do mar, faziam mysteriosamente os pianos dos seus 
navios, que na experiencia conhecia-se depois carecerem 
das mais importantes qualidades nauticas : segundo elle , 
nossas construcgoes peccam em muitos pontos ; a altura das 
baterias, as condigoes de velocidade, a proporgao entre a 
forga da machina e a capacidade para a accommodacao de 
seu combustivel, e pertences. Nao Ihe faltaram exemplos 
para apoiar-se: citou a Bretagne de 1,200 cavallos, que, 



(1) Mr. de Kerveguen. 



58 REVISTA BRAZILEIRA. 

consumindo 120 toneladas de carvao por dia, nao tern paioes 
para mais de 400 , ficando assim sem elle depois de oitenta 
e quatro horas de navegagao. mesmo disparate observa , 
quanto as velocidades: ao lado de naus com macliinas de 
1,200 cavallos tein a nossa marinha outras , que descem a 
140, como a do Montebello ; as do Lniz xiv a 600; as do 
Austerlitz a 500 ; as do Donawert, S. Luiz e Fontenoy a 450. 
Coraprehende-se facilmente os inconvenientes, que se ligam 
a esla desigualdade de marcha entre as naus. Formadas em 
esquadra, dependem ellas umas das outras, e as mais ve- 
leiras sao forgadas a esperar pelasronceiras, do que segue-se 
uma lenlidiio de movimentos, que influe sobre o successo 
das operaQoes , e seria perigoso em uin combate. Quanto a 
altura das baterias, e ainda mais grave o caso. Tem nossos 
rivaes sabido dar as baterias proporgoes, que, debaixo de 
qualquer tempo, permittem a efficacia do tiro; e a altura 
de seis, sete pes, e mesmo mais; as nossas tern menores 
proporgoes. Segue-se que, com mar cavado, nossas baterias 
da coberta ficam com as portas debaixo d'agua , o que obriga 
a fechal-as, tornando-as inuteis, emquanto que as do inimigo 
estao abertas, e jogam sua artilharia. Todos estes defeitos, 
e outros ainda se teria podido evitar, segando dizem, se 
a pratica viesse em auxilio da theoria, e se aos calculos de 
gabinete se tivesse ajuntado um pouco mais de experiencia 
do mar. Os melhores juizes em materia de instrumentos de 
bataiha, sfio aquelles cujas funcgoes os cba'oam a mano- 
bral-os e conduzil-os. Muito ha que responder a estas criticas. 
Tratando por esta forma a engenharia naval, mostra-se es- 
quecimcnlo e ingratidao : e a luta eterua dos homens da 
acgao conira os homens da sciencia. Os engenbeiros lem suas 
fraquezas; c quern esta isento dellas? nem por isso e menos 
certo, que a arte nautica Ihes deve sens aperfcigoamenlos os 
mais feUzes, e suas mais bellas descobcrlas. Estudaudo em 



MARINHA DE GUERRA. 59 

seu gabinete a curvatura das madeiras, a relagao e harmonia 
de siias formas, e que o engenheiro Sane achou o modelo 
dessas bellas naus, que todas as marinhas do mundo co- 
piaram como typos os mais perfeitos da architectura naval. 
Nao foi no mar, onde so figurou bem tarde, que Borda 
imaginou os sous circulos de reflexoes e repetidor. Qual foi 
homem do mar, que possa lisongear-se de haver feito mais 
pela sua profissao do que aquelles dous, que eram apenas 
uns sabios? Vai-se desprezando a theoria, e acreditando 
que a observagao especial a suppre ; mas nem por isso deixa 
elia de ser a regra das artes que as anima, as inspira, e as 
remoga, quando assim e preciso. homem de acgao nada 
ve alem do que sabe; o homem da sciencia procura sempre 
que ignora. A quern se deve , mesmo hoje , o typo das 
naus a vapor , que os officiaes de marinha suppunham im- 
possivel, e de que, ha doze annos, nao fallavam senao 
rindo-se? A urn de nossos engenheiros, o Sr. Dupuy de 
Lome, sustentado por um principe , cujas luzes estavam 
acima das prevengoes profissionaes. Quando a nau Napoleao 
foi langada ao mar , e fez evolugoes com sua machina de 
900 cavallos, e suas noventa pegas , obrigou os incredulos a 
aceitarem este presente da sciencia. Haveria razao de se 
queixarem de nao terem sido consultados? Sem duvida , os 
homens, que tern de usar dos instrumentos, devem, antes 
de trabalhar com elles, ser chamados a julgar do seu merito , 
e nao se deve deixar tudo ao capricho, e phantasia dos en- 
genheiros navaes. E necessario um contraste , e elle existe. 
Os pianos de construcgao partem do conselho de trabalhos , 
aonde, ao lado de quatro engenheiros, figuram dous al- 
mirantes, e tres capitaes de mar e guerra. elemento militar 
contrapesa assim o elemento administrativo , e reconduz o 
projecto as realidades do servigo , quando houver tentagao 
de afastar-se dellas. 



60 REVISTA BRAZILEIRA. 

VoUando as objeccoes apresentadas ao corpo legislativo ; 
algiimas deltas sao jiistas, oiitras exageradas. Quanto a al- 
lura das baterias, parece admittido que as nossas peccam a 
esse respeito , o que nos expoe a uma desvantagem. Con- 
siste a dilflculdade em concUiar urn pontal maior com as 
dimensoes geraesdas naus, e a necessidade de avranjar em 
outra parte espago para as provisoes de toda a qualidade. 
fi mais um estudo que ha a fazer, e talvez se pense nisso. 
Quanto a desigualdade de marcha de nau a nau, esta-se 
ainda a soffrer as consequencias de um longo andar as apal- 
padellas. Nossa marinha nao chegou de um so jacto a nau 
de grande porte : eatendeu-sepor muito tempo, queos mo- 
tores de pequena forga bastavam , e que o vapor seria apenas 
auxiliar da vela. Foi debaixo da iinpressao deste modo 
de pensar que tiveram logar as primeiras transformagoes ; 
comecou-se por machinas insufficientes para , pouco a pouco, 
chegar a outras de forga uiais apropriada. Ninguem duvidara 
que deixem estas desigualdades de ser um embarago, e uma 
causa de enfraquecimento; a uniformidade de marcha e um 
ideal , atras de que se tern sempre corrido na tnarinha , sem 
ser possivel jamais altingil-o. Sane o tinha em vista nos seus 
modelos, e de lodos os uossos constructores , e elle o que 
esteve mais proximo a alcangal-o. Com o uso da vela era o 
problema quasi insoluvel ; com o vapor nao sao tantas as 
difficuldades. 

Bern siiigulares anomalias tern assignalado comtudo nossos 
ultimos esforQOs. No typo mais geral da nossa armada , a 
nau de 00 pegas com machina de *.)00 cavallos , tem-se en- 
conlrado fallas de igualdade notaveis obaervadas em com- 
paraclio com outras da mesma forga e armamento. Navc- 
gamlo em esquadra, occupav;i sempre a Alciesiriis a van- 
guarda; aArcole, a Imperial, a Eijlaa, a Re do at able , so 
a acompanhavam a distancia; havia entre ellas a differentia 



MARINHA DE GUERRA. 61 

de uma , duas , e tres milhas de marcha por hora. De que 
provinha isto ? Nossos officiaes , entre outros o capitao La- 
brousse, depois promovido a almirante, estavam miiito preoc- 
ciipados com semelhanle acontecimento. Elle prestou seria 
attencao ao detalhe das machinas ; mudou as disposigoes 
das corredicas ; siipprimiu , por combinacoes engenhosas , 
as friccoes atrasantes ; e cbegou a restabelecer em algumas 
dasnaus, e com pouca despeza, o graa de velocidade que 
deviam ellas ter. 

E assim que depois de muilo tempo , de pacientcs obser- 
vagoes , e de felizes correcgoes , poder-se-ha dar a esta ma- 
rinha nascente aquelle vigor e precisao, de que e ella sus- 
ceptivel. E demais, os Inglezes tambem hao soffrido graves 
enganos , com cujas provas se enclieria miiitas paginas. 
Tem-os lido nas formas dos cascos , nas capacidades , na 
eslabilidade, e na marcha dos navios. Milhoes se tern es- 
tragado em experiencias improficuas; a lista de sens abortos 
e muito superior a nossa. Ha em suas naus bem saliente 
desigualdade de marcha. A Royal Albert e a Victoria tra- 
zem mesmo armamento de 12! pegas; a primeira tern 
apenas a forga de SOOcavallos, e a segunda 1,000, diffe- 
renga esta bastante consideiavel, Quanto a marinha, cstao 
OS Inglezes em circumstancias identicas as nossas: procuram, 
ensaiam, apalpam. 

ultimo facto, que tem dado logar a censuras, e a ma 
sorte experimentada pelo calculo da provisao de combustivel, 
e a difTerenga depois encontrada entre as capacidades presu- 
fnida e real. A sciencia errava em seu proprio terrene. Os 
calculos feitos para a Bretagne davam-lhe quinze dias de 
combustivel, que na pratica ficaram reduzidos a quatro ; o 
mesmo aconteceria a Gloire, scgundo dizem, pois eslimado 
em quatorze dias sou aprovisionamento em completo estado 
de armamento, chegaria apenas para cinco. Ha evideiile 



62 RE VIST A BRAZILEIRA. 

exageragao nestes calculos, e na raaneira por que sao elles 
apresentados ; mas, nem por isso e menos constante, que se 
lem elles algumas vezesreconhecido exactos,concorrendo para 
as graves difficuldades que Ihes sao inherentes accidentes for- 
tuitos, modificagoes de maturidade nos materiaes empre- 
gados, que faz mudar a linha d'agua calculada. E uma das 
mais serlas difficuldades que ofYerece o emprego do vapor. 
Deve navio conduzir o alimento da sua marcha : sua de- 
mora no mar esta limitada pela quantidade de combustivel , 
que seus flancos podem conter , do qual os mais favorecidos 
neste ponto contarao apenas uma quinzena de dias, outros 
nao terao mais do que uma semana, e mesmo so alguns 
dias. Toma assim o carvao uma importancia na economia 
naval , a qual parecem subordinados os outros elementos ; c 
por isso almirante Berkelley disse, que a mais temivel 
frota seria aquella que mais carvao tivesse. Seja como f6r, 
e preciso occupar-se do carvao antes de tudo mais , arranjar- 
Ihe espago, de preferencia aos viveres e munigoes, e ate 
mesmo a artilharia. N'lO e possivel mais andar-se no mar, 
como antigamente, mezes e annos : quando o terrivel con- 
sumidor chamado machina tiver devorado suas provisoes, 
forgoso sera entrar em algum porto para renoval-as. Como 
diminuir esta dependencia? como dar a esta marinha nova 
mais alento, urn campo mais vasto, uma inteira liberdade 
de movimento? Disso tem-se occupado por di versos lados, 
e em diversos seniidos : os fabricantes de projectos tomaram 
a diauteira. Uns nao vem maneiras de dar remedio a esta 
difficuldade, senao levando as construcgoes mililares a pro- 
porgoes monstruosas, ja ensaiadas nas commerciaes. Navios 
de 15, 20, e 30 mil toneladas, de armagao airosa, lornar- 
se-hiam verdadeiros armazens de carvao, capazes de dar 
conla das mais longinquas navegagoes. Outros , com menos 
ambiciosos pianos, tern dirigido suas vistas e esforgos para 



MARINHA DE GUERRA. 63 

a machina, e seu alimento. problema e simples : obter 
niais forga em manor espaco. Ja se comprimiu o carvao , 
reduzindo-o a tijolos com successo comprovado. Acham-se 
em ensaio outros systemas, como o emprego do vapor secco, 
e do vapor condensado. Parece mesmo que este ultimo sys- 
tema entrou ja em processo de experiencia corrente com 
ajuda dos apparelhos de Mr. John Wetherhed, membro do 
congresso dos Estados-Unidos. almirantado applicou-o ao 
novo Yacht da rainha , e parece applaudir-lhe os resultados. 
Tudo esta em germen , e e de crer que a marinha seja urn 
dia senhora dos motores de que e ella actualmente escrava. 
Emquanto se espera, fazem nossos engenheiros o que po- 
dem; e se alguma arguigao ha a langar-se-lhes em rosto , 
nao e, por certo, a de ter Ihes faltado a coragem , e de se 
terem recusado a ensaios perigosos. 

caracter da nova marinha e , para bem deUnil-o, um es- 
tado perpetuamente proliflco. Crea mais do que acaba ; passa 
de uma concepgao a outra com rapidez, que tem tanto ou 
quanto de vertigem ; perturbam-se os olhos seguindo-a em 
seu movimento. A vautagem desta actividade e de em nada 
flcarmos atrasados dos oulros; o inconveniente e de nao 
chegar a ver o fim da viagem. Aonde se pensava encontrar 
repouso, apenas se tem uma parada. Pega-se e larga-se ; 
enfaslia-se e desengana-se ; esta-se em continua busca , e 
em nada se assenta ; multiplica-se as sorpresas a ponto de 
cansar. Lance-se uma vista retrospectiva , e siga-se o tra- 
balho de Penelope, a que assistimos ha quinze annos! Ti- 
nhamos entao, confessado pelos entendedores , uma bella 
armada, que formaram almirantes exercitados sob a vista 
de um Principe, que os animava com o seu conselho e ia- 
fluencia. 

Apparece a nau a vapor, eclipsa-se a vela, e tudo vai de 
novo comegar. Imagina-se entao uma armada niixta , conio 



64 REVISTA BRAZILEIRA. 

uma sorte de compromisso entre o passado e o presente : 
admittindo o motor a fogo , toma-se a peito conter-Ihe os 
effeitos ; nao se quer ver nelle senao urn accessorio , e li- 
mitam restrictamente o grau do seu poder. As Iransforma- 
goes continuam neste sentido , e , aiiida nao acabadas , 
passa-se a novas revoluQoes. Prefere-se agora tratar antes 
de peqiienas embarcacoes do que das de alio bordo , isto e, 
aflotilha toma o passo a frola: farao maravilhas as flotilhas, 
que para tudo bastam ; sejam , portanto , ellas as favore- 
cidas , dinheiro e os bragos estao a disposigfio das ca- 
nhoneiras e das baterias fluctuantes; cinco destas, e 53 das 
outras acham-se simultaneamente nos estaleiros , assim como 
uma esquadra de transportes ; ter-se-ha assim uma esquadra 
de trocos miudos : mas , quando se conhece que estas ca- 
nhoneiras e baterias fluctuantes sao tristes instrumentos de 
navegagao , que com o mais pequeno man tempo mostrani 
a quilha, e precisam de constante reboque, volta-se ao 
principio, que jamais deveriam ter perdido de vista, que o 
navio de linha fortemente armado, e dotado de uma grande 
velocidade , e a unica e verdadeira base de uma armada , 
que tenciona demorar-se no mar, atacar, defender-se, e 
assegurar o respeilo do seu pavilhao. I^ a voUa desta opiniao 
que devemos a serie de naus a helice de melliores modelos. 

Teremos alcangado, emfim, o que desejavamos? Parece 
que nao. A invengao offegante procura com anciedadc novos 
melhoramentos. Trata-se de tornar invulneraveis nossas 
grandes machinas de guerra , e ajunlar-ihes a muraiha de 
45 a 55 centimetres de madeira uma armadura de 11 a 13 
centimetros de metal. I^ dahi que provem as fragatas en- 
couragadas, os arietes a vapor, como Ihe chamam os In- 
glezes, e e para este lado que se dirige hoje a voga , e todos 
OS sens esforgos. Corresponderao estas fragatas cncouragadas 
ao que se espera dellas? e serao tao poderosas como as 



MARINHA DE GUERRA. 65 

preconisam ? E so a experiencia que nos desenganara a este 
respeito. Ha apenas duas no mar, a Normandie e a Gloire; 
estao, alem destas, quatro nos estaleiros, em diversos graus 
de promptiflcagao : tem uma forga que varia de 900 a i ,000 
cavallos , e sao destinadas a montar de 36 a 40 pegas de 
grosso calibre. Os Inglezes so tem quatro, que sao a Warrior 
e a Black Prince, de 6,000 toneladas cada uma, de 1,250 
cavallos, e de 36 pegas; e duas outras de menor forga em 
construcgao. Nas recriminagoes periodicas, que se repetem 
na camara dos communs, figuram estas fragatas como es- 
.pantalhos. Lord Paget prevaleceu-se desta idea para em'um 
dos sens discursos captar a maioria; e, ainda que tivesse ci 
vista mappa da nossa forga naval , nao se apegou as cifras 
reaes, multiplicou-as , e deu-nos generosamente quatro fra- 
gatas de mais. A este respeito suggerese-nos uma reflexao : 
se, com effeito, as fragatas encouragadas sao urn inslrumerito 
terrivel , diante do qual as naus sem armadura nada mais 
tem que fazer senao arrearem sua bandeira , por que rai^o 
nao augmenta o almirantado inglez o numero das que tem? 
Tanto se esmera elle em possuir , em todos os casos , uaoa 
forca dupla da nossa, que se torna estranho o resignar-se 
em um ponto capital a condigoes de inferioridade. Tem s6 
quatro grandes navios entrincheirados de metal, e nos temos 
seis : esta maneira de proceder e nova , e a ella nao tem-nos 
habituado o almirantado. Sera porque nutre duvidas sobre 
as qualidades nauticas destes navios, e quer, ao justo , saber 
que sao elles antes de emprehender sua construcgao em 
grande escala? A despeza, neste caso, sahiria de nossas al- 
gibeiras ; e em qualquer tempo copiar-se-nos-ha , se a ex- 
periencia sahir favoravel. Nossos vizinhos sao useiros deste 
systema ; e , quanto ao avango , que sobre elle ganhamos , 
nao se Ihes da disso ; la custa menos o ferro do que aqui. 
Por emquanto nao e ainda favoravel a opiniao publica em 

R. B. I. 5 



66 REVISTA BRAZILEIRA. 

Inglaterra as armaduras de metal; acredita-se ate, que as 
mais poderosas cederao ao etTeito da nova artilliaria. Ex- 
periencias feitas em Portsmouth e em Shoeburyness pare- 
ceram concludentes. As pecas Armstrong e Wittewort atra- 
vessavam , a grandes distancias, chapas de ferro batido do 
quatro e cinco poUegadas de espessura. tiro era dirigido 
contra costado da TrjiSM^j/, bateria llucluante. A escola de 
tiro estabelecida a bordo da Excellent obteve os mesmos 
resultados sobre a velha fragata Briton em chapas fundidas 
de quatro poUegadas de espessura , que nao somente par- 
tiram-se a terceira bala receblda , mas que pelos fragmentos 
de taes chapas, mostram mais um resultado desfavoravel , 
e mais um perigo, quando a armadura cede. Nao deixa, 
comtudo, de ser uma experiencia cmiosa a destes navios 
cobertos de ferro a guisa dos antigos cavalheiros, que nem 
as balas ocas, nem as soUdas poderfio atravessar, suppondo 
mesmo que a artilharia aperfeicoada chegue a este resultado. 
Um tiro feito de terra contra um objecto fixo nao da sempre 
idea do que e no mar o feito contra objecto movel ; e uma 
couraga com todos os sens defeitos nao deixa de ser couraga. 
Quando mesmo nao annullasse ella sobre a massa dos pro- 
jectismais do que o effeito de um tergo, ou metade, nao 
deixaria ja de assegurar uma enorme vantagem ao navio que 
a tivesse contra o adversario , que nao a tivesse. Applicar- 
se-ha pois a todos o que ate agora se nao tern applicado 
senao a um pequcno numero ? A experiencia o decidira. A 
questao de dinheiro, com cifras mais elevadas, ainda se re- 
produzira, se os resultados forem favoraveis a esta ultima 
transformacao : as armadas, ja baslantc caras , sel-o-hao 
ainda majs. Ha epocas em que o genio dos homcns se atira 
de preferencia as artes que cream , e outras em que elle se 
apaixona pelas que destroem, o que prova o espirito rei- 
nante dos tempos, c suas conscquencias. Nossa marinlia 



MARINHA DE GUERRA. 67 

tern sido arrastada pela forga das cousas neste movimenlo 
e gosto militares. Nenhuma arma tem trabalhado tanto pelo 
seu proprio adiantamento , nem passado por mudancas mais 
profandas : nenhuma se tem applicado a averiguaQoes mais 
momentosas , e passado por maior somma de provagoes. Por 
tres vezes foi seu material transformado ; viveu seis annos 
na febre das dcscobertas. Chegou-lhe o momento de escolher 
seu caminho, em logar de procural-o ; de, conhecendo os 
elementos que a cercam , fixar-se nos mais apropriados. 
Correr ainda atras de hypotheses , estragar sua imaginagao 
em descobertas disparatadas , e expor-se ao vaivem dos 
acontecimentos. Aconselha a prudencia o concentrar-se em 
alguns typos escolhidos , bem estudados , e levados ao grau 
de perfeiQao de que sao susceptiveis. Eis o que convem 
fazer , quanto aos instrumentos : vejamos agora o que con- 
vem fazer, quanto aos homens. 



II. 



Quando se le , com a atten^ao que merecem , os estudos , 
que Mr. Jurien de la Graviere reuniu em volumes , depois 
de havel-os publicado na Revista , nao se pode deixar de 
sentir uma emogao misturada de tristeza. Tome o caso um 
caracter familiar em memorias de tocante piedade , ou eleve- 
se na descripcao dessas batalhas fataes , de que nossas ar- 
madas se retiraram , sOmente quando destruidas e despe- 
dagadas; communica-se tambem ao leitor o s6pro, que influe 
espirito do illustre almirante : nao se acompanha a des- 
cripQao dessas campanhas sumente com o pensamento , as- 
siste-se a ellas. Destacam-se algumas figuras com grande 
relevo : Jervis e Nelson , da parte dos Inglezes ; Jervis , que 
prepara sabia e friamente o successo ; Nelson que Ih'o rouba 
por suas effervescentes temeridades. CoUingwood entre os 



68 REYISTA BRAZILELRA. 

dous , com menos felicidade , mostra urn pouco de tempera 
de um e outro , allianga rara da energia razoavel , da pre- 
cisao do golpe de vista, e do genio feliz! que domlna nesle 
campo e a confianca na victoria : os almirantes contam com 
suas equipageus , estas com os seus almirantes. No nosso 
campo e a coofusao e o desanimo que reinam. A taes chefes, 

^ nata da sua corporacao, quem tinliamos nos a oppor? Brueys 
em Abouquir , Villeneuve em Trafalgar ; Braeys , que morreu 

„ antes de ser derrotado, e expiou nobremente saas mal to- 
madasdisposigoes; Villeneuve, que sobreviveu ao desastre 

, da sua armada, e, depois de um curto captiveiro, veio a 
FranQa suicidar-se, afim de que nao ficasse em duvida sua 
coragem. Ajudado por documentos particulares , restabeleceu 

.,Mr. Jurien de la Graviere, debaixo de seu verdadeiro ponto 
de vista, esta physionomia singular de Villeneuve, que mais 
se deve deplorar do que censurar. Antes de sahir para o mar, 
tinha elle consciencia da desgraga que o esperava: via navios 
mal armados, mal apparelhados, e mal providos ; equipagens 
cuja inexpericncia trahia-se a mais pequena manobra , e 
in'ao occultava estas faltas ao ministro sob cujas ordens servla, 
'a quem com instancia pedia ser substituido: negou-S^-lhe 

' isto, e levaram-o ao combate contra vonlade, entrando nelle 
ia com a certeza de ser batido. Eis as duas marinhas de 
entao, uma cheia deconfianga, e outra de liesitagao; uma 
s'egura dos seus golpes, e outra duvidando de si mesma. 
D'onde vinha este contraste? Da organisagao e dapreparagao 
das forgas. Houve depois uma espccie de vertigem namaneira 
de que se usou das nossas. Dcsde que Villeneuve denunciou 
suas fraquezas, devia seu comman lo passar a outras maos: 
,a disposigao de espirito em que elle se achava e daquellas 
que um officis^l superior nao deve jamais conhecer, e ainda 
menos revelar. E preciso que, ainda mesmo contra a evi- 
jdencia, elle acredite no bom resultado : a coragem propria 



MARINHA DE GUERRA. 69 

vale menos a quem tem uma tal graduacao , do que a que 
inspira. Mais Valeria ter entregado o commando da esquadra"' 
ao mais temerario dos commandantes , a um soldadb de " 
fortuna decidido a correr aventuras , a muito ousar,'e a 
muito arriscar. Fosse qual fosse o resultado , nenhum teria 
sido peior: ha certos momentos em que a audacia e o melhOr 
dos calculos ; ella se propaga e se communica , e restabelece 
a balanga. Em seus despachos falla Villeneuve das equi-'^' 
pagens em termos desesperados : quem sabe o que se teria' 
obtido tratando-as com mais um pouco de vigor? Pertenciam 
ellas as ragas fortes do litoral, que, quanto a intrepidez e 
intelligencia, a nenhuma outra cedem : ellas jamais viraram 
a cara ao inimigo no fogo , e o corso deve-lhes os seus mais 
determinados campeoes. elemento era bom ; faltava s6 que 
soubessem bem manejar ; o que era preciso a estes honieris ' 
para p61-os a par dos melhores ? Algum pouco mais de ins- " 
trucQao. que valia a inslrucQao nao era ainda naqiielle 
tempo apreciado ao justo, nem quanto ella exige. Agarradas 
sem methodo , e vindas de diversas partes , nao tinha havido 
tempo de classificar , e distribuir convenientemente esta 
marinhagem. Assim , com o primeiro mau tempo cinco naus 
soffreram avarias grossas , e o servigo de sua artilharia eiri 
combate era defeituoso : nos apontavamos ao apparelho e 
aos mastros, emquanto os Inglezes atiravam aos cascos ; suas 
cobertas contavam alguns feridos, ao passo que as nossas 
estavam cheias de morlos. A inexperiencia dos homens ' 
ajuntava-se tambem o effeito do mau systema. que nos ' 
aconteceu de nefasto , proveio destas causas combinadas, 
Servem de liglo eslas dcsgragas para nunca mais nellas se 
recahir ; a inslrucgao , eis a melhor forga de uma armada; 
e a ella que deve a nossa ter-se depois rehabilitado. A ins- 
trucgao do homem do mar nao e um fructo temporao ; so 
amadurece com o tempo. Para formar-se uma idea do que 



70 RRVISTA BRAZILEIRA. 

ella e , precisa-se seguir-lhe o desenvolvimento neslas me- 
morias de familia, que Mr. Jurien de la Graviere acaba de 
coUigir, e que, depois de lerem servido de exempliflcagao 
na marinha , nella sao hoje como que um compendio de 
ensino. fi seu pai que esta em scena ; nenhuma outra voz 
tem mais autoridade. Vice-almirante, Prefeito maritimo, Par 
de Franga , percorreu com distincc.ao todos os grausdahie- 
rarchia, conheceu todas as fortunas do mar, passou pelas 
provas do captiveiro , e assistiu ao laborioso nascimento da 
nossa marinha. Nestas paginas , aonde o interesse e sempre 
crescente, ve-se como chega a reconstruir-se uma armada, 
sahindo de suas ruinas. Data este movimento de 1820. Es- 
tavamos entao, quanto a forgas navaes, no ultimo grau de 
abandono, com as equipagens, e um material cada dia mais 
estragado. Unj ministro, que a vistas rectas unia uma grande 
firmeza, nao p6de resignar-se como seus predecessores , a 
um tal espectaculo. Apresentou peranle o conselho a questao 
em termos nada equivocos ; mostrou por calculos exactos 
que se marchava para uma inevitavel destruigao , e prop6z 
que se adoptasse, de duas cousas uma — ou renunciar a 
ter marinha para poupar despezas , ou despender sul'ficiente- 
mente para sustciilal-a. Ou nada de marinha, ou uma ma- 
rinha em cstado de fazcr-se respeitar. Por honra sua o go- 
verno decidiu-se por este ultimo partido, e accrescenlou 
alguns milhoes ao orQamento. De entao para ca melhores 
lem sido as intengoes , e melhores , com o andar do tempo, 
OS ados que sao dellas consequencia. Sabe-se quanta soli- 
citude desenvolveu o governo de Julho, quanta perseveranga, 
esforQos e sacrificios. A ninguem e permittido esquecer, ou 
desconhecer, o que fez um dos filhos do rei Luiz Philippe 
por esta arma da sua adopgao ; c dahi que partem os mais 
reconhecidos mclhoramentos, as reformas e os aperfeigoa- 
menlos os mais salutares. A inslituicao rcmo^a e anima-se ; 



MARINHA DE GUERRA. 71 

a arte torna-sc mais sabia e rettectida ; sabe-se para onde, 
e como se caminha ; sahe-se do empirismo para obedecer- 
se ao espirito do methodo. Para se ter uma perfeita con- 
vicQao disto, basla langar urn golpe de vista sobre os detalhes 
deste movimento , que nos conduziu ao ponto em que es- 
tamos. 

primeiro obstaculo a veneer era a intermittencia dos 
armamentos; antigamente, e assim era ha trintaannos, a 
esquadra que se recolhia ao porto depois de terminada sua 
cainpanha, contava se como uma forga inutilisada. Para fazer 
uma economia mal entendida, dispensavam-lhe os ele- 
mentos , disseminava-se-lhe ate as guarnigoes. Como des- 
armamento perdiain-se todas as vantagens adquiridas du- 
rante a campanlia. Em taes tluctuagoes do servigo , nada 
guardava consistencia , nem duragao ; passava-se sem regra 
nem medida, do estado de actividade ao repouso enervador. 
Se as circumstancias exigiam novo armamento , era precise 
fazer novas despezas , recomegar trabalhos interrompidos, 
reunirdenovo elementos disperses, e recompor os quadros 
das guarnigoes. Feita a conta, o dinheiro despendido nesta 
resurreigao de esquadras excedia talvez as economias pro- 
venierites dos intervallos de ociosidade, a que tinha sido 
alguma dellas coudemnada. Em geral o proveito era im- 
perceptivel , e a perda grande : nestc proceder sacriflcava-se 
a instrucgao , a tradigao, o espirito de classe, tudo o que 
nasce de uma existencia regular, de um exerciclo constante, 
e da mantenga de habitos bons. Parece que a este regimen 
funesto para os homens, e para os navios, se renuncion 
depois de bastantes hesitagoes ; a causa da permanencia dos 
armamentos, ao menos, alguma cousa ganhou. Teve-se o 
bom sense de conservar-sc sempre prompta a primeira vez 
uma esquadra de evolugoes de pequena forga : Fixaram-se 
algumas equipagens, aende a tradigao se conserva, e se trans- 



72 REVISTA BRAZILEIRA 

mitte ; quadros aonde a aprendizagem se torna mais facil e 
mais rapida a classiflcagao : tem-se urn nucleo de officiaes, 
que escapam a languidez de uma grande demora em terra , 
e aos inconvenientes de urn servigo profissional muitas vezes 
interrompido e recomegado : tem-se emfim um serviQo con- 
tinub, em logar de outro que precede por alternativas ; por 
muito reduzido que seja o numero dos navios armados , sao , 
pelo menos, navios com guarnigoes comiiletas, e nao bosques 
fluctuantes, que nao passarao da inercia a actividade, senao 
pot meio de grandes dispendios de tempo e dinheiro. 
systema tem apenas um lado mau, que e nao ser extensivo 
i reserva. 

Outro ponto a p6r f6ra da questao era a instrucQao especial 
para services determinados. ensino das equipagens tinlia 
recentemente um caracter geral, como se todos os homens 
fossem chamados a tudo fazer, e a substltuirem-se indis- 
tinctamente em funcgoes distinctas. Esta variedade de ins- 
triicgao linha um grave inconveniente, o qual era que o 
servigo nao chegava ao ultimo grau de perfeigao, por nao 
ser sempre entregue a mesma gente. fi uma verdade ele- 
mentar , que dividida a forga , torna-se ella menos efficiente; 
eque, concentrando-a, e mais etficaz. Ha pois vantagem 
em mulliplicar OS corpos dotados de aptidao, e investidos 
de allribuigoes particulares; e o principio da divisao do tra- 
balho applicado a arte militar. No exercito se tem ja reco- 
nhecido o bom effeito deste systema , porque aos corpos 
especiaes tem provindo um sensivel augmento de vigor : se 
cada parte toma importancia maior , mais imporlante se 
torna o todo. exemplo communicou-se a marinlia, que 
fez tentativas neste sentido , de que tirou bons resullados. 
Crearam-se escolas especiaes, em que se da a inslrucgao a 
fundb, e aonde os recrutas encontram cascos de corpos, a 
que ficam ligados : tal e a escola de marinheiros artilheiros 



i.' 



MARINHA DE GUERRA. 73 

estabelecida a bordo de urn navio constantemente em exer- 
cicio, umas vezes fundeado, e quasi sempre a vela. Esta 
escola pode formar mil pragas por anno , que, depois de exa- 
minadas, della saliem providas de um tilulo , e sao repar- 
tidas pelos navios aonde se tornam excellentes chefes de 
peoa, e a sea turno formam tambem discipulos. Fora con- 
veniente ampliar esta util institui^ao: o manejo de artilharia 
e, por excellencia , e sera sempre, ou cada vez mais, a base 
de uma boa marinha ; o intervallo de tiro a tiro nos nossos 
navios em Trafalgar era de tres minutos, qnando nos inglezes 
se dava dous tiros no mesmo tempo. No ancoradouro de 
Overlac tinha o almirante Lallande chegado a obter, a forga 
de exercicios, que dessem seus artilheiros, sem prejudicar 
a precisao , um tiro por minuto. Tudo quanto se fizer no 
sentido da rapidez e justeza da pontaria, sera outro tanto 
augmento de poder no armamenlo : dadas duas iguaes ar- 
madas, a vantagem perlencera a que tiver sua artilharia 
nielhor servida. A escola dos fuzileiros preenche o mesmo 
flm. tiro de mosquetes foi sempre familiar a gente do mar ; 
mas ate estes ultimos tempos conflava-se mais na habilidade 
individual do que na instrucgao da gente, e qualidade do 
armamento. Entrelanto em parte nenhuma e um tiro certo 
tao util e proveitoso como nos combates , em que todos os 
officiaes, desde o almirante ale o guarda-marinha, estao a 
descoberto, e aonde os fogos, que se cruzam das cobertas 
e das gaveas, podem, tanto como o das baterias, influir 
sobre o resultado da accao. A escola de fuzileiros fornece 
esta instrucQao especial : ella reproduz para as equipagens o 
que faz a de Vincennes aos batalhoes de ca(?adores a pe ; 
nella se aprende a manejar as armas aperfeiQoadas , qua 
iangam com a maior precisao, e a grande distancia , os seus 
projeclis. Esta instituigao comega apenas na marinha ; ella 
s6 produz setecentas pragas por anno: poderia talvez pro- 



74 REVISTA BRAZILEIRA. 

duzir mil, que distribuiriam na esquadra o coiiliecimento e 
habilo de fazer boas pontarias. E verdade que o mariuheiro 
presta-se pouco e mal a este esliido; seu humor de mobili- 
dade nao se accommoda a sujeigao, que Iraz o uso das armas 
novas ; elle repugna aos exercicios frcquenles , a attengao 
nunca interrompida, aos cuidados de delalhe , sem os quaes 
tornam-se esses exercicios de nenhum effeito. E uma in- 
teira educagao a fazer, urn babito novo acrear, o que tudo 
se alcangara com a perseveran^a. 

que se fez a respeito dos artilheiros e fuzileiros, e o 
que se tern ensaiado a respeilo dos timoneiros (hoinens do 
leme): mas vivas resislencias se tem nisto enconlrado ; 
tem-se ficado em ensaios, que, apezar de evidenlc apro- 
veitamento, nao foram muilo longe: quanto agageiros, nao 
se tem ainda tentado a experiencia ; acham-se dous sys- 
lemasem presen^a, um que deseja levar ao fimacreagao 
destes cascos de corpos escolhidos , destinados a conservar 
pelo maior tempo possivel no servico homens expericnles ; 
e oulro lemente do que a parciinonia da inscripgao mari- 
tima nao seja affeclada por esla combinagao , e que o ele- 
mento fixo das equipagens nao prejiidiquo ao elemenlo 
move!. E de alguma forma a Uita enlre a escolhaeonu- 



mero. 



Dizem uns que vale mais guardar os homens formados, 
niiUos que abrir as portas aos que se tem de formar. Os 
primeiros quereriam, para chegar ao seu lim mais segura- 
menle, que se lizesse cxtensivo a todos osmarinheiros ins- 
criptos dever do reengajamento comprcmio, que o De- 
crelo do 5 de JiiUio de 1856 limita a certas categorias ; 
OS oulros repclliam esla disposifao , lemendo i|uc os reen- 
gajamenlos em grande cscala prejudicasscm a leva perma- 
nenle, e enfraipjcccssem acifra da rescrva. Entre eslas duas 
o[tinioes nao c pennillido hesitar. Em lodas as categorias 



MARINHA DE GUERRA. 75 

do pessoal o que importa e forinar, e lerbom; o mediocre 
nao custa a apparecer. Gomo explicar-se esta especie de 
cullo pela inscripgao mavitima, que attenia contra o direito 
commum , e que encadeia as populagoes que vivem do mar? 
Esle regimen e lao oneroso, que com o que se acaba de 
dizer se Ihe nao exagera os effeilos. E pois preciso nao 
esperar tudo delle , nem tudo pedir-lhe : o que contribuir 
para adogal-o, sera um acto de justiga, urn beneficio. Assim, 
elevar, mesmo a forga de dinhciro , a parle fixa das equi- 
pagens para alliviar a parte movel , e uma coinbinagao mais 
recoinmendavel , principalmcnte quando por meio delle o 
nivel da instrucgao se eleva , e o espirito da armada se me- 
Ihora; nao e fora de proposito, portanto , insistir sobre o 
preenchimento destes quadros especiaes. Abram-se escolas 
para os timoneiros e gageiros , que saiam dellas com os 
competentes titulos , e ter-se-ha entao em todas as partes de 
servigo umaescolha, que dara o torn e servira de modelo. 
Muito se tcm lei to , quanto a composigao das equipagens; 
muito ha ainda a fazer. regulamento de 20 de Maio de 
1857 fixa-lhes o detalhe, e comprehende quatro efTectivos : 
sendo o effectivo completo, o eflectivo reduzido, o effectivo 
em disponibilidade, e o effectivo em commissao. Admitlindo 
estes termos, uma nau de segunda classe, como a Napoleao, 
teria 913 homens no primeiro caso, 480 no segundo, 56 no 
terceiro , 49 no quarto , o que e muita complicagao , e muita 
gradacao. Querendo estc decreto assegurar tambem aos na- 
vis de reserva um certo numero de pracas de escolha, da 
a cada nau quatro artillieiros marinheiros de provimento , 
em logar de marinheiros de escolha; tres as fragatas ; dous 
ascorvetas; e um a cada navio de ordem inferior. Se as 
nossas informagoes sao exactas, estas disposigoes ficarao em 
ielra morta. A permanencia dos quadros nao e extensiva a 
reserva, que, pouco mais ou menos, se conserva ainda pelo 



76 REVISTA BRAZILEIRA. 

systema antigo. Ora , reserva e toda a armada, com excepgao 
das nove naus da esqaadra de evolu^oes. Nao seria possivel 
estender-se em certo ponto csle beneficio da permanencia a 
semelhante parte da nossa forga naval , que esta della pri- 
vada? Para este fim se tem proposto pianos bem simples, 
que merecem ser attendidos. Para duplicar nossa armada 
activa bastaria dar um segnndo , por assim dizer, a cada 
navio da esquadra de evolugoes , passando metade de um 
pessoal escolhido para aquelle, que, segundo as circutns- 
tancias, fosse chamado a supprir outro. Ter-se-hia, e ver- 
dade, effectivos reduzidos, mas ter-se-hia ao mesmo tempo, 
sem augmento sensivel de despeza, dezoito naus disponiveis 
em logar de nove, umas em effectiva campanha, e outras 
promptas a entrarem nella: em caso denecessidade dar-se hia 
a umas e outras o complemento de suas guarnigoes. Ter-se- 
hia, alem disso, uma forga permanente de dez mil homens 
de escolha, tirados das diversas especialidades maritimas, e 
conservados no serviQO pelas vantagens , que um orgamento 
sabiamente repartido permittiria conceder-llie. Ou se adopte 
este piano, ou se imagine outro, a organisagao da reserva 
serasempre uma das mais urgentesnecessidades, e a melhor 
domonstrada do nosso servico naval. Uma oulra idea so tem 
propalado, que e a addicao as equipagens de um certo nu- 
mero de soldados aguerridos : esta idea suscitou objecQoes, e 
merecc nao tomar corpo, por ser repu^nante a marinha, 
cuja indole nao admilte corpos estranhos. Este sentimento 
explica-so por si , e nao e preciso exageral-o : os que nes.le 
peMsanicnto se apoiam com mais calor sao os que fazem da 
iui^cripcao a primeira e ultima palavra da defesa naval, e 
nada (pierein ver aquem, ou alem della. A inscripgrio, in- 
felizmenle, tem limitos a que promptaincnte se chegaria em 
uma guerra prolongada. Seria entao preciso, dado este caso, 
abaiidonar a resistcncia? seria preciso rcnunciar a procura 



• MARINH/V DE GUERRA. 77 

de outros meios, e arranjar em oatra parte um supplemento 
de forga? Mais sabioseria,porem,prever-se desde o principio 
da luta a insufficiencia deste elemento, e poupal-o, amal- 
gamando-o com outro. Nao seria a primeira vez que embar- 
cassem tropas a bordo de iima esquadra para supprir a falta 
de marinhagem; ahlstorialngleza, e anossa, fornecem disso 
mais do que um exemplo ; liomens escolhidos sao sempre 
homens escolhidos, seja qual for o elemento em que sirvam. 
Ahi estlo navios encouragados de ferro, que se atacarao 
um ao outro em um momento dado: suppondo-os, como 
se ere, impenetraveis a bala, cansar-se-hao em dar bandas 
inutilmente, queimando muita polvora para se fazerem muito 
pouco mal; como se acabaraesla questao? Ha so um meio, 
a abordagem : neste momento decisive sera inopportuno ter 
a bordo alguns soldados de escolha habituados aos com- 
bates corpo a corpo, e sabendo manejar essa terrivel baio- 
neta, cujojogoetao mortifero? nao valera cada um destes 
homens um marinheiro , e nao pertencera a victoria aquelle 
dos dous navios, quetiver a guarnigao de melhor tempera 
e mais numerosa? Estas consideraQoes tem sen valor, e 
exigem ser examinadas sem paixao ou desdem : e bom que 
ellas se reproduzam, e se discutam ; sen gcrmen ab.i esla 
langado, e so nao produzira, se o terreno a isao se nao 
prestar. 

Se excesso de audacia e algumas vezes um perigo, ha 
outro perigo peior , o excesso de rotina. A respeito dos ma- 
chinistas da-se um facto analogo : elles nao tem na armada 
a graduacao que corresponde a importancia de suas func- 
goes; e mal classificados, como estao, escapam a rcsponsa- 
bilidade seria. Um dos mais distinctos officiaes, o contra- 
almirante Paris, reconhecendo este vacuo, fez delle objecto 
de uma nota, que depois de ter sido entregue ao ministro 
da marinha, se tirou della um pequeno numero de copias 



78 REVISTA BRAZILEIRA. 

autographicas ; qiieria-se ouvir a opiniao do corpo. Com 
as antigas machinas de balaiiQO poder-se-hia fechar os olhos 
a alguns destes inconvenientes : eram ellas pesadas, e occu- 
pavam urn espago fora de relagao com suaforga; mas, em 
compensagao, tinham suas pegas uma solidez, que parecia 
desafiar a destruigao , e se prestava a tal ou qual incuria. 
Com as novas machinas directamente articuladas a helice , 
sao estas negligencias inadinissiveis; a vigilancia dos de- 
talhes e a condigao rigorosa de um bom servigo. Tem estas 
machinas maior velocidade, e occupani menos espago ; re- 
solveram ellas o problema, que com as antigas era indeter- 
niinado : sao uma honra para a arte naval, e tornarao muito 
mais poderosa a acgao das armadas. Estes bellos titulos , 
porem , sao contrabalangados por alguns defeitos; as novas 
machinas tem pegas mais delicadas: as pressoes, a veloci- 
dade das rotagoes particulares expoem-as a estragos conti- 
nuados; estao sujeitas a caprichos, cujas causas escapam 
aos olhos mais exercitados ; a menor fricgao produz nellas 
alteragoes, e muitas vezes rachadellas. Muitos destes incon- 
venientes naoprovem sO da qualidadedo instrumento.nascem 
do desGuido e ignorancia dos que delle servem-se. Comega 
aqui a responsabilidade do machinista, que prcsentemente 
nao e real, uem definitiva. Recebe uin machinista a sua ma- 
china , sobre a qual tem feito uma serie de observagoes 
durante a montagem, sem apresentar objecgoes, pois sabe 
que um corpo acima delle collocado nao Ih'as aceitaria, 
poe seu apparelho em movimento pela melhor maneira 
que pude ; e quando se da uma troca das tao frequentes por 
hem do servigo , cede o logar ao seu successor , depois de 
um pequeno inventario do material, e sem , algumas vezes, 
Ihe confiar as observagoes technicas , que pude collier. Os